HANNAH ARENDT| Margarethe Von Trotta| 2012 | 12.11.13 | Auditório do IPDJ, 21:30


DIA 12 DE NOVEMBRO
FICHA TÉCNICA
Título Original: Hannah Arendt
Realização: Margarethe Von Trotta
Argumento: Pam Katz, Margarethe Von Trotta
Montagem: Bettina Böhler
Fotografia: Caroline Champetier
Música: André Mergenthaler
Interpretação: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch, Ulrich Noethen
Origem: Alemanha/Luxemburgo/França
Ano: 2012
Duração : 113’
M/12

TRAILER aqui!


SINOPSE
Após assistir ao julgamento do nazi Adolf Eichmann, a filósofa política Hannah Arendt atreve-se a escrever sobre o Holocausto em termos inauditos. O seu trabalho provoca imediatamente escândalo mas Arendt mantém-se firme ao ser atacada tanto por inimigos, quanto por amigos.HANNAH ARENDT é um retrato do génio que abalou o mundo com a sua tese sobre a “banalidade do mal”. Incluído na Selecção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Toronto e do New York Jewish Film Festival

CRITICA
"Todo o filme sobre Hannah Arendt medita sobre a razão e a forma como o mal absoluto foi cometido no mundo dos seres humanos.(...) O filme de Margarethe von Trotta é notável. Todo o talento cru da realizadora de A HONRA PERDIDA DE KATHARINA BLUM (1975) está presente nesta obra, mas com um apuramento formal e uma forma cinematográfica superior."
Nuno Ramos de Almeida, Jornal i

"HANNAH ARENDT é um filme precioso, capaz de mostrar como a percepção da história envolve sempre um jogo dialéctico entre passado e presente, ideias herdadas e ideias contemporâneas. Vê-lo e discuti-lo deveria ser uma prioridade democrática."
João Lopes, Diário de Notícias

"Ver o filme de Margarethe von Trotta sobre Hannah Arendt e as tribulações do relato do julgamento de Einchmann em Jerusalém torna-se obrigatório. Para nos fazer pensar."
Clara Ferreira Alves, Expresso

"Uma interpretação extraordinária de Barbara Sukowa no filme mais importante agora em exibição entre nós: retrato de mulher e filme de ideias sobre um tempo que passou.
(…)
Encarnada de modo extraordinário por Barbara Sukowa, Hannah Arendt é uma mulher fiel apenas ao seu intelecto e aos seus amigos, que se recusa a diluir ou adoçar o seu raciocínio apenas para ser politicamente correcta. Arendt bem pode querer separar as águas do pessoal e do profissional mas o affaire Eichmann e a sua noção de rigor intelectual imparcial apenas vieram sublinhar a lição que o seu professor, Martin Heidegger, aprendera tarde demais: a vida real e a vida da mente não são a mesma coisa e há que escolher e assumir as consequências. O pensamento da filósofa pode ter afectado o mundo, mas exigiu um preço pessoal - e é também aí que Von Trotta e Sukowa ganham o filme, ao recusar “separar as águas” e pintá-la como alguém intocável, ao tornar Hannah Arendt numa apaixonante meditação sobre o pensamento como algo de profundamente cinematográfico, até sedutor e sexy - e melhor “filme de recrutamento” para pôr a cabeça a mexer é difícil de imaginar.
O que, aliás, leva a outra e importante questão: será que, hoje, em 2013, o que Arendt escreveu há 50 anos teria gerado tal sururu? Só fazer essa pergunta bastaria para tornar este num filme central para os tempos que vivemos. Felizmente, faz muitas mais."

Jorge Mourinha, Ípsilon


ENTREVISTA COM A REALIZADORA
"Os seus filmes propõem quase sempre um confronto intenso com figuras históricas importantes
– Rosa Luxemburgo, Hildegard von Bingen, as irmãs Ensslin… O que é que a estimulou em Hannah Arendt?
A questão de como fazer um filme sobre uma mulher que pensa. Como observar uma mulher cuja principal acção é pensar. Claro que também tinha medo de não lhe fazer justiça. Isso fez com que o retrato cinematográfico fosse bem mais difícil do que, por exemplo, o de Rosa Luxemburgo. Ambas as mulheres eram indivíduos altamente inteligentes e únicos, ambas eram dotadas na sua capacidade para o amor e a amizade e ambas eram pensadoras e oradoras provocadoras. A vida de Hannah Arendt não foi tão dramática quanto a de Rosa Luxemburgo – mas foi importante e comovente.
Para saber mais sobre ela, não só li os livros e as cartas dela, mas também tentei encontrar pessoas
que a tivessem conhecido. Através destas muitas conversas, descobri gradualmente o que queria dizer sobre ela e que tempo da vida dela melhor serviria os meus propósitos. Por vezes, tinha mesmo muito medo dela. De repente, parecia tão áspera e arrogante. Só depois da famosa conversa entre ela e Günter Gaus é que me convenci finalmente de que Hannah Arendt era uma pessoa verdadeiramente encantadora, espirituosa e agradável. Depois de os ver juntos, compreendi o que Gaus quis dizer quando disse mais tarde numa entrevista que ela era o tipo de mulher por quem uma pessoa imediatamente se apaixona.
A sua investigação teve lugar enquanto trabalhava no argumento que começou a escrever em 2003 com a argumentista americana Pam Katz. Em 2006, decidiu centrar o filme, que nessa altura tinha como título de trabalho A controvérsia, nos quatro anos em torno do julgamento de Eichmann de 1961.
Queríamos contar a história de Hannah Arendt sem diminuir a importância da sua vida e do seu trabalho, mas também sem recorrer à estrutura muito alargada de um filme biográfico típico. Após Rosenstraße e Die andere Frau, HANNAH ARENDT é a minha terceira colaboração com Pam Katz. Fomos, por isso, capazes de escrever o argumento numa espécie de “pingue-pongue”, discutindo continuamente o trabalho por e-mail, telefone e em pessoa, em Nova Iorque, em Paris e na Alemanha. A nossa primeira questão foi: o que é que escolhemos mostrar da vida de Hannah Arendt? O caso amoroso com Martin Heidegger (que muitos provavelmente esperavam)? A fuga da Alemanha? Os anos em Paris ou os anos em Nova Iorque? Depois de nos debatermos com todas estas possibilidades, tornou-se finalmente claro que concentrarmo-nos nos quatro anos em que ela escreveu sobre Eichmann era a melhor maneira de retratar a mulher e o seu trabalho. O confronto entre Hannah Arendt e Adolf Eichmann permitiu-nos não apenas aclarar o contraste radical entre estes dois protagonistas, mas também ganhar uma compreensão mais profunda dos tempos negros da Europa do século XX. Ficou famosa a declaração de Hannah Arendt “Ninguém tem o direito de obedecer”. Com a sua recusa firme em obedecer a outra coisa que não o seu
próprio conhecimento e crenças, não podia ser mais diferente de Eichmann. O dever dele, como ele próprio insistia, era ser fiel ao juramento de obedecer às ordens dos seus superiores. Na sua fidelidade cega, Eichmann renunciou uma das principais características que distinguem os seres humanos de todas as outras espécies: a capacida de de pensar por si mesmo. O filme mostra Hannah Arendt como uma teórica política e pensadora independente em luta contra exactamente o seu oposto: o burocrata submisso que não pensa de todo e que, em vez disso, opta por ser um subordinado entusiástico.

O material de arquivo a preto e branco do julgamento permitiu-lhe captar, de forma incisiva, o carácter “não-pensante” de Eichmann.
Só se consegue mostrar a verdadeira “banalidade do mal” observando o verdadeiro Eichmann. Um actor só distorce a imagem, nunca a tornaria mais nítida. Enquanto espectador, pode-se admirar o brilhantismo do actor, mas inevitavelmente não se compreenderia a mediocridade de Eichmann. Ele era um homem incapaz de formular uma única frase gramaticalmente correcta. Pela maneira como falava, era possível ver que ele era incapaz de pensar de forma significativa acerca do que estava a fazer. Há só uma cena com a Barbara Sukowa que tem lugar no verdadeiro tribunal e aí, porque tinha de ser um actor, só se vêem as costas de Eichmann. Filmámos todas as outras cenas de tribunal na sala de imprensa, onde o julgamento foi, de facto, mostrado em vários monitores. Isso foi uma maneira de usar o verdadeiro
Eichmann, através do material de arquivo, em todos os momentos importantes. Mas também tínhamos acabado por acreditar que, uma vez que Arendt era um fumadora inveterada, ela teria passado mais tempo na sala de imprensa do que no tribunal. Dessa forma, podia seguir o julgamento e fumar ao mesmo tempo. Muitos dos outros jornalistas também assistiram ao julgamento nos ecrãs de televisão e enviaram relatórios ao mesmo tempo. A propósito, muito tempo depois de termos escrito esta sequência, conseguimos finalmente falar com a sobrinha de Arendt, Edna Brocke, que estava com ela em Jerusalém na altura. Ela confirmou que “a tia Hannah” tinha, de facto, passado a maior parte do tempo na sala de
imprensa, porque podia fumar lá!
HANNAH ARENDT não seria um filme seu se não víssemos igualmente Hannah Arendt como mulher, amante e amiga. Se não compreendêssemos melhor a complexidade desta grande pensadora.
O filme é também sobre a vida dela em Nova Iorque, a vida com os amigos, o amor por Martin
Heidegger – mesmo estando convencidos de que Heinrich Blücher foi uma figura bem mais importante
na vida dela. Ela chamava a Heinrich as suas “quatro paredes,” querendo dizer a sua verdadeira
“casa”. Heidegger foi o primeiro amor de Hannah e ela continuou ligada a ele, apesar da sua
filiação com os nazis. Mesmo no início da minha investigação, Lotte Köhler, a única amiga ainda
viva de Hannah Arendt, deu-me o livro da correspondência publicada entre Heidegger e Arendt.
Mas assegurou-se de me dizer que Arendt tinha mantido todas as cartas dele na gaveta da
mesa-de-cabeceira. Num flashback, mostramos Arendt a encontrar-se com Heidegger, durante uma visita à Alemanha. Este encontro aconteceu mesmo, apesar de, apenas algumas semanas antes de se encontrarem, ela ter escrito uma carta ao seu amigo e mentor, Karl Jaspers, em que chamava assassino a Heidegger. A sobrinha de Arendt disse que a tia explicava a relação com Heidegger insistindo que “Algumas coisas são mais fortes do que um ser humano.”

Para o papel de Hannah Arendt escolheu novamente Barbara Sukowa. Porquê?
Vi Barbara Sukowa no papel de Hannah Arendt logo do início e, felizmente, consegui ultrapassar alguma resistência inicial a atribuir-lhe o papel. Não teria feito este filme sem a Barbara. Precisava de uma actriz que eu pudesse ver a pensar. A Barbara era a única em quem se podia confiar para dar resposta a este difícil desafio.
É evidente como a Barbara Sukowa se sai bem, entre muitas cenas, no discurso de oito minutos no fim do filme. Poucos realizadores arriscariam tentar manter a atenção do público durante tanto tempo. Porque é que tomou essa decisão?
Muitos sentiam que um filme sobre Hannah Arendt devia, na verdade, começar com um discurso.
Mas começamos com uma conversa entre amigas a falar dos seus maridos. Queríamos que o discurso final fosse o momento em que o público compreende finalmente as conclusões que o seu pensamento trouxe à luz. Só depois de se ter assistido a ela a compilar as suas percepções sobre o carácter de Eichmann e de se ter visto como ela foi atacada por elas de forma tão brutal e frequentemente tão injusta, é que se está disposto a ouvi-la durante tanto tempo. Nessa altura, já nos apaixonámos por ela, bem como pela sua maneira de pensar. E a interpretação da Barbara é simultaneamente tão inteligente e tão emocional que nos tira o fôlego. Dirigimo-nos gradualmente em direcção a este momento, dando lentamente oportunidade ao público de compreender os elementos constitutivos dos pensamentos complexos de Arendt e de entender o que ela queria dizer com a banalidade do mal. O discurso é o clímax intelectual e emocional de todo o filme.
A equipa está a abarrotar de mulheres fortes: Pam Katz como co-argumentista, Bettina Brokemper como produtora, Caroline Champetier como directora de fotografia, Bettina Böhler como montadora… Coincidência ou uma decisão consciente?
Não planeei isso dessa maneira, simplesmente aconteceu. Mas por outro lado, talvez não seja coincidência. Mas Hannah Arendt era o oposto de uma feminista e HANNAH ARENDT também não é o típico “filme de mulher.” É um filme feito por pessoas altamente dedicadas e profissionais, que se comprometeram a contar uma história que faz jus à vida de Hannah Arendt.
De acordo com Karl Jaspers, professor e amigo de Hannah Arendt, “só nos podemos aventurar na esfera pública, quando confiamos nas pessoas”. Cada um dos seus filmes é uma aventura. Como é que isso se aplica a HANNAH ARENDT?
No espírito de Hannah Arendt: confiando que o público passe da ignorância e espanto para o desejo de compreender e, em última instância, chegue a essa compreensão."




DENTRO DE CASA| François Ozon| 2012 | 05.11.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 05 DE NOVEMBRO
FICHA TÉCNICA
Título Original: Dans la Maison
Realização: François Ozon
Argumento: Juan Mayorga, François Ozon
Montagem: Laure Gardettte
Música: Philippe Rombi
Interpretação: Fabrice Luchini, Kristin Scott Thomas, Vincent Schmitt, Ernst Umhauer, Emanuelle Seigner, Denis Ménochet  
Origem: França
Ano: 2012
Duração : 105’

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SINOPSE
Claude Garcia, um jovem estudante de 16 anos, imiscui-se em casa de um colega de turma com intenção de observar a sua família e usá-la como inspiração para a sua escrita. Quando o ano lectivo se inicia, Germain, o professor de literatura francesa, percebe, através dos trabalhos que pede aos alunos, que aquele rapaz é possuidor de um dom raro. Apesar de introvertido e solitário, a sua personalidade cativa o professor, que considera que as obras literárias por ele criadas possuem uma força fora do comum, que vai muito além da sua idade ou maturidade. Porém, com o passar do tempo, os textos começam a revelar o seu lado "voyeurista" e perverso, com detalhes cada vez mais explícitos sobre a vida privada da família em questão. Dividido entre a decisão de o denunciar ou de o encorajar a continuar, o professor entra num perigoso jogo que porá em causa algo mais do que a sua carreira ou reputação.

CRÍTICA
"O que é, afinal, uma narrativa? Interrogação antiga que, nos tempos que correm, conduz a uma imediata problematização da "transparência" da televisão. Porquê? Porque as linguagens dominantes no espaço televisivo tendem a produzir uma máscara de ingenuidade: não haveria narrativa (entenda-se: responsabilização pelas imagens e sons) porque a televisão não seria mais do que uma "transcrição" passiva do mundo à nossa volta... Faz sentido, por isso, aconselhar o filme Dentro de Casa, do francês François Ozon, a todos os que, dentro ou fora da televisão, tentam promover uma noção pueril, não apenas do labor televisivo, mas de todo e qualquer dispositivo narrativo.
Dentro de Casa é um dos filmes mais subtilmente divertidos que, em meses recentes, chegou às salas portuguesas: uma espécie de perverso teatro de vaudeville sobre os prós e contras da arte narrativa. E, para mais, colocando em cena as vicissitudes da escola contemporânea. Tudo se passa, então, a partir da experiência de Claude (Ernst Umhauer), um aluno de 16 anos cuja qualidade de escrita começa a impressionar o seu professor de Francês, Germain (Fabrice Luchini). Empenhado em desenvolver o talento de Claude, Germain incita-o a uma observação cada vez mais apurada da realidade por ele escolhida. Acontece que essa realidade é nada mais nada menos que o quotidiano familiar de um outro aluno... Claude entrega-se com tal dedicação à sua tarefa que, a pouco e pouco, Germain começa a ficar algo perturbado (ainda que sempre seduzido) pelas componentes voyeurísticas da prosa do seu pupilo.


O ponto de partida de Dentro de Casa é a peça O Rapaz da Última Fila, do espanhol Juan Mayorga (já encenada entre nós pelos Artistas Unidos), que o próprio Ozon transformou em argumento cinematográfico. Assumindo-se como discípulo de uma radiosa tradição que passa por autores como o francês Jean Renoir ou o alemão Ernst Lubitsch, o cineasta consegue criar uma contagiante vertigem que, em última instância, discute as alianças entre realidade e desejo, percepção e imaginação, que qualquer narrativa envolve. O génio de Ozon passa pela forma como contorna a pergunta mais básica: afinal, aquilo que Claude conta nos seus textos é "verdade" ou "mentira"? Germain vai descobrindo (e nós vamos descobrindo com ele) que tal dicotomia é francamente insuficiente para lidar com o que está a acontecer. Porquê? Porque a escrita emerge como uma nova forma de poder no interior da realidade em que é lida.
Daí a espantosa atualidade política de Dentro de Casa. Através das suas peripécias, reencontramos o trabalho do narrador como um gesto primordial do próprio ser humano. Contar/escrever/partilhar uma história não é uma "transcrição" do mundo, antes o seu alargamento para novos parâmetros da realidade. Delicioso escândalo: na civilização das imagens, um filme que celebra o poder das palavras."
João Lopes, dn.pt/
"(...)Mais uma vez Ozon consegue juntar um bom leque de atores e atrizes. Os enquadramentos e os movimentos dos atores levam-nos para o lugar de uma peça de teatro. “Dentro de Casa” é um filme imperdível que nos envolve por completo na intriga. É também o melhor do cinema francês a estrear nas nossas salas de cinema, pelo menos até agora."
Tiago Resende, Cinema7arte.com/


NOIVA PROMETIDA| Rama Burshtein| 2012 | 29.10.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 29 DE OUTUBRO
FICHA TÉCNICA
Título Original: Lemale et ha’halal
Realização: Rama Burshtein
Argumento: Rama Burshtein
Fotografia: Asaf Sudry
Montagem:
Interpretação: Hadas Yaron, Hila Feldman, Razia Israeli, Yiftach Klein
Origem: Israel
Ano: 2012
Duração : 90’

TRAILER aqui

SINOPSE
Shira (Hadas Yaron), de 18 anos, pertence a uma família judaica ortodoxa de Telavive, Israel. De casamento marcado com o rapaz por quem está apaixonada, ela está exultante com a vida que a espera. Mas essa felicidade é assombrada quando Esther (Renana Raz), a sua irmã mais velha, morre a dar à luz o seu primeiro filho. O luto toma conta da família e o casamento é adiado. É neste contexto que Yochai, viúvo de Esther, recebe uma proposta de casamento com uma viúva belga. Quando a mãe das raparigas descobre que o genro talvez tenha de sair do país com o bebé, propõe a união entre Shira e Yochay. Apesar de relutante em relação a esta união, que a vai impedir de realizar o seu sonho de criança, a jovem compreende que este casamento será a solução para homenagear a irmã e manter a família unida.
Em competição na edição de 2012 do Festival de Cinema de Veneza, um filme dramático que marca a estreia na longa-metragem da realizadora Rama Burshtein (israelita nascida em Nova Iorque), que tenta mostrar, a partir de dentro, as complexidades da vida de uma comunidade judaica ortodoxa, à qual pertence. 
CRÍTICA
NOIVA PROMETIDA de Rama Burshtein, é um filme de uma delicadeza que rarefeitas as emoções. Parece que assistimos a um mundo a nascer. (…)
É como espreitar pelo buraco de uma fechadura e dar de caras com os rostos de um mundo desconhecida, e naturalmente orgulhoso, saturado de cores, texturas e sussurros.
Vasco Câmara, Público

Mais do que um filme situado numa comunidade insular, NOIVA PROMETIDA é uma história familiar de gente normal confrontada com uma tragédia normal e reagindo-lhe de forma demasiado humana, contada com sensibilidade e bom senso. É muito bonito.
Jorge Mourinha, Público

NOIVA PROMETIDA revela-nos o melhor do cinema israelita
Jornal de Notícias

É, por certo, um dos filmes mais enigmáticos, e também mais envolventes, do nosso Verão cinematográfico: NOIVA PROMETIDA, de Rama Burshtein, encena a odisseia de uma noiva israelita
João Lopes, Cinemax

A particularidade da origem e do meio em que se desenvolve "A Noiva Prometida" - os haredim, vulgo “judeus ultra-ortodoxos” - favorecia um olhar de tipo “zoológico”, género “venham ver estes bichos raros”. E bichos raros serão, mas Rama Burshtein constrói um sentido de familiaridade que esbate a estranheza e ilude a curiosidade turística do espectador atraído por ela. A inteligência - e o sucesso do filme - vem da maneira como se embrenha na codificação social dos haredim e a filma como uma espécie de natureza narrativa. No fundo, é quase um “filme de género”, construído com códigos que é preciso aceitar para aceitar a narrativa - como um western ou como um noir (ou como os romances de Jane Austen, já que se falou neles)... Inteligente, sólido, um dos vários filmes interessantes que têm saído do cinema israelita nos últimos anos.
Luís Miguel Oliveira

APENAS O VENTO| Csak a szél| 2012 | 22.10.13 | Auditório do IPDJ, 21:30


DIA 22 DE OUTUBRO
APENAS O VENTO, Benedek Fliegauf, Húngria/Alemanha/França, 2011, 140’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Csak a szél
Realização: Benedek Fliegauf
Argumento: Benedek Fliegauf
Fotografia: Zoltán Lovasi
Montagem: Xavier Box
Interpretação: Katalin Toldi, Gyöngyi Lendvai, Lajos Sárkány
Origem: Húngria, Alemanha, França
Ano: 2012
Duração : 86’

SINOPSE
Uma família cigana é morta a tiro durante o sono. Os assassinos não são encontrados e ninguém espera que o crime seja desvendado. Mas Birdy, uma mulher cigana, está consciente do perigo que corre. O seu objectivo é simples: juntar o dinheiro suficiente para deixar a Hungria e partir com os filhos e o pai doente para o Canadá, onde o marido se encontra emigrado, e onde espera viver longe do preconceito. Até lá, ela e as crianças apenas terão de passar despercebidos, tentando escapar ao ódio e à violência perpetrada, ano após ano, contra o seu povo.
A quinta longa-metragem do realizador húngaro Bence Fliegauf ("Rengeteg", "Dealer") é um drama inspirado em factos verídicos ocorridos entre 2008 e 2009, na Hungria, que resultaram em vários assassinatos motivados por racismo contra a etnia cigana. Apresentado no Festival de Berlim em 2012, o filme venceu o Grande Prémio do Júri (Urso de Prata) e o Prémio Amnistia Internacional.

TRAILER
CRÍTICA
Uma família cigana é morta a tiro durante o sono. Os assassinos não são encontrados e ninguém espera que o crime seja desvendado. Mas Birdy, uma mulher cigana, está consciente do perigo que corre. O seu objectivo é simples: juntar o dinheiro suficiente para deixar a Hungria e partir com os filhos e o pai doente para o Canadá, onde o marido se encontra emigrado, e onde espera viver longe do preconceito. Até lá, ela e as crianças apenas terão de passar despercebidos, tentando escapar ao ódio e à violência perpetrada, ano após ano, contra o seu povo.
Enquanto Apenas o Vento é essa angústia surda de estado de guerra latente, de conflito à beira da explosão, Fliegauf consegue criar empatia com a vida de uma minoria perseguida (cigana no caso, mas aplicável a qualquer outra).(…)”
Jorge Mourinha, Ípsilon




UMA FAMÍLIA RESPEITÁVEL| Massoud Bakhshi| 2012 | 15.10.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 15 DE OUTUBRO
UMA FAMÍLIA RESPEITÁVEL, Massoud Bakhshi, Irão/França, 2012, 90’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Yek Khanévadéh-e Mohtaram
Realização: Massoud Bakhshi
Argumento: Massoud Bakhshi
Interpretação: Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian, Mehran Ahmadi
Origem: Irão/França
Ano:2012
Duração:90’

SINOPSE
Arash é um jovem académico que vive no Ocidente. Regressa ao Irão para dar aulas em Shiraz, uma cidade longe de Teerão onde a mãe vive. Arrastado para uma série de dramas familiares e financeiros, enfrenta um país que agora lhe é estranho. Na sequência da morte do pai e ao descobrir aquilo em que a sua “família respeitável” se transformou, vê-se forçado a fazer escolhas.


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NOTAS DOS REALIZADOR
Pertenço à geração que sobreviveu aos oito longos e mortíferos anos da guerra Irão-Iraque.
Atualmente, esta geração representa três quartos do país. O Irão tem uma das populações mais jovens do mundo – jovens formados, cheios de curiosidade e desejo de viver. Jovens que sonham com um Irão tolerante e aberto ao resto do mundo.
Para mim, o Irão é incompreensível se não levarmos em conta a sua história dos últimos 30 anos. Não inventei a história de UMA FAMÍLIA RESPEITÁVEL, a história é verdadeira – é a história da minha infância após a revolução de 1979, da minha adolescência durante a guerra e da minha experiência em Teerão dos dias de hoje.


(…)O cinema iraniano cada vez mais produz filmes que, em lugar de exibirem um certo apaziguamento, demonstram, sem cólera nem rancor, o rosto tenso do Irão. Mostram o desejo de fazer de um país que ganhámos o hábito de estereotipar excessivamente o terreno para grandes histórias universais. UMA FAMÍLIA RESPEITÁVEL faz parte disso. É, antes de mais, um filme de máfia construído com rigor, e filmado num ritmo espantosamente meditativo. Sob o olhar de Arash, desenvolve-se a ascensão do seu sobrinho sem escrúpulos. Arash acredita na simpatia de Hamed e afeiçoa-se a ele, enquanto que a única motivação do jovem é impedi-lo de tocar na herança do pai.
Além do interesse pela mecânica do poder, sente-se a preocupação do realizador por uma dissolução dos valores morais que vêem uma jovem geração afastar-se daquilo que era sagrado há uma ou duas gerações sacrificando-o pelo dinheiro – o único novo valor. Mas, mais uma vez, a observação crítica de um capitalismo devorador é apenas uma pista entre muitas, e o dinheiro é um sintoma horrível de uma degenerescência bem maior.
Filme de máfia, metáfora social, UMA FAMÍLIA RESPEITÁVEL lê-se como mito contemporâneo. À semelhança das antigas grandes dinastias, encena a falha de um homem transferindo o peso de uma maldição para as gerações seguintes. Aqui, é a fractura da célula familiar – o pai de Arash engravida uma outra mulher – que cinde toda a descendência em dois ramos malditos. De um lado, as vítimas (Arash e o seu irmão mártir), e do outro, os torcionários (Jafar, o filho ilegítimo, e o seu filho Hamed). Como o herói persa de onde retira o seu nome, como Édipo ou Orestes, Arash recusa submeter-se ao destino que lhe impõem. Esse destino, todavia, já não é testemunha das inquietudes originais do mundo, mas antes da sua evolução em sentido contrário ao de toda a mística.
O derradeiro refúgio, a última referência de Arash com valor, são as mulheres que o rodeiam. Bem antes de ele conseguir perceber a armadilha, elas já adivinharam. Elas continuam a lutar por aquilo que os homens parecem ter desistido de defender: a integridade, o respeito pelo outro, a família. Desejoso de mostrar que já não se trata de trabalhar um arquétipo feminino, é às mulheres do seu país que Massoud Bakhshi dedica o seu filme. Mas esta discrição fundamental faz sentido: é preciso colocar a esperança naquelas e naqueles usam as palavras e os gestos com parcimónia, mas que estendem o braço para impedir a queda daqueles que caminham em frente e falam alto.
Noémie Luciani – Le Monde





LIKE SOMEONE IN LOVE| Abbas Kiarostami| 2012 | 08.10.13 | Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 08 DE OUTUBRO
LIKE SOMEONE IN LOVE, Abbas Kiarostami, Japão/França, 2013’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Like Someone in Love
Realização: Abbas Kiarostami
Argumento: Abbas Kiarostami
Interpretação: Rin Takanashi, Tadashi Okuno, Ryo Kase
Origem: Japão/França
Ano: 2013
Duração : 109’


SINOPSE
Uma jovem mulher e um velho encontram-se em Tóquio. Ela não sabe nada sobre ele, ele pensa que a conhece. Ele recebe-a em sua casa e ela oferece-lhe o seu corpo. Mas a teia que se tece nas vinte e quatro horas seguintes supera as circunstâncias do seu encontro. 



CRÍTICA
Depois da Toscana, onde filmou "Cópia Certificada", Abbas Kiarostami segue para o Japão, território de "Like Someone in Love". Mas ao contrário de "Cópia Certificada", onde não era nada indiferente o cenário circundante, integrado no filme também como reflexão sobre a arte, a cultura e a história italianas, em "Like Someone in Love" o Japão é muito mais apenas um cenário. Quer dizer: o filme está lá dentro, dos bares, das casas, das ruas, sem uma nota em falso, e até há uma pequena prelecção sobre uma pintura japonesa do século XIX, mas é difícil pensar que “reflectir” sobre o Japão, ou sobre a sua condição de cineasta estrangeiro a filmar no Japão, tenha sido uma preocupação de Kiarostami. Nem mesmo Ozu, que é uma das grandes referências de Kiarostami (até já lhe dedicou um filme: Five - Dedicated to Ozu), vem muito ao caso, e também é dificil pensar nalgum momento que soe a “homenagem” ao cineasta japonês: nem sombra de algo parecido com um “plano Ozu”.


Como Kiarostami diz, de resto, o filme nem foi especificamente pensado para ser feito no Japão. Concentra-se nas personagens, e no espantoso grupo de actores que as interpreta, é provavelmente o filme de Kiarostami mais character-driven, mais guiado, em última análise, pelo desenho das personagens e das relações entre elas. Com um pudor e uma subtileza enormes: nunca se diz claramente, por exemplo, que a protagonista feminina é universitária de dia e prostituta à noite, e no entanto isso fica plenamente sugerido, por meias palavras, ao fim de poucos minutos, naquela sequência assombrosa de campos/contracampos, cheios de movimento interno, que abre o filme dentro dum bar de Tóquio. Assim como nunca saberemos exactamente - as elipses de Kiarostami são sempre magistrais - o que se passou de facto na noite que a rapariga passou em casa do professor que recrutou os seus serviços. Que é de resto, toda ela, uma sequência excepcional, completamente “centrípeta”, sempre a fugir para o lado do que naquela situação seria essencial: as interrupções (os telefonemas que o professor recebe, de alguém a pedir-lhe uma tradução), as derivas (a tal conversa sobre a pintura, pendurada na parede), o vinho e a sopa de camarão com que o professor tenta arrancar a rapariga ao torpor sonolento em que cai (até se transformar ela própria, por obra e graça de um enquadramento de génio, numa “pintura na parede”, a sua imagem esfumada reflectido num espelho ao canto do plano).

Essa sequência, de resto, dá sentido ao título do filme. É nela que se ouve a canção homónima de Ella Fitzgerald, tocada na aparelhagem do professor, e é durante ela que as personagens mais supostas são comportarem-se “como alguém apaixonado”. A rapariga, por profissão, o professor, por ocasião. Entra em cena, portanto, uma espécie de teatro, em que toda a gente representa um papel perante os outros, que não mais largará o filme. Quando saiem de manhã, e depois de encontrarem o namorado da rapariga, o professor e ela passam a apresentar-se “como avô e neta”, mascarada que será mantida perante todos os outros secundários, incluindo a espantosa personagem da vizinha, que começa por ser só uma voz e depois tem direito a um plano inteiro só para si Incidentalmente, essa personagem e esse plano são o que desperta mais “memórias” do cinema japonês, mas a “representação” do velhote e da rapariga, sempre sobre ameaça de “desmontagem”, fazem pensar em algo mais inesperado, uma espécie de pequeno Vertigo, com um homem mais velho a passear uma mulher mais nova que ele, de certo modo, “inventou”. Os planos com o automóvel, os reflexos no vidro, ora o céu e as nuvens ora as construções arquitectónicas dos arredores de Tóquio, talvez não sejam, nesse sentido, puramente inocentes. O automóvel, de resto, continua a ser o “dispositivo” preferido de Kiarostami, e é dentro de automóveis que se passa boa parte do filme - incluindo, ainda não tínhamos referido, um magnífico travelling por Tóquio by night, na mais dorida sequência do filme, aquela em que a rapariga, em trânsito para o “encontro” em casa do professor, ouve, uma a uma, as mensagens telefónicas que a avó, que passou o dia na estação de comboios à espera dela, lhe foi deixando (e essa avó, que é só uma voz no telemóvel e depois uma silhueta entrevista numa praça de Tóquio, é outra personagem extraordinária, possível rima para a da vizinha do professor no modo como lutam para sairem do fora de campo a que as outras personagens as remetem).

Todas as mentiras, fakes e mistérios que pontuam o filme ficarão em suspenso. Naquele final inacreditavelmente violento, cheio de ruidos e interrupções (as campainhas, os telefones), e outra personagem (o namorado) revoltada também com o “fora de campo” a que o par central a condena. O que é que ali se passa verdadeiramente, o que é que se passou depois de Kiarostami ter cortado para o genérico de fecho sem mais delongas, permanece um enigma, fabricado à custa de uma secura inexorável. Também aí estamos próximos do mais puro e mais “iraniano” Kiarostami.
Luís Miguel Oliveira, Ípsilon