DIA 18 FEVEREIRO
HISTÓRIAS QUE CONTAMOS, Rebecca Zlotowski,
França/Áustria, 2013, 94’, M/12
FICHA TÉCNICA
Título Original: Grand
Central
Realização: Rebecca
Zlotowski
Argumento: Rebecca Zlotowski,
Gaëlle Mace
Montagem: Julien Lacheray
Interpretação: Tahar
Rahim, Léa Seydoux, Olivier Gourmet, Denis Menochet, Nozha Libereau, Nahuel
Prez Biscayart, Camille Lellouche, Guillaume Verdier
Origem: França/Áustria
Ano: 2013
Duração: 94’
Classificação: M/12
SINOPSE
Quando Gary decide
aceitar um trabalho numa central nuclear, está convencido de que aí encontrará
amigos, dinheiro e um novo sentido para a vida. Por isso, não teme tornar-se
"saltador", cuja função é aproximar-se o mais possível do reactor
nuclear, em áreas altamente radioactivas. É então que conhece Karole, uma
rapariga comprometida por quem se apaixona e com quem, secretamente, inicia uma
relação. Porém, quando Gary atinge o limite de radiações aceitável, decide
esconder os valores, receando ter de se separar de Karole. Assim, cada vez mais
sujeito aos perigos da radiação, todos os dias passam a equivaler a mais um
passo em direcção ao seu fim…
Em competição no Festival de Cannes, uma história de amor escrita e realizada por Rebecca Zlotowski ("Belle Épine") que conta com Tahar Rahim e Léa Seydoux como protagonistas.
Em competição no Festival de Cannes, uma história de amor escrita e realizada por Rebecca Zlotowski ("Belle Épine") que conta com Tahar Rahim e Léa Seydoux como protagonistas.
TRAILER
CRÍTICA
"É com brio que o segundo
filme de Rebecca Zlotowski (Un Certain Regard) conta,à maneira dos mestres do
realismo francês, uma paixão proibida nos arredores de uma central nuclear. Os
actores (Léa Seydoux, Tahar Rahim, Oliver Gourmet…) são excepcionais."
Aurélien Ferenczi, Télérama
"O filme abre as portas de um mundo aterrorizante, desconhecido da maior parte dos espectadores, e dá vida a um grupo de personagens dominado por alguns actores espantosos (…)."
Pascal Mérigeau, Le Nouvel Observateur
"GRAND CENTRAL vai connosco numa espécie de doce amargura."
Maria
Espírito Santo, Jornal i
"Uma história de amor
proibido numa central nuclear: eis o ponto de partida do filme de Rebecca
Zlotowski.
No início, o filme
apresenta-nos Gary, jovem rebelde, acabado de sair da cadeia, poucos estudos,
mas muita vontade de vencer.
A sua cara não é estranha: o ator chama-se Tahar Rahim. Gary está só, fala com uma assistente social, vai ter que aprender a viver num meio hostil — de certa maneira, é como se o ator não tivesse ainda abandonado a personagem que o lançou em “Um Profeta”, de Jacques Audiard. Para onde enviam Gary, sob a promessa de 1200 euros por mês? Para um trabalho de risco. Para uma ‘narrativa radioativa’. Gary arranja trabalho numa central nuclear do oeste francês. É nesse décor feio, triste, ameaçador, que ele conseguirá fazer alguns amigos: Gilles (Olivier Gourmet, grande ator que conhecemos dos Dardenne, especialista em papéis de proletário), também Toni (Denis Ménochet, que todos recordam do seu papel em “Sacanas Sem Lei”de Tarantino).
O eixo motriz do enredo denuncia-se cedo, quando Karole (Léa Seydoux, que já entrara em “Belle Épine”, longa-metragem de estreia de Rebecca Zlotowski), mulher de Toni, entra em jogo, com uns calções tão curtos como os seus cabelos (Léa tinha acabado de rodar “La Vie d’Adèle”, a Palma de Kéchiche). Todos eles trabalham na maldita central. Gary cai aos pés dela. Tornam-se amantes, em segredo. Gary acabou de sair de um poço e está prestes a meter-se noutro, o de um amor proibido, em perigo de contágio iminente, simbólico e literal porque entretanto há um acidente na central que deixa nos corpos maleitas que o olho nu não pode ver. Onde está o sentimento de culpa? Não em Karole, que se deixa ir. Talvez em Gary, que vai atrás dela. E é com uma justeza assinalável que Zlotowski começa, pouco a pouco, a definir o que vai roer as suas personagens.
A sua cara não é estranha: o ator chama-se Tahar Rahim. Gary está só, fala com uma assistente social, vai ter que aprender a viver num meio hostil — de certa maneira, é como se o ator não tivesse ainda abandonado a personagem que o lançou em “Um Profeta”, de Jacques Audiard. Para onde enviam Gary, sob a promessa de 1200 euros por mês? Para um trabalho de risco. Para uma ‘narrativa radioativa’. Gary arranja trabalho numa central nuclear do oeste francês. É nesse décor feio, triste, ameaçador, que ele conseguirá fazer alguns amigos: Gilles (Olivier Gourmet, grande ator que conhecemos dos Dardenne, especialista em papéis de proletário), também Toni (Denis Ménochet, que todos recordam do seu papel em “Sacanas Sem Lei”de Tarantino).
O eixo motriz do enredo denuncia-se cedo, quando Karole (Léa Seydoux, que já entrara em “Belle Épine”, longa-metragem de estreia de Rebecca Zlotowski), mulher de Toni, entra em jogo, com uns calções tão curtos como os seus cabelos (Léa tinha acabado de rodar “La Vie d’Adèle”, a Palma de Kéchiche). Todos eles trabalham na maldita central. Gary cai aos pés dela. Tornam-se amantes, em segredo. Gary acabou de sair de um poço e está prestes a meter-se noutro, o de um amor proibido, em perigo de contágio iminente, simbólico e literal porque entretanto há um acidente na central que deixa nos corpos maleitas que o olho nu não pode ver. Onde está o sentimento de culpa? Não em Karole, que se deixa ir. Talvez em Gary, que vai atrás dela. E é com uma justeza assinalável que Zlotowski começa, pouco a pouco, a definir o que vai roer as suas personagens.
A jovem cineasta de 32 anos
visitou Portugal há pouco, no âmbito da Festa do Cinema Francês. Falámos um
pouco com ela, na esplanada de um hotel de Lisboa. Quisemos saber de onde lhe
veio tão tóxica ideia para este filme estreado em maio, em Çannes. Veio de um
livro, contou ela, “La Centrale”, de Elisabeth Filhol. A sua argumentista,
Gaëlle Macé, mostrou-lho. Rebecca disse que estava ali escondido um filme por
fazer. “Nunca tinha pensado no nuclear, era um assunto que estava longe dos
meus pensamentos. Outra coisa me interessou: explorar um quotidiano duro como
poucos, e praticamente desconhecido por quem nele nunca entrou. Depois, veio a
tragédia de Fukushima, no Japão. O filme já estava em andamento. É um desses
acasos em que um realizador diz ‘merda!, tenho uma ideia genial nas mãos e de repente
há este acidente que vem recolocar a discussão sobre o nuclear na praça
pública...” Quem viu “Belle Épine”, e quem vê agora “Grand Central”, descobrirá
contudo, não uma Fukushima adornada de romance por uma cineasta francesa, mas
outra coisa: “Um amor negro, venenoso, cansado, que é sintoma dos tempos
cinzentos que vivemos.”
Há pelo menos dois filmes em “Grand Central”: o da paixão de Gary e Karole, e o retrato minucioso da vida de uma central nuclear, que para nós é menos ficcional do que o primeiro, já que pouco ou nada se sabe do que é a vida nesse ambiente selado e secreto (tão secreto que, como já esperava, Rebecca não pôde, por razões de segurança, filmar numa verdadeira central no ativo: descobriu outra, construída, mas travada e desativada pela lei austríaca, nos arredores de Viena e foi para lá que levou a sua equipa). A cineasta não contradiz que procurou envolver o seu filme num efeito de documentário que descreve tecnicamente o que significa um trabalho de alto risco. Assume, contudo, que esse efeito é só uma etapa do trabalho e que o que conta é a ficção (“estudei na Fémis, sou argumentista de base, não tenho receio de afirmar que sigo cânones académicos”) e o trabalho exclusivo com atores profissionais, mesmo os secundários, “porque este filme necessitava absolutamente do seu profissionalismo.” É seguramente por eles, sobretudo por Léa Seydoux, mulher dividida entre dois homens em “Grand Central”, “mulher que não é puta nem é santa e que vem das heroínas do film noir americano”, acrescenta Rebecca, que o filme merece uma visita."
Há pelo menos dois filmes em “Grand Central”: o da paixão de Gary e Karole, e o retrato minucioso da vida de uma central nuclear, que para nós é menos ficcional do que o primeiro, já que pouco ou nada se sabe do que é a vida nesse ambiente selado e secreto (tão secreto que, como já esperava, Rebecca não pôde, por razões de segurança, filmar numa verdadeira central no ativo: descobriu outra, construída, mas travada e desativada pela lei austríaca, nos arredores de Viena e foi para lá que levou a sua equipa). A cineasta não contradiz que procurou envolver o seu filme num efeito de documentário que descreve tecnicamente o que significa um trabalho de alto risco. Assume, contudo, que esse efeito é só uma etapa do trabalho e que o que conta é a ficção (“estudei na Fémis, sou argumentista de base, não tenho receio de afirmar que sigo cânones académicos”) e o trabalho exclusivo com atores profissionais, mesmo os secundários, “porque este filme necessitava absolutamente do seu profissionalismo.” É seguramente por eles, sobretudo por Léa Seydoux, mulher dividida entre dois homens em “Grand Central”, “mulher que não é puta nem é santa e que vem das heroínas do film noir americano”, acrescenta Rebecca, que o filme merece uma visita."
Francisco Ferreira, Expresso, 26/10/13
ENTREVISTA COM A REALIZADORA
A
realizadora de Belle Épine reúne Tahar Rahim e Léa
Seydoux no seu romance venenoso. Grand Central ou o amor impossível
de Difamação de Hitchcock transposto para uma central
nuclear. Rebecca Zlotowski abre o coração sobre o seu último filme.
Diga-nos como surgiu o seu
filme.
Foi a minha argumentista, a
Gaëlle Macé, quem teve a ideia do filme. Tínhamos lido um livro muito bonito
que falava do dia-a-dia de trabalhadores do sector nuclear, La Centrale de
Elisabeth Filhol. Este mundo proibido, perigoso, deu-nos imediatamente vontade
de fazer nele uma grande história de amor.
Trabalhávamos no filme há já alguns
meses quando se deu a catástrofe de Fukushima. Eu estava na Costa Oeste dos
Estados Unidos, sobre a qual a nuvem radioactiva devia passar, segundo
anunciado pelos boletins informativos alarmistas. Foi surrealista! De repente,
estava no centro do tema… Esta tragédia deu-nos a certeza de que tínhamos de
continuar.
Alguma recordação especial
ou engraçada das filmagens?
Fazemos os filmes com os
nossos medos: tinha acabado de realizar um filme sobre um circuito ilegal de
motas, eu que nem sequer tenho carta de condução. Sabia que ao filmar numa
central nuclear ia ter de afastar as minhas vertigens doentias. Para um dos
planos, tínhamos de subir numa embarcação que nos elevava a 20 metros acima da
piscina de descontaminação. Hesitei durante muito tempo e depois deixei-me
levar. Duas semanas depois, uma embarcação equivalente cedeu numa central
nuclear em França…
Que tipo de cinema a
influenciou?
É difícil responder, pois a
pergunta subentende que podemos fazer conjuntos definidos e preferir um
determinado cinema em prol de outro. Pertenço a uma geração que não teve de
escolher entre cinema de autor e cinema comercial, nem mesmo entre ficção e
documentário: para mim todos esses mundos são híbridos e regeneram-se
mutuamente. Tenho uma cultura de amostragem que vai buscar a inspiração a todos
os sítios.
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