GOOD TIME | QUINTA-FEIRA 18 JAN | 21H30 | IPDJ



GOOD TIME
Josh e Benny Safdie
EUA, 2017, 101', M/16


FICHA TÉCNICA
Realização: Ben Safdie e Joshua Safdie
Argumento: Ronald Bronstein e Josh Safdie
Montagem: Ronald Bronstein e Benny Safdie
Imagem: Sean Price Williams
Música: Daniel Lopatin
Interpretação: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi
Origem: EUA
Ano: 2017
Duração: 101’
 

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cannes - Selecção Oficial




CRÍTICA

Já tínhamos saudades de filmes assim, com assaltos a bancos a darem para o torto e correrias loucas de bandidos vulneráveis, com o ponto de vista da câmara sempre a incidir não no poder, não na polícia e no paternalismo, mas em quem os desafia, do primeiro ao último fotograma — e com uma fé inabalável num cinema de género capaz de entreter e comover em simultâneo. Josh e Benny Safdie, manos de Nova Iorque nascidos nos eighties, autores que nos habituámos a seguir há uma dúzia de anos desde as primeiras curtas (são conhecidos cá pelo saudoso "Vão-me Buscar Alecrim", de 2009), mostraram em Cannes, em maio passado, este filme vibrante em que se sente que cada segundo de vida é realmente vivido como se fosse o último. Ter Nova Iorque como pano de fundo ajuda e os Safdie conhecem-na como a palma das mãos. Rodado em Manhattan e nos seus arrabaldes fervilhantes e nada turísticos (a norte, em Queens, onde os Safdie cresceram), "Good Time" é também um filme de imersão na cidade agreste, suja e dura tal como certos heist movies da Nova Hollywood ali se fizeram no século que passou, dos anos 70 e 80 de Lumet e de Scorsese aos diabólicos anos 90 de Abel Ferrara e nesse sentido, é coisa bastante oldfashioned, a contracorrente dos thrillers asseados que os EUA produzem hoje.
À nossa frente, quase desde o primeiro plano, surge-nos Connie Nikas, que acaba de sair da choça nesse "good time" irónico do título — jargão americano que, em linguagem para condenados, significa liberdade condicional. Cara de poucos amigos, blusão encarnado desportivo e gorro sobre boné para não dar nas vistas, Connie tem um irmão mais novo, Nick Nikas. Pouco ou nada vamos saber do passado deles, se outros laços de sangue existem ainda no mundo além dos que os unem — e que Josh e Benny vão na ficção testar ao limite. Sabemos, sim, que Nick sofre de um distúrbio emocional que lhe exige atenção médica. Mas Connie tem outros planos, quer arrancar o irmão dos hospitais, das salas de psiquiatria, dos jogos de palavras e de associações que lhe recordam a avó e a infância. Num ápice, surge um assalto a um banco (um dos mais eficazes de que me lembro no cinema, em que a ameaça é só sugestão), é preciso dólares para 'cavar' dali. Deste salto brusco, em montagem de nervo, caímos noutro: o golpe corre mal, Nick é apanhado, apanha uma tareia e vai parar ao hospital. Mais não se conta...

Em Cannes, falámos com os Safdie, à velocidade deles, isto é, a 100 à hora, como no filme. A paixão deles por cada plano recorda-nos as entrevistas com Tarantino. Isto de termos um filme feito por dois irmãos em que um deles (Nick/Benny Safdie) também interpreta "é coisa complicada" , acrescenta Josh: "Quando o meu irmão se ri na rodagem eu rio, quando ele chora, eu choro, porque sei que muito disto vem da nossa infância, com divórcios de pais, violência e suicídios que nos traumatizaram. O Benny estava sempre a entreter-me com as suas performances em miúdo, eu ripostava com as minhas e sempre achei que ele era o melhor ator dos dois. " A personagem de Nick vem de longe, contou-nos Benny. É um tipo complicado emocionalmente, não expressa as emoções. "He's hard to crack. Em 2010, estive para entrar num filme do Ronald Bronstein [coargumentista de quase todos os filmes dos Safdie, incluindo "Good Time"] e desenvolvi esta personagem, que era então uma versão juvenil do Nick. O filme não se fez mas a personagem ficou. O Nick é uma parede a nível emocional, engole tudo. E torna-se um dique prestes a rebentar.”

Os Safdie têm um método de trabalho curioso: escrevem ao detalhe as biografias de cada uma das suas personagens, embora quase nada disso chegue sequer ao guião. No set, interessa-lhes a energia dos planos, um caos controlado que cede muito pouco à improvisação (embora tudo pareça espontaneidade e explosão de primeira take). Em simultâneo, são apoiados por um casting nada tradicional que vai respigar muitos dos seus não-atores nos locais de rodagem e por um diretor de arte [Sam Lisenco] que se mexe em Nova Iorque como ninguém ("é um tipo de Brooklyn que está na 'família' há muito tempo' esclarece Benny. "Ensinou-nos que é a olhar para o chão, para os passeios e bocas de metro, que se conhece uma cidade"). A música é outro triunfo do filme e deve-se ao génio eletrónico de Oneohtrix Point Never (aka Daniel Lopatin), "um gajo muito intelectual que podia ter sido um compositor judeurusso noutra encarnação" , diz Josh. "Foi o nosso diretor de fotografia, Sean Price Williams [no seu primeiro trabalho em 35 mm] quem o indicou. Os 45 minutos que compôs para nós até à canção final [interpretada por Iggy Pop] são outra personagem do filme. "
Nova-iorquino como poucos, "Good Time" tem outra peça que à partida não encaixava em Nova Iorque: é o ator que faz de Connie ("o fuck up da família, a semente má" , diz Benny): Robert Pattinson. O ator britânico, que se esmerou a afinar o sotaque yankee e arranca uma performance sublime, é o coração do filme. "Nenhum de nós tinha visto 'Twilight' e não lemos revistas de bisbilhotices" , diz Josh. "Foi ele que nos procurou. Quando o encontrámos em Los Angeles, parecia um soldado ferido, traumatizado pela fama. Ele é famoso, mas não tira gozo nenhum em ser uma celebridade. Disse-nos que fizéssemos dele o que quiséssemos. Vestimo-lo como no filme e o Benny foi com ele lavar carros numa bomba de gasolina para um teste de câmara, um dia inteiro. Não dissemos a ninguém que estávamos a filmar e ninguém em Nova Iorque o reconheceu. O Robert foi meticuloso, obsessivo, sedento. Deu-nos brava luta até ao fim. Acho que este era o papel que lhe faltava para romper com qualquer coisa dentro dele”.
Francisco Ferreira, Expresso