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"O Grande Kilapy"


Na língua angolana kimbundu, Kilapy significa “golpe”, “pedir emprestado sem pagar”. É o que o jovem Joãozinho fez nos anos 1960, mesmo nascido em berço de ouro e sendo um galanteador bon vivant. Não media esforços para desviar dinheiro do Banco Nacional de Angola e entregar aos amigos necessitados, como um Robin Hood moderno. Preso por esse motivo, posteriormente foi libertado como herói nos braços do povo, a maioria combatente da vitoriosa luta pela libertação de Angola, que culminou com a Revolução dos Cravos de 1974 em Portugal.

Esse intrigante personagem é o tema de "O Grande Kilapy", filme do premiado realizador angolano Zezé Gamboa, onde a capital paraibana será palco das filmagens que começam neste domingo. Joãozinho é interpretado por Lázaro Ramos e o elenco conta com atores de vários países lusófonos, como Buda Lira, Adriana Rabello, Maria Ceiça e Antônio Pitanga do lado verde-amarelo do cast, os angolanos Pedro Hossi e Carlos Paca, o cabo-verdiano Sabri Lucaso, o moçambicano Alberto Magassela e os portugueses João Lagarto, Patrícia Bull, Filipe Crawford, Manuel Wiborg, Jorge Silva, Pedro Carraça, entre outros.

Ano passado, o diretor veio prestigiar o 4º Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport), e se encantou com a beleza de João Pessoa. Tanto que notou a semelhança geográfica e arquitetônica com a Luanda colonial, terra do protagonista. Com os devidos contatos estabelecidos durante o festival e o apoio local de órgãos municipais, estaduais e privados, a capital da Paraíba atuará por uma semana a serviço do longa, que também tem locações em Portugal e Angola.

“É cativante essa simplicidade e cumplicidade de vir aqui filmar”, analisa o ator Buda Lira. “Além da possibilidade de atuar com atores de outras culturas”, disse.

Segundo o produtor executivo Fernando Andrade, não só o elenco é internacional: técnicos europeus, angolanos e brasileiros trabalham atrás das câmeras.

Não é de hoje que Gamboa tem um pé no Brasil. Seu primeiro filme, "O Herói", teve atuações das brasileiras Maria Ceiça e Neuza Borges. A película foi a vencedora do prêmio de júri para melhor filme estrangeiro no prestigiado Festival de Sundance de 2008. E foi neste evento que Danny Glover se disponibilizou para viver o pai de Joãozinho em "O Grande Kilapy". Infelizmente o ator estadunidense, que atuou recentemente em "Ensaio sobre a Cegueira", de Fernando Meirelles, não pode encarnar o papel por problemas de agenda. Coube o personagem ao brasileiro Antônio Pitanga.

A previsão para apreciarmos as edificações coloniais da capital na lente angolana de Gamboa é para abril de 2011. 

(Reportagem de Audaci Junior para o Jornal da Paraíba, em 18/09/2010)


CINEPORT 2009


O Festival de Cinema de Língua Portuguesa - CINEPORT, que vai de 01 a 10 de maio, tem como homenageado para a edição 2009 Moçambique. O evento contará com mais de 150 filmes e acontecerá em João Pessoa, capital da Paraíba, no Nordeste brasileiro. A cidade é o "ponto mais oriental das Américas" e acolhe pela segunda vez o festival, que se encontra na sua quarta temporada.


Atente para a programação deste fim-de-semana e quem estiver em terra brasilis está mais que convidado para vislumbrar essa grande janela do nosso cinema de língua portuguesa:



SEXTA, DIA 01

- A abertura do festival será às 20 horas, na sexta, mas a programação já começa à tarde com os debates do II Encontro de Cineclubes da Paraíba, no Hotel Imperial, em Tambaú;

- À noite, na Usina Cultural, a primeira sessão para o grande público é a dos curtas paraibanos do Prêmio Energisa, às 20h30, na sala digital;

- Às 21 horas, será exibido pelo filme dirigido por HELENA IGNEZ: A CANÇÃO DE BAAL. Na Tenda Andorinha;

- Às 21h30, na sala digital, os curtas de ficção que concorrem ao Troféu Andorinha Digital;

- Às 22h30, é a vez de GOODNIGHT IRENE, de PAOLO MARINOU BLANCO, filme português indicado ao Troféu Andorinha de melhor filme, que mostra a obsessão de um ator inglês e um serralheiro por uma atraente pintora cheia de vida.



SÁBADO, DIA 02

- Às 16 horas tem uma mesa redonda do Encontro de Cineclubes, debatendo “Um raio-X da cinefilia paraibana”, no Hotel Imperial;

- Cinco curtas (e médias) paraibanos às 14 horas, na sala digital da Usina Cultural;

- Às 16 horas, um dos campeões de público do cinema nacional dos últimos anos: MEU NOME NÃO É JOHNNY, de MAURO LIMA, com SELTON MELLO, na Tenda Andorinha;

- Às 18 horas, também na Andorinha, novos filmes do cinema paraibano. Dois curtas de TORQUATO JOEL (GRAVIDADE e AQUI E AGORA) e o longa-metragem O SONHO DE INACIM, de ELIÉZER ROLIM, com JOSÉ WILKER;

- No mesmo horário, na sala digital, entram em cena os curtas paraibanos no Prêmio Energisa;

- Às 20 horas na sala digital, será exibido CRISTÓVÃO COLOMBO, O ENIGMA, do centenário - e grande - cineasta português MANOEL DE OLIVEIRA.



- O diretor português ALEXANDRE VALENTE apresenta seu filme SECOND LIFE, às 21 horas, na Tenda Andorinha;

- A sala digital ainda tem o documentário DA VIDA DAS BONECAS, às 21h30min., e os 12 curtas de animação que concorrem ao Andorinha Digital, às 22 horas;

- Um dos filmes nacionais inéditos nos cinemas paraibanos passa às 23 horas na Tenda Andorinha: FELIZ NATAL, estréia na direção do ator SELTON MELLO.



Aguardem que comentarei sobre os filmes e programação aqui e no meu blog pessoal. Salute, pessoal!

Mais Informações: http://www.festivalcineport.com/2009/

"Em terra de cego quem tem olho..."

"Blindness", quinto filme de Fernando Meirelles, abriu o Festival de Cannes no último dia 14, e está também concorrendo a Palma de Ouro. A película é uma adaptação de "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago, único escritor de língua portuguesa agraciado com o Nobel de literatura, em 1998.

Co-produção nipo-canadense-brasileira, o longa só vai estrear mundialmente a partir de setembro. No elenco multiétinico (ou “globalizado”, se preferir) estão Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Alice Braga, Gael García Bernal e Sandra Oh. Nos países de língua portuguesa o filme terá o mesmo nome do romance, deferimento do Saramago.

Voltando ao Cannes, "Blindness" dividiu crítica e público: foi recebido com frieza por um e com aplausos de cinco minutos por outro. "Não vai obter fãs, mas muitos admiradores entrincheirados", profetizou a revista Time; já o jornal Le Monde o denominou um “thriller filosófico”.

Na rede, além do site oficial, o filme tem um blog chamado "Diário de Blindness", escrito pelo próprio Meirelles, onde acompanhamos desde o primeiro “não” de Saramago, passando pelo encontro do autor português com o diretor em Lisboa, as filmagens (no Canadá, Uruguai e Brasil), as diversas montagens e todas as nuances que um sett pode ter. Bem interessante ver esses “extras”, como um bônus de DVD que ainda será lançado.

O livro, editado em Portugal pela Editorial Caminho e no Brasil pela Cia. das Letras , relata uma doença inexplicável, contagiosa e incurável, que deixa a visão da pessoa inundada por um “mar leitoso”. Inserido na “treva branca”, a primeira vítima vai para um oftalmologista, onde dissemina a praga para outros. Os cegos são alojados em um asilo desativado, desapropriados de seus direitos civis e vigiados por um exército que tem ordens para matar quem tentar fugir. Mas a epidemia continua a se espalhar pelo mundo mesmo assim.

Saramago faz uma grande metáfora da civilização desmoronada, das facetas da natureza humana, da degradação do sistema em si e da cegueira moral da sociedade (na epígrafe do livro: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”). Não batiza os personagens e nem a metrópole que acontece a tragédia, refletindo seus ideais comunistas. "Ensaio sobre a cegueira", o filme, além de passar a atmosfera angustiante, física e apocalíptica da literatura, terá que traduzir também toda a complexidade política, antropológica, psicológia e social. Tarefa bem difícil, como outros vários exemplos de adaptações já provaram...

Se o livro merece ser lido (e relido)? Que pergunta! Lógico! Se valer a pena assistir à adaptação em setembro? Por que não? É uma outra visão da obra! Agora, se o filme vai estar à altura da prosa de Saramago? Ai, veremos...

Brasil em Portugal

(Lázaro Ramos no papel de André em O Homem que Copiava, Jorge Furtado, 2003)

O post anterior, do Audaci Jr., fez-me pensar (uma vez mais) na distância gigantesca entre os filmes e os espectadores. Aqui há quase um mês aconteceu em Lisboa a segunda edição da Mostra de Cinema Brasileiro em Portugal. É uma iniciativa da Fundação Luso-Brasileira e faz sentido que seja. O que sempre me surpreende é que, para se ver cinema brasileiro em Portugal, se tenha que organizar uma Mostra. Vou-me dando conta de que, apesar de uma língua comum, não é, de facto, simples nem fácil ver cinema do Brasil em salas de exibição portuguesas. Quem vive em Lisboa ou lá perto ainda pode - uma vez por ano desde há dois anos, note-se - ter a oportunidade de assistir ao que se vai realizando no Brasil. Mas um ser periférico como eu, por mais interesse que tenha no assunto, vê-se grego... E assim, se não for colmatando estas falhas com um DVDzinho aqui e ali, ou seja, nas salas, nicles!, quando ouço falar sobre Cinema Novo brasileiro, parece-me chinês...
(Matheus Nachtergaele no papel de Dunga em Amarelo Manga, Cláudio Assis, 2002)

"O dobro de cinco" será dez?

O nome de Lourenço Mutarelli está em alta. E fico feliz que muitas outras pessoas o encontrem, seja por meio das bandas desenhadas, literatura, cinema ou teatro.
Comecei a acompanhar seu trabalho justamente em O dobro de cinco (lançado em 1999 pela Devir), que está virando filme nas mãos do realizador Dennisson Ramalho, com Cacá Carvalho (conhecido pelo papel de Jamanta nas telenovelas de Sílvio de Abreu) como protagonista. O dobro... apresenta Diomedes, um detetive mequetrefe, com casamento falido e pouca grana. Ele vê uma oportunidade de se reerguer quando é contratado para encontrar um mágico outrora famoso, o Enigmo.
São quatro BDs que compõe a “trilogia do acidente”: O dobro de cinco, O rei do ponto e A soma de tudo (partes 1 e 2). Os últimos livros se desmembraram por consumir mais páginas e mais tempo de produção (geralmente um ano para cada). Mutarelli nos mostra uma história policial, mas com toda sua particularidade e estilo. Sua arte evolui a cada volume, com uma riqueza de detalhes impressionante (vide o detalhe do Monastério dos Jerônimos, em A soma de tudo – parte 1). Encantado por Portugal quando foi lançar O dobro de cinco no Festival de Amadora, nomeou Diomedes detetive intercontinental em A soma..., misturando mais mistério e magia de Lisboa, onde se passa parte da história.
Para o filme, que infelizmente está previsto para 2009 (!) no Brasil, será misturado mise-en-scène de atores, cenário de BD e efeitos visuais em 3D. “A princípio, seria uma animação, mas o Grampá (desenhista de produção) sugeriu mesclar com o action para ficar mais orgânico”, afirmou um dos produtores, Rodrigo Teixeira. Passando os olhos nas fotos de divulgação que circulam por ai, parece que vamos ter mais um ótimo filme baseado em Mutarelli.
Além de O dobro de cinco, foi adaptado para o cinema O cheiro do ralo (com Selton Mello), seu primeiro romance, e Nina (este com animações baseadas em seus desenhos), todos dirigidos por Heitor Dhalia.

Verde e amarelo a preto e branco

(Pensa a Baleia em Vidas Sêcas, de Graciliano Ramos: "Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. ... O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.")

Durante o último mês tenho tentado preencher um vazio na retina dos meus olhos. Começava a ser um buraco demasiado largo e, no fim, arriscava cegar para tudo o que já vi. Não comecei por este, mas Vidas Sêcas, de Nelson Pereira dos Santos, é um dos filmes que com maior energia se fixou em mim. Por motivos diferentes e todos marcantes. O filme foi produzido por Luiz Carlos Barreto (LCB). Assim dito, para alguém que pouco ou nada sabia de cinema brasileiro até há, portanto, uns trinta dias, não significava nada. Mas se se quiser escolher um caminho para se adentrar na filmografia brasileira dos últimos quarenta anos, este nome levará a uma das estradas mais largas.
Além de produtor, neste filme LCB fez também a fotografia - foi como fotógrafo que começou e por aí foi também que me chamou a atenção antes de mais nada. Se não houvesse movimento naquelas imagens (em certas sequências, quase não há), o prazer que tirei de ver o filme seria idêntico ao que teria numa exposição da sua obra fotográfica, tenho a certeza. O realizador foi Nelson Pereira dos Santos, outro caminho amplo para o cinema brasileiro.
Não vejo os filmes só por ou para saber quem os fez, quem os imaginou (embora sabê-lo me ajude a homenageá-los, quando se trata de gente de olhar belo e cru). Neste, poderia não saber mais nada, deixar apenas que as imagens se fossem fixando, ajudadas pelo barulho das cigarras, contínuo e mecânico, pelo rugido seco, seco, do capim sem água por baixo dos pés mal calçados, ou do arfar da cachorra Baleia. Poderia esperar o muito tempo que se espera neste filme por alguma palavra rara (e como é estranho e bonito ver quase sem palavras um filme que se fez de um livro, cheio de tantas), esperar e amar a espera. No fim, a única coisa que me falhou compreender foi como é que, dum país que fala a mesma língua que eu, só agora começo a ver os filmes.

(Se ampliarem a imagem, lá bem no centrinho está ela, a cachorra Baleia. A olhar para a gente.)