BENEATH THE WAVES FILM FESTIVAL | 30 de Setembro-5 de Outubro


O cinema é provavelmente uma das formas de comunicação mais simples e abrangente que existe. Foi por isso que a Sciaena se juntou ao “Beneath the Waves Film Festival” – (Sob as Ondas, Festival de Cinema) para trazer a Portugal uma seleção de documentários dedicados aos oceanos, com o objectivo de encorajar, inspirar e consciencializar, não só a especialistas mas também o público em geral. Este festival pretende facilitar a comunicação científica sobre o mundo marinho, promovendo uma discussão aberta, criando uma oportunidade para investigadores, estudantes, realizadores interessados em filmes e meios de comunicação discutirem em conjunto os assuntos do mar e estimulando-os, quem sabe, a darem asas à sua imaginação. Os oceanos têm uma voz e é a de todos nós!!!

Pela primeira vez em Portugal, esta edição decorrerá em Faro, em parceria com a Faculdade de Ciências e Tecnologia e o Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, o Centro de Ciência Viva do Algarve, o Cine Clube de Faro, a Rádio Universitária do Algarve – RUA , a Tertúlia Algarvia e a coligação OCEAN2012.

O Festival terá como corpo principal 4 sessões que irão decorrer no Anfiteatro Verde, no Edifício 8 do campus de Gambelas da Universidade do Algarve, de 2ª feira dia 30 de setembro a 5ª feira dia 3 de outubro, entre as 18h e as 20h. Cada sessão será dedicada a uma temática e consistirá na exibição de uma seleção de várias curtas metragens, seguida de um painel de discussão com peritos e interessados em cada um dos temas.

Na sexta-feira, dia 4 de outubro, ás 19 horas, associamo-nos à Tertúlia Algarvia para uma sessão de visionamento de 5 filmes legendados, antecedida de um jantar constituído por pratos tradicionais algarvios, confecionados com peixe e marisco sustentável e capturado localmente (se a lotação esgotar, este evento poderá ser repetido no sábado dia 5).

Finalmente, no sábado dia 5 de outubro, teremos uma manhã dedicada aos mais novos no Centro de Ciência Viva do Algarve. Para além da exibição de uma seleção de filmes, irão acontecer duas atividades que pretendem incentivar as crianças a terem um papel ativo na conservação dos oceanos – Pinta um Peixe e Ocean Flag.

Mais informações:
geralsciaena@gmail.com | +351 936257281 | www.sciaena.org |www.facebook.com/sciaena

Informações importantes:
- A entrada é gratuita em todos os eventos, excepto no jantar na Tertúlia Algarvia (por definir).
- A maior parte dos filmes não é legendado, tendo a Sciaena optado por legendar uma seleção de 5 filmes que não só serão exibidos durante esta edição do festival como serão utilizados pela associação em ações de sensibilização e iniciativas futuras.
- Pode haver alterações nas listas de filmes abaixo indicadas.

Locais:
- Anfiteatro Verde – Fac. de Ciências e Tecnologia - Edif. 8 - Campus de Gambelas – UAlg
- Tertúlia Algarvia – Praça Afonso III - 13-15 - 8000-167 Faro
- Centro de Ciência Viva Do Algarve - Rua Comandante Francisco Manuel - 8000-250 Faro
 

VIRAMUNDO, Pierre-Yves Borgeaud, 2013 | 01.10.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 1 DE OUTUBRO
VIRAMUNDO, Pierre-Yves Borgeaud, Suiça/França, 2013, 95’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Viramundo
Realização: Pierre-Yves Borgeaud
Montagem: Daniel Gibel
Interpretação: Peter Garret, Gilberto Gil, Paul Hanmer
Origem: Suíça, França
Ano: 2013
Duração : 95’

SINOPSE
Depois de décadas de concertos esgotados e reconhecimento internacional, o músico Gilberto Gil embarca num novo género de tournée mundial pelo hemisfério sul. Do Brasil à Austrália, passando pela África do Sul, Gilberto Gil continua o trabalho que iniciou no Ministério da Cultura, quando se tornou no primeiro ministro negro do Brasil – promovendo o poder da diversidade cultural num mundo globalizado e partilhando a sua visão do nosso futuro comum: um planeta diverso e interligado carregado de esperança, partilha… e, claro, música!


CRITICA:
“VIRAMUNDO é sobretudo uma homenagem a culturas em risco de extinção, numa fascinante busca de afinidades.”
Manuel Halpern, Jornal de Letras

“VIRAMUNDO é uma observação da curiosidade em ação, acompanhando o tropicalista Gilberto Gil numa viagem pela Austrália, África do Sul e Brasil em busca de traços de miscigenação entre as culturas indígenas e ocidentais”
Jorge Mourinha, Público


DECLARAÇÃO DO DIRECTOR 
Quero que VIRAMUNDO seja o retrato de um Gilberto Gil arreigado no presente e, ao mesmo tempo, questionando a universalidade de algumas das suas visões e pontos de vista. Como importante cantor e compositor, assim como antigo ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil tem vindo a promover a ambição de um mundo mais equilibrado, onde “brancos” e “negros” possam ter as mesmas possibilidades e onde as novas tecnologias e formas de comunicação possam moldar territórios abertos a toda a gente – especialmente para aqueles que vivem nas periferias do “mundo moderno”. Será possível à sociedade funcionar sem o fardo da discriminação racial? Será possível imaginar um novo mundo, uma nova sociedade baseada na participação, que promova a inclusão na diversidade em vez da sua exclusão? Há um país que de forma elegante dá uma resposta a estas questões: o Brasil. Desde há vários anos que o Brasil procura que todos no país possam ter acesso às novas tecnologias, consideradas como ferramentas essenciais para a liberdade e a emancipação.



Associando este compromisso político com o seu passado de luta anticolonial e a sua celebração da diversidade cultural. E se, na era do Skype, Google e Facebook com os seus 400 milhões de utilizadores, essa contribuição para a cultura global for hoje mais relevante que nunca? Por outras palavras, será que “a solução brasileira” poderá funcionar noutros lugares do mundo? Como nos países “do Sul”, onde são mais quentes e dramáticas as questões de discriminação? Gilberto Gil, lenda viva que simboliza o compromisso artístico e encarna o multiculturalismo brasileiro, é a pessoa mais bem colocada para encarar o desafio de responder a estas questões. VIRA-MUNDO segue Gilberto Gil nas suas viagens a várias regiões onde “a solução multicultural brasileira” não parece estar a funcionar: primeiro à África do Sul pós-apartheid, a seguir até às martirizadas terras dos aborígenes australianos e, finalmente, no seu Brasil, até à floresta tropical da Amazónia. Hoje, Gilberto Gil é um sexagenário entusiasta e sereno. Há alguns anos, deixou o governo brasileiro para regressar à música e criar canções que expressam os seus valores humanistas e a sua visão de um mundo mais livre e igualitário. VIRAMUNDO força Gilberto Gil a deixar a sua zona de conforto e viajar para sítios onde os assuntos raciais permanecem omnipresentes, problemáticos e dolorosos. O filme está focado na sua reação e abordagem a estas divisões e preconceitos. Que pode ele dizer sobre a sociedade pós-apartheid ou levar aos aborígenes que lutam pela sobrevivência e a proteção da sua identidade? Onde descobre ele o espaço comum entre sul-africanos, australianos e índios da Amazónia? Claro que a música tem um papel central em VIRAMUNDO. A música serve de ligação entre continentes, culturas e gerações. Mesmo tendo-se envolvido na política, levado pela força das suas convicções e por uma indiscutível capacidade de comunicação, Gil sabe que a música e a poesia são as formas mais eficientes para chegar ao coração das coisas. 


A música é uma maneira muito forte de expressar a identidade ao mesmo tempo que é uma linguagem universal, capaz de transmitir para lá das palavras a possibilidade de viver em conjunto e a beleza da diversidade cultural. E Gilberto Gil é, certamente, um dos músicos mais qualificados no mundo para estabelecer estas ligações profundas entre géneros musicais aparentemente distantes, tendo já combinado na sua prolífica carreira a música popular brasileira com o rock, o reggae, os ritmos africanos. VIRAMUNDO é um diálogo musical mas não procura apagar as diferenças, nem mesmo as incompatibilidades. Parte daquilo que quero mostrar é a dificuldade em encontrar formas multiculturais que mantenham a identidade de cada grupo sem a diluir. VIRAMUNDO é uma tentativa de sintetizar uma realidade complexa, tal como fazem algumas das melhores canções de Gilberto Gil. Através da música, Gil parece capaz de transcender as fronteiras entre arte, cultura e política – um músico ativista assim como um político artista. Desde a terra de Gil na Baía, viajamos até à África do Sul e Austrália, antes de voltarmos ao Brasil para dar um concerto na floresta amazónica. Desde este local remoto ou de qualquer outro lugar, este é o som de um resistente ativo expressando a sua opinião e esperança para o mundo inteiro e contra a imposição de uma cultura maioritária.
Pierre-Yves Borgeaud




Dizemos adeus ao poeta António Ramos Rosa

Poucos saberão, mas um dos motivos de maior orgulho do Cineclube de Faro é poder contar, no conjunto dos seus sócios honorários, com o grande poeta de língua portuguesa, figura humanista e cidadão empenhado António Ramos Rosa. Natural de Faro, que deixou na sua juventude para de novo a ela retornar uns anos depois, antes de se instalar definitivamente em Lisboa, António Ramos Rosa foi um dos mais generosos sócios do Cineclube de Faro, associação na qual labutou e ajudou a firmar como um dos mais importantes cineclubes portugueses da sua época.

Foi em 1997 que pôde a Direcção do Cineclube fazer-lhe entrega em mão própria da medalha invocativa dessa condição de sócio honorário. Tal acto, integrado nos I Encontros de Cinema que se realizaram em Abril, foi registado pelas câmaras - as fotográficas e as audiovisuais, pois veio a constar do documentário de Diana Andringa sobre esta insigne figura, "António Ramos Rosa - estou vivo e escrevo sol".

Foi, para o Cineclube, um momento alto e muito grato - poder agradecer em presença as qualidades desta insigne figura que agora fisicamente nos deixou.

É assim com natural tristeza, reconhecimento e respeito que se redige esta pequena nota obituária; mas é igualmente com a convicção de que, como nunca nenhum grande poeta verdadeiramente morre, Ramos Rosa continuará vivo e a escrever sol em cada leitor que o for re/descobrindo em cada página dos seus livros.

À família do poeta a Direcção do Cineclube de Faro endereça as mais sentidas condolências.
DIA 26 DE SETEMBRO
21:30H|IPDJ
VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO, Marcelo Gomes, Brasil, 2009, 71’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Viajo porque preciso, volto porque te amo
Realização e Argumento: Marcelo Gomes e Karim Ainouz
Fotografia: Heloísa Passos
Montagem: Karen Harley
Interpretação: Irandhir Santos
Origem: Brasil
Ano: 2009
Duração: 71'

SINOPSE
"Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo" é, antes de tudo, uma estrada. O caminho percorrido pelo geólogo que escreve à mulher, e cujo texto escutamos. São estradas do Nordeste. Intermináveis, dão a impressão de levar do nada a parte alguma.


CRÍTICA 
A frase é retirada de um poster que um geólogo descobre num boteco nos confins do nordeste do Brasil. Essa frase, «meio hippy», é a pedra-de-toque deste filme feito a meias por dois dos melhores cineastas do cinema brasileiro, Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Uniram-se e fizeram um filme de estrada em que o rosto do protagonista é substituído pela narração. Entre o documental e o cinema livre, entramos no estado de espírito desse homem que viremos a saber que está de coração partido. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo tem qualquer coisa de trip de doce neo-realismo. Arrisca-se a ser o mais belo filme brasileiro desta década.
Rui Pedro TendinhaNotícias Magazine






A BATALHA DE TABATÔ, João Viana, 2013 | 17.09.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 17 DE SETEMBRO
A BATALHA DE TABATÔ, João Viana, Portugal, 2013, 78’

FICHA TÉCNICA SINOPSE
Título Original: A Batalha de Tabatô
Realização: João Viana
Argumento: João Viana
Fotografia: Mário Miranda
Som: António Pedro Figueiredo, Mário Dias, Nuno Carvalho, Joaquim
Direção Artística: Filipe André Alves
 Música Original: Pedro Carneiro
Montagem: Edgar Feldman
Interpretação: João Viana, Mamadu Baio, Fatu Diebaté, Imutar Djebaté
Origem: Portugal
Ano: 2013
Duração : 78’
M/12

SINOPSE
Depois de anos a viver em Portugal, o pai de Fatu regressa a África para assistir ao casamento da filha com Idrissa Djebaté. Ela é professora universitária e seu futuro marido é um músico conhecido. A festa de casamento é em Tabatô, um lugar extraordinário onde todos os seus habitantes são, há 500 anos, músicos djidius, cantores-poetas que narram contos e lendas representativos da vida africana. No caminho até lá, à medida que as recordações se avivam, o velho senhor começa a revelar traumas esquecidos da sua juventude, enquanto soldado mandinga na guerra colonial, décadas antes.
Filmado na Guiné- Bissau, é a primeira longa-metragem de ficção de João Viana, que foi distinguido com uma menção honrosa na edição de 2012 do Festival Internacional de Cinema de Berlim. 



CARTA DE INTENÇÕES DO REALIZADOR
“Sou músico tradicional. Sou eu Djeli Mamadou Kouyate, filho de Bintou Kouyate e de Kendian Kouyate, mestre na arte de falar. Desde tempos imemoriais os Kouyate estão ao serviço dos principes Keita do Mandé: nós somos os sacos de palavras, somos os sacos que guardam segredos várias vezes seculares. A arte de falar não tem segredos para nós; sem nós os nomes dos reis cairiam no esquecimento, nós somos a memória dos homens; através da palavra, nós damos vida aos feitos e aos gestos dos reis perante as novas gerações.” Para a maior parte das pessoas a Guiné é apenas o terceiro país mais pobre do mundo. Coincidência ou não as suas ilhas foram dos primeiros lugares a ser descobertos (e comercializados) pelos portugueses e a escravatura o seu primeiro negócio. Voltar hoje à Guiné é encontrar os rastos deste trauma colectivo, é encontrar a apregoada auto estima da população a "menos que zero". E no entanto... no centro da Guiné passa-se algo de extraordinário. Encontramos a ideia deste projecto não na Guiné (onde nunca tinha estado) mas em Berlim. Um jovem alemão, violinista, sonhava viajar para a Guiné para aprender Djembé (tambor de bater com as mãos). Isso apanhou-me logo de surpresa, porque quando era pequeno, em África, os nossos pais mandavam os filhos para a Alemanha para aprenderem violino: agora são os jovens alemães que sonham aprender música em África (?!) Ele falou-me de uma aldeia mítica entre os jovens alemães, nos confins de África, onde só viviam músicos, mestres extraordinários (os melhores do mundo) em instrumentos como os Balafons (uma espécie de xilofones de madeira com cabaças por baixo), Djembés, Dundumbás (tambores de bater com ferros), Negalins (tubos de ferro de tocar com os dedos) e Koras (violas de cabaças com 21 cordas). Como português senti-me envergonhado por nunca ter sabido dessa aldeia maravilhosa. Por não conhecer o que estava tão perto de mim. Pensei: tenho de filmar estas pessoas. Viajei, com o apoio do ICA para Baminatau. A primeira coisa que descobri é que na Guiné, com excepção do partido do governo, PAIGC, ninguém conhece esta aldeia, e quando conhecem, é só de nome. Depois de contactos vários e de viajar centenas de Kms, cheguei finalmente a TABATÔ. Encontrei também uma outra vila BOLAMA, uma espécie de negativo da aldeia dos músicos. Esta completamente silenciosa. Fiquei convencido de que havia filme. Fui apresentado ao Djidiu Mutar Djebaté, neto do Djidiu Bundunka Djebaté. A citação eloquente acima descrita dá-nos uma imagem do que são os djidius de TABATO e deste em particular: é o chefe da aldeia. Uma espécie de primeiro ministro. E exímio tocador de balafon. Acompanhou várias vezes os sucessivos governos da Guiné-Bissau em visitas oficiais. Não é de estranhar, por isso, ouvi-lo falar da China ou da Coreia. É ele que nos conta o mais extraordinário: durante o primeiro terço do sec XIII, o rei Sundjate Keita conduz a civilização mandinga às suas horas de glória com a edificação do império do Mali, que sucedeu o do Gana no controlo com o mercado do ouro com o Magrebe. A expansão da sua zona de influência estender-se-á até ao Atlântico e, na zona leste do actual território da Guiné-Bissau, penetrando no Senegal pelo sudeste até ao rio Gambia, virá a ser fundado o reino Kaabu, que manterá a sua influência até ao fim do sec. XIX, antes de ceder à expansão fula do Futa Djalon. É desta forma que, no início deste século, o seu avô e alguns membros da sua família, de passagem para a Gâmbia, vieram fixar-se na Guiné-Bissau, a pedido do rei fula local. Hoje, a totalidade dos habitantes da aldeia (300) são djidius – homens e mulheres – descendentes ou parentes de Bundunka Djebaté. Os djidius sempre tiveram um estatuto especial, mesmo entre os nyakamala. Sendo músicos, depositários do saber e transmissores do saber, não produzem nada de especial (a não ser os seus próprios instrumentos musicais) e estão totalmente dependentes da sociedade, sobretudo da nobreza (no passado), no que respeita ao seu sustento. A sua dependência material e o seu comportamento de desviados não deixam de suscitar um certo desprezo por parte dos guineenses. Mas enquanto guardas e depositários da tradição oral, único meio de transmissão do saber mandinga no seu conjunto, e como músicos, instrumentistas, cantores e mestres da palavra, impõem respeito. Em Tabatô vivem os seguintes grandes músicos: “Super Camarimba”, “Balafon de Tabato”, Yáyá (Gâmbia), Umarou Djebate (Canadá), Fillii (Ballet Nacional do Senegal). Algo se passa nesta aldeia. Na hora da partida Mutar disse-me: Faz o teu filme que nós construímos aqui a tua casa. Há um dom que veio ficar em Tabatô”. Eu respondi-lhe “Abarca” (obrigado em mandinga) e voltei a pensar que o cinema é a última forma de arte oral.

Este filme, uma vez feito, contribuirá para questionar não só a maneira como o mundo vê a Guiné mas sobretudo como os Guineenses se vêem a si próprios: Escravos ou Reis?





O regresso à actividade do CCF


Entre outras*, estas são algumas das propostas do CCF para o que resta do mês de Setembro e Outubro, esperamos que seja do vosso agrado e contamos com a vossa presença ;)

*Ps: Já agora o rol das outras propostas faz-se entre a colaboração com a Alliance Française de l'Algarve (Filme Françês do Mês), outra colaboração com o Barticafé (Filmes Jazz) e a parceria com a Sciaena/UAlg para o mini-festival Beneath the Waves e ainda o apoio ao FICSAM.

Saudações Cineclubistas!!!

18 de Junho - JOSÉ & PILAR, Miguel Gonçalves Mendes, 2010 | 21:30, IPDJ

O Cineclube de Faro exibe esta noite, pelas 21:30 no auditório do IPDJ o filme "José & Pilar" de Miguel Gonçalves Mendes, numa iniciativa que une a Produtora (Jumpcut) e vários cineclubes e instituições de Norte a Sul de Portugal numa homenagem a José Saramago, no dia em que se cumprem 3 anos desde a sua morte.

A Sessão é gratuita :)

Até logo:)


http://www.joseepilar.com/

FAUSTO, Aleksandr Sokurov, 2011 | 11.06.13 | Auditório do IPDJ, 21:30



DIA 11 DE JUNHO
FAUSTO, Aleksandr Sokurov, Rússia, 2011, 140’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Faust
Realização: Aleksandr Sokurov
Argumento: Aleksandr Sokurov, Marina Koreneva
Director de Fotografia: Bruno Delbonnel
Montagem: Jörg Hauschild
Interpretação: Johannes Zeiler , Anton Adasinsky , Isolda Dychauk , Georg Friedrich
Origem: Rússia
Ano: 2011
Duração : 134’


SINOPSE
Livremente inspirado na obra de Goethe,  Aleksandr Sokurov reinterpreta radicalmente o mito. Fausto é um pensador, um rebelde e um pioneiro, mas também um homem anónimo feito de carne e sangue, conduzido pela luxúria, a ganância e os instintos.
Fausto (Johannes Zeiler) é um homem sábio que se sente frustrado com os limites do conhecimento humano ; as suas experiências para transformar metais em ouro falham sucessivamente, questiona a natureza da alma humana, e está apaixonado por Margarete (Isolda Dychauk), uma mulher que não mostra o mínimo interesse por ele.
Enquanto deambula por uma curiosa casa de penhores, Fausto encontra um agiota desagradável mas falador (Anton Adasinskiy) que lhe propõe o amor de Margarete em troca de um documento assinado onde o cientista se compromete a ceder a sua alma…



CRÍTICA:
Depois de “Moloch” (1999), “Taurus” (2000) e “O Sol” (2005), numa viagem atormentada por alguns dos protagonistas do poder no século XX (Hitler, Lenine e o imperador Hirohito), nada mais natural do que ver Aleksandr Sokurov a abordar a mais acabada das personagens dispostas a vender a alma por algo que se avalia inatingível. Neste caso, todavia, o objetivo não parece ter desmesura que baste, não é um império milenar, nem a transformação radical da rota dos humanos, nem a divindade. Fausto vende a sua alma por uma noite com Margarida, que tem o rosto das Madonnas de Botticelli, mas que não parece impossível de seduzir pelo belo  cientista que procura a alma no âmago dos cadáveres que disseca, Talvez Sokurov nos queira dizer que o gesto de ceder aos torneios do demónio não é uma questão do que se terá em troca, mas um capricho cuja valia está dentro de cada um dos que estão dispostos a mercadejar o que não tem preço.
Como sempre neste cineasta embaído pelas manipulações das imagens e dos sons, “Fausto”, que venceu o Leão de Ouro de Veneza 2011, é um filme visualmente hipnótico em que algumas das representações icónicas são deveras penetrantes. É o caso do satânico Mefistófeles, que nunca é designado por esse nome, mas a quem é atribuída a profissão de  prestamista, figurado como uma espécie de larva sebosa e assexuada (a sequência dos banhos, em que ele assim se revela, é um dos momentos mais fortes do filme). Ou a figuração da união de amor em precipício de morte que as artes maléficas do tentador propiciam, conúbio perfeito entre o lirismo mais exacerbado e um peso funéreo irremível. Ou, ainda, certos momentos de contemplação dos rostos, transfigurados pela luz e pelos matizes de cor que o pincel fílmico do realizador concretiza (mas, atenção, a direção de fotografia é assinada pelo grande Bruno Délbonnel, cujos méritos já vimos bem materializados em “O Fabuloso Destino de Amélie” ou “Sombras da Escuridão”). Ou, melhor do que tudo, todo o espaço da longa sequência final em que Fausto já está no tártaro, mas ainda não se deu conta, entusiasmado por ir mais além no conhecimento. É filmado na fronteira gélida de um glaciar na Islândia, a par com uma caldeira vulcânica, em montes escarvados, um território surpreendente se pensarmos nas tradicionais figurações dos infernos. Mas nada espantoso se pensarmos no que significa, na tradição judaico-cristã, esse lugar de danação: o afastamento absoluto do rosto de Deus, ou seja, a ausência do amor — em suma, a solidão.
“Fausto” é um filme que se vê como quem se deixa possuir pela embriaguez — ou não se vê de todo. Por vezes há matérias cuja decifração é indiscernível (porquê a exuberância do guarda-roupa da mulher do prestamista?) e não há que procurar um encadeamento de sentido orientado. Mas a quem se deixar penetrar pelo encantamento está prometida uma ímpar jornada. 
Jorge Leitão Ramos, Expresso, 13/4/13




ALEKSANDR SOKUROV EM ENTREVISTA
Trabalhou a partir de Goethe? Qual é a sua distância em relação ao mito de origem?
A distância é grande, tal como era a que existia entre a lenda e aquilo que Goethe escreveu. O FAUSTO que me serviu de base é acima de tudo a obra de arte inventada e escrita por Goethe; a certa altura o projecto chamava-se mesmo « Goethe e Thomas Mann ». Goethe sentia-se muito livre relativamente ao
mito. Penso que ele não era um homem do século XVIII. Era, talvez possamos dizer, um homem do século XXIII. A sua ligação com a cultura medieval, que viu nascer a lenda, é muito discutível. Mas essa ligação existe, e sobretudo através da linguagem: nas particularidades da língua alemã, na sua brutalidade, no seu dramatismo, nos seus aspectos aguçados.
Mergulha-se na obra de Goethe em luta com uma certa rigidez antiquada da língua. É necessário ter-se consciência do tempo que foi necessário para o autor desenvolver as suas duas partes: quase cinquenta anos. Raramente as obras literárias surgem rapidamente. Goethe serviu-se do tempo para ir além da lenda e estabeleceu fundações para um novo mito. Quando se é confrontado verdadeiramente com problemas climáticos, quando a vida das pessoas se torna cada vez mais complicada com a evolução da crise económica, relê-se FAUSTO.
Qual foi o ponto de partida para trabalhar esta adaptação?
Eu crio uma obra visual, a sua distância com a obra literária é um grande problema. Um dos problemas principais é a questão dos detalhes. Goethe tem a capacidade única de não mencionar os detalhes: não sabemos nada sobre a vida de FAUSTO. E no entanto emerge uma personagem incrível, gigantesca, uma espécie de monólito. Porquê? Porque ele está sempre a falar. Nos espectáculos adaptados desta obra, em todos os teatros do mundo, a personagem esgota o espectador através da sua verbosidade, pelo frenesi de frases acutilantes…
Imaginem estes encadeamentos de fórmulas filosóficas ditas com as graves entoações da língua alemã: o espectador não sabe mais onde se esconder. E sai do espectáculo sem saber quem é FAUSTO. Essa foi a minha tarefa principal: tentar criar este homem, a minha versão.
Dediquei-me a tentar aprofundar a sua biografia. É difícil, tendo em conta que se trata de uma personagem mitológica. Mas um cineasta precisa disso, porque vai mostrar um ser humano no ecrã. É um grande problema saber como ele é, qual a sua personalidade. Temos de procurar o seu pai e a sua mãe, sem os quais não é possível acreditar. Isso não interessava a Goethe; não estava interessado nas suas pernas, apenas nos seus pensamentos eruditos, na sua cabeça voadora. Mas o que há abaixo dessa cabeça? Como é que ele se veste? O que come? Esse é o problema: como passar do mito à vida.
Como chegou até à vida desta personagem?
Recusei concentrar-me em pensamentos filosóficos para que não se tornasse numa confusão. Escolhemos mostrar uma história humana, de forma a vermos um homem no ecrã. E passa-se numa época incerta. FAUSTO ocupa um espaço social, ele tem a cabeça no lugar, uma boa educação. Porém, encontra-se numa posição difícil, humanamente. Como assim? Onde é que ele mora? Quais são os seus erros? Ele decide em consciência, mas também erra sem compreender. Até mesmo alguém com a mesma educação e inteligência de FAUSTO, um monólito, erra por falta de julgamento. O quê? FAUSTO não é capaz de avaliar uma situação? FAUSTO está errado? Como é possível? Mas é o FAUSTO! É
precisamente isto que faz a camada superficial do filme, que não pretende uma leitura completa da obra. Eu quero sobretudo que as pessoas queiram ler as obras. Ler Goethe! Eu, o realizador Sokurov, sou um pequeno homem que lança a pedra para que ela se mova para o mais longe possível. Se eu conseguir
espicaçar a curiosidade de um espectador, então já cumpri o meu papel.
Ao mesmo tempo, este filme é uma parte de uma tetralogia. Na sua dramaturgia, a sua atmosfera emocional, existem ligações que eu já tinha feito nos filmes anteriores. O actor que interpreta Hitler em Moloch, Leonid Mozgovoy, encarna o pai de FAUSTO. E na minha imaginação, tal como idealizei, sem saber se o consegui, queria que a tetralogia não fosse linear, mas antes um círculo. Neste círculo, os laços vão interligando personagens e momentos históricos muito distantes.
Como se desenrola um processo de adaptação tão delicado? O trabalho inicial sobre a história já contém as primeiras visões ou directrizes visuais?
Para mim, o filme é como uma árvore à qual deve ser permitido crescer. Quando a vemos a brotar do solo, parece-se muito pouco com a árvore em que se vai tornar. Quando nos deparamos face a um poder como o do texto do Goethe, é ainda mais difícil deixar crescer a árvore do filme, à sombra de um tal texto… É preciso ter muito cuidado.
Trabalhar numa língua estrangeira é um caso particular, porque implica encaixar o trabalho no guião literário, que se torna uma espécie de solo a arar cada vez mais para que a árvore cresça correctamente. Contei ao argumentista a minha ideia. As personagens e as grandes linhas do tema principal eram já claras para mim, tal como as acções e as emoções das personagens. O argumentista esboçou um rascunho geral de situações e diálogos, em russo. Depois comecei a adaptar tudo para alemão e no final restou muito pouco do guião inicial. Para o trabalho de um escritor, tal como para o de um actor, a distância entre línguas é grande, na atmosfera emocional, no temperamento. Os meios para exprimir o pensamento filosófico são diferente : em russo, ele toma uma tonalidade quase terna, suave. Na Rússia, somos apaixonados pela Filosofia, encaramo-la um pouco como a Música. Na Alemanha é o inverso. E isso acontece da mesma forma com o trabalho de um actor. Se um actor russo interpreta um alemão, mas em russo, será impossível recorrer à dobragem posteriormente – a natureza da dicção é muito diferente, a acentuação lógica e emocional é enfatuada em momentos diferentes.
É por isso que a tradução é uma segunda escrita, que afasta o argumento da sua primeira versão. Isto para vos explicar que essa etapa do trabalho é muito delicada. A tradução é o nascimento do próprio filme, que é filmado a partir deste segundo texto. Existem novas personagens, novas situações… E ainda durante a rodagem, constantemente, surgem alterações. Porque o sentido que está expresso nas palavras é também interpretado de outras formas, pela simples presença dos actores, pelos objectos, pela luz. E não podemos sobrecarregar o espectador. Por isso eu lanço os diálogos e as cenas suavemente.
Cyril Béghin, Cahiers du Cinéma nº 663