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3ªF, REGRESSO AO IPJ - a estreia tão aguardada de ENTER THE VOID!

DIA 22 MAIO - ENTER THE VOID - VIAGEM ALUCINANTE DE GASPAR NOÉ.

sócios 2€, estudantes 3,5€, restantes 4€


E se Gaspar Noé, o realizador de "Irreversível" fizer um filme de duas horas e meia sobre o que um morto vê depois de morrer, isso é... "Enter the Void". O filme que um cineasta ateu gostava de ter visto aos 25 anos.

Todos os anos", diz Gaspar Noé, "há dois ou três meteoros," filmes "audaciosos" que parecem ovnis ao lado da corrente normal do cinema contemporâneo. "Mulholland Drive [David Lynch, 2001] é um deles, há outro de que gosto muito ao nível estrutural, 21 Gramas[Alejandro González Iñárritu, 2003], ou Palindromes, de Todd Solondz [2004], onde a mesma personagem é representada por um actor diferente consoante a cena. É uma ideia de que teria gostado de me lembrar."

Gaspar Noé não vai ao ponto de considerar a sua terceira longa, Enter the Void - Viagem Alucinante, como um desses meteoros - embora admita: "sim, é um filme muito audacioso", Mas a verdade é que sim, este é um meteoro. Ou não se tratasse da história da deambulação por Tóquio do espírito de um dealer de droga que acabou de ser morto a tiro numa casa de banho, que observamos em câmara subjectiva, pelos olhos do próprio falecido, durante duas horas e meia.

E se o leitor perguntar: quem é o tipo passado da cabeça que faz um filme estroboscópico de duas horas e meia sobre o que um morto vê depois de morrer?... a resposta é "irreversível".

Ou, por outras palavras: Gaspar Noé é o autor de Irreversível (2002), o filme-escândalo contado de trás para a frente, que começava com Vincent Cassel a esmagar a cabeça de um certo Ténia com um extintor, passava pela violação em tempo real de Monica Bellucci num túnel de metro, e acabava na mais pacífica felicidade conjugal. Antes disso, houvera Seul contre Tous (1998), a história de um talhante que decide vingar-se da sociedade que o relegou para as margens, contada através de um polémico monólogo interior.

Alguém falou em audácia?


Montanha russa
Enter the Void é um meteoro. E ao contrário da maior parte dos meteoros que só caem uma vez, este parece passar a vida a entrar e sair de órbita: estreado em 2009 em Cannes numa versão inacabada, finalmente completado a contento do seu autor em 2010, é um filme com o qual Noé vive há mais de cinco anos. "Entre o momento em que o comecei a preparar a sério e o momento em que o terminei a sério passaram-se quase quatro anos. Depois começou a estrear, passei cerca de um ano a fazer a promoção..." Promoção que ainda não acabou, porque esta semana este filme "atípico, que os distribuidores não sabem bem como vender" chega a Portugal e à Argentina (país de onde o realizador é natural).

"Atípico" é coisa que Noé faz questão de ser. Reconhece que há qualquer coisa de "parque de diversões" nos filmes que faz - sobre Enter the Void, diz-nos, durante a sua passagem "meteórica" pela capital: "A ideia é que o filme seja uma montanha russa: sentamo-nos no carrinho e somos levados pela experiência. É verdade que a câmara subjectiva ajuda a esse lado, se fosse visto do exterior pareceria bastante mais normal, seria uma experiência mais convencional."

Mas que não se confunda isso com uma vontade de épater le bourgeois: por muito que cite gente como Kenneth Anger, não quer ser experimental a qualquer custo. "É verdade que o meu filme ideal seria ainda mais experimental, com menos diálogos... Mas a certa altura, quando já tinha um guião mais definitivo, tentei desordenar todas as cenas em flashback, para ter uma visão mais caótica do passado. E não consegui. O filme tornava-se demasiado complicado, e compreendi que se o fizesse desse modo corria o risco de nunca o fazer. "

E que filme queria ele fazer? "Antes de pensar no espectador, pensamos em nós mesmos. Perguntamo-nos qual é o filme que temos vontade de ver. E este é o filme que eu tinha vontade de ver quando tinha 25 anos."

Ah, coração ateu
Foi aos 25 anos que a ideia de Enter the Void começou a macerar, lendariamente depois de Noé ter visto (ao que consta sob a influência de drogas alucinogénicas) um "meteoro" produzido na Hollywood dos anos 1940, A Dama do Lago (1946), adaptação de um romance de Raymond Chandler pelo actor Robert Montgomery filmada em câmara subjectiva, pelo ponto de vista da personagem principal. Se essa pode ter sido a inspiração - e reencontramos a "câmara subjectiva" durante toda a duração de Enter the Void - os filmes que Noé invoca como influência directa são outros. Fala de Stanley Kubrick e do lado de trip sideral de 2001, Odisseia no Espaço (1968); "pensei em Mulholland Drive, Videodrome - Experiência Alucinante, de Cronenberg [1983], e num outro filme,Viagens Alucinantes, de Ken Russell [1980]..."

À imagem de todos esses filmes, Enter the Void tem qualquer coisa de onírico, e a sua narrativa inclui o Livro Tibetano dos Mortos e a sua concepção da reencarnação. Mas se essas referências, nas palavras de Noé, "funcionam como coluna vertebral do filme", será boa ideia não as ver como "chave" para o que se passa. "Quem ache que o filme é uma adaptação à letra do Livro Tibetano dos Mortos, se olhar bem, percebe que não é nada disso - mas não queria que isso fosse demasiado claro. Cresci no ateísmo total e tenho muito orgulho em ser ateu." E, por isso, "o filme pode ser visto como a história de um sonho."
A esse respeito, conta-nos Noé, "houve uma coisa que muitas pessoas disseram": "O facto de terem sonhado com Enter the Void depois de o terem visto. Isso dá-me prazer, porque me faz pensar que os meus filmes se aproximam mais de uma linguagem do inconsciente do que a maioria dos filmes. Quando sonhamos, aproximamo-nos mais de uma linguagem universal..."

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Tira e mete bobina
Se há coisa que Enter the Void não é, é um filme "universal". O cinema de Noé é tudo menos unânime, ou se ama ou se odeia. O que o homem quer, mesmo, é mexer com o seu espectador, de um modo que seja tão imediato e vivo como a vida real. "Ver dois tipos à porrada num café é impressionante, mas vê-los no cinema não faz efeito nenhum porque sabemos que é falso. As pessoas, quando vão ao cinema, sabem que tudo o que estão a ver é falso, e por isso perguntamo-nos como vamos conseguir fazer com que ultrapassem essa desconfiança e invistam mais da sua própria emoção." Pega no exemplo de Irreversível para explicar melhor. "Não se trata de estar fascinado pela violência, mas antes de perguntar como posso transmitir alguma dessa violência da vida real ao espectador. É mexer com o espectador que me interessa mais."

Então e se o filme deixar as pessoas indiferentes? "Ah, não, não - antes disso, a primeira derrota é não ser capaz de fazer o filme que sonhámos. O cinema é uma indústria, com muito dinheiro e muitos parceiros envolvidos. E acontece muitas vezes que um realizador se lança ao trabalho convencido de que vai conseguir o filme que sonhou, e pelo caminho acaba por se desentender com os produtores ou com os distribuidores ou com os actores, e o objecto final não se parece nada, ou apenas em parte, com o filme que se pensou. E aí a recepção pública deixa de ter importância. Ficamos feridos por termos falhado a aposta".

É nesta altura que surge a questão de Enter the Void ter duas versões: uma versão "longa" de 154 minutos, e uma "curta" de 137 minutos, a que estreia em Portugal. Quererá isto dizer que foi preciso ao cineasta "audacioso" "acomodar-se" à indústria? "Ah, não, não, de todo. O produtor pediu-me para preparar uma versão curta no caso de o filme ultrapassar as duas horas e meia, e de facto chegámos ao fim com duas horas e 34..."

Mas essa diferença de 17 minutos, contudo, resume-se a... "Uma bobina." Leram bem, a diferença entre as duas versões é uma bobina que pode ser metida ou tirada ao bel-prazer do distribuidor. "A versão curta tem 17 minutos a menos, que correspondem a uma bobina sem a qual o filme funciona perfeitamente. Não queria cortar o filme, mas se não tivesse encontrado esta astúcia provavelmente não teria conseguido chegar a uma versão curta. O filme custou muito caro e eu devia aos produtores que investiram dinheiro uma versão alternativa, para que pudesse ser mais rentável. Foi a melhor ideia que tive, conseguir montar um filme ao qual se tira uma bobina sem o afectar... "

Não é para qualquer um. Alguém disse "audacioso"?
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Jorge Mourinha, Público


Agora, na sua terceira longa-metragem, Noé escolhe falar da vida e da morte pelo meio de uma “viagem alucinante” que acompanha as deambulações do espírito de um “dealer” acabado de morrer por uma Tóquio alucinogénica, traçando em flashbacks o percurso que aqui o levou e acompanhando o modo como a vida continua depois da sua morte. A “viagem alucinante” - e o título português pisca o olho a um dos filmes-inspiração de Enter the Void, Viagens Alucinantes (1980) de Ken Russell - é, acima de tudo, um filme puramente sensorial, visceral, que passa o tempo a forçar as fronteiras do que é possível em termos visuais com uma conjugação estroboscópica de câmara à mão, fotografia saturada, manipulação digital e efeito visual falsamente naïf. E só a ousadia de tentar dar corpo visual a um mistério insolúvel - e de o fazer em modo de transe libertário-alucinado alimentado a drogas puras - já explica que Noé não tem problemas em arriscar tudo sem ter medo de se estampar ao comprido. Há, claro, momentos em que se estampa; ao ultrapassar as duas horas de duração, a “trip” torna-se excessiva, cai pontualmente na indigestão do efeito gratuito, como se Noé se houvesse perdido no labirinto que ele próprio criou e se tivesse esquecido do filme que era suposto haver por baixo. Mas ninguém nunca recomendará Enter the Void por ser o grande filme que evidentemente não é; antes por ser um objecto singular, coisa rara nunca vista, “passagem do terror” de feira popular que se atravessa para se dizer que se passou por ela e que não deixa ninguém incólume. Enter the Void é aquilo que o título português anuncia: uma “viagem alucinante” por paisagens que raramente o cinema convencional explora. Quem quiser que se arrisque por sua conta e risco; e não diga que não foi avisado.

A questão central da trama: a morte e a vida após a morte... O ambiente psicadélico, impregnado de uma energia que apesar de densa e “submersiva”, nos impele para uma viagem flutuante e visceral, algures, no limiar entre a dura realidade, o enigmático e sobrenatural mundo dos sonhos e a sombria e angustiante atmosfera de um pesadelo, como se a nossa própria experiência transcendente vivenciássemos.

Talvez o fator mais relevante seja o genial e original trabalho ao nível da imagem e do som: planos ousados e vertiginosos, os quais requerem uma sensibilidade e técnica superiores. O pormenor do “pestanejar de olhos de Oscar”, os planos em espirais descendentes, os enquadramentos, as luzes reverberantes e “neonicas” de Tóquio, que penetram sem cortar, toda a atmosfera sombria, catalisada pelo som inebriante, que pulsa compassadamente, dando-nos a sensação de que ouvimos e sentimos, intensamente, a energia de um mundo metafísico.

Não é um clássico filme “inteligente” para analisar, pensar ou questionar. É essencialmente um filme que apela à nossa apreensão sensorial. E caso queiramos ou consigamos ter abertura para nos deixarmos envolver, Gaspar Noé conduz-nos numa viagem febril e apaixonante em que nos oferece a possibilidade de vivenciarmos na primeira pessoa, não só as experiências psicadélicas estimuladas pelo Ecstasy, LSD e DMT, mas também os momentos de morte e de "vida" pós morte.

Gaspar Noé revela-se assim um ousado artista do audiovisual, por todos os motivos já mencionados e por conseguir, em “Enter The Void”, do feio e indecente, criar beleza. Mas não é uma beleza romântica. É crua e carregada por uma “verdade” desconcertante. Penso que é por este motivo que o filme se torna chocante e originou tanta polémica. Não será de facto um filme para as massas. As mentes mais fechadas ou conservadoras e impressionáveis têm demonstrado tendência para o detestar... não foi por acaso que Quentin Tarantino o colocou entre os melhores de 2009. Penso que nada terá sido deixado ao acaso e todos os pormenores se enlaçam resultando num inquestionável marco da linguagem cinematográfica.
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s/ind de autor


ENTREVISTA A GASPAR NOÉ

Os seus filmes são sempre muito divisivos e desenhados para chocar. Entusiasma-o ver membros da audiência desconfortáveis, ou até furiosos e a sair da sala? É crucial para si (o fator choque) quando está a desenvolver um novo projeto?
Sim. Fazer um filme é como mover uma montanha-russa. Queremos que as pessoas se sintam excitadas. Que chorem, que riem, que se assustem. Portanto, sim, podemos usar todo o tipo de truques para mexer com a plateia. Quando vi pessoas a sairem a meio de "Irreversível", ou até deste filme, gostei. Gosto de pôr as pessoas a pensar.

"Enter the Void" é em si uma "trip" para o espectador. Como é que surgiu esta ideia?

No início, quis fazer uma curta-metragem sobre um tipo que toma LSD acidentalmente, e o filme seria visto do ponto de vista da personagem principal. Quis também fazer um filme que fosse visto de cima. Depois, pensei em fazer um filme em que o protagonista fosse visto antes de morrer, e depois tivessemos uma visão da sua morte. Gosto de pensar na vida depois da morte, mas não sou uma pessoa religiosa, de todo.

Porquê Tóquio desta vez?
Acho que é uma cidade muito alucinogénica, visualmente. Além disso, parece muito mais solitária, pois estás num país em que não pertences, com pessoas que não falam inglês. E depois há uma repressão maior pelo tráfico de droga. Podes apanhar 2 ou 3 anos de prisão.

O seu filme foi exibido em vários festivais de cinema, espalhados por todo o mundo, ao longo dos últimos anos. Consegue dizer-nos qual foi a sua experiência favorita em Festival?
Cannes. O Festival de Cannes.
Gosto de Sundance, gosto de Toronto... Gosto de viajar pelo mundo por acaso, de toda essa experiência.

Se tivesse de escolher um filme que melhor ilustra porque é que faz filmes atualmente, que filme escolheria?

"2001: Uma Odisseia no Espaço". Tenho a dizer no entanto que o primeiro filme que realmente me impressionou foi "Eraserhead" aos 14 ou 15 anos.

O filme de David Lynch.
Sim.

Ouvimos dizer que o seu próximo filme vai ser baseado num argumento de Bret Easton Ellis, com Ryan Gosling a encabeçar o elenco. Pode partilhar mais detalhes sobre este projeto?

Não não. O Ryan Gosling já não está associado a este projeto. E tenho ainda um outro projeto antes. Um argumento original.

Não é o "remake" de "God Told Me To"?

Não. As pessoas leem muita informação que não é verdadeira, hoje em dia. Informação que aparece no Twitter ou num blog, e que depois é facilmente espalhada.

Pode-se saber do que se trata?
É um filme sentimental. Uma história de amor.

Uma história de amor?
Sim, mas com contornos eróticos.
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c7nema.net



Realização e Argumento: Gaspar Noé
Montagem: Marc Boucrot, Gaspar Noé e Jérôme Pesnel
Fotografia: Benoît Debie
Música: Thomas Bangalter
Interpretação: Paz de la Huerta, Nathaniel Brown, Cyril Roy, Olly Alexander, Masato Tanno, Ed Spear, Emily Alyn Lind
Origem: França/Alemanha/Itália/Canadá
Ano: 2009
Duração: 161'

PARA MAIORES DE 18 ANOS - última sessão Gaspar Noé. Curtas e Médias.


Sede. Entrada livre. Cerveja a 1€

TINTARELLA DI LUNA // CARNE // UNE EXPERIENCE D'HYPNOSE AUDIOVISUELLE // SODOMITES // INTOXICATION // WE FUCK ALONE // AIDS // ONE DREAM RUSH HOUR

Para Maiores de 18 anos - SEUL CONTRE TOUS ou o incesto segundo Gaspar Nóe. Sede, 5ªf, 21h30.

ENTRADA LIVRE, CERVEJA A 1€.

Questiona a posição de julgamento e penalidade cegos a respeito do amor incestuoso, insinuando uma correspondência equivalente de ambas as partes.
O que você pensaria de você, caso sentisse, além do amor, a atração sexual por seu pai/mãe, por seu filho/filha, ou mesmo irmão/irmã?
Qual seria nossa auto-imagem, trazendo para o discurso a condenação social deste tipo de atitude?

A figura central da trama é o Açogueiros, saído do curta-metragem Carne também do diretor Gaspar Noé [a exibir neste Ciclo na próxima 5ªf, dia 26]. Interpretado pelo excelente ator Philippe Nahon, essa criatura violenta, petrificada, fica vagando por labirintos obsessivos repletos de recalques, ódios contra estrangeiros e homossexuais, com a sempre onipresente figura da filha que ele deseja de maneira doentia. O filme cria uma atmosfera hermética onde a loucura crescente da personagem central está sempre aparente, seja nos tons amarelados de fotografia ou na narração em off. A obsessão é narrada como um diário absurdo. Um clássico do cinema moderno, cheio de poesia e fúria.

Realista, pessimista, filosófico e pode ser até chocante.
Complicado de criticar e extremamente ideológico, pode se dizer que Gaspar noé caprichou nesse filme. Expondo monólogos extremamente conturbados e filosóficos, um roteiro excelente com um toque “existencialista”, criticando alguns pontos sociais, apresentando frases “Schopenhauerianas”, mostrando a pobreza e a sujeira da natureza humana, a loucura poética de um pessimista, além de contar com a teoria da vontade de poder de Niezstche. O filme pode deixar o telespectador deprimido, carente, triste, conturbado, chocado e até irritado, mas não podemos deixar de negar é que toda a história do filme é algo possível e realista, em outra palavras, é uma verdade relativa, mas válida.


Gaspar Noé – este franco-argentino é um daqueles malucos que faz valer o termo extremo da expressão cinema extremo. O mais mainstream dos seus filmes, Irreversível, ganhou fama de maldito e doentio e jogou o cineasta novamente no limbo underground. A galera do lado de cá da indústria agradece. A saga maldita começou com o curta Carne (nunca vi, mas já ouvi comentários positivos) e se concretizou com o longa Seul Contre Tous.

O filme é cinza, escuro, claustrofóbico, angustiante, desajustado, enfim ou o espectador vê que tem gente que é pior que ele e agüenta o tranco ou entra numa depressão profunda que nem tarja preta dá jeito. A trajetória do açougueiro francês - interpretado pelo ator predileto do cineasta, Philippe Nahon - refugiado na periferia imunda de Paris é uma afronta a qualquer traço de civilidade ou bondade. O personagem é uma ode ao ódio - detesta gays, alemães, mulheres, negros, árabes... Xenofobia e preconceito, em doses nada homeopáticas, retratados por um Tim Burton quase pornográfico.

A única redenção, ou melhor, o único traço de humanidade está na pureza da filha autista. Mas Noé é tão escroto que este alívio explode em tons avermelhados no final. O final é forte; muito forte mesmo. Provoca ânsia nos organismos mais resistentes. Muito mais que o viés socialista da justificativa da violência pela pobreza econômica e a miséria social o filme nos mostra a sordidez humana, a gratuidade do desespero e da desesperança. Angústia ilimitada do mal que nós nos causamos. A desilusão em um país rico repleto de cidadãos e estrangeiros sem identidade. Nessa odisséia cosmopolita e violenta, ninguém é poupado. Todos são culpados e a fúria se torna justificável. Desilusão a tudo, todos e em todo lugar. Assim como seu cineasta, Seul Contre Tous é grande demais para o cinemão; é leão para o seu quintal.

Ponto Alto: os textos pontuando a narrativa.

Ponto Baixo: o filme sofre do efeito Apocalypse Now – agüente até o fim e entenda a grandiosidade da obra."

Juarez Junior



Título Original:Seul Contre Tous
Realização e Argumento: Gaspar Noé
Produção: Gaspar Noé, Lucile Hadzihalilovic
Interpretação: Philippe Nahon (The Butcher), Paule Abecassis (Junkie), Serge Faurie (Hospital Director),
Aïssa Djabri (Dr. Choukroun), Olivier Doran (Narrator), Guillaume Nicloux (Supermarket Manager),
Sophie Nicolle (Younger Daughter), Roland Guéridon (Old Friend), Zaven (Every Man his Moral)
Origem:França
Ano de produção: 1998
Duração:93'

Gaspar Noé, o polémico, a partir deste filme apresentado em Cannes - IRREVERSÍVEL. Filme-choque porque é chocante. Maiores 18 anos, estais convidados.

SEDE. 5ªF. 21H30. ENTRADA LIVRE.
CERVEJA A 1 €.


Irreversível. Porque o tempo tudo destrói. Porque alguns actos são irreparáveis. Porque o homem é um animal. Porque o desejo de vingança é uma pulsão natural. Porque a maioria dos crimes fica impune. Porque a perda da pessoa amada destrói como um raio. Porque o amor é a fonte de vida. Porque as premonições não mudam o curso dos acontecimentos. Porque o tempo revela tudo. O pior é o melhor.

Uma jovem mulher, Alex (Monica Bellucci), é violada por um desconhecido num túnel. O seu companheiro, Marcus (Vicent Cassel), e o ex-namorado, Pierre (Albert Dupontel), resolvem fazer justiça pelas próprias mãos.

“Irréversible”, realizado por Gaspar Noé, foi apresentado na última edição do Festival de Cannes. Apesar de ter sido um dos ausentes do palmarés oficial, o filme ficará na história pelas reacções que provocou durante o certame: considerado o filme-choque do ano, amado e odiado pela crítica, não recomendável aos mais sensíveis...


Carimbado como "filme choque" em Cannes, mostra afinal um dos olhares mais pudicos sobre o casal. A única forma de ver algumas das suas cenas pode ser de olhos bem fechados. Mas ainda assim é possível tactear o intenso lirismo do filme. Nestas páginas desfilam os protagonistas de "Irreversível": Gaspar Noé, cineasta nostálgico dos filmes como "experiência de catarse", e o casal Vincent Cassel/Mónica Bellucci, que se sujeitaram à violação da privacidade.

É fácil estar contra um filme quando ainda antes de ele chegar já vem carimbado como "filme choque". Foi o que aconteceu no Festival de Cannes, quando parecia que havia uma "operação" em desenvolvimento.

Do estilo "golpe mediático": um casal de actores famosos (Vincent Cassel/Monica Bellucci), um realizador, Gaspar Noé (argentino a viver e trabalhar em Paris), com fama de "sulfuroso" (mas isso às vezes não é só uma forma de mascarar habilidade para o "marketing"?), jornais e revistas a gritarem "vem aí escândalo", vem aí cena de violação (de nove minutos, em plano sequência, sem truques) e as bilheteiras à espera. O título, tão afirmativo (e tão evidente) como um "slogan", preparava o pior: "Irreversível". Seria mesmo?

O "golpe" parecia confirmar-se aos primeiros minutos de filme: nem o matraquear obsessivo da muralha sonora concebida por Thomas Bangalter, dos Daft Punk, se sobrepôs ao barulho das cadeiras da sala que se esvaziava. Em Cannes forjou-se o mito do ódio de estimação.
As agências noticiosas foram atrás do "voyeurismo" e da "violência", relatando que os serviços locais de emergência tiveram que administrar oxigénio a cerca de 20 espectadores que desmaiaram durante a sessão da meia-noite.

Era o filme para odiar. Melhor: para ignorar. E foi o que fez a imprensa francesa, com dose considerável de soberba. "Foi uma atitude reaccionária. Não houve a mínina tentativa de tentar olhar para o filme". Quem fala (ao telefone, de Paris) é Gaspar Noé, o tal realizador com fama de provocador, que, afinal, mostra em "Irreversível" um dos olhares mais púdicos (isto é escrito sem propósito provocador) sobre o casal.


Sim, coloca o espectador em perigo, e há sequências em que é difícil manter os olhos abertos. Uma coisa e outra nascem de vontade de provocar, e do gosto de administrar uma fama de polémico de que ele já não se livra; ganhou-a com curtas-metragens e com a longa anterior, "Seul contre tous" (1998).

Pode considerar-se que o filme é o gesto inconsequente de um adolescente retardado. Mas também se pode apostar nisto: Gaspar Noé é um cinéfilo que, para além de amar "2001 Odisseia no Espaço", de Kubrick, ou "Un Chien Andalou", de Buñuel, quer devolver ao espectador uma "experiência de catarse" - "algo que ficou perdido", diz, nos libertários anos 70 . "Irreversível" pode ter nascido de um desafio adolescente. Mas como em tudo no filme, nada é tão simples e nada é tão certo. Mesmo de olhos fechados, que pode ser a única forma de ver algumas cenas, é possível tactear os corpos de "Irreversível": flutuam em bolhas de lirismo.

E que tal um porno? É melhor começar pelo princípio. E no princípio, Gaspar Noé cruzou-se com um actor francês, Vincent Cassel, e propôs-lhe, a ele e à mulher, a italiana Monica Bellucci, que arriscassem "um porno, um filme sexualmente explícito, um filme que mostraria o que Tom Cruise e Nicole Kidman tinham falhado [com Kubrick, em 'Eyes Wide Shut']".

Vincent e Monica não arriscaram. "Propus então outra coisa", continua o incansável Gaspar, 39 anos. "'E se fizéssemos um filme de violação e vingança'? Um filme que mostrasse uma cena de violação como não tinha sido ainda mostrada, nem em 'Deliverance' [de John Boorman] ou 'Cães de Palha' [de Sam Peckinpah]?" - aqui é o adolescente Noé a falar, a lembrar-se do cinema dos anos 70 e a desmultiplicar-se em desafios.

Só com duas vedetas, e com um terceiro actor, Albert Dupontel (faz o amigo do casal, personagem que vai revelando uma inquietante ambiguidade - reparem na sua passividade...), lançou-se à improvisação. Sem argumento ("se tivesse, não conseguiria financiamentos"), mas com uma ideia fixa: inverter a estrutura narrativa, progredir do presente para o passado. Começar (de forma brutal) com uma cena de violência num clube nocturno (com o nome, também brutal, de "Rectum"); recuar, para outra cena de violência, num túnel vermelho, num plano sequência: a violação; finalmente, o apaziguamento, ao entrar pela vida íntima de um casal - onde já estava tudo, a destruição. "O tempo destrói tudo", diz uma legenda, como (mais uma vez) um "slogan".

Resumindo, descodificando: Monica Bellucci é violada; Vincent Cassel, o namorado, vinga-se. O filme começa com a vingança, depois segue a cena que supostamente lhe deu origem e a explica. Será mesmo assim?


Não. Ao virar do avesso a estrutura, personagens e acontecimentos libertam-se das relações de causa e efeito. A vingança deixa de ser a resposta a um crime; passa a ser algo de inescapável no caos irreversível. Monica, Vincent e Albert (um amigo do casal) são o trio perdido nessa voragem, e o filme capta a palpitação de perda. Bellucci verbalizou assim: "São três insectos perdidos no tempo". Pela forma como os planos balançam no indefinível, parecem perdidos no espaço (como em "2001...").

O espectador está perdido com eles, sem possibilidade de identificação. É isso que seduz num filme tantas vezes grandiloquente e óbvio: Noé utiliza um dispositivo programático ("o filme ao contrário") e, como uma batalha que parece perdida, luta para o transcender. A camisa de forças - como às vezes funciona a estrutura em "flashback" de "Memento", o filme de Chris Nolan com que "Irreversível" tem sido comparado - revela-se aqui possibilidade de libertação: atira "Irreversível" para os domínios mais inexplicáveis da experiência hipnótica dos sentidos (alguns críticos franceses fizeram o "mea culpa", e após terem ignorado o filme, conseguiram regressar a ele para reconhecerem "momentos de pura poesia").

"Se a estrutura fosse convencional, seria um filme banal, psicológico, em que havia um crime, e a vingança", propõe Noé. "E teria um final histérico. Mas a estrutura invertida permite que seja um filme sobre o tempo. Podia ser um típico filme de vingança dos anos 70, com Charles Bronson, mas assim deixa de haver uma relação de causa e efeito entre os actos. Até porque, se se reparar, a vingança acaba por ser feita sobre a pessoa errada, não sobre o violador".

"2001-Odisseia no Espaço", de Kubrick, é o filme favorito deste ex-assistente do argentino Fernando Solanas ("Tangos - O Exílio de Gardel" e "Sul"). Noé é um espectador voraz, capaz de colocar na lista das suas preferências o cinema de Tod Browning e o videoclip que Michel Gondry fez para os Daft Punk, "Around the World".

O cartaz de "2001...", um dos objectos sobre o filme que colecciona, aparece em "Irreversível", que tem sido classificado de "kubrickiano" pela ambição totalitária e cósmica, pelo pessimismo - até pela forma como mistura Beethoven, Mahler e Thomas Bangalter (Daft Punk). Mas a referência "kubrickiana" será antes "Eyes Wide Shut"; passou algo, para este projecto, daquele desafio inicial feito a Cassel/Bellucci. "Irreversível" é um filme sobre as forças destruidoras no casal, é pesado, gongórico e, simultaneamente, evanescente e doentio - como uma valsa. E como Kubrick fez a Tom e Nicole, Noé joga com o voyeurismo do espectador. Mas o cineasta não é só manipulador: uma das coisas mais comoventes do filme, é, mais uma vez, a forma como Noé aceita sabotar o princípio formal que se impôs, disponibilizando-se para os pedaços de vida que os actores improvisam.

"Monica e Vincent são um casal, em França todos os conhecem e existe a curiosidade em vê-los nus ou na intimidade. Não posso dizer que isso não faça parte do filme, mas não joguei deliberadamente nisso. Na altura de 'Eyes Wide Shut' dizia-se que havia cenas escabrosas e, na verdade, não havia; o meu olhar também é pudico. É claro que os actores só fizeram o que queriam fazer. Todo o filme é improvisado, e eram eles que estabeleciam os limites, até onde é que queriam ir".


Aí, é impressionante o que faz Bellucci. Há que dizer que se sujeitou a uma operação perversa. Tem sido a "bimba" de serviço em algum cinema italiano, oferecendo uma sensualidade óbvia, conquistadora, para mostrar que nela vivem as divas italianas do passado. Ora, com "Irreversível" é isso que Noé castiga: não foi por que se sujeitou, na tal cena de violação de nove minutos, a uma imolação, que ganha o respeito e a serenidade de actriz?

"Foi ela que estabeceleu os limites, que decidiu o que podia ou não fazer", conta o realizador. "Monica é muito mais interessante como pessoa, do que os filmes até agora tinham mostrado. Dão-lhe sempre maquilhagem e guarda-roupa e diálogos parvos. Aqui, nem sequer tinha diálogos, só podia ser ela mesma. Teve mais colhões do que qualquer um de nós. O grande risco do filme foi o dela".

O risco também é o do espectador. "Ver um filme é uma experiência de catarse", diz Gaspar. "É por isso que as pessoas vão ao cinema, para terem uma experiência de catarse física ou sairem mais enriquecidas psicologicamente - é claro que como no meu filme as pessoas saem a meio, essa experiência pode ficar interrompida (risos). Os espectadores já viram tudo, e já não acreditam em nada, já sabem que tudo é artifício. A cena de violação foi filmada num plano sequência, e é isso que perturba: dá a ilusão de que não há truques. Mas não, todo o cinema é artifício. De qualquer forma, é interessante que, pelo menos em França, os espectadores que mais acharam a cena insuportável tivessem sido homens; foram eles que saíram. Se calhar foram obrigados a confrontar-se com fantasmas, os que ainda povoam as relações entre homem e mulher. Há dias ia na rua e vi um miúdo a meter-se com uma mulher, um miúdo normal; de repente parecia que estava ali em potência o violador do filme. Dito isto não estou a querer dizer que 'Irreversível' é um filme feminista".

Nem é preciso chegar a isso. Basta dizer que, no meio do barulho mediático, do barulho sonoro e visual, o que fica deste filme não é violação, não é o "choque". É o apaziguamento, o silêncio - quase que apetece dizer, sem truques.
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Vasco Câmara, Público

(link na imagem)

Realização: Gaspar Noé
Argumento: Gaspar Noé
Música: Thomas Bangalter
Fotografia: Benoît Debje e Gaspar Noé
Montagem: Gaspar Noé
Interpretação: Monica Bellucci (Alex), Vincent Cassel (Marcus), Albert Dupontel (Pierre), Philippe Nahon (Philippe),
Jo Prestia (Le Tenia), Stéphane Drouot (Stéphane), Jean-Louis Costes (gay morto no bar),

Mourad Khima (Mourad)
Origem: França
Ano: 2002
Duração: 95’