Dr. Estranho Amor, Stanley Kubrick, 31 Março, IPDJ, 21h30

DR. ESTRANHOAMOR
Stanley Kubrick
EUA/Reino Unido, 1964, 94’, M/12

FICHA TÉCNICA
Título original: "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb".
Realizador: Stanley Kubrick.
Argumento: Stanley Kubrick, Peter George, Terry Southern, baseado no livro “Red Alert” de Peter George
Monatgem. Anthony Harvey
Fotografia: Gilbert Taylor
Música: Laurie Johnson
Interpretação: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens. 
Origem: EUA/Reino Unido
Ano: 1964
Duração: 94’




Durante vários anos da Guerra Fria, a tensão entre EUA e União Soviética foi latente, existindo uma "paz armada" que exigia um enorme esforço da diplomacia de ambas as nações para evitar que este conflito deflagrasse numa luta armada e fosse utilizada a bomba atómica. A paranóia em relação à corrida ao armamento, disputas tecnológicas e ideológicas, e sobretudo em relação à bomba atómica surge satirizada de forma mordaz, inteligente, com momentos de puro brilhantismo e requinte por Stanley Kubrick em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb", onde nada nem ninguém parece escapar ao sentido crítico do cineasta. Desde os militares, passando pelos políticos e até os ideais defendidos, poucos escapam a esta sátira filmada belissimamente a preto e branco, que tal como na maioria das obras de Stanley Kubrick pouco ou nada parece ter
envelhecido. Diga-se que no final não ficamos a adorar a bomba atómica, mas sim esta peculiar obra cinematográfica, que é capaz de ironizar e brincar com assuntos sérios, geralmente sem ser ofensiva mas por vezes extremamente corrosiva, deixando-nos perante um Peter Sellers a mostrar boa parte da sua enorme versatilidade para a representação e Stanley Kubrick a expor algumas doses de genialidade. 
[...] Curiosamente, muito dos diálogos e da construção dos personagens foram fruto do improviso de Peter Sellers, com este a colaborar com Stanley Kubrick no desenvolvimento dos mesmos, com o argumento a prever exactamente explorar o génio do actor, juntando-se um realizador maravilhoso com um actor assombroso. Dos três personagens interpretados por Sellers, Strangelove é o elemento que mais se destaca, ou não fosse este indivíduo na cadeira de rodas a personificação do lado negro destas políticas desastrosas aplicadas na Guerra Fria. 
[...] marcada por um humor negro inteligente, capaz de tocar em elementos relevantes e preocupantes da Guerra Fria e dos perigos de uma possível Guerra Nuclear, criando uma obra brilhante e criativa que inicialmente até foi idealizada como um thriller político, mas que com o desenvolver da obra Stanley Kubrick decidiu por uma feliz mudança de rumo, resultando numa das grandes comédias da história do cinema. O facto de Dr. Strangelove ser considerado como uma das comédias mais relevantes do pós-Guerra não é fruto do acaso.

 Nota-se que existe todo um trabalho de pesquisa para explorar as temáticas, não faltando referências várias ao período histórico, uma capacidade notável para extrair o melhor que os seus actores têm para dar e uma paradigmática utilização do espaço da narrativa, sobressaindo todo o cuidado colocado na elaboração dos cenários. 

Quem domina o filme é Stanley Kubrick, cuja minúcia que coloca nos seus filmes resulta numa das suas obras maiores, apresentando um certo cepticismo em relação aos avanços tecnológicos e à forma nefasta como estes podem ser utilizados, em particular no que diz respeito à bomba nuclear. O filme foi lançado originalmente em 1964, numa fase onde a crise dos Mísseis de Cuba ainda estava muito viva (e provavelmente terá estado na memória de Kubrick e Terry Southern durante a elaboração do argumento), bem como a paranóia colectiva, o medo de uma possível deflagração de uma guerra nuclear, algo que surge expresso com enorme eficácia em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb". Stanley Kubrick consegue pegar num conjunto de assuntos sérios e brincar com estes, sem descurar a criação de alguns elementos mais tensos e dramáticos, mas sempre sem perder o tom corrosivo desta sátira hilariante, composta por momentos e diálogos icónicos, dominada por magníficas interpretações de um conjunto de actores que souberam incutir personalidades vincadas aos seus personagens.
...em "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" essa paranóia surge acompanhada por políticos algo incompetentes, militares muito peculiares e um ex-nazi pronto a personificar o pior da humanidade e ficamos com um retrato soberbo, corrosivo e inteligente da paranóia nuclear durante a Guerra Fria, naquela que é uma das grandes obras-primas de Stanley Kubrick.
Aníbal Santiago, bogiecinema.blogspot.pt/ 

ESPÍRITO DE '45, de Ken Loach - Teatro Municipal - 21h30 - 24 Março


O ESPÍRITO DE '45
Ken Loach, Reino Unido, 2013, 94', M/12


FICHA TÉCNICA
Realização:  Ken Loach
Montagem: Jonathan Morris 
Fotografia: Stephen Standen 
Música: George Fenton 
Imagens de Arquivo: Jim Anderson
Pesquisa: Izzy Charman 
Origem: Reino Unido
Ano: 2013
Duração: 94'


FESTIVAIS
Festival de Berlim 




TRAILER


NOTA DE INTENÇÕES
A Segunda Guerra Mundial foi uma luta, talvez a maior e mais considerável luta colectiva em que este país esteve envolvido. Apesar de outros terem feito sacrifícios maiores, o povo da Rússia, por exemplo, a determinação de construir um mundo melhor era tão forte aqui como nos outros países. Nunca mais, acreditava-se, iríamos permitir que a pobreza, o desemprego e o fascismo desfigurasse as nossas vidas.
Ganhámos a guerra juntos, juntos podíamos ganhar a paz. Se conseguíamos planear campanhas militares, não conseguiríamos também construir casas, criar um serviço de saúde e um sistema de transportes, fazer o que era necessário para a reconstrução? 
A ideia central era a do bem público, em que a produção e os serviços beneficiariam todos. Não deveriam uns poucos ficar ricos em detrimento de todos os outros. Foi uma ideia nobre, popular e aclamada pela maioria. Foi o Espírito de 45. Talvez seja altura de o relembrar hoje. 

Ken Loach


CRÍTICAS
Ken Loach documenta a ascensão e queda do sonho de uma sociedade mais justa na Inglaterra do pós-guerra.
Não seria preciso este documentário sobre a Inglaterra do imediato pós-Segunda Guerra para confirmar o britânico Ken Loach como um dos poucos cineastas genuinamente activistas ainda em actividade.
Mas apesar dos dois anos de atraso com que nos chega, a verdade é que O Espírito de ‘45 – provavelmente o seu melhor filme em largos anos – transcende o activismo para falar aos nossos dias de austeridade, contando a história da vitória do Partido Trabalhista nas primeiras eleições após o fim da guerra e o modo como ela redesenhou a paisagem social e política britânica.
A intenção do governo de Clement Attlee era prolongar no pós-guerra o espírito de unidade e coesão que embalou Inglaterra de 1939 a 1945, numa espécie de “grande experiência democrática” que veio mudar os parâmetros do velho império entretanto desaparecido. Loach contrasta a esperança desses “amanhãs que cantam” com o seu desmantelamento dessa sociedade às mãos do governo de Margaret Thatcher, sem ilusões quanto às “batalhas a travar” mas sugerindo que só reclamando esse espírito utópico se poderá inverter a “curva descendente” da sociedade. A força das imagens de arquivo e dos testemunhos recolhidos é suficiente para transcender o classicismo algo rígido da apresentação, mas sente-se mais alma em O Espírito de ‘45 no que na última meia-dúzia de ficções assinadas pelo cineasta britânico.
Jorge Mourinha, publico.pt/



O Espírito de '45, um documentário realizado por Ken Loach em 2013 e que chega agora ao mercado português com todo este atraso, faz uso de imagens de arquivo das condições de vida no pós guerra no Reino Unido para traçar um panorama do espírito da população naquele crucial momento histórico. Para Loach, que para além das imagens de arquivo vai dando forma à sua argumentação a partir de testemunhos de pessoas que partilharam um projeto político e comunitário conjunto, um dos aspectos fundamentais neste espírito de 1945 foi o sentido de comunidade e do trabalho para o bem comum – princípios basilares do Estado Social erguido pelo governo de Clement Altee. O documentário aborda duas questões fundamentais, a partir de dois momentos bastante distintos: a centralidade do Estado Social para uma nova Grã-Bretanha acabada de sair da Segunda Grande Guerra, mais solidária e empenhada em construir um futuro próspero para todos; e a subida ao poder do governo Thatcher, e a progressiva erosão desse legado material e simbólico. O propósito, de declarada inclinação política, é o de contribuir para que esse entusiasmo pela construção de um futuro possam servir de exemplo e de inspiração para os dias de hoje.
Altee, que sucedeu a Churchill nas primeiras eleições do pós-guerra, implementou um conjunto de políticas à altura da vontade de profunda mudança daqueles tempos, com destaque para um extenso programa de nacionalizações e da criação do NHS, o sistema de saúde nacional britânico. Loach recolhe um conjunto de depoimentos de cidadãos que beneficiaram das melhorias das condições de vida que resultaram dessa política, que ao longo de três décadas foi capaz de impulsionar o crescimento económico britânico. Excertos do manifesto do Partido Trabalhista para as eleições de 1945, que são ocasionalmente narradas e sobrepostas a imagens de arquivo, têm uma particular ressonância para com os dias de hoje: "As dificuldades nos períodos entre-guerras não foram atos de Deus, nem de forças ocultas. Foram antes o claro resultado da concentração de demasiado poder económico na mão de poucos"; ou ainda, "o custo daquilo a que designamos por 'liberdade económica' para a população democrata é demasiado elevado se for alcançado à custa da miséria e desperdício do potencial de milhões".

Formalmente, é um documentário de alguma banalidade. Loach coloca as questões sempre atrás da câmara, num registo que que associamos frequentemente à televisão e não tanto ao cinema. Os depoimentos recolhidos são também eles a preto e branco, em continuidade com os fantasmas das imagens de arquivo, como se os ideias e valores daquelas pessoas pertencessem já a um passado lamentavelmente irrecuperável. Nos momentos finais, Loach regressa às mesmas sequências com que abre o documentário, que dizem respeito às comemorações pelo fim da guerra, mas neste último olhar as imagens já são a cores: talvez ainda haja esperança.
O melhor: Uma evocação inspiradora de um período importante na história contemporânea.
O Pior: Nada a apontar
José Raposo, c7nema.net

O HOMEM DECENTE - 17 MARÇO - 21H30 - IPDJ


O HOMEM DECENTE

Vanessa Lapa, Áustria/Israel, 2014, 94’, M/14


FICHA TÉCNICA
Realização: Vanessa Lapa
Argumento: Vanessa Lapa, Ori Weisbrod
Montagem Sharon Brook, Noam Amit
Fotografia Hermann Poelking-Eiken
Som: Tomer Eliav
Música Original: Jonathan Sheffer, Daniel Salomon, Gil Feldman
Origem: Áustria/Israel
Ano: 2014
Duração: 94’










CRÍTICA
" (...) Na vida, é preciso ser decente, corajoso e ter bom coração", escrevia Heinrich Himmler numa das suas cartas. Palavras sábias que demonstram sobretudo uma humildade de espirito, mas convém sublinharem que Himmler é o braço-direito de Adolf Hitler. O homem por trás dos conselhos de decência foi em tempos apelidado como o arquiteto da "Solução Final", o visionário do extermínio de uma "raça" que ele próprio considerava prejudicial para a ascensão de uma outra, pura e soberana (tendo também sido um dos mentores da concretização dos campos de concentração).
Um Homem Decente, um título irónico e de certa forma trocista ao legado deste homem de mente indecifrável, é um documentário que nos reúne um ponto vista único através da leitura de cartas, fotografias e diários encontrados na casa de família dos Himmler, em 1945. Para além de uma biografia de um dos rostos das atrocidades cometidas e da proliferação do idealismo Nazi na Alemanha e noutras partes da Europa, o filme de Vanessa Lapa remete-nos como um documento sobre os efeitos e réplicas de um regime, descrevendo uma época fatídica e memorável para a Humanidade do século XX.


A descrença dos alemães pela sua Nação após a humilhante derrota da Primeira Guerra Mundial, o desejo de uma nova guerra como uma demonstração de bravura, o realçar dos valores patrióticos que só Adolf Hitler conseguiu estabelecer no seu povo e a premonição de um novo mundo, erguido de uma tremenda poça de sangue, são alguns dos fatores que o filme analisa pelos olhos de Himmler, os quais também avaliam a sua própria figura. Tal como um feitiço que se vira contra o feiticeiro, Lapa utiliza o seu legado de forma reflexiva aos seus pensamentos, elaborando não um "monstro", mas um homem de um poder intelectual invejável, embora, distorcido.
Resumidamente, O Homem Decente é uma autocrítica póstuma, não deixando de ser impressionante o retrato orquestrado sem um pingo de maniqueísmo ou manipulação. Eis um registo linear e formalista que se incorpora como um diário visual de alguém que o Mundo dificilmente poderá esquecer. Quanto aos julgamentos, só o espectador poderá faze-lo, obviamente sob advertências.

Hugo Gomes, c7nema.net/

O ÚLTIMO DOS INJUSTOS - 10 MARÇO - IPDJ - 21H30

O ÚLTIMO DOS INJUSTOS
Claude Lanzmann
França/Áustria, 2013, 220', M/12


FESTIVAIS

Festival de Cannes - Selecção Oficial 

FICHA TÉCNICA
Realização: Claude Lanzmann
Fotografia: William Lubtchansky,  Caroline Champetier
Montagem: Chantal Hymans
Som: Antoine Bonfanti, Manuel Grandpierre, Alexander Koller
Origem: França/Áustria
Ano: 2013
Duração: 220’







CRÍTICA
Como quase todos os filmes de Claude Lanzmann, O Último dos Injustos é um descendente de Shoah, o seu monumental trabalho sobre o Holocausto, e sobre as memórias do Holocausto, estreado em 1985.
 Mas se nalguns filmes que assinou depois de 1985 Lanzmann voltou a segmentos específicos de Shoah, em O Último dos Injustos o material dado a ver, e sobre o qual o filme se constrói, ficou inédito. Trata-se, essencialmente, do registo filmado de várias sessões de conversa entre Lanzmann e a extraordinária personagem de Benjamin Murmelstein, que fora o derradeiro “Ancião dos Judeus” do ghetto-modelo de Theresienstadt. As conversas tiveram lugar em 1975, quando, no início da preparação do que viria a ser Shoah, Lanzmann localizou Murmelstein em Roma e foi ter com ele. Como Lanzmann assinalou por altura das primeiras apresentações de O Último dos Injustos, Murmelstein afigurou-se-lhe um indivíduo de tal modo colossal que acabou por não incluir nenhum do material com ele em Shoah, pensando um dia fazer com Murmelstein o filme que ele merecia, que era, Lanzmann dixit, “um filme só para ele.”

O Último dos Injustos é então esse filme. É o retrato dum homem com uma história extraordinária, é um documento de história oral, é uma investigação sobre alguns aspectos particulares do Holocausto, e é, não o negligenciemos, um fascinante jogo de pingue-pongue entre um entrevistador (Lanzmann) e um homem (Murmelstein) perfeitamente consciente das “zonas de sombra” do seu percurso. Figura ambígua, que houve (Gerhard Scholem, por exemplo) quem defendesse que devia ter sido julgado e condenado, Murmelstein, apesar de bastante “apertado” por Lanzmann, acaba por ser como que “absolvido” por ele: o final do filme, no que é um pormenor raríssimo em toda a obra de Lanzmann, mostra os dois num último passeio por ruínas romanas, e a câmara fica a vê-los a afastarem-se, com Lanzmann a passar o braço pelo ombro de Murmelstein. Não fica nenhuma ambiguidade sobre a admiração do realizador pela sua personagem.
Em relação aos procedimentos habituais de Lanzmann — tão crucialmente expostos em Shoah  O Último dos Injustos introduz algumas variações relevantes. Aquela opção radical de incluir quaisquer imagens de época foi abandonada, e neste filme encontra-se mesmo um pequeno documento, feito pelos próprios nazis, que mostra o ghetto de Theresienstadt numa absurda (sinistra e absurda) manobra de propaganda, que pretendia dar a ver como o ghetto era de facto “modelo” e todos ali tinham uma vida agradabilíssima. Outro aspecto importante é o facto de Lanzmann se pôr, a ele próprio, “em cena”, em imagens contemporâneas (Lanzmann já com oitenta e muitos anos) que criam um diálogo curioso com as imagens de 1975 onde Lanzmann aparece como homem jovem, sugerindo que O Último dos Injustos comporta também uma dimensão autobiográfica, como se o realizador reflectisse também sobre a sua vida e obra.
Mas essas cenas contemporâneas, onde Lanzmann faz um pouco de tudo (cicerone na visita à actual cidade de Terezin ou às sinagogas de Viena; reconstituição quase “teatral” de acontecimentos sucedidos no ghetto), também fazem uma espécie de ponte, da “memória histórica” à “memória material”, como que salientando que o Holocausto, apesar da crescente distância temporal, não é uma abstracção de livros de História mas, pelo contrário, uma presença. E nesse sentido, certos momentos, como a demorada cena numa sinagoga vienense, dão-se a ver como um testemunho de sobrevivência cultural: eis aqui, ainda, a cultura judaica que os nazis quiseram destruir. Contando uma história de morte, O Último dos Injustos celebra, no fim de contas, a sobrevivência e a vida.
Luís Miguel Oliveira, publico.pt

A NOITE CAIRÁ, de André Singer || 3 MARÇO || IPDJ || 21H30

A NOITE CAIRÁ
André Singer, Reino Unido, 2014, 75’, M/14


FICHA TÉCNICA
Realização: André Singer
Argumento: Lynette Singer
Fotografia: Richard Blanshard
Montagem: Arik Lahav, Steve Miller
Som: Aviv Aldema
Compositor: Nicholas Singer 
Origem: Reino Unido
Ano: 2014
Duração: 75’



A 15 de Abril de 1945, as tropas britânicas libertaram o campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma equipa de filmagens filmou as pilhas de cadáveres e os sobreviventes, provas irrefutáveis dos crimes cometidos pelo regime Nazi. O produtor Sidney Bernstein planeava usá-las num filme e convidou Alfred Hitchcock para o montar. Mas, depois do fim da Guerra, as forças de ocupação mudaram a sua política e em vez de confrontar a Alemanha com a culpa, preferiram instalar a confiança para tornar possível a reconstrução do pós-Guerra. E estas imagens de horror indizível foram confinadas aos arquivos. A Noite Cairá segue as pisadas deste filme inacabado conhecido como o “Hitchcock perdido”.

CRÍTICA
O documentário de Singer coloca o cerne da questão no projecto do produtor Sidney Bernstein, que devido a um conjunto de circunstâncias relacionadas com a instabilidade política do pós-guerra nunca chegou a ser completado. Até hoje: no final de 2014 o Imperial War Museum regressou às imagens recolhidas pelos soldados, num importantíssimo trabalho de digitalização e restauração. Um dos aspectos mais determinantes no projecto concebido por Bernstein, e que nunca chegou a ser verdadeiramente concretizado, está relacionado com o envolvimento de Alfred Hitchcock. 

As imagens recolhidas pela equipa de Bernstein seriam o ponto de partida para aquele que seria o único documentário da carreira de Hitchcock. Uma das razões avançadas para a inviabilidade do projecto prende-se com a recusa em acolher o elevado número de refugiados judeus, tanto da parte dos Estados Unidos como do Reino Unido. Perante a intensidade visceral das imagens, temia-se que o documentário não cumprisse o seu propósito fundamental - que passava em larga medida pela demonstração da dimensão dos crimes cometidos pelo regime Nazi -, tornando-se antes numa ferramenta de pressão política; sensibilizada pela injustiça atroz cometida contra o povo judeu, havia a hipótese da população manifestar forte apoio ao acolhimento dos refugiados em território aliado. 
Por outro lado, e esta era uma questão primordialmente referente ao contexto do Reino Unido, haveria também o receio que a divulgação do documentário contribuísse para a desmoralização do povo alemão, frequentemente responsabilizado pelas ações do seu regime; com os primeiros sinais de uma guerra fria a poluir o horizonte político, a prioridade passavam também por evitar alienar um potencial aliado contra a então União Soviética. Em ambos os casos, é esta uma das dimensões da difícil relação entre o sentido último da história e a "imagem", e que parece fazer eco de algumas das reservas avançadas por Lanzamnn. Singer nunca entra em diálogo explicito com o debate lançado por Lanzmann, tão pouco nos moldes em que o realizador de Shoah colocou a questão, mas o que aqui importa sublinhar é a importância de uma reflexão sobre a relação entre imagem e a (re)construção da História.

Um dos motivos de maior interesse do documentário de Singer passa pela aproximação às sugestões e instruções dadas por Hitchcock à equipa de Bernstein. Para evitar suspeitas sobre a credibilidade das imagens, Hitchcock recomendou que se utilizassem planos e sequências longas – daí a insistência nos momentos em que é possível ver as campas a céu aberto com os corpos dos judeus, com soldados nazis junto das suas vítimas. Outra sugestão foi a de demonstrar a proximidade entre os campos de concentração e povoações civis, de uma maneira ou de outra implicadas naquela tragédia.
Algumas das imagens restauradas pelo Imperial War Museum vão sendo intercaladas ao longo de toda a exposição factual de A Noite Cairá, e o que é aqui também impressionante é a "nitidez" ou "realismo" que o digital vem trazer a este imprescindível documento histórico. É que a degradação das imagens de arquivo tendem a distanciar-nos do momento histórico em que foram recolhidas: é oposto da impressão provocada pela alta definição digital e da sua relação afetiva com o espetador.
A obra não nos apresenta uma leitura do sentido último do Holocausto, mas relembra-nos da nossa proximidade histórica com o horror do Nazismo.

O melhor: A contextualização da dimensão política do documentário.
O pior: Nada a apontar.

José Raposo, www.c7nema.net

Os Maias - Cenas da Vida Romântica || Teatro Municipal de Faro || 24 de Fevereiro

DIA 24 – Teatro Municipal - 15h e 21h30
PRESENÇA DO ACTOR PEDRO LACERDA (POETA ALENCAR)

OS MAIAS
João Botelho, Portugal, 2014, 139’, M/12

FICHA TÉCNICA
Realização: João Botelho
Argumento: João Botelho, a partir da Obra de Eça de Queiroz
Montagem: João Braz
Imagem: João Ribeiro
Som: Jorge Saldanha
Direção de arte: Sílvia Grabowski
Quadros a óleo: João Queiroz
Interpretação: Graciano Dias, Maria Flor, Pedro Inês, João Perry, Hugo Mestre Amaro Adriano Luz, Filipe Vargas, Marcello Urgeghe, Pedro Lacerda
Origem: Portugal
Ano: 2014
Duração: 139’




CRÍTICA
Comecemos pelo bom, pela grande vitória de João Botelho ao atirar-se aos imortais Maias de Eça de Queiroz: a de olhar para o livro não como um manual de instruções a cumprir à risca, mas como um guia de leitura.
Não é a adaptação convencional que muitos esperam ou desejariam – e ainda bem; de leituras reverentes de clássicos estamos nós fartos, e como não temos a tarimba 
dos ingleses também não vale a pena andarmos a armar ao pingarelho. Este é um filme fiel ao espírito do livro, mesmo que não à sua forma; o artificialismo distanciado e assumido, a construção da história de Carlos da Maia em “quadros” ou “cenas” que parecem saídos de uma ópera escarninha, são perfeitos para dar a dimensão de “fogueira das vaidades” da Lisboa de 1875 vista por Eça. Os Maias segundo João Botelho são uma parada de costumes de uma capital prisioneira das aparências, onde todos estão constantemente em cena como num palco permanente onde importa mais parecer do que ser. É aí que o filme se eleva muito alto, logo a partir do genérico que cria um imediato efeito de distanciamento; é uma espécie de filme-pantomima, de ópera (bufa) de bolso de um Portugal dos pequeninos, sublinhada pelo romantismo exacerbado das escolhas musicais, pela opulência da fotografia de João Ribeiro, pelo artificialismo aguarelado dos telões de João Queiroz que fazem a vez de exteriores.
[...] Mérito do romance, sem dúvida, mas também de um realizador que não se deixou assustar por ele. Ainda assim, fica a sensação que a “compactação” do romance para uma duração “viável” em sala, somada à construção do filme por quadros, acaba por tornar Os Maias mais numa sequência de episódios do que numa narrativa coesa e contínua, e que a própria aposta de Botelho na dimensão de comédia de costumes sobre o “Portugal dos pequeninos” pode ter contribuído para a menorização da história de amor. O que, na verdade, não é um problema perante um filme que ganha em ser visto mais do que uma vez - e, preferencialmente, na versão longa – e que faz ao livro de Eça a justiça devida.
Jorge Mourinha, Público




Entrevista ao Realizador
Há quantos anos se pensava em levar ao cinema o célebre romance de Eça de Queirós sem que ninguém tenha arriscado dar esse passo? Ao imortal “Os Maias”, acrescenta agora João Botelho um novo comentário e também um apêndice ao título, “Cenas da Vida Romântica”, que o cineasta explica em entrevista. “Os Maias” é o seu filme mais forte deste milénio. Um grande Botelho. Valeu a pena esperar pela ousadia. E pelo atrevimento.
Há no filme algo que vem obviamente do Eça mas que eu creio que você sublinhou na adaptação: uma noção de presente. Um presente com um abismo à espreita. O livro acaba quando Portugal está à beira de uma bancarrota e os tempos de ontem, tão diferentes, não deixaram de ser os tempos de hoje. Decidiu pegar neste livro agora também por isso?
É uma pergunta justa. O Eça tem outros romances prodigiosos mas eu estou convencido de que o único que se pode transportar para os dias de hoje é “Os Maias”. O Eça demorou sete anos a escrevê-lo. E agarrou Portugal. Os comportamentos são iguais. Os Afonsos da Maia, os Dâmasos, os Gouvarinhos, os banqueiros Cohen andam aí à solta... Sim, é a história do fim de uma época: uns tempos depois da publicação do livro, em 1888, Portugal entrou em bancarrota. A monarquia pediu a um banco inglês um empréstimo amortizável a 99 anos e a dívida só foi liquidada em 2001. Agora a sra. Merkel quer que nós paguemos ‘isto’ em quatro anos... é estranho. O Eça agarrou uma era neste livro. E até o seu assunto central, que é um tabu para onde tudo converge, o incesto, é um incesto político com um destino funesto: já não há ninguém com quem dormir e para que esta nossa ‘raça’ se mantenha o irmão tem que dormir com a irmã.
Disse várias vezes que nunca fez um filme de época.
Nunca. Fiz sempre filmes sobre os dias em que filmei, sobre o presente. Resisto ao filme de época, não sei o que é. Conheço os tempos de hoje, mais nada. E gosto de anacronismos.
O genérico de “Os Maias — Cenas da Vida Romântica” recorda essa ideia quando expõe a matéria do filme em estúdio: o livro, o décor, os figurinos, as anotações ao texto, etc. Mostram-se os ingredientes antes de começar o cozinhado?
O genérico é a chave para abrir a porta. É a exposição dos artifícios do filme que se vai seguir, uma falsidade que nos é dada à partida, um pouco como no ‘espetáculo dos espetáculos, que é a ópera: se a senhora de 50 anos que sobe ao palco para fazer de adolescente cantar maravilhosamente. se a sua interpretação for justa, acreditamos nela.
E choramos. O genérico expõe ainda outra coisa: não foi por acaso que eu escolhi um barítono, Jorge Vaz de Carvalho, para a voz do Eça. Ou seja, a voz do narrador é a voz de um cantor de ópera. Foi uma escolha deliberada para instaurar à partida uma ideia de libretto ou de filme cantado. Uma vez instalada a falsidade, tudo a partir daí passa a ser verdade. E com isso, é o texto que ganha. Quando adaptei Pessoa em “Filme do Desassossego” a luta com o texto foi muito diferente. O trabalho levou-me a tender para um gesto de abstração. No caso de “Os Maias”, pelo contrário, mantive as narrativas e as suas várias camadas: um discurso político, outro social, outro ainda psicológico. Comportamentos humanos.
Qual foi a maior dificuldade da adaptação?
Decidir o que cortar. Eu não escrevi nada neste filme. Não há uma frase minha, vem tudo do livro. Fiz apenas uma alteração mais radical: não dou o flashback da família de Carlos Eduardo tal como está no livro. Coloco-o por ordem cronológica, num passado que abre a história.
Esse passado é a preto e branco. Porquê?
Não foi por uma questão de atitude estética mas sim narrativa. É um resumo do passado antes de se passar à cor e ao bloco central do livro sobre a paixão impossível de Carlos por Maria Eduarda. No final, que corresponde às últimas páginas do romance dez anos após a ação central, a cor, não sei se se deu conta, também quase desaparece, está deslavada. O Eça diz que Lisboa está igual dez anos depois, “mas um bocado mais porca.” Apesar de ter surgido a Praça dos Restauradores entretanto, e a modernização do Passeio Público, aquela já não é a Lisboa traçada pelo marquês de Pombal, é a Lisboa do carvão, do gás, das ruas cheias de pedintes. Já os políticos... Estão iguais.

O filme passa do preto e branco à cor no exato momento em que o narrador fala da transladação do corpo do pai de Carlos, Pedro da Maia, que se suicidara por amor...
Segui esta ideia simples: agora vamos romper com o passado e contar uma história. Uma história já de si fragmentada, que pode ser contada de mil maneiras diferentes. É possível fazer um filme inteiro só sobre a descrição da Casa do Ramalhete. Ou uma curta apenas sobre os reflexos da luz no cabelo de Maria Eduarda. No entanto, eu sei que este romance é absolutamente central na história da literatura portuguesa e que as pessoas têm a expectativa de sentirem a sua narrativa no filme. Não o esqueci.
Há um acrescento aos ‘seus’ Maias no título: “Cenas da Vida Romântica”. Porquê?
Havia um grande problema que se deparava à adaptação: o livro é já de si fragmentado, sincopado, e é difícil escolher um só ponto de vista. Ora, eu tinha que ter um ponto de vista no filme. Que acaba por incidir muito na metade do alter-ego do Eça na história: o João da Ega. Volto à questão anterior: este filme chama- se “Cenas da Vida Romântica” mas podia ter dado origem a outro chamado “Episódios da Comédia Portuguesa”. Há sempre uma distância reflexiva no livro, há a tensão dramática do tédio aristocrático, mas também o seu comentário impiedoso, que vem do João da Ega.
Como ele diz, “o desacato é...
“a condição do progresso”. Mais uma das frases lapidares do Eça, como esta: “para que é que serve o Governo? Para contrair empréstimos e cobrar impostos. . .“ Há de ser sempre assim neste modo de vida à portuguesa. Os personagens do Eça são arquétipos, isto é, são personagens coletivas.
Já adaptou Pessoa, Agustina, Diderot, Garrett. E também Dickens, há mais de vinte anos, em  “Tempos Difíceis”. Ao adaptar agora Eça, ficou surpreendido pelo tom e pelo ritmo que o filme ganhou? Tive a sensação no visionamento que, ora é o texto que convida a imagem, ora é a imagem que atraí o texto e o filme vive muito desta atração mútua.
Houve adaptações mais evidentes que outras. Por exemplo, em “Tempos Difíceis” tinha indicações de cinema que nunca mais acabavam. Estão no livro. Isto é obviamente anacrónico mas não sou eu que o digo, foi Eisenstein, na sua arrasadora frase: “O cinema não foi inventado por Griffith mas sim por Dickens.” Ou seja, 50 anos antes de haver cinema, um escritor pensou numa estrutura de cinema para o seu romance, com elipses indicadas, capítulos a terminarem em plano geral e o seguinte a começar em grane plano. Adaptar o Dickens foi por isso mais simples: limitei-me a tirar a carne e a deixar o osso. No Garrett houve cortes profundos, “Quem és Tu?” deixou de ser “Ninguém” e passou a ser Portugal. Filmei-o numa altura em que os espanhóis compraram meia Avenida da Liberdade. Já não eram os Filipes mas uma armada financeira de Zaras e bancos Santander. No caso de “Os Maias” a ameaça é a bancarrota. Adaptar o Eça é fácil, pela história fluida do livro mas complicada porque o filme deveria ter 20 horas se quisesse ser fiel. E eu tentei não ser traidor. Repito: o problema foi saber o que cortar. Ajudou-me saber que o próprio Eça, num comentário sobre o seu livro, escreveu que, se lhe pedissem para resumir “Os Maias”, ele publicava apenas o Sarau da Trindade e mais nada. Porque está lá Portugal inteiro. A sua demagogia provinciana, a sua subserviência inata, o nosso ‘obrigadinho’. Coisas que voltaram depois da euforia democrática que tivemos com a Revolução de Abril que estão agora cada vez mais presentes. Voltámos a cair cedo nesta nossa saga portuguesa: a pedinchice, a cunha, os padrinhos.
Demorou até conseguir concentrar no filme todos esses elementos? Muito. A adaptação levou-me muitos meses de trabalho. Entretanto, fui descobrindo outras coisas sobre o espírito moderno de Eça que eu não conhecia: que ele tinha uma admiração fabulosa por Courbet, por exemplo. Apreciar um pintor que deu dignidade a pobres e a camponeses não era o gosto normal de um aristocrata bon vivant como Eça. 

Ao ver o filme pensei muito naquela ideia de “Le Rouge et le Noir” em que Stendhal dizia que um romance é um espelho que transportamos ao longo do caminho, ou seja, o reflexo da realidade que ele capta. Disse que gosta de anacronismos e acho que há um espelho assim no filme: é no momento anterior ao encontro entre Carlos e Maria Eduarda em que vemos uma rapariga a ler... “A Capital”
Que é um livro póstumo de Eça, só publicado 25 anos após a sua morte.
A menina a ler “A Capital” no Hotel Central (que eu filmei no Grémio Literário) é outro artifício. É como dizer: “Olhem que isto é falso! O cinema é falso.” Não morre ninguém aqui, ninguém dorme com ninguém aqui... Isto é um artifício mas as emoções, o tédio, o riso são verdade, tão verdade como a cabeleira loura de 180 mil cabelos que usa a atriz Maria FIor (que é morena) no papel da Maria Eduarda. Sempre houve isto nos meus filmes: uma tendência para retirar o tapete dos pés do espectador em determinado momento. Porém, há outras liberdades que o filme toma ligadas à realidade histórica. “La Traviatta” foi levada à cena no São Carlos na época em que Eça escreveu o livro. E é a ópera perfeita para enquadrar a condição da Maria Eduarda no fim da história. A Brasileira também não existia quando o Eça escreveu “Os Maias”, só existia a Casa Havaneza. Mas eu adoro este tipo de anacronismos e A Brasileira aparece nos telões do filme, aproximando o Chiado do que ele é hoje.
Os telões são o esplendor do falso a toda a prova e a prolongação de um gesto estético que já estava no seu primeiro filme, “Conversa Acabada”. Em simultâneo esse esplendor encontra em “Os Maias” um eco na mistura de som: no Rossio ouve-se gente a dizer pregões da época. Gostava que me falasse destes dois aspetos.
Pus pessoas a gritar, como os vendedores gritavam nessa época. Fico contente por eles terem sido ouvidos! A reconstituição de época de um filme destes é impossível de ser feita em Portugal, nunca teríamos dinheiro que pagasse uma recriação do Rossio e do Chiado do fim do século XIX. Podem, contudo, fazer-se pequenos apontamentos e esse, sonoro, é um deles. Já os telões são a apoteose do artifício. Tenho telões de 11metros de altura por 40 de comprido. Foram impressos em gráficas de outdoors. Filmámos num hangar vazio em Azeitão que foi pensado para ser uma espécie de FIL do distrito de Setúbal. Este filme não tem exteriores. E os exteriores simulados que vemos das janelas são telões feitos a partir de óleos pintados por João Queiroz. Ele teve o cuidado de pintar aqueles óleos maravilhosos com uma tal qualidade que não se notam as ampliações. Alguns quadros foram ampliados oito vezes, outros vinte. O João Queiroz, que é para mim o maior pintor português vivo, costuma pintar paisagens. Fiquei surpreendido quando ele aceitou pintar casas e ruas inteiras para este filme. Também fizemos uma pesquisa detalhada dos interiores: o consultório do Carlos no Rossio, por exemplo, foi filmado em Ponte de Lima, numa casa que ainda está decorada como no século XIX. Mas a roupa — e aqui vem outra modificação — não é a roupa do século XIX, que era horrível. Os vestidos das senhoras tinham golas altas, eu tenho decotes. Os fatos dos homens eram insuportavelmente ridículos. Os anacronismos estão em toda a parte, também aqui. Aliás, a Sílvia Grabowski, que fez o guarda-roupa, trabalhou muito com o João Queiroz. Tive a sorte de ter neste filme um grupo de pessoas que souberam criar em conjunto.
Nos seus últimos filmes tem trabalhado com um grupo de atores mais ou menos constante. Mas há neste filme um reencontro, com João Perry, que faz um extraordinário Afonso e com quem não filmava desde “Um Adeus Português”. E duas caras novas: Maria Flor a fazer de Maria Eduarda e Pedro Inês, que é um João da Ega assombroso. Os primeiros ‘contagiaram’ os últimos?
Eu diria que tenho uma família de atores aberta a novos elementos.
O Eça ajudou-me a uni-los. É o Eça que os contagia. A Maria Flor é brasileira, chegou ao filme pela nossa coprodução com o Brasil, mas é curioso: o Eça sugere no livro que a Maria Eduarda pode falar com sotaque brasileiro pela vida comum com Castro Gomes. Ela fez um trabalho incrível. Inventou um sotaque entre o francês, o português e o português do Brasil. O Hugo Amaro e o Pedro Lacerda fazem um Dâmaso Salcede e um Tomás Alencar extraordinários. O Pedro Inês é um caso engraçado, é um performer que vive há 12 anos na Holanda. Voltou para Portugal, onde tem um grupo rock e agora dedica-se ao teatro. Eu raramente fiz castings nos meus filmes, mas fiz neste. Entrevistei atores maravilhosos, mas de repente aparece-me este doido que sabia o texto todo e era o Ega! Foi uma dádiva. Ele estudara o Eça de trás para a frente. E tem a aura dos grandes cómicos, qualquer coisa de Oliver Hardy. A interpretação do Graciano Dias começa no tédio e acaba no drama, até o Carlos perder a compostura e ficar um farrapo, ao passo que o Pedro Inês dá-nos um João da Ega que entra logo a matar, que perturba tudo à sua volta cada vez que entra e sai dos planos. Um e outro fizeram um trabalho notável.
Disse acima que João da Ega é a metade do alter-ego do Eça. Porquê?
Porque o Eça é o Carlos da Maia e é o João da Ega, nem mais. O seu alter-ego está dividido em dois tal como foi dupla a sua vida privada em tantos episódios. Isto é muito raro nos romances daquela época. Eça atirou o romantismo dez anos para a frente rebentou-o. Para passar para o Courbet, provavelmente. Nos romances da época, o incestuoso dava um tiro na cabeça e a rapariga ia para o convento, ponto final. Aqui não, os amigos vão passear o tédio numa viagem pelo mundo, a Maria Eduarda casa-se com um qualquer, tem filhos e continua a sua vida. O único que morre é o velho Afono, com o João Perry a oferecer- me uma interpretação excecional.
E o Alencar e sem querer opor Eça a Camilo é o passado romântico, o negrume de Camilo?
É, mas o Eça recupera-o. Há aquela parte final em que ele recita “A Democracia” e os amigos abraçam-no. Mas no jantar do Hotel Central, que é uma das sequências que mais prazer me deu filmar na vida, Alencar é arrasado. O comportamento altera-se com a entrada dos pratos, do Poulet aux champignons ao Petit pois à la Cohen, até chegar à javardice absoluta. Se aquele jantar começa por falar de um fado em que fadistas e faias têm comportamentos selvagens, como na história da Severa que o filme apanha perto do fim, pior se comportam os nossos amigos civilizados no fim do jantar. O Eça falava disso, que “Os Maias” são a história de um fado português. Uma história sem fim que depois o Eça conclui com aquela ideia de ‘arraso’: os portugueses não correm nem pelo poder, nem pelo amor, nem pela glória. Mas já para um jantarinho... correm que nem doidos. 

Ah, e o episódio do tipo que se esquece do chapéu, que espantosa cena de gag deu ela ao fi!me...
Isso é brilhante, é Eça puro: um tipo à procura do chapéu que insiste em perturbar o momento mais dramático da história. É sublime.
Lembro-me de falar consigo sobre o poder da farsa quando fez “O Fatalista” a partir de Diderot. A farsa também e aplicável a “Os Maias”?
Há um comentário de irrisão que é aplicável e que se descobre nas várias camadas do livro. O Eça é feito de pessoas complexas cheias de contradições. Temos o direito e sempre o avesso, perpetuamente. Também tenho aprendido isso, com o envelhecimento: tenho cada vez menos certezas. E este livro abriu-me outra porta, isto é: permitiu-me corromper o ‘estilo Botelho’. Corromper coisas que o Manoel de Oliveira me ensinou: que só há um ponto de vista para cada plano, por exemplo. Há outra corrupção aqui, que é a do Eça sobre mim, como se ele me dissesse agora: ‘Calma rapaz, não tenhas tantas certezas sobre as coisas, deixa entrar o vento entre o campo e o contracampo.’ Isto é novo nos meus filmes e na maneira como dirijo os atores. Perdi o medo que tinha deles. E depois acontecem-me coisas que não sei explicar, como aquele plano que me deu a Maria João Pinho, quando a Condessa de Gouvarinho chega às lágrimas dentro na carruagem, no momento certo.
Há algumas cenas de cama no filme. Lembro-me da decisão de mise en scène em que o Conde de Gouvarinho põe a mão na testa ao mesmo tempo que o Carlos apalpa a Condessa noutra divisão da casa. E há a noite fatal, aquela em que Carlos dorme com a Maria Eduarda já sabendo que ela é sua irmã mas esta cena é filmada de forma radicalmente diferente, aqui não pode haver irrisão.
Não pode e esse é o momento em que eu violo o Eça. No livro, só há uma referência, violenta, entre o encontro sexual dos dois irmãos. Há um só encontro. Depois vem a angústia. Eu mantenho esse encontro em suspenso. No filme, podem ter sido vários. Quis que o desejo continuasse para Iá do tabu. A cena é filmada de forma diferente, sim: com cinefolio a tapar os projetores, mas com pequenos buracos para que a luz apenas ilumine pedaços, partes dos corpos. Aquela é uma cena de política e de vísceras, não pode ser voyeurista, não pode excitar ninguém, é uma cena de carne, de rasgões, de violação — porque Carlos da Maia já sabe o que nós sabemos também. Nessa sequência carnal, física, animalesca, suicida-se uma classe. E mata-se um avô. Um avô do Iluminismo e do Progressismo que outrora fora um revolucionário e que acaba os seus dias com o “Cândido” de Voltaire na mão, regressando à infância. Esta é a ideia do fim de Portugal, figurada no velho Afonso da Maia, que morre preso à raiz e à terra, na Quinta de Santa Olávia. Com ele não morre só um avô, só uma pessoa. Morre Portugal.
Francisco Ferreira, Expresso, 6 Setembro 2014