O DESCONHECIDO DO LAGO| Alain Guiraudie| 2013| 28/01/2014| Auditório do IPDJ, 21:30H

DIA 28 JANEIRO
O DESCONHECIDO DO LAGO, Alain Guiraudie,França, 2013, 97’, M/16

FICHA TÉCNICA
Título Original: l’Inconnu du Lac
Argumento e Realização: Alain Guiraudie
Fotografia: Claire Mathon
Som: Philippe Grivel, Nathalie Vidal
Montagem: Jean-Christophe Hym
Interpretação: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick D’Assumção, Jérôme Chappatte, Mathieu Vervisch
Ano: 2013
Origem: França
Duração: 97´
M/16

SINOPSE
Verão. Um lago é um local de engate de vários homens. Franck apaixona-se por Michel. Um homem bonito mas mortalmente perigoso. Franck sabe disso. Mas deseja viver essa paixão.


FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cinema de Cannes – Melhor Realizador - Un Certain Regard
Festival de Cinema de Cannes – Queer Palm
Lisbon & Estoril Film Festival - Selecção Oficial - Fora de Competição



TRAILER

CRÍTICA
Perguntámos a Alain Guiraudie, no contexto da última edição do Lisbon & Estoril Film Festival, em conversa a decorrer logo após a projecção de L’inconnu du lac (O Desconhecido do Lago, 2013) , quem é o desconhecido do lago: se Henri (Patrick d’Assunçao) que se torna amigo de Frank (Pierre Deladonchamps), um corpo que se destaca dos restantes porque não se despe até ao pêlo, nem investe pelo bosque em volta do lago para engatar outros homens; se Michel (Christophe Paou), por quem Frank se irá apaixonar, e que recusa estar com ele uma noite inteira, com a desculpa que esse tipo de intimidade dará cabo da atracção que sentem um pelo outro, e sobre o qual a partir de dada altura recaem as suspeitas de que possa ter sido responsável pela morte de um banhista; se o desejo ou prazer que se afigura como motivação primeira para o exibicionismo dos corpos nus e para o sexo que vemos, frequentemente anónimo e voyeurista.
Guiraudie explicará que a pergunta encerrava já a única resposta possível, no que abre para uma quarta hipótese, a de ser o próprio espectador “o desconhecido do lago”. No sentido em que o filme se concentrando em exclusivo num espaço natural fora do resto do mundo (por extensão, o nosso), numa repetição de enquadramentos e acções que se encaminham para a conclusão nocturna, que nada tem de naturalista, por contraste com o tom geral usado por Guiraudie, que permanentemente acentua a presença da natureza, com os recortes da paisagem, o mar, a luz do sol, o som da brisa e do vento, como se o mistério de L’inconnu du lac escolhesse para sempre permanecer misterioso porque aberto a várias leituras, embora fechado a qualquer uma delas em exclusivo.
L’inconnu du lac é um filme de sensações, que joga com a nossa necessidade de compreender o que se passa, quando é tão mais decisivo entregarmo-nos ao seu lado sensorial, sermos mais um naquela “ilha de homens”, circunscrita pelo fora de campo, onde tudo o que de um gesto escorre para outro, da pele batida pelo calor solar aos corpos que se cruzam ou se oferecem com intensidade ou abandono, busca a libertação do espartilho racional. L’inconnu du lac é um objecto explicitamente gay que transcende a sexualidade. A concentração espacial, o minimalismo da planificação, cria uma tal harmonia entre os homens e a natureza, que o instinto puro que impele para os encontros sexuais configura mais uma ideia de paraíso, algo que está para além da culpa e do sórdido.
Triunfa a natureza. Triunfa a liberdade sobre o artifício (pelo menos até à sequência final, algo que está mais próximo de um filme de género). Triunfa o cinema.

ENTREVISTA A ALAIN GUIRAUDIE
No novo filme de Alain Guiraudie, que não hesito em considerar o seu melhor, homens marcam encontro num lago de evasão. Procuram o amor físico. Os dias e os rituais repetem-se. Um desconhecido, Michel, afoga o amante. Franck assiste ao crime. E sem lhe revelar o que viu, é por Michel que ele se apaixona, perdidamente, nas margens deste lago em que as leis do desejo dominam as da razão. Conversámos com este enorme cineasta francês durante o último Festival de Cannes.
O que lhe surgiu primeiro: o lago ou o argumento do filme?
O lago. O espaço de engate. Eu tinha escrito um esboço de romance a partir da ideia de um homem que é afogado por um desconhecido em circunstâncias misteriosas.  
É uma ideia que lhe veio de algum filme ou romance?
Não. O processo criativo foi espontâneo, muito pouco cerebral. Dei-me depois conta,  já “O Desconhecido do Lago” estava pronto, que outros filmes planam sobre o meu de forma inconsciente,
influências longínquas, “A Noite do Caçador”, por exemplo. O único momento do argumento em que acho que procuro um elemento que me é exterior, um momento de cinema de género, é na morte do inspetor da polícia. Faz-me pensar no “Shining”: quando o guarda-noturno aparece no hotel, julgamos que a Família está salva, mas depois o Jack Nicholson mata o guarda, ou seja, aumenta ainda mais o medo e a angústia.
Admite que se veja em “O Desconhecldo do Lago” uma dimensão onírica?
Ah, sim! Há uma dimensão onírica. O que mudou em relação aos meus filmes anteriores é que o onirismo, aqui, não é ‘produzido’ pela ficção: nasce organicamente Nasce da natureza. E chegamos a este aparente paradoxo sobre “O Desconhecido do Lago”: este é um filme naturalista que faz sonhar.
A representação da sexualidade passa por cenas de sexo explícito. Pela primeira vez, você entra em terrenos de hardcore. E é nu; com aqueles homens, que são os seus atores, que o vemos, na praia do lago, numa breve sequência no início do filme. Porque é que decidiu filmar-se também?
Afrontar a sexualidade desta maneira é uma novidade no meu cinema. Filmei-me porque tinha consciência das coisas que ia pedir ao atores nas cenas da floresta em que eles fazem amor. Sabia que ia ser difícil. Senti necessidade de me colocar do lado deles. E por outro motivo também: para evitar qualquer crítica de voyeurismo. Não sou voyeur. Nem acho que o meu filme seja.
Já conhecia os atores?
Não
Recusou muitos no casting?
Bom, todos foram prevenidos do que seria preciso fazer: tirar a roupa, beijar rapazes, etc. Todos sabiam que a temperatura ia aquecer. Muitos nem sequer se apresentaram por causa disso, mas ainda vieram bastantes. De seguida, e após uma primeira seleção, dei-lhes a ler o argumento. Fizemos alguns ensaios mais ousados. Alguns abandonaram o filme nesta fase. O Pierre Deladonchamps [Franck] e o Christophe Paou [Michel] ficaram, mas não foram os únicos. O processo foi, só podia ser, muito claro desde o primeiro minuto. Não queria que a meio da rodagem alguém me dissesse: “Agora está a pedir-me para ir longe demais...”

E em relação às cenas de sexo explícito?
Também já tinha previsto recorrer a duplos.
Com atores porno?
Não, não procurei a indústria porno, Não foi preciso. Os duplos são pessoas anónimas, alguns deles atores profissionais que nos deram os seus corpos e que se assemelham fisicamente aos protagonistas. Estas cenas não são fáceis, sobretudo quando os atores não estão habituados ao porno. Não é fácil ter uma ereção em frente a uma câmara e a uma equipa de cinema. Mesmo com Viagra não dá, nem sempre dá, não há ereções por encomenda: não é o Viagra que vai substituir a libido. Há outra coisa que me afastou também dos atores porno: acho-os estereotipados. E isso nota-se. Mesmo no baixo ventre nota-se. 
Noutro filme seu, “Ce Vieux Rêve Quil Bouge” (2001), havia também um triângulo amoroso masculino e não correspondido que, em “O Desconhecido do Lago”, se completa pela personagem de Henri. Celibatário, é ele quem observa... e vê mais do que todos os outros.
Henri é uma personagem muito importante. O amor triangular foi uma ideia basilar para o argumento. Será que Henri ama Franck? Talvez. Mas não conhecemos bem a natureza do seu desejo, nem aquilo que move a personagem. E é verdade, este filme amplifica o triângulo de “Ce Vieux Rêve Qui Bouge”. 

Henri convidará Franck a passar uma noite em sua casa. Mas Franck recusa-o.
Porque o amor não é correspondido, lá está. É a crueldade do desejo. Franck não está disponível.
Não está disponível porque ama Michel. Mas Michel é o homem que Franck viu (e que nós vimos) cometer um assassínio. Pergunto-lhe se a paixão se excita pelo crime.
Para mim, é importante que Franck deseje Michel já antes do crime. Não estou seguro que o crime, o segredo ou o medo o excitem. Não creio que o filme faça apelo ao macabro. Franck já se atirou de cabeça. Esta é uma ideia muito romântica. E o crime não é capaz de travar esse amor. Ele não se importa com o que lhe pode acontecer: a questão moral é contornada. Porque a questão afinal, é outra: não plana sempre uma ameaça sobre o amor? Não se perguntam todos os amores da Terra até quando pode durar? Aqui sim chegamos ao que me interessa, à angústia do sentimento amoroso.  Michel, o criminoso, não é menos angustiado.
Há uma linha de filme policial em “O Desconhecido do Lago” o medo chama o medo, e quanto
mais ele se teme mais se manifesta. Creio que a montagem gera este efeito O filme ganha velocidade, precipita-se em espiral: os planos vão-se tornando ligeiramente mais curtos. Começamos em placidez, caminhamos para o terror puro.
É verdade. Creio que isso vem do argumento, mais do que da montagem, mas sim, o filme acelera
com a entrada do inspetor da polícia O parque de estacionamento também é importante. Pelos carros, sabemos quem veio ao lago em tal dia. E o tipo que foi afogado continua ‘presente’ no filme nos dias seguintes porque sabemos que o seu carro ficou lá. É um sinal de ameaça. Uma evidência.
Qual é a importância da personagem do inspetor? Ele tem algo de cómico. Faz perguntas. E aqueles homens nunca se perguntam nada...
Ele é um intruso naquele meio. Eu estou a falar de um universo que me é familiar mas tenho a consciência de que, para a maioria dos espectadores que não conhecem estes locais de engate, o que se vê é quase ficção científica... O inspetor é o tipo que vai fazer a ponte entre o onirismo do filme e a perceção do espectador. É o tipo que, além disso, vai pôr em causa coisas que eu também tenho vontade de pôr em causa: porquê fazer sexo com alguém e recusar trocar o número de telefone?
“O Desconhecido do Lago” tem uma de desenvoltura dramática muito diferente dos seus filmes anteriores...
É o meu filme mais grave...
Mas não é politicamente menos comprometido.
 A paixão no meu filme não pede licença para passar.  Não se culpabiliza. Represento a homossexualidade e o ato sexual, uma felação, uma ejaculação, não como uma vinheta que chega de fora da relação amorosa, mas como algo que lhe pertence organicamente — e que assim sai do contexto da pornografia. Ousar propor uma representação da homossexualidade desta maneira é um gesto de provocação e de liberdade. E um duplo combate: não só me debato com as minhas dúvidas como procuro que a representação possa ser refletida pelo espectador como um gesto político. Em “O Desconhecido do Lago’ a tragédia e a angústia tomam conta do espaço. Mas o espaço que temos é a natureza no seu estado puro: um lago, os seus arredores, nada mais. Na montagem, descobrimos que podíamos devolver a este espaço em que nada é traficado uma dimensão hiperfantástica. Uma dimensão cósmica. Foi este o objetivo.
Francisco Ferreira, Expresso, 23/11/13 

O GRANDE MESTRE| Wong Kar Wai| 2013| 21/01/2014| Auditório do IPDJ


Do Realizador de DISPONÍVEL PARA AMAR, dia 21 de Janeiro:
O GRANDE MESTRE 

FICHA TÉCNICA
Título Original / Internacional: Yi dai zong shi - The Grandmaster
Realização: Wong Kar Wai
Argumento: Kôgo Noda e Yasujiro Ozu
Fotografia: Philippe Le Sourd
Montagem: William Chang
Interpretação: Ziyi Zhang, Tony Leun, Cung Le, Hye-kyo Song
Origem: EUA/China/Hong Kong
Ano: 2013
Duração: 113´

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Berlim – Filme de Abertura
Lisbon & Estoril Film Festival - Selecção Oficial - Fora de Competição

SINOPSE
No mundo das artes marciais existem muitos Mestres, mas o título de Grande Mestre pertence apenas a uma lenda. O professor de Bruce Lee, de nome Ip Man, era um homem  de acção que sabia que o último homem a ficar de pé seria o escolhido. Ele acreditava ser esse homem até conhecer uma verdadeira rival; um génio das artes marciais vindo da Manchúria chamada Gong Er que era considerada uma lenda... e uma linda mulher. 

TRAILER
CRÍTICA
“Achavam realmente que Wong Kar-wai ia fazer uma biografia de um mestre de artes marciais? The Grandmaster é outra vez uma história de amor impossível.
As primeiras imagens de The Grandmaster são de um combate de kung fu à chuva, desconstruído e desmontado nos gestos, nos pingos de água que caem, nos pés que escorregam, tudo naquela câmara lenta aos soluços a que Wong Kar-wai nos habituou.
E lá por o filme ser (supostamente) a biografia de Ip Man, o mestre de artes marciais wing chin que viria a ensinar Bruce Lee, a verdade é que não é isso – ou não é realmente isso – que interessa a Wong Kar-Wai.
O que ele quer mesmo fazer é filmar uma história de amor sublimada através das movimentações abstractas de corpos em imponderabilidade. Traduzindo: o amor é quando um homem e uma mulher que praticam artes marciais de escolas diferentes quiserem. E é, como convém no cinema de Wong, um amor impossível. Entre Ip Man, o homem tranquilo, pai de família e mestre das escolas de kung fu do Sul, e Gong Er, a filha impetuosa e orgulhosa de um mestre da escola do Norte, que tudo separa, até mesmo a invasão japonesa da China em finais dos anos 1930, e que passam todo o filme distantes um do outro e a sonhar com o momento em que partilhem as 64 Mãos. (É um golpe de kung fu do Norte, antes que comecem a pensar o pior.)
 Não vale a pena estarmos com rodeios, The Grandmaster é um objecto formalmente sumptuoso. Wong não perdeu nem um átomo do requinte quase ofensivo como filma (…)”

"O resultado (de O GRANDE MESTRE) tem a dimensão de uma epopeia tão espectacular quanto intimista, remetendo-nos para a exuberância da ópera"
 João Lopes
 - Diário de Notícias



“[Wong Kar Wai] joga com todos os esterótipos dos filmes do género Kung-Fu mas leva-os muito a sério. E eleva-os. A um nível de transcendência encantatória, quase a um erotismo na coreografia, uma beleza desarmante. (…) Arrepia, sim senhor”. 
Ana Margarida de Carvalho - Visão

"Quando se é um realizador da estirpe de Wong Kar Wai o resultado é um filme de mestre do cinema sobre a vida de um lendário mestre das artes marciais" 
 Sérgio Abranches - Time Out Lisboa





EU E TU| Bernardo Bertolucci| 2012| 14.01.2014| Auditório do IPDJ, 21:30



DIA 14 DE JANEIRO
EU E TU, Bernardo Bertolucci, Itália, 2012, 103’, M/12

FICHA TÉCNICA
Título Original: Io e Te
Realização: Bernardo Bertolucci
Argumento: Bernardo Bertolucci, Niccolò Ammaniti, Umberto Contarello, Francesca Marciano
Fotografia: Fabio Cianchetti
Cenários: Jean Rabase
Música: Franco Piersanti
Montagem: Jacopo Quadri
Interpretação: Jacopo Olmo Antinori, Tea Falco, Sonia Bergamasco
Origem: Itália
Ano: 2012
Duração: 103´

SINOPSE
Lorenzo é um jovem solitário de 14 anos, diferente dos outros. Um dia, engana os pais e falta a uma viagem escolar para realizar o sonho de se esconder numa cave abandonada do prédio onde mora. Durante uma semana, pode finalmente evitar todos os conflitos e as pressões e comportar-se como um adolescente dito normal. A chegada inesperada da meia-irmã Olivia vai mudar tudo.

 

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cinema de Cannes – Selecção Oficial – Fora de Competição
Lisbon & Estoril Film Festival - Selecção Oficial – Fora de Competição

TRAILER

CRÍTICA

Cineasta com uma obra que se desenvolve ao longo de meio século, o italiano Bernardo Bertolucci nunca deixou de lidar com os dramas mais íntimos da juventude: assim volta a acontecer no admirável "Eu e Tu", estreado em Cannes/2012.

Há uma obsessão central no cinema de Bernardo Bertolucci. Tem a ver com a juventude e poderemos, talvez, resumi-la numa pergunta: como é que os jovens refazem, ou renegam, as heranças dos pais?
Afinal de contas, encontramo-la disseminada por histórias tão diferentes como a do filho revoltado de "Antes da Revolução" (1964), a do filho à procura da herança política do pai em "A Estratégia da Aranha" (1970), ou ainda, claro, a dos filhos errantes nas paisagens urbanas de Maio 68 evocadas em "Os Sonhadores" (2003).
"Eu e Tu" demorou algum tempo a chegar às salas portuguesas (foi um dos grandes acontecimentos de Cannes/2012, extra-competição), mas ainda bem que chegou. Estamos, de facto, perante um objecto fundamental no interior dessa lógica filial do cinema de Bertolucci, contando a história insólita do diálogo secreto de Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) com a sua meia irmã Olivia (Tea Falco), por assim dizer tentando preencher a ausência dos adultos.
O insólito da história está próximo do fait divers. Isto porque tudo começa com a bizarra fuga de Lorenzo: diz aos pais que parte para uma excursão escolar a uma estação de esqui mas, de facto, sai de casa para se instalar na... cave do seu próprio prédio. Dir-se-ia que alguns (anti-)heróis de Bertolucci são, assim, arquitectos de mundos a tender para o incomensurável da utopia; Lorenzo parece tocado pelo mesmo desejo, mas enquista-se no segredo do seu espaço familiar.
Não estamos, obviamente, perante um filme de peripécias mais ou menos "agitadas", explorando o vazio gerado pela ausência de argumento ou pelo excesso de efeitos especiais... Nada disso. "Eu e Tu" enfrenta uma questão transversal dos nossos dias: o mútuo desconhecimento das gerações, ou melhor, a penosa desagregação das certezas do espaço clássico da família (ou do espaço da família clássica).
Bertolucci sabe filmar as convulsões de tudo isso, não recusando os ecos simbólicos da sua história, mas também evitando quaisquer generalizações simplistas: Lorenzo e Olivia são seres únicos e irredutíveis, não meras marionetas para fazer passar uma "tese" edificante. Veja-se, por isso, a violência gratuita dos retratos juvenis que proliferam em "Morangos com Açúcar" e seus derivados... "Eu e Tu" é um filme feito também contra esse tratamento gratuito da juventude  — a intensidade das suas emoções envolve também um sentido eminentemente político da responsabilidade social do cinema.
João Lopes, rtp.pt/cinemax/


Está encontrado o filme de Bertolucci de que mais gostamos nos últimos 30 ou 40 anos.
Agora que se extinguiram os nomes da “comédia à italiana”, Risi e Monicelli, é à geração de Bernardo Bertolucci e Marco Bellocchio, filhos da nouvelle vague e de Pasolini, quem melhor assenta o estatuto de “patriarcas” do cinema italiano. Bertolucci é mais (re)conhecido, por obra e graça de alguns filmes que se tornaram lendários, do Último Tango em Paris ao Último Imperador. A Bellocchio falta-lhe isso, para o bem e para o mal, mas é forçoso reconhecer que chegou à casa dos 70 anos com uma capacidade de pegar de caras a história recente do seu país (de Mussolini, em Vencer, às Brigadas Vermelhas, em Bom Dia Noite) que Bertolucci já perdeu há muito. De resto, e se Bellocchio também tem obra desigual, há bons argumentos para defender que Bertolucci já não faz um filme bom, imprescindível, desde O Conformista, há mais de quarenta anos, com excepção de Tragédia de um Homem Ridículo, há mais de trinta.
Tudo isto para dizer que é dificil perceber o que fazer com os filmes que Bertolucci faz hoje. Ou quase não faz, visto que os intervalos são cada vez maiores (Eu e Tu aparece nove anos depois de The Dreamers), por razões que não terão apenas a ver com problemas de saúde. Um fio possível para deitar a mão à meada de Bertolucci é a juventude. The Dreamers falava do Maio de 68 como uma aventura adolescente, mais sentimental do que política, questão de “lust for life”. Os protagonistas de Eu e Tu voltam a ser jovens, ainda mais jovens do que os de Dreamers. E se estes se enfiavam na cave da Cinemateca Francesa (a aventura também era cinéfila), estes enfiam-se numa cave anónima, cheia de adereços e guarda roupa, para sessões de terapia convivial, desintoxicação e teatro musical.

Explicamo-nos: Eu e Tu é a história de um garoto (de fácies muito bem escolhido, tipo Malcolm McDowell borbulhento) em plena idade do armário, que se tranca na cave do prédio durante a semana em que a mãe pensa que ele foi fazer ski com os colegas da escola. Tranca-se por razão nenhuma: pura revolta “sem causa”, zangado com os pais, com a escola, com o mundo. Depois aparece-lhe a meia irmã, mais velha, que também escolheu a cave para se isolar e proceder a uma desintoxicação por conta própria, promessa feita ao namorado. O osso do filme assenta na relação entre eles. E se se pode sempre dizer que isto também é Bertolucci a “enfiar-se na cave” e a voltar costas ao mundo, de tal modo eu e tu se abstém de referências significativas ao que quer que seja para além da relação entre os dois meio-irmãos, esta história de intimidade subterrânea até resulta bastante bonita. Bertolucci parece lançar algumas pistas, quase private jokes - o psicólogo que na primeira cena atende o miudo está em cadeira de rodas, como, por causa de uma hérnia, Bertolucci está actualmente, e portanto é como se Bertolucci “apadrinhasse” o miudo; o miúdo que, numa das últimas cenas antes de se encerrar na cave, irrita a mãe com perguntas incestuosas, como se fosse La Luna revisto com um sentido de irrisão adolescente. Mas nada disto prevalece sobre o sentido essencial do filme, que é um rumo para a pacificação, uma resolução da “revolta” através da aprendizagem do contacto com os outros. Se a miúda se desintoxica da heroína, o miudo desintoxica-se da sua aversão ao contacto e ao convívio, aprende que se pode esperar dos outros, em determinadas circunstâncias, alguma coisa boa. Num golpe bastante feliz, Bertolucci transfere integralmente para uma canção de David Bowie (Ragazzo Solo, Ragazza Sola, versão italiana de Space Oddity), dançada e cantada pelo par de irmãos, a expressão da moral da história e a chave para desatar o seu novelo psicológico. Depois, pode fixar o sorriso do rapaz num paralítico que, de certezinha absoluta, integra uma memória do plano final dos Quatrocentos Golpes. E portanto até é simples: está encontrado o filme de Bertolucci de que mais gostamos nos últimos 30 ou 40 anos.

Luís Miguel Oliveira, Ípsilon



A VIDA DE ADÈLE| Abdellatif Kechiche| 2013| 07.01.2014| Auditório do IPDJ, 21:30

DIA 07 DE JANEIRO
A VIDA DE ADÈLE, Abdellatif Kechiche, França| Espanha| Bélgica, 2013, 179', M/16

FICHA TÉCNICA

Título Original: La Vie d’Adèle: Chapitres 1 et 2
Realização: Abdellatif Kechiche
Argumento: Abdellatif Kechiche e Ghalya Lacroix  -livremente inspirado no livro “Le bleu est une couleur chaude” de Julie Maroh
Fotografia: Sofia El Fani
Montagem: Camille Toubkis, Albertine Lastera, Jean-Marie Lengelle, Ghaly Lacroix
Som: Jean-Paul Hurier, Jerôme Chenevoy
Interpretação: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée
Origem: França, Espanha, Bélgica
Ano: 2013
Duração: 179’
M/16


SINOPSE
Adèle tem 15 anos e, tal como todas as raparigas que conhece, namora com rapazes. Tudo aquilo em que acredita se altera quando o seu olhar se cruza com o de Emma, uma rapariga de cabelo azul, cuja visão da vida e do mundo é muito diferente da sua. Entre elas nasce um amor e desejo profundo que, apesar das dificuldades, as fará crescer e afirmar-se enquanto mulheres.

PRÉMIOS
Vencedor da Palma de Ouro da 66.ª edição do Festival de Cannes, cujo júri quis, com este prémio, homenagear não apenas o trabalho do realizador, mas também o de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, as duas actrizes protagonistas

TRAILER



CRÍTICA
Talvez se deva começar pelo que há de para­doxal em A Vida de Adèle: capí­tu­los 1 e 2, filme sobre a edu­cação sentimental de uma jovem sub­urbana (Adèle) a par­tir do momento em que se cruza com Emma (Léa Seydoux). E é isto: o que tem sido posto em mar­cha pelo cin­ema de Kechiche, a expressão sen­sual de um tecido social e afec­tivo, parece imobilizar-se aqui, ou congelar-se.

Isto ape­sar de os “capí­tu­los 1 e 2” do título, ao pis­carem o olho à incom­ple­tude de La Vie de Mar­i­anne, de Mari­vaux, pis­carem o olho ao movi­mento. Se tivermos em conta a boutade (talvez nem tenha sido isso) do crítico francês Serge Kaganski, no pós-Cannes, dizendo sobre Kechiche: “le plus grand cinéaste français actuel est d''origine tunisi­enne, qu''on se le dise et redise”, talvez se possa acrescentar, como uma extrapolação, que se detecta aqui um movimento, consciente ou inconsciente, em direcção a algo de mais reconhecível e figé - o filme de ini­ci­ação tal como cul­ti­vado pelos framceses (Pialat, Doil­lon, Téch­iné, Eustache...). Kaganski, aliás, continuava, falando numa “obra-prima tão francesa ded­i­cada aos sen­ti­dos e à liber­dade dos indi­ví­duos, banhada pelas grandes refer­ên­cias cul­tur­ais nacionais (Mari­vaux, Picasso, Sartre, vinho branco...).” Que nos seja permitido continuar a extrapolação: é este o dilema, entre movimento e fixação, de A Vida de Adèle: a monumentalidade coral de O Seg­redo de um Cus­cuz (2007), por exemplo, a forma como nesse filme o corpo de Hafsia Herzi era submetido a um mecanismo que o ultrapassava (algo de sacrificial que noutro filme do realizador, Vénus Negra, tomava a forma de ensaio paroxístico), está ausente ou domada. Restam vinhetas de exclusão social e de luta de classes. Tudo o que tem a ver com os pais das protagonistas ou com o grupo que rodeia Adèle é substancialmente episódico ou entra em perda quando Adèle e Emma, o par amoroso, o desafio deste filme, não estão no ecrã - quando o espec­ta­dor não é o intruso na ménage a trois elab­o­rada pelo cineasta e pelas intér­pretes, Léa Sey­doux e Adèle Exar­chopou­los, o filme entra em ressaca. Eis então o que aqui está, nesta primeira adaptação de Kechiche, a partir da novela gráfica de Julie Maroh, Le bleu est une couleur chaude: a experiência de um Grande Íntimo.~

Como uma lupa sobre a intimidade, sobre o sexo, com lágri­mas e outros fluidos, encerrando o espec­ta­dor numa bolha contraditória de assom­bro, de medo, que o faz estremer como numa primeira vez - por isso Julie Maroh veio dizer, mais do que sugerir, que o facto de ter sido um heterossexual a filmar uma história de amor lésbica deixou marcas que a incomodaram; por isso alguma crítica (americana, por exemplo) se armou com o feminismo para denunciar o suposto sexismo; por isso as intérpretes se assustaram com o que Kechiche as levou a fazer (disso resultando, no embate pós-filme que aconteceu entre Léa Seydoux/Kechiche, um episódio de utopia e decepção, social e afec­tiva, que podia rimar com os melhores momentos do cinema do realizador.)
Vasco Câmara

ENTREVISTA AO REALIZADOR
São raros os momentos em que o cinema consegue transportar consigo o turbilhão de emoções e o longo caminho que percorremos na vida até ao momento em que olhamos para trás e percebemos, de facto, a maneira como tudo o que vivemos ter-nos-á mudado intelectualmente, emocionalmente, e na nossa intimidade física, para fazer aquilo que somos hoje e o lugar que ocupamos no mundo em relação aos outros e a nós próprios. Raros não pela distância que possa existir entre vida e cinema – nada existirá de tão próximo e, ao mesmo tempo, de tão distante -, mas porque para filmes tão grandes como La vie d’Adèle (A Vida de Adèle, 2013), o caminho a fazer é longo, desde o momento em que o filme se imagina até à sua montagem final, passando por uma direcção de actores e uma rodagem intensa, experimental, mas pensada, e que exige o máximo de cada um dos intervenientes. A vida é uma viagem e um filme também o é, condensada nesse “curto” período de seis meses de filmagens onde se vivem anos de vida. Assim se fez La vie d’Adèle, e assim se fez, na nossa perspectiva, um dos filmes mais bonitos, intensos e verdadeiros dos últimos anos. Abdellatif Kechiche, o seu realizador, esteve presente no Lisbon & Estoril Film Festival para apresentar a sua quinta longa-metragem (com estreia comercial a 28 de Novembro), a sua história de uma “heroína da vida quotidiana” que descobre que o amor não tem nome nem sexo, apenas uma cor e as suas emoções – emoções que saem de um corpo mas que se estendem e ficam até ao resto da eternidade.
Devido às cenas explícitas de La vie d’Adèle, à sua longa fabricação, à sua rodagem intensa, surgiram casos na imprensa e em sites internacionais por meias-palavras mal interpretadas entre realizador e actrizes, e que serviram para uma exploração mediática que em nada corresponde à natureza do filme e aos seus objectivos artísticos – uma exploração que não foi estranha, também, a publicações especializadas em cinema (que não hesitaram em colocar um interrogatório quase nunca visto a um autor,  buscando, na sua essência, uma justificação perversa do seu olhar e da sua posição enquanto artista) (…).
Noutros filmes, de uma forma mais clássica, costumamos ver actores a dar interpretações técnicas, ou seja, uma versão da leitura que fazem de uma personagem. Mas em La vie d’Adèle, como noutros filmes seus, estamos muito próximos deles e dos seus rostos, e sentimos que há uma máscara que cai – já não vemos reacções que vêm de um código, mas gestos verdadeiros que pertencem ao instinto. O que é que se faz para fazer com que essa máscara caia e encontremos um pedaço de verdade, e não apenas uma interpretação?
Trata-se de um longo processo. Primeiro, há esse desejo, essa vontade de fazer cair a máscara e com que o actor se entregue, que entre dentro de si mesmo e exprima aquilo que ele tem dentro de si. Não tenho um processo preciso nem geral, nem sequer um método para fazer com que isso aconteça. Interrogo-me, a cada encontro com cada actor, sobre a melhor maneira de fazer isso, ou em todo o caso, sobre como tentar fazê-lo. Com alguns actores, acontece de maneira muito rápida, tal como numa relação de cumplicidade afectiva, quase telepática. Com outros, passa por uma busca, e recorro a algo de menos instintivo e mais psicológico, se assim poderei dizer. Há actores que são muito abertos a esse tipo de experiência, outros não tanto, ou que acreditam sê-lo e não o são verdadeiramente, ou que pensam ainda terem feito bem o seu trabalho, que pensam não ter nenhuma máscara, ou, por vezes, que não compreendem aquilo de que estou à espera. É algo que acontece por uma espécie de atordoamento. Algumas pessoas poderão chamar isso de manipulação, mas sei que é algo da ordem da obsessão. Nesse preciso momento, estamos de tal forma mergulhados nessa busca e no trabalho que, quando acontece, é por vezes incompreensível a forma como lá chegámos. Às vezes, percebemos que se tratava, afinal, de algo muito simples, como encontrar o bom sítio, o bom lugar. Outras vezes, trata-se de criar uma atmosfera no plateau. Não tenho nenhuma receita. Sei apenas que, para mim, é algo de obsessivo.
Em vez de manipulação, trata-se talvez de um caminho que percorrem juntos.
De um caminho, mas não me incomoda que se fale de manipulação, caso isso simplifique as coisas. Para alguns, é da ordem da manipulação. A manipulação é algo que pertence às relações humanas. Por vezes, somos também manipulados ou encontramos resistências.

Tudo isso faz parte dos encontros: quando encontramos alguém e algo acontece entre duas pessoas. Nesta história de amor, existem talvez resistências. Acabamos por ter uma personagem que descobre coisas, que se descobre a si mesma, e que muda. Numa relação entre um realizador e um actor, temos também um encontro, e talvez existam também resistências, mas ao mesmo tempo existe um desejo de querer chegar a alguma coisa.
Na relação entre as duas personagens, não creio que a personagem de Adèle se transforme mais do que se revele, que seja já essa mulher com as suas qualidades, o seu ideal, as suas emoções, que se liberte. Talvez até em oposição à personagem de Emma, que acredita já ser livre e que se encontra numa teorização da liberdade e da aspiração artística. Podemos também entrar numa teorização da relação actor-realizador, ou mais precisamente, entre dois indivíduos a quem é dado um papel para se fazer um filme. A parceria possível entre um actor e um realizador passa por algo da ordem da emoção, da percepção, do inconsciente.
A liberdade é algo de importante nos seus filmes. Ou seja, são personagens que procuram ser livres – primeiro, por aquilo que sentem, pelos seus corpos ou pela maneira como se vão posicionar no mundo, mas sobretudo livres para além das convenções sociais. O amor e a emoção têm um papel muito importante.
É sempre difícil libertarmo-nos das convenções sociais, do nosso meio social, do meio de amigos ou do meio afectivo, assim como libertarmo-nos da relação amorosa, de podermos florescer livremente na relação e guardarmos a nossa capacidade de reflexão, de pensamento, de ouvir os nossos desejos e aspirações. Mas é verdade que é um tema, em todo o caso, sobre o qual penso – o que significa ser livre no mundo social no qual evoluímos?
Podemos ser livres para além dessas convenções? Amar é algo que nos leva a ser livres?
Tudo depende daquilo que entendermos por liberdade. No caso do filme – sim, amar leva a libertarmo-nos das convenções sociais. Mas julgo que a verdadeira liberdade passa pela reflexão – uma liberdade de reflexão, portanto -, porque é perfeitamente possível sermos livres dentro dessas convenções. É algo de muito interior.
No filme, Adèle é uma mulher que descobre o amor, a vida e tudo o que vem com isso, naturalmente, mas também a vocação. Algumas pessoas poderão ver uma certa convenção no desejo de Adèle de se tornar uma professora de escola primária, mas na verdade, talvez isso seja exactamente o contrário. A vocação, a curiosidade e a educação pertencem a toda uma outra ordem, algo que nos leva a reflectir, a uma forma de liberdade. É por aí que descobrimos a nossa vocação? A vocação era uma coisa importante a mostrar no filme?
A vocação de Adèle já existe, antes mesmo do encontro com Emma. Adèle quer tornar-se uma professora de escola primária porque é uma profissão – uma bela profissão – e isso está para além da vocação. É algo que pertence ao seu carácter, algo no qual ela imagina florescer. Tudo depende daquilo a que chamamos vocação. A vocação artística, religiosa, profissional, um ideal de vida. Isso deixa de ser uma vocação se se tornar dependente de um encontro. Ou então, esse encontro revela-nos uma outra vocação e a outra pessoa torna-se um instrumento dessa revelação. Penso que a vocação de Adèle é viver. Amar e viver plenamente.
Trata-se também de um filme sobre o desejo e o apetite, não apenas o apetite por comer, mas o apetite por viver. A emoção e o desejo estão muito presentes. São coisas imateriais, mas ao mesmo tempo fazemos um caminho até à emoção através do que é físico, do apetite pelo outro. Para a personagem de Adèle, fazer com que a sua máscara caia passa também por fazer com que o seu corpo se manifeste e reaja. Está sempre muito próximo das suas peles. Também aí, passamos por algo de muito físico até chegarmos, finalmente, à alma das personagens.
Sim…

Gostaria que me falasse desse desejo de ver e filmar esses corpos como uma maneira justa de os ver e conhecê-los para a sua história.
É algo de muito instintivo. Precisamente, é difícil descrever o desejo que temos por filmar um corpo, uma pele ou uma parte de um corpo e de uma pele, algo que nos toca num rosto. Por que razão gosto de olhar para certas bocas? Geralmente, trata-se do movimento da boca, da mastigação, algo que fazemos todos e com o qual se faz um trabalho completamente fisiológico. Esse momento diz-me qualquer coisa, emociona-me, toca-me e faz-me vibrar, da mesma maneira que duas bocas que se beijam ou dois corpos que se tocam. Causa-me uma emoção e é essa emoção que procuro transcrever.

Inspira-se no cinema mudo? Como não há som, obviamente, trata-se de algo de muito sensual, muito erótico, muito físico. Na cena da festa de Emma, há um filme de Pabst que é projectado.
Vi muitos filmes mudos durante o meu período cinéfilo, a minha adolescência. Agora, já não vejo filmes, infelizmente. Sem dúvida que o cinema mudo e talvez o de Pabst em particular me tenha tocado por muitas razões. A realização, a forma de filmar os rostos e o rostos de uma actriz, Louise Brooks. Os filmes dele aspiravam também a essa liberdade social. Há tantos realizadores e filmes que são referências inconscientes… Talvez o cinema mudo consiga captar algo da linguagem dos corpos, dos rostos e o consiga exprimir mais directamente. As palavras ajudam a exprimir essa linguagem. Mas a expressão, o rosto e as emoções que temos em nós imprimem-se, de qualquer modo, antes das palavras e através dos rostos.

Fala-se muito de um “método Kechiche”, mas mais do que um método, trata-se de uma busca e de um caminho. Uma ideia que acredito ser falsa em relação ao seu trabalho – um trabalho único porque procura uma verdade e, quando procuramos uma verdade, temos de ser verdadeiros, em primeiro lugar, em relação a nós próprios – é a de que o “método Kechiche” passa muito pela montagem. Mas parece-me que se trata, em vez disso, de uma busca que faz durante a rodagem com pessoas para quem olha e filma. A rodagem é o momento em que se sente mais vivo?
É talvez o momento mais decisivo da escrita de um filme – o momento em que se cria a vida. Antes desse momento, imaginamos. Estamos dentro de uma mecânica, tal como depois da rodagem, uma mecânica que é também muito criativa e apaixonante. Mas o momento crucial é a rodagem. Não existem pessoas de um filme que se tornam outras durante a montagem, só nos tornamos outro porque a rodagem existe. De qualquer forma, um filme é uma viagem entre o momento em que imaginamos a história e o momento em que termina. São etapas de uma viagem. Para lhe dar uma imagem – a rodagem é o momento em que estamos a navegar sem bússola no meio do mar.
Como o percurso que fazemos nas nossas vidas. No de Adèle, temos um encontro no início – um momento muito forte -, mas quando o filme termina, saímos da sala e ainda estamos a acompanhar Adèle. Ficamos emocionados porque tivemos um encontro com um filme ou uma emoção. Um encontro é algo que nos determina, mudamos com os encontros que fazemos nas nossas vidas, mas é algo que não podemos adivinhar ou esperar, acontecem, simplesmente. O encontro de Adèle com Emma, no filme, é talvez algo de tão forte, imagino, como o encontro que teve quando entrou numa livraria e descobriu esse livro [Le bleu est une couleur chaude]. Abriu o livro e, de repente, tudo começa.
Sim. Trata-se de uma interrogação sobre o sentido do destino. Será que existe um destino? Será que estava escrito que o livro que encontrámos, que abrimos naquele momento, iria falar-nos, ou será que estava escrito que a personagem de Emma iria mudar a vida de Adèle? Posso acreditar que foi a vida – e chamemos a isso o destino – que nos queria levar a esse livro, e que foi esse mesmo destino, nesse encontro, que fez com que Emma se tornasse um instrumento da metamorfose de Adèle. Adèle acaba por estar num caminho desde o início do filme e continua a fazer esse caminho no fim. É num caminho que encontra a personagem de Emma que, tal como esse livro, a ajuda a viver e a revelar-se, tal como nos seus encontros com os seus livros, os seus amigos, a sua profissão.
A personagem de Adèle continua consigo? Vai continuar a querer filmá-la?
De certo modo, penso que já a tinha filmado antes deste filme. Continuarei a filmá-la depois. É uma personagem que me toca, que amo, ou que idealizo. É uma heroína da vida quotidiana que continuará a exprimir-se por outras formas num outro filme.
Existe uma relação directa entre o cinema e o artifício, mas entre todas essas ferramentas, todas as questões de interpretação, de reflexão, de ficção… Quando filma, procura a verdadeira vida?
Julgo que é um momento privilegiado para exprimir, como diz, a verdadeira vida. Um momento forte como o amor, uma relação sexual, o luto, a dor – esses momentos da vida, no cinema e na rodagem, são instantes muito fortes. Estamos à flor da pele e aquilo que chama a verdadeira vida pode surgir aí.
Nos anos 70, Roberto Rossellini veio a Lisboa, à Fundação Gulbenkian, quando ainda estávamos em ditadura, para apresentar Roma, città aperta (Roma, Cidade Aberta, 1945). Fizeram-lhe uma pergunta – será que tinha algum conselho a dar a essa juventude que vivia em ditadura? Ele respondeu – “é estúpido dar conselhos”. Já não vivemos em ditadura, mesmo se talvez possam existir outras, mas gostaria de lhe perguntar – para um jovem que se queira lançar num filme e procurar algo de verdadeiro no cinema, tem algum conselho a dar?
Se não tivesse citado Rossellini, teria respondido como ele. Mas queria talvez acrescentar que, tirando o facto de não ter nenhum conselho a dar, posso prevenir e é talvez uma forma de conselho… Vai ter de fazer das tripas coração.
Francisco Valente