Obras-Primas na Sede, 5ªf 17 - A BELA DE DIA de Luis Buñuel, o Herege.

21h30. Entrada livre. Cerveja ou água a 1€...

Ciclo "Buñuel, o Herege", antecipando a Conferência sobre este realizador que será proferida pelo Dr Reia Baptista no próximo dia 6 de Junho, na Sede, integrada no Projecto "Livros em Cadeia" (iniciativa com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian).



O maior sucesso comercial da carreira de Buñuel surgiu, um tanto inesperadamente, com esta famosa obra que não resultou de uma escolha deliberada do autor mas de uma encomenda dos conhecidos produtores franceses, os irmãos Hakim, que tinham fama de ser gente pouco fácil. Buñuel tinha voltado a Espanha, depois do seu último filme mexicano (Simon del Desierto, 1965) e só pensava dar uma sequência aos temas que considerava apenas esboçados nessa obra. Era já La Voie Lactée que o obcecava, embora o projecto, em que trabalhou no ano de 1966, não se intitulasse assim. Era El Monje, filme que nunca chegou a realizar. O produtor que o devia financiar faliu e, pelo que Buñuel gostava de chamar "as voltas do acaso", caiu-lhe do céu aos trambolhões essa encomenda dos irmãos Hakim para adaptar o romance do académico Joseph Kessel com Catherine Deneuve na protagonista.

Inicialmente pouco entusiasmado, Buñuel acabou por aceitar, sob condições: exigiu liberdade total e exigiu a revogação da cláusula que dava direito à intervenção dos produtores na montagem final. Terminado o filme, houve, porém, alguns problemas. Os Hakim tiveram medo da censura e pediram a Buñuel que fizesse alguns cortes para evitar alheias tesouradas. Ao contrário do que por vezes se diz, esses cortes não têm nada que ver com as cenas na casa de passe, nomeadamente com o conteúdo da caixinha do japonês (admirável elipse erótica, tão típica do universo Buñueliano, a que mais adiante me referirei) mas com a introdução da imagem de Cristo na sequência em casa do duque. No célebre episódio necrófilo, Séverine e o duque eram "pontuados" pela imagem do Cristo ressuscitado do Retábulo de Isenheim de Grünewald, que Buñuel considerava a mais terrível das imagens de Cristo jamais feitas. Também houve problemas com a nudez de Catherine Deneuve, na mesma sequência. Ainda não eram os anos de habituais aparições de nus integrais e a actriz recusou-se a aparecer assim. Mas aí Buñuel resolveu a situação a seu favor: os véus transparentes só acentuam o erotismo, bem como a visibilidade do nu de costas e a sua "obscuridade" de frente.

Posto este preâmbulo, passo à análise possível desta complexa obra. Em Belle de Jour, o carácter onírico dos filmes de Buñuel acentua-se a um ponto limite. Nunca sabemos bem quando Séverine está a sonhar, a recordar ou a viver, ambiguidade que começa no início (genérico com a carruagem e os obcecantes guizos da banda sonora) e se mantém até ao fim, quando Pierre se levanta aparentemente curado e se repete a imagem inicial (só que, nesse último plano, os cocheiros conduzem uma carruagem vazia). Tudo foi um sonho de Séverine, uma rêverie de um personagem particularmente propício a ela? O sonho refere-se apenas à casa de passe? Exclusivamente às sequências sem qualquer conteúdo realista? Ao final? Não sabemos. Buñuel deixa-nos sem pistas e, a entrevistadores mexicanos, declarou mesmo que "nem eu próprio lhes posso dizer o que é real ou o que é imaginário no filme. Para mim, são uma e a mesma coisa". E quando os exegetas lhe puxaram pela língua e lhe observaram que todo o episódio do bordel, ou a relação com Clémenti, parecem produto da imaginação de Séverine, Buñuel respondeu: "Não. Uma mulher que pergunta ao marido o que é um bordel, não podia inventar as aberrações que lá vê", citando ainda, em abono desse realismo, a conversa com Piccoli quando este lhe dá a morada do número 11, da Cité Jean de Saumur. Explicações que não são muito convincentes e contradizem o essencial, na frase já citada que abole as fronteiras entre o real e o imaginário.


Melhor é acompanhar a prodigiosa estrutura desta prodigiosa obra. Tudo começa e tudo acaba numa tarde de outono, num parque, com folhas caídas pelo chão. Na banda sonora ouvimos o barulho da carruagem e uns guizos que não são muito plausíveis. Ao longo do filme, duas pistas (se quisermos ser lógicos) nos são dadas para essa luz outonal e para essas campainhas. Ambas são dadas por Michel Piccoli, contraponto sádico do masoquismo da protagonista. ("Você gosta de ser humilhada, eu não" diz mais ou menos ele quando se encontram no bordel). Quando Piccoli se refere, na repetição onírica da sequência da neve, à luz negra do sol de outono e quando, noutra sequência onírica, ouvimos e vemos os guizos dos touros: "La plupart d'eux s'appele remords, sauf le dernier qui s'appele expiation ". Ora, entre o negro, o remorso e a expiação, ocorrem os fantasmas eróticos de Séverine, que precisa tanto do prazer como do castigo e que inúmeras vezes repete ter de pagar pelo que fez. Se o não tivesse, o seu prazer seria menor e daí a admirável introdução da cena em off, em que Piccoli conta a Pierre "toda a verdade", para que Séverine possa descer aos abismos da sua culpa. Paralítico, cego e mudo, Sorel chora e essas lágrimas são essenciais à auto-punição da protagonista.

Volto ao início: conversa banal do casal burguês, com referências implícitas à frigidez de Séverine (mais uma vez, é tentadora a aproximação com o mundo de Hitchcock e com a frígida Marnie). Subitamente, Pierre perde o seu carácter passivo e manda parar a carruagem, ordenando o espancamento e a violação da mulher pelos cocheiros (cocheiros que regressam na carruagem do duque e no plano final) e, pela primeira vez, surge a estranha associação aos gatos, que voltará a funcio¬nar em casa do duque ("Pierre, Pierre, je t'en supplie, ne lâche pas les chats"; "Monsieur le duc, je fais entrer les chats?"). Se descobrimos depois (ou julgamos descobrir, pois que neste filme não convém ser dogmático) que a violação foi "imaginária", jamais descobriremos o sentido dessa história dos gatos, como jamais descobriremos o que o japonês tinha dentro da caixinha, ou porque é que o duque e Piccoli falam, ambos, dos "asphodèles ", entre muitas outras coisas. Acordando do "sonho", no quarto conjugal, Séverine fala ao marido da carruagem, mas sem lhe revelar o que se passou. Na sequência seguinte (estância da neve) saberá das diferenças entre os magnetizadores e os hipnotizadores, diferença essencial e obscura, pois que tanto o magnetismo como o hipnotismo vão funcionar para ela. Piccoli hipnotiza-a ou magnetiza-a? Do que ela "sonhou", sob a banal conversa da referida estância, saberemos depois, sob espécie onírica. Mas são Piccoli e a sua companheira que lhe falam das casas clandestinas e é o primeiro quem lhe dá uma morada exacta. A perturbação de Séverine começa (as recordações da infância, do pecado e da recusa à hóstia) e decide-se a entrar, toda de negro e em figuras de repetição, na casa de Mme Anais. A "belle de nuit" transforma-se em "belle de jour", gata borralheira ao con¬trário. Na sucessão das espantosas personagens que entram naquela casa, uma há que ganha relevo especial: o professor masoquista, com a sua assombrosa meta¬morfose, perante o qual Séverine é incapaz de representar um papel que, fundamentalmente, é seu. Espreita pelo "olho" da parede o que o médico faz com a colega e comenta com a patroa: "Comment peut-on descendre si bas?". O olhar de Mme Anais não nos deixa margem para dúvidas, como as não deixa o paralelo episódio com o japonês. Quando Muni entra no quarto e a lamenta, Séverine ergue o rosto radioso das almofadas e diz-lhe: "Qu'est-ce que tu en sais, Pallas?". E sobrevém o encontro com o duque e o episódio da morte, entre asfódelos, gatos, o criado e esse estranho ritual, cujo alcance mais uma vez nos é elidido (só Séverine viu o que o duque fazia debaixo do caixão). Nós, espectadores, só imaginamos, como na caixa do japonês, como em todos os seus "sonhos" ou como em todos os dias vividos no número 11 daquela rua.


E esta é a suprema astúcia de Buñuel: coloca-nos na posição e na perversão de Séverine, sempre querendo ver mais, sempre nos sendo frustrada a visão. A tal confusão entre o real e o imaginário provém desse mesmo "catecismo do travesti", para usar uma expressão de Comolli. Se nunca sabemos bem onde estamos, se nos perdemos nas máscaras, é porque o nosso desejo é semelhante ao de Séverine, com ela apagando, quando a luz se faz na sala, os traços comprometedores da obscuridade. Séverine queimou a roupa interior, a seguir ao seu primeiro dia nocturno. Nós queimamos essas imagens de desejo na ficção que permite a frase "isto é um filme". Tranquilos, voltamos a casa, com a tranquilidade da cena reconciliadora final de Sorel e Deneuve. Mas se as imagens se queimaram, ficaram-nos, neste filme sem música (como quase todos os derradeiros filmes de Buñuel) os sons e as campainhas. Sinal do nosso alarme, sinal da nossa culpa. Sinal do nosso medo e do nosso desejo de viagens até ao fim da noite e até ao fim dos fantasmas.
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João Bénard da Costa, Luis Buñuel - As Folhas da Cinemateca



Realização: Luis Buñuel
Argumento: Luis Buñuel e Jean-Claude Carriere, baseado no romance homónimo de Joseph Kessel
Direcção de Fotografia: Sacha Vierny
Montagem: Louisette Hautecoeur
Interpretação: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page,

Pierre Clémenti, Francisco Rabal, Georges Marchal, François Maistre

País: França/Itália
Ano: 1967
Duração: 101’

2ªf, 18h, Conversa à volta de Florbela Espanca.

Clube Farense. Entrada livre.

Com a presença do realizador Vicente Alves do Ó e de Dr João Minhoto Marques (FCHS) e a moderação de Dr Vítor Reia Baptista (ESE-CIAC).

Organização UAlg.

(para o caso de estar a passar despercebido... :-)

Memórias de Sassetti estiveram na génese de «Suite para Dom Roberto» . Encomenda do Cineclube de Faro.

O compositor falou com o «barlavento» sobre o processo criativo por detrás da obra «Suite para Dom Roberto», que se estreou na passada semana em Faro.

Da participação de apenas 43 pessoas e da abertura de um compositor nasceu uma obra musical para enriquecer o espólio do cinema português.

A obra «Suite para Dom Roberto», criada por Bernardo Sassetti por encomenda do Cineclube de Faro, teve a sua estreia absoluta na passada sexta-feira, num espectáculo que teve lugar no Teatro das Figuras, em Faro.

Este foi o fecho com chave de ouro das comemorações do 50º aniversário da associação algarvia. Mas foi também uma ocasião para Bernardo Sassetti, Alexandre Frazão e Carlos Barreto comemorarem os dez anos do trio que formam, que tem o nome do compositor.

O «barlavento» falou com Bernardo Sassetti no dia da estreia da suite. A obra musical foi inspirada no filme «Dom Roberto», de Ernesto de Sousa, que acabou por ser uma surpresa agradável para o músico português, que o considerou «uma maravilha».

«Ao início, esta era para ser uma suite sinfónica. Mas eu achei, logo desde o princípio, que nenhuma orquestra, pela minha experiência, podia dar uma dimensão humana forte à música», contou.

«Vi o filme várias vezes e da terceira vez que pus o filme a rodar, tirei o som. A partir daí, comecei a imaginar temas, que fui escrevendo. Alguns não foram utilizados, mas cheguei ao consenso de que queria criar um tema que estivesse muito ligado ao universo da música portuguesa e, ao mesmo tempo, ao universo da música de cinema italiano», explicou.

Bernardo Sassetti confessou mesmo que o italiano Nino Rota é o seu compositor para cinema favorito.

O músico português revelou ainda que teve de se alhear da banda sonora do filme, que tem um estilo «muito contemporâneo».

«É uma música muito dodecafónica, ou seja, sem um centro tonal muito preciso. Acho que a música do filme é extraordinária, sobretudo para aquela época», considerou.

As ideias tiradas do visionamento do filme permitiram criar uma base para que «a música evoluísse naturalmente». «Criei diversos temas, até chegar à representação dos Robertos. Neste caso, adoptei uma forma de compor muito humorística. Eu lembro-me de idas à praia quando era muito novo em que via teatrinhos de Robertos», recordou.

«Há dois temas muito substanciais. É esse dos Robertos, que é o terceiro movimento, que tem muito diálogo. E há também o segundo movimento, que tem muito que ver com a solidão do personagem Dom Roberto, que, no fundo, é um sem-abrigo», contou.

A personagem principal do filme Dom Roberto é um bonecreiro que vive uma vida de miséria. Este era, de resto, um traço comum a todos os que se dedicavam a esta arte. «O propósito destes filmes neo-realistas era retratar a pobreza e este lado social muito forte», considerou Bernardo Sassetti.

«Dom Roberto» é a única longa-metragem feita em Portugal que foi financiada exclusivamente pelo movimento cineclubista.

Nos anos 60, fez-se uma subscrição, que permitiu financiar a realização desta obra, que acabou por ser muito bem recebida entre os amantes da sétima arte em Portugal. Também se destacou por dar a conhecer outra faceta do actor Raul Solnado, que teve aqui o seu primeiro papel dramático.

A obra musical de homenagem a este filme também surgiu de uma subscrição, para a qual apenas contribuíram 43 pessoas.
Link
Isto levou a que a verba angariada fosse substancialmente inferior ao inicialmente esperado, mas a boa vontade de Bernardo Sassetti, que aceitou criar a obra por um valor muito inferior ao que estava previsto, acabou por permitir concretizar o projecto.

Bernardo Sassetti disse ainda que irá usar movimentos desta obra nos seus concertos, no futuro.

Hugo Rodrigues, Jornal Barlavento, 24 de Maio de 2007

(a obra estreou a 18 de Maio, no TMF)

E fez-se noite em pleno dia: Bernardo Sassetti morreu.



Bernardo Sassetti está indissociavelmente ligado à composição para cinema em Portugal:

2009 Como Desenhar um Círculo Perfeito, Marco Martins
2009 As Ilhas Desconhecidas, Vicente Jorge Silva (TV)
2009 Second Life , Miguel Gaudêncio e Alexandre Valente
2007 Dom Roberto, Ernesto Sousa [encomenda do Cineclube de Faro, paga por subscrição pública aos seus associados, inserida nas Comemorações do nosso 50º aniversário; estreia e exibição única no Teatro Municipal de Faro a 18 de Maio de 2007, com interpretação de Bernardo Sassetti, piano, Carlos Barreto, contrabaixo e Alexandre Frazão, bateria]
2007 Antes de Amanhã, Gonçalo Galvão Teles (curta-metragem)
2006 98 Octanas, Fernando Lopes
2005 Alice, Marco Martins
2004 A Costa dos Murmúrios, Margarida Cardoso
2004 O Milagre segundo Salomé, Mário Barroso
2004 Maria E as Outras, José de Sá Caetano
2003 Quaresma, José Álvaro Morais
2000 Aniversário, Mário Barroso (TV)
2000 Facas e Anjos, Eduardo Guedes (TV)
2000 As Terças da Bailarina Gorda, Jeanne Waltz (curta-metragem)
2000 O Segredo, Leandro Ferreira
2000 Maria do Mar, Leitão de Barros (1930) [encomenda da Cinemateca Portuguesa para a reposição, em cópia recuperada, deste clássico do cinema português)




É um desaparecimento cruel, prematuro e insubstituível.


Endereçamos sentidas, muito sentidas, condolências à família, particularmente a Beatriz Batarda e às duas filhas de ambos.


Que descanse em paz um dos maiores génios da música portuguesa.

Obras-Primas na Sede, 5ªf 10 - VIRIDIANA, de Luis Buñuel, o Herege.

21h30. Entrada livre. Cerveja ou água a 1€...

Ciclo "Buñuel, o Herege", antecipando a Conferência sobre este realizador que será proferida pelo Dr Reia Baptista no próximo dia 6 de Junho, na Sede, integrada no Projecto "Livros em Cadeia" (iniciativa com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian).

Se há filmes «malditos», Viridiana é um deles. Em contrapartida, porém, o génio de Luis Buñuel conseguiu ultrapassar essa maldição inicial e transformá-lo numa das datas maiores da história da cinematografia mundial. Senão, vejamos.

Radicado no México, há longos anos (precisamente desde a época em que Franco assumiu o poder em Espanha), exilado por vontade própria, Buñuel não tinha voltado a pisar terra pátria desde fins dos anos 30. No que era acompanhado por outros «gigantes» como Picasso ou Casals. Quando em 1960 surge a noticia de ter aceite filmar em Espanha o seu próximo filme, para uma casa produtora dirigida por Bardem e Munoz Suay, os antifascistas espanhóis colocaram logo as mais negras hipóteses de capitulação por parte de Buñuel. O cineasta aceita entregar à censura a planificação do seu filme, aceita conversações, aceita mesmo alguns retoques no fim e principia as filmagens. Resta acrescentar que, pela parte mexicana (dado que o filme surgia como co-produção), se encontrava o jovem produtor Gustavo Alatriste.

Em princípios de 1961, com Buñuel em França, ultimando trabalhos de montagem e sonorização, Viridiana é convidada a participar no próximo Festival de Cannes, a titulo individual. Atendendo a que mais nenhuma outra obra espanhola se fazia representar na edição desse festival, Viridiana é assumida como «representando oficialmente a Espanha». No último dia do certame, nas sessões de encerramento, Viridiana é projectada e obriga o júri a voltar para trás com os prémios já estabelecidos. Dizem os livros que destas coisas se ocupam, que o palmarés de Cannes-61 só no dia seguinte ao do encerramento se conheceu, e Viridiana via-se colocada à cabeça, conquistando exaequo a palma de ouro, com Une aussi longue absence, de Hénri Colpi, e Madre Joana dos Anjos, de Jerzy Kawalerowicz.


O representante oficial da Espanha, José Munoz Fontan, director geral da cinematografia espanhola, recebe visivelmente envaidecido o galardão máximo, mas, na manhã do dia seguinte, L'Osservatore Romano mimoseia a obra com adjectivos como «sacrílega e blasfematória». O que alerta Franco: na Imprensa espanhola ficam proibidas todas as referências à película; as autoridades pretendem destruir o negativo, apagar Viridiana da história.

As pressões diplomáticas exercem-se em todos os campos, mas Viridiana sobrevive. Alegando o estatuto de co-produção, a obra consegue ultrapassar esta tempestade, sem que, todavia, lhe seja permitida autorização para tiragem de cópia e consequente exploração comercial. Somente em 1962, e sob a nacionalidade integralmente mexicana, ela conseguiu vencer a barreira e atingir o público de todo o mundo.

Irreverente e rebelde como poucos, Buñuel partiu para Viridiana unicamente com algumas, ideias, sugestões, imagens. Ele próprio confessa que lhe veio à ideia o significado de Viridiana, uma santa muito pouco conhecida, da época de São Francisco de Assis. E ainda «a imagem de um velho com uma jovem drogada, completamente à sua mercê». Foi a partir desse enublado inicial que Viridiana se construiu, à boa maneira de um poema surrealista que vai buscar a lógica do seu significado à forma complexa e inconsciente como as imagens se articulam, gerando-se umas das outras, por prolongamento, por oposição, por sugestão, por ruptura.

Para Buñuel qualquer argumento é uma boa base de trabalho. Aqui, os infortúnios de uma noviça que, dias antes de professar, e a conselho da madre superiora, vai visitar um velho tio, que a educara, a sustentara e lhe enviara já o «dote». Na herdade do tio, os «avanços» deste são visíveis. Com a cumplicidade de uma criada, propõe-lhe casamento. Perante a recusa, engendra um noivado fictício que permite desfrutar Viridiana inconsciente. No último momento detém-se e acabará enforcado numa corda de saltar. Perturbada, Viridiana recusa regressar ao convento, passando a viver, juntamente com um filho ilegítimo do tio, na herdade deste. A parte que lhe toca da velha casa transforma-a num asilo para mendigos e necessitado que, numa noite de orgia, subvertem toda a ordem reinante. Reocupados os lugares, Viridiana assume finalmente (?) o seu corpo e aceita intervir num estranho jogo, cujos "partenaires” são o primo e a criada.


Como quase sempre em Buñuel, a obra parte de uma estrutura dramática que se aproxima em muito do romance picaresco ou do melodrama. Uma multiplicidade de peripécias sobrecarregam as personagens em constantes situações novas. Mas haverá que acrescentar a tudo isto a mordacidade crítica, a virulência, a aposta algo blasfematória (L 'Osservatore Romano dixit) deste ateu moralista que não recua perante nada, subvertendo a ordem instituída, recriando um universo de monstruosidades sobre as aparências serenas da normalidade. Neste aspecto Viridiana é o despoletar, de resultados sempre imprevisíveis, de uma realidade comummente aceite como estável e que subitamente se pulveriza sob o efeito fragmentador da análise lírica e trágica de um poeta visionário.

Denúncia de uma certa caridade individual que nada resolve (admiravelmente exemplificada a dois níveis: o cão preso, à carroça que é libertado, enquanto outros passam em direcção contrária; o asilo de mendigos, criação de Viridiana), este filme de Buñuel demonstra bem a genialidade do seu cinema.
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Lauro António, Sete, 31/08/88


Luís Buñuel conseguiria voltar a Espanha após longos anos do exílio do terras do Franco. Um produtor arranjara-lhe condições para que pudesse trabalhar do novo na sua terra natal. Era uma oportunidade que não podia desperdiçar. O argumento foi, no entanto, "reajustado” várias vezes, o final do filme refeito, mas Buñuel nunca traiu a sua vontade indómita de dizer o que sentia, e o desfecho de todo o processo foi a sua total interdição Buñuel não mais voltaria a filmar em Espanha.

Transcorridos que são quinze anos sobre a sua feitura "Viridiana" aparece-nos intacto ao tempo, filme de hoje o até (infelizmente) de amanhã. Esta é a fronteira exacta que separa a obra prima da encomenda de cordel que se perde a seguir à palavra “Fim”. Uma resposta presente a um tempo que não passou. A acusação certa e incisiva apontada a um quotidiano que se repete.

"Viridiana” tem uma narrativa aparentemente simples. Filme “racional”, se quisermos, e se pensarmos noutros exemplos do fascinante e surreal loucura como "A Bela do Dia", "O Charme Discreto da Burguesia" ou "O Fantasma da Liberdade".



Viridiana é uma freira que não chega a professar os votos. Devolvida ao mundo dos homens, deixa para trás um "marido" omnipresente e omnisciente, um casamento desfeito, para reencontrar os males da sociedade, as desgraças dos desventurados, os crimes da classe dominante, opressora e exploradora, numa palavra, a realidade da vida. Consigo transportará somente objectos santificados pelo texto do Evangelho (Novo Testamento ), sinais de penitência permanente, de renúncia aos bens materiais, de fé inabalável, de eterna fidelidade ao seu credo: uma pesada cruz, uma pedra, um martelo, pregos e uma coroa de espinhos. Mala aviada para o que der e vier, não vá o diabo tecê-las!

D. Jaime, por sua vez, é um velho aristocrata, homem crente e muito "digno" proprietário de enormes latifúndios (por certo obtidos com a graça de Deus Nosso Senhor!). Fantasma Vivo do uma casta decadente, de um casamento não consumado (tal como Viridiana) verá na sobrinha a imagem devolvida da sua virgem esposa. Incapaz do esquecer a sua sorte, terá no voyerismo inofensivo, ou em mutações eróticas do travesti e feitichismos vários a busca do prazer que nunca conheceu. Viridiana por seu lado vai descobrindo a vida entre os homens, a força da natureza criadora.


Evitará o contacto com a apetecível teta de uma vaca numa evidente fuga à sedução e fascínio que sobre si exerce esse símbolo fálico, mas não escondendo a sua perturbação, violenta tontura do uma vertigem queda em precipício do "pecado mortal". Cena de antologia na galeria do provocações em que Viridiana vai abrindo aos nossos olhos. Mas Viridiana não regressará ao convento, presa que ficou numa cumplicidade auto-atribuída após o suicídio (enforcamento) de seu tio. Escolherá para a sua efémera passagem pala terra o caminho "difícil" da ventura e da caridade, ajudando os pobres, ganhando o seu lugar no império dos céus. A sua fraca consciência leva-a a actuações piedosas despidas do racionalismo. A sociedade está dividida em classes e os oprimidos não se libertarão pelo facto do lhes darmos esmola, de "fazemos bem". Viridiana não vai (não pode ir) tão longe. Age pelos ensinamentos das Sagradas Escrituras. E não de todas. A Inquisição e as Guerras Santas, a gula e a opulência, a opressão e a violência, são "conquistas" da Santa Madre Igreja contra os pensamentos do Cristo.

Por fim, os pobres que Viridiana acolheu em casa, incapazes que são duma revolta consequente, aceitando passivamente essa sua condição, figuras que referem a um grosso exército de proletariado de estropiados, cegos, anões, leprosos e vagabundos de faces várias, decidem-se a uma última ceia. Montam um forte aparato em casa dos "senhores", ocupando a mesa, os talheres, as pratas, o vinho. Lauto repasto em mesa que requeria a tela de Leonardo da Vinci, não em pose para pincel ou fotografia mas para um sexo de mulher... "Viridiana" não se esgota numa leitura, como não se adivinha a sua profundidade com uma única visão. Buñuel tenta assim uma abordagem destruidora do clericalismo (mais do que da religião),das suas mentiras, da sua pompa, do falso "bem querer" e "bem fazer" de que está corrompida a caridade cristã, chamando a atenção para os valores que encobre, para a realidade que mistifica... Buñuel, a Espanha dos toiros, do sol e da violência que paira em cada sombra, o calor do seu erotismo, a religião de que o fascismo se utiliza, a Igreja conselheira de um regime e justificadora da exploração, ,são alguns dos elementos que perpassam pelo filme...
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Mário Damas Nunes, Boletim Cineclube de Faro, Abril 1979



(para ver, carregue na imagem)

Realização: Luis Buñuel
Argumento: Luis Buñuel e Julio Alejandro
Fotografia: Jose F. Aguayo
Montagem: Pedro del Rey
Música: Gustavo Pittaluga
Interpretação: Silvia Pinal, Francisco Rabal, Fernando Rey, Jose Calvo, Margarita Lozano, Luis Heredia
Origem: Espanha/México
Ano: 1961
Duração: 90’

FLORBELA - ESTREIA NO ALGARVE! 2ªf, 14 de Maio - PRESENÇA DO REALIZADOR!

21h30. GRANDE AUDITÓRIO DE GAMBELAS. ENTRADA ÚNICA 4€.
Reservas cineclubefaro@gmail.com

10h30, SESSÃO PARA AS ESCOLAS - IPJ. Entrada 2€.
Marcação prévia cineclubefaro@gmail.com

18h, Conversa à volta de Florbela Espanca - Clube Farense. Entrada livre.
Com a presença do realizador e de Dr João Minhoto Marques (FCHS) com a moderação de Dr Vítor Reia Baptista (ESE-CIAC). Organização UAlg.



Afastado da tradicional biografia, Vicente Alves do Ó traz ao cinema uma vertente menos explorada de Florbela Espanca. Através de um olhar sensual, o realizador e argumentista filmou a paixão e a inquietação da poetisa.

Uma conversa entre amigos, sobre figuras históricas portuguesas, foi o ponto de partida para “Florbela”. Vicente Alves do Ó decidiu filmar um dos nomes da poesia que ainda não tinha sido adaptado à sétima arte, e cuja imagem era tida como uma verdade absoluta.

Entrar na vida de Florbela Espanca, ao ler as cartas da poetisa, foi um processo de descoberta para o cineasta. Vicente Alves do Ó encontrou uma mulher "que adorava sair, adorava moda, chapéus, frequentar a vida social, muito atenta a situação politica do momento e atenta aos outros". Para o realizador, Florbela Espanca "era uma mulher do mundo, que tinha sede do mundo".

O filme "Florbela" remete para um período da vida da poetisa: "a fase em que Florbela Espanca tem pouca actividade de escrita e em que a família está virada de costas para ela, porque já vai no terceiro casamento". O realizador optou por rodar o universo emocional de Florbela Espanca com a intenção de "chegar à essência da escritora". A longa-metragem representa para Vicente Alves do Ó o período mais difícil da vida da poetisa.

Protagonizado por Dalila Carmo, o argumento do filme foi escrito por Vicente Alves do Ó com a actriz como a escolha inicial para o papel de Florbela Espanca. Rodar algumas das cenas, na terra natal da poetisa, Vila Viçosa, era outro dos imperativos do cineasta, também alentejano, mas de Sines.

"Florbela" conta ainda no elenco principal com a participação de Albano Jerónimo, Ivo Canelas, José Neves e Rita Loureiro.
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Carla Henriques, rtpcinema


Desta vez, Vicente Alves do Ó apaixonou-se assim perdidamente por Florbela Espanca. Qualquer um se apaixona pela sua poesia, claro, mas o realizador foi mais longe, investigou e deixou-se deslumbrar pela mulher. E fez, como o próprio anuncia, não um biópico, no sentido clássico, mas um filme inspirado na vida e na obra.

Logo de início, ainda no genérico, uma cena de amor converte-se numa cena de ódio, de prisão, claustrofobia, violência doméstica. Um truque bem feito que nos deixa entrar num jogo emocional com o espectador, como naqueles desenhos em que o pato se transforma num coelho ou vice-versa. A desconstrução é feita através da proximidade do plano. Sabemos das artes plásticas, que, por vezes, temos de nos afastar para ver melhor. É uma máxima que também funciona para a vida: demasiado perto não se vê bem e tudo parece enorme, às vezes assustador, outras vezes magnífico.

Florbela é o segundo filme de Vicente Alves do Ó, que tem um percurso já longo no curto panorama nacional, sobretudo como argumentista. Estreou-se como realizador, no ano passado, com Quinze Pontos na Alma, um mergulho no universo misterioso de uma mulher, num cenário cheio de glamour. Desta vez, apaixonou-se assim perdidamente por Florbela Espanca. Qualquer um se apaixona pela sua poesia, claro, mas o realizador foi mais longe, investigou e deixou-se deslumbrar pela mulher. E fez, como o próprio anuncia, não um biópico, no sentido clássico, mas um filme inspirado na vida e na obra. Ironicamente, escolheu o período em que ela não escreve - opção inteligente e interessante, como quem quer explicar qualquer coisa através da sua ausência ou da sua negação. Aqui é a vida a explicar a poesia, tal como a poesia explica a vida.

Mostra, faz mesmo questão de mostrar, por vezes de forma excessiva e quase exibicionista, uma mulher à frente do seu tempo, em conflito com o meio, mal entendida, mal interpretada - apesar de a ação não decorrer no moralismo extremo do Estado Novo, mas ainda na 1ª. República, que Vicente retrata como uma época de grande boémia aristocrática, ao melhor estilo parisiense, em que não resiste ao glamour (que acaba por ser uma das suas imagens de marca). Tem mesmo cenas aparentemente escusadas, que servem, por um lado, para expandir o estilo do próprio realizador, por outro para vincar de forma extrema a ideia de que Florbela era vanguardista, não só na escrita como nos costumes.

Mais ainda do que a relação com o meio, a grande ênfase vai para a incapacidade de lidar com o outro e consigo própria, que se resume na frase: "Eu não sei viver". A paixão pelo irmão ultrapassa e inviabiliza qualquer relacionamento estável. E o filme debate a incapacidade de ser feliz, apesar do esforço. A Florbela que encontramos é uma mulher desavinda com a vida, egocêntrica, neurótica e histérica, em convulsão interior, entre o fascinante e o insuportável.

Vicente Alves do Ó importa esta história para o seu universo extremamente feminino e com traços de glamour que por vezes se transformam num pesadelo estético, e um ultrarromantismo fora de moda. Sobretudo, gostemos ou não, percebemos que o realizador, ao segundo filme, cimenta uma linguagem que se concretiza num olhar, num estilo e até numa temática - mantém-se o fascínio pelo universo feminino ou, se quisermos, pelo mistério feminino, pelos grandes enigmas das mulheres. Para o bem ou para o mal, a marca está lá.
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Manuel Halpern, Visão


O seu castelo era a dor, Florbela Espanca, "castelã da tristeza", bem o dizia, e no filme, Vicente Alves do Ó desfia este colar de malogros, inquietações, exaltações eróticas, mórbidas e premonitórias - com um sentido estético muito próprio: o seu.

Não lhe interessa, não quer saber. Diz que "a beleza" que põe nos seus filmes acaba virando-se contra ele, isso não o atinge, mas sente "o preconceito". Já o criticaram por fazer filmes "demasiado bem acabados"... Foi assim com Quinze Pontos na Alma (2011), talvez volte a acontecer com Florbela, o filme sobre a poetiza que exaltava nos seus poemas uma espécie de solenidade ritual da desgraça, e cujo neo-romantismo rimava funestamente com a desdita da sua vida. Mas Vicente não fez o biopic mais óbvio (isso reserva-o para a série televisiva, que se encontrará com Florbela desde o nascimento, não reconhecido pelo pai, até à sua desistência de viver, aos 36 anos, fragilizada pela doença, pelo desgosto e por três tentativas de suicídio). Neste filme, Vicente "captura-a" (como gosta de dizer que as câmaras fazem aos momentos, "aprisionamo-los para a eternidade") na altura em que ela está numa fase de bloqueio criativo. Não escreve mais, não consegue, após dois casamentos malogrados e dois divórcios, Florbela (Dalila Carmo) está novamente casada com um médico de Matosinhos (Albano Jerónimo). "Agora já sou o que todos esperam que eu seja: uma mulher casada, honrada e, acima de tudo, discreta". Mas no próprio dia do casamento, no mesmo momento em que, por fora, pronuncia esta frase de apaziguamento, por dentro já toda ela é ânsia e alvoroço. Queixa-se do mar, que não pára: "O mar nunca se cansa". No fundo, explica Vicente, "ela ao falar do mar, está a falar dela própria e do que está a viver na sua cabeça. É uma ideia inquietação e já de perturbação". Vicente percebe do que fala, ele próprio viveu junto à costa, em Sines, até aos 27 anos, e sabe como o mar no inverno, numa praia despovoada, se pode tornar opressivo: "Não é bonito, não". E ele tem sempre de "se trazer" um bocado para dentro dos filmes, "senão não fazem sentido". E afinal, a mulher que "só via a floresta e era incapaz de olhar a árvore", que se olhava como "uma pantera enjaulada na vida", porque, continua o realizador, "ela sentia a sua garra felina presa aos convencionalismos da época", essa Florbela Espanca "sou eu", Vicente Alves do Ó, 40 anos, natural de Sines, autor de uma vintena de guiões, um romance (Kiss Me), outro a caminho, três curtas e duas longas. "No meio do cinema eu sou a Florbela Espanca", insiste, como Flaubert e a Madame Bovary. "Eu sou um outsider do sistema. Não tenho telhados de vidro, só devo os meus filmes ao meu esforço. Não venho de escolas, não pertenço a tribos...". Uma vez, António da Cunha Telles disse-lhe, a propósito da sua curta que não foi seleccionada para o Festival de Vila do Conde: "Tu és o gajo mais marginal do cinema português".

"É sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,/a mesma angústia funda, sem remédio,/ andando atrás de mim, sem me largar".


Com os sonetos de Florbela Espanca Vicente travou conhecimento na adolescência. Com a prosa, logo a seguir. No bolso traz a prova do amor e de um delito, "a única coisa que roubei na vida". Não foi tecnicamente um roubo, chamemos-lhe, antes, não devolução a uma biblioteca municipal. Uma primeira edição dos contos de Florbela Espanca, já com as folhas amareladas e a desagregarem-se do volume. Impressionou-o As Máscaras do Destino, dedicado à memória do irmão, "ao meu querido morto", o aviador Apeles, que se terá suicidado no Tejo no seu hidro-avião, aos 30 anos: "Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco". Interessou-se por esta relação estranhamente próxima com o irmão. São quase os únicos momentos em que Dalila Carmo sorri no filme, aqueles que passa na companhia do irmão (Ivo Canelas).

"E quanto mais no céu eu vou sonhando,/ E quando mais no alto ando voando/ Acordo do meu sonho... E não sou nada!..."

No filme anterior, a história de uma mulher (Rita Loureiro) que tem tudo para ser feliz, até ao dia em que recebe um beijo de um suicida e desiste de tudo para perseguir um fantasma, Vicente convocava todos os seus amores, a moda, o design, o cinema, a fotografia... "Esse filme era muito à volta de mim, este não tanto". Mas ainda assim os filmes comunicam-se através de um beijo lésbico entre a actriz Rita Loureiro e Dalila Carmo, num lelião de uma festa dos loucos anos 20. "Eu vejo os dois como the light and the shadow. Os Quinze Pontos... era um filme frio, sombrio, diabólico, com aquela anti-heroína, uma mulher que procura o sofrimento, porque 'se não doer como sabemos que estamos vivos?'. A Florbela, pelo menos verbaliza o que sente, não está morta, ainda não congelou". Curiosamente, são sempre beijos de mortos ("a visita da dama dos dedos descarnados", nas palavras de Espanca), que despertam os vivos, ao contrário da história da Bela Adormecida. "É a morte dos homens que as salvam, uma espécie de sacrifício que nunca é cobrado", continua. Toda esta vocação de plenitude de Florbela Espanca votada ao desastre, o não reconhecimento pelos círculos literários, os casamentos infelizes, a neurose acentuada, a depressão, a ânsia de maternidade nunca consumada, os abortos espontâneos... no filme, o beijo do irmão morto, que surge do mar, é o ponto de viragem. Ela salva-se - ainda que por pouco tempo - porque volta a escrever.

"O amor de um homem? - terra tão pisada, /gota de chuva ao vento baloiçada.../Um homem?- quando eu sonho o amor de um Deus"


"O cinema português tem um problema com a beleza, não acreditamos nela porque a associamos a algo artificial", comenta o realizador. "Trata-se a moda e o design como se fossem futilidades. O cinema parou de sonhar e de fazer sonhar, não ajuda a transcender como ser humano. Não consigo lidar com a arte que apenas me duplica, não preciso de espelhos, mas de caminhos e luz. Preciso que a arte me leve a outro sítio, que me eleve, transcenda e me rasgue...". Entre a pulsão da poesia, o apelo da morte, um marido "que é terra", e um irmão "que é loucura", talvez Florbela, lá da sua enseada suicidária, tenha sentido o mesmo estigma do convencionalismo e as marcas do kitsh que sempre se lhe colaram aos seus arrebatados sonetos.
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Ana Margarida de Carvalho, Visão




Realização e Argumento: Vicente Alves Do Ó
Diretor de Fotografia: Luís Branquinho, Aip
Montagem: João Braz
Música Original: Guga Bernardo
Interpretação: Dalila Carmo, Albano Jerónimo, Ivo Canelas, Rita Loureiro, José Neves, António Fonseca,
Carmen Santos, Maria Ana Filipe, Marques D’ Arede, Anabela Teixeira
Origem: Portugal
Ano: 2012
Duração: 119’


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HOJE! Mirian Tavares em "Livros em Cadeia". 18h, Bibl UAlg Gambelas. Até já!

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Tornar a nossa Biblioteca ainda mais viva. Todos os meses, um convidado apresenta um livro da nossa colecção. Que, como todos, está disponível para requisição – por qualquer um.


5ªf, 3 de Maio, Biblioteca da UAlg Gambelas, 18h, Entrada Livre

MIRIAN TAVARES – O CINEMA E A INVENÇÃO DA VIDA MODERNA

A apresentar – Livro homónimo, Leo Charney e Vanessa Schwartz (org.)


A Palestrante

Mirian Nogueira Tavares tem formação académica nas Ciências da Comunicação, Semiótica e Estudos Culturais (doutorou-se em Comunicação e Cultura Contemporâneas, na Universidade Federal da Bahia), tem desenvolvido o seu trabalho de investigação e de produção teórica, em domínios relacionados com o Cinema, a Literatura e outras Artes, bem como nas áreas de estética fílmica e artística.

Como professora da Universidade do Algarve, participou na elaboração do projecto das licenciaturas em Artes Visuais e Estudos Artísiticos e do Mestrado e Doutoramento em Comunicação, Cultura e Artes. Presentemente coordena o doutoramento e o mestrado em Comunicação, Cultura e Artes e a licenciatura em Artes Visuais. É Coordenadora do CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação financiado pela FCT.

Da sua obra publicada destacam-se a coordenação de um livro sobre Literatura e Cinema (2007): É Perigoso debruçar-se para dentro e alguns ensaios publicados em livros e revistas nacionais e internacionais, tais como: Revista ARS – “Cinema digital: novos suportes, mesmas histórias”; Revista Intermídias – “Surrealismo: A Revolução pela Arte”; Revista Faces de Eva – “A Doce Vida: do eterno feminino na obra de Federico Fellini”; Revista Graphos – “Da poesia de Buñuel ao cinema de Garcia Lorca”.

O Livro

livro mirian.jpgEste livro analisa as formas e funções do olhar e da representação presentes na vida urbana entre 1848 e 1920. Examina ampla e criteriosamente as questões da pintura, da fotografia, das exposições em museus, das novas formas do jornalismo de "sensações", das estratégias de propaganda bem como a presença de formas literárias que expressam o sentido de modernidade.



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(nota: com todo o gosto acedemos em incluir esta Palestra na 4ª Mostra de Cultura Fílmica que hoje decorre)

Ciclo de Obras-Primas na Sede, 5ªf de Maio - EL, de Luis Buñuel é a primeira. Já amanhã!

21h30. Entrada livre. Cerveja ou água a 1€...

Ciclo "Buñuel, o Herege", antecipando a Conferência sobre este realizador que será proferida pelo Dr Reia Baptista no próximo dia 6 de Junho, na Sede, integrada no Projecto "Livros em Cadeia" (iniciativa com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian).

"Él é um dos meus filmes favoritos", disse Buñuel nas suas memórias. "Talvez o filme onde pus mais de mim", afirmou a De la Colina e a Turrent na entrevista que lhes concedeu.

O estatuto cimeiro desta obra ímpar tardou em ser reconhecido. Em Cannes, onde, pela terceira vez consecutiva, Buñuel esteve representado, o filme foi muito mal recebido. No México, mesmo gelo. À época, segundo Buñuel, só um homem reparou na importância do filme: o então ainda pouco conhecido psicanalista Jacques Lacan que o escolheu como base dum curso sobre a paranóia.

Só no ano seguinte (quando Él se estreou nas principais capitais europeias) a crítica começou a descobrir a obra, sobretudo a partir de uma excelente análise publicada na Positif, em Maio de 54. Desde então (como escreveu, em 68, Jacques Belmans em lmage et Son) Él foi como o bom vinho: só melhorou com o tempo. "O que à época pôde parecer bizarro e exagerado, assume hoje o aspecto de uma tragédia individual, contada com prodigiosa habilidade e com uma escrita brilhante e ligeira, capaz de iluminar as raízes sociais e morais que determinam o comportamento de um burguês".

Se transcrevi estas palavras é porque elas me parecem encerrar, ainda, um mal-entendido. Él não é só um estudo de um caso de paranóia, nem uma dissecação do comportamento burguês, para o qual o "ter" contaria mais do que o "ser". É um filme que sistematicamente afasta qualquer interpretação linear, e onde a zona de perturbação é mais funda do que o diagnóstico da paranóia, ou de que a análise de um comportamento de classe levado ao extremo. O filme começa e acaba sob o signo da religião: sino no genérico, imagens iniciais na igreja; no final, o protagonista num convento de beneditinos.

É na igreja, nas cerimónias de Quinta-Feira Santa, que somos introduzidos aos protagonistas: Francisco Galván, de 45 anos, puritano, virtuoso e catolicíssimo (saberemos, depois, que ainda é virgem e que as suas virtudes lhe valeram nesse dia o grau de Cavaleiro de Colón) e Gloria Peralta, mais nova 20 anos que ele, uma das muitas mulheres que assiste à cerimónia. Tudo muito normal, até ao primeiro toque de insólito. A cerimónia do lava-pés dura tempo demasiado, como demasiado duram os beijos do padre nos pés nus dos doze escolhidos tradicionais. Uma prodigiosa montagem confere à sequência um sentido equívoco (escolha dos pla¬nos, jogo de olhares, movimentos de câmara) destruindo, como diz Kyrou, a atmosfera religiosa (cantos, liturgia) e transformando a igreja numa espécie de lupanar. É do ponto de vista de Galván que esses pés são vistos (talvez haja poucos exemplos de planos tão subjectivos, até na sua duração) e é do seu ponto de vista que a câmara avança em travelling dos pés beijados e descalços até aos sapatos da assistência. Detém-se nuns e uma panorâmica vertical dá-nos a ver a dona deles: Gloria, noiva dum engenheiro, no pio recolhimento que convém ao dia e hora (o fetichismo do pé e o seu efeito no protagonista voltará a ter maior realce, ao longo de todo o filme). Campo-contra campo com o protagonista. Os dados estão lançados e são profundamente eróticos, como o é a imagem do sino que no filme retomará papel capital (sequência da torre da igreja) como o terá noutras obras de Buñuel, nomeadamente Tristana. Junto de uma pia de água benta, dá-se o primeiro encontro dos dois. Gloria (que objectivamente não viu o olhar do protagonista, nem a sua associação) já está contaminada por uma relação gestual e visual, simultâneamente sagrada (o espaço) e violadora (o olhar).

Os apontamentos seguintes reforçam as obsessões de Francisco: distrai-se nas apresentações à porta da igreja, porque já só pensa em Gloria; interrompe, puritanamente, a cena de "engate" dos seus criados, advertindo que não admite faltas de respeito e despedindo a criada (começa a insinuar-se a estranha relação com o criado, personagem premonitório de tantos equivalentes futuros na obra de Buñuel).

Logo a seguir, o criado deita-o (crucifixo sobre a cama, com baldaquino) e (algum tempo depois) regressa à igreja para rever Gloria (fabulosos enquadramentos e campos-contracampos). Depois é o seu "voyeurismo" (plano do restaurante) e a aceleração a fundo até "roubar" Gloria ao seu noivo engenheiro. "Roubo" que se desenvolve na prodigiosa sequência do jantar (cuja "découpage" é quase tão brilhante como a da célebre festa do Notorious de Hitchcock, que tanto faz lembrar) introduzindo dois fundamentais pontos de suspensão, desses em que Buñuel é mestre: como seria o construtor de tal casa (fabuloso "décor'), o pai de Francisco, que quis reconstituir no México a exposição de 1900 (suspensão sobre a ancestralidade de Galván, ''perfeitamente moral e sensato"); a ultra-buñueliana cena (familiar, hoje, quando lhe conhecemos toda a obra) em que o pó irrompe no salão, devido a uma insólita limpeza do criado num quarto contíguo.


Nessa mesma capital sequência, Francisco, o virgem, expõe a sua concepção sobre o amor (não muito longe do amour fou) e no jardim beija a testa e depois a boca da noiva do amigo (entre estátuas, como em L'Âge d'Or). Raccord abrupto sobre obras, derrocadas e escavações, terreno do engenheiro que já sabemos ter perdido a partida nessa noite. Só que, para lá dos apontamentos eróticos, fetichistas, do barroquismo do décor, do ambíguo criado, da cena do pó, os dados estão lançados para o que se vai seguir: quem com tanta facilidade lhe caiu nos braços não pode cair com a mesma facilidade nos braços de outros? Não será que Gloria o escolheu por razões muito diferentes desse amour fou que o protagonista exige? Estas duas interrogações vão pairar, tanto quanto o resto, sobre todo o filme.

Varrido de cena, o engenheiro regressa logo, embora saibamos depois que muitos anos se passaram. Esses anos são o flash-back, núcleo central do filme, contado por Gloria.

Ao princípio o comboio (outro dos "leit-motifs" buñuelianos) e a primeira "crise de paranóia" quando a mulher se recusa a verbalizar as suas anteriores experiências eróticas. Depois (de novo à volta duma igreja, onde Francisco escolhe o contra-plongé) o episódio com Ricardo (restaurante, hotel, pé, a agulha no buraco da fechadura). A lua-de-mel é um crescendo erótico e paranóico de Francisco, cuja virgindade se volve em perversão ou fora sempre o seu equivalente sem que a mulher o acompanhe em tal movimento. Tudo nela é "normal", tudo nele é "anormal".

Mas os "normais" do filme (por esse efeito de inversão típico de Buñuel) vão dar razão, depois, ao seu comportamento "anormal" (o gerente do hotel, a mãe de Gloria, o padre, sempre cúmplices dele, jamais dela) e o único que é mais ambíguo é o "anormal" criado, o das bicicletas e do pó.

A partir do regresso da "lua-de-mel", todo o décor começa a inverter-se e perverter-se: a cena inicial (o jantar) repete-se com o advogado, "montada" por Francisco, mas virando-se contra ele; as grandes "cenas" alternam com os grandes momentos de erotismo (de novo o pé); o criado é chamado como testemunha do "delírio" de Francisco e toma-o como normal; no alto da torre (com o sino fálico) o protagonista diz que gostaria de ser Deus para "aplastarlos todos" e que "odeia a felicidade dos estúpidos". Entretanto, irrompem as famosas elipses eróticas de Buñuel (os gritos em off da mulher: que lhe estará ele a fazer?; a prodigiosa sequência em que Francisco prepara um arsenal fetichista - corda, agulha, faca, navalha de barba - para um ritual frustrado, que não chegamos a ver).

E, no seu crescente delírio (já depois do flash-back) todo o décor vacila: Francisco começa os seus famosos ziguezagues, os ângulos tornam-se cada vez mais alucinatórios e a "inversão-perversão" culmina no famoso plano em que o vemos batendo ritmadamente com o pau nas escadas (os tambores de L'Age d'Or, os tambores de Calanda) culminando essa "irracionalidade" de que a sequência da carta batida à máquina fora genial prenúncio.

O personagem entrou, passo a passo, na loucura total e, de novo, o espaço da igreja é o tempo dela, com a transfiguração da assistência, beatas e padres rindo-se obscenamente da traição imaginária.

Imaginária? A sequência final, epílogo do filme, é um monumento de ambiguidade. A criança, chamada Francisco, é filha de quem? Não o sabemos. E quando o pacificado protagonista responde ao superior que "tinha razão ", talvez acabe por a ter, o que subverte todo o sentido aparente do filme ou o confirme da forma mais magistralmente irónica. Pois quando observaram a Buñuel que esse final podia afinal dizer que Francisco sempre esteve no pleno uso da razão, o realizador tirou o último tapete debaixo dos nossos pés, objectando: "alto lá, ele continua a andar aos ziguezagues".

Aos ziguezagues, é talvez a súmula e a soma desta obra prodigiosa, que nos impede qualquer certeza: quem são os "normais" e quem são os "anormais"; o que é deformar a realidade ou o que é conformar-se com ela? Que valores (psicológicos, morais ou estéticos) presidem a este universo? Invertendo-os todos, Buñuel conduz-nos à negação da negação.
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João Bénard da Costa, Luis Buñuel – As Folhas da Cinemateca




Realização: Luis Buñuel
Argumento: Luis Buñuel e Luis Alcoriza, baseado numa novela de Mercedes Pinto
Direcção de Fotografia (preto e branco): Gabriel Figueroa
Música: Luis Hemández Breton
Montagem: Carlos Savage e Luis Buñuel
Interpretação: Arturo de Córdova, Delia Garcés, Luis Beristáin, Aurore Walker, Manuel Dondé,
Carlos Martínez Baena, Fernando Casanova, Rafael Banquells
Origem: México
Ano: 1953
Duração: 92'

Fernando Lopes morreu.

Não foi por acaso que iniciámos as Comemorações do nosso 56º aniversário, no passado dia 3 de Abril, com o último filme de Fernando Lopes, "Em Câmara Lenta". Foi para salientar a estreia de mais um filme de um dos nossos mais importantes realizadores.

Não há muitos cineastas a poder figurar no panteão do Cinema Português. Fernando Lopes era indiscutivelmente, um deles.

A sua importância é histórica - criou, com um punhado de outros, uma nova forma de fazer cinema, e cinema português, nas condições mais adversas de todas: durante o fascismo. O Cinema Novo Português foi, antes de um gesto cinematográfico, um gesto de resistência cultural anti-fascista. "Só" por isso, tudo lhe devemos.

Mas a sua importância está para além desse contributo histórico - Fernando Lopes é sinónimo de filmar bem, muito bem, a alma e a identidade portuguesas. Não é só o mérito técnico, mas a capacidade assombrosa de ser um cidadão que, coerentemente durante toda a sua vida, interveio artisticamente para nos tornar mais ricos.

Fernando Lopes deu-nos o prazer e a honra da sua presença entre nós, em diferentes ocasiões.

Seguramente, desde "Matar Saudades", em 1987, a que se seguiu, dez anos depois, a participação numa Mesa-Redonda nos nossos I Encontros de Cinema; em 2002, para apresentar "O Delfim"; e, em 2004, para, em conjunto com o argumentista João Lopes, apresentar "Lá Fora".

Os filmes que dele exibimos foram:

BELARMINO - 10/Mai/68 , 07/Mar/70, 08/Jun/95 e 05/Jan/07
UMA ABELHA NA CHUVA - 26/Jun/02
NÓS POR CÁ TODOS BEM - 30/Abr/78
A CRÓNICA DOS BONS MALANDROS - 24/Jun/02
MATAR SAUDADES - 21/Nov/87
O FIO DO HORIZONTE - 29/Abr/94 e 28/Jun/02
DELFIM - 17/Jun/02 e 20/Nov/04
LÁ FORA - 17/Set/04
OS SORRISOS DO DESTINO - 23/Abr/10
EM CÂMARA LENTA - 03/Abr/12

Fica a promessa que voltaremos à filmografia deste insigne realizador, seja para repetir algumas das obras constantes desta lista ou para exibir outras, ausentes, até ao momento, da história da nossa programação.

À família, aos amigos e ao Cinema Português endereçamos as nossas mais sentidas condolências.