MAMÃ, Xavier Dolan | 19 Maio | IPDJ | 21h30



MAMÃ
Xavier Dolan, Canadá, 2014, 134’, M/14

FICHA TÉCNICA
Título Original: Mommy
Realização, Argumento e Montagem: Xavier Dolan
Fotografia: André Turpin
Música: Noia
Interpretação: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément
Origem: Canadá
Ano: 2014
Duração: 134’

Festivais e Prémios
Festival de Cannes - Prémio do Júri




NOTA DO REALIZADOR
Desde o meu primeiro filme, falei muito de amor. Falei da adolescência, sequestro e transsexualidade. Falei de Jackson Pollock e dos anos 90, de alienação e homofobia. Os colégios internos, a palavra altamente franco-canadiana “especial”, vacas leiteiras, a cristalização de Stendhal e o Síndrome de Estocolmo. Já falei com muito calão e também com muitos palavrões. Já falei em Inglês, e de vez em quando, também disse muitos disparates, demasiadas vezes.
Porque essa é a questão quando “falamos” de coisas, creio eu, é que há quase sempre o risco inevitável de dizer disparates. E por isso decidi falar só daquilo que sei, ou que era – mais ou menos – próximo de mim. Temas que eu julgava conhecer bastante bem ou pelo menos suficientemente, pois eu conhecia a minha própria diferença e o subúrbio onde fui criado. Ou porque sabia como era vasto o meu medo dos outros, e ainda é. Porque sabia as mentiras que contamos a nós mesmos, quando vivemos em segredo, ou o amor inútil que continuamos teimosamente a dar aos ladrões do tempo. Conheço suficientemente estas coisas para querer até falar delas.
Mas se há tema, um apenas, sobre o qual sei mais do que qualquer outro, um tema que incondicionalmente me inspira, e que au adoro acima de tudo, seria certamente a minha mãe. E quando digo a minha mãe, creio que me refiro à MÃE em geral, à figura que ela representa. Porque é a ela que eu volto sempre. É ela que eu quero ver vencer a batalha, é para ela que quero inventar problemas, para que ela tenha o mérito de os resolver a todos, é através dela que me coloco questões, é ela que quero ouvir gritar bem alto quando não dissemos nada. É ela que quero que esteja certa quando nós estávamos errados, é ela, haja o que houver, que terá a última palavra.
Na época de J’AI TUÉ MA MÈRE, sentia que queria castigar a minha mãe. Apenas cinco anos se passaram desde então e acredito que, através de MAMÃ, agora procuro a vingança dela. Não perguntem.
Xavier Dolan, maio 2014

CRÍTICA
Chegou às salas Mommy, o filme que valeu a Xavier Dolan o Prémio do Júri de Cannes: um título para (re)descobrirmos um jovem e singular criador.
Perante o impacto da obra de Xavier Dolan, cineasta canadiano nascido em Montreal a 20 de Março de 1989, apetece reescrever um velho adágio sobre os méritos profissionais da antiguidade, proclamando agora: a juventude não é um posto... O mínimo que se pode dizer de Dolan é que ninguém ficará indiferente ao facto de, apenas com 25 anos, ele ter realizado um filme como Mamã, colocando em cena de forma tão dramática, e também tão irónica, os eternos conflitos de gerações.
O filme valeu mesmo a Dolan um dos prémios mais saborosos de uma carreira curta, mas já pontuada por diversas distinções. Assim, no passado mês de Maio, no Festival de Cannes, Mamã recebeu o Prémio do Júri, ex-aequo com o mais recente trabalho de Jean-Luc Godard, Adeus à Linguagem. Presidido pela cineasta neozelandesa Jane Campion, o júri aproximava, assim, num mesmo gesto de reconhecimento e consagração, o mais jovem e o mais veterano dos autores presentes no certame (Godard completou 84 anos no dia 3 de Dezembro).
Aliás, importa esclarecer que não se estava perante a revelação de um novo cineasta. Nada disso: Dolan assinou a sua primeira longa-metragem, Como Matei a Minha Mãe, em 2009, portanto com 20 anos. Depois disso, já realizou mais três títulos: Amores Imaginários  (2010), Laurence para Sempre  (2012) e Tom na Quinta  (2013), em todas assumindo também as responsabilidades de escrita de argumento, em três deles interpretando também uma das personagens principais (a excepção é Laurence para Sempre, protagonizado por Melvil Poupaud).
No caso de Mamã, o nome de Dolan também não aparece na ficha dos actores. É Antoine Olivier Pilon, de 17 anos (tinha 16 durante a rodagem), que surge na linha da frente, assumindo a personagem quase burlesca, mas marcada por muitas componentes dramáticas, de Steve Després, um rapaz com evidentes problemas de integração familiar e social, não poucas vezes derivando para comportamentos violentos. No núcleo do filme está, precisamente, a relação com a mãe, Diane Després (Anne Dorval), viúva, com crescentes dificuldades para lidar com o filho, ao mesmo tempo que tenta manter o equilíbrio financeiro do lar.
Estão reunidas, assim, as componentes necessárias (e mais que suficientes...) para um psicodrama com tanto de intimista como de perturbante. E talvez se possa dizer que, até certo ponto, o filme é isso mesmo, encenando as atribulações de uma paisagem afectiva marcada por muitos momentos de convulsão e, aqui e ali, breves fogachos de apaziguamento e intensa ternura. De qualquer modo, e de acordo com uma lógica muito enraizada nas narrativas de Dolan, tudo pode mudar com a emergência de uma personagem inesperada. Neste caso, é Kyla (Suzanne Clément), a vizinha de Diane e Steve, que surge como um insólito e paradoxal “anjo da guarda”, de alguma maneira levando mãe e filho a reavaliar os seus modos de relação. 

Dolan faz retratos do mundo dos afectos em que, no limite, todos são conduzidos a essa reavaliação do seu lugar familiar e simbólico, social ou sexual. No filme anterior, Tom na Quinta, interpretava o Tom do título que, ao comparecer no funeral de um outro jovem, compreendia que toda a família ignorava a sua relação amorosa com o defunto. Agora, em Mamã, Dolan “força” ainda mais os limites tradicionais do melodrama através de uma história marcada por componentes psicológicas muito particulares, mas que nos confronta com uma interrogação muito mais abrangente, por certo ligada ao “progresso” dos nossos usos e costumes. A saber: que é feito dos valores do espaço familiar tradicional? Ou ainda: nas nossas sociedades de aceleração de contactos e relações, como comunicam (ou não) as pessoas de diferentes gerações?
E se o melodrama pressupõe uma aliança entre drama e música, então importa acrescentar que Dolan é também um criador que revaloriza as componentes musicais da narrativa cinematográfica, em particular o uso de canções muito populares. Em Os Amantes Imaginários recuperava, por exemplo, o lendário Bang Bang, interpretado por Dalida. Agora, na banda sonora de Mamã, escutamos, entre outros, Dido (White Flag), Oasis (Wonderwall) e Lana Del Rey (Born to Die).
Quando nos sentimos tocados por um filme, gostamos de partilhar com os outros aquilo que, precisamente, nele mobilizou as nossas emoções e pensamentos. Mas, por vezes, ficamos também limitados por um sentimento de prudência, porventura de pudor. Até onde “revelar” aquilo que, afinal, os outros têm o direito de descobrir no primeiro grau, sem qualquer informação prévia? Digamos que é um pouco como quando revemos A Leste do Paraíso (1955), de Elia Kazan, e deparamos com o genial aproveitamento da largura do CinemaScope, apetecendo sublinhar: reparem como Kazan filma James Dean, tirando o máximo partido de um formato que, na altura, era uma novidade.
Assim, gostaria de falar ao leitor do modo como Xavier Dolan concebe, não apenas as imagens do seu filme Mamã mas também, precisamente, o modo como trata o respectivo formato... Ao mesmo tempo, sinto que se for demasiado explícito, estarei a roubar-lhe a possibilidade de ver/sentir a proposta de Dolan, não em função da tal informação prévia, mas apenas através do filme.
Direi, então, que não se trata de uma questão banalmente formal, muito menos formalista. Nada disso: no cinema de Dolan — e, em particular, neste belíssimo Mamã — todos os elementos figurativos, cénicos ou simbólicos são importantes para a relação que ele estabelece com as personagens e, por extensão, com o labor específico dos actores. Neste inusitado triângulo amistoso — a mãe, o filho e a vizinha —, tudo acontece à flor da pele, revalorizando um realismo dos corpos que, convenhamos, não é a lei dominante no cinema mais poderoso (povoado de “super-heróis” com corpos mais ou menos mecanizados) nem na televisão mais corrente (esgotada em formatos de patético determinismo psicológico). Dolan é um paciente e subtil agrimensor dos afectos.
João Lopeshttp://sound--vision.blogspot.pt

O PEQUENO QUINQUIN | 12 Maio | IPDJ | 21h30

O PEQUENO QUINQUIN
Bruno Dumont, França, 2014, 197’, M/12

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Quinzena dos Realizadores – Festival de Cannes
Lisbon & Estoril Film Festival – Competição
Mostra de São Paulo – Prémio da Crítica – Menção Especial
Toronto International Film Festival – Selecção Oficial

FICHA TÉCNICA
Título Original: P'tit Quinquin
Realização e Argumento: Bruno Dumont
Fotografia - Guillaume Deffontaines
Interpretação: Alane Delhaye, Lucy Caron, Bernard Pruvost, Philippe Jore, Philippe Peuvion, Lisa Hartmann, Julien Bodard, Corentin Carpentier
Origem: França
Ano: 2014
Duração: 197’




CRÍTICAS
Se David Lynch tivesse situado o seu “Twin Peaks” na província francesa, o resultado teria sido, provavelmente, algo como “O Pequeno Quinquin”, de Bruno Dumont. Facto: à primeira vista, pouco religa entre si o surrealismo de Lynch e o naturalismo de Dumont (sempre preocupado com a relação entre a natureza e a violência, a loucura e a graça).
Porém, numa ótica temática, os dois cineastas partilham uma obsessão comum pela questão do mal, explorando (cada um a seu modo) o conjunto de forças subterrâneas que corrompem os espaços e os corpos. Pois bem: é justamente o desejo de auscultar o coração do mal que rege a ação de “O Pequeno Quinquin”. O que temos aqui? Uma minissérie de televisão em quatro episódios (cada um com cerca de 50 minutos), que se instala numa aldeia costeira do norte de França, para seguir os passos da personagem do título: uma criança na casa dos 12 que, nas férias de verão, passa os dias a brincar na rua com os amigos. É pelos seus olhos (incrustados num rosto bruto) que assistimos à descoberta do cadáver da primeira vítima de uma série de homicídios que, apesar do seu carácter macabro (corpos retalhados, devorados por animais...), parecem deixar indiferentes os habitantes da aldeia. Os crimes, esses, serão investigados por um duo de polícias ineptos (um velho capitão desgrenhado e um tenente com dentes podres) que, a julgar pela forma como repetem as verdades de La Palice ditas pelo outro, são uma espécie de versão extravagante do Dupond e Dupont de Hergé.
 O que se segue é um procedural que nunca sai do mesmo sítio, mas que possibilita a composição — em paralelo — do retrato de uma comunidade rural que se alheia do horror que a envolve. Ora, neste quadro, a primeira coisa notável é o modo como Dumont constrói um mundo às avessas, apoiando-se, para isso, numa galeria de figuras (interpretadas por um brilhante leque de não-atores) cujas palavras nada dizem e cujos gestos estão sempre fora de tom. Prova da natureza disfuncional deste mundo é a genial sequência do funeral, onde a gravitas da situação será dinamitada — a golpes de humor negro — por uma sucessão de episódios caricatos (o organista virtuoso que não para de tocar, a adolescente que canta em atrozes falsetes...). 
Mas, sobre esta tela burlesca, Dumont formulará uma questão da maior importância, a saber: quando nasce o mal? Ou melhor: a partir de que ponto a violência corriqueira das personagens (a perseguição aos rapazes forasteiros levada a cabo por Quinquin e os amigos) pode ser vista como o prelúdio do mal radical que vem contaminar a aldeia? De facto, o que — ontem como hoje — Dumont quer dar a pensar é a naturalidade de uma violência latente que ameaça explodir a todo o instante e que desfigura os corpos que ousam resistir-lhe (vejam-se os espasmos que atravessam o rosto do polícia). É por isso que a paisagem (os descampados que ladeiam a aldeia) está sempre presente em fundo, servindo como polo de um jogo de espelhos entre a brutalidade da natureza objetiva e a brutalidade da natureza subjetiva — dominada por pulsões que arriscam mergulhar as personagens na loucura, tornando-as apenas numa parte integrante do décor (como acontece com o tio demente do protagonista). Digamos pois que, de pequeno, este filme tem somente o adjetivo do seu título.

Vasco Baptista Marques, Expresso, 14/2/15



Do realismo ao delírio burlesco
Eis um belíssimo exemplo de colaboração cinema/televisão: concebido como mini-série televisiva, "O Pequeno Quinquin" é também uma longa-metragem de cinema — a tradição do realismo francês é retomada e reconvertida num delicioso registo de comédia.
A história de Quinquin (Alane Delhaye) e da sua namorada Ève (Lucy Caron) tem qualquer coisa de visceralmente romântico: ele está loucamente apaixonado por ela e, durante as férias, dão grandes passeios de bicicleta... Em todo o caso, o filme "O Pequeno Quinquin" é menos uma celebração romântica e mais um mergulho nas vidas esquecidas de uma pequena povoação da zona de Pas-de-Calais, no norte de França. Drama, então? Não, antes uma insólita e saborosa comédia!
É verdade: o realizador Bruno Dumont — que conhecemos através de títulos como "A Humanidade" (1999), "Hadewijch" (2009) ou "Camille Claudel 1915" (2013) — mantém-se fiel ao assombrado realismo do seu universo para construir uma narrativa que vai deslizando para uma ambiência de absurdo, pontuado por delirantes marcas burlescas.
À partida, existe um pretexto mais ou menos policial: a descoberta de um crime macabro nos campos em que Quinquin gosta de se refugiar. Em todo o caso, a investigação que se desenvolve, conduzida pela surreal personagem do comandante Van der Weyden (Bernard Pruvost), não vive tanto desse mistério, como dos enigmas ambulantes que são as personagens desta farsa afinal encenada à flor da pele — e os espantosos actores locais, completamente amadores, não serão alheios à singularidade dos resultados.
Produzido pelo canal franco-alemão Arte, "O Pequeno Quinquin" constitui um exemplo modelar de uma inventiva articulação cinema/televisão (que, neste caso, gerou um objecto que é, de uma só vez, uma mini-série e uma longa-metragem para as salas escuras). Acima de tudo, Dumont demonstra que é possível trabalhar através de convenções mais ou menos correntes, gerando uma obra que transcende lugares-comuns éticos e estéticos.
João Lopes, www.rtp.pt/cinemax
EXTENSÃO DO 12º INDIELISBOA 2015

TEATRO MUNICIPAL DE FARO

Dia 6 de Maio 
19:00
A Toca do Lobo, Catarina Mourão (Portugal) - Prémio do Público para Longa Metragem Fox Movies

21:30
Ming of Harlem: Twenty One Storeys in The Air, Phillip Warnell (Reino Unido, Bélgica, EUA) - Prémio SIC Universidades

Dia 7 de Maio
19:00 
Rabo de Peixe – (Director’s Cut), Joaquim Pinto, Nuno Leonel (Portugal) - Prémio TAP para Documentário Português de Longa Metragem

21:30
Ela Volta na Quinta, André Novais Oliveira (Brasil)


O Grande Kilapy, de Zézé Gamboa | 21 Abril | 21h30 | IPDJ


O GRANDE KILAPY
Zézé Gamboa
Angola/Portugal/Brasil, 2012, 100’, M/12



FICHA TÉCNICA
Realização: Zézé Gamboa
Fotografia: Mário Masini
Diretor de Arte: João Torres
Montagem: Pascal Latil
Interpretação: Lázaro Ramos, João Lagarto, Pedro Hossi, Hermila Guedes, Buda Lira, Patrícia Bull, Pedro Carraca
Origem: Angola/Portugal/Brasil
Ano: 2012
Duração: 100’




PRÉMIOS
- Festival Caminhos do Cinema Português – Melhor Guarda-Roupa — Teresa Campos
- 12 Nomeações para Prémios Sophia 2015: 
Melhor Som (Hugo Leitão e Branko Neskov),
Melhor Maquilhagem e Melhor Caracterização (Sano de Perpessac),
Melhor Guarda-Roupa (Teresa Campos),
Melhor Direcção Artística (João Torres),
Melhor Argumento Original (Luís Alvarães e Luís Carlos Patraquim),
Melhor Actriz Secundária (São José Correia e Silvia Rizzo),
Melhor Actor Secundário (Manuel Wiborg),
Melhor Realizador (Zézé Gamboa),
 Melhor Actor Principal (João Lagarto),
Melhor Filme

CRÍTICA
O filme é despoletado por uma memória de infância, de Zézé Gamboa, vivida pelas ruas de Luanda. Aos dez anos o realizador conheceu uma figura que não só lhe despertou o interesse como o fascinou pelo seu modo de vida. Tratava-se de uma Luanda colonial, culturalmente mestiça e forte. 
"Eu era muito garoto quando me apercebi de uma personagem que andava sempre em grandes automóveis e acompanhado por lindas mulheres. Isso na altura causou-me algum espanto e tornava-se impressionante porque na cidade de Luanda ele era dos poucos jovens africanos que conduzia carros último modelo e fazia uma vida de playboy", contou o realizador. 
Mais tarde, Bruxelas, anos 80 Zézé Gamboa encontra Joãozinho numa discoteca e propõe-lhe fazer um filme em que contasse a sua história. E assim nasce "O Grande Kilapy". Alguns consideram-no um filme baseado no cinema afro-americano dos anos 70. Talvez o seja pela estética, ironia e aventura que lhe são inerentes, mas por outro lado a blaxploitation, não comporta a componente política existente em "Kilapy": a presença portuguesa em Angola e a forma como a sociedade colonial estava organizada.
O filme entrou pela porta da frente em festivais por todo o mundo. Começou pelo TIFF Toronto International Film Festival, dirigiu-se depois para o BFI London Film Festival e em seguida marcou presença nos Emirados Árabes Unidos no DIFF Dubai International Film Festival e no GIFF – Goteborg International Film Festival. Posteriormente viaja para Ouagadougou, para o mais importante festival de cinema africano a nível mundial, o FESPACO - Festival Panafricano de Cinema e em seguida é escolhido como Filme de Abertura e em Competição no CinemAfrica em Estocolmo.Filme ambicioso que pretende recriar uma década de relações entre Portugal e Angola no período colonial. Para isto utiliza-se da quase anedótica história do "don juan" angolano João Fraga (Lázaro Ramos), filho de uma família abastada que o envia para concluir os seus estudos em Lisboa. Bem pouco interessado em livros, no entanto, ele dedica-se àquilo que faz melhor: colecionar mulheres. Só que 1965 os tempos não eram fáceis na capital portuguesa, com agentes da Pide a infiltrarem-se por todos os lados – o que termina por ter consequências. Na segunda parte do filme, "Joaozinho" está de volta à sua terra natal, novamente num contexto político desfavorável – uma vez que se está às vésperas da guerra colonial. Ao seu desporto favorito, no entanto, ele aqui acrescenta outro – a burla financeira.
Essa história aparentemente leve e bastante divertida em alguns momentos serve para o realizador angolano Zezé Gamboa fazer um comentário nada inocente a propósito das complexas relações entre metrópole e colónia naqueles tempos – com o colonialismo e o racismo no centro do conflito. As conquistas amorosas do seu protagonista são intercaladas com várias situações de abuso de autoridade – fazendo um cruzamento interessante entre uma trajetória individual insólita e um panorama histórico e político.
[...] O Grande Kilapy tem Lázaro Ramos em grande forma – carregando o filme nas costas e assegurando que ele chegue a bom porto – com uma abordagem histórica relevante sobre questões nada fáceis de abordar.
O Melhor: o cruzamento entre trajetória individual e panorama político e histórico
Roni Nunes, c7nema.net/


ENTREVISTA AO REALIZADOR 
Pelas ruas de Luanda, quando criança, Zézé Gamboa conheceu uma figura que não só lhe despertou o interesse como o fascinou pelo seu modus vivendi. De seu nome Joãozinho das Garotas. Uma espécie de Don Juan angolano que vivia não só rodeado de belas mulheres como exibia grandes carros pelas ruas da cidade. A esta personagem junta-se toda uma história política de uma Angola colonial que não só caracteriza o filme como lhe atribui um acutilante carácter histórico… 

Conta-me como surgiu a ideia para fazer este filme. A génese da história baseia-se numa personagem que conheceste em Angola, o Joãozinho das Garotas. Eras pequeno na altura e ficaste fascinado…

Eu tinha 10 anos, e vivia numa Luanda colonial, culturalmente mestiça e forte. As pessoas viviam muito na rua, não só por causa do clima como fazia parte do contexto da vida nos trópicos. Eu era muito garoto quando me apercebi de uma personagem que andava sempre em grandes automóveis acompanhado de lindas mulheres. Isso na altura causava-me algum espanto e tornava-se impressionante porque na cidade de Luanda ele era dos poucos jovens negros que conduzia carros último modelo e fazia uma vida de playboy. Mais tarde, nos anos 80 eu venho de Bruxelas passar férias em Lisboa e encontro o Joãozinho numa discoteca. Conversa, puxa conversa, propus-lhe fazer um filme em que contasse a sua história. Primeiro fingiu que não queria e disse que a sua vida nunca poderia dar um filme e depois achou que era possível. Cheguei inclusive a dizer-lhe que poderia colocar uma frase no fim do filme a dizer: “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”, ao que ele respondeu: “não, não, não, eu quero que as pessoas saibam que sou eu”. Na altura ele dividia a sua vida entre Lisboa e Londres e combinámos que eu lhe faria uma entrevista para que me contasse toda a sua história, e assim foi. Estive a conversar com ele entre as 16h e as 04h da manhã, numa conversa que elaborou o argumento que mais tarde viria a ser o filme. 
Para conseguir viver da forma como o fazia, Joãozinho roubou muito dinheiro ao Estado… 
Sim, mas ele nem tinha a noção do valor do golpe. Foi muito dinheiro que ele ia tirando ao Estado semanalmente. Eu creio que ele deveria ter um cúmplice, mas sempre negou essa hipótese. 
Tinhas várias memórias de infância quando o entrevistaste? 
Tinha algumas memórias, e há o olhar que eu tinha na altura e um olhar 40 anos depois. Entretanto cresço, ganho consciência política e o que me deu vontade de realizar o filme foi o facto de ele ter ousado desafiar uma Angola colonial. Fazia vida de rico sem o ser, e a PIDE e a Polícia Judiciária perseguiam-no pensando que ele mantinha um negócio de diamantes, facto que ele nunca assumiu, nem negou. Fazia uma vida de rico, tinha apartamentos e vivia confortavelmente. Como na altura não havia assim tanto dinheiro que permitisse este tipo de vida, as pessoas estranhavam. A distribuição da riqueza era feita de outra forma e havia sempre a ditadura. As fortunas pertenciam aos homens do café, algodão e cacau, os roceiros, mas nada tinha a mesma dimensão que se vê hoje em dia, numa Angola pós-independência. Actualmente são muito mais ricos que os ricos da Angola colonial. O Joãozinho, sendo negro, saía fora do esquema habitual. 
Certamente o Joãozinho gostaria de ter visto o filme. Se ele fosse vivo o que gostarias de lhe dizer? 
Se ele fosse vivo gostaria de terminar o filme a dar uma volta de carro com ele por Londres, com a sua imagem a rodar na parte dos créditos e música. Hoje dir-lhe-ia que não sendo ele um homem ligado à política, ele acabou por ser um contestatário sem ter feito nada por isso na realidade. As coisas passavam por ele e simplesmente aproveitava. 
Porquê o nome “O Grande Kilapy”? 
O filme era para se chamar “O Filho do Império”. Há 15 ou 20 anos atrás quando reencontrei o Joãozinho, comecei a trabalhar com uma pessoa para o argumento, que na altura não conseguiu entrar no ambiente de uma Angola colonial e acabou por não trabalhar comigo, mas registou o nome “O Filho do Império” no IGAC. Quando enviámos para lá o argumento, o nome já estava registado. Foi assim que decidi optar pelo título Kilapy, que em kimbundu (uma das línguas bantus mais faladas em Angola) significa golpe. 
Como definirias o filme a nível de imagem? Não é um filme ligado à estética africana e ligo-o um pouco à imagem afro-americana, da blaxploitation, de filmes como “Shaft”. 
Eu próprio tenho dificuldades em classificar o filme. É um filme urbano dos anos 60 aos 70. A blaxploitation, não tem esse lado tão político como existe neste filme e é esse lado que está relacionado com a presença portuguesa em Angola, na forma como a sociedade estava organizada. Ao passo que filmes como “Shaft” relacionam-se mais com a aventura. Este filme acaba por ter os dois lados, tornando-se num híbrido. 
Como é que trabalhaste com os actores para criar uma atmosfera tão específica? 

A minha ideia com os actores é sempre dar-lhes a noção de liberdade total, ou seja, ao mesmo tempo que explico o que pretendo, dou-lhes a possibilidade de comporem a personagem. Há uma cumplicidade que crio com eles no sentido de me poderem dar tudo na direcção da história do filme, o que resulta bem. Há também um bom trabalho de casting porque se os actores forem mal escolhidos é seguro que a história não vai resultar. 
E como foi trabalhar com o Lázaro Ramos? Ele é brasileiro, vem de uma realidade totalmente diferente e portanto está longe de saber o que é o colonialismo. Como conseguiste dar-lhe os ingredientes para que Lázaro conseguisse desempenhar tão bem a personagem do Joãozinho? 
No início dei-lhe uma grande explicação do que era Angola na altura, através de dados históricos, e a explicação do porquê dos portugueses estarem em Angola. Toda essa informação ajudou muito a compor a personagem. Cheguei a pensar em mostrar-lhe a entrevista que fiz ao Joãozinho, mas depois mudei de ideias porque não queria influenciá-lo e não queria que imitasse o João de forma alguma. O Lázaro é um excelente actor e ficou acima das minhas expectativas. 
Consideras que o facto de o actor principal ser negro pode tornar mais complicada a venda do filme? 
Não sei, mas como é uma história mista que se passa entre Angola e Portugal, com muitos actores brancos e alguns negros, não sei como é que os vendedores vão receber o filme. Tudo vai depender das suas capacidades para o vender às televisões. A verdade é que nos anos 60, nos Estados Unidos, as receitas do cinema estavam a diminuir e descobriram que ao colocarem actores negros, como Sidney Poitier, começaram a vender mais. Por isso não sei se o mesmo poderá acontecer com o cinema africano. 
Utilizas a voz-off no filme, esta é normalmente desvalorizada, mas tem uma grande importância no contexto do “Kilapy”. Achas que poderá haver uma desvalorização em que as pessoas entendam a voz-off como uma explicação do filme? 
Nesta história é uma mais-valia, por duas razões. Primeiro porque remete o filme ao cinema africano pela questão dialéctica da tradição oral, em que as pessoas contam histórias. Este contador é branco e ele próprio escreveu um artigo nos anos 80 sobre o João Faria intitulado “O Homem Mais Rico do Mundo”, e tivemos no filme algumas frases retiradas deste artigo. Tem esse lado africano e um lado histórico que faz com que as pessoas entendam melhor a história entre Angola e de Portugal. 
Inspiraste-te noutros realizadores que retratam o colonialismo? 
Neste caso, de todo, porque eu não conheço histórias coloniais que tenham personagens assim. Quando se fala da colonização aborda-se sempre o lado mais antropológico e este filme trata de relações humanas e do abordar de um quotidiano normal. 
Consideras que existe no filme alguma ironia e perversidade em relação à visão colonial? 
Sim, tem muita ironia, umas vezes subtil, outras vezes mais densa. E o lado perverso é o mais natural porque tem a ver com a forma particular como os portugueses estiveram em Angola. É quase incompreensível, como é que num quadro de colonização pudessem haver brancos pobres, a morar nos bairros de lata e negros e mestiços a morarem na cidade, numa sociedade completamente estruturada. De um ponto de vista que não existia nas outras Áfricas, normalmente eram os colonos os ricos e os colonizados os pobres. 
Se este filme tivesse saído na altura de Salazar teria sido censurado? 
Certamente. Acho mesmo que não haveria filme. 
Em que medida é que “O Grande Kilapy” reflecte a contemporaneidade angolana? 

Do ponto de vista, da forma de vida actual angolana, há mudanças estruturais porque o poder político mudou, mas do ponto de vista humorístico, de estar e viver é muito semelhante. Isto porque o Joãozinho é o típico homem de Luanda. Houve um período difícil em que existia um partido único e as pessoas estavam mais condicionadas à liberdade de expressão, mas que por outro lado não tirou o modo de estar e viver. E isto está muito presente no filme, e é um lado muito forte. 
Por outro lado trata-se de um olhar muito próprio sobre os anos 70 portugueses. É uma mais-valia do filme porque acaba por torná-lo histórico… 
Sim, o que me parece é que as pessoas querem esquecer os anos difíceis da ditadura ou simplesmente não se interessam. Quis trabalhar este lado da memória, a situação das pessoas que vinham de África e que estavam na Casa de Estudantes do Império, e a forma como se relacionavam com a Lisboa da época. 
Existe um sentido de humor especial que se alterna com alguns momentos dramáticos. Crias um subtexto no filme, narrativo, mas em que está implícito o contexto político. 
O contexto político faz parte porque era muito difícil passar ao lado do mesmo. Naquela altura houve a fuga de muitos alunos da Casa de Estudantes do Império. Angolanos, moçambicanos e guineenses que foram para fora e mais tarde tornaram-se nos grandes dirigentes dos movimentos de libertação. Nunca poderia passar ao lado desta situação e a força histórica e política está aí. Foi uma traição para o próprio Salazar, que constrói esta Casa para melhor poder controlar os estudantes que vinham de África e de repente é lá que se forjam as cabeças dos melhores revolucionários que lutam contra o seu sistema. Vira-se o feitiço contra o feiticeiro. Isso no filme não é muito explícito, mas é suficientemente claro para as pessoas o entendam. 
Achas que a sociedade actual superou a realidade do colonialismo, ou este continua enraizado nas mentalidades? 
Acho que ainda não está ultrapassado. A colonização é doentia, não só para o colonizado, como para o colonizador e se do ponto de vista da educação escolar, não houver critérios que ajudem as crianças a ultrapassá-lo irá ficar sempre enraizado. Há o problema dos pais que eventualmente terão vivido a colonização e cuja ideia nunca é sadia. Depois acho que a única forma de o ultrapassar é através da escola e da educação, que aí terá um papel muito forte de fazer acreditar as crianças que a colonização fez parte de uma época histórica, para que se desfaça este mau estar existente. Crianças que não viveram a colonização têm uma ideia falsa através daquilo que lhes é dito, como se o mundo fosse feito de bons e maus. 
A sociedade conseguiu transformar essa realidade em algo mais actual? 
Não me parece. Eu acho que quando há situações de bem estar tudo flui, mas quando estamos em crise, volta a vir ao de cima. Acho que as sociedades ocidentais ainda não o conseguiram ultrapassar. Neste momento há um regresso aos países potencialmente mais ricos das antigas colónias, como Angola e Moçambique, e do ponto de vista político há governantes que incentivam esta realidade. O problema está na integração e no funcionamento desta interligação. Há 15 anos Portugal estava numa situação confortável e muitos brasileiros começaram a vir para cá, mas havia algum chauvinismo em relação aos mesmos. Actualmente acontece o contrário, os portugueses estão a ir para o Brasil. Estando bem ou mal a interligação deveria ser mais forte. 
Há uns anos atrás assistia-se a um preconceito relativamente a namoros de brancos com negros. Este continua a existir? 
Muito menos, acho que os jovens de hoje têm uma mentalidade mais aberta, independentemente dos pais terem esse preconceito. A vida mudou muito, antigamente as turmas também se dividiam entre rapazes e raparigas. Hoje são mistas e essa ligação ajuda a uma relação mais fácil e natural. 
O colonialismo prossegue de alguma forma como um estigma? 
Em algumas cabeças sim, mas é relativo. Acho que há pessoas que o ultrapassaram pela sua vivência, forma de estar e educação e outras que não. Politicamente pode haver uma conjugação de forças que queira que sim, mas individualmente não. No entanto hoje existe muito mais comunicação, a televisão chega a todo o lado e as pessoas são muito mais informadas do que há 40 anos atrás. 
O teu primeiro filme “O Herói” é completamente diferente do “Grande Kilapy”. “O Herói” é um filme mais neo-realista sobre o pós-guerra em Luanda e este é uma extravagância fantasiosa com laivos políticos… 
“O Herói” é uma história inspirada numa fotografia que a agência Reuters faz de um mutilado de guerra, deitado numa rua de Luanda com uma prótese ao lado, e é a partir daí que nasce o filme. Esta imagem traz-nos uma realidade que é comum numa Luanda pós colonial. Houve uma guerra civil muito violenta, que durou até 2002, e que deixou marcas profundas na sociedade angolana. Partimos dessa ideia para mostrar como era a vida socialmente e as dificuldades que as pessoas poderiam ter, no caso dos jovens que eram obrigados a ir para a guerra. Muitos deles ficaram mutilados, outros morreram e eu quis fazer esta história. “O Grande Kilapy” é uma história política e de aventuras, que retrata outra Angola, menos neo-realista. Nas cidades as pessoas viviam como se não existisse guerra, o que dava um falso bem-estar porque objectivamente não sentiam a guerra. 90% dos angolanos não tinham noção política, na cabeça deles eram portugueses, embora pudessem sentir que algo estava errado. 
Tendo em conta que os teus dois filmes são completamente diferentes, como será um terceiro? 
Não sei qual vai ser o terceiro filme, mas tenho pelo menos três histórias para contar. Tudo vai depender do financiamento do ICA, e estando na situação em que se encontra não sei como é que tudo se vai desenvolver. No entanto todas as histórias que tenho para contar se passam na pós-independência de Angola e estão mais próximas do “Herói”, não sendo neo-realistas. 
Elsa Garcia, david-golias.com

Amar, Beber e Cantar de Alain Resnais | 14 Abril | IPDJ | 21h30


AMAR, BEBER E CANTAR
Alain Resnais, França, 2014, 108’, M/12

FICHA TÉCNICA
Título Original: Aimer, boire et chanter
Realização: Alain Resnais
Argumento: Laurent Herbiet, Alain Resnais, Jean-Marie-Besset, baseado na peça Alan Ayckbourn
Montagem : Hervé de Luze
Fotografia : Dominique Bouilleret
Música: Mark Snow
Interpretação : Hippolyte Girardot, Sabine Azéma, Caroline Silhol, André Dussollier e Sandrine Kiberlain
Origem: França
Ano: 2014
Duração: 108’

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Berlim - Prémio FIPRESCI
Festival de Berlim - Prémio Alfred Bauer

COMENTÁRIO DO REALIZADOR
Porquê o título original AIMER, BOIRE ET CHANTER, que nada tem que ver com o título original da peça de Alan Ayckbourn, Life of Riley? É uma questão de ritmo. A música dos Pink Floyd atravessa toda a peça. Para mim, é um indício de uma época específica, os anos 1960 e 1970, e queria afastar-me dela. Faço um grande esforço para dar ritmo às mudanças de andamento nos filmes, de forma à realização ser rica em contrastes: momentos em que a realização é reservada e académica e depois, subitamente, uma mudança de tom. Eis o que sonho: que o espetador no cinema diga para si mesmo, “pronto, está bem, é teatro filmado”, e depois, de repente, mude de opinião: “sim, mas no teatro não podemos fazer aquilo...” E andar para a frente e para trás, do teatro para o cinema, e, às vezes, para banda desenhada num estilo Blutch. Gostava de conseguir aquilo que Raymond Queneau chamou em Saint-Glinglin “la brouchecoutaille”, uma espécie de ratatouille, deitando abaixo o que divide o cinema do teatro e, assim, atingir uma total liberdade. Digo isto em todos os meus filmes: o que me interessa é a forma e, se não houver forma, não há emoção. Ainda me entusiasmo muito a juntar o que não deve ser juntado. É aquilo a que chamo a atração pelo perigo, pelo abismo.
Tenho constantemente presente a resposta que costumo dar à pergunta, “Porque é que faz filmes?” - “Para ver como são feitos.” Por essa razão, apaixonei-me naturalmente pelo teatro de Ayckbourn, que pode parecer comédia leve, mas que não o é, de todo. Basta ver os riscos que corre com a construção dramática. Um dia, ele disse o seguinte, “Tento fazer cinema com o meu teatro, e o Resnais faz teatro para o cinema.”
Como é que tudo começou? Li numa revista que o muito prolífero Sr. Ayckbourn encenava as suas peças num pequeno resort à beira mar, em Scarborough, num teatro em que o próprio público formava as três paredes. Fui lá com a Sabine [Azéma], como se num safari a uma selva exótica. Vimos uma peça. Os atores tinham de se lembrar das três “paredes” de espetadores e, como o público, tinham de dar um salto de fé e acreditar naquilo que não viam. Essa é também uma boa definição de cinema. Desse momento em diante, pensei para comigo, “Aquele é o meu homem.” Regressámos a Scarborough nos quatro ou cinco anos seguintes, anónimos, até que um dia um ator me reconheceu num intervalo e disse, “O que faz aqui? Os franceses nunca vêm aqui. Há japoneses, alemães, mas franceses não.” Conheci finalmente Ayckbourn, bebemos uma cerveja e elogiei-o. Suspirou, “Obviamente, não sou o Chekhov.” Respondi-lhe, “Bem, não, é muito melhor do que o Chekhov.” Foi um encontro cheio de emoção. Alguns anos depois, vi a Sabine a rir-se sozinha a ler uma enorme peça de Ayckbourn intitulada Intimate Exchanges, com apenas dois atores a representar uma multiplicidade de personagens e em que tínhamos de ir doze vezes ao teatro para a ver na íntegra! Encontrei-me com Ayckbourn para lhe perguntar se aceitava que eu a adaptasse, no que se veio a tornar FUMAR/NÃO FUMAR. Na altura, ele já escrevera quarenta peças. Disse-me, “Esperava tudo, menos que pegasses nessa. És ainda mais doido do que eu.” Eu sabia, porque lera num artigo, que ele detestava que o adaptassem para cinema, por causa das obrigações envolvidas. Por isso, fiz-lhe uma promessa: “Se encontrar um produtor para financiar o filme, não te digo, não te ligo, não te peço para ler a adaptação, nem te convido para jantar. Não saberás nada de mim até o filme estar acabado e to possa mostrar. Nessa altura, e só nessa altura, poderás decidir se o apadrinhas ou não.” Ele ficou encantado. E mantive a minha promessa até hoje. Também em CORAÇÕES (cuja peça original é Private Fears in Public Places).
A grande dificuldade em adaptar Life of Riley era a seguinte: como é que o público de cinema compreendia que há quatro jardins que não se cruzam? Usei os desenhos de Blutch, fotografias de Yorkshire e algumas cenas na estrada, para que as pessoas percebessem que os jardins chegavam a ter vinte quilómetros de distância. Esperava que, ao misturar estes três elementos que não se complementam – os desenhos de Blutch não se assemelham aos cenários de Jacques Saulnier, que por seu lado não são nada parecidos às estradas de Yorkshire – o público tivesse a noção da distância. Queria liberdade a fazer o filme. Trabalhei com o Laurent Herbiet de uma forma muito especial. Herbiet é um mágico ao computador. Bastava dizer algo, aparecia logo na máquina. Por vezes, escrevia o que eu dizia antes mesmo de o dizer. Ele pegou na peça e fez logo o storyboard. Para esta fase do trabalho, uso pequenas figuras de plástico que representam os atores e movimento-os. São muitas vezes personagens de filmes que trago das minhas viagens. Gosto que sejam tão anónimas quanto possível. Ajuda-me imenso, posso descrever o todo, enquanto o Herbiet sugere atalhos e ligações entre as sequências. Certa vez, Ayckbourn riu-se quando lhe disse, “Sou contra os cortes, mas gosto de contrações.” Foi ao Jean-Marie Besset, cuja obra de adaptação e como escritor conhecia e admirava, que coube então a tradução, trabalhando na versão inglesa já cortada. AMAR, BEBER E CANTAR? Pensemos em três casais normais, ou considerados normais, sejam felizes ou infelizes. Basta um único acontecimento para perturbá-los, a chegada de George, e tudo fica histérico. Sim, é divertido mas, ainda assim, há momentos em que a sombra da morte passa, com música leve. Algo bastante raro aconteceu com este filme: quando terminámos, eu e o montador Hervé De Luze notámos que o caixote das offcuts – para onde deitamos as offcuts ou cenas eliminadas – estava vazio. Não cortámos nada, aproveitámos tudo. Sim, podemos dizer que não fizemos lixo! A verdade é que havia muitas cenas de sequência, cenas filmadas em continuidade. De facto, os atores foram incríveis. Juntavam-se e ensaiavam de livre vontade, fora da agenda de produção. Isso poupou-nos muito tempo.
O que ainda o faz ser cinema, apesar de termos usado todo o tipo de artifícios do teatro, como substituir portas por cenários pintados que podiam ser puxados para o lado? É um verdadeiro mistério. Claro que, embora tenha resultado a favor do filme, era preciso poupar dinheiro. A minha abordagem passou por um grande salto para trás no tempo, pensando em Sacha Pitoëff e na sua mulher. Sempre que encenavam uma peça no Théâtre des Mathurins, não tinham dinheiro para os cenários. Usavam cortinas velhas e pediam emprestadas carpetes antigas, conseguindo sugerir interiores suntuosos. Eu disse ao Jacques Saulnier, “Se o Sacha Pitoëff fazia, também podes fazer.” Ele tentou protestar, dizendo “Sim, mas no cinema...” mas eu respondi-lhe, “Bem, temos de tentar.”
Alain Resnais

CRÍTICA
[...] É também de além-tumba (ou quase) que nos fala o último Resnais: “Amar, Beber e Cantar”. O que temos aqui? A adaptação de uma peça de Alan Ayckbourn (em cujo universo o cineasta mergulha pela terceira vez, depois de “Fumar/Não Fumar” e “Corações”), que sobressai pelo seu desejo de artifício e de absurdo. A confirmá-lo está a primeira sequência, que aterra num jardim do countryside inglês toscamente recriado em estúdio (como todos os cenários do filme), convidando-nos então a seguir o diálogo de um casal burguês de meia-idade que, de modo teatral, vai discutindo acerca da qualidade de uma marmelada que mais ninguém vê.

Quando, por fim, o silêncio leva a melhor, a mulher saca do guião que contém as palavras que acabou de proferir, advertindo o marido para o facto de não a ter deixado dizer a totalidade das suas falas. Fica pois claro, desde o início, que estamos perante um filme que não receia expor a sua natureza ficcional, construindo uma representação dentro da representação e forçando os atores a assumirem-se enquanto tais. Ora, após este prefácio, as personagens instalar-se-ão na residência de um casal amigo, tomando aí conhecimento de uma sinistra notícia: a de que o seu camarada George se encontra a contas com um cancro terminal, restando-lhe apenas seis meses de vida. Trata-se de uma figura que todos afirmam conhecer, sobre a qual todos falam, mas que — como o Godot de Beckett — permanecerá ancorada ao fora de campo até final. E é justamente a partir do invisível que George (um alegado galã) exercerá o seu magnetismo sobre as personagens, pondo a circular o rumor de que pretende passar os seus últimos dias de vida em Tenerife na companhia de uma mulher. O boato tem o condão de fazer despertar os desejos ocultos das mulheres e os ciúmes latentes dos maridos, originando assim uma divertida comédia de enganos, onde compete à morte a tarefa de colocar o amor em equação (como sempre aconteceu no cinema de Resnais).
Mais bela e coerente despedida é difícil de imaginar.
Vasco Baptista Marques, Expresso, 11/10/14

VIVA A LIBERDADE, 7 Abril, 21h30, IPDJ


VIVA A LIBERDADE
Roberto Andò, Itália/França/Alemanha, 2013, 94’, M/12


FICHA TÉCNICATítulo Original: Viva la libertà
Realização: Roberto Andò
Argumento: Roberto Andò e Angelo Pasquini
Montagem: Clelio Benevento
Fotografia: Maurizio Calvesi
Interpretação: Toni Servillo, Valerio Mastandrea,Valeria Bruni Tedeschi, Michela Cescon, Gianrico Tedeschi
Origem: Itália/França/Alemanha
Ano: 2013
Duração: 94’





CRÍTICAS
A verdade e as suas aparências
O cinema italiano continua a possuir uma importante dimensão política — no caso de "Viva a Liberdade", Roberto Andò encena a história de um líder que, para evitar especulações dos media, é substituído pelo seu irmão gémeo...
Como falar de política, hoje em dia? Aliás, a pergunta talvez seja, inevitavelmente: como falar da política dos nossos dias sem falar de televisão? No cinema italiano, em todo o caso, temos encontrado respostas/filmes que vão no sentido de nos mostrar, através dos mais diversos registos, que a política se faz cada vez mais através das imagens (e sons) da televisão — de Ettore Scola a Nanni Moretti são muitos os cineastas empenhados em tal visão.
"Viva a Liberdade", de Roberto Andò, é um filme que aposta na possibilidade de relançar tal temática, por assim dizer redistribuindo os dados através de um registo de comédia dramática a que, em última instância, talvez seja mais correcto chamar farsa. Porquê? Porque, afinal, esta é a história de um dirigente político que, a certa altura, é substituído no exercício das suas funções pelo seu irmão gémeo...

Imagem, portanto. Quando Enrico Oliveri, num misto de desgaste físico e desencanto moral, se afasta das suas funções de liderança, o seu mais fiel assistente pressente uma "solução" francamente inesperada: Giovanni, irmão gémeo de Enrico, poderá ocupar o lugar, mantendo a ilusão de continuidade — mesmo se Giovanni, com os seus desequilíbrios psicológicos, poderá trazer problemas para que ninguém estava preparado...
Tendo trabalhado a partir de um romance de sua autoria ("Il Trono Vuoto"), Roberto Andò consegue sustentar a sua frágil ficção num clima de contida ironia, expondo um mundo em que verdade e suas aparências parecem existir numa espécie de incesto mediático. É a prova real de que continua a haver um cinema italiano genuinamente político, sem esquecer, neste caso, o misto de subtileza e elegância com que Toni Servillo ("A Grande Beleza") consegue compor duas personagens tão iguais e tão diferentes.
João Lopes, rtp.pt/cinemax/



Há uma data matricial na convergência entre duas das maiores tradições do cinema italiano, da comédia e a do filme político. Foi quando, em “Abril” (1998), Nanni Moretti interpelou D’Alema, - vociferando para o televisor: “Diz qualquer coisa, diz qualquer coisa de esquerda!”. Essa interpelação, cómica mas profundamente sentida pelos órfãos do PCI e pelo povo da esquerda em geral, tem um eco nesta outra comédia que ora nos chega — “Viva a Liberdade”. 
protagonista líder de um partido da oposição de quem também se espera que diga alguma coisa de esquerda, que acorde as gentes do marasmo e da desesperança nestes tempos de neoliberalismo e de austeridade. Mas ele não consegue — e foge. Vai rearrumar o passado, ou tão-só fazer uma vilegiatura de homem comum. Desnorteado com a ausência do patrão, o secretário do partido resolve substituí-lo por alguém que é não só fisionomicamente igual, mas também clinicamente louco. E o substituto começa a dizer coisas de esquerda e a entusiasmar as massas. As sondagens disparam. Uma mudança avizinha-se. Até o Quirinale está rendido. Pois sim, mas o homem é louco, sabemo-lo de irrefutável fonte. “Viva a Liberdade” é uma comédia que faz uma crítica mordaz ao sistema político italiano, mas é, também, uma séria e cava reflexão sobre os estados de alma das massas e as saídas do pântano em que nos sentimos atolados. E tem um fundo que só não é de negra desesperança porque a leveza da interpretação de Toni Servillo não deixa que o torvelinho no peito se forme. Paira por ali, em filigrana, o fantasma de Beppe Grillo, mas o estado das coisas neste filme, bem nos pode servir também, aqui, a nós.
J.L.R. , Expresso, 29/11/14