19.03.13, IPDJ 21:30 - REALITY - Matteo Garrone



DIA 19 de Março
REALITY, Matteo Garrone,  Itália/França, 2012,116', M/12

FICHA TÉCNICA
Realização: Matteo Garrone 
Argumento: Maurizio BraucciUgo Chiti,Matteo GarroneMassimo Gaudioso 
Música: Alexandre Desplat 
Montagem: Marco Spoletini A.M.C.
Fotografia: Marco Onorato 
Interpretação: Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone, Nunzia Schiano, Nello Iorio, Giuseppina Cervizzi, Rosaria D'urso, Graziella Marina, Raffaele Ferrante e Carlo Del Sorbo
Origem: Itália/França
Ano: 2012
Duração: 116'


SINOPSE
É a história de Luciano, napolitano, e da sua família que um dia o convence a concorrer ao Big Brother. E de como o perseguir de um sonho tolda a sua percepção da realidade.


TRAILER
http://cinema.sapo.pt/filme/reality/video/Tw0jltkZndFFn3aBvzC4
 CRÍTICA:

Grande Prémio de Cannes/2012: grande filme italiano sobre as monstruosidades do formato Big BrotherReality é também um apelo à reflexão sobre um dos aspectos mais sinistros da televisão contemporânea — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Janeiro), com o título 'Horrores do nosso quotidiano'.
De que falamos quando falamos de “reality TV”? O que está em causa quando falamos de programas como o Big Brother e seus derivados? Um discurso demagógico, enraizado no próprio imaginário desses programas, tenta há muitos anos mascarar a gravidade das questões em jogo: apenas um “divertimento” sem consequências (e, para mais, o nível de audiências garante os lucros de quem produz, difunde e publicita). Em boa verdade, estamos perante um dos sectores mais degradados da televisão, não apenas promovendo o esvaziamento mental de personagens e espectadores, mas também reduzindo o factor humano a um item irrelevante, para usar e deitar fora.
O filme Reality, de Matteo Garrone, mostra a violência moral e simbólica de tudo isso. E o simples facto de o fazer envolve uma lição exemplar: a preocupação com os efeitos perniciosos da “reality TV” não é um cavalo de batalha de alguns críticos de televisão e dos media. Nada disso. Vindo de um cinema italiano que não desiste de reflectir sobre o presente do seu país, Reality é o testemunho muito palpável de uma visão (europeia,hélas!) empenhada, não em demonizar a televisão, mas sim em recusar qualquer complacência com os seus horrores quotidianos.
Nesta perspectiva, Garrone é um legítimo e brilhante herdeiro de um cinema que, de Federico Fellini a Mario Monnicelli, passando pelos muito esquecidos Dino Risi ou Luigi Comencini, sempre nasceu de um amor, radical e paradoxal, pela Itália. As personagens de Reality vivem, afinal, uma das maiores tragédias contemporâneas: a de serem sugadas pelo mais torpe imaginário televisivo, nesse processo desleixando a sua dignidade e, no limite, alienando a sua identidade. Este é, por isso, um filme genuinamente político, até porque lida com questões que a maioria da classe política, lá como cá, recobre com o seu lamentável silêncio.
João Lopes, sound--vision.blogspot.pt/
 

Reality, de Matteo Garrone, fica à porta do Big Brother. O que não significa que não entre dentro das nossas fantasias. Não é um filme sobre um reality show, é um filme sobre o que se passa na cabeça de uma personagem, Luciano, que sonha com a sua entrada na casa, conformando aos poucos a sua “realidade” a essa obsessão — ou seja, e muito provavelmente, enlouquecendo.
Disto isto, Reality nada tem a ver com o filme de denúncia. Investe antes a sua energia em aproximar-se de uma família napolitana, num balanço delicado que luta para ser estabelecido. E é isso que ganha o filme. Faz ouvir nele uma voz selvagem e frágil, fantasiosa e apocalíptica, que já se ouvia em Gomorra, aliás, o anterior filme do cineasta romano de 43 anos. É a voz de um certo património cinematográfico italiano, aquele que construíram Dino Risi, Mario Monicelli ou Federico Fellini, e outros: um território em que a ferocidade do real é sempre interceptada pela selvajaria da fantasia.
críticas a Reality que perguntam: porquê um filme agora sobre o Big Brother, quando isso “já era”? Na verdade, Reality não é um filme que chega atrasado porque não é um filme sobre o Big Brother. Provavelmente nem é um filme sobre a televisão. Podíamos substituir “televisão” e “Big Brother” por outras coisas, no final ficaria sempre o desejo de evasão, a fantasia.
Sim, é um filme sobre a ilusão. Sobre o desejo e as suas consequências.
Pode-se estabelecer um link com Gomorra (2008), o seu filme anterior. Estava a pensar no livro de Roberto Saviano que deu origem a esse filme. Ele conta aí a história de um mafioso que construiu uma casa igual à de A1 Pacino em Scarface, o fi1me de Brian de Palma. Foi o cinema, diz Saviano, que alimentou a fantasia dos mafiosos, e não o contrário. Também as personagens dos seus filmes, no fundo, estão encerradas nas suas próprias fantasias. Basta ver o final de Reality...
Sim, há um paralelo com Gomorra. Gomorra mostrava o sistema criminal, e contava isso de baixo, do lado das vítimas. Reality talvez seja também um filme sobre um sistema, mas o sistema do mundo do espectáculo. E também aqui ele é contado de baixo. É um filme, também, que mostra o contágio: do indivíduo para a família, da família para o bairro, e assim sucessivamente.
É verdade que em Gomorra as personagens vestem o modelo dos seus heróis. Saviano, sim, dizia que não era a realidade que inspirava o cinema mas o cinema que inspirava a realidade. Parece-me um conceito interessante. Mas Luciano, em Reality, é alguém que inventa uma personagem. E tenta estar à altura disso. E aí perde-se. E quase pirandelliano.
E o que é que isso faz do cineasta Garrone? Um realizador “realista” ou um realizador “da fantasia”?
As duas coisas. Neste filme, em particular, a dificuldade é sempre esse equilíbrio entre a adesão onírica e a realidade.
Não é isso, o desejo de evasão a penetrar a ferocidade do real, o legado do cinema italiano, tal como ele dominou o mundo nos anos 60 e 70?
Reality é um filme muito construído, ao nível da cenografia, da fotografia... Sim, é um filme com uma grande influência do cinema italiano dos anos 50/60, de algumas comédias dessa altura que têm argumentos próximos deste. O mais próximo de todos talvez seja O Sheik Branco, de Fellini (1952), que era um filme que reflectia sobre as consequências do sonho, da ilusão — e as possibilidades que existem dentro do sonho [história de uma recém-casada que chega a Roma para a lua-de-mel, e que se escapa do hotel e do marido para encontrar o seu herói de uma fotonovela romântica].
E um filme mais tardio, Ginger e Fred (1986)?
Também. Mas esse é um filme que Fellini roda quando está cansado.
É um filme cínico...
É um filme cínico porque nasce de uma nostalgia para com um mundo que acabou. Para além de O Sheik Branco, por causa do argumento, o que me inspirou sempre, e que tem esse mistério, essa poesia, essa herança de que falava, e que de certa forma aponta o mundo da televisão, é um filme de Fellini chamado Toby Damnit [com Terence Stamp, é um episódio de Histórias Extraordinárias, filme de 1968 que juntava ao de Fellini episódios de Louis Malle e Roger Vadim]. Reality é um filme que se faz sem querer fazer juízo sobre as personagens. Pelo contrário, quero ligar-me às personagens. Tentar amá-las. Como sempre fez Fellini. Nem sequer quero fazer juízos contra a televisão. Quis mesmo tentar amar os programas de televisão de que à partida não gostava.
É nesse sentido que, por exemplo, aquele plano-sequência inicial, o olhar de cima sobre a carruagem, tanto pode ser um olhar de fábula como a adopção de um dispositivo de espectacularização usado pelos reality shows quando querem mostrar os concorrentes de um programa? O que fazer: filmar contra a televisão ou adoptar, para lhes dar a volta, alguns dos seus “sinais”?
Esse início, o olhar vindo do céu, era uma forma de declarar que tudo pode ser um sonho, uma fábula. Reality começa com aquilo que podia ser o final de uma fábula, um casamento. E acaba como um filme de ficção científica. Nunca me pus o problema da natureza das imagens de televisão. O cinema que se fez sobre a televisão não me interessou. Interessou-me mais um filme como O Inquilino, de Polanski: é-me mais próximo pela forma como ali alguém perde a sua identidade.
Há cenários de Reality que são declaradamente artificiais, mas há um o espaço onde vivem as personagens — que estabelece as figuras como sobreviventes de um tempo ancestral. Esse espaço existe mesmo ou, num filme que, como disse, foi todo “construído”, é ele próprio um cenário?
Existe mesmo. Quis mostrar o contraste entre uma parte da cidade de Nápoles que está ainda ligada ao passado e outra que já é, ela própria, construída como uma série de sets artificiais, como um reality show ao vivo — o aquaparque, o centro comercial... É um contraste que atravessa toda a Itália, mas em Nápoles está extremado.
Os seus filmes dão visibilidade a uma grande variedade humana em termos físicos corpos que o cinema não costuma gostar de ver.
Eu venho da pintura. A expressividade física, para mim, é fundamental.
Há algo no intérprete deste filme, Aniello Arena, que lembra Totò. Cruzado com...
Sylvester Stallone
Ia dizer Robert DeNiro. O jovem DeNiro mas também o DeNiro do filme de Martin Scorsese O Rei da Comédia (1983)...
Rupert Pupkin, chamava-se. O que me impressionou nele foi a força expressiva do olhar. Isso era justo para esta personagem: tinha de ter a candura de um Pinóquio moderno. Esta é a história de uma ilusão. E Aniello integra isso no seu melhor.
Aniello está preso, na realidade. O facto de viver num mundo à parte, controlado, de não estar “no meio de nós”, teve alguma ressonância na sua escolha, naquilo que viu quando o descobriu?
Sim, isso foi um va1or que se acrescentou. A personagem que interpreta devia ter sempre a surpresa no olhar. E Aniello casou alguns elementos da personagem com aspectos da sua própria vida. No fundo, acabou por descobrir, com a personagem, um mundo que ele não via há décadas.
E um cineasta nascido em Roma, onde vive. O que o leva a Nápoles para filmar?
Esta história aconteceu ali. Gomorra já era baseado num livro cuja história se passava a1i. Diria que em Nápoles se encontram mais facilmente as contradições que existem em Itália. Coisas ligadas ao passado, à história dos lugares... E Nápoles é uma cidade muito rica em rostos. Fellini adorava ir a Nápoles à procura de gente para os seus filmes, fazia ali o casting, embora depois filmasse em Roma, na Cinecittà. Para um realizador, Nápoles é uma cidade muito sugestiva. O problema, quando se filma ali, é conseguir meter ordem no caos. Gosto de ter ideias claras sobre o que quero. Como um pescador quando vai pescar: tem de saber exactamente a zona onde quer pescar. Mas gosto do caos. Não se pode é confundir o caos com confusão.
Vasco Câmara, Público, 18/1/13

12 de Março, 21:30, IPDJ, AMOUR...



DIA 12 DE MARÇO, AMOR, Michael Haneke, Fra/2012
FICHA TÉCNICA
Título Original: Amour
Argumento e Realização - Michael Haneke
Actores:
Jean-Louis Trintignant - Georges
Emmanuelle Riva - Anne
Isabelle Huppert - Eva
Alexandre Tharaud - Alexandre
William Shimell - Geoff
Rita Blanco - Porteira
Ano de Produção: 2012
País: França
Director de Fotografia - Darius Khondji
Montagem - Nadine Muse, Monika Willi
Som - Jean-Pierre Laforce, Guillaume Sciama
Duração :125 minutos

SINOPSE: Georges e Anne são octogenários, pessoas cultas, professores de música reformados. A filha, igualmente música, vive no estrangeiro com a família. Um dia, Anne é vítima de um acidente. O amor que une este casal vai ser posto à prova…

TRAILER: http://vimeo.com/53501663

CRÍTICA:
"Haneke arromba um apartamento, mas negoceia a intro­mis­são. Não podia ser de outra maneira: os vivos não percebem nada dos mortos

Quando Georges/Jean-Louis Trintignant e Anne/Emmanuelle Riva entram no seu apartamento de Paris, depois de um concerto, e espantam o medo de serem assaltados (porque descobriram marcas de esforço na porta de casa ou porque sabem dos medos que assombram outros casais da sua entourage...), o que faz, já lá dentro do apartamento, uma câmara de cinema?

Não é essa a primeira sequência de "Amor", essa aconteceu minutos antes, aquele primeiro plano do filme com que se arromba, literalmente, o ecrã. Que nos diz que o cinema é sempre intruso, viola a intimidade.
Se juntarmos a esse, aquele plano fixo do concerto (enquadramento algo “oliveiriano”, aliás), em que a câmara está no palco e encara os espectadores, entre os quais Georges e Anne, como se as personagens fossem o “espectáculo”, sente-se que "Amor" começa logo com consciência do vampirismo que por aqui se transacciona.
É isto: o cinema não resiste à tentação de arrombar por­tas. Essa lucidez é vital numa era em que, aqui e ali, paira um puritanismo que nos diz o que se deve/como se deve ou não fil­mar, o que faz “bem” e o que faz “mal” - recordem-se as reacções a Nana, de Valérie Massadian (por causa da cena da matança do porco e da actriz-cri­ança) ou a Michael, realizado por um ex-assistente de Haneke, Markus Schleinzer (por causa do actor-criança e do actor-pedó­filo) que parecem querer reservar para o cinema o espaço para experiências de Spa emocional mais ou menos redentoras. Sim, o cinema pode fazer “mal”, sim; se não fôsse­mos suas víti­mas não estaríamos aqui...
A câmara, em Amor, está dentro do apartamento de Georges e Anne, à espera deles, sabendo que os pode assaltar. Mas sabendo-o, vai aprendendo a não o fazer e a estar atenta aos ritmos de um velho casal (na nossa cabeça há um diálogo virtual, por causa da clausura e dos ritmos, a ser travado entre o apartamento de Haneke e o apartamento do Porto de A Nossa Forma de Vida, de Pedro Filipe Marques, vencedor da competição nacional do Doclisboa 2011). Será por essa aprendizagem que Amor é um dos filmes maiores do austríaco, juntamente com A Pianista, outra obra em que o melodrama é a impressão digital: é que em vez de utilizar o espectador para a sua experiência, em vez de se interessar apenas por confirmar um resultado, submete-se, testa-se num processo. Vai aprendendo o que fazer com a proximidade, com a intimidade. E com o amor. E com a morte.
Quando Isabelle Huppert, que interpreta a filha do casal Trintignant/Riva, diz ao pai - já Riva pediu a Trintignant que a ajudasse a acabar com o seu sofrimento - que se recorda de, em pequena, entrar em casa e ouvir os sons dos adultos a fazerem amor, o que a sossegava porque garantia que os pais iriam ficar juntos para sempre, isso é como uma memória que o filme aprende a construir, como uma ética, enquanto tacteia com os enquadramentos a intimidade e esbarra num amor inviolável. Trintignant e Riva começam por existir em campo-contra-campo (sequência do pequeno almoço, quando se dá o “acidente”). Depois são uma parede cúmplice face à curiosidade e ao interesse dos outros (a visita do músico: os dois juntos no plano). Finalmente, é Trintignant, quando Riva desaparece, que se assume como guardião desse mundo, o dos mortos, para o qual foi atraído pelos sonhos - e sobre o qual, testemunhou ele no funeral de um amigo, os vivos têm uma aflita ignorância. Há qualquer coisa de entronização nesse desenho. E que seja Huppert a fazer de “visita”, não será um acaso: Huppert (O Tempo do Lobo, A Pianista) “é” também o aparato cinematográfico de Haneke. No final somos todos “visitas” de um templo de memória.
O que é leal em Amor, filme que começa com o cinema a arrombar as portas de uma intimidade, é a per­ma­nente nego­ci­ação dessa intro­mis­são. Não podia ser de outra maneira: os vivos não percebem nada dos mortos."
Vasco Câmara, Ipsilon












3ª feira |05-03-2013| 21:30, IPDJ, HOLY MOTORS - Leos Carax


DIA 5 DE MARÇO, HOLY MOTORS, Leos Carax, França/Alemanha, 2012, 115’, M/16

FICHA TÉCNICA
Título Original: Holy Motors
Realização e Argumento: Leos Carax
Fotografia: Caroline Champetier
Montagem: Nelly Quettier
Interpretação: Denis Lavant, Édith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Michel Piccoli, Jeanne Disson
Origem: França/Alemanha
Ano: 2012
Duração: 115’

SINOPSE
Algumas horas na existência do Senhor Oscar, um ser que viaja de vida em vida. Ora um abastado homem de negócios ou um assassino, ora um pedinte ou um pai de família. Está sozinho, acompanhado apenas por Céline, uma senhora loira e alta aos comandos da imensa limousine que o transporta.
Persegue a beleza do gesto, do motor da acção, das mulheres e dos fantasmas da sua vida. Mas onde fica a sua casa? Onde está a sua família? Onde e quando descansa?

TRAILER: 
 

 CRÍTICAS:
De onde vêm os motores do título? Certamente de um tempo em que fazer um filme era uma quimera, equivalente à glória de outrora. O sr. Oscar (Denis Lavant) fala desse tempo, num breve intermezzo a meio de “Holy Motors”, quando a sua jornada de trabalho ainda vai a meio. É quando ele encontra na sua limusina um misterioso homem com a cara desfigurada (breve aparição de Michel Piccoli), recordando que “quando eu era novo, as câmaras eram mais pesadas do que nós. Agora, são mais pequenas do que as nossas cabeças.” Muito mais tarde, e no mais belo gag do filme, as limusinas, finalmente abandonadas pelos seus condutores sem rosto (a Edith Scob de “Les Yeux Sans Visage”), acendem os quatro piscas e conversam, sonhando por melhores dias. Resumem no fundo o lamento que o sr. Oscar não conseguiu pronunciar quando se questionou se o seu métier, feito assim, só pela “beleza do gesto” (expressão de Godard que Carax, seu ilegítimo herdeiro, reutiliza), ainda serve para alguma coisa. Ë então que se ouve a frase--chave: “os homens já não querem saber de máquinas visíveis.” Se “Holy Motors” é um filme sobre o cinema, é provável que, no mundo virtual em que o sr. Oscar agora se encontra, já não seja visível quem o observa, se é que alguém o observa ainda.
Não é fácil descrever o que faz Denis Lavant em “HoIy Motors”. Não me recordo de outro desempenho assim, em que um ator é tão capaz de falar do que é ser ator, transformando-se ora em mimo, ora em atleta, ora em bailarino, ora em performer de artes marciais e artista de circo, de rendez-vous em rendez-vous. O sr. Oscar será um banqueiro poderoso na primeira das suas atuações. Mascarar-se-á de velha mendiga corcunda. Será cibercriatura numa erótica coreografia com artes marciais em motion capture. Andará nos esgotos de Paris até chegar ao cemitério do Père Lachaise, raptando uma modelo (Eva Mendes) que ele levará aos ombros para o subsolo (Carax tinha pensado numa versão de “La Belle et la Bête”, com Kate Moss). Mas o sr. Oscar será também pai de família preocupado com a filha teenager, gangster que mata e é morto pelo seu próprio duplo, velho milionário à beira do último suspiro num quarto de hotel e de novo pai de família, quando a jornada acaba, num bairro social periférico, antes das limusinas se dirigirem para a garagem que está nesta foto.
E é ainda mais, o sr. Oscar: nos seus desdobramentos, esconde-se a persona de Leos Carax. Isto torna-se claro no momento em que o sr. Oscar, a meio do seu périplo, se depara com um acidente de limusinas que não fazia parte da agenda. O protagonista encontra então uma mulher que ele conheceu. Ela é uma famosa atriz. Concede-lhe 20 minutos para recuperar 20 anos e não lhes sobreviverá. E é no telhado da Samaritaine, lendário armazém comercial de Paris, hoje em ruína, que nós estamos, à frente da ponte de Denis Lavant e Juliette Binoche em “Les Amants du Pont Neuf’, realizado há 20 anos. Se Carax visita o seu próprio cinema e o cinema todo nestes aller-retours, é curioso notar que, no lugar de Binoche (para quem o papel foi escrito) surge a cantora pop Kylie Minogue, que cantará uma canção com “essa voz saída de um corpo de elfo que é a infância da arte” (Carax dixit). É um momento fulgurante de emoção e fusão da vida e dos filmes. Aqui se assinala a ideia preciosa de Carax de que fazer um filme é também saber falar, sem se notar, de uma autobiografia.
Não me parece contudo que “Holy Motors” tenda um segundo que seja para a homenagem ao cinema. Trata-se antes de provocar o espectador, convidando-o a um sentimento de partilha afetiva que parte de fonte inesperada, a do protocinema do cronofotógrafo. Étienne-Jules Marey (1830-1904), que abre e encerra o filme. Vestido de pijama, no prólogo dos trabalhos do sr. Oscar, é o próprio Carax quem descobre uma porta escondida no seu quarto, levando-nos por ela a uma sala de cinema de outros tempos, cheia de espectadores-fantasmas. Podem eles recuperar desse estado latente, acreditando em Iimusinas falantes? 
Como reagir ao luto de “Holy Motors”? À sua euforia? Ao seu tremor de terra? Carax afasta-se de um casulo chamado ‘história do cinema’ para reedificar o seu mito, encontrando pelo caminho a porta de regresso que o traz de volta ao contemporâneo. Tantos filmes nessa história (veja-se o caso de “Vertigo”, esta semana reposto em cópia nova) foram diminuídos quando estrearam por exigirem uma reação imediata ao seu brio. “Holy Motors” tem esse brio. É um filme que vai ficar. Talvez não seja a morte do cinema o que aqui está em causa, antes a crença de que o seu tempo, afinal, é imortal.
Jorge Leitão Ramos, Expresso, 22/12/12