Abbas Kiarostami: Reflexões Sobre o Cinema -Última Parte| 13.12.12| Sede do CCF

13 de DEZEMBRO "10 Sobre Dez", Abbas Kiarostami, Documentário, Irão MK2 Diffusion, 2004, 83', 16mm
 
Ficha técnica:
Título Original: 10 on Ten
Argumento: Abbas Kiarostami
Fotografia: Abbas Kiarostami
Montagem: Abbas Kiarostami
Com: Kris Cuppens
Produtor: Abbas Kiarostami
Produção: Abbas Kiarostami 
Género: Documentário
Duração: 83 minutos



SINOPSE: Abbas Kiarostami voltou a Teerão, mergulhando numa reflexão sobre seu processo criativo. O resultado está neste filme, em que ele compartilha as experiências de uma carreira de mais de 30 anos e 36 filmes, dividindo-as em dez capítulos: introdução; câmera; assunto; argumento; locações; música; o ator; equipamentos; o realizador; a última lição. Para Abbas Kiarostami, o cinema é simples: tudo o que se precisa é uma câmara, três lentes e um par de tripés. Cada movimento de câmara – ou a ausência dele – deve ter uma boa razão. A câmara DV, que ele descobriu quando precisou refilmar às pressas as cenas finais de Gosto de Cereja, arruinadas no laboratório, é hoje uma de suas paixões. Kiarostami vê nessa pequena câmara portátil o instrumento ideal para abolir clichés e superar pretensões estéticas. No seu entender, por seu baixo custo, a tecnologia digital libera os cineastas para serem tão independentes como escritores, pintores e escultores, além de fornecer-lhes mais uma arma em países onde ainda existe a censura, como o seu. Finalmente, Kiarostami estabelece as ligações de seu cinema com o neo-realismo italiano, invocando os ensinamentos de Cesare Zavattini, que acreditava que os temas para os filmes podem ser encontrados sempre à nossa volta, nas ruas.

Adeus, Minha Rainha| IPDJ| 21:30| 11.12.12




ADEUS, MINHA RAINHA, 11 de DEZEMBRO 2012, BENOÎT JACQOUT, 100', França 2012


Ficha Técnica:
Título Original / Internacional: Les Adieux à la Reine
Realização - Benoît Jacquot
Argumento - Gilles Taurand, Benoît Jacquot
Actores:Diane Kruger, Léa Seydoux, Virginie Ledoyen, Xavier Beauvois, Noémie Lvovsky
Música - Bruno Coulais
Director de Fotografia - Romain Winding
Montagem - Luc Barnier, Nelly Ollivault
Guarda Roupa - Christian Gasc, Valérie Ranchoux
Som - Brigitte Taillandier
Ano de Produção: 2012
País: França
Duração : 100´

SINOPSE:
Versalhes, Julho de 1789. A turbulência está a crescer na corte do Rei Luís XVI. O povo está a manifestar-se e a revolução está iminente. No palácio real, toda a gente está a pensar em fugir, incluindo a Rainha Marie Antoinette (Diane Kruger) e a sua «entourage». Entre as damas de companhia encontra-se Sidonie Laborde (Léa Seydoux) que é quem lê para a monarca e se tornou muito íntima dela, e que vai viver com grande surpresa as primeiras horas da Revolução Francesa.






CRÍTICA:
A história conta-se com tempo e distância. Procurando uma objetividade que o jornalismo tenta observar mais em cima do acontecimento. Mas quando estamos demasiado perto das situações há, inevitavelmente, um ponto de vista. Não apenas pela forma como pessoalmente interpretamos o sucedido em função da nossa proximidade relativamente aos factos. Mas também pelo modo como a esses factos temos acesso... Estas são premissas centrais a Adeus, Minha Rainha (no originalLes Adieux à La Reine), filme de Benoît Jacquot que abriu este ano a Berlinale e que chega hoje às salas de cinema portuguesas.
O lugar é Versalhes. O tempo, o dia 14 de julho de 1789. O dia da tomada da Bastilha (em Paris). O eclodir da revolta popular que em breve se transformaria numa revolução. Mas no palácio, a poucas dezenas de quilómetros da capital francesa, é business as usual (que é como quem diz que não acontece nada além de uma agenda de frívolo passar do tempo para a corte e de azáfama quase invisível para quem a serve). Adeus, Minha Rainha, coloca-nos em Versalhes, ao longo dos três dias que se seguem à revolta popular. Observa como a informação vai chegando aos poucos, sussurrada primeiro entre rumores de algo que terá acontecido, explosão de terror pouco depois quando ali chega uma lista das cabeças que a multidão revoltada quer fazer saltar...
Benoît Jacquot foca contudo o desenrolar dos acontecimentos segundo o ponto de vista de uma criada. Sidonie (interpretada por Léa Seydoux), a leitora da rainha Maria Antonieta, que começa o dia a rumar ao Petit Trianon para ler-lhe algumas páginas e acaba a tecer um bordado para tentar aliviar a tensão e o medo que pouco depois ali se instala. É entre as cozinhas, os corredores dos dormitórios dos criados e salas de trabalho onde a corte não entra que o filme coloca o seu ponto de vista, olhando a realeza e quem com ela vive de perto. Entre gente do povo, portanto, mas habituada a uma vida entre o fausto de Versalhes. Uma população crítica, talvez, mas não inocente...
O filme, baseado no romance de Chantal Thomas, junta ainda uma condimentação extra ao sugerir uma tensão amorosa (podemos mesmo dizer erotizada, se bem que não necessariamente sexualmente consumada) entre a rainha (Diane Kruger) e a duquesa de Polignac (Virgine Ledoyen). História paralela que quase tropeça no verdadeiro fio narrativo e que acaba na verdade coisa tão secundarizada como a passagem por algumas cenas e planos do rei Luis XVI. Afinal, é entre quem serve os apartamentos da rainha que olhamos o evoluir dos acontecimentos.
Se o magnífico A Inglesa e o Duque, de Eric Rohmer, nos deu um ponto de vista diferente da revolução francesa (em concreto o da aristocracia), Adeus, Minha Rainhaolha-a do ângulo dos que a serviam. Tal como o belíssimo Marie Antoniette, de Sofia Coppola, o filme de Jacquot revela espantosa art direction e tem um cuidado extremo na reconstituição dos espaços, dos figurinos e dos gestos. Focado porém no momento em que uma onda de choque abana a pax dourada de Versalhes, Adeus, Minha Rainha é narrativamente mais consistente (por oposição ao olhar eminentemente plástico do filme de Coppola que, na essência nos mostra a história de um lugar onde não havia história senão uma rotina de protocolos coreografados, com pontos de fuga nas noites de festa e nas escapadelas no Trianon). Tal como o filme de Coppola, também o de Jacquot deixa a história da revolução por contar. Fica em Versalhes. O resto, sabemo-lo dos livros de história.
A solidez com que lança o olhar, encena os acontecimentos e observa o fazer da história faz de Adeus, Minha Rainha, um episódio marcante na história da representação deste período da história de França. Quem pensava que já tinha sido contado tudo sobre Versalhes e a revolução francesa, terá aqui uma bela surpresa.