ANA, MEU AMOR | 30 OUT | 21H30 | IPDJ


ANA, MEU AMOR
Călin Peter Netzer
RO/DE/FR, 2017, 125’, M/16


FICHA TÉCNICA
Título Original: Ana, Mon Amour
Realização: Călin Peter Netzer
Argumento: Călin Peter Netzer, Cezar Paul-Badescu, Iulia Lumânare, inspirado na obra "Luminita, mon amour", de Cezar Paul-Badescu
Montagem: Dana Bunescu
Fotografia: Andrei Butica
Interpretação: Diana Cavallioti, Mircea Postelnicu, Carmen Tanase, Vasile Muraru, Adrian Titieni, Tania Popa
Origem: Roménia/Alemanha/França
Ano: 2017
Duração: 127'



FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Berlim - Urso de Prata Melhor Contribuição Artística




CRÍTICAS
Depois do fortíssimo "Mãe e Filho" que o pôs na primeira fila dos cineastas europeus (foi Urso de Ouro, no Festival de Berlim, em 2013) , Calin Peter Netzer só em 2017 deu nova obra ao escuro das salas de cinema. Foi este "Ana, Meu Amor" que Berlim voltou a premiar, desta vez, com um Urso de Prata para a montagem assinada por Dana Bunescu. Certeiro é o galardão porque, se há aspeto formal que neste filme se destaca, é a estrutura acrónica — e, nessa estrutura, o essencial trabalho de montagem. Essencial será também o labor dos atores protagonistas (Diana Cavallioti e Mircea Postelnicu), capazes de uma imensurável generosidade física (há uma cena de amor que o mostra sem rodeios, há várias cenas de doença que o mostram ainda mais) e de uma esplêndida gama de registos. E não se pode esquecer o hábil trabalho de câmara à mão (Andrei Butica), a fazer de cada plano um desafio.
No princípio do filme há uma relação amorosa. Ana/Diana Cavallioti e Toma/ Mircea Postelnicu, estudantes na universidade, conhecem-se, atraem-se, amam-se. Enfrentam atritos familiares, pais que não veem com bons olhos aquele envolvimento, diferenças de classe, de perspetivas, até de um passado político que, na Roménia como em todos os países que um dia foram da esfera soviética, está sempre presente, a ruminar. [...] Nada disto é contado de forma temporalmente sequencial, mas em formato de puzzle, em que as sequências de cenas se encaixam não numa relação de causa e consequência, mas de associação (como se alguém estivesse numa sessão de análise, se fosse lembrando de coisas e as fosse narrando). A inteligibilidade do tecido narrativo é assegurada por detalhes fisionómicos (por exemplo, no caso de Toma, a quantidade de cabelo que vai tendo na cabeça) ou por variações laterais (a evolução física/etária do filho de ambos), um espectador atento nunca se confunde.
À estrutura complexa do filme corresponde uma muito particular constituição dramática. O cerne de "Ana Meu Amor" é a corrosão de uma relação amorosa pela excessiva dependência entre os dois polos dessa relação, todavia Cálin Peter Netzer não se pode dizer que goste dos seus personagens. Dos mais velhos, dos da geração anterior à dos protagonistas, certamente que não, com os seus rancores rançosos, as suas rancorosas frustrações. Quanto a Ana e Toma, faz com que o nosso olhar balance sem nunca ganhar âncora. Quando Ana se afunda no seu estado depressivo, fechada em casa, a nossa empatia derrama-se sobre Toma; quando Ana sai, cresce e desabrocha uma vontade de independência (e, ao invés, Toma se torna doméstico) é nela que depositamos todo o nosso enlevo. Pelo caminho tropeçamos no vasto arsenal das coisas que a vida ensina que fazem ferida, o ciúme, a comiseração, as bravatas, a desconfiança (o que é que contaste ao psicanalista que nunca me contaste a mim?), as horas que se esperam, os sucessos e as frustrações profissionais, as vidas que se afastam. Quando o filme acaba, eles são outra vez jovens — e Netzer produz uma vontade cerebral de termos saudades do amor.
Jorge Leitão Ramos, Expresso


Da produção romena, continuam a chegar-nos filmes que se distinguem por um elaborado realismo: "Ana, Meu Amor" é mais um título a confirmar tal tendência, levando-nos a descobrir as convulsões afectivas, familiares e sociais que marcam a vida de um par.
A propósito da estreia de "Ana, Meu Amor", vale a pena recordar que  foi graças a dois títulos consagrados em Cannes que começámos a prestar especial atenção à produção da Roménia: "A Morte do Sr. Lazarescu", de Cristi Puiu, vencedor da secção 'Un Certain Regard' em 2005, e "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu, consagrado com a Palma de Ouro de 2007 — estava-se, afinal, perante o nascimento de um novo realismo romeno. 
Agora, com a estreia de "Ana, Meu Amor", de Calin Peter Netzer, o mínimo que se pode dizer é que essa pulsão realista continua bem viva. De tal modo que a história do par formado por Ana (Diana Cavallioti) e Toma (Mircea Postelnicu) — desde o namoro em tempos universitários até às convulsões da vida conjugal — funciona num duplo registo: uma intensa crónica intimista e um painel social pontuado por subtis alusões críticas. 
Netzer filma com a câmara à mão, "colada" aos seus actores. Um dos trunfos principais do filme é mesmo a capacidade dos actores (sobretudo os excelentes Cavallioti e Postelnicu) aceitarem essa proximidade, num multifacetado jogo de rostos e gestos, revelações e ocultações — o realismo é também, aqui, uma arte de discutir as falsas evidências dos comportamentos humanos.
Com um pano de fundo muito marcado pelas componentes católicas da sociedade romena, o filme confere também especial importância à prática psicanalítica na vida do par (ambos seguem análises mais ou menos perturbantes). Enfim, longe de ser um "típico" filme de Verão, "Ana, Meu Amor" vem mostrar-nos que, nos contextos mais diversos, ainda há quem se interesse pelos paradoxos e contradições dos laços humanos.
João Lopes, rtp.pt/cinemax/

GUERRA FRIA | 23 OUT | IPDJ | 21H30



GUERRA FRIA
Pawel Pawlikovski
Polónia/França/Reino Unido,  2018, 88’, M/14

FICHA TÉCNICA
Título Original: Zimna Wojna
Realização: Paweł Pawlikowski 
Argumento: Paweł Pawlikowski, Janusz Głowacki, com a colaboração de  Piotr Borkowski
Montagem: Jarosław Kamiński
Fotografia: Łukasz Żal
Interpretação: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc, Agata Kulesza com a participação de Cédric Kahn, Jeanne Balibar
Origem: Polónia/França/Reino Unido
Ano: 2018
Duração: 88’

FESTIVAIS
Festival de Cannes 2018 - Melhor Realizador 


CRÍTICAS
O polaco Pawel Pawlikowski, realizador do oscarizado "Ida", filma a história de um amor complicado mas indestrutível, vivido ao longo da Guerra Fria. Eurico de Barros dá-lhe cinco estrelas.
Pouco depois do 25 de Abril, foi publicado em Portugal um livro de anedotas anticomunistas (quase todas passadas na União Soviética) chamado Será o Comunismo Solúvel em Álcool?. Sobre “Guerra Fria”, do polaco Pawel Pawlikowski’ (“Ida”, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro), poderíamos perguntar: “Será o amor louco solúvel no comunismo?”. Tendo em conta a paixão turbulenta, dilacerante e inoxidável que une as personagens do filme, Zula e Wiktor, do pós-guerra na Polónia até aos anos 60, passando por uma Berlim ainda sem muro, pela Jugoslávia titista e por Paris, para regressar ao ponto de partida, tão complexa e ardente como no primeiro minuto, a resposta é simples: não.
Zula (Joanna Kulig) é mais jovem que Wiktor (Tomasz Kot) quando se conhecem, na Polónia comunista, em 1949. Ele faz parte de uma equipa que anda a recrutar e formar os melhores jovens cantores e bailarinos do país, para fazerem parte de um grupo folclórico que representará o país, e a cultura popular socialista, nos países irmãos de Leste e mesmo no Ocidente; ela é bonita, despachada e canta e dança bem. Apaixonam-se e percebem de imediato que são feitos um para outro. Zula até revela a Wiktor que o comissário do partido que acompanha o grupo a encarregou de o vigiar e denunciar, se necessário. Os amantes decidem passar para o outro lado da Cortina de Ferro durante uma estadia do grupo na Alemanha, mas Zula não aparece e Wiktor foge sozinho.
Inspirando-se na história dos pais, que deixaram a Polónia pela Inglaterra, Pawlikowski faz Zula e Wiktor encontrarem-se, separarem-se e reencontrarem-se ao longo dos anos, chegando mesmo a viver juntos e livres durante algum tempo em Paris, onde ele é músico num bar de jazz e toca em bandas sonoras de filmes, e ela chega mesmo a gravar um disco. Mas a inquieta Zula é mais intransigente do que Wiktor, não só em termos artísticos como também na paixão e na dedicação amorosa, e acaba por regressar à Polónia. Incapaz de viver sem ela, Wiktor vende a alma ao diabo e volta também, mas paga o preço da sua dissidência. Zula, no entanto, não o abandona, e não recua ante nenhum sacrifício para o ver livre e ao lado dela. Porque nasceram um para o outro, mesmo que não consigam encaixar seja no Ocidente democrático, seja no Leste opressor.

Filmando, tal como em “Ida”, num preto e branco severo e imperturbável, o que faz que “Guerra Fria” pareça, como aquele, um filme vindo dos tempos do Leste totalitário onde grande parte do enredo se passa, Pawel Pawlikowski conta esta história de um amor constante, complicado e tão abrasador que nem o rigor da invernia ideológica da Guerra Fria o consegue extinguir, recorrendo a grandes elipses temporais, a uma enorme poupança narrativa e a uma banda sonora omnipresente e correlativa sonora dos acontecimentos, que mistura folclore polaco, canções de propaganda comunista, jazz e uma pincelada de rock dos primórdios. E nem chega a gastar meia hora, nesta idade em que grande parte dos filmes se prolongam por duas horas ou mais, numa prolixidade estéril. (A fita teve o prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes).
Tomasz Kot é muito bom no lacónico e meditativo Wiktor, mas “Guerra Fria” pertence totalmente à fabulosa Joanna Kulig, que como Zula nos dá um dos mais arrebatadores retratos de paixão, irascibilidade, tenacidade e devoção feminina do cinema recente. Aos 36 anos, Kulig, que também canta e dança bem, é completamente convincente a interpretar uma rapariga que ainda não terá 20 anos quando a história se inicia, e no final, na década de 60, anda perto da sua idade real. Não é para admirar que seja a incansável e inabalável Zula a encontrar a solução para este amor indestrutível, exactamente no mesmo sítio onde ele nasceu. Sob a sua aparente austeridade e frigidez, “Guerra Fria” é um filme emocionalmente arrasador, com um final de recorte “dreyeriano”, e de derreter o mais gelado dos corações.
Eurico de Barros, Observador

O Atalante | 16 Out | 21h30 | IPDJ



O ATALANTE
Jean Vigo, França, 1934, 98’, M/12


FICHA TÉCNICA

Título Original: L' Atalante
Realização: Jean Vigo
Argumento: Jean Guinée
Adaptação e Diálogos: Albert Riéra , J. Vigo
Montagem: Louis Chavance
Fotografia: Boris Kaufman
Música: Maurice Jaubert
Interpretação: Dita Parlo, Jean Dasté, Michel Simon Origem: FR
Ano: 1934
duração: 98'

Uma história de amor dirigida por Jean Vigo - um jovem realizador que morreu pouco depois, aos 29 anos de idade -, que se tornou num célebre filme de culto. O Atalante conta a história de Jean (Jean Dasté), o capitão da barcaça "O Atalante", e de Juliette (Dita Parlo). Os dois casam-se e Juliette vai viver para o barco de Jean. Algum tempo depois, Juliette começa a dar alguns sinais de cansaço por viver enclausurada e cercada pelas águas do rio. Quando chegam a Paris, Juliette decide dar uma escapadela à cidade para conhecer a vida nocturna. Furioso, Jean resolve partir sem ela, mas as saudades levam-no à depressão. É então que o excêntrico Pai Jules (Michel Simon), um amigo de Jean que também vive no barco, regressa a Paris para tentar encontrar Juliette.
Público


« Uma história de amores e desamores, L’ATALANTE é um filme de culto, uma das obras que mais influenciou o cinema francês que se lhe seguiu, uma das mais deslumbrantes manifestações do imaginário poético de Jean Vigo, a quem chamaram “o Rimbaud do cinema”, que cria uma atmosfera feérica a partir do quotidiano, com um sopro lírico que vem virar do avesso um naturalismo aparente.»

«Um dos 10 melhores filmes do mundo.»
François Truffaut

«Um filme sem igual que faz o desejo e o sonho derramar-se na vida real, num mundo irredutivelemente concreto, carnal, sensual, no nosso mundo vulgar, sem que nos seja possível encontrar qualquer ponto de separação.»
Barthélmy Amengual, Dictionaire du Cinéma, Larousse, 1986





O MEU AMIGO PETE | 9 OUT | 21H30 | IPDJ

O MEU AMIGO PETE
Andrew Haigh
Reino Unido, 2017, 121', M/14

FICHA TÉCNICA
Título Original: Lean on Pete
Realização e Argumento: Andrew Haigh 

baseado no romance de Willy Vlautin
Montagem: Jonathan Alberts
Fotografia: Magnus Nordenhof Jønck
Música: James Edward Barker
Interpretação: Charlie Plummer, Steve Buscemi, Travis Fimmel and Chloë Sevigny
Origem: Reino Unido
Ano: 2017
Duração: 121’

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Venice Film Festival - Selecção Oficial
Toronto Film Festival - Selecção Oficial



TRAILER




CRÍTICA
Um conto de coming of age, variação sobre a fórmula das histórias de amizade entre adolescentes e animais, de uma delicadeza discreta.
Mudança drástica para o britânico Andrew Haigh, que do drama conjugal, psicológico e vivido entre quatro paredes, do filme anterior (45 Anos), passa para o confronto com a vastidão da paisagem americana. Uma coisa que Haigh não deve ser mesmo nada é naif, e O Meu Amigo Pete evita ficar pasmado perante o “mito” e perante a memória do cinema que imprimiu a “lenda americana”. Se há recordações do western, inevitáveis num filme que se passa entre cavalos e as paisagens abertas do Oregon, nem por um segundo elas aparecem enquanto “revisão mitológica”. É muito por isso que este filme, menos coeso, até menos intenso, do que 45 Anos, acaba por nos ir conquistando – a forma como Haigh o constrói, numa inteligência empregue como quem não quer a coisa, sempre sem empurrar nada pelos olhos do espectador adentro, ajuda bastante. Descobre-se que é como um conto de coming of age, quase uma variação sobre a fórmula tradicional das histórias de amizade entre adolescentes e animais, e isso é dado com uma delicadeza discreta, alimentada por cenas onde tudo o que importa ver é o bonding entre um rapaz solitário (Charlie Plummer) e o seu amigo equídeo.
É realista, mas o realismo mais contundente é económico. O pano de fundo é o de uma “economia de subsistência”, onde toda a gente se esgadanha por um punhado de dólares, porque são os únicos dólares disponíveis. Mesmo o circuito das corridas de cavalos é uma coisa working class, empregos e formas de ganhar a vida que valem exactamente por isso, não pelo glamour que não existe. Essa “pequenez” económica contrapõe-se à “grandiosidade” da paisagem, e essa deve ter sido uma ideia que Haigh cultivou, porque é nesse conflito de “escalas” que se desenha a tristeza severa deste olhar sobre a América rural (nos planos muito fechados sobre as casas e os trailers atravancados e o horizonte amplo dos planos mais paisagísticos). Naturalmente, o nó central também é criado por uma razão económica: Pete, o cavalo, está “obsoleto”, é uma despesa insustentável, o seu destino é um matadouro a troco de algum dinheiro. O rapaz decide tentar salvá-lo. Uma história de educação económica transforma-se numa história de educação sentimental. Ou vice-versa, mas sempre com a mais realista das tristezas.
Luís Miguel Oliveira, Público

Dois anos volvidos sobre o soberbo "45 Anos", o britânico Andrew Haigh dirige o seu primeiro filme americano, uma história de amizade entre um rapaz e um cavalo em lugares e numa rota onde não mora qualquer sonho americano. Tudo começa num obscuro beco sem saída, o circuito de corridas de cavalos em fim de linha. Dali, os animais só saem para o matadouro. Quando Pete é condenado, Charley que trabalha ali como tratador não se conforma. Ele vem de um espaço social onde a pobreza é endémica, afeiçoou-se ao cavalo — na verdade, é a coisa mais próxima que ele tem de um amigo. E foge com ele, meia América fora, em direção a leste onde ele pensa ter uma tia que os acolha. Charley é interpretado pelo jovem Charlie Plummer que saiu do último Festival de Veneza com o merecido prémio Marcello Mastroianni, destinado a um ator-revelação e que é um dos intérpretes em forte ascenso no panorama americano (vimo-lo, entretanto, no último filme de Ridley Scott, era o raptado John Paul Getty III, em "Todo o Dinheiro do Mundo").
Para um primeiro filme americano, é muito interessante que Haigh escolha filmar uma América profunda, pobre, agreste até na paisagem. Como é que ganhou fôlego e conhecimento dessa realidade para a conseguir filmar intensamente? O realizador, que encontrei em Veneza, lembra que "há muita gente na Grã-Bretanha que se sente fascinada pela América, talvez porque, comparativamente, o meu país é muito pequeno e não tem aquele tipo de paisagem. Mas é mais do que isso, a América produz um enorme impacto em toda a gente e eu, como cineasta, tento compreender as razões desse fascínio. Vivi lá, por temporadas, nos últimos quatro anos e aprendi um pouco a realidade desse continente". Aprendeu, por exemplo, que a realidade é muito diferente do que os filmes mostram. "A América dos filmes é, obviamente, mais idealizada, com mais esperança, mas se convivermos longamente com americanos vemos que aquela esperança filiada no sonho americano existe mesmo, as pessoas vivem com ela, pode sentir-se. Para o bem e para o mal, nós europeus destroçamos esse tipo de esperança. É talvez por isso que, no filme, o protagonista é empurrado pela força da esperança, mas, no fim, a esperança não se cumpre." Uma das coisas que impressionam na América profunda é a realidade da pobreza, de uma pobreza muito cavada que Haigh olha de frente. Todavia, nota, "passa-se fronteira para o Canadá e tudo muda. É um contraste muito forte".
Para este filme, tudo começa no livro homónimo de Willy Vlautin que Haigh leu "há uns quatro ou cinco anos. Apaixonei-me logo por ele, pela jornada que Charley empreende. Todos os meus filmes são tocados por um sentimento de isolamento" (que não é a mesma coisa que solidão, porque solidão implica um certo grau de sofrimento) "e que tentam compreender e lidar com isso. E Charley conforme as coisas se desmoronam sua volta, vai ficando cada vez mais sozinho — sempre acreditando que as coisas se possam resolver". A sua relação com o cavalo condenado ao matadouro é também uma forma de escapar à solidão, o que empresta a "O Meu Amigo Pete" um lado de fábula ou mesmo de parábola, no sentido biblico do termo, o que encaixa nas intenções do realizador: "Fazer um filme naturalista sem ser demasiado realista."


PAISAGEM SOCIAL

O que mais me interessa no filme não são, todavia, os personagens centrais, o rapaz e o cavalo, mas o cenário físico e social, a paisagem corrompida e os personagens secundários. Para cada um dos múltiplos lugares onde o filme acontece, das pistas de quarta ordem de corridas de cavalos aos espaços urbanos mais ou menos degradados, da floresta ao deserto, há um trabalho de enquadramento onde as coisas nunca são belas ou feias, mas justas, significantes. Esse cenário físico e social é, para Haigh, "fundamental. sempre que se quer expressar algo, sempre que se quer imprimir um tom a um filme. Gosto muito daquelas pessoas que estão na margens, já está no livro um olhar compassivo para com elas, para as suas histórias, para o aspeto comunitário que elas criam. Por exemplo, nas pistas de corridas de cavalos as pessoas conhecem-se, formam como que uma família, na comunidade dos sem-abrigo também. E, na realidade, o que Charley procura é integrar-se numa comunidade, num grupo em que se possa sentir seguro".
Andrew Haigh tem uma forma de filmar cheia de astúcias. Por exemplo, há muitos momentos em que o quadro mostra apenas uma parte do que se está a passar, como se ele não quisesse estar — nem quisesse que nós estivéssemos — demasiado próximos, uma forma curiosa de fazer com que o espectador se aperceba da existência de uma câmara, de um dispositivo de intermediação entre o nosso olhar e o que é mostrado. O realizador explica: "Tentei encontrar um equilibrio entre um olhar subjetivo e a cena objetiva, Charley está presente em cada fotograma do filme, mas quis poder desviar-me ligeiramente dele, para que o espectador tenha vontade de o procurar ou de o confortar." Há, ainda, um trabalho muito apurado sobre o som. Por exemplo, no princípio do filme, com Charley em corrida, há uma quantidade de sons que nos assoberbam, mas não percebemos bem o que são e de onde vêm, é como se houvesse uma agressividade genérica no mundo sem origem definida. Haigh concorda: "O som pode ser incrivelmente expressivo. No princípio do filme, Charley está a chegar a um novo lugar onde morar e, quando isso acontece, há sempre muito som inidentificável em torno. Gosto que os vários materiais de um filme sejam distintos, o som pode criar uma sensação de incómodo, ou de apaziguamento, é muito importante. De resto o design do som de um filme é uma das coisas que mais tempo demoram." Mais do que dirigir um cavalo? Haigh sorri. "É assustador, sobretudo quando o cavalo é a vedeta. Começamos pelo casting e escolhemos um cavalo que tivesse um olhar humanizado. Ele tem muita zona branca nos olhos e parece que nós humanos ligamo-nos mais facilmente a um cavalo com essas características. Dirigi-lo acabou por ser relativamente fácil. Havia um cão em '45 Anos' e foi muito mais complicado. O cavalo estava muito bem treinado, nós criámos as condições para que ele fosse sempre respeitado, um ambiente de filmagens calmo, pouca gente à volta. Adaptámo-nos ao cavalo — por exemplo, deixei de poder gritar 'corta!' para não o perturbar. E Charlie Plummer teve de aprender a fazer os gestos necessários para que ele reagisse desta ou daquela maneira. O cavalo está treinado para dar uma resposta precisa a estímulos precisos. No filme não se vê, mas há inclusivamente linhas traçadas no chão em muitas cenas."
"O Meu Amigo Pete" sucede ao sucesso de "45 Anos". O sucesso é importante? "O sucesso é sempre importante, até para se conseguir financiar o filme seguinte." Porque um sucesso augura um novo sucesso? "Sobretudo porque se sabe o que um realizador é capaz de fazer. Por exemplo, vender a ideia de '45 Anos' não é fácil. São dois velhos dentro de uma casa a falar um com o outro - quem é que quer ver um filme assim? Mas, depois de feito, percebe-se como eu trabalho, percebe-se do que sou capaz. Torna mais fácil vender a ideia seguinte. A história de um rapaz que foge com um cavalo porque o querem abater? Parece uma história do Disney Channel. Sabendo o que fiz antes, percebe-se que eu não farei o que parece, as pessoas têm mais confiança em dar-me o dinheiro”.
Jorge Leitão Barros, Expresso

FRANTZ | 2 OUT | IPDJ | 21H30

Frantz
François Ozon

França/Alemanha, 2016, 113’, M/12

FICHA TÉCNICA
Realização - François Ozon
Argumento - François Ozon e Philippe Piazzo, a partir do filme de Ernst Lubitsch
Montagem - Laure Gardette
Fotografia - Pascal Marti
Música - Philippe Rombi
Interpretação - Paula Beer, Pierre Niney, Johann von Bülow, Marie Gruber, Ernst Stötzner,
Cyrielle Clair, Alice de Lencquesaing, Anton von Lucke
Ano - 2016
Origem – França/Alemanha
Duração - 113´


FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Veneza – Selecção Oficial, em Competição; Prémio Marcello Mastroianni para Novos Talentos – Paula Beer 
Prémios César – Melhor Fotografia 
Festival de Toronto – Selecção Oficial 
Festival de Sundance – Selecção Oficial

CRÍTICA

Uma bonita homenagem a Lubitsch, um dos melhores filmes de Ozon. 
Frantz tem de ser um dos projectos mais estranhos, mas também mais cativantes, da obra de um cineasta tão irregular como François Ozon. Está algures entre um remake e uma “variação”, como um músico de jazz a elaborar sobre um standard. Um remake ou uma variação sobre quê? É logo o ponto onde as coisas começam a tornar-se interessantes: Frantz inspira-se num dos filmes menos conhecidos da fase americana de Ernst Lubitsch, Broken Lullaby (também conhecido por The Man I Killed, de onde veio o título português, O Homem que eu Matei), de 1932, que também é um dos seus tesouros mais resplandecentes. Foi uma das raras ocasiões em que Lubitsch não trabalhou em registo de comédia. Bem pelo contrário, O Homem que eu Matei é dramático, soturno, grave, tintado a cores de luto: conta a história de um ex-soldado francês da Primeira Guerra Mundial que ficou tão marcado pelo rosto do soldado alemão que matou, a sangue-frio, numa trincheira, que uma vez terminada a guerra vai à Alemanha conhecer-lhe a campa, a casa, os pais, a namorada. Afundado em remorso, acaba “sugado” para dentro daquela família, toma o lugar do morto, torna-se, ele próprio, no “homem que ele matou” — duplamente, porque era como se se matasse a si mesmo para o que outro continuasse a viver. 
Contar isto não é revelar toda a história de Frantz, porque, como dissemos, Ozon “varia”, e, sobretudo a partir de certa altura, varia bastante, passando pelo final do filme de Lubitsch sem parar aí, encontrando prolongamentos e “codas” diferentes, rumo a um desfecho também ele diferente embora simbolicamente não muito distante. Mas é um filme que ganha em ser visto com a memória fresca do filme de Lubitsch, fica mais rico assim, porque a relação com ele está mesmo no seu coração — e podemos ver como, para certas cenas, Ozon recorre exactamente ao modelo lubitschiano, repetindo enquadramentos e soluções de encenações, enquanto noutras se afasta. 
Filmando cem anos depois da Primeira Guerra Mundial (no filme de Lubitsch, que também era uma espécie de “aviso” contra uma repetição da guerra que começava a estar no horizonte, estava-se apenas 14 depois do Armistício), Ozon pode ter outra distância no tratamento da época e do seu ambiente cultural, investido de um espírito ainda muito fin de siècle, com recurso à poesia de Verlaine e, em especial, a um lúgubre quadro de Manet, Le Suicidé, que por si só justifica as sequências a cores (o essencial do filme é a preto e branco, como no Lubitsch original) e simboliza, de forma mais explícita do que Lubitsch, o “desejo de morte” subjacente ao protagonista masculino da história. 
Claro que — mudemos agora a metáfora — tudo isto “tempera”, porventura excessivamente, aquilo que na origem era de uma aspereza reduzida ao essencial. Mas, se calhar estranhamente, nada no filme de Ozon parece uma traição ao de Lubitsch (que em nosso entender, é mesmo uma das suas obras-primas). Há uma justeza no tom, um acerto no casting (Pierre Niney é impecável a retomar a fragilidade de Phillips Holmes), uma inteligência no relacionamento com o modelo, que levam o empreendimento a bom porto: é uma bonita homenagem, “cinéfila”, a Lubitsch, e é um dos melhores filmes de François Ozon. 
Luís Miguel Oliveira, Público


CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE | 25 SET | IPDJ | 21H30


CONTOS CRUÉIS DA JUVENTUDE
NAGISA ŌSHIMA, Japão, 1960, 96', M/16


FICHA TÉCNICA
Título Original: Seishun zankoku monogatari
Realização e Argumento: Nagisa Oshima
Montagem: Keiichi Uraoka
Fotografia: Takashi Kawamata
Música: Riichirô Manabe
Interpretação: Miyuki Kuwano, Yûsuke Kawazu, Yoshiko Kuga, Fumio Watanabe
Origem: Japão
Ano: 1960
Duração: 96´


FESTIVAIS E PRÉMIOS
Blue Ribbon Awards (1961) – Melhor Realizador




CRÍTICA

Rebeldes sem causa no Japão

Personagens num vazio moral, à deriva, uma das imagens mais estranhas e poderosas do Japão dos anos 60.
Contos Cruéis da Juventude foi a segunda longa de Nagisa Oshima, estreada no Japão em 1960, quando o realizador tinha 28 anos. Como sucedeu com outros casos, a sua descoberta por europeus e americanos foi tardia e “retrospectiva”: Contos Cruéis da Juventude só conheceu ampla divulgação no Ocidente a partir do final dos anos 1970, na sequência do “sucesso de escândalo” de O Império dos Sentidos. Descobriu-se então, com espanto, um filme que parecia um primo nipónico do jovem cinema europeu do princípio dos anos 60, e da nouvelle vague – mas feito numa altura em que ainda não houvera tempo para se falar numa “influência”.
Hoje conhecemos mais desse contexto e daquilo que ficou conhecido como a noberu bagu, a nouvelle vague japonesa, mas podemos imaginar o choque dos que o viram numa altura em que a percepção dominante do cinema japonês de 60 ainda era o classicismo tardio dos filmes de Yasujiro Ozu. Sobre essa diferença não valerá a pena insistir mais. Mas vale a pena insistir em como o filme de Oshima continua a parecer “novo”, a sua energia difusa, confusa, às vezes caótica, a viver ainda maravilhosamente, porventura de forma mais genuína que noutros momentos futuros da obra de Oshima. Aqui há uma fúria, uma voracidade, que faz coincidir os temas da narrativa com a maneira como Oshima pratica o seu cinema: a exuberância cromática (os neóns coloridos das noites de Tóquio devem ser das coisas mais fotogénicas que já existiram), o tratamento do ecrã largo, a ser ocupado pelos corpos e pelos rostos, a montagem dinâmica, sincopada, às vezes ofegante. É um filme febril, e a febre não se curou nos quase 60 anos que nos separam dele.
E, depois, é um filme que podia ter a mesma epígrafe do filme de Nicholas Ray: “este rapaz e esta rapariga não foram propriamente apresentados ao mundo em que vivemos”. Os filmes de Ray – até pelas cores… – sobre uma juventude tão rebelde quanto perdida parecem de facto presentes em Contos Cruéis da Juventude, e aí talvez seja legítimo falar numa “influência”. Nem Mako nem Kiyoshi, o par de hustlers (assaltam homens de meia idade, “respeitáveis”, que ela seduz) sabe bem o lugar que ocupa no mundo. Vivem do seu lust for life, numa inconsciência – até histórica, como na cena em que assistem, sem se envolverem nela, a uma manifestação contra um acordo militar nipo-americano. São outsiders, fora do mundo, da política, da história, existem apenas num wild side, como energia destrutiva, sabotadora, os homens que eles assaltam representando a sociedade “aceitável”, burguesa, conservadora. Mas daí que o olhar de Oshima seja sempre de enorme ambiguidade, sem condenação (gosta das suas personagens) mas também sem empatia. Filma-os como produto simbólico dum Japão em crise de identidade, a erguer-se da derrota na II Guerra, titubeante entre o tradicionalismo e a modernidade. Como se existissem num vazio, moral em primeiro lugar, e andassem à deriva. Oshima não lhes oferece um porto seguro, e isso parece menos uma condenação deles do que daquele Japão, de que este filme permanece uma das imagens mais estranhas e poderosas.
, Público



EU, TONYA | 27 AGO | CLAUSTROS MUSEU MUNICIPAL | 22H


EU, TONYA
Craig Gillespie
EUA, 2017, 116’, M/16

FICHA TÉCNICA
Título original: I, Tonya
Realização: Craig Gillespie
Argumento: Steven Rogers
Fotografia: Nicolas Karakatsanis
Montagem: Tatiana S. Riegel
Musica: Peter Nashel
Interpretação: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney
Origem: EUA
Ano: 2017
Duração: 120’

FESTIVAIS E PRÉMIOS

Festival de Cinema de Toronto
Oscares - nomeações para melhor actriz principal e secundária e melhor edição.

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CRÍTICAS

Cineasta do insólito "Lars e o Verdadeiro Amor", Craig Gillespie dirige agora Margot Robbie no excelente "Eu, Tonya" — uma evocação de um escândalo no mundo da patinagem no gelo feita com assinalável contundência realista.
Em 1994, quando Nancy Kerrigan, rival de Tonya Harding na patinagem no gelo, foi agredida, Tonya foi ou não cúmplice do que aconteceu?... Não é verdade que a agressão foi montada pelo ex-marido de Tonya?... E porque é que ela nunca escondeu o seu menosprezo pela adversária?...
Eis algumas perguntas que podem definir um enigma policial, mas que não bastam para resumir um filme como "Eu, Tonya", centrado, precisamente, naquela ocorrência. Isto porque estamos perante uma narrativa que, mais do que uma divisão absoluta e definitiva entre "inocentes" e "culpados", procura ser fiel à infinita complexidade dos seres humanos.
Dito de outro modo: "Eu, Tonya" é uma ficção elaborada a partir de factos verídicos, mas com engenho e arte para conservar uma dimensão insolitamente documental. Aliás, o filme dirigido por Craig Gillespie (foi ele que, em 2007, assinou o também insólito e desconcertante "Lars e o Verdadeiro Amor", com Ryan Gosling) organiza-se mesmo como uma hipotética investigação em que, pontualmente, as personagens dão o seu testemunho directamente para a câmara.
Estamos perante (mais) um sintomático objecto marcado por esse desejo de realismo hoje em dia transversal a muitas cinematografias — para nos ficarmos por um exemplo óbvio, recordemos o também recentemente estreado "15:17 Destino Paris", de Clint Eastwood.
Como é óbvio, não tem nada de acidental que tudo isso aconteça através de uma subtil direcção de actores, parecendo certo que Allison Janey, no papel da mãe de Tonya, tem assegurado o Oscar de melhor actriz secundária. Sublinhemos, por isso, a excepcional performance de Margot Robbie, como Tonya, nomeada na categoria de melhor atriz — não é todos os dias que vemos uma actriz capaz de expor o vulgar e o sublime de uma mesma personagem.
João Lopes, cinemax 

“Era assim um bocado como a América: ou se ama ou não se é grande fã, e a Tonya era totalmente americana”, diz-se logo num dos depoimentos iniciais, dados no estilo de falso documentário que enforma a narrativa contada por Craig Gillespie. Narrativa que é uma das histórias mais bizarras dos anos 90 americanos, a do conflito dentro da equipa olímpica de patinagem artística que teve climax na agressão a uma patinadora, Nancy Kerrigan, a mando da entourage da sua rival Tonya Harding. Tonya, cujo ponto de vista é essencialmente respeitado pelo filme, sempre negou a sua responsabilidade no incidente, mas não escapou de consequências drásticas: a carreira de patinadora acabou aí, banida, por decisão judicial, de todas as competições oficiais, e pelo menos durante alguns anos foi uma celebridade, mas uma daquelas celebridades que recolhem o opróbrio do público em vez da sua adoração. Como diz num desses depoimentos a Tonya a que Margot Robbie dá corpo, “pensava que a fama ia ser divertida”. Não foi lá muito, nem foi da maneira que esperava. Mas a fama, o sucesso, são obsessões americanas, e Eu, Tonya é um retrato distorcido dessas obsessões a funcionar. A funcionar, em primeiro lugar, como pressão, sobretudo para quem nasce sem privilégios de classe. Isso é muito bem dado na relação entre Tonya e a mãe (Allison Janney), a principal “curadora” dessa obsessão pelo sucesso — o sucesso em qualquer coisa (calhou ser a patinagem no gelo) — como única forma de ascensão social. Está disposta a tudo pela filha, até a colher o seu ódio pela disciplina férrea que lhe impõe, como se o ódio fosse o preço a pagar pelo sucesso, e o sucesso é para ser obtido a qualquer custo: “nice gets you shit”, “ser boazinha não te leva a lado nenhum” (em tradução livre e menos vernacular), diz-lhe ela numa cena de diálogo que revela, se não a “moral da história”, pelo menos a moral que domina entre as personagens.
O jogo razoavelmente perigoso que Craig Gillespie joga, e que é pelo menos parcialmente bem sucedido é este: encontrar a distância certa para a dar a ver, digamos “criticamente”, esta maneira de pensar e de agir, sem perder de vista uma certa empatia e uma certa gravidade, oferecendo aos espectadores todas as pistas para que se perceba porque é que as personagens pensam assim e porque é que, provavelmente, não podem deixar de pensar assim – é uma questão de sobrevivência. O que equivale a dizer que se o filme aposta numa certa irrisão, também ela “crítica” e devolvida na forma de comédia, nunca se coloca contra as suas personagens, e sobretudo não contra estas duas, Tonya e a mãe (a “comédia” está mais reservada para os homens, o marido e os seus comparsas, desajeitados e nem por isso muito inteligentes). A saga de Tonya acaba assim por funcionar como um olhar sobre uma América “feia”, rural, “redneck”, que em grande medida evita a sobranceria e consegue estar “lá”, numa atitude não necessariamente solidária mas capaz de compreender as suas razões. E com Tonya nunca deixa de estar, o “regard-caméra” desafiante com que a deixamos no último plano sugere que há qualquer coisa a salvar dos escombros: talvez a ideia de que o “sucesso”, afinal de contas, é um estado de espírito, contra o qual os factos e as circunstâncias podem pouco.
Luís Miguel Oliveira, Público

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CURTA METRAGEM DE ABERTURA DA SESSÃO
MIAMI, Simão Cayatte, PT, 2014, 15'


O sonho de fama de uma adolescente transforma-se numa perigosa obsessão.