A VIDA DE ADÈLE| Abdellatif Kechiche| 2013| 07.01.2014| Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 07 DE JANEIRO
A VIDA DE ADÈLE, Abdellatif Kechiche, França| Espanha| Bélgica, 2013, 179', M/16

FICHA TÉCNICA

Título Original: La Vie d’Adèle: Chapitres 1 et 2
Realização: Abdellatif Kechiche
Argumento: Abdellatif Kechiche e Ghalya Lacroix  -livremente inspirado no livro “Le bleu est une couleur chaude” de Julie Maroh
Fotografia: Sofia El Fani
Montagem: Camille Toubkis, Albertine Lastera, Jean-Marie Lengelle, Ghaly Lacroix
Som: Jean-Paul Hurier, Jerôme Chenevoy
Interpretação: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée
Origem: França, Espanha, Bélgica
Ano: 2013
Duração: 179’
M/16


SINOPSE
Adèle tem 15 anos e, tal como todas as raparigas que conhece, namora com rapazes. Tudo aquilo em que acredita se altera quando o seu olhar se cruza com o de Emma, uma rapariga de cabelo azul, cuja visão da vida e do mundo é muito diferente da sua. Entre elas nasce um amor e desejo profundo que, apesar das dificuldades, as fará crescer e afirmar-se enquanto mulheres.

PRÉMIOS
Vencedor da Palma de Ouro da 66.ª edição do Festival de Cannes, cujo júri quis, com este prémio, homenagear não apenas o trabalho do realizador, mas também o de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, as duas actrizes protagonistas

TRAILER



CRÍTICA
Talvez se deva começar pelo que há de para­doxal em A Vida de Adèle: capí­tu­los 1 e 2, filme sobre a edu­cação sentimental de uma jovem sub­urbana (Adèle) a par­tir do momento em que se cruza com Emma (Léa Seydoux). E é isto: o que tem sido posto em mar­cha pelo cin­ema de Kechiche, a expressão sen­sual de um tecido social e afec­tivo, parece imobilizar-se aqui, ou congelar-se.

Isto ape­sar de os “capí­tu­los 1 e 2” do título, ao pis­carem o olho à incom­ple­tude de La Vie de Mar­i­anne, de Mari­vaux, pis­carem o olho ao movi­mento. Se tivermos em conta a boutade (talvez nem tenha sido isso) do crítico francês Serge Kaganski, no pós-Cannes, dizendo sobre Kechiche: “le plus grand cinéaste français actuel est d''origine tunisi­enne, qu''on se le dise et redise”, talvez se possa acrescentar, como uma extrapolação, que se detecta aqui um movimento, consciente ou inconsciente, em direcção a algo de mais reconhecível e figé - o filme de ini­ci­ação tal como cul­ti­vado pelos framceses (Pialat, Doil­lon, Téch­iné, Eustache...). Kaganski, aliás, continuava, falando numa “obra-prima tão francesa ded­i­cada aos sen­ti­dos e à liber­dade dos indi­ví­duos, banhada pelas grandes refer­ên­cias cul­tur­ais nacionais (Mari­vaux, Picasso, Sartre, vinho branco...).” Que nos seja permitido continuar a extrapolação: é este o dilema, entre movimento e fixação, de A Vida de Adèle: a monumentalidade coral de O Seg­redo de um Cus­cuz (2007), por exemplo, a forma como nesse filme o corpo de Hafsia Herzi era submetido a um mecanismo que o ultrapassava (algo de sacrificial que noutro filme do realizador, Vénus Negra, tomava a forma de ensaio paroxístico), está ausente ou domada. Restam vinhetas de exclusão social e de luta de classes. Tudo o que tem a ver com os pais das protagonistas ou com o grupo que rodeia Adèle é substancialmente episódico ou entra em perda quando Adèle e Emma, o par amoroso, o desafio deste filme, não estão no ecrã - quando o espec­ta­dor não é o intruso na ménage a trois elab­o­rada pelo cineasta e pelas intér­pretes, Léa Sey­doux e Adèle Exar­chopou­los, o filme entra em ressaca. Eis então o que aqui está, nesta primeira adaptação de Kechiche, a partir da novela gráfica de Julie Maroh, Le bleu est une couleur chaude: a experiência de um Grande Íntimo.~

Como uma lupa sobre a intimidade, sobre o sexo, com lágri­mas e outros fluidos, encerrando o espec­ta­dor numa bolha contraditória de assom­bro, de medo, que o faz estremer como numa primeira vez - por isso Julie Maroh veio dizer, mais do que sugerir, que o facto de ter sido um heterossexual a filmar uma história de amor lésbica deixou marcas que a incomodaram; por isso alguma crítica (americana, por exemplo) se armou com o feminismo para denunciar o suposto sexismo; por isso as intérpretes se assustaram com o que Kechiche as levou a fazer (disso resultando, no embate pós-filme que aconteceu entre Léa Seydoux/Kechiche, um episódio de utopia e decepção, social e afec­tiva, que podia rimar com os melhores momentos do cinema do realizador.)
Vasco Câmara

ENTREVISTA AO REALIZADOR
São raros os momentos em que o cinema consegue transportar consigo o turbilhão de emoções e o longo caminho que percorremos na vida até ao momento em que olhamos para trás e percebemos, de facto, a maneira como tudo o que vivemos ter-nos-á mudado intelectualmente, emocionalmente, e na nossa intimidade física, para fazer aquilo que somos hoje e o lugar que ocupamos no mundo em relação aos outros e a nós próprios. Raros não pela distância que possa existir entre vida e cinema – nada existirá de tão próximo e, ao mesmo tempo, de tão distante -, mas porque para filmes tão grandes como La vie d’Adèle (A Vida de Adèle, 2013), o caminho a fazer é longo, desde o momento em que o filme se imagina até à sua montagem final, passando por uma direcção de actores e uma rodagem intensa, experimental, mas pensada, e que exige o máximo de cada um dos intervenientes. A vida é uma viagem e um filme também o é, condensada nesse “curto” período de seis meses de filmagens onde se vivem anos de vida. Assim se fez La vie d’Adèle, e assim se fez, na nossa perspectiva, um dos filmes mais bonitos, intensos e verdadeiros dos últimos anos. Abdellatif Kechiche, o seu realizador, esteve presente no Lisbon & Estoril Film Festival para apresentar a sua quinta longa-metragem (com estreia comercial a 28 de Novembro), a sua história de uma “heroína da vida quotidiana” que descobre que o amor não tem nome nem sexo, apenas uma cor e as suas emoções – emoções que saem de um corpo mas que se estendem e ficam até ao resto da eternidade.
Devido às cenas explícitas de La vie d’Adèle, à sua longa fabricação, à sua rodagem intensa, surgiram casos na imprensa e em sites internacionais por meias-palavras mal interpretadas entre realizador e actrizes, e que serviram para uma exploração mediática que em nada corresponde à natureza do filme e aos seus objectivos artísticos – uma exploração que não foi estranha, também, a publicações especializadas em cinema (que não hesitaram em colocar um interrogatório quase nunca visto a um autor,  buscando, na sua essência, uma justificação perversa do seu olhar e da sua posição enquanto artista) (…).
Noutros filmes, de uma forma mais clássica, costumamos ver actores a dar interpretações técnicas, ou seja, uma versão da leitura que fazem de uma personagem. Mas em La vie d’Adèle, como noutros filmes seus, estamos muito próximos deles e dos seus rostos, e sentimos que há uma máscara que cai – já não vemos reacções que vêm de um código, mas gestos verdadeiros que pertencem ao instinto. O que é que se faz para fazer com que essa máscara caia e encontremos um pedaço de verdade, e não apenas uma interpretação?
Trata-se de um longo processo. Primeiro, há esse desejo, essa vontade de fazer cair a máscara e com que o actor se entregue, que entre dentro de si mesmo e exprima aquilo que ele tem dentro de si. Não tenho um processo preciso nem geral, nem sequer um método para fazer com que isso aconteça. Interrogo-me, a cada encontro com cada actor, sobre a melhor maneira de fazer isso, ou em todo o caso, sobre como tentar fazê-lo. Com alguns actores, acontece de maneira muito rápida, tal como numa relação de cumplicidade afectiva, quase telepática. Com outros, passa por uma busca, e recorro a algo de menos instintivo e mais psicológico, se assim poderei dizer. Há actores que são muito abertos a esse tipo de experiência, outros não tanto, ou que acreditam sê-lo e não o são verdadeiramente, ou que pensam ainda terem feito bem o seu trabalho, que pensam não ter nenhuma máscara, ou, por vezes, que não compreendem aquilo de que estou à espera. É algo que acontece por uma espécie de atordoamento. Algumas pessoas poderão chamar isso de manipulação, mas sei que é algo da ordem da obsessão. Nesse preciso momento, estamos de tal forma mergulhados nessa busca e no trabalho que, quando acontece, é por vezes incompreensível a forma como lá chegámos. Às vezes, percebemos que se tratava, afinal, de algo muito simples, como encontrar o bom sítio, o bom lugar. Outras vezes, trata-se de criar uma atmosfera no plateau. Não tenho nenhuma receita. Sei apenas que, para mim, é algo de obsessivo.
Em vez de manipulação, trata-se talvez de um caminho que percorrem juntos.
De um caminho, mas não me incomoda que se fale de manipulação, caso isso simplifique as coisas. Para alguns, é da ordem da manipulação. A manipulação é algo que pertence às relações humanas. Por vezes, somos também manipulados ou encontramos resistências.

Tudo isso faz parte dos encontros: quando encontramos alguém e algo acontece entre duas pessoas. Nesta história de amor, existem talvez resistências. Acabamos por ter uma personagem que descobre coisas, que se descobre a si mesma, e que muda. Numa relação entre um realizador e um actor, temos também um encontro, e talvez existam também resistências, mas ao mesmo tempo existe um desejo de querer chegar a alguma coisa.
Na relação entre as duas personagens, não creio que a personagem de Adèle se transforme mais do que se revele, que seja já essa mulher com as suas qualidades, o seu ideal, as suas emoções, que se liberte. Talvez até em oposição à personagem de Emma, que acredita já ser livre e que se encontra numa teorização da liberdade e da aspiração artística. Podemos também entrar numa teorização da relação actor-realizador, ou mais precisamente, entre dois indivíduos a quem é dado um papel para se fazer um filme. A parceria possível entre um actor e um realizador passa por algo da ordem da emoção, da percepção, do inconsciente.
A liberdade é algo de importante nos seus filmes. Ou seja, são personagens que procuram ser livres – primeiro, por aquilo que sentem, pelos seus corpos ou pela maneira como se vão posicionar no mundo, mas sobretudo livres para além das convenções sociais. O amor e a emoção têm um papel muito importante.
É sempre difícil libertarmo-nos das convenções sociais, do nosso meio social, do meio de amigos ou do meio afectivo, assim como libertarmo-nos da relação amorosa, de podermos florescer livremente na relação e guardarmos a nossa capacidade de reflexão, de pensamento, de ouvir os nossos desejos e aspirações. Mas é verdade que é um tema, em todo o caso, sobre o qual penso – o que significa ser livre no mundo social no qual evoluímos?
Podemos ser livres para além dessas convenções? Amar é algo que nos leva a ser livres?
Tudo depende daquilo que entendermos por liberdade. No caso do filme – sim, amar leva a libertarmo-nos das convenções sociais. Mas julgo que a verdadeira liberdade passa pela reflexão – uma liberdade de reflexão, portanto -, porque é perfeitamente possível sermos livres dentro dessas convenções. É algo de muito interior.
No filme, Adèle é uma mulher que descobre o amor, a vida e tudo o que vem com isso, naturalmente, mas também a vocação. Algumas pessoas poderão ver uma certa convenção no desejo de Adèle de se tornar uma professora de escola primária, mas na verdade, talvez isso seja exactamente o contrário. A vocação, a curiosidade e a educação pertencem a toda uma outra ordem, algo que nos leva a reflectir, a uma forma de liberdade. É por aí que descobrimos a nossa vocação? A vocação era uma coisa importante a mostrar no filme?
A vocação de Adèle já existe, antes mesmo do encontro com Emma. Adèle quer tornar-se uma professora de escola primária porque é uma profissão – uma bela profissão – e isso está para além da vocação. É algo que pertence ao seu carácter, algo no qual ela imagina florescer. Tudo depende daquilo a que chamamos vocação. A vocação artística, religiosa, profissional, um ideal de vida. Isso deixa de ser uma vocação se se tornar dependente de um encontro. Ou então, esse encontro revela-nos uma outra vocação e a outra pessoa torna-se um instrumento dessa revelação. Penso que a vocação de Adèle é viver. Amar e viver plenamente.
Trata-se também de um filme sobre o desejo e o apetite, não apenas o apetite por comer, mas o apetite por viver. A emoção e o desejo estão muito presentes. São coisas imateriais, mas ao mesmo tempo fazemos um caminho até à emoção através do que é físico, do apetite pelo outro. Para a personagem de Adèle, fazer com que a sua máscara caia passa também por fazer com que o seu corpo se manifeste e reaja. Está sempre muito próximo das suas peles. Também aí, passamos por algo de muito físico até chegarmos, finalmente, à alma das personagens.
Sim…

Gostaria que me falasse desse desejo de ver e filmar esses corpos como uma maneira justa de os ver e conhecê-los para a sua história.
É algo de muito instintivo. Precisamente, é difícil descrever o desejo que temos por filmar um corpo, uma pele ou uma parte de um corpo e de uma pele, algo que nos toca num rosto. Por que razão gosto de olhar para certas bocas? Geralmente, trata-se do movimento da boca, da mastigação, algo que fazemos todos e com o qual se faz um trabalho completamente fisiológico. Esse momento diz-me qualquer coisa, emociona-me, toca-me e faz-me vibrar, da mesma maneira que duas bocas que se beijam ou dois corpos que se tocam. Causa-me uma emoção e é essa emoção que procuro transcrever.

Inspira-se no cinema mudo? Como não há som, obviamente, trata-se de algo de muito sensual, muito erótico, muito físico. Na cena da festa de Emma, há um filme de Pabst que é projectado.
Vi muitos filmes mudos durante o meu período cinéfilo, a minha adolescência. Agora, já não vejo filmes, infelizmente. Sem dúvida que o cinema mudo e talvez o de Pabst em particular me tenha tocado por muitas razões. A realização, a forma de filmar os rostos e o rostos de uma actriz, Louise Brooks. Os filmes dele aspiravam também a essa liberdade social. Há tantos realizadores e filmes que são referências inconscientes… Talvez o cinema mudo consiga captar algo da linguagem dos corpos, dos rostos e o consiga exprimir mais directamente. As palavras ajudam a exprimir essa linguagem. Mas a expressão, o rosto e as emoções que temos em nós imprimem-se, de qualquer modo, antes das palavras e através dos rostos.

Fala-se muito de um “método Kechiche”, mas mais do que um método, trata-se de uma busca e de um caminho. Uma ideia que acredito ser falsa em relação ao seu trabalho – um trabalho único porque procura uma verdade e, quando procuramos uma verdade, temos de ser verdadeiros, em primeiro lugar, em relação a nós próprios – é a de que o “método Kechiche” passa muito pela montagem. Mas parece-me que se trata, em vez disso, de uma busca que faz durante a rodagem com pessoas para quem olha e filma. A rodagem é o momento em que se sente mais vivo?
É talvez o momento mais decisivo da escrita de um filme – o momento em que se cria a vida. Antes desse momento, imaginamos. Estamos dentro de uma mecânica, tal como depois da rodagem, uma mecânica que é também muito criativa e apaixonante. Mas o momento crucial é a rodagem. Não existem pessoas de um filme que se tornam outras durante a montagem, só nos tornamos outro porque a rodagem existe. De qualquer forma, um filme é uma viagem entre o momento em que imaginamos a história e o momento em que termina. São etapas de uma viagem. Para lhe dar uma imagem – a rodagem é o momento em que estamos a navegar sem bússola no meio do mar.
Como o percurso que fazemos nas nossas vidas. No de Adèle, temos um encontro no início – um momento muito forte -, mas quando o filme termina, saímos da sala e ainda estamos a acompanhar Adèle. Ficamos emocionados porque tivemos um encontro com um filme ou uma emoção. Um encontro é algo que nos determina, mudamos com os encontros que fazemos nas nossas vidas, mas é algo que não podemos adivinhar ou esperar, acontecem, simplesmente. O encontro de Adèle com Emma, no filme, é talvez algo de tão forte, imagino, como o encontro que teve quando entrou numa livraria e descobriu esse livro [Le bleu est une couleur chaude]. Abriu o livro e, de repente, tudo começa.
Sim. Trata-se de uma interrogação sobre o sentido do destino. Será que existe um destino? Será que estava escrito que o livro que encontrámos, que abrimos naquele momento, iria falar-nos, ou será que estava escrito que a personagem de Emma iria mudar a vida de Adèle? Posso acreditar que foi a vida – e chamemos a isso o destino – que nos queria levar a esse livro, e que foi esse mesmo destino, nesse encontro, que fez com que Emma se tornasse um instrumento da metamorfose de Adèle. Adèle acaba por estar num caminho desde o início do filme e continua a fazer esse caminho no fim. É num caminho que encontra a personagem de Emma que, tal como esse livro, a ajuda a viver e a revelar-se, tal como nos seus encontros com os seus livros, os seus amigos, a sua profissão.
A personagem de Adèle continua consigo? Vai continuar a querer filmá-la?
De certo modo, penso que já a tinha filmado antes deste filme. Continuarei a filmá-la depois. É uma personagem que me toca, que amo, ou que idealizo. É uma heroína da vida quotidiana que continuará a exprimir-se por outras formas num outro filme.
Existe uma relação directa entre o cinema e o artifício, mas entre todas essas ferramentas, todas as questões de interpretação, de reflexão, de ficção… Quando filma, procura a verdadeira vida?
Julgo que é um momento privilegiado para exprimir, como diz, a verdadeira vida. Um momento forte como o amor, uma relação sexual, o luto, a dor – esses momentos da vida, no cinema e na rodagem, são instantes muito fortes. Estamos à flor da pele e aquilo que chama a verdadeira vida pode surgir aí.
Nos anos 70, Roberto Rossellini veio a Lisboa, à Fundação Gulbenkian, quando ainda estávamos em ditadura, para apresentar Roma, città aperta (Roma, Cidade Aberta, 1945). Fizeram-lhe uma pergunta – será que tinha algum conselho a dar a essa juventude que vivia em ditadura? Ele respondeu – “é estúpido dar conselhos”. Já não vivemos em ditadura, mesmo se talvez possam existir outras, mas gostaria de lhe perguntar – para um jovem que se queira lançar num filme e procurar algo de verdadeiro no cinema, tem algum conselho a dar?
Se não tivesse citado Rossellini, teria respondido como ele. Mas queria talvez acrescentar que, tirando o facto de não ter nenhum conselho a dar, posso prevenir e é talvez uma forma de conselho… Vai ter de fazer das tripas coração.
Francisco Valente

O DIA MAIS CURTO


Está a aproximar-se O DIA MAIS CURTO, a grande festa da Curta Metragem!

Às 18:30 "O dia Mais Curto" em Faro arranca arranca com a (re)descoberta e agradável convívio do espaço da Fábrica dos Sentidos (Não sabes onde fica a Fábrica dos Sentidos? Espreita aqui!).
ÀS 22:30h Os Artistas aliam-se à Ar Quente e ao CCF para trazer um autêntico cabaz de natal cultural a Faro, Concertos, Cinema, Vídeo, Festa, na noite de 21 de Dezembro. Tiago Sa-Ga/Time for T traz o folk consigo. O CCF traz as curtas metragens, integrando a iniciativa europeia "O dia mais curto" (de celebração da curta metragem).Entre a apresentação de cada um desses filmes o DJ Pedro Mesquita passará alguns ‘curtos’ singles de 7’’ acompanhado com as projecções de video preparadas para o efeito por Ivo Beirão.


O Site Oficial aqui!

Celebraremos assim o Dia mais curto e a noite mais longa do ano com uma festa, música, filmes e video especialmente criada para a ocasião no melhor dos cenários de Faro.


No mesmo dia, entre as 16:00H e as 18:00H, a Aliança Francesa do Algarve, aliada com a Biblioteca Municipal de Faro organizou a sessão de cinema Le Jour Le Plus Court!

Mais informações sobre o evento aqui e aqui!


REINO ANIMAL| David Michôd| 2013 | 10.12.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 10 DE DEZEMBRO
REINO ANIMAL, David Michôd, Austrália, 2010, 113’, M/16

FICHA TÉCNICA
Título Original: Animal Kingdom!
Realização e Argumento: David Michod
Montagem: Luke Doolan
Fotografia: Adam Arkapaw
Música: Antony Partos
Interpretação: Joel Edgerton, Ben Mendelsohn, Guy Pearce, Jackie Weaver
Origem: Austrália
Ano: 2010
Duração: 113’

SINOPSE
Que escolhas teria se crescesse numa família de criminosos? Reino Animal, vencedor do Festival de Sundance na categoria de Melhor Filme do Mundo, responde a esta questão.
Josh é um rapaz de dezassete anos que é atirado para uma situação complicada entre a sua família de criminosos e um detective de homicídios que pensa poder salvá-lo. Baseado nos fatos reais do tiroteio de Walsh Street.
Nomeação para o Óscar de Melhor Atriz Secundária 2011 (Jacki Weaver)

PRÉMIOS
Vencedor do “SUNDANCE FILM FESTIVAL 2010”

TRAILER
Aqui

CRITICA
Houve quem comparasse a estreia na longa-metragem do australiano David Michôd com os primeiros Padrinhos de Coppola - não por estarem ao mesmo nível, mas por olharem para o crime pelo prisma da família (ou será para a família pelo prisma do crime?). O “reino animal” do título é a selva vale-tudo da família criminosa que se dilacera cruelmente a si própria: no caso, o clã Cody de Melbourne (inspirado numa família que teve existência real), liderado por uma matriarca particularmente manipuladora (Jacki Weaver, nomeada para o Óscar de melhor secundária) e por um filho mais velho que não anda a tomar a medicação (Ben Mendelsohn, perfeito de inquietação).
No meio do jogo de tensões, cai Josh, o neto adolescente que cresceu afastado da família (James Frecheville, espantoso de contenção) e que começa rapidamente a perceber porque é que a mãe recém-falecida fez questão de o criar longe do ninho - mas que não consegue evitar ser arrastado para o turbilhão. É aí que reside, aliás, o sucesso desta estreia: o que parece começar como um jogo tenso do gato e do rato transmuta-se lentamente numa fortíssima tragédia familiar, mesmo que Michôd ainda deixe o andaime à mostra em excesso e não resista a sublinhar a traço grosso o que não precisa de o ser. O que não deixa dúvidas é a excelência do elenco e das interpretações, e a segurança com que Michôd leva a água ao seu moinho, invulgar para uma primeira longa. "Reino Animal" chega às salas portugueses com três anos de atraso (completado em 2009, viu estreia mundial em 2010). Se nunca é tarde para descobrir um bom filme em sala, é legítimo perguntar que distribuidores temos que não hesitam em despejar semanalmente obras menores ou dispensáveis apenas para cumprir calendário, enquanto levam três anos para lançar confidencialmente um bom filme...
Jorge Mourinha, Ípsilon
É uma revelação que chega das longínquas terras australianas: David Michôd (realizador e argumentista) consegue, com "Reino Animal", uma fusão exemplar de drama policial e crónica familiar.
Que sabemos do cinema australiano? Muito pouco, na verdade... Ou melhor, os filmes que vão estreando não chegam para conhecer a sua variedade criativa e, por vezes, somos dominados pelo lugar-comum segundo o qual a Austrália é apenas um país onde os americanos vão buscar as suas estrelas (Nicole Kidman, hélas!) ou rodar alguns dos seus filmes...
Daí a importância da estreia de "Animal Kingdom"  — entre nós, felizmente, com a tradução justa: "Reino Animal" —, além do mais um objecto pleno de emoções e subtileza narrativa que nos revela o talento de David Michôd, argumentista e realizador.

Michôd tomou como ponto de partida a história verídica de uma família, de Melbourne, que na década de 1980 protagonizou uma série de assaltos violentos. Quer isto dizer que estamos no interior de uma matriz mais ou menos policial. Em todo o caso, o que conta é menos a "acção" (no sentido banal do termo) e mais a tensão interior do próprio espaço familiar.

E há um efeito bizarro e perturbante que confere a "Reino Animal" uma certa respiração de western mais ou menos contemporâneo: por um lado, tudo acontece num território dominado por uma violência masculina e machista; por outro lado, a organização desse território tem no contundente poder da figura da mãe, interpretada pela notável Jacki Weaver (nomeada para o Oscar de melhor actriz secundária), uma decisiva força simbólica.

Aliás, importa sublinhar que, sem esquecer o rigor da mise en scène, este é um cinema intensamente enraizado no traabalho específico dos actores. Para além de Weaver, o elenco inclui o nosso bem conhecido Guy Pearce ("Memento"), o hiper-versátil Ben Mendelsohn (vimo-lo, recentemente, em "Como um Trovão") e ainda o jovem James Frecheville (um dos protagonistas de "Paixões Proibidas"). Tudo razões de peso para dizermos que há, de facto, um genuíno cinema made in Australia.

João Lopes, rtp.pt//cinemax/







ATÉ VER A LUZ| Basil da Cunha| 2013 | 03.12.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 3 DE DEZEMBRO
FICHA TÉCNICA
Título Original: Até ver a luz
Realização e Argumento: Basil da Cunha
Interpretação: Ana Clara Baptista de Melo Soares Barros, Susana Maria Mendes da Costa, José Zeferino da Cruz, Pedro Ferreira, João Veiga, Nelson da Cruz, Duarte Rodrigues
Montagem: Renata Sancho, Basil da Cunha, Emilie Morier
Som: Filipe Tavares
Fotografia: Patrick Tresch
Decoração: Carlos Baessa De Brito
Origem: Portugal/Suiça
Ano: 2013
Duração: 95’
M/16


SINOPSE
Acabado de sair da prisão, Sombra volta à sua vida de dealer no bairro da Reboleira. Entre o dinheiro emprestado que não consegue recuperar e aquele que deve, uma iguana pouco comum, uma pequena vizinha sempre por perto e um chefe de gang que duvida da sua boa fé, Sombra começa a pensar que, de facto, mais valia ter ficado dentro…

TRAILER aqui!

SITE OFICIALaqui!

CRÍTICA
Retrato de um bairro da Reboleira, em percentagens indefinidas de “teatro” e de “vida”, sem ceder à tentação do “documento social”, trocado por algo de mais sonhador.
Até ver a Luz é a primeira longa-metragem do realizador suíço-português Basil da Cunha, depois de um punhado de filmes de formato curto que deixaram rasto em festivais importantes mas não chegaram ao circuito comercial nacional. É um filme “de bairro”, em todas as acepções da palavra. Foi rodado num bairro da Reboleira, nos arredores, nem por isso muito bem afamados, de Lisboa, de onde praticamente só sai no fim (e para “ver a luz”), com o concurso de actores amadores recrutados no local, num processo criativo que Basil da Cunha descreveu, em entrevistas, como sendo “colectivo” - ou maneira de ser também um filme “deles”, dos habitantes do bairro. Este ponto de partida e esta atitude (querer fazer com que o filme nasça “de dentro”) aproximam-se de uma tangente a muito do que Pedro Costa fez, de Ossos em diante, com o bairro e os habitantes das Fontaínhas, e nem é difícil encontrar outro ponto de contacto (com um filme como Ossos, justamente) no tratamento do som ambiente, feito de camadas que se sobrepõem (televisores ligados, conversas, ruídos domésticos) e assim traduzem a “porosidade” das casas e dos espaços do bairro, uma textura sonora que é um dos aspectos mais conseguidos de Até ver a Luz. Até porque é um som de um realismo falsamente “naturalista”, pelo contrário muito elaborado, muito fabricado - ninguém julgue que é mera coincidência o facto de às tantas se ouvirem, de um televisor, os diálogos de um filme de samurais de Akira Kurosawa (José Luís Guerin, no seu “filme de bairro”, En Construccion, utilizava um filme de Hawks, Na Terra dos Faraós, com um propósito semelhante). 


Não é mera coincidência porque Até ver a Luz, no fundo, é um filme de “samurais” (Basil da Cunha até o descreveu exactamente assim) mesclado com filme de gangsters, encenado e representado em jeito de teatro amador, na melhor acepção do termo. Dos samurais de Kurosawa e dos gangsters do cinema americano, das “vizinhanças” de Spike Lee (e dos seus “filmes de bairro” como Do the Right Thing) e das actualizações dessas tradições de samurais e gangsters que encontramos nalguns Takeshis Kitanos ou no Ghost Dog de Jim Jarmusch - que são estas duas, finalmente, as referências que mais nos cruzam o espírito durante o visionamento de Até Ver a Luz. Ainda assim, não é a pista completa: se as peripécias do protagonista Sombra, e as suas manobras para arranjar o dinheiro que deve ao “gang” quase burlesco que anda atrás dele, são importantes, tão importantes como elas são as “paragens”: as cenas de refeição, as discussões sobre coisa nenhuma, os intróitos com personagens que, estando ali, pouco ou nada têm a ver com o círculo duvidoso em que se movimenta Sombra e os seus amigos/inimigos (o encontro com a “tia”, ou a miudita que ficará depositária do lagarto de estimação de Sombra). É por aí que se fecha o círculo, se compõe o retrato do “lugar”, em percentagens indefinidas de “teatro” e de “vida”, sem nunca ceder à tentação do “documento social”, trocado por algo de muito mais sonhador: a luz do sol, mas também o céu, porque é pelos telhados da Reboleira que mais andam estes “gatos-samurais”, estes “cães-fantasma”, de Basil da Cunha.

ENTREVISTA COM BASIL DA CUNHA
Fale-nos do seu método e da sua forma de considerar uma filmagem.
Cada um dos meus filmes é fruto de um trabalho de artesão. Sempre foram fabricados em família, com e sobre as pessoas que me rodeiam, seja na Suiça ou em Portugal. Os actores, a maioria amigos ou vizinhos, acompanham-me há alguns anos.
Escrevi e filmei "Até Ver a Luz" em estreita colaboração com as pessoas que vivem no bairro da Reboleira. O filme está construído à volta de e com as pessoas e pretende  ser uma espécie de reinterpretação da sua vida. As pessoas transformam-se em personagens, a ficção permite sublimar o real, por mais duro ou absurdo que seja.

De que se alimenta o seu desejo de fazer cinema?
Uma coisa é certa, na origem da maioria dos meus filmes há uma vontade de devolver a sua dignidade àqueles a quem ela é frequentemente negada. É o que está na origem: devolver a sua beleza àqueles que amo. Os meus filmes nunca partem de uma ideia ou conceito. Não decido escrever a partir de um tema definido. O ponto de partida é o desejo de filmar aquela pessoa, de encenar uma situação, ou aproveitar aquele músico fantástico cuja música pode enriquecer todo o filme... Depois há, claro, todas as histórias que ouves e alimentam a tua imaginação. Pouco a pouco, desenha-se uma história que está ao serviço de todos esses elementos no centro do filme, nos quais acreditas.

"Até Ver a Luz" cria um universo visual original, que nos propõe uma mistura de géneros cinematográficos. Poderia falar-nos disso?
É um filme de género num universo realista. O filme oscila entre o policial e o documentário.
O espectador vai partilhar o quotidiano cheio de sarilhos de um dealer que acaba de sair da prisão, mas também o universo e a cultura de um bairro muito particular de Lisboa.  O universo narrativo do policial é utilizado para permitir a compreensão da evolução da personagem. Mas o género esbate-se por momentos para ceder o lugar a personagens surpreendentes: uma iguana, uma menina que parece estar sempre por perto, uma tia protectora, um amigo aluado mas um pouco profeta, um bruxo...
O meu desejo é ultrapassar um certo cinema social unidimensional e condescendente.  Quero misturar a realidade com a qual trabalho com uma linguagem cinematográfica que dê espaço a universos poéticos e relações de carinho autenticas entre as personagens. O tom do policial hiper-realista conjuga-se com momentos de branda loucura, com a absurdidade poética do quotidiano. Cria-se então um desfasamento poético.


Como trabalha com os actores?
Não me interessa recriar a realidade e não espero que os meus actores imitem a realidade. Tenho esperança que aconteçam coisas frente à câmara. A vida. Senão é uma seca. A rodagem é para mim uma altura de liberdade. É o momento da procura e do perigo porque, mesmo que tenhamos esperança de chegar a algum lado, nunca sabemos bem como.  E é isso que filmamos: o caminho. No fundo, a essência do meu trabalho é criar um espaço no qual se possa viver.
Os actores nunca ensaiam e não leem o guião. Só conhecem as intenções da cena, algumas deixas essenciais e o resto é como o jazz, uma espécie de improvisação orquestrada. Criam um género de reinterpretação da sua própria vida. Aí, o meu trabalho é surpreende-los a cada take, reinventar os instrumentos com os quais vão jogar para viver algo genuíno.
A regra nas minhas rodagens é que a relação de forças entre o cinema e a vida do bairro dê a vantagem à segunda, porque mesmo que a moldemos e a encenemos, vamos deixar-la existir.  Por isso é que trabalhamos com uma pequena equipa de quatro pessoas: o director de fotografia, o director de som, um amigo que faz um pouco de tudo e eu. O resto é feito pelos moradores do bairro que ajudam aqui e ali, quando podem, e que cumulam assim várias profissões do cinema. É importante que aconteçam mais coisas frente à câmara do que atrás.

Mas tinha um guião escrito?
Para "Até Ver a Luz", como para "Os Vivos Também Choram", ou até "À Coté", (e ao contrário de "Nuvem") havia um guião com diálogos que serviu sobretudo para esclarecer e resolver questões de narrativa. É muito útil já ter pensado nas elipses, nos fora de campo, antes de filmar. Mas não usamos esse guião com os actores antes da rodagem, e muito menos durante. Só tinha guardado uma folha com uma frase para cada cena.

No final de contas, o filme é parecido com o que tinha em mente quando escreveu o guião?
Felizmente isso nunca me aconteceu. Claro que a essência é a mesma. Mas aquilo que me dão é sempre melhor que aquilo que poderia ter escrito.