10 Razões Para Amar o Cinema| Kiarostami: Reflexões Sobre o Cinema| Sede do CCF| 06.12.12| 21:30



5ª F, 06 Novembro 2012, 21:30, "DEZ" ABBAS KIAROSTAMI, IRÃO, 2002

Ficha técnica:

Título original: Ten
Título em português: Dez
Realizador: Abbas Kiarostami
Actores: Mania Akbari e Amin Maher
Género: Drama
Distribuidora: Atalanta
Produção: França/Irão
Ano: 2002

Duração: 94 minutos



NOTA DE INTENÇÕES


NOTA DE INTENÇÕES
Às vezes digo-me que DEZ é um filme que não poderia voltar a fazer. Não se pode decidir fazer um filme assim... Parece-se um pouco com Close-Up. É possível continuar nesta via, mas é preciso muita paciência. De facto, não se trata de uma coisa que se repete facilmente. Deve acontecer por ele próprio, como um incidente ou um acontecimento... ao mesmo tempo precisa de muita preparação. Inicialmente era a história de um psicanalista, os seus doentes e o seu carro, mas isso foi há dois anos...
Fui convidado na semana passada para ir a Beirute, no Líbano, a um “workshop” com estudantes de cinema. Um deles disse-me: “Só tu podes fazer um filme assim por causa do teu nome. Se fosse um de nós a fazê-lo, ninguém o teria aceitado”. Respondi-lhe que enquanto professor devia dizer-lhe a verdade: fazer uma coisa simples necessita de uma boa dose de experiência. E antes disso é preciso compreender que a simplicidade não é sinónimo de facilidade.
Kundera conta uma história fascinante que me impressionou imenso: ele conta que o léxico do pai diminuiu com a idade e que no fim da vida se resumia a apenas duas palavras: é estranho! é estranho! Evidentemente, ele não chegou a este ponto porque não tinha mais nada para dizer, mas porque estas duas palavras resumiam efectivamente toda a experiência da sua vida. Eram mesmo a sua essência. É talvez também a história do minimalismo...
O desaparecimento da mise en scène. É disso que se trata. O abandono de todos os elementos indispensáveis ao cinema actual, e digo com muita prudência que a mise en scène, no sentido actual do termo, poderia desaparecer neste género de processo. O realizador neste cinema parece bastante um treinador de futebol.  Tem de fazer a maioria do trabalho antes do processo começar. Para mim o filme começa muito antes da preparação inicial e quase que nunca acaba. É um jogo perpétuo, cada vez que o mostro, observo as reacções do público e cada uma das vezes as discussões que se seguem à sessão adquirem um novo sentido... Toda a beleza da arte resume-se para mim às reacções que suscita.
Este filme foi criado sem propriamente ser fabricado. Sem ser, no entanto, um documentário. Nem um documentário, nem um filme puramente fabricado. Talvez a meio caminho entre as duas coisas... Uma cena acontece e eu percebo que ela me convém. Mais tarde apercebo-me que aquele elemento particular era fundamental para a integração do todo.
Em DEZ, temos um plano no carro com o rapaz em frente à câmara. A cena acontece perante a câmara. Há, no entanto, pessoas que se aproximam, baixam o vidro e olham para dentro do carro. Isso é documentário. É o que se passa por trás. Eles olham a câmara. Mas o que se passa à frente da câmara não é documentário, porque é guiado, controlado, de alguma forma. Aquele que está à frente da câmara esquece a sua presença, ela desaparece. A emoção é criada desta forma, como o resultado de uma certa quantidade de energia e de informações que damos para recuperar mais tarde. Que circulam... Daí a complexidade da situação. Este fluxo deve ser controlado de forma a que seja libertado no momento certo.
Não podemos prometer a nós mesmos voltar a fazer um filme assim. É como oscilar nas suas convicções e ideias bem estabelecidas, às vezes é mais fácil protegermo-nos com a velha mise en scène, a paisagem, o cenário...
Se me perguntassem o que fiz enquanto realizador deste filme, responderia: “Nada, e no entanto se não existisse, este filme também não teria existido”.
Em todos os meus filmes, há planos em que o impacto emocional ultrapassa a realização, triunfa sobre ela, e a emoção torna-se mais forte que o próprio cinema. Há um plano em O Sabor da Cereja, em que M. Badii ao falar de si próprio não quer deixar fugir a emoção. Então fica com os cantos da boca a tremer. São planos que não tenho a pretensão de ter feito. Eles merecem mais do que isso. Soube provocá-los e captá-los no momento certo. É só.
Este filme são as minhas “duas palavras”. Que resumem quase tudo. E digo quase, porque já estou a pensar no meu próximo filme. Talvez um filme numa só palavra...
Abbas Kiarostami
 


ENTREVISTA COM O REALIZADOR

DEZ é o contrário de “ABC África” onde a câmara digital permite um desdobramento da sua presença. Em DEZ, perguntamo-nos onde está durante a rodagem?
Se realmente quer saber onde é que eu estava efectivamente, respondo-lhe mais tarde. A câmara está fixa. Pelo menos em metade do filme desapareceu, eliminámo-la. Compreendo melhor Bresson e o que ele sentia pela câmara fixa, porque agora sei que muitas coisas podem acontecer neste género de situações. A partir do momento em que o artista é obrigado a mexer-se, perde um pouco a realidade das coisas... A câmara pode mover-se naturalmente, mas na maioria das vezes é um constrangimento e sente-se de imediato. Os actores não profissionais estão mais à vontade porque a câmara não se mexe. O diálogo pode então acontecer livremente. Fiquei muito impressionado com a interpretação da mãe e do filho. Quando eliminamos o grupo de pressão, conseguimos eliminar o próprio realizador, num momento particular. É preciso exercer a função de realizador antes do início da rodagem. Semanas e meses antes, é preciso começar a trabalhar e, quando começa a rodagem, é preciso apagarmo-nos, desaparecer. É o que eu faço. Como um treinador de futebol, é preciso preparar bem o grupo antes do início e quando eles começam a jogar, é só preciso olhar e verificar.
No final de O Sabor da Cereja, há uma contagem decrescente: 10, 9 , 8, 7, 6, 5, ... Como se o vídeo fosse qualquer coisa que vem depois do cinema, qualquer coisa de post mortem. Em DEZ, há uma reapropriação do que o vídeo pode trazer de positivo. É uma contagem decrescente como se fosse começar um filme verdadeiro.
Exactamente, mas utilizei a câmara digital de forma diferente. Em O Sabor da Cereja era só um instrumento para tirar notas. Mas no fim do filme, percebi que este instrumento podia mostrar a intensidade do momento. Em O Sabor da Cereja, esta utilização da câmara digital não era intencional. Tínhamos esse filme na câmara, podíamos não ter olhado para ele. No momento da montagem, percebemos que isso se poderia introduzir no fim. Era uma espécie de documento, como um certificado de nascimento que pode ser maltratado ou rasgado. Às vezes é bom que a qualidade não seja muito boa porque parece mais natural. Em DEZ, a minha intenção não era criticar a câmara de 35 mm, mas sim a forma como ela é utilizada. Ela tornou-se realmente o símbolo do Cavaleiro do Apocalipse. A câmara digital permite distanciarmo-nos da tecnologia e da indústria do cinema, evitá-las. Quando trabalhamos com os capitalistas, aqueles que metem o dinheiro, estamos sob pressão, pedem-nos contas. Renunciámos a isso. O cinema não precisa de tantos instrumentos. No entanto, são os cineastas que estão sob pressão dos instrumentos do cinema, que os devem utilizar de uma forma ou outra.
Em O Sabor da Cereja, a câmara está tanto no lugar do condutor como do passageiro. Em DEZ, o espectador está no exterior, os protagonistas parece que não falam com ele. Ele nunca está no lugar deles.
Isso corresponde a eliminação do autor. Um dia fizeram-me um elogio involuntário que me impressionou bastante. Apresentaram-me a uma pessoa, dizendo “aqui está o realizador de ‘Close Up’”. O tipo, que não era uma pessoa da área do cinema, respondeu: “Ah, pensava que esse filme não tinha realizador!” Achei esta ideia sublime. Foi isso que tentei fazer com DEZ.
Acredita que o objectivo último do cinema é chegar, pelo falso, a fazer sentir a essência da vida? Essa sensação de verdade pode conseguir-se sem truques, sem manipulação?
A realidade só é possível entre duas pessoas, basta haver uma terceira pessoa para que tudo mude. Sobretudo se essa terceira pessoa é o realizador e está a filmar. É preciso então encontrar uma solução para os levar, de certa forma, para a sua verdadeira realidade. Para mim, a realidade filmada já não é real. Então os truques só permitem regressar à normalidade que normalmente não conseguimos filmar.
Porque é que decidiu fazer DEZ? Viu esta mulher, teve vontade de ser o passageiro e ouvi-la falar?
Nem por isso, porque a ideia de ela estar ao volante é minha. Estes diálogos podiam ter acontecido há 20 anos. De qualquer forma, os diálogos não são meus. Não é pura criação, apenas uma utilização de colectânea de vários anos. O conjunto torna-se sim um criação. Mas o carro, não foi eu que o fiz, esta mulher, não fui eu que a criei, e este diálogo é normal, ouvimo-lo muitas vezes. Não fui eu que fabriquei estas relações. Tudo isto se passa à nossa volta, mas quando entra numa imagem particular torna-se uma criação. (...) Perguntou-me se para dizer a verdade eram necessários truques. Efectivamente não há limites para isso. (...) O nosso truque foi tentar apagarmo-nos. (...) Sempre trabalhei assim, mas acho que desta vez esse trabalho foi mais conseguido graças à câmara numérica que nos permitiu apagarmo-nos e ficar distantes mais facilmente. .......
por Patrice Blouin e Charles Tesson
Cahiers du Cinéma, Setembro de 2002 



DEZ RAZÕES PARA AMAR DEZ
por Olivier Joyard e Patrice Blouin
Cahiers du Cinéma, Junho de 2002

10. A COMPETIÇÃO
A palavra tinha desaparecido do vocabulário de Kiarostasmi desde O VENTO LEVAR-NOS-Á, apresentado em Veneza em 1999. O cineasta previa não voltar a aparecer em festivais a não ser como estrela convidada. Não teria ele nada a ganhar ou a perder na confrontação com outras propostas de cinema? Pior, não teria ele nada a opor-lhes? A presença de DEZ em Cannes desmente radicalmente esta suposição. A sua ausência do palmarés não muda nada. Filmado em DV, como ABC AFRICA, estes 94 minutos cortados em dez quadros são uma resposta violenta ao conjunto do cinema contemporâneo, antes de mais marcada pela escolha de uma estrutura inédita: as cenas são separadas pela contagem decrescente dos números que, normalmente, vemos passar no início dos filmes que ainda não estão montados. DEZ termina no número 1 quando, noutra parte qualquer, o cinema ainda não começou.

9. O DISPOSITIVO
Em DEZ tudo tem um ângulo. Na parte da frente de um carro, Kiarostami colocou duas câmaras, uma apontada para a condutora inalterável, outra para o passageiro – à vez, o filho, uma velha religiosa, uma prostituta, duas amigas. Este dispositivo, os espectadores do Canal Jimmy já o conhecem. É (mais ou menos) o da emissão de “La Route” que propõe a dois convidados célebres que se conheçam enquanto viajam. Primeira questão (sem interesse): o que faz um conceito televisivo num cineasta iraniano? Segunda questão (infinita): como é que o dispositivo funciona aqui de forma bruscamente inesperada? É aí que com DEZ nos perguntamos se os dispositivos não serão também um assunto de moral.

8. A PALAVRA
Aqui as pessoas falam pelos cotovelos como em Rohmer e são inteligentes como em Oliveira. Palavras normais mas que importunam os lugares comuns, invertendo as implicações do poder, aparecendo sempre onde não se está à espera: de certa forma, só existem elas.

7. O PRINCÍPIO DA INCERTEZA
É impossível destacar apenas um único assunto, porque o conteúdo e o tom das conversas está sempre a mudar, violentamente contraditórios – com o rapaz -, amorosamente calmas – com as amigas – ou ironicamente desinteressado – com a mulher mais velha. É ao longo de cada sequência que a intensidade sobe ou baixa, que as vozes se misturam ou separam. DEZ, sequência de monólogos ou série de disputas? Estamos no Big Brother ou na Ágora? E Kiarostami: escreveu um argumento ou só sugeriu temas de conversas, ruas, semáforos onde parar, sítios onde virar? São possíveis horas de conversa. “Tenho o papel de um treinador de futebol”, disse ele, “quando o jogo começa, deixo de intervir”.

6. O TRIÂNGULO
Graças à constância do dispositivo, o poder é esticado, trocado, partilhado, entre o espectador, as personagens e o cineasta, que inventam, cada um deles, uma posição e combinações de pensamento novas. Estamos colados ao pára-brisas do carro, mas também imaginariamente sob o véu da heroína. Ao mesmo tempo cativados e desatentos, podemos, nalguns momentos, contemplar a palavra como uma cor ou um barulho, e escutar o corpo como um discurso em si. A condutora abandona o seu papel, eventualmente unívoco, de “mulher iraniana” ao erotizar a forma como ajeita o lenço quando este cai. Kiarostami assumiu claramente a liberdade de mudar de sexo – a condutora usa os óculos de sol que são a marca certificada de todos os seus duplos no ecrã. Que trio!

5. O SORRISO
Insultada pelo filho que não suporta que ela se tenha divorciado sem ter vergonha, incomodada por uma velha que fica surpreendida por ela não a acompanhar à mesquita, a condutora é um grande corpo político uma vez que nunca se desfaz do seu sorriso flutuante. A sua sedução é a sua resistência.

4. A REVELAÇÃO
Num dos últimos planos, uma jovem baixa o véu e mostra, com precaução, o seu cabelo rapado. Uma cabeleira perdida por um desgosto de amor. Um pouco antes, nesse mesmo lugar, uma prostituta, entre duas gargalhadas histéricas, diz que não se preocupa com o sexo. Antes dela, uma velha oferece-se para guardar o carro para a condutora ir rezar. No carro-cinema de DEZ, as pessoas revelam-se sem se despirem, como que protegidas pela ausência do olhar atrás da câmara.

3. A TRAVESSIA
Quando a condutora estende a mão para a passageira e limpa uma lágrima da amiga, aparece uma emoção enorme e imprevista. Até aí este gesto simples de atravessar o enquadramento nunca tinha acontecido. O dispositivo estanque de DEZ estende-se pela primeira vez. Esta mudança brusca revela o que podíamos ter notado sem o ver: não há afrontamentos entre o interior e o exterior – as ruas, em segundo plano, desfilam indiferentemente, tal como o dia e a noite -, mas apenas entre os dois lugares. O fora de campo esta literalmente no meio do carro, cortando o plano ideal em dois.

2. O ALÉM-TÚMULO
No fim de “O Sabor da Cereja”,  Kiarostami enterra o realizador e com ele o cinema tal como o conhecíamos. O vídeo aparece simplesmente como o que “vem depois” em alguns planos de um suposto making-of. “ABC África” construiu-se seguindo a facilidade de utilização e deslocação que permitia a DV, como um diário de viagem. (...) Em DEZ o vídeo encontra o seu verdadeiro sentido. Supressão do corpo do realizador, acrescento de um dispositivo fixo, regresso primeiro e definitivo à vida.

1. O CONTEMPORÂNEO
Antes de vermos DEZ, concebíamos o cinema contemporâneo na linha de “Disponível para Amar”, “Mulholland Drive”, “Millennium Mambo”: um longo oscilar musical hesitando com beleza entre autismo e esquizofrenia. Kiarostami mostra, numa proposta única e inédita, que pode ser de outra forma. Linear, quotidiano, com diálogos, DEZ regressa ao zero não só pela escolha de dispositivo, mas também por uma forma, misteriosa e insondável, de o exceder sem efeitos. (...) DEZ é todo o cinema, toda a vida e toda a televisão reunidos numa hora e meia.


 

Um Soco no Estômago! Um Filme Terrível! Uma Obra Prima! IPDJ 21:30


DIA 4 DE DEZEMBRO
MICHAEL, Markus Schleinzer, Áustria, 2011, 96’, M/18

Sinopse
Michael (Michael Fuith) tem 35 anos, um emprego estável como gestor numa agência de seguros e uma vida aparentemente igual a tantas outras. Porém, na intimidade da sua casa ele guarda o mais terrível dos segredos: um "bunker" à prova de som onde mantém prisioneiro Wolfgang (David Rauchenberger), um menino de 10 anos. Para Michael, que quer forçar uma naturalidade onde ela não pode existir, estes momentos são uma escolha; para Wolfgang, pelo contrário, aquela é uma existência de pesadelo.
Primeira obra do austríaco Markus Schleinzer (director de casting reconhecido pelo seu trabalho com Ulrich Seidl, Jessica Hausner e, mais recentemente, Michael Haneke), um filme que, tendo como ponto de partida um crime hediondo, tenta ficcionar a dinâmica existente entre um molestador e a sua vítima.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Michael
Realização e Argumento: Markus Schleinzer
Fotografia: Gerald Kerkletz
Música: Lorenz Dangel
Interpretação:  Michael Fuith, David Rauchenberger, Christine Kain, Ursula Strauss
Ano: 2011
Origem: Áustria
Duração: 96’

TRAILER http://www.youtube.com/watch?v=o_7Xd1rZlYo
FESTIVAIS
Festival de Cannes - Selecção Oficial
Festival de Toronto - Selecção Oficial
Festival do Rio de Janeiro - Selecção Oficial

PRÉMIOS
Festival de Viena - Melhor Filme

CRÍTICA
O filme tem levantado polémica pela escolha do ângulo. Desde quando os pedófilos têm direito a uma perspetiva? Mas nada disso é feito de forma doentia, tendenciosa ou compassiva, pelo contrário, num tema de mau gosto, há bom gosto. Markus Schleinzer afirma que o cinema não pode ter tabus. O grande mistério da humanidade continua a ser o Outro. É difícil os patrões perceberem a perspetiva dos empregados, dos israelitas, a dos palestinianos, os freaks da bolsa as necessidades do povo. E vice-versa, claro está. Esse pode ser um dos maiores desafios da arte. Um desafio tão grande que facilmente se torna insuperável. Como poderemos alguma vez ter o nível mínimo de empatia para perceber um monstro? O cinema tem os seus truques. Habituou-nos a gangsters extremamente sedutores, que nos fazem entrar num jogo de ilusões inerentes ao próprio género: num filme de ação os socos não doem e as balas não matam de verdade, não há qualquer drama existencial, a morte é uma brincadeira, um ponto que se perde, como quando as crianças brincam aos cowboys. Num aprofundamento do género, Tarantino incute um charme irresistível aos seus assassinos, põe-nos a falar de massagens nos pés nos preparativos de um crime hediondo. George Clooney em O Americano (2010), de Anton Corbijn, faz-nos crer que a profissão de assassino profissional se assemelha à de um sapateiro. E Woody Harrelson e Juliette Lewis, em Assassinos Natos (1994), de Oliver Stone, mostram que matar aleatoriamente pessoas é bem mais divertido e amoroso do que passear de mão dada num jardim. Mas nem Samuel L Jackson, nem George Clooney, nem Woody Harrelson se safariam se em vez de assassinos fossem... pedófilos. Essa é a limitação ética: podemos rir-nos do humor de um psicopata, mas nunca das piadas de um pedófilo.
Desafio enorme de Michael, um filme notável de Markus Schleinzer, que esteve em Cannes, passou no IndieLisboa e agora estreia-se em sala. Mais surpreendente ainda tratando-se de um filme austríaco, o país de Natascha Kampush, um dos mais mediáticos casos de sequestro: a criança foi raptada por um homem aos 10 anos e só se conseguiu libertar aos 18. Assunto altamente delicado, portanto, que Schleinzer trata com mestria. A perspetiva, o que interessa ao realizador, é sempre Michael o sequestrador, deixando para segundo plano a criança, a vítima, que é a protagonista de todos os outros filmes do género. Nunca ficamos encarcerados ao lado do miúdo, de que mal conhecemos o nome, sabemos apenas que ela está lá.
O verdadeiro milagre do filme é fazer-nos seguir uma personagem com a qual não empatizamos (seria impossível). Porque Schlneizer tem essa honestidade ética e intelectual de não dar traços sedutores a Michael. Por um lado não vitimiza o carrasco: não se descobre qualquer opressão social ou familiar, nem mesmo um estado de demência que justifique, explique ou atenue os seus atos. Por outro lado, não há qualquer traço de estilo que faça de Michael uma personagem cativante, à moda dos assassinos de Tarantino. É uma figura opaca, moderadamente obsessiva, relativamente reservada, mas que, apesar de tudo, se relaciona socialmente. Na relação com o rapaz, não explora o síndrome de Estocolmo em demasia: há uma dependência, mas é uma dependência essencialmente opressiva.
O que torna assustadora esta história é a aparente vulgaridade do sequestrador-pedófilo, que até é bem-sucedido profissionalmente. E de como um crime é mantido e repetido de forma quase perfeita por um tempo longo. Alerta-nos para o perigo do insuspeito. Apesar de, num retrato mais profundo, observarmos os distúrbios de personalidade em Michael.
O filme tem levantado polémica pela escolha do ângulo. Desde quando os pedófilos têm direito a uma perspetiva? Mas nada disso é feito de forma doentia, tendenciosa ou compassiva, pelo contrário, num tema de mau gosto, há bom gosto. Markus Schleinzer afirma que o cinema não pode ter tabus.
Manuel Halpern, http://visao.sapo.pt/michael-como-pintar-um-monstro=f666206#ixzz29ZOOeInD




ENTREVISTA A MARKUS SCHLEINZER
De onde lhe veio a ideia e a vontade de fazer um filme destes?
Nos últimos anos, interessei-me bastante pela forma como se abordam estes criminosos e a própria noção de criminoso na opinião pública. Na nossa sociedade, e a meu ver correctamente, o abuso sexual de menores é o crime cuja condenação é mais veemente e unânime. De tal forma que mesmo certas pessoas com alto sentido de justiça e conformidade com a lei gostariam de regressar a um direito medieval e de enforcar os agressores. Eu próprio não sou imune a isso quando ouço falar ou leio alguma coisa que está para além do meu entendimento ou da minha imaginação nos jornais sensacionalistas, a quem se deixou praticamente o exclusivo destas matérias.
Esta constatação chocou-me e quis tentar encontrar respostas e abordar o tema abertamente, o que o cinema de ficção me permite. Para tal, recusei conscientemente inspirar-me em acontecimentos ocorridos na Áustria ou no estrangeiro e criei personagens em nada relacionados com o que era relatado pela comunicação social. A história tão pouco possui elementos autobiográficos. Nem eu, nem os que me são próximos alguma vez nos confrontámos com a pedofilia. Depois de escrever o argumento, pedi ao Dr. Heidi Kastner, um psicólogo forense de reputação internacional, que analisasse o personagem e o seu comportamento. Teria sido estúpido e perigoso confiar apenas na imaginação livre num tema destes. Este filme procurava narrar os últimos cinco meses de convivência forçada de um rapaz de 10 anos com um homem de 35 anos. Para mim, o essencial era perceber como é que se podia contar uma história destas. Queria partir do universo do criminoso, do universo idílico e artificial que ele elabora, e construir a narrativa partindo do seu ponto de vista. Era, portanto, fundamental não introduzir qualquer julgamento ou moral exteriores e não deixar os meus próprios valores éticos contaminarem a história. Assim, só vemos o homem, o garoto e a interacção entre os dois. Pretendia criar uma situação à qual tivéssemos de nos expor, como se de um perigo se tratasse. Em que cada um tivesse de examinar cuidadosamente estes sentimentos.
Penso que isso pode ajudar a sociedade, todos nós, a ir mais longe, a avançar. Mede-se o grau de desenvolvimento de uma sociedade pela forma como esta é capaz de se confrontar com os seus criminosos.
Na comunicação social, os autores destes crimes são frequentemente apresentados como monstros...
Os jornais sensacionalistas adoram empregar rótulos chocantes como “O monstro de...”. Mas os monstros não são seres humanos: o monstro é um ser mítico, um personagem de conto de fadas. Ao agir assim, nega-se ao criminoso a sua condição humana. É óbvio que conferimos importância extrema à distância que temos de colocar entre nós e os criminosos. E pouco importa de que forma o fazemos, apenas que essa distância seja a maior possível. Não temos vontade de encarar tais pessoas e muito menos de nos aproximarmos delas por via de uma possível identificação. A maior parte do tempo, procuramos características interiores e exteriores que nos permitam definir essas pessoas. Não para nos obrigarmos a compreendê-las e a reconhecê-las mas para as distanciarmos de nós. Regressamos invariavelmente a rótulos, procuramos obstinadamente uma “libertação” através de explicações psicológicas.
É precisamente este mecanismo que tentei neutralizar em Michael. O que é essencial para mim é que só posso estabelecer uma relação com um comportamento criminoso, qualquer que seja, se reconhecer a sua existência. Isso não significa nem perdoar, uma vez que só as vítimas o podem fazer, nem condenar, o que cabe à justiça.
O mais assustador, afinal, é a faceta de normalidade da vida deste criminoso...
O que é que acontece, a ambos, quando se convive naquelas condições? O que é que acontece quando, passado algum tempo, se ultrapassa a primeira resistência da vítima, esta se resigna e apesar de tudo se instala uma rotina? De acordo com os nossos parâmetros habituais, há uma relação entre duas pessoas que vivem juntas. Mas qual é a natureza dessa relação neste caso? É o que eu queria contar e questionar, abordando também uma forma de sexualidade, por ser um dos elementos desta vida em conjunto, ainda que, bem entendido, totalmente controlada pelo criminoso. Creio efectivamente que esse é um dos aspectos assustadores do filme: um homem que procura a normalidade no âmbito de um crime extremo e que todavia vive como muitos de nós... É que o criminoso tenta apenas viver de forma muito convencional. Procura ser como os outros. Cumpre fielmente os ritos da normalidade, uma vez que o normal mascara o crime. Se eu me interesso por esses mundos “ideais” que alguns elaboram, julgando-
-os “naturais” e “normais”, é porque para mim eles colocam em causa a normalidade e o quotidiano em que vivo. Saber que numa situação extrema se procura a normalidade, que ela é necessária para poder suportar essa situação e a perpetuar, permite encarar o quotidiano e a sua normalidade sob um outro prisma. O que é que isso representa para a minha própria normalidade? O que é que nesta advém da simples auto-protecção ou da necessidade de se manter em segurança?
Para mim, o que é interessante e assustador no filme é que não só o criminoso procura a normalidade, como a normalidade não o vê de todo como um anormal. Ele é um empregado de uma companhia de seguros muito competente, é mesmo promovido, é estimado ao ponto de ser convidado para umas férias de esqui, etc. No contacto directo, as pessoas “normais” reagem como se ele fosse um tipo de facto normal. Esse é um dos aspectos mais estranhos e inquietantes do filme.
Mesmo que a anormalidade seja o oposto da normalidade, não creio que se estenda a todas as esferas da vida. O anormal é apenas uma faceta. Em Michael, a anormalidade do criminoso, a pedofilia, levou-o a raptar a criança. Mas isso não o distingue em nada, não permite um distanciamento imediato dele. E  quando os vizinhos, como é frequente nestes casos, acorrem a dizer “Mas ele era tão simpático” não fazem mais que, para o bem e para o mal, tentar compensar o disfuncional com o funcional. Há sempre esta incompreensão: como é que alguém que tomou conta dos meus gatos pode revelar-se repentinamente um anormal? Parece-nos altamente improvável, porque põe em perigo a nossa própria normalidade.
Em Michael, os personagens reagem com uma certa frieza, as lágrimas são raras... Precisamente quando a comunicação social daria largas a um registo sensacionalista, a sua realização recua.
Já é suficientemente horrível. Não vejo porque insistir nessa tecla escolhendo outros processos narrativos. É por isso que desde o início da escrita do argumento decidi não fazer um filme cujo personagem principal fosse a vítima. Seria de muito mau gosto. Primeiro, porque não sei quase nada sobre o assunto. Em segundo lugar, porque é frequente que os “filmes de vítimas” as explorem e eu não queria fazer isso. Não podia abordar esta história de forma sentimental, numa escalada emocional. Protejo os actores e deixei espaço aos personagens, tanto ao da vítima, como ao do criminoso. Não há grandes planos obscenos com lágrimas a escorrer pelas faces. Isso seria simplesmente desrespeitoso. Mas também não queria cair no erro de acreditar que só há um ponto de vista, uma única abordagem emotiva – nunca é assim.
Falou dos actores: fazer uma criança participar num filme destes é uma grande responsabilidade...
Desde logo, o mais importante era a sinceridade absoluta. Numa das últimas sessões de casting, uma mãe levantou-se e foi-se embora, porque eu não lhe podia prometer que ia ser capaz de proteger o seu
filho no futuro e impedi-lo de ser alvo de chacota dos colegas na escola. Não o posso fazer e fazer de conta que sim seria mentir. Tentámos acompanhar esta criança através do diálogo e ouvindo-a, para que
também pudesse existir por si mesma, enquanto pessoa, na história.
O essencial era encontrar pais que não se contentassem com autorizar o filho a desempenhar este papel mas que fossem igualmente interlocutores interessados; encontrar uma criança com talento suficiente
e com uma personalidade forte e sã. Não posso fazer um filme sobre maus tratos e eu próprio maltratar o meu personagem. Claro que isto diz essencialmente respeito à criança, porque faz de vítima, mas também ao actor que faz de criminoso, Michael Fuith. Era muito importante confrontarmo-nos seriamente com a questão “Nós próprios, quem somos?” antes de começar a falar de personagens.
Como é que uma criança de dez anos experiencia uma história destas?
Trabalhei muito com crianças. Aprendi muito, em particular, com Michael Haneke na rodagem de Das Weisse Band [O Lenço Branco]. Sem esta experiência, não me atreveria a fazer Michael. Aprendi que é
preciso encontrar as crianças onde estão, ou seja, no seu ser criança. Isso é muito importante. Não se tratava, sobretudo num tema destes, de puxar a criança para o mundo dos adultos. Nós falámos muitas
vezes disto abertamente com o nosso jovem actor. Dei-lhe sempre a possibilidade de ele próprio reflectir sobre o que podia acontecer ao seu personagem. Era igualmente importante que ele participasse na construção do seu quarto na cave: todos os desenhos que aí vemos são dele. Ele imaginou cenários de fuga (cavando um túnel, por exemplo) e como é que se ia vingar. Conhecia o argumento, sabia como acabava e foi ele próprio que decidiu como é que o seu personagem se ia escapar. Ainda que fosse sempre claro de que é que ele regressava, encontrámos com o miúdo e com os pais uma linguagem apropriada para falar sobre tudo isso. Era muito importante não o saturar com informação mas permitir-lhe perceber a situação de forma concreta.
É preciso não subestimar as crianças. Elas percebem muito mais do que, por vezes, estaríamos à espera e, também por essa razão, devem ser protegidas de modo a eliminar o voyeurismo e a obscenidade.
E como é que foi para o actor principal, Michael Fuith?
Ele é que devia responder a essa questão. Do que pude observar, diria que ele arriscou verdadeiramente com esta história, que se documentou bastante e que lhe terá sido, sem dúvida, frequentemente muito
difícil expor-se à representação deste personagem, compreender os comportamentos de um ponto de vista lógico mesmo reprovando-os. Encarou tudo isso com grande sinceridade e fez um excelente trabalho, mas espero que o seu próximo papel seja muito diferente...
Ursula Baatz