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PATER - 2ªf, 21h30, IPJ, verdade e simulacro, parábola e divertimento, documentário e ficção - é a política!!

Pater fala de política, da palavra, de poder, de pais. Perfeitamente. Um filme lúdico e profundo.
Jean-Marc Lalanne, Les Inrockuptibles

Anunciado como “um dos filmes mais bizarros exibidos em Cannes”, aureolado com uma reputação de OVNI ovacionado, “Pater” surpreende até os mais profundos conhecedores da obra de Cavalier.
Joachim Lepastier, Cahiers du Cinéma


Nos últimos anos, Alain Cavalier descobriu as delícias das novas câmaras digitais. Tirando partido dos modelos mais ligeiros, tem feito alguns filmes de inesperado risco introspectivo (lembremos Irène, de 2009) que são também metódicos exercícios contra o naturalismo demagógico da televisão. Agora, com Pater, Cavalier avança um pouco mais nesse processo de discussão dos limites do cinema, integrando um actor cúmplice, Vincent Lindon. Que fazem eles? Pois bem, uma espécie de documentário forjado da sua própria amizade, começando por discutir gastronomia e gravatas, para desembocarem numa farsa em que Cavalier é Presidente da França e Lindon primeiro-ministro, avaliando estratégias para as próximas presidenciais. Para além das perversas conotações que o filme pode adquirir no contexto francês, há nele um sentido de ironia que desmancha, ponto por ponto, a facilidade com que as televisões se assumem como veículos de uma verdade sem mácula. Para Cavalier, receber uma imagem é também discutir os seus graus de verdade. Ou como o cinema pode ser mais sincero que a televisão.
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João Lopes, Diário de Notícias


Inventar a política
Entre várias coisas, uma reflexão, prática, sobre a política como questão de aparências e de representação.

Alain Cavalier (que nasceu em 1931) faz parte daquele grupo de cineastas que acolheu a chegada do “cinema digital” como um novo começo, como a descoberta de um oceano de possibilidades que ainda não existiam. Está no YouTube uma entrevista dele, em Cannes e a propósito de “Pater”, onde ele fala da “invenção sublime” que foram as pequenas câmaras digitais, e de como elas mudaram não apenas o que se pode fazer mas também a maneira de o fazer. Da boca de Cavalier, não é proclamação vã: o seu cinema redescobriu-se e reinventou-se, de facto, a partir do momento em que passou a trabalhar com estes meios, como não será preciso explicar a quem tenha visto os seus últimos filmes, “Le Filmeur” ou “Irène”, ambos mostrados em Portugal.

Em “Pater”, Cavalier pega no ponto em que estava - o “intimismo”, o intimismo de uma cinema feito com o que está à mão e ao alcance da mão - para tornar as coisas mais complicadas. Ao registo diarístico e confessional sucede-se um arremedo de ficção (peculiar, como veremos), ao cinema “na primeira pessoa” sucede-se um desdobramento de personalidade, porque agora há um “partenaire” (o actor Vincent Lindon) e vários “papéis” (para Cavalier e para Lindon) que se sobrepõem. Dá um filme bastante inqualificável - descrevê-lo como? Ficção documental? Documentário ficcionado? - que trabalha em camadas (camadas de “realidade” e camadas de “ficção”) mas sobretudo trabalha na ligação entre elas, parecendo interessar-se essencialmente pelos momentos em que uma coisa se transforma na outra e vice-versa.

A primeira cena (uma cena de refeição, das várias que há no filme) lança os dados. Vemos as mãos de Cavalier a preparar trufas e saladas (a câmara está nas mãos de Lindon), conversa de circunstância, e a dado passo Cavalier anuncia que escolheu Lindon para ser “o seu primeiro-ministro”. Inaugura-se o jogo, o “faz de conta” que está na raiz do filme: Cavalier e Lindon inventarão uma relação de Presidente (o próprio Cavalier) e primeiro-ministro, “Pater” será a história dessa relação sem nunca deixar de ser a história do fabrico dessa relação. Para voltar a pegar em termos de “catalogação” habituais, “Pater” é ao mesmo tempo o filme e o seu “making of”.

O seu principal mérito, no meio de tanto jogo? Nunca parecer só um jogo, conservar a aparência de espontaneidade e improviso sem nunca andar ao Deus dará, investir de uma profunda intencionalidade todos aqueles momentos em que se está “entre” (entre aquilo que Cavalier e Lindon são e aquilo que Cavalier e Lindon representam), e ao mesmo tempo ser, efectivamente, uma invenção, uma invenção política e uma invenção da “política”, cheia de ressonâncias contemporâneas (o dinheiro, claro) e até premonitórias (o “affair” Strauss-Kahn surge como assombração numa cena, aliás soberba, em que Presidente e primeiro-ministro discutem o que fazer com uma fotografia comprometedora do principal rival eleitoral).

O paternalismo da relação, explicitado no título e por vezes evocado de maneira quase psicanalítica (como quando Cavalier, em monólogo frente ao espelho, fala do “autoritarismo” do seu pai, e lamenta ter-se tornado nele), cumpre-se nos seus trâmites clássicos, visto que chegará o momento em que o primeiro-ministro terá que afrontar o Presidente, ser “pater” no lugar do “pater”, e, como na expressão de Cavalier, “tornar-se nele”. Cavalier, nas suas intervenções sobre o filme, tem insistido na questão paternal e no carácter pessoal do filme, talvez uma maneira de frisar a que ponto “Pater”, pesem as espirais e as ficções, continua a ser o resultado de um trabalho sobre o intimismo. Mas isso é só um terço do filme; outro terço é uma reflexão, prática, sobre a política como questão de aparências e de representação (“Pater” fica bem ao lado “Um Passeio Pela História”, o belo filme de Robert Guédiguian sobre os últimos dias de Mitterrand), sucessivas máscaras que se põem e se tiram conforme as circunstâncias (o diálogo em que Cavalier pergunta a Lindon pela sua vida privada, alertando-o para o perigo de qualquer esqueleto no armário); e o derradeiro terço é sobre os dois homens que brincam com todas estas máscaras, dois homens que representam que representam ou não representam de todo, como quando Lindon chega ao apartamento que serve de estúdio, Cavalier recebe-o com um “bom dia Sr. primeiro ministro”, e Lindon desata num longo monólogo sobre algo que lhe sucedeu naquela manhã, não “como primeiro-ministro” mas “como Vincent Lindon”. Ou pelo menos assim o julgamos - e nesta margem de indefinição da falsidade está, se não toda a verdade, pelo menos a verdade mais importante de “Pater”.
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Luís Miguel Oliveira, Público


Na intimidade do poder político
Ator e realizador. Presidente e primeiro-ministro. Alain Cavalier e Vincent Lindon. Ambos documentam os seus encontros e inventam uma ficção política.

Imaginemos os bastidores do poder, o encontro entre dois protagonistas políticos, Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva. Imaginemos que ambos discutem as questões do Estado, saboreando um bom queijo, umas trufas, e partilhando um caloroso vinho. Ei-los comentado qual é a gravata mais adequada, avaliando o custo de um fato e assumindo que não pode ser demasiado caro, ou ensaiando a pose perante um espelho, trocando um conselho amigo.

Impensável? Estamos nos bastidores do poder ou na intimidade dos políticos?

Podemos imaginar que isso sucede projetando-os nas situações protagonizadas pelo realizador Alain Cavalier e o ator Vincent Lindon. Em "Pater", eles discutem questões de método de trabalho de um realizador e de um ator, debatem que filme farão/estão a fazer juntos, interagem como pai e filho, e a certa altura assumem os papéis de um Presidente da República (Cavalier) e do seu primeiro-ministro (Lindon).

Durante um ano, Cavalier e Lindon conviveram, ensaiaram uma relação de poder e construiram uma agenda política (discutindo questões concretas, como os tetos das reformas...). O poder é exercido na intimidade num filme pessoal que foi feito a partir de um esboço de argumento, um esqueleto de nove páginas que não tinha um único diálogo escrito.

Ficção? Documentário?

Este filme é um ovni, objeto estranho que baralha o espetador. Cavalier e Lindon parecem duas crianças divertindo-se perante câmaras digitais, numa farsa diletante que encontra eco na atualidade recente da vida política francesa. Mas brincando aos governos eles revelam um olhar surpreendente sobre as formas de encenação política e de representação no espaço público e mediático.

"Pater" é um óptimo exercício de cidadania, um dos filmes mais livres do ano e que desafia a nossa forma de encarar o modo como o poder (o teatro da política) é exercido perante… os nossos olhos.
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Tiago Alves, Cinemax


CONTÉM DECLARAÇÕES DO REALIZADOR

De que parte do cérebro de Cavalier brotou esta ideia ?
«Senti-me, depois de ‟Le Filmeur‟ (2005) e „Irène‟ (2009), a andar em círculos no meu cinema muito autobiográfico, ou mesmo a atingir demasiado a minha própria imagem », explica.
Mas porquê um Presidente e o seu Primeiro-ministro ? « Há uma fonte muito óbvia nesta ficção . O meu pai, que começou a perder a visão pouco depois dos 40 anos, havia instalado uma bicicleta dentro de casa para manter a forma, depois de ter tido alguns acidentes na estrada, porque se recusava a reconhecer a sua cegueira. Um dia – já velho e a pedalar -, ouvi-o a gritar do outro lado da parede : « Eu também podia ser Presidente da República ! É óptimo, não é ? ».

Uma frase que tem um eco na cena em que Lindon, de frente para a câmara, explica que, sim, ele também poderia ser, na vida real, o Primeiro-ministro.

« O pior foi que, no momento em que eu o disse, acreditei verdadeiramente », explica Lindon sorrindo.
« Pensava que conhecia toda a esquizofrenia da profissão de actor, mas não. »

Em Pater, tudo gira em torno da paternidade, do poder simbólico ou real, das lutas entre machos, do falo, da rivalidade entre homens, entre amigos : o Presidente como pai da nação, como pai do Primeiro-ministro, o actor como filho do realizador, o amigo de 79 anos como pai espiritual de um homem mais novo do que ele…

Porquê Vincent Lindon ?
Porquê recorrer a um actor não só profissional mas também famoso ? Durante 30 anos, Cavalier baniu-os do seu cinema, por gosto e escolha. « Na verdade , desde o primeiro dia de rodagem do meu primeiro filme, „Duelo na Ilha‟ (1962), quando Romy Schneider surgiu à minha frente toda maquilhada, apercebi-me da anormalidade da situação, ou, melhor, que os actores profissionais não eram para mim. É difícil de explicar, mas tinha a impressão de que eles estavam a tomar um poder que era meu. Por exemplo, toda a minha vida me bati, com sucesso, para que nenhum actor, mesmo uma estrela, fosse mais bem pago que eu nas filmagens. Caso contrário, é bizarro. Para além disso, durante as rodagens, muitos actores representam para a equipa técnica. Cheguei a ver técnicos a aplaudir no final de um take. Isso é inconcebível para mim ! »


O último desses profissionais foi Jean Rochefort, em « Un Étrange Voyage » (1981).
« Eu e Rochefort tínhamos a mesma idade, 50 anos. E trabalhando com um actor de 50 anos agora, senti-me a rejuvenescer. Em troca, dei-lhe a oportunidade de filmar um tipo de cinema diferente. »

Porquê renunciar a essa promessa ? Já em „Irène‟, Cavalier admitia o seu fascínio de sempre por Sophie Marceau – através de uma fotografia da actriz colocada num cartaz e à qual ele se dirigia várias vezes. Que se passou ? A resposta tem uma palavra : amizade.

Tudo começa com um encontro fortuito, há dez anos, numa rua de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, (história contada no filme), na rua do Bac. Lindon passeava com um amigo quando reconheceu Alain Cavalier que admirava desde „Thérèse‟ (1986) – Catherine Mouchet, a protagonista, também é natural de Etretat, como a família Lindon, e as duas famílias perpetuaram laços de amizade desde há cem anos.

Ele diz-lhe. « Ficaria muito triste se na minha carreira não fosse filmado por si um dia », diz Vincent Lindon a Alain Cavalier, acrescentando que nunca tinha pedido a um realizador para trabalhar com ele.

Na altura, Lindon sabia-o perfeitamente, Cavalier era conhecido por ter decidido realizar filmes sozinho, com a sua câmara, depois de ter traçado uma mais convencional carreira como realizador, comercial e brilhante. O realizador encontrava-se naquela época a filmar um amigo que aceitou perder 45 quilos em frente da sua câmara (« René », estreado em França em 2002). Cavalier (Lindon saberá bem mais tarde que o cineasta gostou da expressão « ser filmado por si » em vez de « fazer um filme consigo ») respondeu-lhe da seguinte forma :
« Olha, acho que nunca voltarei a trabalhar com profissionais. Mas se eu tiver de o fazer, será consigo. Pode parecer a retribuição de um elogio mas digo-o verdadeiramente. »


Um projecto construído sobre uma amizade
Nesse momento, Lindon ficou dividido entre o orgulho e a dúvida. Mas os dois acabaram por se encontrar com intervalos cada vez menos espaçados. Vão a casa de um, e de outro, bebem café, atravessam Paris a pé até ao 16º arrondissement ou ao 6º ou vão juntos ver um clássico de Hollywood no Action Christine. Eles confiam um no outro.

Lindon, que perdeu o seu pai « demasiado cedo », reúne os seus elos perdidos com Cavalier : « Quando ele era jovem, tinha uma banda com os amigos, bebiam, faziam a festa… Acredito que ele se revê um pouco em mim. Com ele falamos de tudo : mulheres, futebol, Castel, o meu tio Jérôme Lindon, Deneuve ! Ele sabe tudo sobre literatura e arte : para mim, é Malraux ! E para além disso, tudo o diverte, quer as minhas alegrias quer as minhas tristezas. Tudo o interessa. É um pouco como o pai que todos sonharíamos ter… »

Podemos ainda acrescentar que ambos têm em comum serem, durante as entrevistas, muito concentrados e atentos a tudo o que os rodeia : um anel num dedo, uma mulher solitária que chora na mesa do lado, aquilo que lemos, aquilo que pensamos…

Por seu lado, Cavalier teve sempre de enfrentar uma figura paternal muito rigorosa (o seu pai era um alto funcionário). Os dois homens em busca de um pai, e talvez de filhos porque ambos são pais de uma filha única, telefonam-se, falam, bebem copos nos bares de hotéis de luxo em Paris. E assim, num dia em 2007, discretamente, Cavalier anunciou de forma velada a possibilidade de um filme : « Vincent, ontem tive uma ideia sobre ti. Vi-me a filmar-te. Não sei como. Se assim continuar, nada se fará. Mas queria dizer-te que tive uma pequena ideia…”

A ideia progrediu, com mudanças claras. Em Janeiro de 2010, segundo Lindon (que o imita muito bem), Cavalier pronunciou a seguinte frase, rodeado de um copo de amendoins, no Hotel Meurice : « Acho que tenho uma ideia para uma pequena proposta : talvez criemos alguma confusão os dois. Aquilo que te proponho, será melhor se eu te visitar com a minha câmara. Se não correr bem, paramos. » Lindon aceitou.

Para conseguir financiamento, Cavalier escreve uma nota de intenções de nove páginas, mais meditação literária sobre a figura do pai do que um verdadeiro argumento. Um dia, durante a « rodagem », Cavalier surge no filme através de uma voz off, depois aparece de costas e finalmente de frente. Ele desliza para dentro do seu filme, no seu papel. O princípio do filme impõe-se pouco a pouco : os dois, a câmara, um Presidente da República, o Primeiro-ministro, os desafios do poder.


Trabalham entre os dias de rodagem de Lindon nos filmes grandes (nomeadamente o novo de Philippe Lioret, « Toutes nos envies »), improvisam. Filmam num take. Se o filme não ganhar forma, não existirá, tanto pior.

Aqueles que forem ver PATER constatarão que a alimentação e a bebida ocupam aqui um papel importante – tal como no Pai Nosso (« o pão nosso que nos dai hoje ») ? Os encontros entre os dois homens políticos e os dois acólitos, nos seus papéis ou não, flutuam no meio de pratos saborosos (trufas !) devorados com evidente apetite. Encontramos um pouco, mais chic, o ambiente masculino que banhava « Le Plein de super » (1976), o primeiro « filme de homens » realizado por Cavalier e co-escrito com os seus intérpretes (Etienne Chicot, Patrick Bouchitey, Xavier Saint-Macary, Bernard Crombey)

A verdade é que Cavalier e Lindon nunca filmaram sem previamente almoçarem juntos. « Cavalier dizia-me logo no início : „E se, antes de tudo, fossemos comer chucrute no Lipp, Vincent ? » Após o almoço, os dois seguiam para casa de Lindon. E depois, sem pressas, Cavalier colocava a sua câmara e filmava. Sem claquete, sem « corta ! ». A cãmara continuava a filmar durante as interrupções quotidianas (um toque de telefone, um pequeno copo de vinho e uma chávena de chá).

Cavalier dizia com a sua voz suave : « E se falássemos um pouco de política nuclear, Vincent, qual a tua opinião ? » E os dois homens voltavam a ser imediatamente Presidente e Primeiro-ministro…
« Bem, sendo franco, Cavalier cortou bastante, felizmente. Temos frequentemente conversas de café como toda a gente tem na sua vida ! »



Lindon é levado pelo jogo. No dia em que ele se apercebe que o « presidente da República » deseja mudar de « Primeiro-ministro », ele pede a Cavalier para lhe confiar a câmara durante uns dias. Essa cena permaneceu no filme e é uma das mais belas. Ela foi, portanto, filmada sem o seu realizador… « Fizemos coisas incríveis, foi louco, louco ! », exclama Vincent Lindon, de olhos humedecidos.

Sugerimos a Alain Cavalier que a experiência nos faz recordar um pouco a escrita automática, a técnica imaginada por Breton e Soupault para escrever « Les Champs Magnétiques », ou faz-nos pensar na escrita do argumento de « Un Chien Andalou » por Buñuel e Dali (cada um deles propõe uma ideia, uma imagem, que se não agradar ao outro é abandonada). Cavalier quer ser mais modesto, preferindo dedicar-se às intrigas políticas (eleições, traições) que construiu e que dão um fio condutor às suas improvisações.

Das setenta e sete horas de imagens, o cineasta guardou uns três quartos.
« Editava-o progressivamente. A rodagem decorreu durante todo o ano de 2010. Deixei as imagens repousar um pouco para esquecer a euforia da rodagem e para poder contemplá-las com um pouco de objectividade. O filme nasceu a pouco e pouco. Guiou-me. Apenas tive de o seguir. »

Vincent Lindon lembra-se do último dia de filmagens : « Cavalier disse-me : „Vincent, tu sabes, acho que o filme terminou… „ Para mim, do ponto de vista profissional, foi o ano mais bonito da minha vida. »

Chegou o dia em que Alain Cavalier decidiu mostrar o filme ao seu produtor, Michel Seydoux, e a Lindon. Deixou-os a sós na sua sala de montagem. «Saí destroçado », confessa Lindon, « Senti-me mal durante todo o dia. Levei algum tempo a compreender porquê. » Alguns problemas de imagem ?
«Bem, é verdade que pela primeira vez me vi num filme tal como sou na vida real, com os meus tiques…»


Cavalier não procura fugir do assunto : « Todos os actores têm problemas com a sua imagem, é algo inerente aquilo que eles são, à sua profissão. Mudei os meus métodos de produzir filmes mas o cinema é a minha profissão : tudo fiz, portanto, para mostrar Vincent a seu favor. Mas sim, foi difícil para ele aceitar ver-se daquela forma, no início. No entanto, para mim, além de um filme sobre o poder e as lutas de poder, PATER é um documentário sobre ele. »

Lindon tem a sua própria explicação para este mal-estar : « Acabei por compreender o que me incomodava. No início do genérico, Cavalier havia posto : Vincent Lindon em PATER, um filme de Alain Cavalier. E eu disse-lhe : « Não, Alain, não pode ser, tens de estar ao meu lado no genérico ». Ele mudou e agora está comigo. Senti-me aliviado. Podia finalmente aceitar ver o filme. »

A selecção do filme para a competição de Cannes foi outro dos acontecimentos extraordinários desta estranha aventura. Sem falar do triunfal acolhimento do público : « No início, ficámos comovidos, mas depois, ao final de uns minutos, não sabíamos o que fazer ou dizer, portanto continuámos a sorrir e a dizer que aquilo ia parar. Mas não, as pessoas continuaram a aplaudir », explica Cavalier, exprimindo a sua emoção real e visível de forma velada. Lindon é mais directo : « Nunca me esquecerei. »
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Jean-Baptiste Morain



Realizador: Alain Cavalier
Argumento: Alain Cavalier, Vincent Lindon
Fotografia: Alain Cavalier, Vincent Lindon
Montagem Bruno Patin
Produtor: Michel Seydoux
Mistura de Som: Florent Lavallée
Interpretação: Vincent Lindon, Alain Cavalier, Bernard Bureau,Jonathan Duong,
Hubert-Ange Fumey, Jean-Pierre Lindon, Manuel Marty, Claude Uzan
Origem: França
Ano: 2011
Duração: 105’
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Irène: «a intimidade das recordações, a sinceridade das confissões e a complexidade dos sentimentos chegam a ser incómodos de tão profundos». 2ªf, 22.


IPJ, 2ªF 22, 21H30. Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€.




A 16 de janeiro de 1972, lrène Tunc, antiga Miss França e atriz de Melville, Resnais e Truffaut (entre outros), morreu num acidente de viação em Versalhes. Em 2009, quase quatro décadas depois, o cineasta Alain Cavalier, seu marido à época, regressou ao local do crime, reabriu o processo de inquérito e reavaliou as únicas provas do acontecimento que conseguiram resistir à erosão do tempo (as memórias da sua conturbada relação com lrène) para confrontar o espectador com uma pergunta fundamental de mise en scène: como filmar, sem a atraiçoar, a irrepetível singularidade de um corpo já abolido que, tal como exprime a palavra bíblica do hapax, veio à existência "apenas uma vez e nunca mais"? Que o mesmo é perguntar, em abstrato: como incorporar na matéria uma memória?

A questão, como é bom de ver, confunde-se necessariamente com a questão sobre a própria ontologia do cinema, ou melhor, com a questão sobre a essência fantasmática de uma arte que se define, em cada caso, como um exercício de representação de uma ausência, de um passado já transcorrido que reencarna no ecrã graças a um efeito mecânico de projeção luminosa. Ora, perante esta pergunta, a resposta de Cavalier consistirá, sobretudo, numa tentativa de aprofundamento do trajeto de progressiva depuração que tem vindo a marcar o seu cinema, pelo menos, desde "Le Plein de Super" (um curioso road movie de 1976, improvisado com os atores a partir das suas próprias experiências). Com efeito, de então para cá, o cinema de Cavalier tem procurado despojar-se - à força de austeridade minimalista - do acessório, reduzindo as suas equipas de rodagem ao estrito mínimo indispensável e renunciando gradualmente a todas as convenções narrativas tradicionais para visar uma absoluta anulação da distância, um contacto tão próximo quan¬to possível entre aquele que olha e aquilo que é olhado - gesto radical que, ao longo dos anos, o haveria de conduzir ao documentário, primeiro (veja-se, por exemplo, "Un Étrange Voyage", de 1981), e ao diário íntimo filmado em suporte digital, depois (como "Le Filmeur", de 2004).

Neste quadro, o novo filme do cineasta mais não faz do que levar às últimas consequências a forma e o conteúdo do discurso articulado pelos seus trabalhos anteriores. De facto, filmado com uma câmara digital quase sempre transportada à mão e com recurso exclusivo à iluminação natural, "Irène" constitui uma espécie de making of de um filme que se limita a documentar a sua própria impossibilidade, que perscruta incansavelmente os vestígios físicos e afetivos deixados pelo desaparecimento do seu único objeto de investigação (o corpo de Irène) para descobrir que aquilo que configurava a sua singularidade não pode voltar a ser figurado (daí que, aqui, não existam atores; daí que, aqui, a presença de um corpo seja coisa rara). Mas, no meio deste malogro voluntário da representação, o que há para ver, afinal? Apenas isto: o percurso, narrativa e visualmente errático, de um velho viúvo (o próprio Cavalier) que, sempre em voz on, vai confessando à câmara a sua incapacidade de resgatar o seu Lázaro feminino do reino dos mortos.

Filme frágil, tateante e titubeante, que ao mesmo tempo nos comove e nos demove pela ausência de distância que impõe (as suas imagens são quase demasiado íntimas para poderem constituir o objeto de um espetáculo, por mais minimalista que ele seja), que se perde em derivas tão infinitas como inúteis para logo se reencontrar e retomar o fio à meada, "Irène" cativa-nos, é certo, mais pelas questões teóricas que levanta do que pelas respostas concretas que formula. Contudo, que questões como as suas ainda possam, hoje, ser colocadas numa sala de cinema em Portugal é uma coisa que não podemos deixar de aplaudir.
Vasco Baptista Marques, Expresso, 28/8/10




Este cineasta não gosta de ser fotografado. Filmado, ainda menos. E, no entanto, se ele "saiu das imagens" foi para habitá-las e descobrir nelas uma proximidade mais intensa. O cineasta filma-se, é verdade, mas não filma o seu rosto: prefere captar as mãos ou o som da sua voz, que parece estar a centímetros da orelha do espectador. Se a câmara treme, é porque o cineasta tremeu. Se a câmara cai, é porque o cineasta, provavelmente, tropeçou. Encontrámo-lo em Paris, no início deste ano - e falámos um pouco de tudo isto.

A "Irene", tal como a ''Le Filmeur” (2005), tal como a “La Rencontre” (1996), chamem-lhe diário filmado, chamem-lhe confissão, chamem-lhe vídeo amador - não se está muito longe disso aqui. Mas nem o seu autor é amador nem há vídeos assim no horizonte.

Pouco adianta resumir o percurso único de Alain Cavalier, ele que foi compagnon de route da Nouvelle Vague e na sua sombra permaneceu, filme após filme, do fim dos anos 50 até ao presente. Pelo meio, há o ascético e magistral "Thérese" (1986), o seu trabalho mais famoso, sobre a vida de Santa Teresa de Lisieux. Mas o cinema, entretanto, mudou. E o de Cavalier, esse, mudou radicalmente. Como? "A minha resposta é material, está relacionada com a evolução das câmaras e o aparecimento do DV. E creio que esta evolução correspondeu a um pedido inconsciente, quer dizer: cada vez que trabalhava com uma equipa de cinema, em 35 milímetros, dizia-me que aquilo não era para mim. Entre o momento em que sentia uma emoção e aquele em que conseguia filmá-la, perdia tempo precioso, ora a procurar dinheiro, ora a montar uma equipa... Sonhava com outra coisa. Acho que começou tudo com a preparação de 'Thérêse': houve um dia em que tínhamos de filmar um casting e o operador não veio. Meti a câmara no tripé, carreguei num botão. Começou assim. Pouco a pouco, fui descobrindo outro método de trzabalho. E, a partir de 'La Rencontre'; percebi que podia fazer cinema, como eu costumo dier, 'na primeira pessoa': ser o cineasta que filma e que fala, em simultâneo, na urgência do instante, com uma liberdade incrível de movimentos."

A "Irene" podíamos também chamar história de fantasmas. Sim, até porque é do reino das sombras que vem este título (que também é "Reine" e "Renié"), de Irene Tunc, saberemos depois, actriz francesa desaparecida há quase 40 anos e, à época, mulher de Cavaljer. "Irene" é um filme de luto, e aquela é a mulher que aqui se recorda, como quem folheia um álbum de memórias. Em "Irene", sentimos essas páginas imaginárias passarem, uma a uma, enquanto o filme se vai escapando de todas as categorias e o documentário é certamente uma delas.

"Sei que não voltarei a fazer um filme como 'Thérêse''', disse Cavalier. "Não me interessa. Quero ficar em face da pessoa que sou, da realidade, dos objectos, com esta pequena câmara que cabe no bolso. Sinto-me livre. E a minha relação com as coisas é mais digna, mais sincera, se eu estou sozinho. Olho para a história do cinema, e o que é? Uma celebração dos corpos do homem e da mulher. Dos seus movimentos no espaço. Noventa por cento dos filmes são assim. Já quis fazê-lo ardentemente, e fi-lo, com actores magníficos, o Trintignant, a Romy Schneider, o Delon e o Maurice Garrel, o Piccoli e a Deneuve... Agora, prefiro o meu pequeno artesanato."
Francisco Ferreira, Expresso, 28/8/10



ENTREVISTAS A ALAIN CAVALIER
Um homem e a sua câmara atrás de uma mulher que morreu há mais de três décadas. Alain Cavalier diz-nos que durante esse tempo ela lhe batia à porta - havia coisas para concluir entre os dois. Foi com este cinema solitário, diarístico, que acredita nos objectos como sinais (de emoções, de presenças), que Cavalier a ressuscitou. "Ela está sentada ali...", "Irène".


Lembram-se de James Stewart, a querer reconstituir obsessivamente na morena Kim Novak o corpo que perdera da loura Kim Novak... o trémulo, o tão trémulo e tão manipulável Stewart, às aranhas com as suas vertigens, a tentar uma ressurreição, em busca de um corpo "d'entre les morts" (o nome da novela de Pierre Boileau e Thomas Narcejac que Alfred Hitchcock transformou em "Vertigo"; em português "A Mulher que Viveu Duas Vezes").

Alain Cavalier, 79 anos, acredita nesta proximidade entre vivos e mortos. E a verdade é que nos lembrámos de James Stewart ao vê-lo, Alain Cavalier, em "Irène", o diário filmado em que ele, com a sua câmara, persegue o rasto de Irène Trunc, a sua companheira durante anos, que morreu num desastre de automóvel em 1972. Cavalier também vacila em "Irène": chega a cair numa escada rolante de metro com a sua pequena câmara, o instrumento com que renasceu como "filmeur". Isto é, o instrumento com que cortou definitivamente com a sua carreira de "metteur-en-scène", com a grande "máquina de cinema" (actores, guarda-roupa, argumento, produção e etc.), que para ele, que começou como assistente de Louis Malle em 1958 ("Fim-de-semana no Ascensor") e que nos anos 60 dirigiu Alain Delon, Catherine Deneuve ou Romy Schneider, se tornou coisa morta.

Cavalier foi regressando aos poucos - como quem regressa "de entre os mortos"?-, depois do corte com o cinema tradicional, até algo que, para ele, ainda é possibilidade de vida em cinema: o diário filmado, a autobiografia, um homem, a sua câmara e um microfone. Ou, dito de outro modo: com a consciência de que o cinema balança sempre entre o registo da vida e a proximidade da morte, para quê utilizar maquilhagem e efeitos especiais para filmar a morte quando a morte faz tão bem esse trabalho?

Não deixa de ser uma irónica contradição, por isso, encontrar este "filmeur" num hotel de Paris cheio de "metteurs-en-scène", argumentistas e actores (o "rendez-vous" anual da indústria francesa, em que a imprensa internacional é convidada a encontrar e entrevistar, como se diz, "os talentos"), um hotel cheio de gente que se esconde atrás de personagens ou que só se expõe via ficção. É isso que começámos por perguntar a Cavalier: se temos direito, vendo um pedaço exposto da sua vida íntima em "Irène", a lembrar-nos de James Stewart e de Alfred Hitchcock.


Hitchcock é da minha geração. Fomos todos formados por ele. Mas não pensei nele. De qualquer forma, eu venho realmente do trabalho de construção, de como se começa um filme, com a questão do suspense, das personagens, etc, etc, coisa que trabálhamos todos, cada um à sua maneira, a partir dos filmes de que gostávamos. Há em "Irène" um inquérito sobre uma mulher. Há um lado de argumento clássico, de que o cinema usou e abusou durante anos e anos: "O que é que se passou?", "Quem é aquela mulher?", "Ela é isto, é aquilo, serão todas essas a mesma mulher?". Há um pouco disso, um inquérito. Eu não tenho vertigens, como James Stewart, mas sou eu que faço esse inquérito. E, por outro lado, há uma diferença: aquilo que é calculado em Hitchcock, o argumento, a realização, a direcção de actores, no meu caso é um suspense imediato, é vivido naquele instante.

É interessante que fale em suspense imediato, não calculado, porque quando vemos pela primeira vez o rosto de Irène o filme já começou há uma hora. Foi um trabalho consciente sobre o voyeurismo do espectador?
Podia ter sido, mas não foi assim que se passou. Eu dizia a mim próprio como cineasta: é preciso dar um corpo a esta mulher, e não conseguia, e contei ao público que não conseguia. E depois disse: vou tentar dar uma imagem mental de Irène, que pode ser fabricada pelo próprio público. Acabei, na verdade, por dar ao espectador uma vaga realidade do seu rosto. So em determinado momento percebi que podia mostrar uma imagem dela porque isso se enquadrava na acção. Há aquele episódio da fotografia com o cão de Irène a olhá-la, e o texto que escrevi naquela altura, uma página em que descrevia o cão, a praia, a lágrima, aí tinha a ocasião de mostrar uma imagem: ou seja, uma ocasião puramente cinematográfica. Podia acabar o filme ali, se tivesse sido um efeito de construção. Mas era o filme que me conduzia, que me dirigia e eu tinha confiança nele, e foi como uma espécie de prenda. Não foi uma construção, uma coisa pré-estabelecida.

Coloca agora, como cineasta, questões diferentes, você que trabalhou com actores, que escreveu personagens, que trabalhou a construção dramática? Por exemplo, segue um argumento ou algo próximo disso?
Não escrevo, porque já escrevi o argumento: de alguma forma tenho um reflexo de construção no fundo do meu cérebro que funciona automaticamente. Não tenho necessidade de escrever, porque desejo respeitar a vida, ou seja, o que acontece entre alguém, o espectador, sem precipitar as coisas: gosto de ficar a ver o que acontece sem meter coisas à frente. Por isso não quero saber a continuação do filme, como antes fazia, quando rodava em função de um determinado fim. E se eu não sei, o espectador também não pode saber. Hitchcock dizia que o filme era mais rápido do que o espectador, mas aqui isso não é verdade. Em "Vertigo" tudo está construído na base da demonstrção de que aquelas duas mulheres, afinal, são uma só. No meu filme não quero demonstrar nada, O que procuro é descobrir a origem de um sentimento: o regresso desta mulher à minha vida 37 anos depois da sua morte. Eis como me coloquei - perante um inquérito.

Tudo começou com a morte da mãe de Alain Cavalier - primeira imagem de "Irène": o cadáver dela - e o regresso dele aos seus diários. Descobriu, afinal, que era Irène, e não a mãe, que estava em todas páginas - como se um fantasma batesse à porta.

Quem era Irène?

Cada espectador pode reconstrui-la a partir do imaginário de um "film noir": a mulher fatal, dúplice, que mesmo depois de morta chama pelo amado. Ou utilizar ou a sua própria experiência: as cenas da vida conjugal entre Alain e Irène são universalmente "bergmanianas" ou podem assemelhar-se a uma peça de Edward Albee, mesmo se não ouvimos em directo o som de quem pragueja, temos apenas sussurros de uma memória.

Ela dizia "les garçons" ou "les mecs", quando se referia aos homens. Quando dizia "les hommes" queria reduzi-los a patifes. "Les hommes" queriam dormir com ela, ela acabava por ir e um dia laqueou as trompas.

Gostava do sexo pela manhã- o sexo à noite interrompia o seu ritual de preparação para o sono. Chorava no orgasmo.

Muitas vezes Irène queria desaparecer, e Alain ficava tão assustado que a queria salvar. Ou queria desaparecer com ela - ou então desejava que ela morresse.

Há crueldade, e o peso, o fardo, aquilo que já não se aguenta. "Eu esperava pela separação, mas não era capaz de a provocar", diz Cavalier. Um dia ela foi com um homem que gostava de pagar às mulheres pelo sexo. Ela foi e não correu mal. "Não te faz nada que eu te conte tudo? Conto porque quero que me batas. Mereço". Desatou a partir pratos.

Um dia, a seguir ao almoço, Irène impacientou-se, quis ir dar uma volta de carro, chamou por Alain, ele disse "espera", ela não esperou. E foi-se embora. Como se se cumprisse qualquer coisa de que ambos estariam à espera - mas não desta forma, num acidente. Por isso a sensação de que algo ficou por cumprir. Segundo Cavalier, Irène continuou a bater-lhe à sua porta mais de três décadas depois do desaparecimento. E ele nunca sossegou por não ter visto o rosto dela morta. Há culpa, há desejo de pacificação. Mas interessa menos responder à pergunta "quem era Irène?" do que ver como Cavalier, com a sua pequena câmara, vai ao encontro desse fantasma até um reino das sombras.

Há um anterior filme do cineasta, um objecto insólito, raro, e de uma solidão tremenda, "Ce répondeur ne prend pas des messages" (1979), em que ele diz, sobre uma imagem de um filme dele dos "antigos" - daqueles com actores -, que "as imagens, tal como as palavras, não tinham mais utilidade". É um documento que assinala a crise, e não é por acaso que o filme chega no fim de um período de quase dez anos sem Cavalier filmar. É o tal momento de fechamento, de corte do realizador, que aqui se figura envolto em ligaduras (como uma série B, "O Homem Invisível"), pintando as paredes e as janelas do apartamento de negro (como Truffaut isolando-se do mundo com os seus mortos em "O Quarto Verde"). Mas, nos momentos finais de "Ce Répondeur...", o homem que se quer tornar invisível ao mundo faz um fogueira com os restos de uma cadeira que desmantelou. Possibilidade de luz na morbidez escura: filmar-se e ao seu próprio mundo.

Algo iria recomeçar, e outro momento da aventura autobiográfica chamar-se-ia "La Rencontre" (1996). Tratava-se do encontro entre homem e mulher, que praticamente não eram filmados, e era o encontro de Cavalier com o seu novo método: a emoção dos objectos, que se tornam veículos, capazes de incorporarem o que está ausente ou que (por pudor) não se pode figurar ("o amor é imposível de mostrar em filme", ouve-se). Acreditando na equivalência entre tudo (pessoas, objectos, vivos, mortos), este cinema, acredita Cavalier, não deixa de estar próximo da morte, mas é o que pode proporcionar a ressurreição.

Já aí, em "La Rencontre", se documentava a decadência do corpo (a miopia). Como, em "Le Filmeur" (2005), o cancro na pele. O pudor em confrontro com o impudor. "É o teu sonho, meter a tua câmara no interior de mim", diz ao homem da máquina de filmar a sua companheira, Françoise, depois de exames ginecológicos.

A ternura de Alain por Françoise: uma perna de cordeiro prestes a ser cozinhada. Uma garrafa amolgada: as costas da mãe. "Ela podia morrer enquanto eu a filmo", diz Alain sobre a mãe; conseguiria esse plano, a mãe morta, em "Irène". Que é o filme culminante de um método.


Comecei "Irène" com a minha mãe porque a morte dela foi o momento de viragem. Ela morreu muito velha. Eu já tinha filmado o meu pai morto. Ela esteve em câmara ardente durante três dias, ao terceiro dia fui à casa mortuária, à noite, podia ficar horas com o corpo dela à noite. Mas os imbecis tinham-lhe tirado o véu da cara, não era filmável o seu rosto e eu estava furioso. Primeiro chorei e depois fiquei cinematograficamente furioso. É por isso que a filmei de longe. Mas eram planos fundamentais para mim. Por causa dela fui buscar os meus cadernos de diários, que tinha posto de lado há muito, e percebi que havia muito pouca coisa sobre a minha mãe e muita sobre Irène. Foi aí que passei da minha mãe a Irène. Mas fiz isso porque já antes da morte da minha mãe Irène batia à porta.

É muito bonita em "Irène" esta objectificação do corpo dela, que é ao memo tempo um exercício lúdico de fantasmar: as coberturas da cama que duplicam o corpo feminino, as bolas a fazerem de seios. Como é que essas coisas "aparecem"?
É muito simples, é um método. Instalo-me durante alguns dias num local que não conheço - por exemplo, alguém me diz que tem um apartamento que dá para o porto de Marselha e mo pode emprestar. Instalo-me, e estou num estado obsessivo em relação a Irène. Passam-se dois, três, quatro dias e nada acontece, nada vem em minha direcção... E como não quero fabricar nada, uma manhã levanto-me, vou fazer a minha higiene, regresso ao quarto e a cobertura é Irene. É uma prenda da Irène. E aquelas bolas que estavam a um canto tornam-se a cabeça, os seios, e o ventre se ela estivesse grávida... é assim que as coisas se passam. E há um momento em que encontro um fruto vermelho no mercado, não sei o que fazer, compro, trago para casa e, bendito acaso, ao lado há uma caixa de ovos e automaticamente consigo figurar o meu nascimento, tirado a fórceps...Isto acontece porque estamos abertos. São coisas que a minha imaginação nunca poderia inventar, que eu nunca poderia receber. É uma espécie de telepatia.

Houve um momento no seu trabalho em que decidiu fazer as coisas de outra maneira. Porquê?
Sou um materialista. Trabalho em função dos utensílios que tenho. Comecei com câmaras que eram assim [e abre muito os braços], sabia que o ponto de vista não era o meu. O meu é mais rápido e mais imediato quando tenho uma emoção. Antes, quando eu tinha uma emoção, e com câmaras daquele tamanho, eram precisas duas pessoas para montar o aparato, um operador de câmara, etc, etc, e a emoção desaparecia... Aos poucos as câmaras foram permitindo que, se eu tivesse uma emoção, a fizesse sair e ela ficasse imediatamente registada. De repente o mundo mudou completamente. Estou sempre à procura de quem sou, do meu corpo, das transformações do meu corpo, das transformações das ideias, e felizmente que o material [as câmaras] se transformou para poder seguir esse fluxo.

Qual o efeito da rodagem do filme na sua obsessão?
Tem um efeito terapêutico, obviamente. Deve haver uma bolha que se move, que tem necessidade de sair. Os assuntos de filme em que investimos totalmente são raríssimos na vida de um cineasta. Acontece raramente uma situação em que se diga: "quero fazer um filme com isto e vou estar inteiramente dentro." Às vezes esperamos anos. Portanto, tem de facto um efeito terapêutico e ajuda-nos profundamente a viver, mesmo tratando-se de coisas terríveis: dá-nos uma espécie de vitalidade, de luz. Devemos estar no nosso melhor: o nosso corpo, o nosso espirito. Eu tinha decidido terminar a minha vida de cineasta.

Porquê?
Para se ser cineasta é preciso estar fisicamente em forma. Para filmarmos sozinhos - e nunca mais me encontrarei no meio de uma equipa - é preciso ter bons pés. Bons olhos e boas orelhas. Quantos cineastas conheci que já não ouviam bem, que andavam com dificuldade e que continuavam a filmar...

Mas olhe, saiu em DVD o filme de Hervé Guibert "La Pudeur et l'Impudeur", documentário em que ele expôs e documentou [entre Junho de 1990 e Abril de 1991] a sua situação terminal devido à sida [morreu em Dezembro de 1991, e em 30 de Janeiro de 1992 a TF1 difundiu o documentário]. Há momentos magníficos de cinema...
De um jovem doente. E ele não acabou o filme. Foi uma montadora que pegou naquilo e montou, colocou música. Há aquele momento em que ele põe digitalina num copo, e se pergunta se vai beber para morrer ou não, e há uma câmara ali... os homossexuais são os pais do cinema na primeira pessoa. Por causa da urgência que sacode essas pessoas, devido à sida. Há outro filme magnífico...
"Silverlake Life, the View from Here" [de Tom Joslin e Peter Friedman]
... uma obra-prima de emoção, de construção e de ferocidade da vida [tendo sido diagnosticada a sida a Joslin e ao seu companheiro, Mark Massi, o primeiro começa a filmar a experiência com a doença; Joslin morre, e é um amigo e antigo estudante de cinema, Peter Friedman, que continua o projecto]. Transformar isso em ficção seria impossível, não seria justo, não seria verdadeiro. Seria contrario à vida. Eles estão dentro, podem fazê-lo. E ao mesmo tempo está construido como um espectáculo.


Você está a dar uma entrevista, no fundo está a "promover" algo de íntimo. Há jornalistas que lhe vão colocar questões íntimas ou, pelo contrário, deixar de lhe colocar questões porque podem ser íntimas. É contraditório...
Uma vez tive medo de apresentar o filme ao público, numa sessão, tive medo que me perguntassem coisas, um suplemento de informação sobre aquilo que eu mostrava no filme. Mas já há uma parte visível do icebergue com alguma dimensão que permite sugerir o que está escondido... Nunce me recusei responder a questões indiscretas... cada um tem a sua vida, as pessoas vêem o filme e aos poucos o meu ponto de vista subjectivo e os das outras pessoas misturam-se, cruzam-se as experiências pessoais. "A mim aconteceu-me o mesmo, mas não foi bem a mesma coisa porque...". Nunca tive problemas a tentar completar, mas é delicado. E Irène não está cá para dar a sua versão dos factos. Não se pode abusar. Agora que a ressuscitei, ela está sentada ali. Se conto uma mentira...
Vasco Câmara, Público, 27/8/10


Irène foi, durante vários anos, a esposa do cineasta Alain Cavalier. Foi dela que Cavalier emprestou o nome para o seu filme, numa tentativa louca e sublime de reviver, através do cinema, uma história de amor marcada pela trágica morte da actriz no início da década de 70. Conversámos com o autor deste íntimo poema que reúne uma visualidade e exactidão impressionantes.


Pelo tom familiar, pela forma como filma e destaca as palavras escritas nos seus diários, IRÈNE aparece como um filme muito literário. As primeiras obras, mais ou menos, similares que me ocorrem são dos livros NADJA de André Breton e LACRIMOSA de Régis Jauffret: duas celebrações de amores ausentes e sombrios (Nadja acaba internada e Charlotte suicida-se).

Porque optou pelo cinema e não pela literatura para contar a sua história?
Cresci com a literatura. Foi por isso que escrevi os diários.
Depois, quando passei para o cinema, comecei a utilizar as palavras para fazer filmes: uma palavra filmada é tão cinematográfica quanto um rosto.
Reuni as minhas duas paixões.

“Sem morte, sem traição, as histórias de amor tornam-se enfadonhas”, LACRIMOSOSA. “Cobardia, traição e injustiça são tão preciosos quanto o amor, a ternura e força” é um sentimento que ecoa em IRÈNE. Acredita que possa tê-la traído ao fazer este filme?
Se traí Irène ao relatar a nossa vida, sabendo que ela já não está cá para oferecer uma outra perspectiva dos acontecimentos? Falei com ela durante as filmagens. Ela encorajou-me. Não parava de lhe repetir que sabia que era um grande erro da minha parte reduzir os anos que passámos juntos a 85 minutos de filme, mas que era incapaz de resistir a fazê-lo.

“Não existe mais nenhum caminho correcto, ou percurso luminoso, com alguém que nos abandonou. (…) Quando se trata daqueles que amamos, podemos parar de falar e não é silêncio”, escreveu Réne Char logo após a morte do seu amigo Albert Camus.
Ao longo de todo o filme, expressa a Irène, ao espectador e a si mesmo as suas dúvidas quanto à necessidade de fazer este documentário que, aliás, vai adquirindo uma beleza tremenda, “convulsiva”, diria Breton…
Comecei a rodar o filme sem saber se seria capaz de terminá-lo. Sabia, simplesmente, que tinha o perdão e a confissão à minha espera. Acho que ao filmar todos os dias acabei por me libertar, vou usar o filme como entrada para a minha mente e para o meu coração.

Depois de MARTIN E LÉA (1979), THÉRÈSE (1986) e RENÉ (2002), tornou a dar a um filme o nome do seu protagonista. É uma recorrência consciente?
Ao dar a um filme o nome da sua figura central está-se a sugerir ao espectador que vai ter a oportunidade de entrar na intimidade de uma pessoa, de se envolver numa relação entre personagem, realizador e ele próprio. Uma espécie de momento construído a três em que o filme nos é sussurrado ao ouvido.

Irene morreu num acidente de automóvel na década de 70. Porquê esperar tanto tempo para lhe dedicar este filme?
Continuo a sentir que a Irene está mesmo atrás da porta e que, de vez em quando, ainda se lembra de bater. Porquê hesitar em abrir? Por medo do que ela me possa dizer? Por medo de alguma confissão? Porque deveria evitar os meus recantos escuros?
Eu aceito-a de volta, quero que ela reviva. Quero tentar ir mais longe e alcançar a reconciliação.

“Irène queria morrer por um motivo secreto” relata-nos, muito discretamente, no seu filme. Jauffret mostra-se menos escrupuloso: “O suicídio é um homicídio como qualquer outro. Um assassinato premeditado, por uma qualquer fracção da psique. Uma fracção que gradualmente se vai consolidando até ao momento final de indolência”, escreveu em Lacrimosa.
Porque é que na questão das “sombras” de Irène optou pelo sigilo, ao invés de revelar a verdade?
Se observar cuidadosamente o filme torna-se, seguramente, perceptível que são desvendados alguns segredos.
Estão codificados mas não são indecifráveis. Queria partilhar algumas coisas mas, não expondo-as de forma demasiado evidente. Não se trata necessariamente de escrúpulos, mas de uma apreensão em traduzir com base, simplesmente, em palavras os mistérios de uma vida fascinante.

“Desejo que estejas loucamente apaixonada escreve Breton, sobre Nadja. Irène é um filme sobre a loucura (uma mulher, um amor, umas demanda cinematográfica)?
Como é magnífico ser-se jovem e gastar toda aquela descomunal energia para tentar descobrir quem somos, para explorar o amor e o cinema…

Título Original: Irène
Realização: Alain Cavalier
Argumento: Alain Cavalier
Interpretação: Alain Cavalier, Catherine Deneuve, Vanessa Widhoff
Direcção de Fotografia: Alain Cavalier
Origem: França
Ano de Estreia: 2009
Duração: 85’