ILO ILO || 25 NOVEMBRO || IPDJ || 21H30


ILO ILO
Anthony Chen
Singapura, 2013, 99’, M/12

FICHA TÉCNICA
Realização e Argumento: Anthony Chen
Fotografia: Benoit Soler
Montagem: Hoping Chen, Joanne Cheong
Som: Zhe Wu
Interpretação: Yeo Yann Yann, Chen Tianwen, Angeli Bayani e Koh Jia Ler
Origem: Singapura
Ano: 2013
Duração: 99’








FESTIVAIS e prémios
Festival de Cannes - Câmara de Ouro, Melhor 1º Filme
Palm Springs - Melhor Realizador Revelação
Filadélfia - Prémio do Júri
São Francisco - Melhor Jovem Realizador
Golden Horse Awards - Melhor Filme, Jovem Realizador, Actriz Secundária, Argumento
Bombaim - Melhor Realizador, Actriz
Hong Kong Asian Film Festival - Melhor Jovem Realizador
Asian Pacific Screen Awards - Melhor Realizador
Asian Pacific Film Festival - Melhor Actriz Secundária
Tóquio Filmex - Prémio do Público


CRÍTICA

É quase certo que qualquer português sabe mais sobre, por exemplo, a Coreia do Norte, que no entanto é um país “fechado”, do que sobre Singapura, que no entanto é um estado aberto e cosmopolita.
Entre a memória, mais ou menos mítica, do tempo em que foi uma colónia britânica, e a reputação presente de grande praça financeira onde o dinheiro abunda ou, pelo menos, se ostenta, poucos terão no espírito uma imagem “comum” de Singapura: como vivem as pessoas, como são as ruas, que preocupações têm. Uma das coisas que o cinema, apesar de tudo, ainda faz bem é esta aproximação, quase convivial, a universos que doutra forma permaneceriam estranhos. E esbater a estranheza - portanto, o contrário do “exotismo” ou do cinema turístico - é o que faz Ilo Ilo um filme de Singapura (em si mesmo uma raridade, pelo menos por cá), primeira longa-metragem de um jovem realizador nascido em 1984, Anthony Chen, Caméra d’Or no Festival de Cannes do ano passado.
É um filme “de época”, mas de época recente: final dos anos 90, época de crise financeira asiática, particularmente sentida numa “cidade-mercado” como Singapura. É já esse o vento que sopra sobre as personagens de Ilo Ilo, o pai e a mãe, ele um homem de negócios, ela uma funcionária administrativa, personagens oriundas de uma classe média aparentemente sólida mas que cedo, no filme, começam a entrever a ameaça a essa solidez. Mas ao princípio a solidez ainda é a suficiente para que o casal contrate uma criada filipina (também aprendemos, portanto, alguma coisa sobre os movimentos migratórios dentro da Ásia) para tomar conta do filho, Jiale, um garoto de dez anos, porque estão demasiado ocupados com o trabalho e porque a mãe está grávida outra vez. São os ingredientes narrativos que bastam a Chen para compor um retrato de uma família de Singapura em tempo de crise, e para contar a história, ao mesmo tempo um pouco cómica e um pouco triste, da relação de um miúdo solitário com a sua “tia” filipina (como aparentemente em Singapura os miúdos chamam às amas).


A graça de Ilo Ilo está na sua justeza, na profunda credibilidade das suas personagens, no realismo “doméstico” com que os seus ambientes são descritos. Já agora, na subtileza com que nunca deixa o primado narrativo ser ultrapassado pelo “discurso” ou pela “reflexão”, histórica ou social - isso é uma coisa que lá está em fundo, recortada e definida pela narrativa mas deixada em eco, em contexto. E uma forma de filmar a infância sem as “super-crianças” do cinema americano, uma infância muda e desajeitada, calorosa ainda que por vezes sofrida (a cena do castigo na escola, cuja violência cruel, articulada com o cerimonial nacionalista que a precede é o ponto em que Chen mais evidentemente deixa um apontamento crítico sobre o seu país). Nesse olhar sobre a infância, e sobre o seu pequeno protagonista, Chen faz lembrar bastante o japonês Hirokazu Koreeda. E talvez um pouco mais do que só ele: há uma sombra que também está em Koreeda e que se espalhou bastante por vários cinemas asiáticos, como o de Taiwan (“Ilo Ilo” também lembra um bocadinho o Edward Yang de “Yi Yi”, em tom menor e mais “corrido”) e, pela amostra, o de Singapura. Sim, falamos do senhor Yasujiro Ozu e das suas lições práticas sobre como filmar as vibrações de uma sociedade inteira a partir de pequenas células domésticas e dos seus rituais. “Ilo Ilo” aprendeu alguma coisa com essas lições, e se dizer isto não chega como elogio não imaginamos o que chegará.
Luís Miguel Oliveira, publico

VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA || 18 NOV || IPDJ || 21H30

VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA 
Alain Resnais
França/Alemanha, 2012, 115’, M/12

FICHA TÉCNICA
Título Original: Vous n'Avez Encore Rien Vu
Realização: Alain Resnais
Argumento: Laurent Herbiet e Alex Réval a partir das peças « Eurydice » e « Cher Antoine ou l’amour raté » de Jean Anouilh 
Fotografia : Eric Gautier
Montagem: Hervé de Luze 
Música: Mark Snow 
Interpretação: Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azéma,  Jean-Noël Brouté, Anne Consigny, Anny Duperey,  Hippolyte Girardot, Gérard Lartigau, Michel Piccoli
Origem: França/Alemanha
Ano: 2012
Duração: 115’

FESTIVAIS
Festival de Cannes


CRÍTICAS

“Vocês Ainda Não Viram Nada" é o penúltimo título da riquíssima fILmografia de Alain Resnais: uma viagem pelo artifício do teatro que desafia os limites da narrativa cinematográfica — um grande acontecimento!
Não poupemos as palavras: o lançamento simultâneo dos dois títulos finais de Alain Resnais — "Vocês Ainda Não Viram Nada" (2012) e "Amar, Beber e Cantar" (2014) — é um dos acontecimentos fulcrais deste ano cinematográfico. E também uma oportunidade muito especial para reavaliarmos o génio cinematográfico de Resnais a trabalhar com o... teatro!
No primeiro caso, "Vocês Ainda Não Viram Nada", o ponto de partida está em duas peças de Jean Anouilh ("Eurídice" e "Cher Antoine ou l’Amour Raté"), com um twist desconcertante: a personagem central, um encenador interpretado por Denis Podalydès, deixou um registo filmado de uma encenação sua (precisamente de "Eurídice") para ser visto e avaliado depois da sua morte por um grupo de actores que com ele colaboraram ao longo dos anos.
Desse evento pré-programado — vemos os actores sentados em frente do ecrã, um pouco como se nos víssemos num espelho que coincide com o ecrã — nasce um jogo de perversas diferenças e coincidências: Resnais filma, afinal, as contaminações entre o teatro e a vida, de acordo com uma lógica inventiva que pode pôr em causa as próprias relações entre actor e personagem. De tal modo que as personagens se chamam Sabine Azéma, Pierre Arditi, Mathieu Amalric, Lambert Wilson, Michel Piccoli...
Raras vezes se viu um cineasta ao mesmo tempo tão ágil neste equilíbrio instável verdade/artifício e tão inteligente no desafio aos limites tradicionais da ficção cinematográfica. Em última instância, "Vocês Ainda Não Viram Nada" é uma brincadeira com a teatralidade da vida, quer dizer, um exercício de puríssimo cinema.
João Lopes, rtp.pt/cinemax






A história de “Vocês Ainda Não Viram Nada” (que data de 2012) conta-se em duas penadas: após a morte do dramaturgo Antoine d’Anthac, os seus amigos (uma trupe de atores que se autointerpretam) reúnem-se na mansão do falecido para escutar a leitura do seu testamento. Nele, o autor pede-lhes que assistam in loco à projeção em vídeo de uma peça teatral da sua lavra (uma versão moderna do mito de Eurídice e Orfeu, filmada por Denis Podalydès), na qual, outrora, todos eles desempenharam um papel. Os atores são, deste modo, transformados em espectadores e forçados a presenciar a repetição dos gestos que, no passado, eles próprios realizaram. Ë um espartilho do qual cedo se libertarão, murmurando primeiro as falas das personagens e erguendo-se depois das suas cadeiras para — em paralelo com os atores do filme a que assistem — interpretarem de novo os seus antigos papéis. O que se segue é um jogo de transfusões onde tudo se converte no seu contrário (os atores em espectadores, os espectadores em personagens...) e onde não há bengala que nos ampare. Porém, este aparato narrativo servirá de base à construção de um magnífico ensaio sobre o passado (e, sobretudo, sobre as possibilidades de diferença e repetição que ele oferece ao presente). Entenda-se: “Vocês Ainda Não Viram Nada” opera, de princípio a fim, pela sobreposição de sucessivas camadas de um mito (o de Eurídice e Orfeu) que, desde o início dos tempos, os amantes têm vindo a reencenar (mutatis mutandis), como se a tragédia que então atualizam estivesse a ser vivida pela primeira vez. Pois bem: é para vincar a impossibilidade de escaparmos a uma tragédia comum que Resnais dissemina diferentes versões de um mesmo texto, adaptando livremente a “Eurydice” de Jean Anouilh para, em seguida, a submeter às variações executadas pelas duas trupes de atores do filme. E, para perceber que assim é, basta ver a cena em que Lambert Wilson (um dos três Orfeus de serviço) interrompe uma das suas falas, pedindo àqueles que vão repetindo ‘a sua’ história no ecrã que se retirem, ou seja, que o deixem (re)criar em liberdade o texto do seu presente. No final, ficamos — é claro — com a sensação de que, antes disto, ainda não tínhamos visto nada. 
Vasco Baptista Marques, Expresso, 11/10/14



ALENTEJO, ALENTEJO || 11 Novembro || 21h30 || IPDJ

ALENTEJO, ALENTEJO
Sérgio Tréfaut
Portugal, 2013, 100’, M/12

FICHA TÉCNICA
Realização: Sérgio Tréfaut
Montagem: Pedro Marques
Direcção de Fotografia: João Ribeiro
Som: Miguel Moraes Cabral, Olivier Blanc, Armanda Carvalho
Com: Os Camponeses de Pias, Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, Grupo da Casa do Povo de Serpa, Os Ceifeiros de Cuba, Grupo do Sindicato Mineiro de Aljustrel, Papoilas do Corvo, Coro Feminino, Cantares de Alcáçovas, Os Rouxinóis da Damaia, Os Bubedanas
Origem: Portugal
Ano: 2013
Duração: 100’

PRÉMIOS
INDIELISBOA 2014:
Prémio Allianz-Digimaster para Melhor Longa-metragem Portuguesa
Premio Tap pata Melhor Documentário Português

NOTA DO REALIZADOR
A MINHA DESCOBERTA DO ALENTEJO
Descobri o Alentejo na minha adolescência. O meu pai, originário da margem esquerda do Guadiana, queria muito que eu conhecesse a terra dos seus antepassados e o terreno fértil onde estava a nascer a «Reforma Agrária». Enviou-me para passar uma semana na casa de camponeses da Amieira, a aldeia de onde provinham os trabalhadores que cultivavam a terra na Quinta da Esperança, o monte onde ele tinha crescido, junto ao rio Ardila. Confesso que foi muito importante para mim ter vivido o quotidiano de uma família na Amieira, aos 12 anos. Senti na pele o abismo que existia entre o mundo cosmopolita em que eu tinha crescido primeiro no Brasil, depois em Paris, rodeado de exilados políticos, jornalistas e universitários, e o modo de vida pobre de uma pequena aldeia alentejana, onde toda a gente trabalhava no campo e, com sorte, aprendera a escrever o nome depois dos 40 anos. Perturbou-me e comoveu-me a generosidade das pessoas que me ofereciam absolutamente tudo o que tinham, sem ter nada. Lembro que a casa de banho, recente e precária, ficava fora da casa. O duche era improvisado com uma mangueira de água fria. No primeiro dia devo ter comido frango porque era visita. Mas depois habituei-me à açorda de alho, algo que já conhecia da minha infância brasileira, nos dias em que a empregada nordestina, dava uma gargalhada e perguntava ao meu pai: «Hoje o Seu Miguel quer uma sopa de água?». Lá em casa, toda a gente se espantava com a delícia com que o meu pai comia aquela água fervida com alho, coentros e um ovo escalfado. Depois voltei muitas vezes ao Alentejo. Rodei várias sequências dos meus documentários por lá (Outro País, Fleurette) e até filmei a quase totalidade da minha primeira ficção (Viagem a Portugal). Ao mergulhar no Alentejo hoje, já em idade madura, reencontro pessoas de uma fé generosa e panteísta, por quem tenho imenso carinho. Sinto que, para eles, a Senhora de Guadalupe, os Reis Magos, Catarina Eufémia e os rebanhos de ovelhas que passeiam na planície são santos de um mesmo altar. A respeito do cante, a história é muito simples: foi graças a um grupo de camponeses alentejanos reunidos em serenata, por baixo da janela do quarto onde a minha mãe dormia pela primeira vez, que o meu pai conseguiu convencê-la a deixar a França para casar com ele. Ao longo da vida, a minha mãe chorava sempre que ouvia cantares alentejanos numa taberna. Ela gostava muito de tabernas. Não creio que a razão da sua emoção fosse apenas a lembrança do seu namoro com o meu pai, mas a poderosa comoção que aquelas vozes saídas do fundo da terra lhe causavam. Comigo acontece o mesmo.
Sérgio Tréfaut



CRÍTICA
Sérgio Tréfaut continua apostado em utilizar o documentário como um instrumento de revelação de vivências singulares: "Alentejo, Alentejo" mostra como os cantares alentejanos são uma tradição viva, envolvendo todas as gerações.
De que falamos quando falamos de documentário? Lembremos apenas o mais simples. Ou seja: um filme documental ajuda-nos a saber/conhecer; ajuda-nos sobretudo a ter em conta como as coisas existem. As coisas, entenda-se: também as pessoas, sobretudo as pessoas.
"Alentejo, Alentejo", de Sérgio Tréfaut, é um objecto que nos ajuda a entender o encanto, a beleza e o poder de comunicação dos tradicionais cantares alentejanos. Como? Começando por recusar a via mais simples e, por certo, mais fácil: a de tratar a tradição como uma espécie de curiosidade pitoresca que sirva para sustentar uma qualquer retórica turística ou, pior ainda, para animar o populismo televisivo. O que está em jogo é bem diferente: a redescoberta das sonoridades alentejanas enraiza-se numa dinâmica viva de passado/presente.
Nomes como os Camponeses de Pias, os Cantadores de Aldeia Nova de São Bento ou o Grupo da Casa do Povo de Serpa (e estou apenas a citar algumas das entidades que colaboraram no filme) surgem, assim, numa dupla e fundamental qualidade: por um lado, são herdeiros directos daqueles cantares — o chamado cante alentejano — e da sua energia poética e simbólica; por outro lado, existem como manifestação de uma atitude que vê o passado como algo que importa reconverter para as manifestações do presente.
Daí que "Alentejo, Alentejo" documente, não apenas os próprios cantares, mas a sua inserção no quotidiano dos nossos dias, incluindo no espaço específico da escola. Há mesmo uma cena tocante (com o grupo Os Rouxinóis da Damaia) em que deparamos com um ensaio, numa escola, que concentra uma ideia fundamental: a de que a transmissão da tradição não se faz convocando uma nostalgia mais ou menos piedosa, mas sim através da permanente associação do gosto de descobrir e do trabalho que enriquece esse gosto.
João Lopes, rtp.pt/cinemax



ENTREVISTA AO REALIZADOR
É reputado documentarista e tem na sua filmografia dos mais carismáticos filmes portugueses. Agora debruça-se sobre o cante alentejano, numa jornada invulgar que vai até à alma de um povo, pela voz das suas gentes. Um Alentejo profundo resgatado pelo seu olhar peculiar. É sobre esse trabalho de três anos que nos fala.
Como é que nasce a vontade de fazer um filme sobre o cante alentejano?
O ponto de partida é o convite da Câmara de Serpa, que decidiu desencadear a candidatura do cante a Património da Humanidade. Sugeriram-me dois filmes, um de dez minutos para integrar a candidatura, cumprindo as regras da UNESCO, e que é estritamente jornalístico, informativo e que explica a um paquistanês como a um australiano ou a um malaio o que é o cante alentejano, mesmo que nunca tenha ouvido falar dele. Foi feito nessa perspetiva, com voz off, o que é um pouco frustrante relativamente às ambições estéticas e à paixão que possa despertar essa música, ter de pôr uma voz off no meio da música para dar explicações! A outra proposta, em simultâneo, era uma longa-metragem com total liberdade e que fiz ao longo de três anos.
Ajudou à decisão de aceitar o facto de se tratar do cante alentejano?
Se me tivessem proposto fazer um filme sobre o fado, por exemplo, não teria aceite, não seria a pessoa indicada nem seria acertado. Mas o cante alentejano sempre me tocou muito. Na música portuguesa, é o que sempre me comoveu mais. Não hesitei e entrei no desafio de descobrir como é que tudo se construiria, se filmava, se gravava.
Este não é um documentário regular. De que premissas partiu para o estruturar?
Uma é minha, a outra vem do convite, que implicava não dever focar apenas um grupo ou uma região, mas ser mais abrangente. Compreendi que nunca teria possibilidade de conhecer os cerca de 150 grupos que havia no início da candidatura e assumi que ia fazer algo sobre a identidade alentejana, a identidade de um povo. São essas as premissas. A partir daí, fui filmar os grupos a cantar. Também fiz pesquisa em arquivos e percebi que o que estava filmado era mau, excetuando uma ou outra coisa, nomeadamente o trabalho do Alfredo Tropa com o Michel Giacometti [“Povo que Canta’], interessante pelo conceito com que o filmaram.

O material, em geral, é tão mau?
É mortiço, triste, predomina o registo simples. Quando se vai a uma taberna e se coloca a câmara à frente de uns cantores, permitindo-nos apenas a alusão à ‘tristeza’, o que se consegue é uma porcaria, e destrói-se a essência do cante. A maioria fica-se por isso, o que impede a possibilidade de reconhecer os grupos de forma alegre, positiva. Fiz uma reflexão com o diretor de fotografia, o João Ribeiro, para perceber como entrar na cabeça das pessoas, entender a essência da música, a alma das gentes. Filmar um grupo com estes pressupostos não é fácil. Optei por fazê-lo com a câmara muito próximo das pessoas em grupo, através de travellings à mão, recusando o plano de conjunto, ou então não se consegue a intimidade pretendida nem se entra ‘dentro’ da música. Acho que descobri como filmar e gravar o som da melhor forma para o projeto. Os primeiros alinhamentos, só com partes musicais, revelaram-se muito interessantes, mas à medida que o filme se tornava maior isso mostrou-se repetitivo, aborrecido...
Daí as entrevistas isoladas e os alunos das escolas...
Pensei neles e também nos poetas populares para dispor de uma forma narrativa mais lírica. E registei muitos depoimentos ou entrevistas. Só que a contaminação do formato dos telejornais faz com que as pessoas tenham um discurso informativo, e tive de deitar muita coisa para o lixo. Culpa minha, provavelmente. Só mais tarde é que me surgiu a hipótese da açorda para fazer com que as pessoas se abrissem mais, pudéssemos chegar à sua intimidade. Afinal, a açorda faz parte da identidade alentejana e tem também a ver com a minha própria relação com o Alentejo, esteve no meu primeiro contacto com aquela região. E essa opção mostrou-se bastante forte para o andamento do projeto.
Tem uma relação anterior com o Alentejo. Trabalha isso no filme?
O filme não tem nada de autobiográfico, longe disso. Se tenho essa relação com o cante é porque aos 12 anos, chegado a Portugal vindo do Brasil e de Paris, menino da cidade habituado à convivência com intelectuais, exilados políticos e universitários, tive a experiência do contacto com um território onde encontrei pessoas que raras vezes sabiam escrever o próprio nome e que não tendo praticamente nada ofereciam tudo o que possuíam, tinham o hábito da partilha, o que me marcou para sempre. Nutro um enorme respeito pelas pessoas que então conheci e que reconhecia como a parte mais fraca de um sistema que não lhes permitia ter condições dignas de vida, mas que, apesar de tudo, tinham uma nobreza enorme.
O que está bem vincado no testemunho da senhora Catarina, do Baleizão, quando fala do tempo em que o pai dividia uma sardinha pelos filhos e do respeito e dignidade que transmite ao falar desses tempos de pobreza extrema.
Fala de ter frio, de andar descalça até no inverno, a Catarina, que ainda hoje não sabe assinar. E que conta aquela pobreza toda e acaba dizendo que, mesmo assim, iam pela estrada em direção ao trabalho nos campos, com tão tenra idade, cantando as modinhas. Ela é uma força da natureza, uma mulher maravilhosa. 

É a primeira a ser filmada na preparação da açorda, a estratégia para chegar à intimidade dos cantores. E há, quase ao fim do filme, o grupo de três jovens que preparam um petisco uma açorda, exatamente e que fazem uma reflexão profunda sobre a sua pertença ao cante alentejano.
Correu muito bem com Catarina. A partir daí surgiu a ideia de ter as pessoas a falar após ganharmos intimidade, e cozinhar pareceu bem. Carlos Arruda, que é um rapaz de vinte e tal anos, solista do grupo de Serpa, faz aquela açorda já numa cozinha toda high-tech lisboeta — trabalha no Banco de Portugal — e fala de quanto lutou na adolescência contra os colegas de escola, que achavam que era ridículo e risível pertencer a um grupo de cante. É mais importante ter depoimentos íntimos do que discursos teóricos, que dariam outro filme, diferente... Por exemplo, há tanto a dizer sobre as diásporas, só que preferi que as pessoas que falam sobre as diásporas falassem de dentro. Se o filme não fala do facto de haver uma diáspora alentejana no Canadá ou nos Estados Unidos, ou que há grupos na Alemanha e na França, paciência! Desejo é que se entenda que as pessoas que tiveram de sair do Alentejo trouxeram consigo essa paixão, a condição dessa pertença. Mesmo quando as modas têm autor conhecido, quando os grupos as editam em disco, raras vezes está lá escrito quem é. Trata-se de um património coletivo, e em qualquer lugarejo toda a gente sabe cantar as modas mais conhecidas, com variações de lugar para lugar. Mas é um património comum, que teve a sua evolução histórica e que conhece hoje, um novo entusiasmo.
António Loja Neves, Expresso, 20/9/14

TOM NA QUINTA, 4 Novembro, 21h30, ARTISTAS

4 novembro, 21H30, ARTISTAS


Tom na Quinta
Xavier Dolan, Canadá/França, 2013, 105’, M/16

Integrado na Semana dos Artistas.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Tom à la Ferme
Realização: Xavier Dolan
Argumento: Xavier Dolan, Michel Marc Bouchard
Fotografia: André Turpin
Montagem: Xavier Dolan
Música: Gabriel Yared
Interpretação: Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy
Origem: Canadá/França
Ano: 2013
Duração: 105'





FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Veneza - Prémio FIPRESCI
Festival IndieLisboa - Selecção Oficial


NOTA DO REALIZADOR
Após ter, inadvertidamente, criado uma trilogia sobre o amor impossível – J’AI TUÉ MA MÈRE, AMORES IMAGINÁRIOS e LAURENCE PARA SEMPRE – era necessária uma mudança de direcção. Apresentaram-se-me várias possibilidades. Abri a gaveta da minha secretária, estava cheia de post-its e guardanapos, rabiscados com ideias, diálogos e duas ou três linhas semelhantes às entradas de um guia de televisão.
Havia um thriller político – por falar em mudança – e havia o meu primeiro filme em língua inglesa, The Death and Life of John F Donovan; mas eu queria escrever qualquer coisa que pudesse filmar logo de seguida. Precisava de uma coisa instantânea, e de uma rodagem igualmente rápida. Depois, lembrei-me da peça “Tom na Quinta”. Estávamos no Inverno de 2011, se não estou em erro, durante a pré-produção de LAURENCE PARA SEMPRE. Nessa noite, em palco, Lise Roy – que haveria de interpretar o mesmo papel no filme – fez o monólogo de uma mãe sofredora que, após regressar do funeral do filho, tem um ataque de raiva enquanto prepara a sua famosa salada de massa. Atira a salada para o lixo – ninguém chegara a prová-la –, confessando o nojo que sente pela receita e pelas pessoas à sua volta que a obrigaram a fazê-la, ano após ano. O monólogo da salada de massa nunca se afasta do tema – que é, digamos assim, a comida -, aludindo, contudo, à profunda tristeza de uma mulher que nunca conheceu mais nada além da quinta, os abraços frouxos do falecido marido e dos filhos, a ordenha das vacas, e a resignação vazia de olhar para uma estrada de terra batida e perceber que nunca será alcatroada. Ironicamente, este momento nunca foi incluído no filme, provavelmente por causa da sua teatralidade.
Todavia, este desvio para a agonia de uma mãe era-me demasiado próximo e não podia deixar de o abordar. O dramaturgo, Michel Marc Bouchard, é exímio a mostrar o ponto de vista da anfitriã e dos seus convidados, e evita os inevitáveis lugares comuns da cidade vs campo. A brutalidade da relação entre os dois protagonistas masculinos, elegante e estética em palco, já continha vestígios da dureza e violência que queria expressar no filme e que me afastariam da minha zona de conforto. A peça evoca e explora, de forma evidente, uma série de sentimentos, mas eu sabia que estas sensações de medo, ansiedade e alteridade eram feitas para o grande ecrã e, acima de tudo, esta era a novidade que eu andava à procura.
Depois do espectáculo, debaixo do alpendre, e envolto no fumo de merecidos cigarros, perguntei ao Michel Marc quem é que ia fazer a adaptação ao cinema. Ele respondeu: Ninguém, porquê? Tens alguém em vista? Sim, eu, retorqui, com a mesma humildade de Nero em Britânico.
Mas, agora a sério, foi mais ou menos assim que se passou.”
  



CRÍTICA
Xavier Dolan, canadiano, 25 anos, prossegue a sua notável filmografia: "Tom na Quinta" é o retrato íntimo de um perturbante processo de luto — com o próprio Dolan a assumir a interpretação da personagem central.
Triste mundo este em que tantos jovens adquirem alguma evidência mediática apenas porque alguém os incluiu na galeria cor-de-rosa dos "famosos" ou porque se entregam a performances públicas mais ou menos caricatas e brejeiras (por vezes, acumulando ambos os talentos...).
Num mundo assim, que se diz, que se comenta, que notícias são produzidas sobre a extraordinária carreira do canadiano Xavier Dolan, 25 anos, cineasta e criador de invulgar vitalidade?
Enfim, digamos apenas que "Tom na Quinta", quarta longa-metragem de Dolan (logo após "Laurence para Sempre", também estreada entre nós, e antes de "Mommy", revelada no recente Festival de Cannes), confirma a sua invulgar capacidade para percorrer os labirintos das relações amorosas e passionais, ao mesmo tempo desmontando as razões — não necessariamente racionais — dos seres que as protagonizam.
Na sua candura, o ponto de partida de "Tom na Quinta" é quase didáctico: Tom visita a quinta onde vive a mãe e o irmão do seu companheiro que morreu — vem acompanhar o funeral e, de alguma maneira, iniciar o trabalho de luto pela sua perda. Mas vai confrontar-se com uma primeira barreira: o irmão do falecido não quer, de modo algum, que a mãe saiba da relação que existia entre ele e Tom...


Dizer que Dolan é um retratista das relações homossexuais é, afinal, profundamente redutor. E não só porque no seu cinema proliferam as identidades sexuais. Sobretudo porque ele filma, não exactamente os géneros, mas o relativismo da(s) sua(s) diferenças. No limite, Dolan procura os desejos dos corpos e, através deles, os enigmas das almas — tarefa tanto mais íntima e perturbante quanto, para além de argumentista e realizador, ele é também o brilhante intérprete da personagem de Tom.


João Lopes, rtp.pt/cinemax



IDA de Pawel Pawlikowski, 28 Outubro, 21h30, IPDJ



IDA
Pawel Pawlikowski, Polónia/Dinamarca, 2013, 82’, M/14


FICHA TÉCNICA
Realização: Pawel Pawlikowski,
Argumento: Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz
Montagem: Jarosław Kamiński
Imagem: Łukasz Żal e Ryszard Lenczewski
Música Original Kristian Selin Eidnes Andersen
Interpretação: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Joanna Kulig
Origem: Polónia/Dinamarca
Ano: 2013
Duração: 82’



FESTIVAIS E PRÉMIOS
Londres – Melhor Filme
Toronto – Prémio da Crítica Internacional
Varsóvia – Grande Prémio
Gijón – Melhor Filme, Actriz, Argumento



CRÍTICA
Um dos mais belos filmes que vamos ver em sala este ano é minimalista e discreto nas formas e palavras, mas intenso nos sentidos que transporta e assombroso nas imagens que nos mostra. Ida assinala um regresso à Polónia de Pawel Pawlikowski, realizador que há alguns anos se mudara para o Reino Unido, onde assinou filmes como Amor de Verão ou A Última Oportunidade. O regresso destapa memórias e ecos silenciosos de tempos passados mas que todavia habitam ainda a consciência da Polónia dos nossos dias. E releva um cinema cuidado e muito pessoal, que já mereceu em alguns textos críticos alusões a possíveis heranças de um Bresson.


É através dos silêncios e do que fica por dizer que Ida nos transporta, a partir de uma ação que decorre na Polónia dos anos 60, a memórias vividas nos tempos da II Guerra Mundial e, também, do tempo que se lhe seguiu, quando um regime comunista ali foi instituído sob a força presente dos soviéticos (então sob o consulado de Estaline).
Ida é a protagonista. Uma jovem noviça que cresceu num convento – de onde nunca saiu – e a quem a Madre Superiora manda que visite a sua única familiar viva: uma tia que, em tempos, foi violenta força na justiça que cimentou o poder do regime comunista. Se junto da tia fica clara, mesmo que nunca muito falada, uma inquietude perante atos passados, em Ida uma revolução silenciosa e interior brota quando lhe é dito que, afinal, é filha de judeus mortos durante a guerra. Se em 2013 vimos dois filmes que nos colocaram perante pontos de vista diferentes sobre a II Guerra Mundial – Lore, de Cate Shortland, observando a alma de um povo derrotado através de cinco irmãos que tudo perderam e No Nevoeiro, de Sergei Loznitsa, que nos deu um conto de ética num tempo em que muitos optam pelo salve-se-quem-puder – Ida, mesmo sem recuar a esses tempos, acaba por representar mais uma expressão no cinema atual de ecos da II Guerra Mundial, cuja memória convoca implicitamente.
Além desse confronto com o passado e a sua própria identidade, a jovem Ida observa e desperta para sinais de uma vida contemporânea, reparando sobretudo na presença de um jovem saxofonista que toca Coltrane (a presença do jazz sublinhando aqui sinais de uma abertura que, sobretudo pela música, fez da Polónia um dos países do lado de lá do muro nos quais houve sinais de alargamento de horizontes e curiosidade pela cultura ocidental antes mesmo da queda do muro).

Aos gritos mudos, tanto nas memórias de um país que se evoca como no conflito interior da protagonista, Ida junta um dos mais belos trabalhos de direção de fotografia a preto e branco que o cinema tem visto nos últimos tempos, merecendo também atenção o olhar que enquadra figuras e lugares, muitas vezes deslocando os atores dos focos habituais do olhar, por vezes reduzindo-os a parte de composições onde outras linhas e espaços desenham um todo, como que a lembrar que somos parte pequena de algo maior.

Nuno Galopim, sound—vision.blogspot.pt