JULIETA | 21 JAN - VRSA - 17H e 24 JAN - IPDJ - 21H30



JULIETA 
Pedro Almodóvar 
Espanha, 2016, 99’,  M/14


Julieta está decidida a trocar Madrid por Lisboa para acompanhar Lorenzo, o namorado, e recomeçar a sua vida. Um dia, sem que esperasse, cruza-se na rua com Beatriz, uma amiga de Antía, a sua filha. Este encontro vai fazê-la recuar no tempo e relembrar os motivos que a levaram a perder o contacto com a sua única filha durante os últimos doze anos. Por causa disso, Julieta desiste da viagem para Portugal e muda-se para o apartamento onde antes vivia. Lá, escreve uma longa carta a Antía, recordando a sua vida em comum e tudo o que deu origem à separação…
 

 

 TRAILER

 

 
FICHA TÉCNICA
Realização: Pedro Almodóvar
Argumento: Pedro Almodóvar, a partir de três contos de “Fugas”, antologia da Nobel da Literatura Alice Munro
Montagem: José Salcedo
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Música: Alberto Iglesias
Interpretação: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Inma Cuesta, Darío Grandinetti, Michelle Jenner
Origem: Espanha
Ano: 2016
Duração: 99’

 

CRÍTICA

Houve tempos em que cada novo filme de Pedro Almodóvar era uma petulante e descomedida provocação ao cinema que havia e mesmo ao que dele se esperava. Foi o tempo do traço grosso e berrante de “Negros Hábitos”, de “Matador”, de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. Em seguida foi o tempo de maturidade do mais célebre cineasta castelhano depois de Buñuel com histórias de fazer chorar as pedras, temperadas de sarcasmo e embrulhadas sempre em bandas sonoras onde avultavam boleros que nos arrepiavam a alma (“Tudo Sobre a Minha Mãe”, “Voltar”). Pelo meio houve coisas menores, filmes onde avultava uma vontade de diferença que, às vezes, ficava embuchada, irrisória. Na última década, conforme o ego do cineasta inflamava, os filme ficavam quase sempre nas covas de intenções que a prática não atingia.
Almodóvar parecia não ter coisa alguma a acrescentar ao seu legado.
A notícia do ocaso criativo do criador de “a Lei do desejo” era, todavia, prematura, constata-se agora. Talvez ele não tenha muito a acrescentar a uma obra que se perfila, imponente, desde o princípio dos anos 80, mas “Julieta” é um seguríssimo melodrama onde Almodóvar volteia por um território que só a espaços percorreu – mãe e filhos, laços de sangue, laços que sangram – e que aqui enfrenta de rosto sério, nada de chistes, nada de escárnios (até a recorrente Rossy de Palma não é jucosa, antes funesta).
Não são lugares ficcionais e vivenciais que o cineasta ignore, mas sente-se a nítida vontade de sair de zonas de conforto e de ir até onde as suas convicções vacilam. Essa sensação estende-se mesmo à geografia que “Julieta” habita (da Galiza à Andaluzia, o cineasta sai do vetor Madrid - La Mancha que os seus filme melhor frequentam). E, depois, nesta história de uma mulher que perde uma filha, o que é isto de condenar os seus personagens a lugares de culpa e expiação? O que é isto de ir escavar no âmago do catolicismo, onde não há trangressão que não tenha um reverso? O que é isto de ter no centro de um filme gente que já se angustia com a hipótese de envelhecer sozinha? O que é isto de olhar a família como um espaço onde, mesmo na dilaceração, há sempre âncoras de sobrevivência?
Julieta é uma mulher que, em vez de se perder no mundo, vivendo a vida que melhor lhe assenta, decide ficar plantada num sítio onde possa ser encontrada - como um farol, um porto de abrigo, uma casa antiga a que se sabe que é possível retornar. Na obra de Almodóvar não encontro outra firmeza assim, porque, se calhar, há gestos que só se congeminam possíveis numa altura da vida que agora o cineasta vive.
Melodrama em pinceladas largas, filme formalmente muito elegante (é tão bonito o plano em que Almodóvar muda de atriz para figurar a sua protagonista!), sem pinta daquela vulgaridade chocarreira, tão exibicionista e tão castelhana que, no passado, tanta panache concedeu ao seu realizador, “Julieta” não pertence à estirpe de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”.
É um filme sereno e sofrido que volta a pôr Almodóvar no lugar que todos os cineastas que valem a pena tocam: o dos grandes sentimentos, das fundas emoções, porventura uma lágrima, uma canção rouca, um toque de vermelho.
Jorge Leitão Ramos, Expresso

 


Almodóvar regressa à boa forma com uma adaptação de Alice Munro.
E se Pedro Almodóvar se estivesse a tornar num Claude Chabrol hispânico? É uma possibilidade tentadora, admita-se, porque à excepção do divertissement de Os Amantes Passageiros (2012), os últimos filmes do cineasta espanhol – Voltar (2005), Abraços Desfeitos (2009), A Pele onde Eu Vivo (2011) e agora Julieta – têm algo daquele olhar simultaneamente impiedoso e afectuoso sobre a burguesia provincial que o francês aperfeiçoou nas últimas duas décadas da sua carreira. E porque são filmes que têm sempre uma qualquer peculiar dimensão de “filme negro”, onde há sempre segredos existenciais a quererem vir ao de cima para voltarem a afundar logo a seguir. Julieta é, diga-se desde já, o melhor filme deste lote, e é também o mais “Chabroliano” destes últimos filmes, pelo modo como o tema da culpa e da responsabilidade é declinado pelo realizador.
Quer através da música convenientemente inquietante de Alberto Iglesias, quer pelos segredos que a heroína transporta consigo que evocam algo dos grandes clássicos da woman’s picture hollywoodiana (ai aquela governanta ríspida a que Rossy de Palma dá algo de Judith Anderson ou Stéphane Audran), há sempre uma sensação em Julieta de que nada é tão simples como parece, que há algo de tão inconfessável que pode destruir vidas – e não é isso que os segredos fazem no cinema?
Julieta, então, encontramo-la primeiro à beira de partir de Madrid com o seu companheiro, mas o encontro casual com uma amiga da filha que não vê há anos leva-a a abandonar esse projecto. Almodóvar conta a sua história alternando dois tempos narrativos onde Julieta é interpretada por duas actrizes diferentes – Emma Suárez no presente, Adriana Ugarte no passado – repetindo aquele que tem sido um dos seus leit-motiv narrativos recentes, a viagem entre o passado e o presente, aqui invertendo o que Hitchcock fazia em Vertigo (Julieta é também uma mulher que viveu duas vezes). É por essa dimensão esteta anunciada desde o início que Julieta corre o risco de repisar o exercício de estilo em que os últimos filmes do cineasta se deixaram encerrar.

Mas, ao recorrer a contos de Alice Munro combinados numa sedutora teia de pequenos nadas que só gradualmente vão revelando a sua importância, Almodóvar reencontra (mesmo que em tom menor do que na sequência de obras-primas da passagem para os 2000) algum do seu élan criativo, sem perder de vista o grande romantismo malsão e desesperado das heroínas trágicas que sempre amou. Julieta é uma romântica à procura do Romeu que sempre lhe escapou por entre os dedos, uma mulher que procura apaziguar uma culpa que talvez não exista, uma grande heroína Almodóvariana. Julieta é um grande pequeno filme de câmara, um melodrama onde todas as viagens, da Galiza à Andaluzia, de Madrid a Portugal, acabam encerradas entre as quatro paredes de um quarto, de uma sala, de uma casa, de um compartimento de um comboio, de um carro. Há coisas das quais não se consegue fugir, e Almodóvar liberta-as entre quatro paredes.
Jorge Mourinha, Público