A LEI DO MERCADO | 21 FEV | 21H30 | IPDJ




A LEI DO MERCADO
Stéphane Brizé
França, 2015, 93’, M/12

FICHA TÉCNICA
Título Original: La Loi du Marché
Realização: Stéphane Brizé
Argumento: Stéphane Brizé e Olivier Gorce
Montagem: Anne Klotz
Fotografia: Eric Dumont
Interpretação: Vincent Lindon , Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller, Yves Ory , Xavier Mathieu
Ano: 2015
Origem: França
Duração: 93’

FESTIVAIS E PRÉMIOS
César - Prémio Melhor Actor
Festival de Cannes - Prémio Melhor Actor
Lisbon & Estoril Film Festival - Selecção Oficial


NOTA DO REALIZADOR

“Os meus filmes sempre abordaram a intimidade, sem dar destaque aos seres humanos no seu ambiente social. O passo seguinte era observar a brutalidade dos mecanismos e trocas que regulam o nosso mundo, justapondo a humanidade de um indivíduo – um homem vulnerável sem a segurança de um emprego – à violência da nossa sociedade(...)
Observei a vida de um homem que deu o corpo, o tempo e a energia a uma empresa durante 25 anos, antes de ser dispensado porque os patrões decidiram fabricar o mesmo produto noutro país e com mão de obra mais barata. Este homem não é posto no olho da rua por ser um mau funcionário. Ele é posto no olho da rua porque há um grupo de pessoas que quer fazer mais dinheiro.
O Thierry é a consequência mecânica de um punhado invisível de accionistas cuja conta bancária precisa de um estímulo. Ele é o rosto das estatísticas do desemprego de que ouvimos falar todos os dias nas notícias. Podem ocupar só duas linhas num jornal, mas por detrás escondem-se tragédias humanas. Por outro lado, nunca se pensou em usar lugares comuns de lágrima fácil. O Thierry é um homem normal – apesar de a noção de homem normal ter sofrido alterações nos últimos anos – numa situação brutal: está desempregado há 20 meses, desde que a fábrica em que trabalhava fechou, e vê-se agora obrigado a aceitar o primeiro trabalho que lhe aparece.
E quando esse trabalho coloca o indivíduo numa situação moralmente inaceitável, que pode ele fazer? Ficar e tornar-se cúmplice de um sistema injusto, ou despedir-se e regressar a uma vida precária e instável? É esseo cerne do filme. O lugar de um homem no sistema.”
Stéphane Brizé



CRÍTICA
Sendo um oposto espiritual ao tão bem sucedido (e enjoativo na sua demonstração) "A Queda de Wall Street", "A Lei do Mercado" fala-nos do "proletariado" que efetivamente sofreu os efeitos da crise internacional de 2008. 
Neste filme, a montagem bonitinha é mínima. O objetivo é ser o mais naturalista possível, e fora o excelente Vincent Lindon (prémio merecídissimo em Cannes e nos Cesar para Melhor Ator), todos os restantes atores são meros desconhecidos. 
Ao longo de uma série de longos planos, acompanhamos o que acontece a um desempregado de 51 anos, passando por várias etapas do seu dia a dia: das suas visitas ao banco e ao centro de emprego à sua vida familiar (nomeadamente com a sua mulher e o seu filho deficiente), passando por entrevistas verdadeiramente confrangedoras - uma via skype, outra presencial em grupo, até ao momento de quebra final, onde o protagonista e o espectador ficam ambos fartos da situação que assistem. 
Não é um mecanismo propriamente inovador, mesmo dentro do cinema francófono, um cinema com um forte historial do chamado "realismo social". Nas últimas décadas, o ponto de referência mais óbvio é o cinema dos irmãos Dardenne que fartou-se de mostrar (e fartou-me eventualmente com) esta mecânica de "realismo social". Ainda assim, o filme de Stéphane Brizé funciona bem como reflexo dos tempos modernos, pois evita o panfletismo extremista e a exploração da desgraça alheia.
E porque sim, Lindon, enigmático mas capaz de comunicar com o público todas as suas "expressões faciais" e "linguagem corporal" (aproveitando para referenciar o que acontece ali a meio num dos momentos mais desconcertantes e capazes de gerar alguns dos muitos risos nervosos gerados aqui), está lá para aguentar todos os golpes até não dar mais, e para nos fazer cúmplices nesta trama, e consequentemente cúmplices de toda a situação atual mercantil, enquanto meros empregados da máquina.
É esta atualidade e universalidade da história, aliada a uma das performances mais marcantes do ano, que tornam "A Lei do Mercado" tão difícil de dispensar.
André Goncalves, c7nema.net




ENTREVISTA A VINCENT LINDON
Thierry, pai de família de meia-idade, operário, descobre-se no desemprego de um dia para o outro e vai ter de se fazer à vida, procurando com desespero o emprego que já ninguém lhe quer dar. Espera-o um combate com uma realidade mesquinha e revoltante. É este o ponto de partida de “A Lei do Mercado”, de Stéphane Brizé, uma das representações francesas do último Festival de Cannes. No último Lisbon & Estoril Film Festival, em novembro passado, conversámos com o protagonista da obra, Vincent Lindon.
Comprometeu-se a fundo, desde Cannes, com a defesa de “A Lei do Mercado”, quase como se o filme fosse se. Por algum motivo em particular?
Eu defendo todos os filmes que faço, quando os faço é para ir até ao fim. Os filmes são como os filhos, às vezes parece que gostamos deles com intensidades diferentes mas, no fundo, o que importa é que gostamos de todos. Cannes ajudou “A Lei do Mercado”, tornou-o mediático, propagou este eco que agora é enorme. Mas não o defendi mais do que os filmes anteriores que fiz com o Stéphane Brizé, por exemplo. Acontece que a história do filme em si leva-nos a querer falar de coisas importantes que se passam hoje e isso é tão forte que o meu compromisso acabou por ficar mais forte.
Qual foi a sua primeira reação ao ler o argumento?
Isto foi um fllme que começou antes de qualquer argumento na minha cabeça e na do Stéphane, é talvez por isso que eu me sinto também um bocadinho seu autor. E ao mesmo tempo é um fllme muito preparado, muito escrito, embora pareça espontâneo, natural. Mas não há nada de improvisação aqui. Tudo foi previsto ao pormenor.
Está a dizer-me que o seu envolvimento com o filme vem de uma etapa anterior ao argumento?
Sim, houve um dia em que fiquei chocado com um caso de injustiça social que vi na televisão. Um fait-divers assaz penoso. Como conheço bem o Stéphane, pois temos trabalhado bastante nos últimos tempos [“Quelques heures de printemps”, 2012, “Mademoiselle Chambon”, 2009, ambos inéditos em Portugal], disse-lhe que um dia devíamos fazer qualquer coisa sobre aquilo, sobre um homem que, a uma data altura da sua vida, vai ter de escolher se quer continuar a sofrer em silêncio num sistema social que oprime ou antes dar um murro na mesa para que as coisas mudem.
Pensou nesse limite, nessa fronteira, ao envolver-se no filme?
Ah, sim, todo o tempo. “A Lei do Mercado” também nos pergunta isto: até onde podemos suportar certas coisas? A partir de que momento um emprego se torna algo de insuportável? Estes temas obcecavam-me, ao Stéphane, sem eu o saber, também. Ele começou depois por esboçar um argumento, três ou quatro páginas que foram crescendo. O filme fez-se assim, começou desta maneira modesta, com um sentido de economia muito pequeno e depois tornou-se uma coisa que andou muito depressa, como se fosse urgente, um caso de vida ou de morte.
Foi preciso “esquecer” o argumento uma vez iniciada a rodagem?
Percebo o que quero dizer mas não, nós seguimos o guião com bastante fidelidade. O que acontece é que a interpretação não é uma palavra escrita. Um ator tem de saber colocar-se numa situação de perigo para poder viver realmente a história o mais perto possível da personagem — e isto não é coisa que se escreva. Faz-se. Aconteceu-nos por isso termos de reinventar o argumento, reinventar as situações em vez de as repetir palavra por palavra, tal como inicialmente estavam escritas.
Contracenou com muitos não-atores neste fllme. Como é que um profissional com a sua experiência e carreira Iida com uma situação dessas? É algo que o provoca ou que lhe mete medo?
Medo não, não tenho, como na vida. O único medo que tenho é de ler um argumento de alguém de quem gosto e de não gostar dele. O meu medo na vida é o de ser desapontado. Acho que o mundo de hoje gira muito em torno do desapontamento, que é algo que eu não suporto. Quanto aos não-profissionais ... Olhe, a verdade é que sou um ator que se está nas tintas para a minha imagem. Para mim, a minha imagem é tão importante como ... o meu primeiro par de sapatos. E acho que isso facilita-me o trabalho, sobretudo quando não tenho profissionais à minha frente.
QuaI é a coisa mais importante para si no cinema?
Isto pode parecer trivial mas a história, para mim, é o mais importante. Quando digo que sim a um realizador nunca é pela amizade, pela simpatia, pelo compromisso, é sempre a história, é ela que arrebata, que me leva. É a ela que me agarro e é por ela que perco o medo. Ofereço-me, dou-me por inteiro.
Há muito dlsso em “A Lei do Mercado”, de saber viver cada momento, concorda?
O Stéphane Brizé, no início da rodagem, disse-me uma frase que me ficou na memória durante todo o filme e que ainda não esqueci hoje: “Leva o tempo que precisares, como na vida”. Isto pode parecer absurdo numa rodagem de cinema, em que o tempo custa dinheiro e em que é preciso trabalhar depressa. Mas com ele, não. Se a cena nos levasse 20 minutos a fazer, filmávamos 20 minutos, sem cortes. E a cena já não se podia repetir, tinha de ser aquela, tinha de ser genuína, isso aconteceu-nos várias vezes, com o momento em que o Thierry vai ter de vender a casa de férias prefabricada, por exemplo. Tentámos que o tempo de cada cena fosse como um pedaço da vida. Isto para o Stéphane é a coisa mais preciosa que há, é o Santo Graal. O ator não está jamais à frente do espectador, não tem sobre ele qualquer vantagem. Fizemos as cenas, todas sem exceção, com este grau de liberdade, sem sabermos o que podia acontecer a seguir e, para mim, é isso que torna “A Lei do Mercado” um filme tão especial.
Francisco Ferreira, Expresso