GIMME DANGER | 20 JUNHO | IPDJ | 21H30



GIMME DANGER
Jim Jarmusch
EUA, 2016, 108’, M/14


FICHA TÉCNICA
Argumento e Realização - Jim Jarmusch
Montagem: Affonso Gonçalves e Adam Kurnitz
Director de Fotografia - Tom Krueger
Origem: EUA
Ano: 2016
Duração: 108´
   

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cannes – Selecção Oficial, Fora de Competição



TRAILER 



 



CRÍTICAS

Jim Jarmusch e Iggy Pop: o último hurrah
Jarmusch e Iggy olham-se como iguais, sobreviventes, ou refugiados, de um tempo em que as coisas (o cinema como a música) se mexiam de outra maneira, mais selvagem, mais errática, mas também mais vital e mais genuína: Gimme Danger, sobre os Stooges.
Iggy Pop é um velho comparsa de Jim Jarmusch, que esteve no episódio mais divertido de Café e Cigarros (em parelha com Tom Waits) e voltou como “travesti” para o Homem Morto (onde era a mais burlesca das personagens). Jarmusch, por seu lado, é o mais “punk rock” dos cineastas americanos, pelo que atirar-se a um documentário sobre Iggy Pop e os Stooges (depois de já ter filmado, nos anos 90, Neil Young e os Crazy Horse) aparece como uma coisa perfeitamente natural. Gimme Danger é ao mesmo tempo muito completo, muito documentado e muito divertido. Se a estrutura é reconhecivel e mil vezes repetida (depoimentos + imagens de arquivo), Jarmusch aproveita o que há de “punk” nessa repetição (como se fosse o equivalente dos clássicos “três acordes”) e injecta-lhe uma energia fora de série: parecendo que não, há um intenso trabalho de montagem, com as muitas imagens de arquivo a funcionarem menos como ilustração do que como reflexo ou comentário do que é dito - em jeito de “gag” ou de “cartoon”, e duma forma que lembra a utilização que Jarmusch fazia dos desenhos animados em Ghost Dog.
Com o super-articulado Iggy a comandar, cheio de sentido de auto-ironia (a sua oralidade é um espectáculo por si mesma), Gimme Danger é uma história da vida, morte e renascimento dos Stooges contada sempre em relação com o panorama da cultura popular americana dos anos 60 e 70, e por isso tudo, mesmo o que é mais anedótico e mais fait-divers, encontra um tipo de relevância mais vasto e mais significativo. Nisso, aliás, o filme encontra aquele tipo de texturas e cruzamentos inter-culturais, por oposição a arrumar tudo em gavetinhas, que é uma preocupação habitual em Jarmusch. E depois: se há muitas mortes e algumas tragédias pessoas na história dos Stooges o filme é duma espantosa (e muito “punk”) ausência de sentimentalismo, antes sendo uma espécie de “hurrah”, eventualmente derradeiro, por aquelas personagens, as principais como as secundárias.
Parece evidente que Jarmusch e Iggy se olham como iguais, sobreviventes, ou refugiados, de um tempo em que as coisas (o cinema como a música) se mexiam de outra maneira, mais selvagem, mais errática, mas também mais vital e mais genuína - antes da “traição cultural”, como diz Iggy, do momento em que as grandes companhias domesticaram o “rock” (e uma terminologia semelhante se poderia aplicar ao cinema “independente” que foi o viveiro de Jarmusch). Sem dúvida que esse reconhecimento mútuo explica alguma coisa da vitalidade, e sobretudo do sentido de comunhão, deste pequeno e luminoso filme.
Luís Miguel Oliveira, Público

 
Um belo documentário de Jim Jarmusch sobre Iggy Pop and the Stooges, uma das bandas mais influentes do rock.
Mais do que uma biografia de Iggy Pop e dos Stooges, Gimme Danger é um filme de Jim Jarmusch sobre Iggy Pop e os Stooges, sendo a parte “de Jim Jarmusch” um elemento tão ou mais importante do que a parte “sobre Iggy Pop e os Stooges”. (Pop entrou em dois filmes anteriores de Jarmusch, Coffee and Cigarettes e Dead Man.) Como biografia, Gimme Danger é um espectáculo a não perder: a história visceral, comovente, inacreditável de uma das bandas mais influentes do rock. A simples enumeração documental dos dados biográficos seria por si só uma história espectacular. Mas para ser o - se não grande, pelo menos altamente divertido - filme que é, Gimme Danger tinha de ter Jarmusch aos comandos. Sem ele, não seria fácil converter em cinema a imaginação incendiária, assim como a teimosia sem tréguas, dos Stooges - que ainda hoje, a basta olhar para Iggy Pop, não está extinta. Jarmusch tem uma afinidade explícita com Pop e os Stooges, e se há uma crítica que podemos fazer-lhe é ter sido aqui o minucioso e brilhante tradutor para cinema de um universo peculiar, mais do que alguém que conta uma história na primeira pessoa e assume um ponto de vista sobre o herói da aventura. Mas é uma crítica menor - uma boa tradução pode ser uma obra maior, e é este o caso.
timeout.pt 
 


 

CONVERSA JIM JARMUSH EM CANNES

[...]

UMA EXPLOSÃO: GIMME DANGER
Dois dias depois da primeira entrevista, a voz de Jarmusch volta a fixar-se na memória do gravador num novo encontro e em mais trinta minutos de conversa, desta vez em mesa-redonda com vários jornalistas. Jim pede uma limonada. Está já a deitar Cannes pelos cabelos mas ainda anda animado: 'Gimme Danger" acaba de ser aplaudido na estreia da noite anterior. O documentário sobre os "The Stooges segue a história da formação da banda de Ann Arbor, perto de Detroit, no Michigan, zona de radicalismo pop naqueles finais de anos 60. A vida do grupo seria curta, de 1967 a 1974 — e com várias dissoluções pelo meio. Da formação original, todos filhos da classe operária americana, só Iggy Pop — que também esteve em Cannes — permanece vivo. E é por causa de Iggy Pop, amigo de Jarmusch de longa data (pelo menos desde "Coffee and Cigarettes", curta de 1993), que este filme existe. Jarmusch explicou tudo: "Para aí há uns oito anos, o Iggy vira-se para mim com esta: 'qualquer dia ainda algum engraçadinho começa a fazer um filme sobre mim que vai fatalmente começar ou acabar nos Stooges. Espero que esse en graçadinho sejas tu!' Ao que eu lhe respondo: 'Estás a pedir-me que eu faça um filme sobre os Stooges? Olha que eu começo amanhã!' Dito e feito. Foi uma grande honra. "
O apelo era irresistível, confirmou Jarmusch: "The Stooges foram primordiais, selvagens, anarquistas. Comportavam-se como animais, sobretudo o homem [Iggy Pop] que estava na linha da frente. Não é de ânimo leve que eu lhes chamo no filme a maior banda de rock and roll de sempre. Não estou a pedir ao mundo que concorde comigo. Mas, para mim, é nesse pedestal que eu os ponho. Eles estão muito ligados à minha adolescência no Ohio [Jarmusch nasceu em 1953], à música que eu ouvia nessa época, miúdo de 14 ou 15 anos de uma cidade pós-industrial. Havia os Velvet Underground, a banda mais revolucionária de todas. Os MC5, que eram politicamente de cortar à faca. E, depois, os The Stooges, que me marcaram pelo seu choque sónico, pela aventura primitiva da sua atitude. Nunca sabíamos como é que eles iam acabar os concertos. Nunca mais ninguém levou tanta energia para um palco. Certo dia, um jornalisa perguntou ao Joey Ramone porque é que ele se mexia tão pouco nos concertos, ao que o Joey responde: 'Ouve, depois de Iggy Pop, o que é que tu queres que eu faça?' Isto parece-me muito acertado. ' Jarmusch diz ainda que "Gimme Danger" lhe saiu um filme híbrido. Não é bem um documentário. Não é filme que queira experimentar ou inovar. Nem é filme que siga as convenções do biopic segundo o modelo de entrevista com oráculo (embora os depoimentos de Iggy Pop estejam lá o tempo todo). "Não, isto é muito mais um ensaio, uma carta de amor aos Stooges do que outra coisa. Não quero descobrir segredos, violar privacidades, escavar na merda. Odeio isso, é coisa de tabloides. Por exemplo, aquele filme sobre Kurt Cobain, 'Montage of Heck' ... Achei-o oportunista, insuportável, extremamente ofensivo. "
'Gimme Danger" , pelo seu lado, é um filme que Jarmusch queria deixar em estado bruto, sem filtros e amplificador no máximo, como os discos da banda que ele venera: "Fun House" , "Raw Power" ... "Ainda pensei em falar com o David Bo- Wie [que ainda estava vivo à data desta entrevista], com o John Cale, mas até esses comentários, que seriam seguramente preciosos , acabaram por sair do plano de trabalhô. Quis ficar na família. Os meus filmes, de resto, sempre foram feitos assim. Entretanto fui descobrindo coisas na conversa que se instalaram sem eu me dar conta. Não conhecia o grande amor de Iggy pelos pais. Eles viviam numa caravana, o pai era professor, a mãe secretária. Eram felizes. O Iggy não tem nada daquele cliché do músico rock revoltado com a progenitura. Também não me tinha apercebido até que ponto é extraordinária a sua memória: ele lembra-se de tudo, dos pormenores mais ínfimos e extraordinários. "
O filme, de resto, prova a aptidão de James Newell Osterberg, Jr. [nome verdadeiro de Iggy Pop] para ator, os seus monólogos são de uma clareza apaixonante e Jarmusch aproveitou o melhor deles. Filmou-o três dias, oito horas por dia. "Sabia que ele estava disposto a responder-me a tudo o que eu quisesse perguntar-lhe. E foi o que ele fez, com aquela vontade de sugar tudo à sua volta. É claro que não foi fácil dar uma ordem ao seu discurso, na montagem trabalhámos que nem uns maníacos. " Mas o próprio Iggy ajudou Jarmusch a arrumar as coisas, naquele momento em que ele resume que nunca quis fazer parte disto e daquilo, que nunca foi hippie, nem glam, nem punk, nem alternativo, e que se esteve sempre nas tintas para o que diziam dele — porque ele só quis sempre ser ele próprio" , conclui Jarmusch.
'Sabe uma coisa? Quando eu era adolescente, o meu cabelo começou logo a embranquecer. Eu vestia-me de negro. Vivia obcecado por Hamlet, pelo Roy Orbinson e pelo Zorro! Depois fiz 'Strangers Than Paradise', a preto e branco. Alguém escreveu então algo assim: 'mas que gajo mais pretensioso: veste-se de preto, pinta o cabelo de branco e ainda faz filmes a preto e branco!” Ou seja: comecei a aprender cedo a não passar cartão ao que dizem de mim. Acho que devo isso ao Iggy Pop. Ele viveu sempre muito consciente destas armadilhas e ataques. É um mutante, no corpo e no intelecto. Foi a pessoa que mais força me deu para eu ser quem sou."
Francisco Ferreira, Expresso

 

JANIS: LITTLE GIRL BLUE | 13 JUNHO | IPDJ | 21H30




JANIS: LITTLE GIRL BLUE
Amy Berg, EUA, 2015, 103’, M/12


FICHA TÉCNICA
Realização: Amy Berg
Montagem: Mark Harrison, Maya Hawke, Billy McMillin, Garret Price, Brendan Walsh
Música: Joel Shearer
Fotografia: Francesco Carrozzini, Jenna Rosher
Com: Cat Power, Janis Joplin, Peter Albin
Origem: EUA
Ano: 2016
Duração: 103’
 

 


TRAILER




CRÍTICA


Tem sido difícil arrancar Janis Joplin à caricatura de uns anos 1960 de excessos e libertinagem. Little Girl Blue procura além do mito para nos mostrar o que estava por trás daquela voz tão poderosa, tão eloquente, tão sofrida.
[...]
Criado ao longo de quase uma década por Amy J. Berg (Deliver Us From Evil) e contando com a colaboração próxima da família de Joplin, em especial a sua irmã e irmão mais novos, o documentário mergulha como nunca na intimidade de Janis Joplin, naquilo que era a mulher por trás do mito (falamos de cinema ou televisão, esclareça-se, não de biografias literárias). Além disso, e contrariamente ao que é habitual num documentário supervisionado pela família do biografado, não há em Janis: Little Girl Blue a tentação de fazer hagiografia e esconder os elementos mais sensíveis do seu percurso e personalidade. É certo que estamos perante o corriqueiro formato documental em que depoimentos alternam com imagens de arquivo, mas são muitas e raramente vistas essas imagens [...], bem como as cartas que nos revelam quem era e que pensava Janis Joplin fora do palco e do estúdio. E isso, falando de Janis Joplin, a desconhecida Janis Joplin, é precioso.
Ouvimo-la: “Querida família, consegui passar o meu – ufff – 27º aniversário sem o sentir verdadeiramente… Estive a olhar em volta e reparei numa coisa… de quanto precisas realmente. A necessidade de ser amada e a necessidade de te orgulhares de ti própria. E acho a ambição é isso – não é uma procura depravada por um posto ou dinheiro. Talvez seja amor. Muito amor!”.
Janis: Little Girl Blue é aquela história. A de uma cantora arrebatadora que se entregava sem restrições à música que cantava – “eu sei perfeitamente o que significa cada palavra desta canção”, diz à banda que tenta corrigi-la em Summertime. A de uma performer que ocupava o palco como um furacão, ou seja, incontrolável por definição. A de uma pessoa que cresceu em Port Arthur, Texas, ou seja, no sul racista, misógino e conservador do Sul dos Estados Unidos recusando conformar-se e pagando por isso enquanto vítima de ostracismo e bullying cruel. A mulher que contrariou o que se esperava de uma mulher no seu tempo – “se te defines como alguém que nasceu para lavar pratos, esse é um problema teu”, respondeu à imprensa que a confrontava com as críticas à forma aberta como vivia a sua sexualidade – e que acabaria por encontrar lugar para si entre a comunidade de músicos e artistas de São Francisco, os “esquisitos” ocupados a serem criativos e a planearem “mudar o mundo”. Parece uma grande ambição, mas é coisa pouca. Janis Joplin sabia viver no palco, mas não sabia o que fazer quando ele lhe desaparecia e ficava sozinho consigo mesma. “Meu deus, quero tão desesperadamente ser feliz”, ouvimo-la novamente – isso era bem mais difícil que mudar o mundo.
Janis Joplin é aquela que raramente vimos para além da caricatura. A cantora de vozeirão imponente e vida vivida no limite, entre libertinagem sexual, drogaria a rodos e copo sempre cheio de generosas doses de whisky e foi isso, mas não enquanto poster sem vida. A mulher que representou como nenhuma outra a mitologia dos anos 1960: e depois sai uma versão de Mercedes Benz, canção paródia sem importância alguma, porventura e menos relevante que alguma vez gravou, interpretada por uma qualquer concorrente a um qualquer concurso de talentos televisivo, obviamente enfiada em calças à boca-de-sino, camisa de cores garridas, muitos colares ao pescoço e penas na cabeça.

Janis Joplin desapareceu cedo demais, aos 27 anos, em Outubro de 1970. Deixou quatro álbuns, Big Brother & The Holding CompanyCheap Thrills, ancorados no rock psicadélico de São Francisco, I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!, entre a soul, o blues e o funk, e Pearl, o seu álbum mais celebrado, síntese inspirada de todas as suas referências.
Mas Janis Joplin não desapareceu mais cedo que os outros membros do dito clube dos 27, como Brian Jones, afogado numa piscina um ano antes, Jimi Hendrix, desaparecido em Setembro do mesmo ano, ou Jim Morrison, traído pelo coração numa banheira em Paris, em 1971. Como Kurt Cobain, 27 anos quando disparou uma caçadeira sobre si mesmo em 1994, ou Amy Winehouse, que tinha a mesma idade quando o corpo cedeu por fim em 2011. Joplin, porém, mantém-se em grande parte desconhecida.
A posteridade não a tratou da mesma forma, mesmo tendo em conta que rivalizava em popularidade e respeito crítico com os seus contemporâneos desaparecidos precocemente. Talvez o explique o facto de, ao contrário de Hendrix, não ter uma família que inunda o mercado constantemente com novas edições de novo material, de material quase novo, de material redundante. Talvez tal se justifique por, ao contrário de Jim Morrison, o seu legado não ter servido de referência para uma série de bandas nascidas tão distantes quanto os anos 1980, ou por não ser rosto de um momento zero, irrepetível, na definição da cultura popular juvenil e do imaginário rock’n’roll, como o foi Brian Jones nos Rolling Stones. Faltar-lhe-á um biopic (há três décadas que correm rumores de que um estará a caminho), como aquele em que Val Kilmer encarnou Jim Morrison, nos anos 1990, e que deu nova vida e novas gerações aos Doors. E não negligenciemos a questão do género. Janis Joplin foi mulher sob os holofotes num meio quase exclusivamente masculino, numa sociedade marcada pela misoginia, e que assim se manteria nas décadas seguintes: Joplin contou como, num concerto no Madison Square Garden, um ano antes de morrer, o público seguiu cada minuto à espera que um desastre pudesse acontecer – como que um eco do que, quatro décadas depois, aconteceria com Amy Winehouse.
Little Girl Blue, se não por tudo o resto, e mesmo que falte rasgo ao documentário, tem essa grande virtude: a justiça para com o que foi Janis Joplin, a cantora que surgiu de rompante na São Francisco contracultural da década de 1960, que se apresentou ao resto da América e ao mundo através do Monterey Pop Festival, que se emancipou desse caldo cultural para se afirmar, pela força e aguda sensibilidade que transmitia a sua voz maturada pela adulação devotada a Bessie Smith, Odetta, Aretha Franklin ou Otis Redding.
Janis: Little Girl Blue mostra a beatnick que se apaixonou pela soul e pelos blues e que, logo à primeira canção registada em fita, era ela ainda estudante da Universidade do Texas, deixou ecoar o sentimento que atravessaria tantas das suas cartas, tantas das canções: “What good can drinkin’ do / Lord, I drink all night / but the next day I still feel blue”. Mostra a rapariga que, apesar de incapaz de ser como os pais ambicionavam, se enchia de preocupação quando a mãe a visitava – gostaria da casa nova, do seu namorado Country Joe, do chao-min que preparara para ela? Deixa-nos conhecer a cantora que, entre a heroína e o álcool, que abandonava ocasionalmente para sempre voltar, foi uma intérprete magistral, vivendo cada verso à flor da pele. Frontal, sem traços de cinismo, expôs-se sem restrições: disse o que quis dizer, viveu como quis viver.
“Billie Holiday, Aretha Franklin. Elas são tão subtis, conseguem ‘milk you’ com duas notas. Conseguem fazer-te sentir que te explicaram todo o universo”, elogia no documentário. “Eu ainda não consigo isso. Tudo o que tenho agora é poder. Se continuar a cantar, talvez o consiga”. Morreu cedo demais. Não nos chegou a mostrar o universo como pretendia. Essa tragédia é nossa. A tragédia dela, entre a música que a preenchia como nada mais, o desejo de viver plenamente, excessivamente, e a implacável angústia que a consumia, explica-se agora.
Mário Lopes, Público