O Deserto (Ou: Cinema Negro)


Antonioni enganou-se: era para se ter tornado em devorador da morte, ao mesmo tempo que os seus filmes nisso se transformavam. Ou não. Talvez ele tivesse acabado consigo mesmo quando sujeitou à erosão mais dispersiva as imagens do deserto de Death Valley. Não satisfeito com a explosão de uma vivenda de luxo, tinha ainda feito inçar de amantes e amores as dunas embriagadas do ponto de Zabriskie.
(Anabela, fáfavor de deixar a correr aqui ao ladinho uma guitarrada de Jerry Garcia, qualquer uma das muitas que se ouvem neste filme. Agradecida.)


oh... (bolas!!) :-(

addio, signore antonioni.


(consigo aprendi a solidão. cineasta da incomunicabilidade? não: entendemo-nos tão bem, sr. antonioni. nessa solidão que é a de cada qual.)

(tanto que me deu. tanto. de tudo, difícil escolher. este, porventura. poesia feita vento nas árvores. o senhor sabia tanto, sr. antonioni. sabia tanto...)


Blow-Up, 1966

10 anos... já!!

Centro de Ciência Viva do Algarve.

Colaborámos diversas vezes.

Com todo o prazer, também nestas comemorações do 10º aniversário.

Sempre às 21h, sempre de entrada livre, sempre no Jardim do Centro de Ciência Viva.


Os filmes são muitA bons. Ficam os trailers:

Dia 3, GENESIS, de Claude Nuridsany e Marie Pérennou.

Dia 4, KOYAANISQATSI - LIFE OUT OF BALANCE, de Godfrey Reggio.

Dia 5, UMA VERDADE INCONVENIENTE, de Davis Guggenheim, com Al Gore.


(mais informações daqui a pouco no nosso site)

Morreu o Bergman? Viva o Bergman!



Morreu. Com ele, morreu um bocado da Suécia, um bocado bom. Com ele, viverá sempre um bom bocado do melhor Cinema que por aí se fez e um dos melhores bocados da magia do claro-escuro cinéfilo, já para não falar do claro-escuro da magia das almas e das personalidades. Adeus Bergman! Que vivas Bergman!

Chorar um morto

(Fonte da foto: Lamento funebre artificiale. Pisticci (Lucania) in Ernesto de Martino, Morte e pianto rituale, Bollati Boringhieri Torino 2000)

Leio Ernesto de Martino no dia da morte de Ingmar Bergman: "Entre as mulheres do campo na região da Lucânia, os riscos psíquicos da crise atingem tal amplitude e gravidade que conferem ao luto um sinistro poder de desmembramento e loucura." A gravidade e a amplitude do luto por Bergman serão gigantescas - mas em silêncio e só um sopro de movimento e luz. Numa sala obscurecida.

oh...



farewell, mister bergman.

how can we ever thank you for your films?

showing them, discussing them, loving them?

that's a deal, mister bergman. it always was, here at the faro cineclub*.

so long, rest in peace.



(fica este [oportuno...] link, simplesmente porque o video correspondente não apresenta embed code)

* clicar aqui, e escrever Bergman no Campo "Realizador" (mesmo assim, a lista está incompleta)

já agora, livros de e/ou sobre que temos na nossa biblioteca (escrever Bergman no campo "Nome do Realizador")

e, por último (também uma lista incompleta), os filmes que temos em vhs/dvd (de novo, escrever Bergman no campo "Realizador")


[explicação extra: estas listas estão incompletas porque a actualização das bases de dados é um serviço que pagamos à parte ao nosso webmaster, e dinheiro é algo que - DEFINITIVAMENTE!! - não abunda por estas bandas]

Mais postais de NY

OK, eu não tenho (pelo menos até agora...) histórias em bares de NY, mas aqui fica mais um diário de bordo da preparação deste filme, que se calhar ainda acaba por não ser filme nenhum, ficando-se apenas por estes "diários", mas estou a divertir-me, e é o que interessa. :)
(reparem como me mantive fiel ao espírito que defendia para blog e não coloquei aqui uma janela ostensiva com as minhas fuças...)
Até ao próximo!

Happy hour

À falta de copos de três e de velhotes de tasca com quem comentar a compra do Derlei (quem??) pelo Sporting, ganhei o (péssimo) hábito de me sentar sozinha ao balcão dos bares nova iorquinos durante a happy hour. Uma coisa degradantíssima, nem vos conto.
Era o West side, a rua era a Bleecker, a bebida, margarita, a hora imprópria (para parâmetros americanos era sim imprópria, umas oito à vontade), e eu feita Carrie Bradshaw num dia mau ao balcão de um bar mais ou menos.
Anyway, to cut to the chase, um rapaz pergunta se pode sentar-se no banco ao lado do meu. Boy, can you??, digo eu, certa de que ele não perceberia porque, a) a música estava alta; b) para disfarçar o meu contentamento, tinha feito o habitual ar de couldn't care less à Lauren Bacall, o que, em mim, resulta sempre em algo como Maria von Trapp meet Dory do Finding Nemo mas que nem por isso deixa de servir o seu propósito, ou seja, desconcertar o próximo. Adiante.
O rapaz, parece, é filmmaker. É o que diz aqui no cartão que me deu, e foi como filmmaker que se apresentou. Assim mesmo, Robert --, mão esticada para receber um passou-bem e entregar ao mesmo tempo, com uma flexibilidade que me estonteou, ou seriam as margaritas, o seu business card. Eu deixei de parte a Lauren Bacall, ou a Julie Andrews, tanto faz (a Ellen DeGeneres já tinha deixado muito antes) e, no meu melhor ar de Pauline Kael, respondi, Marina --, film critic.
O cartão de apresentação voou das minhas mãos e voltou para a carteira dele (como o tenho de novo comigo é o MacGuffin desta história, agora vão ter de ler até ao fim). Vi depois no olhar dele que pensava e reconsiderava, a tipa se calhar escreve para os Cahiers ou algo assim estrangeiro, é melhor pensar e reconsiderar. Então fez o pitch do filme. E devolveu-me o cartão. Também me ofereceu uma cerveja. Eram já perto das oito e meia da noite, a sede impunha-se, a vida de um crítico não é fácil.
Às nove estava em casa. Na televisão, o jogo dos All Star no estádio dos Giants em San Francisco. A alternativa era sentar-me à máquina (sempre quis dizer isto) e rememorar o meu dia na cidade.
É, de facto, a cidade perfeita para se ser filmmaker. Ou film critic. Ou nem uma coisa nem outra mas acreditar que sim. Sobretudo acreditar.
Bebamos a isso.

Notícias do Artur (a.k.a. Art, ou ainda A) :)

O Artur Ribeiro foi ribeirar para as bandas de Manhattan. Além de matar saudades da baixa nova-iorquina e de se inflamar com os cenários woodyallenianos, manda-nos umas amostras do que é um diário das ideias para um filme. Que se há-de chamar Seeing Voices. Tomo I e Tomo II (ou "Dia 0" e "Dia 1").

Deadman- Realização Jim Jarmusch- Música Neil Young


Nascido a 22 de Junho de 1953 no Ohio, Jim Jarmusch constituíu-se, nos anos 80, como principal rosto do "cinema independente americano", depois muito copiado e muito imitado. Aluno de Nicholas Ray e de Laslo Benedek na escola de cinema de Nova Iorque, uma das forças do cinema de Jim Jarmusch reside justamente no balanço perfeito entre "classicismo" e "modernidade", tanto no modo de fazer como nos universos e referências convocados.
Dead Man é a história da viagem, física e espiritual, de um jovem a um território que lhe é pouco familiar. William Blake viaja para o Oeste americano, algures na segunda metade do século XIX. Perdido e ferido, encontra-se com um índio solitário e excêntrico, chamado “nobody”, que acredita que Blake é o falecido poeta inglês com o mesmo nome.
Nobody e William Blake passam por situações cómicas e violentas. Contrariamente à sua natureza, as circunstâncias transformam Blake num fora-da-lei perseguido, num assassino e num homem cuja integridade física vai ficando em risco. Atirado para um mundo que se revela cruel e caótico, os seus olhos abrem-se para a fragilidade que define a esfera da vida.
Com a magistral banda sonora de Neil Young acho que o filme ganhou outra dimensão , por isso
se quiserem talvez pela primeira vez visionarem o videoclip do filme deixo-vos aqui o link.
A banda sonora é genial se alguém desejar adquiri-la é só dizerem pois tenho-a.

“Eraserhead – No Céu Tudo é Perfeito” é a porta principal para entrar no mundo do realizador americano que herdou as vanguardas cinematográficas europeias. Primeira longa-metragem de David Lynch, datada de 1977, apresenta-se como um clássico do cinema de autor.
A propósito da mais recente exibição do novo filme de david lynch "INLAND EMPIRE",
achei relevante este post , visto ter sido este o primeiro filme de lynch, embora ele já tivesse feito algumas curtas anteriormente.
Reuni alguns frames do filme e fiz uma pequena brincadeira , uma singela homenagem a este
grande realizador e ao seu filme.

pra ouvir aos gritos. let's jump!

(ao lado: cineclubando: bregovic the great)

sugestão do miguel. em recente comentário ao post 'from her to eternity'



(simple men, hal hartley; ???, sonic youth)

(alguém arranja em formato audio? e manda por mail? pra vir a figurar no 'cineclubando' ali ao lado?)

actualização de uma polémica 'antiga'

recebemos hoje o seguinte comentário de 'Pedro' ao post 'esclarecimentos :)))))'.

passado um mês, o que pelo menos prova a vitalidade e importância da discussão que ele motivou. :-)

pareceu-me uma perspectiva importante demais para ficar soterrada numa caixa de comentários que entretanto já estava 'caduca' (só no arquivo)

"Pessoal
desculpe-me a intromissão, mas achei que poderia se oportuno. Não vamos aqui nem Defender Deleuze, nem condenar Deleuze. Deleuze não é o que importa aqui. Ele nem é a " última coca-cola gelada do planeta em dia de calor" mas é um dos mais criativos pensadores contemporâneos. Minha mãe nunca leu Deleuze e nem por isso deixa de ser feliz. Talvez nunca precise de Deleuze. Deleuze é como uma caixa de ferramentas. Quem já tem suas ferramentas não há o que procurar em Deleuze. Ele mesmo falava que o que importa em uma teoria é que faça a mesma funcionar. Quem encontra o que fazer com Deleuze, que faça e faça bem feito. Os demais que não usem. Agora também fazer críticas baratas a um pensador importante não é uma postura das mais interessantes. É melhor dizer que não conseguiu ver o que fazer com suas teorias do que se colocar num pedestal e sair atirando em algo que talvez sequer entendeu.
Fraternalmente."

bem vindo, 'Pedro'!

Peixes e cães (ou, Lynch, mais uma vez)

David Lynch começou a mexer em imagens como pintor. Um dia, frente a um quadro que preparava na Academia de Artes da Pensilvânia, "sentiu o assobio do vento e viu as plantas, na tela em movimento."* Foi como se achou a imaginar se os filmes não seriam uma maneira de dar movimento aos quadros. Ora, essa fixação na imagem pictórica movimentada, e não tanto com uma preocupação narrativa em primeiro plano, ajuda a entender o seu aparente menosprezo pelo fio das intrigas. É como o cão mais irado (beugh!, que estranho fica assim o "angriest") do mundo. De tira para tira, os quatro quadradinhos não se alteram. A história, aparentemente, mantém-se. Ou a imagem. Ou a linha narrativa. Só muda o discurso, aquilo que enforma a ideia. (A mim ninguém me tira que este cão, rei do absurdo, só pode ser a segunda vida do canito do vizinho de Meursault em Argel, n'O Estrangeiro de Camus. Sarnento, enraivecido de velho, dia após dia pontapeado até que, uma bela tarde de passeio, roubado ou fugido, se decide que não regressará ao dono.)
(*Em Catching the Big Fish: Meditation, Consciousness, and Creativity, onde explica as suas motivações criativas e conta este episódio, Lynch diz que não estava sob o efeito de drogas.)

New York, New York


A caminho de New York onde vou dar o gosto ao dedo e filmar qualquer coisa em vez de andar às voltas com os teóricos...

Tentarei ir enviando algumas notícias...

Tentarei não ter saudades do arroz de lingeirão da Taska...

Tentarei não esquecer o português...

Incompreensível Lynch

Porque é David Lynch um autor (entre outros, claro) tão mal-amado? Para se ser um autor de culto, como sem dúvida é, tem de se manter longe das aclamações institucionais?
Inland Empire é uma obra belíssima. Uma vez mais, depois de Mulholland Drive, depois de Lost Highway, de Laura Palmer, depois de Blue Velvet, Eraserhead, nem sei mais quantos nem quais, volta a pisar os riscos de uma terra entre o aqui e o nunca - entre o que escapa à compreensão de instrumentos não mais do que cartesianos, racionais; e aquelas zonas de sombra que a razão, certeira, nem sempre conhece. Desta vez, perdeu-se no rosto de Laura Dern. Confundiu nele os rostos das mulheres confusas que habitam Santa Monica Boulevard, que calcorreiam as confusas ruas de uma cidade de anjos - todos eles desertores de um combate, sem que se perceba se fugiram dali ou se foi ali que se refugiaram. Confundiu num rosto muitos, assim como muitas estradas numa só. E num rosto único contou pedaços de histórias de mil rostos, atravessados pela aura dos anjos que ainda não sabem se já se deu o choque com o chão ou se ainda pairam, sem peso e de olhos carregados, sobre as lixeiras imensas dos mundos de ilusões.

100 melhores filmes de sempre

Recentemente o American Film Institute elaborou uma lista dos 100 melhores filmes de sempre da historia do cinema americano, e eis que surge a lista alternativa a combater o determinismo instituinte do American Film Institute. Fica a título de curiosidade o link que vale a pena visitar

http://throughablogdarkly.blogspot.com/2007/06/films-that-afi-forgot-twice.html

The ladies man


Quando os franceses, mais precisamente Truffaut, lançam a famosa "política do autor", onde tentam separar o joio do trigo no que dizia respeito ao cinema clássico, deixaram escapar este grande realizador, que para mim fica muito bem ao lado de outros nomes, tão mais reconhecidos, como Billy Wilder ou John Ford. Talvez por só ter feito comédias, um género menos respeitado, em certo sentido, Lewis nunca foi considerado um génio pela grande maioria da crítica. Seu filme de 1961, The Ladies Man, é talvez a obra surrealista mais bem realizada fora do âmbito do movimento. Aliás os surrealistas, que adoravam o cinema e viam nele uma arma eficaz para revolucionar a arte, não realizaram muita coisa. Mesmo Buñuel, que permaneceu surrealista toda a vida, saiu do clube do Breton ainda na altura dos seus primeiros filmes. Dalí acreditava que o que tornava um filme surrealista era o tipo de visionamento - todo e qualquer filme que fosse visto seguindo os preceitos do seu método, a paranóia crítica, converter-se-ia numa obra absolutamente surreal. E todos eles adoravam os cómicos dos anos 20. Animal Crackers, dos Irmãs Marx, era uma obra-prima! E, para mim, o filme de Lewis de que falo aqui, também o é. Um dos grandes problemas dos filmes que "tentaram" ser surrealistas foi o de "esquecerem" um dos princípios fundamentais do movimento: o maravilhoso não surge das sombras da noite, quando dormimos. Mas convive connosco à luz do dia. Não há separação entre o mundo do possível e o do impossível. O sonho frequenta a sala de jantar, não apenas o quarto de dormir. Quem não viu o filme, e gosta de cinema, tem obrigação de fazê-lo porque está tudo lá: desde o metacinema (a cena com George Raft é impagável!); passando pelas delícias do absurdo temperado com pitadas freudianas (um leão que vive numa casa só de mulheres, ideia actualizada por Almódovar em Entretinieblas, onde um tigre vivia num convento) até à convivência pacífica com a televisão, que começava a se tornar uma grande concorrente do cinema. Se não podia vencê-la, não a ignorava, trazia-a para dentro do filme e desmascarava os seus procedimentos. Ando a rever quase tudo dele que saiu em DVD e confesso que cada dia encontro mais motivos para elevá-lo ao meu patamar de realizadores de eleição.

"I think cinema is the only art that operates within the concept of temporality. Not because of its developing in time; there are also other art forms that do so: ballet, music, theatre. I mean `time' in he literal sense of the word. What is a take, from the moment we say `action' till the moment we say `stop'? It is the fixing of reality, the essence of time, a way of preserving time which allow to roll and unroll it forever. No other form of art can do that. Therefore, cinema is a mosaic made of time."
Andrei Tarkovsky

Não esquecer!


Amanhã, em duas sessões, o CCF passa o filme de Regina Pessoa, História Trágica com Final Feliz (complementado por uma longa-metragem, Inland Empire, de David Lynch). Será às 18h e às 21h30. O filme tem sido muito premiado e, quanto a mim, cada um dos prémios que recebeu foi merecidíssimo. Não percam - é uma experiência que vale mesmo a pena, pela técnica utilizada na animação, pela história que se conta, pela beleza dos desenhos e pela voz magnífica da narradora (seja na versão portuguesa, a Manuela Azevedo dos Clã, seja na versão inglesa, a Elina Löwensohn, mítica actriz de Hal Hartley).
(Será a quarta vez que o vejo e mal posso esperar.)


(Imagens: Ciclope Filmes)

put the blame on... cineclubando!

Listas de filmes

A propósito do comentário do F. umas mensagens abaixo (obrigada!), lembrei-me de como podem ser importantes essas listas. Reparem: se servirem apenas para "trocar cromos", para dizer "já vi este, tenho este, queria ter este", não se vai muito mais longe. Qualquer lista é, claro, muito discutível. Porém, num espaço como o de um blogue de um Cineclube, as listas podem ser mesmo muito úteis. Se a sua discussão levar a que o Cineclube saiba de filmes que ainda não constam da sua filmoteca (em digital ou em fita), servirá para sabermos quais poderão ser adquiridos (assim haja dinheirito...). É que, quantos mais filmes estiverem disponíveis na dita filmoteca, mais hipóteses têm os nossos sócios (e a comunidade em geral) de os ver e de repensar as sempre pessoalíssimas listas. Ou não? Para já, relembro que na página web do CCF se encontra uma base de dados de filmes em DVD e em VHS, pesquisável por realizador, título original ou em português, ano de exibição e origem.
(possa, ficou toda a gente em suspenso à espera do meu post?? caramba que até estou a ficar nervosa! e hoje vou ao doc's kingdom, também não posso...)

nova musiquinha a tocar ao lado

(sugestão algures numa caixa de comentários abaixo)

(2 fotos tom waits - justificação: comentário do rf)

(sou tão bem mandadinha que até me espanto a mim mesma)



(qualifiquem a combinação. eu escuso-me :-)

E Deus criou a mulher...


Juliete Hardy: That's my favorite song!
Antoine Tardieu: It's the first time I ever heard it.
Juliete Hardy: Me too.

Se o cinema de Hollywood imortalizou as femme fatale, Vadin criou...Brigitte Bardot. Uma espécie de Eva recém-expulsa do paraíso. O que havia de artificial nas fêmeas do cinema clássico, é substiuido aqui por uma naturalidade quase agressiva. Os cabelos cuidadosamente desarrumados, o rosto aparentemente nu, sem disfarces, o ar selvagem da Bardot. É interessante que cada uma delas revela muito mais do cinema que representam do que se possa imaginar. E que hoje, passados uns quantos anos sobre o assunto, ainda podemos pensar nas diferenças. E na falta que faz ao ecrã tanto as Hayworth, como as Bardot. (Confesso que o glamour me fascina, mas isto é tema para outro post).

Momento cine-umbilical (ou uma das minhas experiências épico-hípicas)


"Western"
(para a Mirian)

Olha para a janela - o que faz um cavalo no meio do quarto de um palacete vazio?

George Stubbs desenhou cavalos. Autopsiava-os, ele e a mulher; depois pintava o desenho dos membros, da silhueta, do pêlo, dos olhos. Fixava os olhos.

O cinema começa no cavalo. Num momento do galope, as quatro patas soltam-se do chão. Eleva-se o cavalo, o corpo rijo e pesado. A imagem fixa o peso no ar.

Com o deserto por detrás, as montanhas de topos brancos, o desenho do dorso recorta outro movimento. O cavalo conduz a morte - aos homens de coldre, aos homens de rostos pintados - conduz à morte despejada na nuvem de pó, escangalhado na queda e na vertigem da nuvem. O olhar do cavalo não se move.

Soundtracks - From Her to Eternity

(post a pedido)
No seguimento da "Nouvelle Vague", esta vem a propósito do texto da miriam lá em baixo e do desafio lançado pela marina, para além do filme e da música, brilhantes claro. pena que o video não inclua o fabuloso diálogo que se segue no bar do hotel entre o Bruno Ganz e a Solveig Dommartin...

ps-tb n sou dos maiores fãs d youtubes grandões e pesadões nos blogs, mas acho k fazem sentido neste caso, desde k n abusemos...

Put the blame on me


Gilda: I can never get a zipper to close. Maybe that stands for something, what do you think?



A Laura Mulvey que me perdoe, mas o que teria sido do cinema clássico sem as femme fatale? Outro dia estava a folhear uma espécie de guia de leitura do cinema, feito para se utilizar em escolas, e nele, de forma esquemática, aparecia um quadro que descrevia como a mulher era representada no cinema hollywoodiano: dona de casa, mãe ou femme fatale. Havia mais dois ou três rótulos, dos quais não me recordo. De qualquer forma, caíam todos na dicotómica fórmula: mulheres boas e mulheres más. É claro que o cinema clássico, demasiadas vezes, reproduziu ideias e valores que representavam o que havia de mais conservador na cultura. O que deu azo as leituras das Mulveys e companhia, que acusam este cinema de sexista. E o Hitchcock de tarado (o que não está longe da verdade! Mas que não o invalida como génio!!!). Hoje em dia questiono até que ponto houve um cinema clássico, no pior sentido do termo, quando penso em uns quantos realizadores e mesmo géneros, que pervertiam o sistema o tempo inteiro. E não falo apenas daqueles que a política do autor consagrou. Muitos mais, que eram considerados apenas realizadores competentes, cuja obra ainda necessita de uma revitalizadora exegese. O cinema noir, que funciona quase como um metagénero, instala, confortavelmente, a perversão e o mal no seio das boas famílias. Nas sombras, tudo é permitido. Are you the shadow? No, I'm lost. E das sombras surge Gilda. Um dos mais sensuais strip teases de toda a história é protagonizado pela Hayworth quando tira…uma luva. Diz-se que um das principais armas de sedução do cinema é a pulsão escópica que nos move a todos. A relação, na pulsão escópica, repousa na ausência do objecto percebido, daí o carácter imaginário do seu significante, que se torna uma miragem perceptiva. Apesar dos excessos cometidos, um dos grandes achados da teoria feminista do cinema foi a leitura da imagem da femme fatale a partir da tensão entre o fluxo narrativo e o close up e, consequentemente, o seu papel na erotização do rosto feminino. O rosto, destacado do fluxo narrativo, provoca stasis e cria uma retórica do não-movimento, uma pequena morte, um instante de prazer. Que justifica o impulso à escopofilia e reitera o ponto de vista marcadamente masculino deste tipo de cinema. A femme fatale revela e oculta. Seu rosto, despido no ecrã, ainda esconde segredos. Segredos que irão aguçar o desejo do desvelamento, imbricação de epistemofilia com escopofilia: desejo de conhecer e de ver, mas ao mesmo tempo reconhecer que o visível não está ao alcance da mão, mas está ou esteve ali. Porque é antes de mais nada fotografia em movimento, com carácter ontológico que nos relembra uma presença, agora ausente. O isso foi do Barthes. Na foto, como no filme, a presença fica impressa pela luz, no fotograma. E esta presença emana provocando o desejo. E é do desejo que falamos, quando falamos de mulheres como Gilda.


e eis senão quando uma sugestão dá um belo de um post!

sugestão do miguel na caixa de comentários a 'mais um tema em cineclubando':

acho fantástico o facto de a banda se chamar Nouvelle Vague e o filme utilizado ser um grande emblema do grande movimento cinematográfico (nouvelle vague)

o filme é 'bande à part', jean-luc godard, 1964. a música original é dos Lords of the New Church, interpretada pelos Nouvelle Vague no seu álbum Bande à part, 2006.

Do inefável ;-)

(Infelizmente não encontro o original do poema abaixo, de autoria de Buñuel. Vai a tradução do Cesariny. Buñuel, antes de se tornar realizador, foi poeta. Não deixou de sê-lo, é claro, mas estava na altura por circunstâncias várias, limitado a poetar no papel. Un chien andalou era o nome do livro que ele nunca publicou. Depois, cai nos braços do cinema, que já o esperava aflito! Ainda bem para nós - iconófilos de carteirinha!)

O ARCO-ÍRIS E A CATAPLASMA

Quantos maristas cabem numa passadeira?
Quatro ou cinco?
Quantas colcheias tem um tenório?
1.230.424.
Estas perguntas são fáceis.

Uma tecla é um piolho?
Vou constipar-me para os braços da minha amante?
Excomungará o Papa as embaraçadas?
Sabe um polícia cantar?
Os hipopótamos são felizes?
Os pederastas são marinheiros?
Estas perguntas - também são fáceis?

Dentro de instantes virão pela rua
duas salivas de mão
conduzindo um colégio de surdo-mudos,

Seria indelicado vomitar-lhes um piano
desde a minha janela?

mais um tema em 'cineclubando'

sugestão da marina.

(é para ver se se sentem espicaçados e também nos enviam as vossas sugestões de músicas para cinema / usadas no cinema...)

O passeio de Buster Keaton ou a poesia e o cinema

Em Julho de 1925 Lorca escreve uma peça, em um acto, que se chama El paseo de Buster Keaton. Alguns exegetas do poeta defendem que este texto surge como uma resposta a uma collage enviada por Dalí, no mesmo ano, intitulada El casamiento de Buster Keaton. O pintor parecia querer evidenciar, com este trabalho, a distância entre a arte e a vida: o Keaton personagem, que ambos admiravam, não era o mesmo Keaton que casava com uma famosa actriz da altura. Lorca escreve um dos primeiros textos onde deixa vir à tona o seu desespero e as suas dores de um desejo insatisfeito e não-resolvido, sequer assumido pelo poeta então. Neste texto, vida e arte se (con) fundem de uma maneira bastante intensa e prenhe de um surrealismo avant la lettre na obra deste cão andaluz. É interessante que a escrita lorquiana seja uma escrita poética, mesmo quando de poesia não se trata, e que a sua poesia, profundamente imagética, seja construída, em muito momentos, como se fora um guião. A influência do cinema na obra dos poetas da Geração de 27 espanhola, da qual Lorca é um dos principais membros, tem sido estudada e ainda há muito que se lhe diga. Transcrevo aqui um bocado do texto de Lorca, que mais do que uma peça de teatro, parece um guião, a sua câmara-caneta cria imagens poéticas que tentam, talvez, demonstrar que Dalí estava errado. Só há, para Lorca, um Keaton, de olhos infinitos e tristes como os de uma besta recém-nascida, que o cinema eternizou em gros-plan.

El Paseo de Buster Keaton (Lorca, 1925)
(Sale Buster Keaton con sus cuatro hijos de la mano.)
BUSTER K. ¡Pobres hijitos míos!
(Saca un puñal de madera y los mata.)
GALLO. Quiquiriquí.
BUSTER K. (Contando los cuerpos en tierra.) Uno, dos, tres y cuatro.
(Coge una bicicleta y se va.
Entre las viejas llantas de goma y bidones de gasolina,
un negro come su sombrero de paja.)
BUSTER K. ¡Qué hermosa tarde!
(Un loro revolotea en el cielo neutro.)
(…)
BUSTER K. Es emocionante. (Pausa.)
(Buster Keaton cruza inefable los juncos y el campillo de centeno.
El paisaje se achica entre las ruedas de la máquina. La bicicleta
tiene una sola dimensión. Puede entrar en los libros y tenderse en
el horno de pan. La bicicleta de Buster Keaton no tiene el sillón de
caramelo, ni los pedales de azúcar, como quisieran los hombres
malos. Es una bicicleta como todas, pero la única empapada de
inocencia. Adán y Eva correrían asustados si vieran un vaso lleno
de agua, y acariciarían en cambio la bicicleta de Keaton.)
(…)
BUSTER K. (Levantándose.) No quiero decir nada. ¿Qué voy a decir?
UNA VOZ. Tonto.
BUSTER K. Bueno. (Sigue andando.)
(Sus ojos infinitos y tristes como los de una bestia recién nacida,
sueñan lirios, ángeles y cinturones de seda.
Sus ojos que son de culo de vaso. Sus ojos de niño tonto. Que son
feísimos. Que son bellísimos. Sus ojos de avestruz. Sus ojos humanos
en el equilibrio seguro de la melancolía.
A lo lejos se ve Filadelfia.
Los habitantes de esta urbe ya saben que el
viejo poema de la máquina Singer puede circular entre las grandes
rosas de los invernaderos, aunque no podrán comprender nunca
qué sutílisima diferencia poética existe entre una taza de té caliente
y otra taza de té frío.
A lo lejos, brilla Filadelfia.)
BUSTER K. Esto es un jardín.
(Una Americana con los ojos de celuloide viene por la hierba.)
AMERICANA. Buenas tardes.
(Buster Keaton sonríe y mira en gros plan los zapatos de la dama.
¡Oh qué zapatos! No debemos admitir esos zapatos. Se necesitan
las pieles de tres cocodrilos para hacerlos.)
(…)
BUSTER K. (Suspirando.) Quisiera ser un cisne. Pero no puedo aunque quisiera. Porque
¿dónde dejaría mi sombrero? ¿dónde mi cuello de pajaritas y mi corbata de moaré?
¡Qué desgracia!
(Una Joven, cintura de avispa y alto cucuné, viene montada en
bicicleta. Tiene cabeza de ruiseñor.)
JOVEN. ¿A quién tengo el honor de saludar?
BUSTER K. (Con una reverencia.) A Buster Keaton.
(La joven se desmaya y cae de la bicicleta. Sus piernas a listas
tiemblan en el césped como dos cebras agonizantes. Un gramófono
decía en mil espectáculos a la vez: «En América, no hay
ruiseñores».)
BUSTER K. (Arrodillándose.) Señorita Eleonora, ¡perdóneme que yo no he sido!
¡Señorita! (Bajo.) ¡Señorita! (Más bajo.) ¡Señorita! (La besa.)
(En el horizonte de Filadelfia luce la estrella rutilante de los
policías.)

Teorias

Tenho andado aqui pelas caixas de comentários em algumas "bulhas" intelectuais sobre a utilidade ou não de se ler/estudar os teóricos (Deleuze, etc), sobretudo no âmbito de escolas de cinema que queiram formar criadores/autores (realizadores/argumentistas) e não "teóricos de cinema" ou críticos (daí que pelo menos nas escolas norte-americanas se faça essa louvável distinção entre uma área de "film studies" e outra de "film directing"), e encontrei uma citação no Nietzsche (A Origem da Tragédia) que parece resumir um pouco o que penso igualmente. No excerto em baixo experimentem substituir "poesia" por "cinema", "poeta" por "realizador", e "dramaturgo" por "argumentista" (embora esta última palavra não precisasse de substituição por ser equivalente ou, no caso, podia ser igualmente substituida por "actor").

"Se muitas vezes falamos de poesia em termos tão abstractos é que, de ordinário, todos somos maus poetas. No fundo, o fenómeno estético é simples; so é poeta o homem que possui a faculdade de ver os seres espirituais que vivem e brincam em torno dele; só é dramaturgo o homem que sente o impulso irresistível de se transformar e de falar mediante outros corpos e outras almas."

Os Novíssimos Americanos







Já que se anunciam para Julho os AMIGOS AMERICANOS, quero aqui falar-vos dos meus Novíssimos Amigos Americanos (na cronologia filmográfica - 2005, 2006, 2007 e na idade dos seus autores - quase todos e todas ainda teenagers muito dentro do prazo tentando acabar as high schools de Bronx, Harlem, Queens e Brookling e uma ou outro universitário da Village) que encontrei nesta minha última passagem pela Big Apple para participar numas Overseas Conversations sobre Media Literacy que me deram grande gozo intelectual (tirando uma pega com um professor universitário republicano e mais paralelipípidico do que o tijolo da ONU, ... mas era inevitável, estava mesmo a pedi-las) e maior gozo cinéfilo (já para não falar no jazzístico, até me passei nos lunch com Jazz at the Lincoln Center), sobretudo porque visionei algumas dezenas de filmes/vídeos/ficheiros digitais, what's the difference, produzidos em programas semelhantes ao nosso Juventude-Cinema-Escola, que me encheram as medidas, quer pela frescura e rebeldia ao nível dos conteúdos, que raramente encontramos nos enlatados de fast-cinema-a-la-Hollywood que consumimos em quantidades super size, quer pela extraordinária qualidade técnica bem comprovativa da origem de região demarcada, a envergonhar muito cienasta português bem estabelecido no meio. Dessas pérolas, quase todas candidatas e muitas premiadas no magnífico festival de novíssimo cinema/vídeo, por muitos de nós desconhecido, Reel Teens USA (ainda para mais sabem aonde? em Woodstock, pois claro), destaco as obras apresentadas pela organização/produtora/associação/confraria/refúgio/distribuidora independente Listen Up, de que podem ver aqui alguns exemplos se desactivarem as vossas protecções de controlo ActiveX. Se não conseguirem, eu trouxe comigo alguns DVDs e quem sabe se o CCF não se deita as mãos em obra de algum seminário mais íntimo sobre estes novíssimos amigos americanos, talvez lá mais para a frente, depois da silly season que aí se aprochega já mesmo à esquina do calendário. Tudo isto graças ao excelente trabalho desenvolvido em prol da Literacia dos Media pelos meus já não tão novos amigos Valentí Goméz i Oliver do OETI - Observatório Europeu de Televisão Infantil em Barcelona e Jordi Torrent da Duende Pictures em Nova Iorque.



O Desporto Favorito dos Italianos

O próprio Nanni Moretti o disse, em pessoa, no passado dia 14 de Maio, na apresentação do filme "O Caimão" no cinema Monumental, em Lisboa [na foto de telemóvel]: "Este não é um filme político, é a história de um homem [o produtor, não o Berlusconi, claro] que não se deixa levar pelo desporto preferido dos italianos que é a victimização". O que levou a uma gargalhada cúmplice do público português -- afinal somos muito parecidos.
Interessante contudo analisar a forma como Moretti representa Berlusconi ao longo do filme, nma progressão inédita e surpreendente em termos de escolhas e decisões de como representar uma figura real e actual num filme de ficção: começa com um actor parecido com o original; a meio do segundo acto passa a ser apenas através de imagens de arquivo do próprio Berlusconi (e não volta a apresentar cenas com o actor); e por fim, é o próprio Moretti que o incarna, um volte-face de uma perversidade genial -- com o Moreti a incarnar o seu próprio diabo e a dar voz à sua liturgia "satânica"...

Cinema

O CAIMÃO
Nani Moretti, 2007

Já tinha tentado ir ver este filme numa das minhas obrigatórias idas a Lisboa, mas agora que o tinha aqui à mão no cine-clube de Faro, era imperdível. Pareceu-me que Nani cineasta, quiz mostrar que é possível driblar e ultrapassar o sarrafeiro Berlusconi, cuja história de esperto milionário que chegou a PM se confunde com a actual realidade italiana. Contudo não leva Berlusconi ao tapete porque não desmonta, nem pelo diálogo nem por imagens, os artifícios subterrâneos do poder de compra e arregimentário dum esperto subitamente surgido milionário armado de poderosos meios mediáticos. Também se absteve de mexer no futebol que, lá como cá, é por onde começa o branqueamento do passado e a entrada, imaculada e intocável, em cena na novela de novos-ricos da alta roda.
Também a burlesca história familiar do produtor com os amores pessoais, a desfazerem-se com a mulher e levemente insinuados com a realizadora, contados por peripécias de conduta e atitudes lamechas (salva-se a irresistível invasão do palco quando a mulher cantava Bach no coro), que se pretende seja uma história paralela ao assunto berlusconiano para o reforçar, afinal contribuem para a fragilização da mensagem final do filme.
No fim, o filme que pretende demolir Berlusconi, ou melhor, os métodos berlusconianos de tomada de poder, não atinge de morte o seu objectivo porque utiliza formas e conteúdo semelhantes aos martelados diáriamente na cabeça do público pela televisão e que já se habituou a vê-los como entretenimento. O filme "A Vida é Bela", que a partir de uma história de amor familiar paternal nos convida a repugnar o horror da guerra, acaba por ser mais eficaz politicamente que este Caimão que, no final ainda nos deixa a dúvida, sob ameaça, da legitimidade entre o direito e o eleito.

José Neves

(recebida por mail a proposta de que disponibilizássemos aqui este texto de um nosso sócio publicado no seu blog pessoal. com todo o prazer!)