20.000 DIAS NA TERRA, 3 Fevereiro, IPDJ, 21h30


20.000 DIAS NA TERRA

Iain Forsyth, Jane Pollard
Reino Unido, 2014, 95’, M/12


FICHA TÉCNICA
Título Original: 20,000 Days on Earth
Realização: Iain Forsyth, Jane Pollard
Argumento: Nick Cave, Iain Forsyth, Jane Pollard
Direcção de Fotografia: Erik Wilson
Montagem:  Jonathan Amos
Som: Joakim Sundström
Música: Nick Cave, Warren Ellis
Com: Nick Cave, Kylie Minogue, Blixa Bargeld, Susie Cave, Warren Ellis, Ray Winstone
Ano: 2014
Origem: Reino Unido
Duração: 95´





FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Berlim 2014 - Panorama
Sundance Film Festival – Prémio Melhor Realização e Montagem (secção Documentários)
Istanbul International Film Festival – Prémios FIPRESCI

CRÍTICA
Por norma, quando se pretende concretizar um documentário sobre uma personalidade musical (e não só), facilmente se recorre à modelização narrativa numa alternância entre testemunhos / imagens de arquivo e vice-versa. Com 20,000 Days on Earth, tal matriz seria desrespeitosa e automaticamente transformada numa oportunidade desperdiçada face a um homem tão curioso como Nick Cave, o líder dos Nick Cave and Bad Seeds, que no cinema ficou célebre como o autor do argumento de um dos mais envolventes filmes australianos dos últimos anos (Escolha Mortal, de John Hillcoat).




Nesta obra que celebra a criatividade e a multifacetada forma do documentário, a dupla Ian Forsyth e Jane Pollard acompanham um Nick Cave autónomo e autodidático, um poeta ilusionista que profere vulgares "ordinarices" e que descaradamente transformas-as em prosa graças à sua voz carismática e sapiência. Mas acima de tudo, em 20,000 Days on Earth o artista em questão revela-nos e convida-nos a entrar no seu íntimo, ao mesmo tempo que o oculta do espectador. Invocando palavras soltas sob a atmosfera boémia e confortante da noite, Cave demonstra os "pequenos prazeres da vida" num pleno egocentrismo, daqueles que se assumem como Deus sob uma quinta das formigas. Diria antes que Nick Cave funciona como a perfeita anarquia e, contraditoriamente, no alicerce para toda a execução deste documentário em constante moldagem.

Poesia visual é o registo acentuado numa alegoria que prova que é possível materializar um documentário de cariz musical sem o uso do academismo. Depois disto tudo, é Nick Cave, a figura central e o ator de um palco imenso, o único capaz de transformar o interior de um automóvel num confessionário e a televisão, não como um gesto de banalização e de sedentarismo, mas numa vontade de aproximação familiar.
Tudo é possível neste relato que tornará os mais ávidos fãs hipnotizados pela aura desta personagem dentro de uma personagem. Quanto aqueles que nunca ouviram falar de Nick Cave, a vontade insaciável de conhecer o homem por trás de Push the Sky Away nascerá após o último crédito. De distinto requinte.
Hugo Gomes,.c7nema.net/

O Guia de Ideologia do Depravado || 27 Janeiro || IPDJ || 21h30


O GUIA DE IDEOLOGIA DO DEPRAVADO
Sophie Fiennes
Reino Unido/ Irlanda, 2012, 134’, M/16

FICHA TÉCNICA
Título Original: Pervert's Guide to Ideology
Realização: Sophie Fiennes
Argumento: Slavoj Žižek 
Montagem: Sophie Fiennes
Fotografia: Remko Schnorr
Música: Magnus Fiennes
Origem: Reino Unido/ Irland
Ano: 2012
Duração: 134’


FESTIVAIS E PRÉMIOS
Doclisboa'13 - Sessão Especial




DECLARAÇÃO DA REALIZADORA
“Quase imediatamente depois da estreia de O GUIA DE CINEMA DO DEPRAVADO, o Slavoj sugeriu-me que fizéssemos O GUIA DE IDEOLOGIA DO DEPRAVADO – e aqui está ele.
A ideologia é um tema de enorme relevância na obra de Žižek. As suas raízes no pensamento psicanalítico possibilitam uma nova compreensão de como o nosso mundo está estruturado. 2012 parece ser a altura absolutamente ideal para fazer este filme. Foi entusiasmante e exigente para mim reunir estas ideias num filme. Através dos exemplos que usamos, tão díspares como filmes, música, dados históricos e acontecimentos actuais, a ideologia surge como uma moldura fantasiosa em constante mutação que molda todas as sociedades.
Agradeço ao Slavoj a sua generosidade, confiança e, claro, o seu fenomenal sentido de humor!”
Sophie Fiennes



CRÍTICA

O filósofo esloveno Slavoj Zizek volta a colaborar com a cineasta inglesa Sophie Fiennes: "O Guia de Ideologia do Depravado" propõe-se reflectir sobre os mecanismos ideológicos a partir de cenas de filmes muito conhecidos.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek é um genuíno cinéfilo — gosta de filmes; gosta de percorrê-los para além de qualquer dicotomia "bom/mau"; enfim, vê e pensa o cinema como componente viva de um aparato imenso onde se cruzam os valores sociais, os seus efeitos visíveis e também os seus recalcamentos.

Em 2006, desenvolvera uma primeira colaboração com a cineasta inglesa Sophie Fiennes (irmã do actor Ralph Fiennes), sob a designação "O Guia de Cinema do Depravado" (título original: "The Pervert's Guide to Cinema"). Agora, com "O Guia de Ideologia do Depravado" ("The Pervert's Guide to Ideology"), os dois propõem uma espécie de derivação argumentativa do filme anterior — trata-se de discutir o que é a ideologia, conservando sempre os filmes como fundamental matéria de reflexão.

Até certo ponto, a mise en scène deste "Guias" funciona a partir das matrizes tradicionais do documentário: Fiennes coloca a sua câmara face a Zizek que, por sua vez, vai desenvolvendo as suas reflexões a partir de extractos de filmes. Em todo o caso, há uma diferença, com tanto de irónico como de pedagógico, que importa sublinhar: o protagonista aparece em cenários que, muito explicitamente, copiam ambientes dos filmes citados [exemplo aqui em cima: "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick].


Os autores citados são muitos e muito variados, de John Carpenter (Eles Vivem") a Martin Scorsese ("Taxi Driver"), passando por James Cameron ("Titanic"). Sempre de acordo com uma lógica de ocupação: Zizek aparece, por assim dizer, como figurante esquecido dos seus bastidores, propondo-nos novas formas de entendimento das suas imagens, cenas e valores. Em última instância, redescobrimos os filmes como etapas de um labor ideológico que envolve todas as formas de percepção, consciente & inconsciente, do mundo à nossa volta — e mesmo quando podemos não nos reconhecer nas argumentações propostas, esta é sempre uma viagem empolgante.

João Lopes, rtp.pt/cinemax/

A PRAÇA, Sergei Loznitsa || 20 Janeiro || 21h30 || IPDJ


20 JANEIRO || 21h30 || IPDJ

A PRAÇA
Sergei Loznitsa, Ucrânia, 2014, 130’, M/12


FICHA TÉCNICA
Título Original: Maïdan
Realização: Sergei Loznitsa
Montagem: Danielius Kokanauskis e Sergei Loznitsa                       Fotografia: Sergei Loznitsa e Serhiy Stetsenko                         
Som: Vladimir Golovnitskiy             
Origem: Ucrânia
Ano: 2014
Duração: 130’

FESTIVAIS
Festival de Cannes - Sessão Especial
Festival Doclisboa - Selecção Oficial



NOTAS DO REALIZADOR
Fui a Kiev em meados de dezembro. Eu sabia que era urgente. Eu sabia que tinha de estar lá e tinha de filmar. Adiei todos os meus outros projetos e compromissos e fui para Maïdan.
O ambiente eufórico dos primeiros dias da revolta de Maïdan era tão reconfortante e emancipador, que a sensação era a de estar no ventre materno. Nunca antes eu tinha visto ou sentido tamanha solidariedade, camaradagem e um autêntico espírito de liberdade. Foi incrível ver tantos voluntários trabalharem juntos, numa imensa harmonia e com grande zelo. Todos pareciam estar atarefados: a vigiar Maïdan, a ajudar nas cozinhas, a dar assistência médica, a atuar no palco deste carnaval folclórico medieval – o espírito livre da nação, que desperta após um longo sono.
Durante as primeiras semanas da revolta de Maïdan, o perigo estava presente, mas havia também muito humor e riso. Foi este sentido de humor ucraniano tão particular, que os ajudou a superarem alguns dos momentos mais negros da história deste país. Eles riam-se dos políticos incompetentes e corruptos, em vez de os odiarem. A energia criativa era avassaladora e dezenas de cantores e poetas amadores interpretaram as suas baladas muito ingénuas, mas incrivelmente sinceras no palco de Maïdan. Havia também a abundância de comida… Esta foi talvez a revolução mais bem alimentada da História. Cozinhas de campanha trabalhavam sem parar e os voluntários e cidadãos vulgares de Kiev traziam toneladas de alimentos e iguarias caseiras para alimentar toda a gente – eles não perguntavam se apoiávamos a oposição ou o regime… Em meados de janeiro, o ambiente alterou-se. Já não se tratava de um carnaval, mas sim de uma batalha.
Sangue foi derramado. Já não era um protesto pacífico contra o presidente corrupto. Era uma luta contra um regime diabólico era uma revolução…
A PRAÇA é o primeiro filme na minha longa carreira de realizador de documentários, em que eu tive de seguir os eventos da “vida real”, à medida que se desenrolavam. Esta foi uma experiência nova e que me deixou bastante nervoso. Normalmente, quando começo a trabalhar num documentário, começo por
definir a estrutura completa do filme na minha mente. Sei exatamente como o filme vai começar, como a narrativa se irá desenvolver e como vai terminar.
Fazer A PRAÇA foi uma experiência completamente diferente. Fui recebendo imagens novas ao longo de janeiro e fevereiro e enquanto a tensão escalava e o sangue era derramado, eu estava a editar o filme, sem saber que final esperar. Dividi o filme em várias partes: o prólogo, a celebração, a batalha e o post-scriptum.
O meu objetivo é trazer o espetador até Maïdan e fazê-lo experimentar os 90 dias de revolução, à medida que iam acontecendo. Eu queria distanciar-me dos eventos e deixar o espetador relacionar-se com eles, sem qualquer comentário ou narrativa em voz off. Fiz takes longos, para embrenhar o espetador na narrativa.
Tentei gravar o máximo de som direto possível e vou usar muito desse som no filme.
Maïdan é um enigma para mim, que ainda não consegui resolver.
Sergei Loznitsa - Março 2014




CRÍTICA
Melancólica meditação sobre homens e mulheres numa situação de conflito: os acontecimentos da Praça Maidan, em Kiev.
Como aconteceu com a Praça Tahrir, no Cairo, durante o episódio egípcio da “primavera árabe”, também a Praça Maidan, em Kiev, se tornou extremamente familiar para o mundo inteiro enquanto lugar simbólico da resistência e do poder populares, durante a sequência de acontecimentos que, em finais de 2013, teve como consequência imediata a deposição do presidente ucraniano, Yanukovich, e como consequência de longo prazo um imbróglio de proporções “globais” ainda bem longe do seu desfecho.
Esses dias entre o final de 2013 e o princípio deste ano em que multidões se aglomeraram na Maidan e a Maidan se tornou emblema de mais um conflito leste/oeste são o foco da atenção do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa, tradicionalmente dado à reflexão, na ficção ou no documentário, sobre a história do seu país (e a relação do seu país com a URSS), e que aqui encontramos a trabalhar a quente, quase “em directo”, no momento em que a História se desenha.


A Praça faz o relato desses dias, com suficiente informação e contexto para que ninguém se perca, mas sem recorrer àquele mais básico modo de condução do olhar do espectador, o comentário “off”, cuidadosamente evitado. Dos primeiros dias, onde o ambiente é sobretudo festivo, espécie de “happening” popular, ao momento em que a coisa começa a azedar e a atmosfera “pacífica” (mas sempre cheia de uma electricidade a prenunciar tempestade) descamba em caóticas batalhas campais. Como que assinalando que isto é apenas o princípio de uma história ainda sem fim à vista, termina inconclusivamente sobre uma nota sombria, a imagem de um memorial fúnebre improvisado, velas e ramos de flores, pelas vítimas da violência que caiu sobre a Maidan.
Para além desta dimensão informativamente documental, deste lado de “reportagem”, o que é interessante em A Praça, e totalmente condicente com a opção de ignorar um comentário “off”, é o facto de Loznitsa evitar os mecanismos habituais de sugestão de uma “urgência”. Está em cima do acontecimento mas todo o filme trabalha em criação de uma distância, bem longe dos clichés da reportagem filmada, os planos curtos ou a câmara à mão. Pelo contrário, a câmara fixa é dominante em A Praça, e os planos são por norma longos e frequentemente filmados de um ângulo muito aberto. É como uma sequência de “tableaux” arrancados ao “real”, às vezes um estranho bailado de multidões (com muitas canções e tudo), outras uma pintura de paisagem com batalha, numa agitação que tem o condão de ultrapassar as divisões contextuais (os “pró-ocidentais” e os “pró-russos”) para se dar a ver como uma inesperadamente melancólica meditação sobre homens e mulheres numa situação de conflito.
Luís Miguel Oliveira, publico.pt/culturaipsilon/

ADEUS À LINGUAGEM, de Jean-Luc Godard || TEATRO MUNICIPAL DE FARO || 13 JANEIRO || 21H30


13 JANEIRO  -  21H30
TEATRO MUNICIPAL 

ADEUS À LINGUAGEM
Jean-Luc Godard, Suíça, 2014, 70’, M/14

FICHA TÉCNICA
Título original: Adieu au langage
Realização e Argumento: Jean-Luc Godard
Fotografia:  Fabrice Aragno
Interpretação: Héloise Godet, Kamel Abdelli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau, Jessica Erickson, Christian Gregori
Origem: França
Ano: 2014
Duração: 70’


PRÉMIOS
Festival de Cannes - Prémio do Júri 




CRÍTICA

“Sim, foi o que tivemos de melhor, diz Deslauriers” - é uma das citações (Flaubert, no caso) que ocupa o “pré-genérico” de Adeus à Linguagem, filme que como quase todo o Godard desde sempre, e em especial o Godard desde Nouvelle Vague (1990), se constrói como grande colagem textual, e em certa medida imagética, com excertos e passagens retirados das mais diversas fontes.
Retirada ao contexto - A Educação Sentimental - a frase de Flaubert abre bem o caminho à indefinida melancolia de Adeus à Linguagem: é para ler com exaltação e exclamação, ou para ler com encolher de ombros e reticências?... Certo, certo, é que Adeus à Linguagem, como todo o Godard de há pelo menos vinte anos, se coloca num tempo “depois”, num tempo do fim, num tempo em que, definitivamente, já passou o que “tivemos de melhor”. Em simultâneo, não há apocalipse nenhum, as coisas são o que são e estão como estão - politicamente, poeticamente, sensivelmente, este mundo “depois” é reconhecível como “este mundo”, este mundo de agora. Enquanto folheia um livro com pinturas de Nicolas de Stael, uma personagem interroga-se: “o fim de um mundo”, ou o “advento de um novo mundo”?

Este espaço “entre” (um fim e um advento) é daquilo que, lembrem-se da citação de Élie Faure que abria o Pierrot le Fou, mais interessa a Godard. É o mundo das formas indefinidas, já não fixas, ainda não estáveis. Um movimento permanente entre a luz e a sombra, entre a matéria e a evanescência, entre as coisas e a sua compreensão.
Neste filme que, além de ser sobre “o fim de tudo” é “sobre tudo”, essas cenas domésticas representam mesmo uma espécie de centro de gravidade. Há algum tempo que Godard não voltava assim a esse núcleo essencial de tantos momentos da sua obra: o reduto doméstico, o “casal”, a “fábrica” (expressão usada num filme antigo para definir essa união entre o trabalho “material” e o trabalho que faz um “casal”). Se se diz “adeus à linguagem” é também para encontrar esse ponto em que as palavras, os códigos, as fórmulas de comunicação pré-definidas, deixam de funcionar, com drama e com exuberância, e tudo existe como liberdade e potência, a inventar, a recriar, a ser visto “para além” da linguagem. Deixar, como noutra citação, “que o não-pensamento contamine o pensamento” - e é talvez por isto que aparece o protagonista não-humano (e “não-pensador”), o cão Roxy, “intérprete”, fazendo apenas as coisas que os cães fazem, de algumas das mais belas cenas e sequências do filme, aquelas em que, por bosques e lagos e citações de Monet, Godard continua a sua “reinvenção electrónica” do impressionismo (já vista noElogio do Amor ou no Filme Socialismo). “O que está no exterior”, diz outra citação (agora Rilke), “só pode ser conhecido através do olhar do animal”.Adeus à linguagem, portanto, num filme que procura olhar, assim como nos desafia a olhar, com esse “olhar do animal”. 


É com Roxy que nos despedimos, adormecido em cima dum sofá. A voz “off” comenta: “parece deprimido”. “Não”, contrapõe outra voz “off”, “está só a sonhar com as Ilhas Marquesas”. Num certo sentido, Adeus à Linguagem é um filme sobre esse sonho com as Ilhas Marquesas. Foi o melhor que tivemos.
Luís Miguel Oliveira, publico.pt/


CAVALO DINHEIRO de Pedro Costa || 6 JANEIRO || 21H30 || IPDJ


6 JANEIRO
O CAVALO DINHEIRO
Pedro Costa, Portugal, 2014, 104’, M/12


 

FICHA TÉCNICA
Realização: Pedro Costa
Imagem: Leonardo Simões, Pedro Costa
Som: Olivier Blanc, Vasco Pedroso
Montagem: João Dias
Montagem Som: Hugo Leitão
Música: Os Tubarões
Com: Ventura, Vitalina Varela, Tito Furtado,António Santos, Benvindo Tavares
Origem: Portugal
Ano: 2014
Duração: 104' 





PRÉMIOS E ALGUNS FESTIVAIS
Festival de Locarno, Suiça - Leopardo Melhor Realizador
Festival do Rio de Janeiro, Brasil
Festival de Vancouver, Canadá
Festival de Toronto, Canadá
Festival de Nova Iorque, EUA
St. Petersbourg Media Forum, Rússia
Festival de Valdivia, Chile
Festival du Nouveau Cinéma, Montreal, Canadá
Festival de Londres BFI, Reino Unido


CRÍTICA
Cavalo Dinheiro é tudo menos “outro filme das Fontaínhas”. Pelo contrário, e mesmo se tudo o liga ao essencial da obra de Pedro Costa desde Ossos (e antes desse, a Casa de Lava, o filme “caboverdeano” que está na origem de toda esta série), é um “filme novo das Fontaínhas”. Nunca as Fontaínhas – ou o que resta delas – tinham servido para o que Cavalo Dinheiro faz.
Se, por boas razões, de Ossos a Juventude a Marcha, passando pelas várias curtas-metragens que Costa foi fazendo com o mesmo universo, se tratava sempre de filmes “concêntricos”, geograficamente concêntricos, a primeira surpresa de Cavalo Dinheiro é o seu início, a sua abertura (com jogo de palavras e sem ele). A montagem de uma sequência de fotografias de Jacob Riis, retratando operários, biscateiros, sem-abrigo, da Nova Iorque de finais de século XIX, as casas onde vivem, os bares onde se divertem. Vemos vários Venturas – cada vez mais o único verdadeiro “ícone”, em todos os sentidos, do cinema português contemporâneo – naquelas imagens, e é impossível deixar de pensar em todos os “filhos” que ele procurava em Juventude em Marcha: mas aqui vemos os pais, os primos, os irmãos, de outra época e doutro lugar, um parentesco imaginário que fica a pairar sobre o filme e que o inscreve em algo mais vasto do que só a História portuguesa das últimas décadas. O filme tem, de resto, uma espécie de “intervalo”, sensivelmente a meio, para uma série de planos com figuras marginais ou estranhas à “narrativa” de Cavalo Dinheiro (e uma canção dos Tubarões em “off”), que directamente se ligam, entre a homenagem e o reconhecimento, a essa montagem fotográfica inicial.




Mas também é o filme onde vemos Ventura na cidade – Ventura face às janelinhas iluminadas do Hospital de Santa Maria (soberbos planos onde “a noite tem mil olhos”), Ventura na Fonte Luminosa da Alameda, um plano ao lusco-fusco onde a combinação de auto-estradas, aviões a rasar e placards publicitários cria uma aparência de lugar sem sítio definido. O paradoxo – mas o filme é isto, uma constante deriva entre abertura e fechamento, sem nunca se esclarecer qual dos termos é mais ilusório – é que nunca Pedro Costa foi tão cavernoso, tão cheio de subterrâneos, escadarias íngremes, corredores estreitos, reais ou criados a partir do trabalho da iluminação (e eventualmente, da pós-produção, sendo certo queCavalo Dinheiro puxa as possibilidades da imagem digital a um alcance nunca visto e que é, isso sim e de pleno direito, “vanguardista”). “Sweet Exorcist”, a curta-metragem incluída em Centro Histórico, revisitada em Cavalo Dinheiro (Ventura preso dentro do elevador) e por ordem cronológica de visibilidade a sua origem, já nos deixava a pensar no expressionismo no sentido da sua tradição cinematográfica, esse jogo com a projecção da interioridade das personagens a transmitir-se ao espaço circundante, a deformá-lo, distorcê-lo, defini-lo, inventá-lo. Cavalo Dinheiro é também isto, do princípio ao fim: um sonho, ou um pesadelo, de Ventura, onde nada (nem as outras personagens, como a espantosa Vitalina, primeira figura feminina depois de Vanda, ausente neste filme, a ser um “match” para Ventura) tem uma segura existência “real”, no sentido diegético do termo. Tudo são sombras e subterrâneos, ou tudo pode sair das sombras e dos subterrâneos, terreno fértil para a imaginação e para a sugestão, como acontecia nos filmes de Tourneur ou de Lang, velhas predilecções de Costa, e descendentes directos do expressionismo histórico, que Cavalo Dinheiro, tanto, mas tanto, faz lembrar de uma ponta a outra.

O que equivale a dizer, mais ou menos, que Ventura está tão preso dentro da sua cabeça como dentro do elevador onde, no final, o deixamos. Sonho ou pesadelo, das sombras e dos subterrâneos saltam fantasmas, memórias desconexas, histórias apenas oralmente relatadas como a do cavalo que dá nome ao filme (e foi “comido pelos abutres”, fábula cheia de ressonâncias contemporâneas, é outra maneira de explicar o que aconteceu ao “dinheiro”). São os fantasmas da história de Portugal dos últimos 40 e tal anos, da diáspora cabo-verdeana, da guerra, do 25 de Abril, do que aconteceu depois, do que ainda não deixou de acontecer. Como num teatro onírico, cenas da guerra são revividas, com soldados e chaimites, num qualquer beco dos arredores de Lisboa. Como num filme de “zombies”, um soldado-homem-estátua serve de último parceiro a Ventura (que de facto raramente está sozinho neste filme), na extraordinária sequência do elevador que se conclui com aquele, poderosíssimo, gesto de mãos, como se em desespero de causa a personagem tentasse um derradeiro exorcismo, um “doce exorcismo”. Tem um efeito: pára o sonho, pára o filme. Mas espectador algum conseguirá sair daquele elevador.
Como dizia alguém, o que é espantoso em Pedro Costa é que cada filme é melhor que o anterior, mesmo quando isso parecia impossível. Cavalo Dinheiro, magnífico filme, confirma isso.

Luís Miguel Oliveira, publico.pt/ 


20 DEZEMBRO - O DIA MAIS CURTO EM FARO











O DIA MAIS CURTO
20 DEZEMBRO
22 H
SOCIEDADE RECREATIVA ARTÍSTICA FARENSE






















PROGRAMA

PANORAMA NACIONAL - (Duração 80ʼ · M/12)
CAROSELLO, Jorge Quintela, Portugal/Itália, 2013, FIC, 7'
O CANTO DOS 4 CAMINHOS, Nuno Amorim, Portugal, 2014, ANI, 12'
O CORO DOS AMANTES, Tiago Guedes, Portugal, 2014, FIC, 23'
KALI, O PEQUENO VAMPIRO, Regina Pessoa, Portugal/Canadá/França, 2012, ANI, 9'
MIAMI, Simão Cayatte, Portugal, 2014, FIC, 15'
FULIGEM, David Doutel e Vasco Sá, Portugal, 2014, ANI, 14'


EUROPA EM CURTAS - (Duração 75ʼ · M/12)
VENTO, Robert Löbel, Alemanha, 2013, ANI, 4'
NÃO HÁ LUGAR PARA O GEROLD, Daniel Nocke, Alemanha, 2006, ANI, 5ʼ
PÔR DO SOL VISTO DO TELHADO, Marinus Groothof, Holanda, 2009, FIC, 11'
ATLAS, Aike Arndt, Alemanha, 2011, ANI, 8'
PICKPOCKET, João Figueiras, Portugal, 2010, FIC, 19'
CURTA-METRAGEM, Olaf Held, Alemanha, 2013, FIC, 3'
CARGO CULT, Bastien Dubois, França, 2013, ANI, 11'
KIKI DE MONTPARNASSE, Amélie Harrault, França, 2012, ANI, 14'


PREÇO: 1€ com oferta de 1 cocktail


Apoio:



O QUARTO AZUL || 16DEZEMBRO || 21H30 || IPDJ


O QUARTO AZUL
Mathieu Amalric
França, 2014, 76’, M/16


FICHA TÉCNICA
Título Original: La Chambre Bleue
Realização: Mathieu Amalric
Argumento: Stéphanie Cléau e Mathieu Amalric, baseado no romance "La Chambre Bleue" de Georges Simenon
Montagem: François Gedigier
Fotografia: Christophe Beaucarne
Música: Grégoire Hetzel
Interpretação: Mathieu Amalric, Léa Drucker, Stéphanie Cléau, Laurent Poitrenaux, Sere Bozon
Origem: França
Ano: 2014
Duração: 76'




FESTIVAIS E PREMIOS
Festival de Cannes 2014 - Selecção Oficial – Un Certain Regard



CRÍTICA
No princípio a cena é ardente: um homem e uma mulher entregam-se à coreografia do sexo como se não houvesse mais mundo. Como se a tarde adúltera daquele pequeno quarto de hotel, azul, fosse uma redoma, uma campânula, um espaço sem antes nem devir dentro do qual a pulsão libidinosa não tivesse entraves, nem códigos, nem regras. Mas não há lugares isolados, mesmo nos pequenos hotéis de modestas cidades de província onde se não mora e que concedem que os amantes se possam encontrar sem risco de indiscrições ou sobressaltos. Porque há sempre um marido que indaga, uma mulher que suspeita, uma criada de quarto que entrevê por porta entreaberta, um susto imprevisto, uma fuga apressada pela porta das traseiras, quantas vezes quase de calças na mão...
No princípio de “O Quarto Azul” não há nada que se não saiba, da experiência, do cinema — Claude Chabrol quantas vezes filmou situações dessas? — só que, de muito cedo, também sabemos que aquela paixão torvelinhou noutras graves direções. Crime sim, mesmo se, durante muito tempo, não tenhamos os contornos exatos do que ocorreu, nem quem morreu nem quem matou.
Ancorado numa novela de Georges Simenon — a França profunda, pequeno-burguesa e desencantada, está lá quase por inteiro — “O Quarto Azul” não se caracteriza pela história, mas pelo argumento, pela estrutura acrónica onde, todavia, não nos perdemos pois há uma constante linha temporal que somos capazes de reconstruir mentalmente. A perícia é atribuível a Mathieu Amalric e Stéphanie Cléau, que adaptaram a novela ao cinema, ao mesmo tempo que davam corpo à dupla de personagens centrais.


Ao engenho do guião se atribuirá, igualmente, o sal principal da narrativa, ou seja: o filme segue, caninamente quase, o protagonista masculino (Julien/ Mathieu Amalric), no seu labor profissional, familiar e nas escapadas lascivas, mas é criatura que não nos interessa, que nos parece pequena e errática, pusilânime; ao invés, é ela (Esther/ Stéphanie Cléau) que pouco vemos, que desconhecemos para lá de uma nudez em êxtase, de um olhar em enigma, de uma deliberada vontade de controlar a vida, que apetece mais saber. Saber, até, da intenção de crime, da planificação de uma trama onde ela nos aparece carnívora e ele presa, mas onde talvez haja outras aranhas a tecer as suas próprias teias e a trocar os fios. Essa vontade de saber do espectador nunca se reduz, todavia, ao esquematismo do whodunnit: quem é o culpado? É basto mais largo o espectro das coisas que indaga, nevoeiro cativante onde navega de proa franca, ultrapassando portas fechadas, o quente e o frio, fugazmente entrevendo o abismo, o vórtice, entre as coxas de Stéphanie Cléau — exposição voraz, quase indecorosa, turbulenta. É essa vastidão de interrogações que o torna profundamente original no vasto universo dos filmes policiários, dos thrillers, em particular. Para mais, numa linguagem despachada, eficaz, jamais simplista — o filme dura 76 minutos, invulgarmente pouco, porque liberto de toda a ganga — “O Quarto Azul” revela-se um filme surpreendente, a mostrar que as produções de Paulo Branco continuam, no melhor dos casos, a desafiar expectativas.
Jorge Leitão Ramos, Expresso



ENTREVISTA AO REALIZADOR
Mathieu Amalric realiza e interpreta ao lado da sua mulher, a dramaturga Stéphanie Cléau, esta história de dois amantes malditos que se deixam arrastar pela paixão e se envolvem num jogo perigoso e eterno, tão comum a Hitchcock como a Mizoguchi. “O Quarto Azul” adapta uma célebre novela de Georges Simenon, escrita pelo belga em 1963. Conversámos com o cineasta em maio, poucos dias depois da estreia do filme em Cannes, na secção Un Certain Regard.
As personagens de “O Quarto Azul” parecem cansadas, sobretudo a de Julien Gahyde, o marido infiel que você interpreta. Ou melhor, talvez estejam já desiludidas perante a realidade - palavra que, aliás, é insistentemente repetida no livro de Simenon...
Desde a primeira página, sim. Eu acho que Julien vive cada cena em estado bruto, sem se colocar questões, sem tentar compreender o que está a fazer nem suspeitar que um dia vai ter de prestar contas por isso. Tudo é verdade e realidade para ele. Ora, creio que é isto que fascina em Simenon, uma espécie de cólera incontrolável que nos pergunta: porque é que é preciso acrescentar palavras às coisas da vida que todos nós, seres humanos, conhecemos? Para que a sociedade continue a funcionar, as palavras são necessárias. Como escreve Georges Simenon no livro, numa frase extraordinária que acabei por cortar do guião, “as pessoas gostam muito de saber que agimos por uma razão precisa”. E Julien não age por uma razão precisa.

Na ação de “O Quarto Azul”, temos a vida que se vive e a vida que o inquérito policial retrospetiva. O seu filme é hábil a cruzar as duas. Ora, isto faz-me pensar noutra coisa: a justiça pode julgar mas não poderá jamais compreender aquele casal, porque não viu o que nós vimos.
Sim, é isso. O visível não tem uma só camada. Há um duplo tempo no livro e no filme, e eu disse a mim mesmo que me poderia divertir a exaltar isso com os instrumentos do cinema. Quando adaptámos o argumento, a primeira coisa que a Stéphanie Cléau e eu fizemos foi extrair os diálogos do livro sem indicações de espaço e de tempo para averiguar se eles resistiam à época em que Simenon os escreveu, em 1963. Apercebi-me então que há um diálogo complexo entre o in e o off na estrutura do livro. E que nesse diálogo estão a sensualidade, a violência e a tragédia.
Estrutura essa que não é comum em Simenon. As suas narrativas são quase sempre lineares. Mas a de “O Quarto Azul” é elíptica...
A narrativa anda ao contrário da cronologia, e isso é raro nas suas novelas. Os factos anulam-se, ou melhor, mordem-se — para fazer referência a uma passagem do livro que guardo no início do filme, quando Esther morde Julien e cai no lençol uma gota de sangue. Isto agradava-me à partida como espectador: estar a ver alguma coisa e em simultâneo a duvidar do que vejo. As respostas às perguntas aparecem frequentemente deslocadas do tempo, e o que Julien diz não corresponde exatamente aquilo que faz. Ou seja, julgamos que passamos o filme todo na cabeça daquele homem, mas não estamos realmente dentro dela, por- que nos vamos colocando questões sem parar. Isto para mim é puro prazer, um prazer primário de espectador.
Ficamos perante uma história de desaparecimentos?
Sim, o fim do filme salienta isso. Aquelas personagens vão desaparecer.
Porque é que alterou o nome da personagem que no livro de Simenon se chama Tony?
Vou contar-lhe uma coisa também a propósito de fantasmas: durante as minhas pesquisas para o filme, descobri, acidentalmente, que Simenon adorava Stendhal. A coincidência disto tudo é que eu estou já há três anos a trabalhar numa adaptação para cinema de “O Vermelho e o Negro”, certamente o projeto mais complexo em que me meti até hoje. O que é curioso é que a cena do julgamento de “O Vermelho e o Negro” é muito próxima da sensação que temos ao ler “O Quarto Azul”. Foi por isso que resolvi alterar o nome da personagem e chamar Julien a Tony. Julien Sorel é o nome do protagonista de “O Vermelho e o Negro”. Mas as coincidências não acabaram aqui. No tribunal em que filmámos, as paredes estão pintadas com abelhas em fundo azul. Isto não está no livro de Simenon. Mas foi um signo incrível: há o quarto azul, que é um espaço de desejo, e no filme um tribunal azul, que é um espaço de acusação.


Estas coincidências levam-nos para outro aspeto importante no filme: o da relação entre o privado e o público. Que tem várias nuances: 1) é você quem realiza e interpreta a personagem principal; 2) a personagem da amante de Julien é interpretada por Stéphanie Cléau, que é a sua própria mulher na vida real. Sem abuso, pode dizer-se que há um pouco da sua vida neste filme, ou não?
Sim, e isso é perturbador. E tudo se desenrolou assim, muito depressa. Não era suposto este filme existir. Foi o Paulo Branco, uma pessoa a quem eu devo quase tudo no cinema, que insistiu, que me passou o livro e disse: “Pega neste, acho que está aqui um filme a fazer e que o deverias fazer agora.”
Porquê?
Porque ele está ao corrente do tormento e da obsessão que estou a viver com a adaptação de “O Vermelho e o Negro”.
Mas você tem trabalhado como um louco ultimamente. Filmou com Polanski, com os irmãos Larrieu, com Wes Anderson...
Mas sempre como ator, não como cineasta. E trabalhar como ator não é trabalhar como um louco. Ser ator é viver num estado de irresponsabilidade extraordinário! O verdadeiro trabalho é feito pelos outros. Agora, levantar-me às 7 horas da manhã e pensar em planos de cinema... é outra coisa. Mas estou a desviar-me a sua pergunta anterior, da história da autobiografia. Como é óbvio, refleti sobre ela perante “O Quarto Azul”. Quase tive vergonha. Estar ali, expor-me assim, expor a Stéphanie... Claro que pensei nisso. Mas depois deixei de pensar. E sabe porquê? Graças ao género policial, graças a Simenon. Senti-me protegido, como se o género fosse um filtro. A Stéphanie, que é dramaturga, adaptou dezenas de textos contemporâneos ao teatro:
Dos Passos, James Ellroy, Lobo Antunes... Está a ajudar-me também em “O Vermelho e o Negro”. Vivemos juntos, discutimos o trabalho juntos. E as coincidências não param: é que, quando encontrei a Stéphanie há uma dezena de anos, “O Quarto Azul” foi um dos primeiros livros que lhe passei. Descobrimo-nos agora, com contrato assinado, a trabalhar sobre esse livro, ela como argumentista, eu como realizador. A ficção começou a contaminar a nossa realidade, digamos assim. As frases de Simenon pareciam frases nossas. Começámos a pensar em rostos para as personagens, e a Stéphanie disse-me que eu devia fazer o marido infiel. Aceitei, nada de novo, sou ator, as pessoas conhecem a minha cara. Era preciso que a atriz que faz de minha mulher fosse também muito conhecida — e convidámos Léa Drucker. E a amante? E a ameaça do desconhecido? Foi Stéphanie por sua vontade, que a interpretou, embora ela não tenha experiência na interpretação.

Mudando de assunto: é impressão minha ou ao longo de todos estes anos, tem interpretado muitas personagens feridas pelo sentimento amoroso? Mathieu Amalric já é sinónimo de sofrimento de amor? Tem uma explicação para isto?
Não sei. Não sou um sinónimo de serenidade, é certo. O meu filme “Tournée’ também falava disso, da falta de serenidade. E há alguma coisa no mundo mais forte do que dois corpos que se atraem? Os irmão Larrieu, com quem trabalho bastante, sabem por vezes contornar isso, descobrir a harmonia — como em “Un homme, un vrai”, por exemplo, um filme de que gosto muito. Por isso, gosto de filmar com eles: acho que sabem arrancar-me à minha melancolia, a um sentimento sombrio que acho que é muito português. A Simenon interessa outra coisa: o trágico. O trágico que se instala pela obstinação, pelo suspense. O trágico da natureza humana, que não se altera. O livro dele tem agora 50 anos, nós adaptámo-lo aos dias de hoje, seguimos os procedimentos da polícia e da justiça de hoje, mas não podemos esquecer que o livro, como quase todos os de Simenon, se passa na província. E esta é imutável.
Por falar em suspense, filmou no formato 4:3, que é o do fiIm noir americano e que quase ninguém utiliza hoje. Porquê?
Não foi por uma questão de memória do cinema, embora já me tenham falado disso. A escrita de Simenon é tensa, densa e tive vontade de me aproximar dos atores, de cerrar o espaço, de cercar os corpos. O 4:3 obriga-nos a filmar de mais longe, mas ganhamos em altura nos enquadramentos e os corpos ficam mais belos. Era o formato que me convinha.
Francisco Ferreira, Expresso