algo de familiar

PROGRAMAÇÃO _ JANEIRO 2010 _ IPJ _ 21H30


Dia 11
HOME – LAR DOCE LAR, Ursula Meier

Suíça/ França/ Bélgica, 2008, 95’

Primeira longa-metragem para cinema de Ursula Meier. "Home - Lar Doce Lar" é um dos mais insólitos e provocantes filmes franceses dos últimos anos. As primeiras imagens provocam logo uma sensação de estranheza: pai e filho jogam sobre o asfalto do que a seguir percebemos ser uma auto-estrada. Mas não circula um único carro por ali, excepto o dessa família. Por inconformismo ou por outras razões, aquela família afastou-se do mundo, vivendo numa casa que se ergue no fim dessa auto-estrada que foi deixada incompleta. Os três filhos do casal adaptam-se de forma diferente à situação. Mas, se eles procuraram fugir do mundo, este acaba por apanhá-los. Ao fim de algum anos, a auto-estrada é reaberta acabando por formar barreiras intransponíveis, e a vida de todos transforma-se radicalmente. O pode ser visto como um espécie de metáfora do mundo de hoje. Uma obra estranha, fortemente dramática, com um grupo de actores soberbos.
Manuel Cintra Ferreira, Expresso

A pequena casa da pradaria contra a estrada vilã, barulhenta e poluidora: a metáfora é transparente e os confrontos estão bem enredados, mas o melhor de Home está noutro lugar. Como o combate livre por um jovem atleta em Dês Épaules Solides, aqui joga-se primeiro com o interior. Porque o fluxo de carros vai perturbar o equilíbrio desta família. Incapaz de renunciar a sua própria ilha, a família Robinson agarra-se de tal forma ao asfalto, que chega a perder a razão. A mise en scéne conjuga maravilhosamente com a actividade inexorável da narração, a câmara ao ombro e a montagem contrastante nas primeiras sequências criam espaço a uma realização mais estática e comedida. A escala de planos como composição de imagens (uma paisagem, depois uma janela que desenha um quadro dentro de um quadro) a significar o isolamento mortífero das personagens. E a soberba fotografia assinada por Agnés Godard, uma fiel directora de fotografia de Claire Denis, cristalizando a descida até ao inferno: as paisagens iluminadas e as cores fortes ao início sucumbem à negrura insondável da escuridão. Urusula Meier dá uma grande atenção à banda sonora. Barulho de motor e o crepitar não são mais do que ecos de um mundo exterior ruidoso, que se opõe à tranquilidade do ambiente que envolve esta casa.
E a música – de clássica a heavy metal, passando por Django Reinhardt e Dean Martin – assumem um papel dramático essencial neste ecletismo jubiloso. Encontra-se de novo o gosto pela mistura de tons neste filme, do drama ao cómico ou poético, que é feito livrando-se das marcas como as referências cinematográficas – que não impede de pensar em Week-end de Jean-Luc Godard ou o Septième de Michael Haneke. Com este belíssimo filme de autor, com perfeita mestria que é radical sem ser austera, Ursula Meier traz um cunho precioso ao espaço do cinema!

Mathieu Lower, Le Courrier





Dia 18
AS PRAIAS DE AGNÈS, Agnès Varda

França, 2008, 110’

Ei-la, a autobiografia de Agnès Varda, relato da sua vida, em seu nome e feita pelo seu próprio punho. Varda, que se estreou como realizadora há cinquenta e cinco anos, tem agora oitenta e um anos cheios de energia e de memórias. A primeira coisa maravilhosa de "As Praias de Agnès" é a maneira como ela põe a energia ao serviço das memórias, a maneira como o filme mergulha na evocação e na nostalgia sem ficar cativo delas, permanecendo sempre vitalista.
Evidentemente, preservando o direito à emoção - o equilíbrio do filme também se joga assim, naqueles "buracos" por onde subitamente Varda se parece afundar (como numa sequência numa exposição de fotografias em que a realizadora parece ficar esmagada pelas imagens de tantos amigos mortos) para logo a seguir reemergir nalgum "sketch" burlesco (a cena com os escritórios da sua produtora, a Cine-Tamariz, "transplantados" para o meio da rua, por exemplo). Ao mesmo tempo, e se é de "emoção" que se trata, o centramento de "As Praias" na primeira pessoa não impede que o filme - e que "a primeira pessoa" - esteja permanentemente voltada para os outros, numa saudação, melancólica, algumas vezes elegíaca, aos lugares que lhe foram caros, aos amigos e aos amores (especialmente tocante, por todas as razões, o segmento que evoca e, para todos os efeitos, visita Jacques Demy).
Filmar uma vida é filmar um património, não é outro o credo de Agnès Varda. Um património onde cabem, quase num mesmo plano, memórias, objectos, lugares, e ainda "memórias de memórias" ou memórias transformadas em "objectos" - todas as fotografias, todos os excertos dos seus próprios filmes antigos que Varda que vai incluindo. Mais do que o filme de "bricoleuse" que obviamente é, pegando em múltiplos registos e em múltiplos materiais de natureza diferente, "As Praias de Agnès" é um filme de "coleccionadora". O filme em que ela abre as portas do seu museu privado conduzindo o espectador numa visita guiada, por entre peças que valem tanto por si mesmas como pelos fios que as ligam a outras peças. De vez em quando, um "intermezzo" ligeiro, anódino, gratuito, vem pontuar a visita - sem momentos destes, parece dizer Varda, a vida não tinha graça nenhuma. E é preciso guardá-los, talvez porque nunca se saiba quando chega o "corte" derradeiro: o abrupto final de "As Praias" é uma espécie de prenúncio, de despedida discreta, majestosa e enxuta. Mas enquanto não chega o fim da história, celebrem-se as alegrias e as tristezas, os amores perdidos e os amores eternos. Chamem-lhe uma "lição de vida".
Luís Miguel Oliveira, Público





Dia 25
HISTÓRIAS DE CAÇADEIRA, Jeff Nichols

EUA, 2007, 92’

Boa notícia! O jovem cinema independente ainda mexe. Aqui está Shotgun Stories de Jeff Nichols, um jovem do Arkansas que acaba de sair da Universidade de Cinema. Mas para um novato do ano, Nichols já possui um sentido muito seguro do quadro, da narrativa, dos mitos fundadores do seu país e, sobretudo, uma paciência e calma de velho sábio do cinema: este espectacular Shotgun Stories poderia estar assinado por John Ford, um Ford amanhecido do espírito lo-fi dos novos cantadores americanos da country desencantada, tipo Mark Linkous ou Will Oldham (que, lá está, entrava em Old Joy).
Uma banda de White Trash volta a tocar a eterna tragédia dos Atridas, com a imensidão desertada pela justiça, a lei, a civilização, onde os conflitos ainda se retratam a tiros de espingarda. Nichols filma esta história de western com precisão e sobriedade, evitando os efeitos espectaculares, preservando-se tanto da heroificação como da estigmatização das suas personagens, respeitando as razões de cada um e dando o necessário de tempo a tempo.
Um dos irmãos, por exemplo, que rejeita a engrenagem da violência, ocupa a vida a treinar os miúdos no basket ou a arranjar o rádio do carro. Para pegar numa metáfora pictórica, há neste filme um excelente equilíbrio entre o traço (do argumento, da dramaturgia conflitual) e a matéria (a vida que decorre, a relação intensa com o tempo, com a paisagem, com os locais).
Há sobretudo em Nichols uma ausência de ego autorístico, de rapto das personagens ou dos espectadores, uma colocação dele mesmo à disposição do serviço da história, das personagens e dos locais filmados que denota uma espantosa inteligência de cinema, uma confiança renovada nos meios mais despojados desta arte agora velha. Criança do Texas, Nichols escolheu a câmara em vez da carabina e serve-se dela judiciosamente, disparando sobretudo menos rápido que a sua sombra. O seu filme é a primeira e maravilhosa salva de cinema do ano novo. Yeepee, isto recomeça bem.

Serge Kaganski, Les Inrockuptibles

A preguiça tem imperado neste blog. Mas só aqui. Reparem:

Em Maio ficámos sem sala de cinema.


Mas Julho e Agosto tiveram filmes ao ar livre.

Em Setembro ficámos sem máquina de projecção.

Temos estado, e vamos permanecer enquanto convidados, a programar algumas sessões em dvd no Pequeno Auditório do Teatro das Figuras.

Estes últimos meses, contudo, passámo-los a tentar solucionar o problema do equipamento de projecção com o respectivo proprietário - a Delegação Regional do Ministério da Cultura.

O local que inaugurámos com "O Sangue" de Pedro Costa em Maio de 1991, esse, abriu-nos imediatamente as portas assim que demos conta das nossas aflições.

O Auditório do IPJ foi o nosso palco durante muitos e gloriosos anos. Numa sala renovada, agora com um som espectacular, sentimo-nos em casa. Sentimo-nos - de novo - em casa. Para mais muitos e gloriosos anos.

A quem cuidou que estivessemos moribundos, oferecemos com particular empenho esta prenda de Natal. A quem nunca duvidou da nossa capacidade de resistir, esta mesma prenda é oferecida com particular carinho.

A todos vós: esperamo-vos de abraços abertos.



É então assim que decidimos reiniciar - para fechar o ano honrosamente, com um belo programa, antecipando um ano novo que, esperamos MESMO, venha a ser BOM.



DEZEMBRO 2009

INSTITUTO PORTUGUÊS DA JUVENTUDE

Ciclo Eles vivem! (e nós também!!)


11 Dezembro
21h30
A Corte do Norte, João Botelho

Portugal, 2008, 120’

Adaptação possível do livro homónimo de Agustina Bessa-Luís, autora cujo estilo não se molda bem a adaptações cinematográficas, A Corte do Norte preserva a palavra de Agustina mas prescinde do dinamismo narrativo inerente ao cinema no seu estado mais puro, aquele que não está dependente dos vocábulos. Só que, dito isto, que imagens extraordinárias, que palavras impressionantes. Nesta história cruzada de mulheres de várias épocas, o texto de Agustina é muito bem lido, mas, principalmente, as imagens são de uma beleza de cortar a respiração, com enquadramentos rigorosíssimos e uma utilização da rodagem em formato digital para obter imagens que, sem exagero, são verdadeiros quadros em movimento. Ana Moreira é a âncora do filme, em cinco papéis diferentes, cujo eixo é uma jovem actual que tenta registar a vida das suas antepassadas durante o século e meio anterior numa casa da ilha da Madeira. A Corte do Norte não é filme para todos os gostos, mas naquilo a que se propõe, é difícil fazer muito melhor.
Luís Salvado , Timeout

Como sabem, eu era amigo do José Álvaro e admirador sem reservas da sua delicadeza e do seu trabalho. Exímio director de actores, apaixonado por esta arte que nos move, e talvez o único cineasta romântico que existia entre nós.
Deixou-nos cedo e deixou-nos um grande vazio.
Lembro-me das conversas intermináveis sobre os projectos dele, sobre os meus projectos, e sobre as obras que íamos acabando. Lembro-me (e foi há muito mais de 15 anos) da excitação, do entusiasmo com que ele me anunciou o acordo com a escritora Agustina Bessa Luís para adaptar para o cinema A Corte do Norte, o excepcional romance que ela inventou para a Madeira. E lembro-me das 30 páginas sublimes que ele na altura me deu a ler, o seu primeira tratamento de A Corte do Norte.
Em 2005, amigos do José Álvaro, e amigos meus, vieram inquietar-me com um desafio tão difícil como extraordinariamente fascinante. Honrar a sua memória, fazendo um filme digno dele e digno de Agustina.
Li na sua adaptação “impossível”, porque apontava caminhos talvez demasiado dispendiosos e complexos para os dias que corriam, para o dinheiro que poderia haver disponível. Demasiadas épocas e situações num desejo desenfreado de fazer uma saga romântica. Li o romance “impossível” da Agustina, em que algumas incongruências de datas e de nomes e até de acontecimentos não beliscam nada à torrencial saga de uma família excepcional numa ilha fascinante, nem ao deslindar, passo a passo, peça a peça, de um “puzzle” extraordinário. Um romance histórico, um clássico épico sobre a Madeira, e ao mesmo tempo, sobretudo uma investigação surpreendente de um mistério elegante e poderoso, que cega, desgraça ou transforma quem dele se aproxima.
Escolhi para adaptação apenas 4 épocas e 4 gerações, ao longo de 100 anos, e acho que não traio a Agustina nem o José Álvaro ao decidir assim.

João Botelho, Fevereiro de 2009


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12 Dezembro
21h30
Arena, João Salaviza

Portugal, 2009, 15’

A curta-metragem Arena de João Salaviza, a única película portuguesa no Festival de Cannes, venceu hoje a Palma de Ouro, feito inédito no cinema português. A ida pela primeira vez a este festival é já uma vitória, disse o realizador à agência Lusa, porque "mais do que o lado competitivo, Cannes é uma oportunidade para mostrar o filme a imensa gente". "Arena" conta a história de Mauro, um rapaz que está a cumprir uma pena em prisão domiciliária e que enfrenta o dilema de transgredir a lei para acertar contas com um grupo de miúdos marginais. Arena é um filme sobre violência urbana e juvenil, sobre bairros problemáticos que são verdadeiras "bombas-relógio".

Morrer como um Homem, João Pedro Rodrigues
Portugal, 2009, 133’

Há algo copiosamente fascinante no cinema de João Pedro Rodrigues. Doze anos volvidos sobre a curta-metragem "Parabéns" (com que espanto a descoberta, em 1997, no Festival de Veneza!) e após "O Fantasma" (2000) e "Odete" (2005), há uma coisa que já tomamos como certa a temática gay -, mas subsiste, aprofunda-se, ganha peso e emoção o efeito-surpresa que cada novo filme traz consigo. É como se João Pedro Rodrigues não quisesse sair do mesmo território, mas recusasse percorrê-lo com navegador de bordo ou coordenadas conhecidas. Cada viagem é um mergulho, pode-se mesmo dizer que cada vez mais profundo, à polifacética humanidade que o ocupa. Desta vez é a história de Tónia, um travesti que não se limita a vestir-se de mulher no bar onde é profissional do espectáculo, mas transporta essa transformação para a vida quotidiana. "Morrer como Um Homem" é um melodrama de que Sirk havia de gostar, fotografado por Rui Poças com a mestria de quem afeiçoa luz e cor, onde se questiona, com preciosa coragem, o balouço entre o varonil e o feminil, aceitando a verdade e escorraçando todos os mundos virtuais. E, cem anos que viva, a sequência do cemitério não a hei-de esquecer mais.
Jorge Leitão Ramos, Expresso

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13 Dezembro
18h00
Um Amor de Perdição, Mário Barroso

Portugal, 2008, 81’

Porquê Amor de Perdição, depois das adaptações de Georges Pallu (1921), António Lopes Ribeiro (1943) e, sobretudo, depois do inesquecível e marcante filme de Manoel de Oliveira (1978)?”, pergunta Mário Barroso na sua nota de intenções ao seu Amor de Perdição, que realizou. Porque, entre outras coisas, entende-se da nota de Barroso, este Amor de Perdição, não é tanto a história de amor (contrariedade) entre as personagens de Teresa e Simão, com conflito burguês em fundo, é mais uma história de destruição de um herói, Simão Botelho, que o realizador compara a Adele H, a filha de Victor Hugo, aos protagonistas de Elephant aos “kamikazes” do Iraque, a Jim Morrison, Sid Vicious ou Kurt Cobain – é doido como eles. “O ‘nosso’ ‘Amor de Perdição’ será, essencialmente, Simão Botelho, adolescente quase criança, solitário, intransigente narcisista, suicidário, destrutivo e auto-destrutivo que atrai ‘como uma auro fatal, uma luz negra, a maior parte das pessoas com quem se cruza’.
Ípsilon, Público

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19 Dezembro
21h30
Deus Não Quis, António Ferreira

Portugal, 2007, 15’

Conquistou o "Prémio de Melhor Montagem" no Festival de Cinema Europeu GRAND OF, na Polónia, e "Prémio de Melhor Banda Sonora" no Ovarvídeo. Com estas distinções, ascende a 13 os prémios conquistados por este filme Português, que conta já com selecções em mais de 20 festivais nos cinco continentes. A premissa simples é muito bem trabalhada por António Ferreira. Em 15 minutos se conta uma história, bem conseguida do ponto de vista formal, e que tem a particularidade de respirar a nossa portugalidade.

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O Sangue, Pedro Costa
Portugal, 1989, 98’
O Sangue é de um esplendor absoluto, uma obra de estreia de uma beleza de cortar a respiração. O Sangue é mais que uma obra-prima instantânea, um golpe de mestre ou a revelação de um jovem cineasta português. O Sangue faz parte desses primeiros filmes, muito raros (“La Nuit du chasseur, Les Amants de la nuit, Badlands, Lola, Shadows, Adieu Philippine, L’Enfance nue, Accatone…) que podemos classificar como milagrosos, cuja ambição é tão grande e os elementos difíceis de manipular que parecem ir direitos à catástrofe certa, até que nos apercebemos deslumbrados que saíram indemnes de todas as provas, que o que não os matou os tornou mais fortes, mais belos, mais essenciais. O SANGUE é um baptismo de fogo em forma de apoteose.
Fréderic Bonnaud, Les Inrockuptibles

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20 Dezembro
18h00
Singularidades de uma Rapariga Loira, Manoel de Oliveira

Portugal/França/Espanha, 2009, 63’

Singularidades de uma Rapariga Loura é o filme do centenário. E o centenário que comemora é o do próprio realizador, Manoel de Oliveira, que aos 100 anos de vida mostra uma juventude de espírito e uma energia produtiva de fazer inveja a muitos jovens. O seu mais recente filme (mas outro já está na forja!) adapta um conhecido conto de Eça de Queirós, uma história repleta da ironia do mestre do realismo literário português que é também uma subtil sátira aos costumes e convenções de uma burguesia medíocre e convencida. Oliveira, igualmente responsável pelo argumento, 'actualiza' a história de Eça, tal como fizera com A Princesa de Clèves, de Madame de La Fayette, em A Carta. Em ambos os casos, o que o autor procura é mostrar a permanência de regras, convenções e preconceitos que ditam as relações sociais e românticas ao longo dos tempos. Singularidades de Uma Rapariga Loura é exemplo de um cinema 'puro' há tanto tempo ausente e que tanta falta faz.
Manuel Cintra Ferreira, Expresso


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e já agora: FELIZ NATAL E BOM ANO NOVO!!

GOODNIGHT IRENE

O importante é a viagem

Em determinado momento de Goodnight Irene (Goodnight Irene, Portugal, 2008), o ator aposentado Alex (Robert Pugh), doente e manco, é levado pela bela pintora Irene (Rita Loureiro) a subir uma longa escadaria. Mais adiante no filme, depois que Irene já está desaparecida, ele aparece subindo a mesma escadaria sozinho. A dificuldade parece - e é - muito maior. A simetria das duas cenas diz muito sobre o filme português, em termos de ideias e também do domínio da linguagem do diretor estreante em longas Paolo Marinou-Blanco.

Alex é um rabugento de carteirinha: não faz a menor questão de ser simpático com ninguém. Mas isso não impede Irene de irromper em sua vida e estabelecer uma comunicação: mais do que isso, ela traz Alex para o seu mundo. Porém, depois de uma noite especialmente turbulenta, ela desaparece. E o velho ator percebe que não pode mais viver sem ela - porque ela o lembrou o que é a vida.

Nesse ponto, ele descobre que há mais alguém que não sabe viver sem Irene: o serralheiro Bruno (Nuno Lopes). Ele tem o estranho hábito de invadir casas alheias, pegar fotos e papéis para fazer cópias e depois devolver. É assim que lida com sua solidão. A primeira cena mostra a invasão do apartamento de Irene por dentro e o encontro entre os dois: não conta quase nada, mas, intrigante, fisga o espectador de imediato para então contar o que aconteceu antes.

A narração em off de Alex se confunde com seu trabalho de narração de documentários turísticos - logo ele, que tem dificuldades de locomoção e mal sai de casa. É Irene que o reapresenta ao mundo. Depois de seu sumiço, Alex volta a se enclausurar - mas no apartamento dela, em busca de alguma pista sobre seu paradeiro. E, a contragosto, com a companhia de Bruno. A obsessão de ambos por ela vai uni-los e empurrá-los, sem que saibam, para a vida de novo.

Marinou-Blanco mostra essa acomodação com sensibilidade e bom humor, além de bem colocadas citações teatrais. Suas escolhas de planos são bonitas e eloqüentes, principalmente quando Goodnight Irene finalmente se torna o road movie que anuncia ser desde sua meia hora inicial. Aqui, o filme mostra que está de acordo com uma postura que muitos road movies defendem - e a entrega a esse subgênero se torna até necessária para deixá-la clara: o importante não é o ponto de chegada, mas a viagem em si.

Goodnight Irene (Goodnight Irene). Portugal, 2008.

Direção: Paolo Marinou-Blanco. Elenco: Robert Pugh, Nuno Lopes, Rita Loureiro, Amadeu Caronho. Exibido no CinePort.


CINEPORT 2009


O Festival de Cinema de Língua Portuguesa - CINEPORT, que vai de 01 a 10 de maio, tem como homenageado para a edição 2009 Moçambique. O evento contará com mais de 150 filmes e acontecerá em João Pessoa, capital da Paraíba, no Nordeste brasileiro. A cidade é o "ponto mais oriental das Américas" e acolhe pela segunda vez o festival, que se encontra na sua quarta temporada.


Atente para a programação deste fim-de-semana e quem estiver em terra brasilis está mais que convidado para vislumbrar essa grande janela do nosso cinema de língua portuguesa:



SEXTA, DIA 01

- A abertura do festival será às 20 horas, na sexta, mas a programação já começa à tarde com os debates do II Encontro de Cineclubes da Paraíba, no Hotel Imperial, em Tambaú;

- À noite, na Usina Cultural, a primeira sessão para o grande público é a dos curtas paraibanos do Prêmio Energisa, às 20h30, na sala digital;

- Às 21 horas, será exibido pelo filme dirigido por HELENA IGNEZ: A CANÇÃO DE BAAL. Na Tenda Andorinha;

- Às 21h30, na sala digital, os curtas de ficção que concorrem ao Troféu Andorinha Digital;

- Às 22h30, é a vez de GOODNIGHT IRENE, de PAOLO MARINOU BLANCO, filme português indicado ao Troféu Andorinha de melhor filme, que mostra a obsessão de um ator inglês e um serralheiro por uma atraente pintora cheia de vida.



SÁBADO, DIA 02

- Às 16 horas tem uma mesa redonda do Encontro de Cineclubes, debatendo “Um raio-X da cinefilia paraibana”, no Hotel Imperial;

- Cinco curtas (e médias) paraibanos às 14 horas, na sala digital da Usina Cultural;

- Às 16 horas, um dos campeões de público do cinema nacional dos últimos anos: MEU NOME NÃO É JOHNNY, de MAURO LIMA, com SELTON MELLO, na Tenda Andorinha;

- Às 18 horas, também na Andorinha, novos filmes do cinema paraibano. Dois curtas de TORQUATO JOEL (GRAVIDADE e AQUI E AGORA) e o longa-metragem O SONHO DE INACIM, de ELIÉZER ROLIM, com JOSÉ WILKER;

- No mesmo horário, na sala digital, entram em cena os curtas paraibanos no Prêmio Energisa;

- Às 20 horas na sala digital, será exibido CRISTÓVÃO COLOMBO, O ENIGMA, do centenário - e grande - cineasta português MANOEL DE OLIVEIRA.



- O diretor português ALEXANDRE VALENTE apresenta seu filme SECOND LIFE, às 21 horas, na Tenda Andorinha;

- A sala digital ainda tem o documentário DA VIDA DAS BONECAS, às 21h30min., e os 12 curtas de animação que concorrem ao Andorinha Digital, às 22 horas;

- Um dos filmes nacionais inéditos nos cinemas paraibanos passa às 23 horas na Tenda Andorinha: FELIZ NATAL, estréia na direção do ator SELTON MELLO.



Aguardem que comentarei sobre os filmes e programação aqui e no meu blog pessoal. Salute, pessoal!

Mais Informações: http://www.festivalcineport.com/2009/

abril

PROEZAS DOCUMENTADAS

DIA 1
HOMEM NO ARAME


James Marsh, Reino Unido/EUA, 2007, 90’, M/6


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Em criança, quase todos os homens queriam ser astronautas. Philippe Petit queria subir ao topo de uma torre gémea e atravessar para a outra em cima de um finíssimo arame, sem qualquer cabo a prendê-lo e sem rede por baixo. O que para quase todos nós parece pura loucura, Petit relata ainda hoje com um brilho nos olhos, transmite aquela satisfação de momento maior do que a vida que foi alcançado. E isso, desculpem a piroseira, é bonito. E esse é um dos lados fascinantes de Homem No Arame (vencedor do Óscar de Melhor Documentário e mais uns 17 prémios): mesmo intrínseco, o fantasma das torres gémeas nunca nos persegue. Trata-se de um nada óbvio 'feel good movie', que entretém, entusiasma, fascina e até pode convencer alguém a chorar. André Santos, Timeout



DIA 15
RELIGULOUS - QUE O CÉU NOS AJUDE


Larry Charles, EUA, 2008, 101’, M/12


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RELIGULOUS acompanha o comediante Bill Maher ("Real Time with Bill Maher," "Politically Incorrect") na sua viagem a locais de culto religioso em todo o mundo, para entrevistar um vasto espectro de crentes em Deus e na Religião. Conhecido pela sua astuta capacidade analítica e pelo seu empenhamento em não ser agressivo para ninguém, Maher aplica a sua característica honestidade e espírito irreverente às questões da Fé, fazendo-nos entrar numa divertida e provocatória viagem espiritual. »Com fanáticos religiosos como George Bush e Osama bin Laden a dominarem o mundo, pareceu-me que era a altura certa para dar a este tema um fórum mais largo, insistente e focado que um programa de televisão emitido a altas horas da noite. Quis fazer um documentário e quis que fosse divertido.»


DIA 22
VALSA COM BASHIR


Ari Folman, Israel/ Alemanha/ França, 2008, 90’, M/16


Site oficial



Mal vão os filmes de imagem real quando é o cinema de animação que pega de frente temas que aquele não quer, já não sabe ou evita olhar olhos nos olhos. A Valsa com Bashir, do israelita Ari Folman, que fez sensação este ano no Festival de Cannes, é uma longa-metragem de animação mais “adulta”, “séria” e política do que muitos filmes de imagem real que por aí andam a querer mostrar serviço de preocupação com a realidade. Nos seus 90 minutos canónicos, A Valsa com Bashir consegue ser o veículo autobiográfico de um difícil processo de terapia, a denúncia política das arbitrariedades cometidas pelo Estado de Israel através da sua política belicista, e uma demonstração de que a animação não serve apenas para inventar bonecos simpáticos ou antropomorfizar bicharada digitalmente.
Sérgio Abranches, Timeout


DIA 29
MOSTRA DE CIÊNCIA E CINEMA



THE LINGUISTS


Seth Kramer, Daniel A. Miller e Jeremy Newberger, EUA, 2007, 65’


BRILLIANT NOISE


Ruth Jarman e Joe Gerhardt , EUA/GB, 2006, 6’


OS SEÑORES DO VENTO


Xurxo González Rodríguez, Galiza, 2008, 10’

Em 2008 decorreu em A Corunha (Galiza) a primeira Mostra de Ciência e Cinema, na que participaram filmes procedentes de diferentes países da Europa, dos EEUU e até mesmo de Burkina Faso.
O Centro de Estudos Galegos da UAlg orgulha-se em apresentar junto com o Cineclube de Faro uma selecção dos melhores filmes apresentados. O evento conta com a presença do especialista em cinema Martin Pawley, programador e coordenador da mostra.

THE LINGUISTS


David e Greg son “os lingüistas”, científicos que se esforzan en documentar linguas en perigo de extinción. En Siberia, India e Bolivia, o labor dos lingüistas enfróntase ás moitas forzas quereprimen as linguas: racismo institucional e as violentas dificultades económicas. David e Greg deben superar os seus propios medos e prexuízos para sacar os falantes de décadas de silencio. A súa viaxe lévaos ao máis profundo das culturas e o coñecemento das comunidadesen estudo.


Estrea mundial no Festival de Cinema de Sundance 2008


Premio da Xuventude na I Mostra de Ciencia e Cinema

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BRILLIANT NOISE


Experimental: imaxes do Sol obtidas por diferentes sondas espaciais montadas en secuencias. Son imaxes sen limpar, que amosan o “ruido” producido polas partículas enerxéticas e o vento solar.


2º Premio na I Mostra de Ciencia e Cinema

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OS SEÑORES DO VENTO


Eles patentaron un sistema para dominar o vento. Dirixiron centos de botellas retando ao ceo. Mais como as botellas a vida tamén dá voltas. Tecnoloxía caseira para desafíar o vento nunha insólita instalación de“land art”.

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mais informações em http://cienciaecinema.org/ e http://www.thelinguists.com/

calvários

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Cinatrium, 21h30

FEVEREIRO

Dia 4
TROPA DE ELITE
, José Padilha, Brasil, 2007, 117’, M/16

Baseado na experiência de 19 anos de Pimentel como oficial da polícia militar e capitão da Batalhão de Operações Policiais (BOPE). Tropa de Elite foi o filme mais visto no Brasil em 2007 e vencedor do Urso de Ouro no Festival Internacional de Berlim em 2008. Apesar do fantasma dos esquadrões da morte, José Padilha não demoniza o BOPE pelas suas tácticas. Num estilo pseudo-documental, ele aponta o dedo à má formação profissional dada no passado à força policial, expondo, no processo, a apatia de uns e a hipocrisia de uma classe alta que simultaneamente consome a droga vinda da favela e se insurge contra as injustiças sociais. Gostava de acreditar que o Brasil não está preso a este círculo de combate da violência com uma violência ainda maior. As consequências só podem ser devastadoras. Para todos.

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Dia 11
EU QUERO VER
, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, Líbano / França, 2008, 75’, M/6

A ideia aqui é surrealista: fazer algo como um documentário com a estrela francesa Catherine Deneuve e com o reconhecido actor/artista libanês Rabih Mroué, numa viagem desde Beirute até às ruínas do Sul do Líbano causadas pela investida israelita em 2006. O casal de realizadores Hadjithomas e Joreige, que já demonstraram as suas capacidades criativas com a ficção libanesa A Perfect Day de 2005, conseguiram
fazê-lo. E de forma brilhante. Estes co-realizadores politicamente activos desbravaram novo território na discussão da fusão documentário/ficção.
Howard Feinstein, Screen Daily


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Dia 19, 5ª FEIRA
CAOS CALMO
, Antonello Grimaldi, GB/Itália, 2008, 107’, M/16

Não é exactamente um filme de Nanni Moretti, apesar da sua presença no papel principal e da sua co-autoria no argumento, mas podia ser, porque é impossível não ver nele o Moretti que nos habituámos a ver em filmes anteriores. Porque, enfim, "Caos Calmo" é uma variação sobre o sublime "O Quarto do Filho" que se podia chamar "O Banco do Pai". Um melodrama elegante em tom levemente efabulatório, transportado pela interpretação soberba de um Moretti que revela ser actor de muitos mais recursos do que os seus próprios filmes muitas vezes lhe pedem.
Jorge Mourinha, Público


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Dia 25
O SILÊNCIO DE LORNA
, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Alemanha/Bélgica/França/Itália, 2008105’, M/12

Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que já foram os vencedores do Festival de Cannes em duas ocasiões, com "Rosetta" (1999) e "A Criança" (2005), ganharam o prémio de melhor argumento, este ano, no mesmo festival, com "O silêncio de Lorna". Os realizadores apostam muitas vezes num cinema quase neo-realista, retratando, desta feita, as migrações e as redes criminosas criadas a seu redor. "O silêncio de Lorna" traça o retrato de uma jovem mulher que tem os sonhos delapidados pela culpa e que se agarra a uma esperança longínqua. Simples, directo e muito humano é certo que "O Silêncio de Lorna" não deixará nenhum espectador indiferente.

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MARÇO

DIA 4
A ONDA
, Dennis Gansel, Alemanha, 2008, 101’, M/16

O fascismo e a contribuição de comportamentos individuais para o desastre colectivo são temas que o realizador Dennis Gansel já tinha abordado em ‘A Queda’ (2004). Em ‘A Onda’ (2008) também parte de acontecimentos reais. Num liceu em Palo Alto (Califórnia), nos anos 60, um professor, em vez de teorizar sobre a ditadura, criou na turma um microcosmos totalitário. Começou por construir um forte espírito de disciplina e grupo. Ao fim de poucos dias, já estava assustado com os resultados, que extravasavam o ‘laboratório’.
Joana Amaral Dias, correiodamanha.pt

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DIA 11
QUATRO NOITES COM ANNA
, Jerzy Skolimowski, França/Polónia, 2008, 87’, M/12

Um dia, ele desapareceu. Jerzy Skolimowski entrou no silêncio. E aí ficou durante 17 anos. Poeta desconcertante, cineasta desconcertado, deixou a
Polónia e assim perdeu o seu país natal, apagado pelas últimas convulsões do comunismo. Skolimowski entrega hoje QUATRO NOITES COM ANNA, um filme excepcional, soberbo, sobre a ilusão, o amor, o olhar, a loucura. Cada imagem, cada movimento de câmara, cada resposta é a expressão de uma
urgência, de uma necessidade, de uma mestria absolutas.
François Forestier, Le Nouvel Observateur

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DIA 18
VALSA COM BASHIR
, Ari Folman, Israel/ Alemanha/ França, 2008, 90’, M/16

Mal vão os filmes de imagem real quando é o cinema de animação que pega de frente temas que aquele não quer, já não sabe ou evita olhar olhos nos olhos. A Valsa com Bashir, do israelita Ari Folman, que fez sensação este ano no Festival de Cannes, é uma longa-metragem de animação mais “adulta”, “séria” e política do que muitos filmes de imagem real que por aí andam a querer mostrar serviço de preocupação com a realidade. Nos seus 90 minutos canónicos, A Valsa com Bashir consegue ser o veículo autobiográfico de um difícil processo de terapia, a denúncia política das arbitrariedades cometidas pelo Estado de Israel através da sua política belicista, e uma demonstração de que a animação não serve apenas para inventar bonecos simpáticos ou antropomorfizar bicharada digitalmente.
Sérgio Abranches, Timeout


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DIA 25
VENENO CURA
, Raquel Freire, Portugal, 2007, M/16, presença da realizadora

Três histórias de mulheres, presas em relações amorosas e em situações familiares extremas. À beirado inferno ou da redenção. A estrutura é fragmentária. Raquel Freire não conseguiu os laços unificadores para cerzir as histórias-limite de três mulheres a quem o corpo, a líbido e a vida conduziram a vertigens e a abismos. E, porque quis tocar as cordas últimas onde se enforcam os desesperos, não há que esperar uma fácil digestão para algo que, evidentemente, tem mais riscos que arrimos. Por isso, "Veneno Cura" não é um filme equilibrado - mas é um filme com verdade dentro. Quer dizer: eu acredito naquela gente (que actrizes, meu Deus!), acredito e comovo-me, mesmo quando vejo ritualizações de deboche que me parecem periclitantes. Digamos que o sangue que corre nas veias desta fita é quente e contagiante. E é sobretudo isso que devemos pedir a um filme.
Jorge Leitão Ramos, Expresso


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"Top Ten Time"

Stanley Fish revela os que, para si, são os dez melhores filmes de sempre. É a febre das passagens de ano.

Ainda Oliveira

Para entender alguma coisa sobre o não muito importante assunto da recepção de Oliveira em Portugal, é importante ler o que dizem Fausto Cruchinho e Luís Miguel Oliveira. Registado aqui.

em novembro, paisagens humanas

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(Cinatrium, 21h30)


DIA 5
alexandra, alexandr sokurov, rússia, frança, 2007, 92’, m/12

Sokurov foi descoberto em Portugal com "Mãe e Filho". Foi há cerca de dez anos, mas depois disso, e apesar de o cineasta ser bastante prolífico e manter há décadas um ritmo de pelo menos um filme por ano, por cá só se estreou "Pai e Filho", de 2003. "Alexandra" é o terceiro Sokurov a estrear em Portugal. Talvez se pudesse chamar "Avó e Neto", porque é disso que se trata (do encontro entre uma avó e um neto), integrando-se naquilo que se vai tornando, dentro da obra do cineasta russo, uma "série" dedicada ao amor familiar (e ainda lhe falta um filme sobre o amor fraternal, que há uns anos manifestou intenção de fazer). Mas ao mesmo tempo é de muito mais do que apenas um encontro entre uma avó e um neto que "Alexandra" trata. Complexo e flutuante (tão flutuante como a câmara de Sokurov, novo mestre do "travelling" e, supomos, do "steadycam"), é um dos filmes mais ricos, mais misteriosos, mais interpelativos, que veremos este ano.
Luís Miguel Oliveira








DIA 12
gomorra, matteo garrone, itália, 2008, 137’, m/16

Garrone adopta um tom bastante seco, evitando rodear os problemas ou romancear as situações. Tudo se revela com a dureza e a crueldade com que decorre na vida real, o que constitui uma vantagem para a narrativa que se torna genuína e de grande impacto. São os crimes e os vícios da Camorra que envolvem as diversas personagens, que se envolvem e envolvem outros num mundo de crime em que não há lugar para escrúpulos ou para um recuo.
Mesmo que de forma indirecta é a sociedade capitalista que está em causa, com as suas portas abertas à formação de pessoas que acabam por ver no lucro o único objectivo da vida, dando com alguma facilidade o passo da legalidade para o mundo do crime.
Premiado em Cannes com a Palma de Ouro, "Gomorra" merece sem dúvida a atenção do público cinéfilo.
cinedoc.pt


DIA 19
a ronda da noite, peter greenaway, canadá/frança/alemanha/polónia/holanda/reino unido, 2007, 134’, m/12

O quadro A Ronda da Noite, pintado por Rembrandt em 1642, e que deveria antes ser conhecido por A Companhia de Frans Banning Cocq e Willem von Ruytenburch, representa uma companhia de milicianos encabeçada por ricos mercadores de Amesterdão, pintada de forma dinâmica, prestes a marchar, ao invés de ser retratada em fila ou no banquete anual, como era convenção na época. Certo?
Errado. Totalmente errado, na opinião do realizador, e também pintor e desenhador britânico Peter Greenaway. Segundo ele, Rembrandt pintou A Ronda da Noite para denunciar o assassínio de uma das pessoas que deveria ter sido representada no quadro, e apontar os culpados, nele imortalizados.
Greenaway chama à obra-prima "o j'accuse de Rembrandt". Um corajoso ataque aos burgueses que encomendaram e pagaram a tela, e estavam envolvidos numa cabala para obter mais dinheiro, influência, proeminência social e mais poder em Amesterdão, na altura a cidade mais rica e próspera do Ocidente.
De acordo com Greenaway, a originalidade formal da famosa tela mais não é do que a maneira que o artista encontrou para semear as pistas alegóricas que permitiriam aos bons observadores desvendar o mistério e identificar os assassinos, sob a forma de várias "anomalias" pictóricas.
Eurico de Barros




DIA 26 – REPETIÇÃO*
aquele querido mês de agosto, miguel gomes, portugal, 150’, m/ 12 anos, presença do realizador (a confirmar), do produtor e do actor

*repetição – dado o sucesso do filme, o número de espectadores que não puderam entrar por a sala ter esgotado e querermos ajudar a produtora deste filme a alcançar os 20.000 espectadores (o que lhe permitirá aceder a certos apoios do Instituto do Cinema).

No coração do Portugal profundo, serrano, no meio de bailaricos nasce um filme, entre o documentário e a ficção, onde uma equipa de filmagem procura actores, e ao mesmo tempo transforma-se num elemento activo da acção. Amor e música, em sintonia com histórias de vidas mais ou menos estigmatizadas pela interioridade. Aquele Querido Mês de Agosto”, o único filme português presente em Cannes, incluído na Quinzena dos Realizadores, é um objecto cinematográfico aliciante.

Palestra no Dia Mundial da Animação


Olá, boa tarde.

Gostava de contar com a vossa presença na palestra que irei apresentar:

Emile Reynaud e a invenção do cinema de animação
O significado do dia 28 de Outubro de 1892 e a importância das invenções de Reynaud no contexto da arte cinematográfica.

A realização desta palestra insere-se no programa nacional de actividades comemorativas do Dia Mundial da Animação, coordenado pela Casa da Animação do Porto.

Data e local:
28 de Outubro, 18h/19h
Anfiteatro Paulo Freire da Escola Superior de Educação
Campus da Penha / Universidade do Algarve

Para mais informações contactar:
Escola Superior de Educação
Telefone: 289 800 126
E-mail: cdese@ualg.pt

Onde é que eu já vi isto?


O cinema influencia a arquitectura, ou estarei a sonhar? O novo edifício da Academia das Ciências da Califórnia, desenhado por Renzo Piano, tem uma área tal e qual o que aparece creio que no Minority Report.
(Ora vejam lá também, na sequência de 10 fotos que o NYTimes disponibiliza, se a foto 6 não vos faz lembrar alguma coisa.)

Isto (re)começa bem!

Sei que o CCF é de Faro, que é do Sul, mas sei que também é associação de utilidade pública, e essa não tem limites geográficos. Por isso, recordo a quem ande pelo Norte que começa hoje um ciclo de filmes de e à volta de Manoel de Oliveira (M.O.), no Museu de Serralves. Acompanha a exposição, que lá abriu em Julho, dedicada ao realizador que completa este ano... hum... é melhor não dizer, que até me envergonho. Chovam as exclamações, redigam que já chega de Oliveira (bem, contei apenas cinco posts sobre ele desde que abrimos), sim, tudo isso: mas se puderem, aproveitem para ver algumas das películas. Aqui no Sul já houve oportunidade de ver a filmografia quase-quase-quase completa de M.O., agora pode bem ser a vez de outros a verem. Além do mais, o pessoal do Sul está servidíssimo, com a programação do CCF para as próximas semanas.

(Já agora, relembro que faz amanhã 77 anos que estreou o primeiro filme de M.O., Douro, Faina Fluvial, no Congresso Internacional de Críticos de Cinema em Lisboa. A imagem que encima este post é dessa obra.)

(a ver se é desta que voltamos... ao blog)

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PROGRAMAÇÃO CINECLUBE DE FARO

Setembro/Outubro

Cinatrium, 21h30



CICLO O AMOR É UM LUGAR ESTRANHO


17 set
O SEGREDO DE UM CUSCUZ
, abdel kechiche, frança, 2007, 151’, m/ 12 anos

É um dos mais extraordinários filmes que vamos poder ver todo este ano, por tudo aquilo que é sem nunca realmente o ser: não é um panfleto social, não é um melodrama lamecha, não é uma comédia truculenta, mas a história do sr. Beji, um operário desempregado que decide arriscar tudo na concretização do seu sonho secreto de abrir um restaurante, é tudo isso ao mesmo tempo.
Jorge Mourinha, Público






24 set
LARS E O VERDADEIRO AMOR
, craig gillespie, eua, 2007, 106’, m/ 12 anos

Para os menos avisados, Lars e o Verdadeiro Amor seria um filme a carburar na vertente kinky, com uma figura triste e desequilibrada a satisfazer os seus desejos sexuais numa boneca de sexo, com enorme potencial para cair no ridículo. Porém, a película não é rigorosamente nada disso. Trata-se mesmo de uma verdadeira história de amor, a de um rapaz adorável e tímido de quem toda a gente gosta, que canaliza todas as suas afeições num objecto inanimado (uma boneca insuflável). E é a sensibilidade, o equilíbrio, a profundidade, a não convencionalidade e a forma como consegue manipular vários temas complexos de forma aparentemente simples, gerindo com mestria a evolução de todas as várias reacções ao invulgar casal, que dá ao filme toda a sua riqueza. Lars e o Verdadeiro Amor é uma das maiores estreias nas salas nacionais em 2008.



1 out
JUNO
, jason reitman, eua, 2007, 92’, m/ 12 anos

Ela tem um telefone em forma de hamburger, um cachimbo que não deita fumo, uma gravidez indesejada e diz frases que nem os tradutores conseguiram decifrar. Juno é a comédia que podia ser drama mas decidiu trocar as voltas aos que, olhando para o cartaz, o tomaram como um teen movie. De facto, as comédias politicamente incorrectas, que olham para uma situação complicada de um prisma menos usado são uma boa alternativa aos formatos já saturados. Juno é o exemplo máximo de como trazer quilos de originalidade a uma história que já vimos contada mil vezes. Ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original.
Ines Gens Mendes




8 out
LUZ SILENCIOSA
, carlos reygadas, méxico / frança / holanda / alemanha, 2007, 136’, m/ 12 anos

Rodado de uma forma sublime, na comunidade menonita mexicana perto de Chihuahua, este conto revela-se inesperadamente empolgante. Desde a primeira cena, pelo olhar que se estende lânguido sobre o nascer do dia por cima da planície mexicana, torna-se claro que não este é um filme com pressa de chegar ao final. A história, sobre um amor proibido numa comunidade religiosa rural, transformou este autor numa das vozes mais distintas no mundo do cinema contemporâneo. Projectado para um êxito arrebatador em Cannes, onde venceu o Prémio do Júri, Luz Silenciosa foi considerado o filme mexicano mais seguro feito até hoje. Apesar da mestria técnica que revela, o cineasta consegue presentear-nos com um filme que, mais do que um exercício frio e calculado de excelência sonora e visual, é um trabalho terno, tocante e profundo que convida à contemplação e à discussão. Esta é por isso uma obra indispensável para todos os que gostam do cinema, enquanto forma de arte.



15 out
AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO
, miguel gomes, portugal, 150’, m/ 12 anos

No coração do Portugal profundo,serrano, no meio de bailaricos nasce um filme, entre o documentário e a ficção, onde uma equipa de filmagem procura actores, e ao mesmo tempo transforma-se num elemento activo da acção. Amor e música, em sintonia com histórias de vidas mais ou menos estigmatizadas pela interioridade. Aquele Querido Mês de Agosto”, o único filme português presente em Cannes, incluído na Quinzena dos Realizadores, é um objecto cinematográfico aliciante.






22 out
OS AMORES DE ASTREA E CELADON
, eric rohmer, frança / itália / espanha, 2007, 109’

Veterano do cinema francês mais sólido e experimental, o realizador Eric Rohmer, que já vai a passos largos para os 90 anos, voltou a testar modelos e conceitos estruturais, mas recorrendo acima de tudo à simplicidade e ao pendor ingénuo dos sentimentos. «Os Amores de Astrea e de Celadon», que foi nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado, seria o filme perfeito se em meados de 1600 já houvesse cinema. Não havia, mas havia poesia séria, cantigas e danças feitas de ternura e uma veia extrema para amar. É esse lado puro que domina desde a primeira cena esta adaptação simpática de uma obra de Honoré Urfé, assente numa história de amor que não vai ser nada fácil de concretizar...




28 out (3ª f)
BALAOU
, gonçalo tocha, portugal, 2007, 77’, COM A PRESENÇA DO REALIZADOR

Sete meses depois da morte da mãe, um homem regressa à terra da sua família, em São Miguel, nos Açores. Entre os mais recentes membros da família encontra-se com a tia-avó, de 91 anos, que espera… a morte. À noite a família reúne-se e conversa sobre Deus e sobre a morte. Durante o dia ele nada no mar daquela ilha vulcânica. Um dia encontra Florence e Beru, um casal francês, que está a cruzar o Oceano Atlântico num barco chamado Balaou. Dividido em três momentos e oito lições, Balaou é uma viagem através da inevitável efemeridade das coisas… Um dos mais brilhantes e premiados documentários portugueses dos últimos anos.

"Em terra de cego quem tem olho..."

"Blindness", quinto filme de Fernando Meirelles, abriu o Festival de Cannes no último dia 14, e está também concorrendo a Palma de Ouro. A película é uma adaptação de "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago, único escritor de língua portuguesa agraciado com o Nobel de literatura, em 1998.

Co-produção nipo-canadense-brasileira, o longa só vai estrear mundialmente a partir de setembro. No elenco multiétinico (ou “globalizado”, se preferir) estão Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Alice Braga, Gael García Bernal e Sandra Oh. Nos países de língua portuguesa o filme terá o mesmo nome do romance, deferimento do Saramago.

Voltando ao Cannes, "Blindness" dividiu crítica e público: foi recebido com frieza por um e com aplausos de cinco minutos por outro. "Não vai obter fãs, mas muitos admiradores entrincheirados", profetizou a revista Time; já o jornal Le Monde o denominou um “thriller filosófico”.

Na rede, além do site oficial, o filme tem um blog chamado "Diário de Blindness", escrito pelo próprio Meirelles, onde acompanhamos desde o primeiro “não” de Saramago, passando pelo encontro do autor português com o diretor em Lisboa, as filmagens (no Canadá, Uruguai e Brasil), as diversas montagens e todas as nuances que um sett pode ter. Bem interessante ver esses “extras”, como um bônus de DVD que ainda será lançado.

O livro, editado em Portugal pela Editorial Caminho e no Brasil pela Cia. das Letras , relata uma doença inexplicável, contagiosa e incurável, que deixa a visão da pessoa inundada por um “mar leitoso”. Inserido na “treva branca”, a primeira vítima vai para um oftalmologista, onde dissemina a praga para outros. Os cegos são alojados em um asilo desativado, desapropriados de seus direitos civis e vigiados por um exército que tem ordens para matar quem tentar fugir. Mas a epidemia continua a se espalhar pelo mundo mesmo assim.

Saramago faz uma grande metáfora da civilização desmoronada, das facetas da natureza humana, da degradação do sistema em si e da cegueira moral da sociedade (na epígrafe do livro: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”). Não batiza os personagens e nem a metrópole que acontece a tragédia, refletindo seus ideais comunistas. "Ensaio sobre a cegueira", o filme, além de passar a atmosfera angustiante, física e apocalíptica da literatura, terá que traduzir também toda a complexidade política, antropológica, psicológia e social. Tarefa bem difícil, como outros vários exemplos de adaptações já provaram...

Se o livro merece ser lido (e relido)? Que pergunta! Lógico! Se valer a pena assistir à adaptação em setembro? Por que não? É uma outra visão da obra! Agora, se o filme vai estar à altura da prosa de Saramago? Ai, veremos...

IndieSugestão

Olá a todos,
Deambulando pela programação do Indie deste ano, não pude deixar passar em claro uma fatia bem importante da programação do indie, que talvez tenha algum (para não dizer muitíssimo...) interesse para o Cineclube, em especial, para as tão propaladas sessões nos Artistas, cuja realização, ao que sei, tem sido objecto de algumas propostas de algumas pessoas ligadas ao Cineclube.
Assim sendo, aqui deixo a sugestão aos interessados, para uma colaboração com o indie, não só no que diz respeito ao concurso do festival (e já agora, a secção Herói Independente sobre o Guérin e sobre o Jhonny To tb é qquer coisa de bem especial... ), mas essencialmente chamo a atenção para a secção Indiemusic, que basicamente traz coisas como estas:
- Joe Strummer - The Future is Unwritten, de Julian Temple;
- Joy Division, de Grant Gee;
- Lou Reed's Berlin, de Julian Schnabel;
- Patti Smith: Dream of Life, de Steven Sebring;
- Scott Walker: 30 Century Man, de Stephen Kijak;
Talvez pedir demais,face a um infindável rol de questões que estas actividades colocam, mas esta poderia ser uma excelente, rara, e enfim... quase perfeita oportunidade, para retomar uma actividade nos Artistas, num âmbito perfeitamente coincidente com as linhas de actividade das duas instituições, e cujo interesse é, a meu ver, inquestionável.
Beijinhos

março é hoje

Cinatrium, 21h30

CICLO Desistir ou resistir, eis a questão


Dia 5
ESTRELA SOLITÁRIA, Wim Wenders, França / Alemanha / EUA, M/ 12, 2005, 122’

Estrela Solitária marca o regresso da colaboração entre Wim Wenders, realizador alemão com uma longa e notável carreira, e o escritor e argumentista Sam Shepard, mais de vinte anos depois de assinarem juntos um dos mais belos filmes do cinema contemporâneo: Paris.Texas, Mostrou nesse filme a sua capacidade para registar as características de certa parcela do povo americano e do ambiente muito peculiar de determinadas zonas do Sul dos Estados Unidos. Em Estrela Solitária retoma um tanto o mesmo rumo, através de um conto de sua autoria muito bem trabalhado para argumento cinematográfico com a colaboração de Sam Shepard, que em paralelo desempenha o principal papel.


Dia 12
CLIMAS, Nuri Bilge Ceylan, Turquia / França, M/ 12, 2006, 101’

O realizador e argumentista Nuri Bilge Ceylan estreia-se como protagonista junto da sua mulher, Ebru Ceylan, num filme que analisa com extrema crueza, e por vezes até um humor mordaz, as alterações da temperatura emocional de uma relação. O amor, o compromisso e o desejo vão do calor intenso ao frio gélido, do Verão mediterrânico ao rigoroso Inverno do leste. Climas (vencedor do Prémio Fipresci na edição de 2006 do Festival de Cannes) é um drama íntimo, onde as faces são a paisagem e onde, à falta de palavras, os sentimentos se revelam. Climas entra destemidamente num território caro ao que conhecemos por "cinema moderno": a intimidade conjugal, a radiografia da relação de um casal. Não por acaso, os nomes que mais têm sido citados a propósito de "Climas" são nomes de cineastas italianos - Antonioni ou Rossellini. O tipo de aproximação ao casal e à intimidade operado por Ceylan, entre silêncios e mistérios, ecoa de facto algum do cinema desses "avatares" italianos da modernidade, sem que haja nele qualquer matéria referencial.



Dia 19
A PONTE, Eric Steel, EUA / Reino Unido, M/ 12, 2006, 93’

Muitas pessoas optam por pôr termo à vida na Golden Gate Bridge mais do que em qualquer outro local no mundo. O concreto número de mortes nesse local é chocante mas talvez de forma alguma surpreendente. Se alguém se quiser suicidar, existe uma estranha lógica em seleccionar uma forma que é quase sempre fatal e um local que é mágico, misteriosamente belo.
O realizador e equipa de filmagem passaram o ano todo de 2004, um ano inteiro, a olhar cuidadosamente para a Golden Gate Bridge com câmaras ligadas durante todo o dia, a filmar a maior parte dos vinte e quatro suicídios e muitos outros que resultaram em tentativas falhadas. Adicionalmente o realizador captou quase 100 horas de entrevistas incrivelmente francas, profundamente pessoais e muitas delas tocantes, com as famílias e amigos destes suicidas, com testemunhas que estavam a caminhar, a andar de bicicleta, a conduzir na ponte, a surfar, a fazer Kiteboarding ou a andar de barco por baixo da ponte, e também com muitos de outros suicidas. A PONTE é um documentário alarmantemente profundo e poético, uma jornada visual e visceral por um dos tabus mais graves da vida. É um filme que vai garantidamente perdurar na sua mente depois de sair do cinema, quer queira, quer não. - Première Magazine

Dia 26
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA, Julian Schnabel, França / EUA, M/ 12, 2007, 122’

A 8 de Dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral (AVC) mergulha o jornalista Jean-Dominique Bauby num coma profundo. Ao acordar, descobre que todas as suas funções motoras estão deterioradas. Está encerrado no seu corpo - apenas consegue controlar o movimento de um olho. E será esse órgão a sua ligação com o mundo e com a vida. Será a piscá-lo que começa por indicar "sim" ou "não" até avançar para a sinalização de letras do alfabeto, construindo palavras e frases. Será assim também que escreverá "O Escafandro e a Borboleta", cujas frases memorizou antes de ditar. Esse livro e este caso verídico estiveram na base deste filme protagonizado por Mathieu Amalric e realizado por Julian Schnabel, que conquistou o prémio de melhor realizador em Cannes 2007.

Oliveira em Brooklyn

A Brooklyn Academy of Music, que é assim uma casa/fundação que reúne actividades de música, mas também de teatro, dança e cinema, e onde em ocasiões anteriores já se viu bom cinema português, volta à carga (ao cinema português, entenda-se). Será pelo menos a segunda vez que Manoel de Oliveira estará presente n sala da "cinemateca" do BAM Rose Cinema - e desta vez a propósito de uma enorme retrospectiva de filmes seus. Chamaram-lhe "The Talking Pictures of Manoel de Oliveira" e passarão nela não menos do que quinze longas e mais algumas curtas-metragens do realizador. Na página do BAM sobre a iniciativa há um link para um artigo de Randal Johnson sobre Oliveira, escrito para a ocasião. E, claro, a imagem que ilustra a programação é a de Leonor Silveira em Vale Abraão, ao lado da gaiola e com aqueles olhos abertos gigantes. Às vezes irrita que uma pessoa não possa entrar no metro ali na East Village e saltar umas estações depois, comprar o bilhete e, anonimamente, ver filmes como se nunca tivesse ouvido falar deste tipo que faz este ano um século de vida.

De livros a filmes

Mensagem amiga fez-me saber deste conjunto de depoimentos (na verdade, mais do que simples depoimentos) sobre obras literárias adaptadas para cinema. Vale a pena ler, ó se vale!

Óscares 2008


Estão aí à porta os Óscares2008, altura para fazer apostas, por isso aqui fica o desafio...

A lista completa das nomeações está aqui


Para as principais categorias, temos:

Melhor filme:
There Will Be Blood
No Country For Old Men
Atonement
Juno
Michael Clayton

Melhor realizador
Paul Thomas Anderson - There Will Be Blood
Ethan Coen and Joel Coen - No Country For Old Men
Tony Gilroy - Michael Clayton
Jason Reitman - Juno
Julian Schnabel - The Diving Bell And The Butterfly

Actor Principal
George Clooney - Michael Clayton
Daniel Day-Lewis - There Will Be Blood
Johnny Depp - Sweeney Todd: The Demon Barber Of Fleet Street
Viggo Mortensen - Eastern Promises
Tommy Lee Jones - In The Valley Of Elah

Actriz Principal
Cate Blanchett - Elizabeth: The Golden Age
Julie Christie - Away From Her
Marion Cotillard - La Vie En Rose
Laura Linney - The Savages
Ellen Page - Juno

Actriz Secundária
Cate Blanchett - I'm Not There
Ruby Dee - American Gangster
Saoirse Ronan - Atonement
Amy Ryan - Gone Baby Gone
Tilda Swinton - Michael Clayton

Actor Secundário
Casey Affleck - The Assassination Of Jesse James By The Coward Robert Ford
Javier Bardem - No Country For Old Men
Philip Seymour Hoffman - Charlie Wilson's War
Hal Holbrook - Into The Wild
Tom Wilkinson - Michael Clayton

Melhor Filme Estrangeiro

Beaufort - Joseph Cedar - Israel
The Counterfeiters - Stefan Rudowitzky - Áustria
Katyn - Andezj Wajda - Polónia
Mongol - Sergei Bodrov - Cazaquistão
12 - Nikita Mikhalkov - Russia

Place your bets please

isto é cinema!

(dirigir casas como esta)

NOVOS CORPOS GERENTES CINCELUBE DE FARO 2008 - 2009

MESA DA ASSEMBLEIA GERAL
Presidente – Alberto Mendonça Neves – Sócio 2380
Vice-Presidente – Eduardo Coutinho – Sócio 1377
Secretária – Cristina Firmino – Sócia 3784

CONSELHO FISCAL
Presidente – João José Vargues – Sócio 2601
Secretária - Margarida Lopes da Costa – Sócia 4052
Relatora – Clarisse Rebelo – Sócia 3265

DIRECÇÃO
Presidente – Anabela Moutinho – Sócia 2954
Vice-Presidente – Graça Lobo – Sócia 2325
Tesoureira – Ana Lúcia Correia – Sócia 2431
Secretária – Veralisa Brandão – Sócia 4105
Vogal – Nuno Santos Silva – Sócio 4088

e é assim:

com a entrada da Ana Lúcia, a Veralisa e o Nuno, já começaram novas ideias a rolar..

entre as quais, abrir a organização do ccf a outros sócios que tenham projectos, queiram colaborar e, mesmo, ser responsáveis por eles!

assim:
está com vontadinha de fazer coisas giras? APAREÇA!!



(e não só neste blog!..)