A MORTE DE LUÍS XIV | 14 MAR | IPDJ | 21H30



A MORTE DE LUÍS XIV
Albert Serra
Portugal/França/Espanha, 2016, 120', M/12


FICHA TÉCNICA
Realização: Albert Serra
Argumento: Thierry Lounas, Albert Serra
Montagem: Albert Serra, Artur Tort, Ariadna Ribas
Direcção de Fotografia: Jonathan Ricquebourg
Música: Marc Verdaguer
Interpretação: Jean-Pierre Léaud, Patrick d'Assumçao, Marc Susini, Bernard Belin, Irène Silvagni, Vicenç Altaió, Filipe Duarte, José Wallenstein, Philippe Crespau
Origem: Portugal/França/Espanha
Ano: 2016
Duração: 120'

FESTIVAIS
Cannes 2016 - Palma de Ouro de Honra para Jean-Pierre Léaud





TRAILER

CRÍTICA

É um filme duma ambientação extraordinária, a iluminação e o décor a procurarem o mergulho plausível numa corte do século XVIII, e onde tudo conflui para o rosto do rei, o rosto de Léaud, feito "Rei-Sol-Negro".

Há duas histórias em A Morte de Luís XIV. Uma é, efectivamente, a descrita no título, a morte do "Rei-Sol", durante longos dias em que uma ferida gangrenada na perna se revela fatal. Tudo nessa história se concentra e se fecha sobre o corpo e o rosto de Jean-Pierre Léaud, que é absolutamente magistral. “Minimalista”, porque construída com recursos escassos e pouquíssimas derivas narrativas ou episódicas, essa história (o melhor seria dizer essa “exposição”) é vivida em termos humanos (um homem a compreender que a morte está a chegar) e em termos simbólicos – um monarca omnipotente confrontado finalmente com um poder maior do que o seu, para o qual nem ele, nem ninguém tem remédio, e que torna todas as suas prerrogativas e todos os seus privilégios em manifestações de uma vaidade terrena, transitória e muito fútil. É o caso da cena em que o rei, indisposto a meio da noite, pede que lhe tragam água e depois se recusa a bebê-la porque não veio servida num copo de cristal. O cerimonial do poder contra a morte sem cerimonial: não há spoiler nenhum, sabemos como acaba, o próprio título o diz (como a célebre história de Tolstoi A Morte de Ivan Ilyich, que o filme de Serra tanto lembra). O que conta é o processo interior com que um rei aceita a sua mortalidade “niveladora”, que o torna igual a todos os outros homens.

A outra história, que aborda um tema que Serra já tinha desenvolvido no seu filme anterior, A História da Minha Morte, é a do confronto do racionalismo com um poder fora do seu alcance, mas que ele ainda acredita conseguir dominar. A “razão científica”, representada pelos médicos e académicos chamados a acudir ao rei, que em diálogos que têm tanto de tocante como de comic relief (quase absurdo) expõem hipóteses e perplexidades e vivem também eles uma espécie de aprendizagem da impotência. Faz todo o sentido que nessas cenas impere a personagem do charlatão (certamente não por acaso, Vicenç Altaió, o actor que fazia de Casanova no filme anterior) e o seu discurso aceitador e “panteísta” – é o único que percebe que a única maneira de vencer a morte é aceitá-la, e integrá-la como coisa natural.
Serra filma isto duma forma absolutamente concentrada e orgânica. Se reconhecemos temas, se reconhecemos o gosto pela história, pela literatura e pelas figuras da história e da literatura, talvez ele nunca tenha conseguido dar essas figuras duma maneira tão perfeitamente coral, uníssona, sem digressões ou apartes. É um filme duma ambientação extraordinária, a iluminação e o décor a procurarem o mergulho plausível (em vez da distância) numa corte do século XVIII, e onde tudo conflui para o rosto do rei, o rosto de Léaud, feito "Rei-Sol-Negro". Tudo nele, o mais pequeno movimento de pálpebras, o mais leve tremelicar do queixo, é um acontecimento. E é todo o acontecimento deste filme em que, sem nada realmente se passar, há sempre alguma coisa para ver. Nem um só momento de tédio: é o melhor filme de Albert Serra.
Luís Miguel Oliveira, Público



ENTREVISTA AO REALIZADOR
Albert Serra é um autor deste tempo, mas a sua erudição e a simplicidade do seu trabalho não têm hoje qualquer paralelo com as de outro cineasta. Os seus filmes tanto podem vir de tratados da literatura e da influência de figuras místicas como da arquitetura clássica ou de códigos do Direito romano. Ele possui um iluminado apetite pela universalidade — coisa rara. É um realizador que não estudou cinema e para bom entendedor tudo está dito. [...]
Também se interessa pela medicina? Quando Luís XIV tomba naquele leito real, a 9 de agosto de 1715, queixando-se de uma dor na perna esquerda que evoluirá para gangrena, os médicos da corte entram em alvoroço à procura de soluções e cada um deles apresenta a sua teoria, o seu show, e ao mesmo tempo o seu desespero, como se tivessem nas mãos uma bomba-relógio.
Eu até acho que é a medicina que dá o sentido de humor ao filme, mas tive muito cuidado em tratar este aspeto: o momento é tão solene como a figura histórica. O humor tinha pois que ser muito subtil. Sempre gostei destas ruturas de tom, existem em todos os meus filmes. O próprio Jean-Pierre Léaud estava disposto a contribuir para estas ruturas: punha-se a interpretar delírios na rodagem, sonhos excêntricos, coisas que não entraram na montagem. Um amigo meu, médico, disse-me que a medicina evoluiu mais no século XX que em todos os 20 séculos anteriores. O que é interessante na medicina do século XVIII é que também ela se prestava a este tipo de loucuras e absurdos porque, todavia, não existia o conhecimento científico que temos hoje.
Por isso surge, às tantas, a personagem do marselhês Le Brun [papel de Vincenç Altaió, que já fizera de Casanova em “História da Minha Morte”]?
É muito cómico o que faz Le Brun: ele é um charlatão e um místico que leva à corte a ideia de que é preciso rodear o rei de espiritualidade, como se a doença fosse só uma sublimação do corpo. No fundo, é a ideia de que a morte tem que ser encarada como uma etapa natural da vida, mesmo a de alguém como o Rei Sol. Pensei muito em Wittgenstein, que recusou tratar-se quando adoeceu e se deixou morrer, simplesmente, por considerar que a doença fazia parte de um ciclo vital. Quando apresentei o filme em Nova Iorque, um crítico escreveu que este é um filme sobre a banalidade da morte em si mesma. Achei a observação muito justa.

Continua a usar o mesmo método de trabalho de “Honra de Cavalaria”, a sua primeira longa-metragem, e que foi apurando nos filmes seguintes?
 “A Morte de Luís XIV” é um huisclos, quase não saímos do quarto do rei. A vontade narrativa não é declarada, não há fascínio nem contemplação, o ponto de vista é um pouco clínico, distante. Mas ao mesmo tempo estamos tão próximos da personagem, Léaud é um ator tão icónico e Luís XIV uma figura tão importante, que as emoções acabam por aparecer. Segui a mesma técnica: não faço qualquer ensaio e dou indicações aos atores durante a própria rodagem. Pequenas indicações que estimulam a improvisação. Tinha um texto escrito, que vinha de fontes históricas e quase não foi utilizado.
Que fontes foram essas?
São sobretudo as memórias de Saint-Simon [1675-1755], escritor e cronista da corte de que gosto muito, e que registam as palavras do rei. Só que esses diálogos, que na verdade correspondem a um período anterior aos últimos dias de vida do rei, bem como o meu próprio fascínio por aquele período da história de França, não me serviam absolutamente para nada. Usámos duas ou três coisas, a conversa com o bisneto, pouco mais. É um texto de descrição factual e exaustiva, por isso não me interessa. A beleza do cinema vem de outras coisas, dos olhares de Jean-Pierre Léaud para os outros atores e para a câmara, da sua interpretação da agonia à medida que a morte vai galgando terreno e vencendo o corpo. Desse estado de confusão. E isto sim, é uma arma do cinema que qualquer espectador pode intuir imediatamente e com um poder impossível de descrever por palavras.
Aquele mimo do rei aos seus cães, no início, cena belissima...
É verdade que Luís XIV gostava de cães, mas essa cena, como tantas outras, foi inventada.
Como é que chega a esse grau de intuição e de erudição com gestos e frases tão simples?
Afasto-me da história porque não a quero lecionar, mas sem a trair. E abro o filme à casualidade, sem qualquer respeito pelo que se tornou tradição no cinema. Um exemplo: aquela coleção de olhos que os médicos utilizam. O espectador fica a pensar que era um objeto que teria, na época, alguma espécie de rigor científico. Ou que serviria de modelo para uma qualquer máscara mortuária. Na verdade, é apenas um objeto que o meu diretor artístico descobriu sem querer, não se sabe para que serve, mas é tão bonito que o utilizámos. Misturo organicamente estes detalhes com os aspetos artísticos mais refletidos para depois convidar de novo o inesperado, o absurdo: como aquele diálogo em que se diz que o pássaro na gaiola do quarto do rei pode ser portador de doenças. Gosto de deixar certas coisas no limite da incompreensão, sem que o absurdo se note. A ambiguidade é em si uma coisa muito bela e, como já fiz alguns filmes, tenho aprendido a apurar cada vez mais a sua subtileza.
Como é que este filme começou?
A colaboração vem de longe: há uns quatro anos, entrámos num projeto encomendado pelo Centro Pompidou em que o Jean-Pierre deveria fazer uma performance ao vivo da morte de Luís XIV num cubo de plexiglass a imitar cristal, flutuante, altivo, suspenso no hall do museu. A ideia era ter Léaud a ‘morrer em direto’ durante 15 dias, quatro horas por dia. O projeto acabou por ser cancelado por falta de verbas mas não o esquecemos. E a ele voltámos, agora para cinema, mas fiéis à ideia original. Já várias pessoas me disseram à saída do filme que sentiram a ilusão de estar dentro do quarto do rei, como se fossem um membro da corte. O que se passa à beira daquela cama, para nós, é abstrato, tal como o poder absoluto que Luís XIV representa o é também. Talvez isto explique, pese embora a sequência repetitiva dos últimos 45 minutos, que o público, paradoxalmente, não se aborreça: é que cada plano traz sempre uma nuance nova, um pequeno mistério que vem da nossa própria perceção do tempo e daquela sensação de performance live que, por ser tão imprevisível, funciona com uma graça particular.
Léaud é o Rei Sol no seu filme, faz uma teatralização da morte extraordinária mas não deixa de ser um ícone do cinema. Decerto que sopesou esta questão.
E era impossível ultrapassá-la. Este filme não teria existido sem Léaud, de resto. Não houve casting: era ele ou simplesmente não havia filme. Vou explicar-lhe o truque que fizemos, e que é muito interessante, Léaud tem uma história de amor com a câmara desde sempre, desde o “Les quatre cents coups”, de Truffaut. Não lhe interessam muito os atores com quem contracena, e pouco lhe importa o público. Talvez por isso ele nunca tenha feito teatro. Tentou uma vez, mas as coisas não correram bem. Neste sentido é um ator ‘muito egoísta’ e eu sabia-o: aquilo que conta para ele é a câmara, nada mais. Ele e eu nunca falámos disto. Limitei-me a explicar-lhe o meu método, disse-lhe que dou indicações durante cada take e que ia usar três câmaras autónomas e sem hierarquia a filmarem non stop, em simultâneo. Ele concordou, tem um respeito enorme pelo realizador. Inevitavelmente, quando chegou o primeiro dia de rodagem, perguntou aos operadores de câmara em que escala o iam filmar — fazia um sinal com a mão a questionar se o queriam enquadrar pela cintura, ou em grande plano.
Como resolveu o problema?
Não tinha resolução: as câmaras moviam-se continuamente, o décor era escuro, ele nem sabia onde as câmaras estavam — até que se dá conta, logo ao primeiro dia, que a tal relação de amor com a câmara não se iria estabelecer desta vez. Então, como reage, como se defende? Interioriza tudo. Começa a dialogar com o seu próprio rosto. ‘Engole’ todo o seu trabalho sobre Luís XIV, o que investigara e lera, toda a preparação aturada que fizera em casa para o papel, sozinho, antes de chegar ao set. A vibração foi para dentro dele porque, no exterior, ele deparava-se com uma situação de impotência pura. Mas os dias de rodagem passaram e ele começou a adaptar-se, a apreciar o que estava a fazer, a dominar tudo outra vez, como tanto gosta, a ganhar confiança — e nesse momento também eu ‘ganhei’ um filme. É que esse trabalho de Léaud, esta experiência que também foi nova para ele, adaptavam-se por completo ao que estava em causa. Estamos a falar de Luís XIV, do homem mais poderoso do seu tempo, do monarca com o reinado mais longo da história de França, e em simultâneo do momento em que o poder absoluto do rei se conjuga com a impotência absoluta. E também Jean-Pierre Léaud é outra pessoa: já não é o jovem rosto irrequieto da Nouvelle Vague que guardamos na memória para sempre, mas um homem disponível para aceitar a morte, para a receber, e que nos dá dela uma interpretação crepuscular.

Não temeu que todo este aspeto simbólico de Léaud fizesse deste um filme sobre o fecho de qualquer coisa, o fim de uma era? Como lidou com isso?
Sinceramente, nunca pensei nisso, mas a Léaud, sim, isso preocupava-o. Há outra coisa que não se vê no filme, pelo menos diretamente, mas que merece ser dita: Jean-Pierre é um ator que chega ao set com um nervosismo e uma tensão extremas. Filmar, para ele, exige-lhe esse estado, é um ritual. Outros cineastas da minha geração, como Bertrand Bonello [que dirigiu Léaud em “Le pornographe”, 2001], confirmaram-me isso depois. Ele fica aterrorizado ao pensar que pode estar a fazer um filme que não chegue à qualidade dos que fez no passado. Aterrorizado de poder ser criticado e destruir o seu percurso, que é de grande integridade. Ele não me conhecia e, além disso, sabia que eu nunca tinha trabalhado com atores profissionais. Mais: sabia que este seria um papel principal em que ele ia estar praticamente em todos os planos do filme.
E quis dar o máximo...
Claro, e deu, mas isso é muito intenso para ele, obsessivo, quase trágico. Em Cannes, no ano passado, ele foi homenageado com um prémio de carreira. Ficámos hospedados uma semana no mesmo hotel e eu sabia que ele escrevera um discurso de agradecimento para o último dia do festival. Pois não houve um só dia dessa semana em que ele não tenha ensaiado obsessivamente esse discurso.
Abordou Quixote e Sancho Pança, os Reis Magos, Casanova, agora Luís XIV...
Como não há registo em tempo real dessas figuras, como a época em que viveram é tão complexa e distante da nossa, permito-me dar delas a minha interpretação. E arrisco dizer que nunca as vimos assim, como nos meus filmes, nem elas foram tão ‘verdadeiras’. Lembra-se de algum Luís XIV melhor que Jean-Pierre Léaud? Para mim, não há.
Os séculos XX e XXI não lhe interessam?
Espere para ver, talvez tenha chegado o momento: o filme que gostava de fazer a seguir, e que já tem guião escrito, passa-se nos dias de hoje. Será um retrato do mundo da arte contemporânea e medirá a importância da arte e o papel do artista na sociedade atual. Centra- se num jovem artista de hoje, ainda anónimo e que começa a ter um bocadinho de êxito, perguntando-se depois se valeu a pena conquistá-lo, se isso não lhe será nocivo. Por mim, sei que não quero viver pelo cinema e para o cinema. Nem este é um apêndice da minha existência.
Francisco Ferreira, Expresso

 
 

TONI ERDMANN | 7 MARÇO | IPDJ | 21H30



TONI ERDMANN
Maren Ade
Alemanha/Áustria/Roménia, 2016, 162’, M/12

FICHA TÉCNICA
Realização e Argumento: Maren Ade
Montagem: Heike Parplies
Fotografia: Patrick Orth
Interpretação: Peter Simonischek e Sandra Hüller
Origem: Alemanha, Áustria, Roménia
Ano: 2016
Duração: 162'
              
 FESTIVAIS E PRÉMIOS
Óscar - Nomeação Melhor Filme Estrangeiro
Golden Globes - Nomeação Melhor Filme Estrangeiro
Prémio Lux - Parlamento Europeu
Festival de Cannes - Prémio FIPRESCI
European Film Awards - Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Actor e Melhor Actriz 



CRÍTICA
Um pai tenta salvar a filha das garras do capitalismo selvagem à escala mundial. Nomeado para os Oscars, o filme Toni Erdmann demonstra que, afinal, os alemães também têm sentido de humor.
Quem já desdenhou do sentido de humor dos alemães que agora dê a primeira gargalhada. A primeira virtude de Toni Erdmann, o filme de Maren Ade que está nomeado para o Oscar para o melhor filme estrangeiro, é desfazer o mito de que os alemães não têm qualquer graça. Afinal, eles sabem rir. E até se riem de si próprios. Contudo, desfaça-se já o equívoco, apesar de proporcionar umas boas gargalhadas, Toni Erdmann não é uma comédia, no sentido mais convencional da definição do género, até porque há um contexto realista atual e uma entoação dramática no retrato cru de um mundo contemporâneo complexo, frio e globalizado.
De forma leve e ponderada, Toni Erdmann propõe-se fazer um ensaio sobre a forma como o capitalismo selvagem e a globalização económica deterioram drasticamente a qualidade das relações humanas. Mas talvez aqui também se possa acreditar que o humor pode salvar o mundo... Ou pelo menos alguns pequenos mundos. Winfried, um excêntrico professor de música de liceu, sente que está a perder a sua filha para a globalização e tenta salvá-la, encarnando uma personagem bizarra, a que dá o nome de Toni Erdmann.
Ines, a filha, trabalha na Roménia numa daquelas firmas que se subcontratam para reestruturações empresariais, ou seja, para “agilizar” os despedimentos. É cega, ambiciosa e fria no seu trabalho. Winfried, como aquela mãe holandesa que partiu para a Síria para resgatar a filha do Estado Islâmico, faz de tudo para devolver a Ines um certo sentido da vida. Cria então uma máscara com o objetivo último de desfazer as máscaras que ela própria transporta. É assim um filme de um realismo cru e extremamente atual, mas com maravilhosos rasgos de magia e humanidade. Toni é um panela de água a ferver num mundo gelado. Um pouco como Amélie Poulain, mas menos piegas; como Goodbye Lenine, mas na desesperada tentativa de derrubar os muros invisíveis que entretanto se construíram e se revelam ainda mais robustos do que os anteriores. Maren Ade tem o incrível mérito de usar bem o humor e o espanto, embora sem se afogar nele. E também de encontrar dois excelentes atores, que se sabem desfazer em camadas...
Manuel Halpern, visao.sapo
 


 


ENTREVISTA COM MAREN ADE 
 
Como surgiu a ideia do filme e deste colorido personagem que é o pai da Ines: Toni Erdmann?
A minha família costuma ser a minha primeira fonte de inspiração, alimenta-me as narrativas e pode influenciar os laços entre as personagens. O pai de Ines, Winfried, inventa um alter-ego, numa tentativa desesperada e audaciosa de recuperar a ligação pai-filha. É assim que Toni Erdmann ganha vida!
O humor é amiúde a melhor forma de transcender a realidade. Incapaz de comunicar com a filha, Winfried encontra aqui uma forma de fugir à situação, criando um personagem. O humor é a sua única arma e é através dele que eles vão conseguir voltar a comunicar...
As suas personagens femininas estão constantemente em sintonia com os seus paradoxos. Isso reflete uma característica que encontra nas mulheres da sociedade actual?
Ines trabalha num meio predominantemente liderado por homens, um estado de coisas que ela interiorizou. Ela considera-se “um deles”, naquele grupo de homens. O problema é que eles não a vêem com os mesmos olhos. Questionei algumas mulheres que ocupam cargos de direcção e a maioria afirma que gostaria de ser a excepção que confirma a regra, mesmo que isso signifique muitas vezes para elas um certo isolamento.
Penso que a Ines é uma verdadeira mulher da actualidade. Quando iniciou a sua carreira, convenceu-se que o livre arbítrio e a igualdade eram um dado adquirido para as mulheres da sua geração e que, consequentemente, o feminismo já não tinha razão de ser. Quando ela declara: “Se eu fosse feminista, não toleraria homens como tu”, di-lo com convicção. Refere-secom desdém ao workshop “A Palavra às Mulheres” ou à Associação Contra o Assédio no Trabalho e assume o mesmo tom sarcástico, e até sexista, quando fala da Anca “que sabe como chegar lá”. Mas para ser franca, a minha intenção não foi denunciar o sexismo no mundo do trabalho. Quis apenas mostrar as coisas conforme são, e acontece que o sexismo faz parte do mundo em que vivemos. A história da igualdade entre os sexos é um tema que tem o condão de me irritar, dada a importância que lhe atribuímos. Enquanto mulher, costumo identificar-me com os personagens masculinos. Quero dizer que quando vejo um James Bond, não me identifico com a Bond girl, e sim com o próprio James Bond. Talvez seja portanto melhor considerar a Ines uma personagem moderna e, por conseguinte, dum género “neutro”, um pouco como um homem que se permite chorar de vez em quando e que poderia confessar ter problemas com a figura paterna.

Então, aquilo que poderia parecer ser um simples conflito familiar revela-se muito para lá disso... Trata-se de um conflito de gerações?
Sim, ao situar a acção do filme na Roménia, pude sublinhar o aspecto político do conflito que se desenha entre os dois protagonistas: dum lado temos o pai que fez tudo para garantir que a filha beneficia da segurança e da independência de espírito necessários ao seu sucesso enquanto mulher adulta, e do outro, a filha que escolheu uma vida bastante distanciada dos ideais do pai e que privilegia uma carreira num meio extremamente conservador em que tudo gira em torno da rentabilidade e do lucro, ou seja, valores que ele, pai, desprezou toda a vida. A liberdade que a geração de Winfried procurou obter abriu – na verdade – a porta a um capitalismo descontrolado subjugado à livre concorrência e ao lucro. Paradoxalmente, ele soube transmitir a Ines todas as competências necessárias para alcançar o sucesso nesse mundo liberal, nomeadamente a flexibilidade, a auto-confiança e a firme crença de que não há limites. Por seu turno, Ines considera demasiado simplista o “politicamente correcto” que governa o pensamento e as atitudes de Winfried. Para a geração do pai dela, foi mais necessário do que na dela afirmar-se, para se distanciar da geração anterior. Embora, desde então, Winfried pareça viver resignado, o seu lado rebelde vai poder reemergir com as características de Toni.
Quando Ines o atira deliberadamente para uma situação que o projecta para o seio da sua actividade profissional, as velhas questões políticas assumem um cunho mais pessoal e revelam-se igualmente actuais. A sua reacção demonstra que a incerteza se implantou sob a sua visão ingenuamente humanista.
O filme é um apelo ao “deixa andar”?
Para mim, o termo “deixa andar” está demasiado próximo da palavra “abandono”, faz-me pensar logo em expressões tiradas dos livros de auto-ajuda. Mais do que um apelo ao “deixa andar”, o meu filme incentiva a que nos assumamos plenamente. Aquilo que Ines faz no fim do filme é bastante radical e é precisa uma certa dose de coragem para o fazer.
Pode parecer um bocado estranho, mas para ela é um novo recomeço: a partir daquele dia, ela será sempre a mulher que abriu a porta ao patrão vestida como veio ao mundo. Ela não se deixa nada ir; na realidade, pode até dizer-se que tomou as rédeas à situação. No final do filme, confrontamo-nos com dois personagens que souberam, amadurecer e aceitar-se tal como são. Podemos também considerar que Toni “se esconde” atrás do seu papel, como se costuma dizer, mas eu, ao invés, penso que Winfried se revela plenamente nos papéis que interpreta. Isso aplica-se particularmente na festa kukeri que é a ilustração do seu verdadeiro eu, ele é mesmo aquela criatura de grande porte, cheia de melancolia e com uma cabeça estranha.

O filme não mostra também que tudo tem um fim?
Todas as relações entre pais e filhos são feitas de rupturas. Quando se abre um novo capítulo para uma criança, isso significa – para os pais – que algo chega ao fim. Vejo isso actualmente com os meus filhos. O meu filho delira com cada centímetro que conquista, e a mim, é a melancolia que me invade. É por isso que há algumas cenas de ruptura no filme.
O Winfried tem um aluno que decide interromper os estudos, morre-lhe o cão, ele e a filha despedem-se várias vezes, sem nunca dizer adeus... O abraço do fim do filme é uma forma de transmitir essa ideia dum adeus. A máscara kukeri transforma Winfried e, durante um momento, Ines tem a sensação de se encontrar diante do seu pai de antigamente, grande e desastrado, o pai que ela conheceu quando era criança. No espaço de um instante, ela pode voltar a ser a menina que foi.