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O SAL DA TERRA | 2 JULHO | MUSEU MUNICIPAL | 21H30
Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, França/Brasil/Itália, 2014, 110', M/12
FICHA TÉCNICA
Escrito e
Realizado por Juliano Ribeiro
Salgado, Wim Wenders, David Rosier
Música
Original: Laurent Petitgand
Fotografia: Hugo Barbier,Juliano Ribeiro Salgado
Montagem: Maxine Goedicke, Rob Myers
Origem: França/Brasil/Itália
Ano: 2014
Fotografia: Hugo Barbier,Juliano Ribeiro Salgado
Montagem: Maxine Goedicke, Rob Myers
Origem: França/Brasil/Itália
Ano: 2014
Duração: 110'
FESTIVAIS
Festival de
Cannes - Un Certain Regard - Menção Especial do Júri
Oscar - Nomeação - Melhor Documentário
Oscar - Nomeação - Melhor Documentário
CRÍTICA
Quando
no ecrã irrompem as monumentais fotografias de Sebastião Salgado, colhidas nas
minas de ouro da Serra Pelada, no Brasil, há uma espécie de assombro que nos
atravessa, como se estivéssemos a ver a construção das pirâmides multiplicada
por dez, ao mesmo tempo que reconhecemos utensílios, coisas que testemunham que
o que se mostra convive com a nossa contemporaneidade, acontece num presente
que nem sonhávamos. E, de repente, a ficção desmedida convive com a
documentalidade básica, as fotografias começam a contar histórias sem fim, ao
mesmo tempo que mostram uma fatia sem ornamentos da realidade. E quando o
próprio Salgado nos fala dessa realidade sentimos que estamos a ver um abismo
humano. É assim ao longo de todo o filme que faz o percurso biográfico do
fotógrafo e nos faz visitar alguns dos melhores momentos daquele que é,
porventura, o maior dos fotojornalistas do nosso tempo. 
E que espantosa vida o filme nos revela, de um homem que estudou Economia, se expatriou do Brasil da ditadura, antes de descobrir, por acaso, uma vocação de fotógrafo. Iniciou, então, um caminho que o levou a documentar grande parte do sofrimento humano no último meio século. E, no fim, ainda teve ânimo para replantar a selva na sua devastada Minas Gerais. Wenders e Juliano Salgado (filho de Sebastião) congregam material filmado agora e antes, interrogam Salgado e, sobretudo, mostram as fotos que, pela dimensão do ecrã de cinema, ganham ainda maior pujança. E como é bom ver um filme que tem a capacidade de ser íntimo, ao mesmo tempo que nos faz crescer no peito o pathos da tragédia.
Jorge Leitão
Ramos, Expresso, 11/4/15
SE EU FOSSE LADRÃO ...ROUBAVA | DIA 25 JULHO | MUSEU MUNICIPAL | 21H30
SE EU FOSSE LADRÃO...
ROUBAVA
Paulo Rocha, Portugal, 2012, 87’, M/14
FICHA
TÉCNICA
Realização: Paulo Rocha
Guião: Regina
Guimarães, João Carlos Viana, Paulo Rocha
Argumento e Diálogos: Regina Guimarães, João Carlos Viana, Paulo Rocha
Montagem: Edgar Feldman
Fotografia: Acácio de Almeida
Interpretação: Isabel Ruth, Luís Miguel Cintra, Márcia Breia, Chandra Malatitch, Raquel Dias, Carla Chambel, Joana Bárcia, Miguel Moreira, Norberto Barroca
Origem: Portugal
Argumento e Diálogos: Regina Guimarães, João Carlos Viana, Paulo Rocha
Montagem: Edgar Feldman
Fotografia: Acácio de Almeida
Interpretação: Isabel Ruth, Luís Miguel Cintra, Márcia Breia, Chandra Malatitch, Raquel Dias, Carla Chambel, Joana Bárcia, Miguel Moreira, Norberto Barroca
Origem: Portugal
Ano:
2012
Duração: 87’
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Partindo da
memória familiar e da matéria dos seus filmes, Paulo Rocha revisita as suas
origens e as referências maiores da sua vida e obra, numa construção fluida e
complexa, que é conscientemente testamental embora só indirectamente
autobiográfica (ele filma-se através do pai e dos personagens da sua obra). O
motor inicial do filme é a evocação da infância e juventude do pai do autor, em
particular o sonho obsessivo deste, na altura partilhado por muitos, de emigrar
para o Brasil, para onde partiu efectivamente em 1909 (embora a cronologia
verdadeira, tal como os factos e os nomes, sejam alterados, ou por vezes
deslocados, em função das rimas com os outros filmes). Mas este tema familiar
cruza-se desde o início com o grande mundo da obra de Rocha, num puzzle de
raccords temáticos que se dirige para dentro e para trás (a busca do centro, ou
da origem…) tanto quanto para fora (a constante ampliação de sentido, a
identidade de um país). Paulo Rocha fala portanto da sua própria necessidade de
partir, e da interrogação de Portugal através da distância – o tempo formativo
em Paris, depois a longa estada no Japão -, assim como fala da morte, mas
também da doença e de um medo tornados endémicos, corrosivos de um país. Em
paralelo, vão surgindo, nos excertos dos seus filmes, grandes referências da
sua obra: homens como o escritor radicado no Japão Wenceslau de Moraes
(1854-1929), o poeta Camilo Pessanha (1867-1926) ou o pintor Amadeo de Souza
Cardoso (1887-1918) – todos representantes de um fulgor criativo dos inícios do
século tanto quanto justamente, de uma relação problemática com o país de
origem. Por outro lado Se eu fosse ladrão… é ainda um repositório de um outro
diálogo estruturante da obra de Paulo Rocha – neste caso, particularmente
associado a Amadeo – em que a inspiração na cultura universal se funde com um
trabalho genuíno, dir-se-ia antropológico, sobre a cultura popular portuguesa,
em especial centrada na região norte do país (os pescadores do Furadouro, o
vale do Douro…). Cinemateca Portuguesa
São muitas as
obsessões do cinema de Paulo Rocha. No seu filme testamento, mescla entre jogo
de colagem de raccords do seu próprio filme e ficção que recria a juventude do
seu pai, ainda encontra muitas outras, em especial uma reflexão antropológica
do que era ser português. O resultado é um objeto raríssimo, um ensaio poético
sobre a essência do que filmou durante décadas. Curiosamente, a escrita de
Regina Guimarães contamina de forma muito pueril todo este olhar interior.
Tanto que até pensamos estar dentro do cinema desta escritora e cineasta
nortenha.
Metade assombração
trágica, metade tese elaborada sobre a impossibilidade de um filme
(desmontam-se sempre os formatos convencionais do cinema narrativo, nem que se
recorra à própria voz do cineasta a dizer corta), o último Rocha é coisa séria.
Rui
Pedro Tendinha, dn.pt/
FADO CAMANÉ | 16 JUNHO | CLAUSTROS MUSEU MUNICIPAL | 21H30
FADO CAMANÉ
Bruno de Almeida, Portugal, 2014, 72’, M/6
FICHA
TÉCNICA
Realização: Bruno de Almeida
Montagem: Bruno de Almeida
Fotografia: Paulo Abreu
Música: Raul Ferrão, Alfredo Marceneiro,
José Mário Branco, Sérgio Godinho, Frutuoso França, Alain Oulman
Com:
Camané, Carlos Bica, Carlos
Manuel Proença, José Manuel Neto, José Mário
Origem: Portugal
Ano: 2014
Duração: 72'
CRÍTICAS
É um documentário
sobre a gravação de um disco, o álbum de 2008 Sempre
de Mim? Sim, vê-se e ouve-se nele um artista a falar do seu trabalho –
conteúdo que hoje os “extras” de edições especiais despacham como máquina de
enchidos, sendo verdade que tudo começou há vários anos atrás como material
filmado para uma edição especial do disco de Camané, como making of.
Mas, e para começar, a
pedagogia e a sensualidade aqui vistas em trabalho não se deixam conter no
estúdio.
Depois, é um subtil
registo das cumplicidades entre um cantor e os seus colaboradores: José Mário
Branco, director artístico, e Manuela de Freitas, cúmplice. É uma teia de
afectos e ficções, eles como figuras paternais, moldando o performer,
tal como um cineasta dirige um actor, ajudando-o a encontrar a medida certa das
emoções. Para que se mantenha pudica a solidão.
Este não é um filme
sobre música, por isso. É um filme que conta uma educação sentimental, a de
Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos. Há um efeito de mise-en-abyme,
como se o filme reproduzisse em miniatura um retrato maior: José Mário Branco
seria um duplo de Bruno de Almeida a dirigir o “seu” actor.
Para isso, é
necessário uma figura que exorbite fronteiras, e é isso o que faz o cantor no
seu canto. Bruno olha-o (veja-se também o videoclip de Sei
de um Rio) como um cineasta se ocupa dos valores de uma personagem.
Há aquele momento, quase eufórico, quase feliz, de encontro como uma hipotética
linhagem, quando Camané, citando José Mário Branco, filia a introspecção do seu
canto, de um verso, no “grito abafado” de Al Pacino quando lhe mataram a filha
no Padrinho III.
Não há coincidências.
Estava tudo nas imagens de solidão urbana de Sei de um Rio, uma forma
de confrontar uma certa tristeza masculina com movimentos de câmara obsessivos,
obsessão essa que aqui é doce e melancólica, claro, não trepidante, porque a
velha Lisboa não é a Nova Iorque dos 70s de Al e de Robert deNiro e desses
anti-heróis que, com toda a sua violência, se viram aflitos para nomear o que
sentiam.
Foi numa sobreposição de espaços e tempos
(disparidades que a referência a Pacino aqui explicita) que se deu o “encontro”
entre Camané e Bruno de Almeida, no início dos anos 2000, quando o realizador
regressou de Nova Iorque, onde viveu 20 anos: o punk, a new wave e o jazz
experimental da cena novaiorquina reconciliavam-se com o fado. Foi também com
essa possibilidade de imaginar outros cenários em background que Bruno de Almeida filmou um boxeur
a contar a sua
história em Bobby Cassidy, de 2009 - o
boxe, mundo codificado tal como o do fado; uma história sobre o que passa de
pais a filhos; Bobby tão parecido com Gene Hackman... é talvez o seu mais belo
filme. Sob a forma de uma
entrevista, era um documentário sobre o cinema americano dos 70s que se passava
todo ele na memória do realizador e no imaginário do espectador. É o que se
confirma em Fado Camané: Bruno tem a capacidade de, num formato já
ocupado, “projectar” nele “outros” filmes: fantasmas do imaginário e da memória
pelos quais essas imagens se deixam possuir.
Vasco Câmara, publico.pt/
OUTRA FORMA DE LUTA, João Pinto Nogueira | 26 Maio | IPDJ | 21h30 | PRESENÇA DO REALIZADOR
OUTRA
FORMA DE LUTA
João Pinto Nogueira
Portugal, 2014, 80’,
M/12
PRESENÇA DO REALIZADOR
Realização: João Pinto Nogueira
Argumento: João Pinto Nogueira
Fotografia: Inês Carvalho
Montagem: Rita Palma
Com: Francisco Nascimento, Jorge Siva, Rafael Freire, Dina Félix da Costa
Origem: Portugal
Ano: 2014
Duração 80’
CRÍTICAS
Outra
forma de documentário
Uma
biografia em formato de questionário. A vida e percurso de Carlos Antunes,
antigo líder das Brigadas Revolucionárias dava um thriller. Nas
mãos de João Pinto Nogueira deu um estimável documentário que se assume como um
ensaio de um desafio que o escritor Nuno Bragança propôs em 1985 ao amigo: um
questionário com 13 perguntas. O filme recria com ficção num palco alguns dos
momentos marcantes da atividade clandestina entre os dois amigos comunistas,
embora haja também muitas entrevistas.
Astutamente
"tomado" pela graça literária de Bragança, Outra Forma de Luta é um compêndio de como
o cinema documental deve expor teorias e factos.
Tecnicamente
é limitado, mas a sua boa vontade compensa tudo. E nem sempre é assim...
Nos
momentos "teatrais", Francisco Nascimento é mais do que competente
como Carlos Antunes...
Rui
Pedro Tendinha, dn.pt
Em 2008, quase no fim de “U Omãi qe Dava Pulus” (o
documentário que João Pinto Nogueira fez sobre o escritor Nuno Bragança),
Carlos Antunes narrava o peculiar questionário que Nuno Bragança lhe entregara
em fevereiro de 1985 oe onde, praticamente, toda a vida e toda a esperança se
indagavam. Antunes não chegou a responder a esse inquérito, o escritor morreu
poucos dias volvidos – mas guardou as folhas com as perguntas manuscritas.
Responderá agoram 30 anos depois, neste filme – e é toda a ligação entre os
dois que ganha uma nova luz pública e a história das Brigadas Revolucionárias
(onde ambos militaram) que tem uma particular atenção. Embora sequela óbvia de “U
Omãi qe Dava Pulus”, este novo filme não é centrado em Nuno Bragança, mas em Carlos
Antunes. E é com ele, com a sua narrativa, com a sua espantosa coloquialidade
que o filme e o espectador se enovelam, ao ponto de as passagens teatrais (a
partir de fragmentos do romance “Square Tolstoi”) parecem supérfluas
excrescências.
Jorge Leitão Ramos, Expresso, 18/4/15
MAMÃ, Xavier Dolan | 19 Maio | IPDJ | 21h30
MAMÃ
Xavier Dolan, Canadá,
2014, 134’, M/14
FICHA TÉCNICA
Título
Original: Mommy
Realização,
Argumento e Montagem: Xavier Dolan
Fotografia:
André Turpin
Música:
Noia
Interpretação:
Anne Dorval,
Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément
Origem:
Canadá
Ano:
2014
Duração:
134’
Festivais e Prémios
Festival de Cannes - Prémio do Júri
NOTA DO REALIZADOR
Desde o meu primeiro
filme, falei muito de amor. Falei da adolescência, sequestro e
transsexualidade. Falei de Jackson Pollock e dos anos 90, de alienação e
homofobia. Os colégios internos, a palavra altamente franco-canadiana “especial”,
vacas leiteiras, a cristalização de Stendhal e o Síndrome de Estocolmo. Já
falei com muito calão e também com muitos palavrões. Já falei em Inglês, e de
vez em quando, também disse muitos disparates, demasiadas vezes.
Porque essa é a
questão quando “falamos” de coisas, creio eu, é que há quase sempre o risco
inevitável de dizer disparates. E por isso decidi falar só daquilo que sei, ou
que era – mais ou menos – próximo de mim. Temas que eu julgava conhecer
bastante bem ou pelo menos suficientemente, pois eu conhecia a minha própria
diferença e o subúrbio onde fui criado. Ou porque sabia como era vasto o meu
medo dos outros, e ainda é. Porque sabia as mentiras que contamos a nós mesmos,
quando vivemos em segredo, ou o amor inútil que continuamos teimosamente a dar
aos ladrões do tempo. Conheço suficientemente estas coisas para querer até
falar delas.
Na época de J’AI TUÉ
MA MÈRE, sentia que queria castigar a minha mãe. Apenas cinco anos se passaram
desde então e acredito que, através de MAMÃ, agora procuro a vingança dela. Não
perguntem.
Xavier Dolan, maio
2014
CRÍTICA
Chegou
às salas Mommy, o filme
que valeu a Xavier Dolan o Prémio do Júri de Cannes: um título para
(re)descobrirmos um jovem e singular criador.
Perante o impacto da obra de
Xavier Dolan, cineasta canadiano nascido em Montreal a 20 de Março de 1989,
apetece reescrever um velho adágio sobre os méritos profissionais da
antiguidade, proclamando agora: a juventude não é um posto... O mínimo que se
pode dizer de Dolan é que ninguém ficará indiferente ao facto de, apenas com 25
anos, ele ter realizado um filme como Mamã,
colocando em cena de forma tão dramática, e também tão irónica, os eternos conflitos
de gerações.
O filme valeu mesmo a Dolan
um dos prémios mais saborosos de uma carreira curta, mas já pontuada por
diversas distinções. Assim, no passado mês de Maio, no Festival de Cannes, Mamã recebeu o Prémio do Júri, ex-aequo com o mais recente trabalho de
Jean-Luc Godard, Adeus à
Linguagem. Presidido pela cineasta neozelandesa Jane Campion, o júri aproximava,
assim, num mesmo gesto de reconhecimento e consagração, o mais jovem e o mais
veterano dos autores presentes no certame (Godard completou 84 anos no dia 3 de
Dezembro).
Aliás, importa esclarecer
que não se estava perante a revelação de um novo cineasta. Nada disso: Dolan
assinou a sua primeira longa-metragem, Como
Matei a Minha Mãe, em 2009, portanto com 20 anos. Depois disso, já realizou
mais três títulos: Amores Imaginários (2010), Laurence para Sempre (2012) e Tom na Quinta (2013), em todas assumindo também as
responsabilidades de escrita de argumento, em três deles interpretando também
uma das personagens principais (a excepção é Laurence
para Sempre, protagonizado por Melvil Poupaud).
No caso de Mamã, o nome de Dolan também
não aparece na ficha dos actores. É Antoine Olivier Pilon, de 17 anos (tinha 16
durante a rodagem), que surge na linha da frente, assumindo a personagem quase
burlesca, mas marcada por muitas componentes dramáticas, de Steve Després, um
rapaz com evidentes problemas de integração familiar e social, não poucas vezes
derivando para comportamentos violentos. No núcleo do filme está, precisamente,
a relação com a mãe, Diane Després (Anne Dorval), viúva, com crescentes
dificuldades para lidar com o filho, ao mesmo tempo que tenta manter o
equilíbrio financeiro do lar.
Estão reunidas, assim, as
componentes necessárias (e mais que suficientes...) para um psicodrama com
tanto de intimista como de perturbante. E talvez se possa dizer que, até certo
ponto, o filme é isso mesmo, encenando as atribulações de uma paisagem afectiva
marcada por muitos momentos de convulsão e, aqui e ali, breves fogachos de
apaziguamento e intensa ternura. De qualquer modo, e de acordo com uma lógica
muito enraizada nas narrativas de Dolan, tudo pode mudar com a emergência de
uma personagem inesperada. Neste caso, é Kyla (Suzanne Clément), a vizinha de
Diane e Steve, que surge como um insólito e paradoxal “anjo da guarda”, de
alguma maneira levando mãe e filho a reavaliar os seus modos de relação.
Dolan faz retratos do mundo
dos afectos em que, no limite, todos são conduzidos a essa reavaliação do seu
lugar familiar e simbólico, social ou sexual. No filme anterior, Tom na
Quinta, interpretava o Tom do título que, ao comparecer no funeral de um
outro jovem, compreendia que toda a família ignorava a sua relação amorosa com
o defunto. Agora, em Mamã,
Dolan “força” ainda mais os limites tradicionais do melodrama através de uma
história marcada por componentes psicológicas muito particulares, mas que nos
confronta com uma interrogação muito mais abrangente, por certo ligada ao
“progresso” dos nossos usos e costumes. A saber: que é feito dos valores do
espaço familiar tradicional? Ou ainda: nas nossas sociedades de aceleração de
contactos e relações, como comunicam (ou não) as pessoas de diferentes
gerações?
E se o melodrama pressupõe
uma aliança entre drama e música, então importa acrescentar que Dolan é também
um criador que revaloriza as componentes musicais da narrativa cinematográfica,
em particular o uso de canções muito populares. Em Os Amantes Imaginários recuperava, por exemplo, o lendário Bang Bang, interpretado por
Dalida. Agora, na banda sonora de Mamã,
escutamos, entre outros, Dido (White Flag), Oasis (Wonderwall) e
Lana Del Rey (Born to Die).
Quando nos sentimos tocados
por um filme, gostamos de partilhar com os outros aquilo que, precisamente,
nele mobilizou as nossas emoções e pensamentos. Mas, por vezes, ficamos também
limitados por um sentimento de prudência, porventura de pudor. Até onde
“revelar” aquilo que, afinal, os outros têm o direito de descobrir no primeiro
grau, sem qualquer informação prévia? Digamos que é um pouco como quando
revemos A Leste do Paraíso (1955), de Elia Kazan, e deparamos com
o genial aproveitamento da largura do CinemaScope, apetecendo sublinhar:
reparem como Kazan filma James Dean, tirando o máximo partido de um formato
que, na altura, era uma novidade.
Assim, gostaria de falar ao
leitor do modo como Xavier Dolan concebe, não apenas as imagens do seu filme Mamã mas também, precisamente, o modo como
trata o respectivo formato... Ao mesmo tempo, sinto que se for demasiado
explícito, estarei a roubar-lhe a possibilidade de ver/sentir a proposta de
Dolan, não em função da tal informação prévia, mas apenas através do filme.
Direi, então, que não se
trata de uma questão banalmente formal, muito menos formalista. Nada disso: no
cinema de Dolan — e, em particular, neste belíssimo Mamã — todos os elementos figurativos,
cénicos ou simbólicos são importantes para a relação que ele estabelece com as
personagens e, por extensão, com o labor específico dos actores. Neste
inusitado triângulo amistoso — a mãe, o filho e a vizinha —, tudo acontece à
flor da pele, revalorizando um realismo dos corpos que, convenhamos, não é a
lei dominante no cinema mais poderoso (povoado de “super-heróis” com corpos
mais ou menos mecanizados) nem na televisão mais corrente (esgotada em formatos
de patético determinismo psicológico). Dolan é um paciente e subtil agrimensor
dos afectos.
João Lopes, http://sound--vision.blogspot.pt
O PEQUENO QUINQUIN | 12 Maio | IPDJ | 21h30
O PEQUENO QUINQUIN
Bruno Dumont, França, 2014, 197’, M/12
FESTIVAIS E PRÉMIOS
Quinzena dos
Realizadores – Festival de Cannes
Lisbon & Estoril Film Festival – Competição
Mostra de São Paulo – Prémio da Crítica – Menção Especial
Toronto International Film Festival – Selecção Oficial
Lisbon & Estoril Film Festival – Competição
Mostra de São Paulo – Prémio da Crítica – Menção Especial
Toronto International Film Festival – Selecção Oficial
FICHA TÉCNICA
Título Original: P'tit
Quinquin
Realização e Argumento: Bruno Dumont
Fotografia - Guillaume Deffontaines
Interpretação: Alane Delhaye, Lucy Caron, Bernard Pruvost, Philippe Jore, Philippe Peuvion, Lisa Hartmann, Julien Bodard, Corentin Carpentier
Fotografia - Guillaume Deffontaines
Interpretação: Alane Delhaye, Lucy Caron, Bernard Pruvost, Philippe Jore, Philippe Peuvion, Lisa Hartmann, Julien Bodard, Corentin Carpentier
Origem: França
Ano: 2014
Duração: 197’
CRÍTICAS
Se
David Lynch tivesse situado o seu “Twin Peaks” na província francesa, o
resultado teria sido, provavelmente, algo como “O Pequeno Quinquin”, de Bruno
Dumont. Facto: à primeira vista, pouco religa entre si o surrealismo de Lynch e
o naturalismo de Dumont (sempre preocupado com a relação entre a natureza e a
violência, a loucura e a graça).
Porém,
numa ótica temática, os dois cineastas partilham uma obsessão comum pela
questão do mal, explorando (cada um a seu modo) o conjunto de forças
subterrâneas que corrompem os espaços e os corpos. Pois bem: é justamente o
desejo de auscultar o coração do mal que rege a ação de “O Pequeno Quinquin”. O
que temos aqui? Uma minissérie de televisão em quatro episódios (cada um com
cerca de 50 minutos), que se instala numa aldeia costeira do norte de França,
para seguir os passos da personagem do título: uma criança na casa dos 12 que,
nas férias de verão, passa os dias a brincar na rua com os amigos. É pelos seus
olhos (incrustados num rosto bruto) que assistimos à descoberta do cadáver da
primeira vítima de uma série de homicídios que, apesar do seu carácter macabro
(corpos retalhados, devorados por animais...), parecem deixar indiferentes os
habitantes da aldeia. Os crimes, esses, serão investigados por um duo de
polícias ineptos (um velho capitão desgrenhado e um tenente com dentes podres)
que, a julgar pela forma como repetem as verdades de La Palice ditas pelo
outro, são uma espécie de versão extravagante do Dupond e Dupont de Hergé.
O que se segue é um procedural que nunca sai do mesmo sítio, mas que
possibilita a composição — em paralelo — do retrato de uma comunidade rural que
se alheia do horror que a envolve. Ora, neste quadro, a primeira coisa notável
é o modo como Dumont constrói um mundo às avessas, apoiando-se, para isso, numa
galeria de figuras (interpretadas por um brilhante leque de não-atores) cujas
palavras nada dizem e cujos gestos estão sempre fora de tom. Prova da natureza
disfuncional deste mundo é a genial sequência do funeral, onde a gravitas da
situação será dinamitada — a golpes de humor negro — por uma sucessão de
episódios caricatos (o organista virtuoso que não para de tocar, a adolescente
que canta em atrozes falsetes...).
Mas, sobre esta tela burlesca, Dumont formulará uma questão da maior
importância, a saber: quando nasce o mal? Ou melhor: a partir de que ponto a
violência corriqueira das personagens (a perseguição aos rapazes forasteiros
levada a cabo por Quinquin e os amigos) pode ser vista como o prelúdio do mal
radical que vem contaminar a aldeia? De facto, o que — ontem como hoje — Dumont
quer dar a pensar é a naturalidade de uma violência latente que ameaça explodir
a todo o instante e que desfigura os corpos que ousam resistir-lhe (vejam-se os
espasmos que atravessam o rosto do polícia). É por isso que a paisagem (os
descampados que ladeiam a aldeia) está sempre presente em fundo, servindo como
polo de um jogo de espelhos entre a brutalidade da natureza objetiva e a
brutalidade da natureza subjetiva — dominada por pulsões que arriscam mergulhar
as personagens na loucura, tornando-as apenas numa parte integrante do décor
(como acontece com o tio demente do protagonista). Digamos pois que, de
pequeno, este filme tem somente o adjetivo do seu título.
Vasco Baptista Marques,
Expresso, 14/2/15
Do realismo ao delírio
burlesco
Eis
um belíssimo exemplo de colaboração cinema/televisão: concebido como mini-série
televisiva, "O Pequeno Quinquin" é também uma longa-metragem de
cinema — a tradição do realismo francês é retomada e reconvertida num delicioso
registo de comédia.
A
história de Quinquin (Alane Delhaye) e da sua namorada Ève (Lucy Caron) tem
qualquer coisa de visceralmente romântico: ele está loucamente apaixonado por
ela e, durante as férias, dão grandes passeios de bicicleta... Em todo o caso,
o filme "O Pequeno Quinquin" é menos uma celebração
romântica e mais um mergulho nas vidas esquecidas de uma pequena povoação da
zona de Pas-de-Calais, no norte de França. Drama, então? Não, antes uma
insólita e saborosa comédia!
É
verdade: o realizador Bruno Dumont — que conhecemos através de títulos como
"A Humanidade" (1999), "Hadewijch" (2009) ou "Camille
Claudel 1915" (2013) — mantém-se fiel ao assombrado realismo do seu
universo para construir uma narrativa que vai deslizando para uma ambiência de
absurdo, pontuado por delirantes marcas burlescas.
À
partida, existe um pretexto mais ou menos policial: a descoberta de um crime
macabro nos campos em que Quinquin gosta de se refugiar. Em todo o caso, a
investigação que se desenvolve, conduzida pela surreal personagem do comandante
Van der Weyden (Bernard Pruvost), não vive tanto desse mistério, como dos
enigmas ambulantes que são as personagens desta farsa afinal encenada à flor da
pele — e os espantosos actores locais, completamente amadores, não serão
alheios à singularidade dos resultados.
Produzido
pelo canal franco-alemão Arte, "O Pequeno Quinquin" constitui um
exemplo modelar de uma inventiva articulação cinema/televisão (que, neste caso,
gerou um objecto que é, de uma só vez, uma mini-série e uma longa-metragem para
as salas escuras). Acima de tudo, Dumont demonstra que é possível trabalhar
através de convenções mais ou menos correntes, gerando uma obra que transcende
lugares-comuns éticos e estéticos.
João
Lopes,
www.rtp.pt/cinemax
EXTENSÃO DO 12º INDIELISBOA 2015
TEATRO MUNICIPAL DE FARO
TEATRO MUNICIPAL DE FARO
Dia 6 de Maio
19:00
A Toca do Lobo, Catarina Mourão (Portugal) - Prémio do Público para Longa Metragem Fox Movies
21:30
A Toca do Lobo, Catarina Mourão (Portugal) - Prémio do Público para Longa Metragem Fox Movies
21:30
Ming of Harlem: Twenty One Storeys in The Air, Phillip Warnell (Reino
Unido, Bélgica, EUA) - Prémio SIC Universidades
Dia 7 de Maio
19:00
Dia 7 de Maio
19:00
Rabo de Peixe – (Director’s Cut), Joaquim Pinto, Nuno Leonel (Portugal)
- Prémio TAP para Documentário Português de Longa Metragem
21:30
21:30
Ela Volta na Quinta, André Novais Oliveira (Brasil)
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