Mostrar mensagens com a etiqueta realizador Jafar Panahi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta realizador Jafar Panahi. Mostrar todas as mensagens

Marias Cheias de Graça proibidas de ir ao futebol? Vão, pois então! IPJ, 3ªf, 21h30.

Estar fora de jogo é de resto a opção de Jafar Panahi, em Offside, uma das mais brilhantes e atuantes das suas obras, de 2006, que também se estreia agora em Portugal. Um filme de futebol em que nunca se vê uma bola. Porque muitas vezes o mais importante passa-se onde ninguém está a olhar. No Irão, como noutros países islâmicos, as mulheres estão impedidas de ir ao futebol. Não quer dizer que não vão. Dezenas de raparigas, disfarçadas de rapazes, tentam à viva força entrar no estádio para aplaudir a sua seleção. E os soldados esforçam-se para que isso não aconteça. Offside é sobre as raparigas que são proibidas de assistir ao futebol. Claro que, desta forma criativa, o realizador coloca o foco sobre o próprio regime e sobre a condição feminina nas sociedades islâmicas. Tudo com uma ironia brutal. O jogo que se disputa é o Irão-Bahrein que pode dar a classificação do Irão para o mundial de futebol. As raparigas aprisionadas torcem, gritam e festejam os golos do país que não as permite de assistir aos jogos.

O pano de fundo é trágico, e aparece explícito: no anterior Irão - Japão morreram seis pessoas devido a uma impensada ação policial (julga-se que houve uma sétima vítima, que foi uma mulher). Mas o filme, em estilo documental, assim como o moderno cinema romeno, tem um travo de comédia. É simpático e complacente até com os próprios soldados e está cheio de momentos de humor que mostram os aspetos caricatos do próprio regime. E é mesmo ao regime que se aponta o dedo, apesar de nenhum dado palpável o poder demonstrar. O que Jafar Panahi não esperava é que, deste feita, em vez do futebol, fosse o seu cinema que ficasse fora-de-jogo. Estes filmes revelam a coragem de um homem livre.
.
Manuel Halpern, Visão


Chegou com cinco anos de atraso, mas mais vale tarde do que nunca; não será o melhor filme de Jafar Panahi (que para nós continua a ser “Sangue e Ouro”), mas esta comédia sobre futebol onde a bola, o árbitro e os jogadores ficam resolutamente fora de campo usa o desporto como linguagem universal capaz de transcender as regras arbitrárias impostas por uma sociedade regulamentada. “Fora de Jogo” é a história de meia-dúzia de raparigas apanhadas a tentar entrar no estádio onde se joga o “match” decisivo que poderá qualificar o Irão para o Mundial 2006: é uma espécie de versão iraniana do “Breakfast Club” onde elas mandam vir como gente grande, eles não sabem bem o que lhes responder, todos descobrem coisas sobre si próprios e o Irão ganha uma tridimensionalidade espontânea que faz muita falta aos manifestos secos que muitas vezes vemos. Uma das personagens fala da diferença entre o peixe fresco e o peixe congelado: “Offside” diz coisas muito sérias com um sorriso nos lábios. E, contrastado com “Isto Não É um Filme”, explica muito bem que o peixe fresco anda a fazer falta ao cinema - iraniano e não só.
.
Jorge Mourinha, Ípsilon


A proibição à entrada de mulheres em estádios de futebol gera uma discussão sobre a desigualdade de gêneros, e, portanto, cria um questionamento sobre a justiça na sociedade iraniana. A primeira impressão é: já vi esse filme, e algumas vezes. Mas atenção! Por trás das câmeras está um homem chamado Jafar Panahi, que já foi considerado novo gênio do cinema iraniano, já foi considerado um mero diluidor de seu mestre, Abbas Kiarostami, e também já foi considerado, ironia das ironias, um has-been. Ainda que seus longas-metragens não denotem um estilo tão sólido quanto os filmes de Kiarostami, há neles interesse suficiente para acompanhar sua trajetória com gosto e cuidado. Se seu primeiro longa-metragem, O Balão Branco, surgia no cenário dos lançamentos nacionais um pouco para consolidar o lugar-comum que apraz preguiçosos de que cinema iraniano é criancinha chorando por algum objeto perdido, o filme seguinte, O Espelho, já revelava uma aplicação formal que retirava o filme das convenções mais rasteiras do naturalismo e, tanto pela adesão total ao percurso da menina-protagonista quanto pelo preciso acabamento, conferiam um caráter bastante distintivo ao filme. O Círculo, ao invés de perseguir apenas uma menina, criava um painel de como a mulher é tratada desde o momento do nascimento até a morte, integrando e largando as diversas personagens ao longo da narrativa, criando um verdadeiro personagem-coletivo (como O Encouraçado Potemkin ou A opção). Pronunciava-se aí uma faceta nova em seu cinema, uma veemência poítica inesperada no seio de um cinema que, apesar de sempre muito político, escondia suas preocupações sociais em tramas que a princípio pouco tinham de contestadoras. Esse foi um passo que, possivelmente, até pode ter inspirado Kiarostami a fazer a obra-prima que é Dez.

Em Fora de Jogo, há muito dos filmes anteriores: as personagens femininas, o costume social que se transforma numa possibilidade de questionamento, a precisão do dispositivo. É possível mesmo acreditar que se trate de um filme-soma, de uma espécie de síntese de seu trabalho. Mas a sensação que se tem vendo o filme é, ao contrário, a de que temos diante de nós um diretor que pensa unicamente nas soluções dramáticas mais adequadas a seus projetos, e que isso é muito mais do que uma assinatura estilística ou temática. A estética de Jafar Panahi abre seu cinema para o mundo, ao passo que outras estéticas só fazem adequar o mundo a ritmos, atmosferas e recorrências estilísticas de autor que o fecham em um cineaquário. E é essa disposição de fazer um filme colado ao movimento do mundo, rodar um filme como roda o mecanismo de uma máquina, que torna o cinema de Jafar Panahi tão instigante.

O material, como já dissemos, não é novo. Filme-processo, corre-corre, estamos já num engarrafamento, um pai tenta resgatar sua filha que está num dos ônibus que vão em direção ao estádio onde o Irã disputará contra o Bahrein uma partida que pode lhe valer a classificação para a Copa do Mundo de 2006. Em seguida, vemos um ônibus de torcedores, acontece uma confusão, briga, todo mundo sai de seu lugar, menos uma pessoa, uma figura toda cheia de roupa, de traços delicados, vestida como moleque, boné para trás, roupas largas. Espectadores, anteciparemos por alguns instantes a reação de um menino no mesmo ônibus: trata-se de uma menina que precisa se disfarçar de homem para entrar no estádio. Clandestina de primeira viagem, ela observa como fazem outras meninas para burlar a segurança, e é por intermédio dela que nós também passamos as grades do estádio. Ela continua seu percurso até esbarrar num segurança e, desesperada por não saber como continuar, entrega sua identidade. A partir daí, ela é levada para uma espécie de gaiolinha improvisada com grades de segurança onde estão outras meninas, e lá ficarão durante quase todo o jogo (e quase todo o filme). Daí, à medida que somos apresentados às personagens masculinas e femininas envolvidas na situação e, conseqüentemente, às suas índoles e comportamentos, o filme abruptamente abandona nossa ex-protagonista e passa a seguir as ações e intrigas de outros personagens.


Mas esse abandono não significa também o abandono da intriga de thriller para chegar às arquibancadas ou, pelo menos, ter notícias do que acontece no jogo mesmo presas às grades. O que Fora de Jogo faz é criar uma outra linha de significação, paralela, que expõe a nu uma partilha de direitos e deveres diferenciados para homens e mulheres. Uma linha especulativa, nascida nas trocas de diálogo entre os jovens soldados e as jovens prisioneiras, que se acresce à tensa intriga original, de tentar assistir ao jogo ou, pelo menos, saber se o Irã está ganhando, de quem foi o gol e como o time está em campo. Mas o interessante, e é aí que o filme se destaca das ficções habituais de questionamento dos valores sociais ou mesmo dos filmes de tema político, é que a narrativa não precisa recorrer a nenhum personagem malvadinho para que se atravanque a vida de nossas pequenas heroínas. Jafar Panahi observa, ao contrário, como as intedições ao universo feminino não depende da má índole daqueles que as transformam em ato – os soldados são, na verdade, apenas bons rapazes que devem fazer a tarefa que lhes foi designada a fim de que não recebam sanções –, mas estão enraizadas numa cultura que se atualiza a cada tom de voz mais alto, a cada autorização para usar a força, a cada vez que automaticamente uma ação, um gesto, escondem sua própria arbitrariedade nas costas do "sempre foi assim". Nesse momento, Fora de Jogo cria ainda uma outra camada, um thriller ainda mais emocionante, nos olhos dos personagens jovens, seja quando eles fazem o que devem fazer, mesmo que saibam que existe aí uma auto-confessada injustiça, ou quando elas fazem aquilo que não deveriam fazer, mesmo que saibam que reside em seus gestos a centelha da justiça. No simples relutar acerca desse estado de coisas – um pensar antes do fazer automático, um voltar atrás da decisão, ou até a suspensão total da culpa –, existe um sub-reptício e profundo deslocamento da questão sobre a justiça da partilha entre o que cada sexo pode e não pode fazer.

Nos diálogos entre mulheres e homens, elas pedem motivos para não serem permitidas nos estádios. Aforas as mais costumeiras respostas pleonásticas – "porque só é permitido entrar homens" –, volta e meia aparece uma resposta, para ser em seguida questionada de volta pelas meninas. Num momento, um jovem fala: "Porque os homens se comportam mal, falam muito palavrão". Curiosa lógica, que ao invés de reprimir aqueles que se comportam mal, exclui aquelas que, a princípio, se comportariam bem (pois nada exclui que elas também queiram xingar). Mas ao mesmo tempo é uma lógica, por vias transersas, também protetora: é também por vergonha de expor as mulheres à má-educação dos homens que os soldados tentam justificar essa separação. Essa proteção pode se dar por delicadeza, mas, como se sabe, também pode ser uma maneira muito eficaz de esconder o preconceito. E aí Fora de Jogo novamente se destaca, ao equacionar ternura e violência sem fazer uso mesquinho de qualquer um dos dois ("no fundo ele usa a ternura para proibir", ou "ele proíbe porque no fundo ama"), apenas colocá-los ligados num mesmo lance, imbricados da mesma forma que o desejo desses jovens de ajudar as meninas porque sabem que elas têm direito, e a impossibilidade de ajudá-las porque isso significaria extensão do contrato.


As moças são transportadas antes do final do jogo, e o furgão deixa o estádio – com motorista, um soldado, as meninas e mais um menor portando fogos de artifício, também proibidos – a alguns minutos de acabar o jogo. A cidade está inteiramente mobilizada, pois afinal o Irã está prestes a faturar a classificação para a Copa. Gradativamente, o furgão vai sendo contaminado pelo espírito da classificação que se confirma, e o inesperado se produz. Momento de epifania, de beleza mística, em que uma intervenção quase mágica suspende a culpa de todos e, pelo menos uma vez, pouco importa se somos soldados ou presos, sujeitos ou assujeitados, homens ou mulheres. Desfeita a lógica da separação, desfazem-se os elos "justos" que a tradição impõe a despeito mesmo do bom senso daqueles que a fazem cumprir. Abre-se uma possibilidade, para um equilíbrio mais justo, mais igual, para um diálogo maior entre papel feminino e papel masculino. Uma hora ou outra, a comemoração terminará, voltarão todos às suas casas, e com os ânimos de volta ao normal, se restabelece a antiga ordem. mas no coração de alguns jovens, homens e mulheres, estará mantida a lembrança do dia em que as distinções se esfacelaram em nome de uma alegria maior. É na confirmação sem soluções fáceis desse estado de coisas que parece nunca mudar mas que teima em mudar aos poucos que Fora de Jogo emociona, e Jafar Panahi encontra o espaço de fazer seu cinema, que sabe ser mais político na chegada do que na partida, mais na forma do que no tema, mais na frontalidade do que na pompa da relevância. Impedidas de assistir ao futebol, nossas heroínas acabaram ganhando um jogo talvez bem mais importante.
.
Ruy Gardnier, contracampo




Título Original: Offside
Realização, Argumento, Montagem e Produção: Jafar Panahi
Fotografia: Mahmood Kalari
Som: Nezam-e-din Nezam Kiaee
Música: Koorosh Bozorgpour
Interpretação: Sima Mobarak-Shahi, Safar Samandar, Shayesteh Irani
Origem: Irão
Ano: 2006
Duração: 93’

.

proibe-se que filme? então, filma. e o filme sai de casa numa pen escondida num bolo. ISTO NÃO É UM FILME. (ai é, oh se é...)

2ªf, 16, 21h30, IPJ

sócios 2€, estudantes 3,5€, restantes 4€

Um realizador que passou a sua obra a mostrar pessoas enclausuradas torna-se personagem (forçada) do seu cinema.

A sequência, em “Isto Não é um filme”, em que Jafar Panahi desenha no chão a clausura que cerca a personagem de um argumento seu que nunca chegou a realizar (uma rapariga que os pais não deixaram que se matriculasse na faculdade e que encerraram em casa) é momento de trágica ironia - intromete-se aqui a “ironia” por pudor. É como se a um realizador que passou a sua obra a mostrar pessoas enclausuradas chegasse o momento de ser personagem do seu cinema. É como se um cineasta tivesse passado a sua obra a explicitar a vida cercada no Irão e com isso tivesse arquitectado a geometria do seu enclausuramento. Construindo, bloco a bloco, filme a filme, o muro que hoje o isola do mundo.

Jafar Panahi teve a colaboração do seu colega documentarista Mojtaba Mirtahmasb para documentar o seu estado de espírito enquando aguardava, em prisão domiciliária, a decisão sobre o recurso, para os tribunais iranianos, da pena que o condenou a seis anos de prisão e a 20 sem poder trabalhar e dar entrevistas - pena que viria a ser confirmada; Mojtaba Mirtahmasb foi, entretanto, preso. “Isto não é um filme”, que chegou à Cinemateca francesa em Paris numa pen dentro de um bolo (e de Paris a Cannes 2011), começa por ser, então, a crónica desse desespero. De uma paralisia forçada. Jafar, no seu apartamento de Teerão, sem os seus filmes. Jafar e os filmes que nunca o foram porque nunca deixaram de ser argumento - é de Mirtahmasb a ideia, explicitada em “Isto não é um filme”, de institucionalizar um género cinematográfico iraniano, o dos argumentos que a censura não deixou que fossem filmes.


Há algo próximo do “escândalo”, aqui, na forma como somos progressivamente tomados e ocupados por esta coincidência entre as vidas que Panahi ficcionou e a vida que Panahi vive, nestas imagens em que o realizador foi empurrado para dentro do seu cinema (“Isto não é um filme” será o contrário, nesse caso, de “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen: não é uma personagem que sai do ecrã, é um realizador que é empurrado para dentro dele). “Entre paredes”, como a rapariga de “Offside”, impedida de entrar para o estádio e assistir a um jogo de futebol, imobilizada num rectângulo de segurança no exterior - filme de 2006, também é agora estreado e lançado em DVD; ou como o vendedor de “pizzas” de “Sangue e Ouro” (2003), personagem à medida de um “film noir”, com sombras das grades cravadas sobre a sua vida - um dos filmes que mais explicita a violência de uma sociedade (argumento de Abbas Kiarostami, sempre menos explícito nos seus próprios filmes); ou como as mulheres de “O Círculo” (2000), esse filme que se experimenta, de forma terrível, vibrante, como um corrupio sem saída, linhas circulares que se estancam apenas quando o rectângulo de uma janela de cárcere se fecha - recorda-se o seu aparecimento no Festival de Veneza, a sensação para um espectador, mesmo (ou sobretudo) aquele habituado aos ziguezagues campestres iranianos através de Abbas Kiarostami, de que nunca tinha visto nada assim, Teerão, finalmente exposta, esventrada, Teerão cidade aberta (para o espectador ocidental), Teerão cidade fechada.

Tudo isto, a angústia e a claustrofobia que vivem no cinema iraniano (naqueles filmes iniciais, com crianças, de Abbas ou de Jafar - este começou por ser assistente daquele), com as intermináveis conversas e situações que não se resolvem, está connosco, no nosso imaginário, quando estamos com Jafar no seu apartamento.

O nosso egoísmo de espectadores dirá, depois, que há um momento que (nos) salva. Quando Panahi deixa de ser personagem e passa a ser realizador do seu cinema - consola-nos que nesse momento ele experimente algo próximo da salvação. A câmara passa a ser empunhada por quem até aí tinha sido o objecto do aparelho, Jafar encontra uma personagem, um “homem do lixo”. Num elevador, em minutos que parecem intermináveis (o cinema pode libertar, mas o cinema iraniano também liberta a sensação de claustrofobia), concretiza-se a beleza e também a crueldade de uma cinematografia: vampirizar e, simultaneamente, deixar-se consumir por uma personagem. É justo. E a evidência de que quando existe “cineasta” existe “cinema” - e não apenas filmes.

Lá fora, a população de Teerão comemora festividades, Jafar fica à porta do edifício (não pode aventurar-se mais, está proibido), é a antevisão de algo próximo da liberdade. Exactamente como no final de “Offside”, quando as personagens comemoram a vitória futebolística do Irão - mas como nesse filme, é algo próximo do sonho, do desejo, do fantasma. O cinema servirá de consolo?

Vasco Câmara, Público


O título deste filme não é uma figura de linguagem, é uma verdade. Isto Não é um Filme não é um filme porque seu idealizador, o premiado diretor iraniano Jafar Panahi, está condenado em seu país, proibido de fazer filmes.

Panahi foi condenado a seis anos de prisão, cumpridos até a realização deste filme em regime domiciliar, e proibido de filmar ou escrever roteiros por 20 anos. Jafar é vítima da ditadura iraniana, que vê em seus filmes propagandas subversivas contra o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

É com o desejo de resistir que o diretor de obras como O Círculo e O Balão Branco usa de um artifício para dar voz a seu dilema. Ele está proibido de filmar, mas não de ser filmado; ele está proibido de escrever novos roteiros, mas não de ler roteiros já escritos.

Convida então o amigo e também diretor Mojtaba Mirtahmasb para filmar um dia de sua vida. Mas não é apenas sobre um dia em sua prisão domiciliar que trata o filme. Jafar usa um roteiro seu, escrito antes da condenação, e passa a elaborar uma leitura/montagem improvisada. A certa altura, desanima. Constatada a impossibilidade de fazer um filme. Deprime-se. Sabe que não há filme ali. “Se pudéssemos contar um filme para que fazer um filme”, diz.


Difícil não se comover com a sinceridade de seu lamento por não poder mais filmar. Isto Não é um Filme, tem uma relevância imensa como protesto e resistência (segundo a mítica em torno dele só está sendo divulgado porque foi contrabandeado para o Festival de Cannes 2011 escondido dentro de um bolo). Contudo, dada sua natureza, poderia ser uma obra monótona. Não é.

A narrativa flui, alterna-se. São ótimos os momentos em que o diretor mostra trechos de seus filmes anteriores e conta detalhes interessantes dos bastidores e do ofício de fazer filmes. Neste cotidiano forçado, o filme expõe o drama de Panahi e nos transmite seu desalento com intensidade verdadeira. Torna-se, no seu desenrolar, uma busca e um escape. Uma saída sem saída. Transforma-se, enfim, numa honesta constatação da impotência e do absurdo. Mas também uma declaração de amor ao cinema dentro de um ato de desobediência.

No final, faz um jogo de espelhos. Enquanto é filmado pelo amigo, saca seu smartphone e passa a filmá-lo também. Neste momento, com uma simplicidade emocionante, deixa claro seu amor pela arte que está impedido de exercer e o quanto ela está arraigada dentro dele.

Ao filmar e ser filmado, diz ao amigo diretor: “quando duas cabeleireiras não têm o que fazer, cortam o cabelo uma da outra”.

(daqui )


Com início bastante intimador, Isto Não é um Filme começa com um take longo e estático do cineasta Jafar Panahi (de O Círculo) sentado à mesa de café da manhã, à espera de você, espectador, como um convite para sentar-se junto a ele e compartilhar de momentos íntimos da sua vida. Pequenos detalhes, como uma cadeira vazia à frente do diretor, o pão sempre partido ao meio e os talheres voltados para a visão de quem assiste ao filme nos coloca em uma posição de muito conforto e nos faz sentir como um amigo deste personagem real, ou melhor, um membro da família – família esta, de amantes do cinema e de companheiros de luta pelo direito à liberdade de expressão.



O documentário nos apresenta a história dramática de Jafar, cineasta iraniano que encontra-se numa condição de cárcere privado, decorrência da sua produção audiovisual carregada de debates políticos e críticas ao regime dos Aiatolás. Atualmente ele está à espera de um segundo julgamento para definir suas futuras “obrigações” com a lei, que provavelmente o condenará a três anos de prisão e o proibirá de filmar, dirigir e escrever roteiros por 20 anos.


Em meio a este turbilhão, o desejo e a paixão pelo cinema tornam-se o alicerce para a vida de Jafar. Mas, como fazer cinema com estas restrições? Para isso, entra na narrativa o amigo Mojtaba Mirtahmasb; como a proibição de manipular uma câmera de vídeo e de editar é para Jafar, ele (Mojtaba) assume o equipamento. Ao longo do documentário, Jafar tenta recriar a cena de um antigo roteiro, utilizando elementos do interior de seu apartamento, como tapetes, controles, almofadas, objetos de fácil alcance, trechos de outros filmes e a sua narração como substituta da atuação da atriz principal.

O roteiro que Jafar tenta “adaptar” tem estreita relação com a vida do cineasta, e por isso causa certa perturbação e o faz chorar em determinados momentos do filme. Essa é uma produção que foge do comum, um filme interessante sobre a atividade do cineasta – Metacinema, Metalinguagem. É interessante observar os mecanismos de criação de um artista, o desenrolar de uma cena, como é feita a escolha dos planos, como a atuação é pré-definida, como é encarado o erro... enfim, como um cineasta trabalha.

Além da classificação Metacinematográfica, este não poderia deixar de ser um filme político, afinal, constantemente são incitadas discussões e reflexões acerca da política do Irã e da relação entre a influência internacional nos territórios do Oriente. Um longa intrigante e diferente, que poderia ser um fracasso se não fosse o conhecimento sobre política dos dois personagens envolvidos e a relação entre a influência das produções audiovisuais em decisões políticas.

Robyson Vilaronga




Realização: Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
Argumento: Jafar Panahi
Montagem: Jafar Panaho
Com: Jafar Panahi
Origem: Irão
Ano: 2010
Duração: 75’
.