FILHA DA MÃE - o 2º de CANIJO é o nosso penúltimo a ele dedicado

4ªf, Sede, 21h30, Entrada livre


O segundo filme de um jovem realizador português confirma alguns traços pessoais, perde-se em pequenas cenas e torna-se perturbante quando finalmente se encontram duas fortes personagens.

A mais evidente afinidade entre "Filha da Mãe" e "Três Menos Eu", o primeiro filme de João Canijo, é o triângulo sentimental. No outro filme um rapaz circulava entre duas raparigas, neste um homem circula entre duas mulheres. Mas em "Filha da Mãe" a relação triangular tem uma maior intensidade (questão física que se deve entender no sentido perturbante da relação entre três corpos) e é também mais generalizada.

Júlia (Lídia Franco) mantém uma relação com Gigi (Miguel Guilherme), que por sua vez tem uma relação com Dalila (Alexandra Lencastre). Na relação mãe-fiha entre Júlia e Maria (Rita Blanco) vem interpor-se Álvaro (José Wilker). Entre os dois triângulos é Júlia o factor comum; mas há outras relações. Por exemplo, o namorado de Maria, Adriano (João Cabral) trafica com Gigi, que para esse fim se vale dos apoios monetários, voluntários e involuntários, de Júlia. É a troca um elemento constituivo de todas as relações? Sim, mas não apenas como comércio sujeito a pagamentos monetários. Cada personagem exige a outra, ou outras, algo mais do que elas supõem poder dar-lhe e a lógica geral da circulação sobrepõe-se aos acordos mútuos - o roubo é uma parte integrante da troca.

Recordar-se-à que no filme anterior de Canijo a introdução de um dos elementos do trio, o rapaz, ocorria pelo roubo de uma cassete numa loja de discos, e que "O Roubo" foi o título inicial deste segundo filme. Independentemente da alteração do título, o roubo é uma forma de transacção marcante em "Filha da Mãe", sublinhada pela presença de mais duas personagens, dois cúmplices de Adriano, Lázaro (Diogo Dória) e Victor (Adriano Luz).

A insistência é mesmo excessiva, porque tende a focalizar a noção do roubo em actividades publicamente marginais às relações sociais admitidas, desviando-se do campo íntimo e afectivo onde ela é dramaticamente mais forte. Torna-se nítido o desequilíbrio entre duas partes do filme, a primeira sendo sobretudo uma crónica das pequenas trocas e delitos, a segunda concentrando-se na relação entre Maria e Álvaro e na consequente exclusão sentida por Júlia e Adriano.

João Canijo é um caso, raro em Portugal, de coexistência do encenador teatral com o realizador cinematográfico. Entre as duas actividades um forte denominador comum é o trabalho com os actores. Neste caso, a relação estabelece-se também pela presença explicita no filme de cenas de uma representação teatral, observadas directamente pela câmara cinematográfica ou através de re-produção em vídeo. É uma cena primitiva, a de Clitemnestra e Electra, quer num sentido mitológico (uma das cenas fundadoras do teatro europeu, se recuarmos até à “Oresteia" de Ésquilo), quer no sentido psicanalítico da relação entre a mãe e a filha da qual a primeira excluiu o pai.

É óbvia, demasiado óbvia, a duplicação das cenas; começamos, por exemplo, por ver Júlia ensaiar uma cena com a sua filha, e veremos depois que no teatro o papel é interpretado por Dalila, de facto rival de amor de Júlia, como Maria tentará rivalizar com a mãe na relação com Álvaro. A teatralidade é redundante e mesmo gratuita, no modo como os actores se exibem em gesticulações estereotipadas ou poses grandiloquentes. Apenas na sequência final, e por uma opção bem simples mas coerente (o antepenúltimo plano, "desfecho" da acção, é filmado exactamente como uma cena em cima do palco, com um cenário de três paredes), as relações entre as personagens e a representação teatral se tornam equivalentes e não apenas duplicação. Mas entretanto ocorrera, depois das cenas caricaturais da primeira parte, uma mudança: a efectiva entrada em cena de uma pers¬nagem, Álvaro, e de um actor, José Wilker.

"Filha da Mãe" é, para além das conotações da expressão em linguagem corrente, aquela que não é filha de "pai e mãe", por aquele estar ausente. Para Maria, esse ausência não pode deixar de ser sentido como um roubo por parte da mãe - ela retirou-lhe o pai. Para Álvaro, regressado de um passado obscuro e de paragens distantes, a recusa de Júlia em apresentar-lho o filho (ou filha) de ambos, aquele de que ela estava grávida quando Álvaro partiu é outro roubo – ela apossou-se sozinha da sorte do filho de ambos (abortou, diz).

É Maria filha daquele pai? Nunca o saberemos, elemento fundamental da perturbação e intensidade da segunda parte, quando enfim o filme se concentra nas relações entre Maria e Álvaro, nos contraditórios receios e desejos de posse de outrem, no sentimento de Júlia e Adriano de terem sido roubados.

Como segundo filme, Canijo fez dois, o da primeira e o da segunda parte. Seguindo a ordem cronológica, o interessante é então o seu terceiro filme, de que o segundo foi um esboço caricatural.
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Augusto M. Seabra, Público, 4/05/90


ENTREVISTA A JOÃO CANIJO E A RITA BLANCO
Saguenail - A minha primeira pergunta é sobre o significado (tanto no TRÊS MENOS EU como na FILHA DA MÃE) duma ficção que acaba numa casa, num cenário muito particular, iso¬lado do mundo...
João Canijo - No TRÊS MENOS EU, por razões de produção: não havia dinheiro para mais. E neste porque convinha fechar aquilo. O filme começa duma maneira cómica e, de repente, deixa de ser cómico. Isso é de pro¬pósito.
S. - Sim, mas apesar de tudo há uma escolha do lugar. Nos dois filmes constata-se uma oposição entre um meio urbano (a cidade é identificável) e um lugar isolado, um sítio fora de qualquer sitio...
J. C. - Sim, mas a oposição não é essa. É antes entre meio com gente e meio isolado.
Regina Guimarães - Tu lá sabes... Mas a impressão que fica é - eu iria mais longe ¬- de meio próximo da natureza. No TRÊS MENOS EU é o mar e neste último, talvez com menos presença, é a terra. As pessoas vêm à janela e vêem vinhas...
J. C. - As ideias são diferentes. Se calhar vai dar ao mesmo, mas vou tentar explicar. No TRÊS MENOS EU era uma zona de praia, fora da estação balnear, onde não havia ninguém. Na FILHA DA MÃE é uma casa isolada, dum tipo que outrora lá viveu e que volta passados vinte anos. Regressa a uma casa completamen¬te abandonada que ele anda mais ou menos a pintar e a restaurar. Era para ser um espaço tão abandonado quanto ele. A única coisa que existia era ela, quando chega. (...)
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Saguenail, Regina Guimarães, Rui Madeira, A Grande Ilusão, n. º11

(ler a entrevista - muito longa - na íntegra)


Realização: João Canijo
Argumento: João Canijo, Olivier Assayas, Teresa Villaverde, Paulo Tunhas e Manuel Mozos
Direcção de Fotografia: José Luís Carvalhosa
Montagem: Sabine Franel
Interpretação: José Wilker (Álvaro), Rita Blanco (Maria), Lídia Franco (Júlia), Miguel Guilherme (Gigi),
Diogo Dória (Lázaro), João Cabral (Adriano), Adriano Luz (Victor), Alexandra Lencastre (Lilita),
Elsa Bruxelas (Mula), Vasco Sequeira (Policia), Manuel João Vieira (Gangster)
Origem: Portugal
Ano: 1989
Duração: 105’
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pré ou anti-western, O ATALHO é pioneiro - primeiro olhar de uma mulher sobre a conquista do Oeste americano. Um olhar único.

BASEADO EM VIDAS REAIS

2ªf, 19 Set, 21h30, IPJ. Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€


Mais uma vez, a realizadora Kelly Reichardt, já muito consagrada nos meios "indies" e seleccionada em importantes festivais internacionais, filma personagens errantes e passos em volta. Mas que, ao contrário das figuras de Tchecov, em estado de permanente e letárgica insatisfação, estas querem chegar a algum lado. Em Lucy &Wendy (um filme absolutamente encantador de 2008), uma rapariga (Michelle Williams), na companhia da sua cadela, "nomadiza" também pelo estado de Oregon à procura de um modo de subsistência. Em Old Joy (2006) dois amigos deambulam por umas montanhas à procura de um passado. O Atalho é outro on the road minimalista, nos tempos em que elas, as estradas, ainda estavam por trilhar. E estes primeiros colonos, e suas parelhas de bois, um burro e um canário também andam numa busca: a da terra prometida do Oeste. E a tenacidade e o tédio caminham lado a lado, os homens com a cara ensombrada pelas barbas, pelos chapéus, pela sede e pelo desespero. As mulheres, também pela sede e desespero e por aqueles gorros à Sarah Kay, que Hollywood tratou de remover da cabeça das suas estrelas para não estragar o visual nem o penteado nem o efeito da luminosidade nas caras. Todo o filme é visto na perspectiva feminina, na forma como elas escutam de longe as decisões dos homens sobre se devem ou não enforcar o guia, ou como tricotam afanosamente, e fazem pão, moem café, apanham gravetos para fogueiras e caminham, sobretudo caminham, com aquelas cabeças encafuadas nos chapéus de abas laterais que apenas a faz olhar em frente, obstinadamente em frente, como as palas nos cavalos, sem se deterem distracções contemplativas.

Não se espere nenhum heroísmo à John Wayne, nem os arrebatadores desfiladeiros de Monument Valley à Ford, nem duelos, nem escalpes arrancados, nem o Red River Valley cantado à volta da fogueira, nem caras sorridentes, já devidamente maquilhadas, que apareciam entre a lona das caravanas dos colonos. Aliás, em nenhum outro western é focado com tanta honestidade estes carroças precárias, encurvadas e tumulares, como botes de terra, de onde se vai largando o peso e os objectos, o relógio da mãe, a cadeira de baloiço, para aliviar o peso, em caso de naufrágio. Carregam fervor messiânico, bíblias e uma gaiola com um canário que, volta e meia, pia. Era isto que parece interessar mais a realizadora, o quotidiano. E o vento, e a sede, e as lagoas, alcalinas, e a roupa que se estende nos arbustos e o silêncio. Aliás, a primeira palavra, já vai o filme adiantado, nem é falada mas escrita, gravada num pedaço de madeira: "Perdidos". Apenas isto: sem barulhos nem adornos.
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Ana Margarida de Carvalho, Visão



A americana Kelly Reichardt assina um dos grandes filmes (americanos e não só) dos últimos tempos - e não, isto não é um western.

Convirá começar pelo aviso da praxe: por muito que "O Atalho" se inspire num "fait-divers" verídico da conquista do Oeste e traga todos os "sinais exteriores" de um western, que não se vá ver o novo filme da realizadora Kelly Reichardt ("Wendy e Lucy") como um western. Nem sequer como um western revisionista, porque o trabalho de Reichardt e do seu argumentista e habitual colaborador Jon Raymond reside mais dentro das convenções do "road movie". E lembramo-nos daquele célebre slogan com que o "Easy Rider" de Dennis Hopper e Peter Fonda foi lançado: "um homem foi em busca da América e não a encontrou em lado nenhum".

"O Atalho" é, de certo modo, isso: a história de uma busca da América num local onde ela ainda não existe. Estamos em 1865 e três casais religiosos e o seu guia fanfarrão separam-se da caravana principal em direcção ao estado do Oregon, mas dão por si perdidos e com a água a escassear. Reichardt pode filmar estas paisagens áridas e desoladas como Ford filmou o Monument Valley (no velho formato "quadrado" conhecido como "Academy ratio", em 1:1.33), mas tudo pára aí.

A identificação com o western desaparece aos poucos para dar lugar a um drama de câmara, um pequeno grupo entregue a si mesmo, uma história de sobrevivência. Tudo é contado numa espécie de animação suspensa: faz sentido, estamos no meio do nada, do desconhecido, num sítio que já não é a civilização e ainda não é a terra prometida. É um limbo, um purgatório onde a palavra-chave é comunidade mas onde a pequena comunidade, dividida entre homens e mulheres de acordo com os mandamentos bíblicos, se começa a fracturar.


Kelly Reichardt sempre olhou para a comunidade como foco ou núcleo da América, antiga ou moderna, e em "O Atalho" ela não hesita em confrontar-se com a dimensão mítica dessa América e dessa comunidade. Fá-lo de um modo simultaneamente celebratório e desarmante: a fé quase cega dos pioneiros que se atiraram ao desconhecido, o medo e a incompreensão que surgem quando o desconhecido ameaça subjugá-los. Se a Wendy de "Wendy e Lucy", por exemplo, era "o outro" perdido "fora da passadeira" de uma América fechada sobre si mesma, "O Atalho" regressa aos primórdios dessa comunidade e do modo como ela se define precisamente em função do "outro" - um guia que está longe de justificar a confiança, um índio que eles não compreendem - e do modo como a sobrevivência implica escolhas morais que não são minimamente lineares nem respondem a quaisquer escrituras ou preceitos.
Filmando de modo difuso, atmosférico, evocativo, com um olhar ao mesmo tempo alienígena e fascinado, Reichardt constrói o seu filme por texturas em vez de estruturas narrativas. Isso vai assustar todos aqueles para quem a "lentidão" ou a ausência de acção são uma falha, todos aqueles que não compreendem como a utilização judiciosa do silêncio e do espaço é o que dá força e energia a este cinema certamente exigente mas resolutamente atento. E quando damos por nós estamos no meio de uma meditação oblíqua sobre a comunidade, sobre o medo, a incompreensão, o outro, feita à medida dos nossos dias, confirmando como Reichardt e Raymond pensam na América (e pensam a América) para lá dos sonhos e das imagens, num trabalho de desconstrução e desmontagem que remonta à fonte desse país que o cinema ajudou a construir. Encontram-na? Cabe a cada espectador decidi-lo. Na certeza de que são raros os filmes que se entregam a essa busca como "O Atalho" o faz.
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Jorge Mourinha, Público


A consciência de um país (INCLUI DECLARAÇÕES DA REALIZADORA)

"O Atalho" é o segundo filme de Kelly Reichardt a estrear nas salas portuguesas, uma cineasta norte-americana que constrói um olhar sobre o presente político do seu país.

Depois da estreia de "Wendy and Lucy" (2008) e do lançamento de "Old Joy" (2006) em DVD, "O Atalho", último filme de Kelly Reichardt, chega agora ao nosso país depois de uma primeira exibição no IndieLisboa. A reaproximação entre o lançamento das obras da realizadora nos Estados Unidos e a sua exibição nas salas internacionais deve-se, para além do reconhecimento de uma autora central do cinema independente americano, ao que se situa no centro da sua criação: um olhar livre e poético feito a partir da realidade política norte-americana contemporânea.

"Old Joy", a fuga de dois amigos do rumo de um país para um escondido destino na paisagem americana, surgiu como sinal de uma geração sem representante na oposição à política belicista de um país. Já "Wendy and Lucy" filmou o encontro solitário de uma jovem, também em viagem, com a ausência de solidariedade social, sobrevivendo na pobreza e sem abrigo, em luta contra instituições que não reconhecem a sua condição. Aliada à escrita de Jon Raymond, autor dos contos dos quais ambos os filmes foram adaptados ("Old Joy" e "Train Choir"), a realizadora encontrou, nos traços da reclusa paisagem do escritor, o quadro ideal para criar, por um olhar naturalista, um sentimento sobre o caminho de uma nação. Em declarações recentes, Reichardt explicou o contexto em que os dois filmes se situavam: "'Old Joy' foi escrito antes da reeleição de George W. Bush, 'Wendy and Lucy' veio depois [do furacão] Katrina. Teve a ver com o desprezo pela pobreza e a presunção que as nossas oportunidades estão aos nossos pés, que tudo o que temos de fazer é baixar-nos e apanhá-las. E se não ficarmos com uma fatia do bolo, é porque somos demasiado preguiçosos. Será mesmo só disso que precisamos para chegar a algum lado?"

Em "O Atalho", Reichardt mantém o seu olhar sobre o mesmo território - o Estado de Oregon -, mas desloca-se no tempo para abordar a aparência de um género: o western. Situado em 1845, o filme recria uma verídica travessia de emigrantes norte-americanos no deserto, através de um traçado que ficou conhecido como "Oregon Trail". A viagem é liderada por Stephen Meek, um guia do território que, pelas suas extravagantes convicções, leva as famílias para um destino de incerteza e acaso, e que permaneceu na história como uma das mais mal-sucedidas etapas da descoberta do interior norte-americano. Mas apesar da distância temporal, o foco de Reichardt mantém-se no presente. "Na autobiografia de Meek de quatorze páginas, dez são uma verbosa anedota, e depois escreve: 'Liderei a primeira caravana pelo território de Oregon. Totalmente bem sucedido.' Provavelmente como no livro de George W. Bush: 'Tudo correu lindamente. Nenhuma preocupação.'"


Em "O Atalho", as analogias ao passado político recente dos EUA parecem ainda mais evidentes. Quando a viagem parece condenada ao fracasso, o teste estará em confiar, ou não, num elemento estrangeiro à cultura desta pequena comunidade: um índio que se cruza no seu caminho, mas cujo conhecimento nativo parece ser essencial para a ansiada rota da prosperidade. Reichardt reconheceu as comparações: "Enquanto montava o filme, a realidade política mudava. Percebi que tudo o que estava a acontecer [a eleição de Barack Obama] se podia projectar naquilo em que estava a trabalhar. E pensei que a história americana era repetitiva, que ainda temos toda uma discussão sobre conquistas e vidas que valem mais que outras - o que se resume ao racismo."

Contudo, se "O Atalho" dá continuidade à leitura sobre um país (o guião é uma criação original de Jon Raymond), Reichardt estende o seu trabalho a uma parte da história do cinema americano. Desconstruíndo a perspectiva masculina do western - lembramo-nos do contexto de "A Caravana Perdida" (1950) de John Ford, por exemplo -, Reichardt foca-se no olhar das mulheres, elementos normalmente distantes da acção física e das tomadas de decisão. O mote para o filme veio da leitura de diários pessoais escritos durante a viagem: Reichardt encontrou aí "um retrato diferente das viagens retratadas nos westerns convencionais, feitos de momentos masculinos de conflito e conquista." Aqui, "as mulheres encontram-se numa posição semelhante à do índio. No fundo, se não formos um homem branco, ficamos de fora do processo de tomada de decisão."

O formato em que "O Atalho" foi filmado respeita essa claustrofobia: o tamanho quase quadrado de 1.33:1 diz tanto respeito à perspectiva limitada dos chapéus usados pelas mulheres como a uma intervenção sobre a larga paisagem do deserto. "São suficientemente largos para cobrir os ouvidos e impedir uma visão periférica. O formato quadrado ajudou-me a que não se vislumbrasse o dia de amanhã ou de ontem no mesmo plano." E é na perspectiva que Reichardt toma sobre uma herança cinematográfica que "O Atalho" revela a sua maior riqueza: a extraordinária fotografia, construída não apenas pelo favorecimento dos seus luminosos detalhes e enquadramento (Reichardt e Raymond confessam-se admiradores do trabalho do fotógrafo Robert Adams, criador de um olhar essencial sobre o Oeste americano), mas também pela atenção dada aos detalhes da vida diária dos viajantes.

Assim, o tempo de observação, presente nas suas obras anteriores, contraria o "frenesim visual" de um cinema contemporâneo que deixa as suas personagens à mercê de uma ideia de distracção.

Mas o lugar ocupado por Reichardt no cinema americano não foi construído de forma fácil. À semelhança das suas personagens, o seu caminho não terá sido óbvio nos seus inícios, nem o seu lugar terá sido encontrado sem percorrer viagens prévias. Após o seu primeiro filme, "River of Grass" (1994), sentiu dificuldades em integrar uma indústria pouco dada a criadoras femininas, inclusivamente a sua esfera independente, assim como a projectos de suposta presunção política. Desapaixonada, levaria uma vida de constante deambulação pela paisagem americana, mudando de residência com frequência e sem estabelecer um rumo concreto, facto que não terá sido alheio àquela que foi a sua infância - viajava em longas viagens de carro com o pai (um investigador criminal que lhe ofereceu a sua primeira câmara), observando a paisagem do país pela sua janela.

Foi por altura da realização de "Ode" (1999), projecto experimental em Super 8 com três actores (e a música de Will Oldham, actor em "Old Joy" e "Wendy and Lucy"), que seguiu, sob a orientação do realizador Todd Haynes, o caminho que ainda define o seu presente: um equilíbrio entre o ensino e a realização, fora dos luxos e constrangimentos temporais dos estúdios. Hoje, divide-se entre a Universidade de Bard, no Estado de Nova Iorque, e a realização, mantendo um espírito de travessia na sua vida que se reflecte nas suas obras. As suas personagens encarnam, do mesmo modo, indivíduos encalhados entre a contraditória realidade política do seu país e as oportunidades que este oferece, sem assegurar, por outro lado, uma devida consequência nos riscos tomados na edificação dos seus caminhos.

O cinema de Reichardt surge, portanto, como o resultado de um estatuto privilegiado no cinema norte-americano, fruto de uma independência conquistada não sem o seu tempo e luta no panorama criativo do seu país. Seria o próprio Todd Haynes a sublinhar a importância do lugar que ela ocupa: "O facto de ser uma realizadora com tanto controlo sobre a sua visão particular, e por conseguir fazer filmes de forma bastante incondicional, sobretudo neste clima e mercado, não é nada menos do que miraculoso."

O caminho de Reichardt será então representativo de um cinema também resistente: um espírito independente que recusa a ideia de fabricação instantânea de uma indústria que tenta recriar uma estética e uma narrativa associada a uma ideia de cinema "indie", mas que privilegia, na verdade, a homogeneidade no teor dos filmes.

O universo de Reichardt revela-se, portanto, nas margens da tradicional produção norte-americana, opondo-se, na política e na indústria, a uma ausência de tempo e de reflexão na construção das imagens. Um caminho contra "os atalhos" de um cinema independente que parece favorecer, hoje, a uniformização dos seus costumes e do seu país. Observemos, então, o reencontrado caminho de Kelly Reichardt.
(As declarações de Kelly Reichardt foram retiradas de entrecistas dadas a MUBI, Village Voice, Sight & Sound, Washington Post)
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Francisco Valente, Público


ENTREVISTA À REALIZADORA

Quando decidiu que O ATALHO era uma história que queria contar?
Quando estive no Oregon a preparar Wendy & Lucy, tive a ideia súbita de fazer um filme que se passaria numa cidade deserta. Eu e o Jon tínhamos viajado com o Storm Tharp, um pintor que conhece muito bem a região. O deserto aqui é muito diferente dos do Arizona ou da Califórnia.

Mais tarde, estava já eu em plena montagem do Wendy & Lucy, o Jon envolveu-se num outro projecto e descobriu a história de Stephen Meek. Comentou comigo, fui até Portland e mergulhámos naquela época.

Esta é a sua terceira colaboração com Jon Raymond. Nos seus dois filmes anteriores, adaptou dois dos contos dele. Neste, ele é o único argumentista?
De facto, o argumento é uma criação do Jon: as personagens, as suas vozes... Não era evidente a entrada neste universo. Normalmente, tento planear a rodagem do filme ao mesmo tempo que adapto os contos dele aos argumentos. Pode dizer-se que, desta vez, ele não me facilitou a vida!

E os diálogos são de tal forma bem conseguidos que considero o trabalho do Jon como argumentista na linha de escrita da Waldo Salt School, onde o cerne do argumento reside fundamentalmente no exterior dos diálogos. O tempo e o espaço constituíam uma espécie de puzzle. No argumento, o dias sucediam-se, e o deserto era, a um tempo, monótono e cheio de surpresas. É difícil ser-se surpreendido quando temos um campo de visão de 20 km à nossa volta, seja qual for a direcção para onde se olhe. Essa foi uma das razões que me levaram a utilizar o formato de imagem 1:33: podia deter-me nos emigrantes sem revelar aquilo que estava à frente deles.

Quando escolheu esse formato, suspeitou que os críticos iriam vê-lo como uma declaração, uma posição?
Quando estamos no deserto debaixo de 45 graus, a opinião dos críticos não é a primeira coisa que nos passa pela cabeça. Em vez disso, perguntamo-nos: “Que barulho é este? Será daquela pedra à minha frente ou daquele arbusto mais além?”.

Durante a rodagem, pensei nas fotografias de Robert Adams, que são sobretudo de paisagens contemporâneas. Gosto da profundidade de campo que este formato permite e que não é possível obter em cinemascope. E também acho que as formas ovais das carroças e dos barretes sobressaíam com este formato. Foram razões práticas e estéticas que me fizeram optar por este formato.

Na história do cinema, associa-se, normalmente, os westerns ao cinemascope. Depois deste filme, acha que o formato 1:33 é mais natural e que o cinemascope é um meio mais artificial para contar uma história?
O formato rectangular das televisões não me convence. Adoro o 1:33. O Anthony Mann utilizava o 1:33 nos westerns. Acho que Cidade Abandonada de William Wellman também é em 1:33. Mas também é verdade que muitos westerns foram filmados em 2:35. Quando temos diante de nós uma paisagem tão vasta, imagino que se queira transcrevê-la em imagens. Mas também é possível mostrar a profundidade de uma cordilheira de montanhas num formato quadrado.

Como é que correu o trabalho com Chris Blauvelt, o seu director de fotografia?
Todos os realizadores procuram algo de muito preciso com o director de fotografia em função daquilo que se quer filmar. É bestial poder ter uma pessoa com quem se pode falar de aspectos técnicos e da abordagem artística, mas no caso de um filme de pequeno orçamento como é o meu, a minha preocupação era, antes de mais, ter alguém eficaz durante a rodagem. Eu não queria passar horas a escolher lentes ou a distância focal que íamos utilizar. O Chris estava lá para me apoiar. Ele tem uma energia transbordante e encontrou soluções para uma data de problemas. Para a dificuldade do terreno, por exemplo. Quando filmávamos as cenas de caminhada, a nossa câmara estava montada em cima de um buggy, e nós tentávamos acompanhar a caravana e os animais. Eu não queria utilizar a steadycam. Mas como o terreno era muito desnivelado, não conseguíamos andar a direito. O Chris pediu a ajuda de todos para abrir uma espécie de caminho e instalou carris de Dolly no meio do deserto! Assim, lá consegui olhar através da câmara e concentrar-me no trabalho dos actores.


A iluminação das cenas nocturnas foram um grande desafio. Queria que se tivesse a impressão de que a iluminação era feita através de candeeiros de petróleo e velas, para se ter noção da escuridão da noite e, ao mesmo tempo, ser possível distinguir tudo aquilo que, em determinadas cenas, estava em campo: as carroças, as tendas, os actores que atravessam o plano. O Chris conseguiu tudo isso utilizando um material muito leve.

É frequente dizer-se que um filme é a história da sua rodagem. O que se passa durante a rodagem transparece no ecrã. Este filme aborda, por exemplo, o papel das mulheres na expansão para o Oeste, e sublinha, por isso, a ausência das mulheres em filmes anteriores que trataram o mesmo período.
Talvez não tenha sido suficientemente clara com os actores acerca da forma como se desenrolaria a rodagem, ainda que o argumento do Jon fosse inequívoco quanto ao ponto de vista das mulheres. A primeira cena que filmámos foi aquela em que os homens encontram o Lago Alcalino. É um grande plano em que eles se viram de costas para a câmara. E eu passei o resto do dia a fazer planos aproximados das mulheres. Normalmente, espera-se que a câmara se foque na pessoa que está a falar. Em O ATALHO, são os homens que mais falam. Portanto sim, às vezes havia alguma tensão e isso reforçava a questão do poder, no ecrã e na rodagem.

Além disso, o deserto era, e é, um lugar difícil. Pode estar muito calor e muito frio no mesmo dia. Às vezes, perguntava-me como é que a equipa conseguia ter vontade de continuar. A assistente de câmara, Eliza, todos os dias me dizia: “Já não sinto dor continuamente”. Não era uma queixa,
dormíamos numa cama, ao contrário dos pioneiros que dormiam em carroças. É incrível o que eles suportaram.

Não chegamos a saber se o Stephen Meek é um homem um pouco louco e irrealista ou se é simplesmente mau. As equipas técnica e artística tinham alguma opinião acerca desta questão? A leitura dos diários dos pioneiros ajudou-a a obter uma resposta?
Os diários eram muito fáceis de ler. Tirámos imensa coisa deles. Permitiram-nos vislumbrar a vida destas pessoas, e é fascinante observar como a escrita se vai alterando à medida que a sua aventura vai avançando. Para a maioria deles, no início da viagem, quando saem do Missouri, os dias são alegres, as paisagens magníficas. O que escrevem é quase poético. Mas, à medida que avançam e que o cansaço se começa a fazer sentir, os diários dos homens tratam sobretudo de direcções – “atravessar quatro rios, passar dois passos de montanha” – e os das mulheres transformam-se em listas de tarefas – “fazer fogueira, desmontar a tenda, cozer o pão, alimentar os animais, caminhar”. O nosso filme vai ao encontro deles no início desse período. Eles caminharam durante meses, acabaram de chegar ao Oregon e vão perder-se.

No início da rodagem, os actores fizeram-me uma série de perguntas acerca das suas personagens: de onde é que vêm, quem são eles? Ao fim de duas semanas de rodagem, estavam de rastos. As perguntas eram agora mais do género “Como é que funciona esta espingarda?”. A semelhança com a atmosfera dos diários era impressionante. Até parecia o Nanouk, o Esquimó! Só tarefas, umas atrás das outras.


Não podemos deixar de perguntar se o filme é uma alegoria política a propósito da administração Bush.
Não queria tomar uma posição acerca disso. O Bush era presidente quando eu comecei o filme, e o Obama foi eleito quando eu estava na não tinha praticamente importância nenhuma, e dava-me a impressão de poder projectar os temas do filme fosse em que época fosse, talvez porque a história dos Estados Unidos tenha tendência a repetir-se.

É o seu segundo filme com a Michelle Williams. Como decorreu esta vossa segunda colaboração?
Em Wendy & Lucy, ela era a única actriz no ecrã na maior parte do filme. Neste, há nove actores, animais, e uma equipa técnica maior. Quando estávamos a filmar, ela ficava um pouco mais isolada. Lembro-me de, no segundo dia de rodagem, a Michelle me ter dito: “Isto não tem nada a ver com o Wendy & Lucy”. É necessário adaptarmo-nos a diferentes maneiras de trabalhar. Existe sempre a tendência de querermos reviver certas coisas que se passaram em rodagens anteriores, mas cada rodagem tem a sua própria vida. Antes de começarmos, a Michelle avisou-me logo: “Não vou tricotar. É melhor arranjares outra pessoa que o faça, porque eu detesto tricotar”. Umas semanas mais tarde, tinha-se tornado numa “tricotadora furiosa”. Adorava levantar os olhos e ver a Zoe e a Michelle sentadas, com os seus barretes, a tricotar onde quer que estivessem. E um pouco mais ao longe, a Shirley Henderson, também de barrete, a ler ou a tricotar.

O trabalho de som é impressionante. Como é que criou este som tão especial?
Na montagem, permito-me incorporar todos os sons que quero. Em Wendy & Lucy, só tínhamos dois microfones na rodagem. Neste filme, o engenheiro de som gravou várias pistas diferentes: os animais, as carroças... havia microfones por todo o lado. Na sala de montagem, quis encontrar um equilíbrio justo entre todos estes sons para sublinhar a calma e o silêncio.

Em relação à música do filme, eu sabia que queria instrumentos de sopro, porque eram esses os instrumentos, nomeadamente a flauta, que eles utilizavam. Mas sempre que ia a uma aula de ioga e ouvia flautas, entrava em pânico! Como separar a flauta daquele lado New-Age ? O Jeff Grace conseguiu-o distorcendo o som, e agora já nem é possível identificar os instrumentos.




Título Original: Meek's Cutoff
Realização: Kelly Reichardt
Argumento: Jonathan Raymond
Montagem: Kelly Reichardt
Fotografia: Chris Blauvelt
Música: Jeff Grace
Interpretação: Michelle Williams, Bruce Greenwood, Will Patton, Zoe Kazan, Paul Dano, Shirley Henderson
Origem: EUA
Ano: 2010
Duração: 104’

«Um filme de passagem», Canijo dixit. Kitsch, carne, Bustorff. E chega.

4ªf, Sede, 21h30, Entrada livre

SAPATOS PRETOS, João Canijo, Portugal, 1998, 97’


PRÉMIOS
Globos de Ouro, Portugal (1999) – Melhor Actriz (Ana Bustorff)

Há dias em que o céu é de cinzas, mas não neste Alentejo de João Canijo, onde uns olhos femininos «atropelam as almas», seja a do protagonista seja a do desprevenido espectador, e breve torna indistintos os planos do que está «em cima» e do que está «em baixo».

Sapatos Pretos reenvia-me para um outro filme que também se abismava em todas as violências de que são receptáculo as almas quando empreendem a meio caminho uma mudança que as toma uma fonte de querer e desejo inescapáveis e que usava de forma semelhante a cor como o reflector emocional capaz de confundir todos os liames entre céu e terra: chamava-se Querelle (Rainer Werner Fassbinder, 1982). Porque aquilo que primeiro atinge o espectador nesta terceira longa-metragem do autor de Filha da Mãe é o modo como aquele Alentejo de securas insolúveis, esbraseado por mil anos de esperas e pelo mutismo do mar, ganha uma exaltação barroca na paleta do olhar de João Canijo. Como se alguém raspasse com a unha uma fotografia de tons sépia e as cores voltassem num feixe a ser o que o eram: intensas, de uma luminosidade tão contagiante que perturba o próprio contorno das coisas. «Heat» podia ser outro nome para este filme onde tudo transpira «para cima» do corpo alheio até as suas propriedades estarem misturadas. Mesmo no feroz jogo dos contrastes cromáticos as cores sangram, reverberam umas sobre as outras.

Sapatos Pretos parte de um «fait-divers» (a mulher do ourives ambulante, cumpliciada com o amante, mata o marido abalando a pacatez alentejana) e rabia numa deriva que desliza o melodrama (o permanente conflito conjugal) para o «road movie», o «thriller», não se esquecendo de namorar o «western-spaghetti» (como bem assinalou Vasco Câmara, no «Público»): de facto, ironicamente, a chave deste filme está na deambulação que caracterizava o malogrado marido.

O ouro muda em prata, o cancro muda em operação estética, o emigrante «fixa-se» numa paixão funesta; os sapatos pretos, indícios do crime, transfiguram-se em arma de desejo; a alavanca das mudanças converte-se nos dois canos de caçadeira que servirá para o assassínio; e mesmo a paisagem vaza-se por inteiro nos olhos de Dali¬Ia, quando, nos espantosos grandes planos no retrovisor, o fundo é uma consequência do seu olhar. Nada é o que parece e por isso o fetichismo é uma das portas para se entrar neste filme. Mesmo os grandes planos das nádegas de Dalila representam algo maior: a sua chocante realidade material desenha a aura onde se convoca toda a carne do mundo, o irreparável efeito da sua desmesura e embriaguês sobre a fraca vontade dos homens. Mais uma vez se plasma aqui o que está,«em baixo» com o que está «em cima».

E evidentemente um filme não naturalista, que tangencia a realidade para se projectar numa abstracção crescente, com a sua linguagem, regras e leis próprias. Quem for à procura de fiabilidades e referências engana-se, como se enganavam os que no Camilo Castelo Branco buscavam uma ancoragem sociológica. Basta atentar no modo como a beleza cromática que «esmalta» o filme está ao serviço de uma «sujidade» crescente dos personagens ou como, pelo contrário, numa das melhores cenas do filme - a «nega» de Femando Luís ao seu irmão Pompeu - um assomo de claridade e nobreza nasce no meio de um cenário escavacado e sujo. Ou reparar no balanceamento rítmico dos nomes: Mar-co-lino, Da-li-la, Pom-peu.

Em Sapatos Pretos buscam-se os movimentos das almas e a sua estranha, imparável marcha quando algo as põe em movimento. Neste sentido, os únicos planos realistas do filme são os da operação que, afinal, encenam outra mentira de Dalila. Porque o que «está dentro» é o que «está fora» e todos os cenários - os da cidade velha ou das condutas de gás que cercam a urbe – são outros modos de nomear a moradia dos corpos, o seu eminente enlouquecimento, a irrealidade desse grão de voz onde o desejo se deixa apanhar («Eu não sou uma mulher fria, senhor tenente Pinto»). Um filme que não se esgota na sua evidente comunicabilidade e que apesar de às vezes parecer desenhado a traço grosso nunca se deixa ver em sombra chinesa, superando em muito todas as promessas que os anteriores filmes de Canijo prefiguravam.
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António Cabrita, Expresso, 10/4/98


ENTREVISTA AO REALIZADOR

Confirma-se um olhar invulgar - um cinema impuro; Canijo, hipótese de cineasta-pop - que já se evidenciava em filmes, hoje injustamente subvalorizados, como "Três Menos Eu" e "Filha da Mãe".

O que é que procurou nesta história verídica passada em Reguengos...
Procurei a mulher... a situação limite da mulher e o excesso da solução que ela encontrou. Percebia-se logo, nas notícias dos jornais, pela idade dela, pela transformação que ela tinha feito a si própria - de pacata senhora a mulher fatal -, que havia uma situação limite. A vida estava-lhe a fugir, era uma mulher na mudança de idade.

A pesquisa serviu-me fundamentalmente para conhecer as pessoas, para ter uma base sólida, real, para as situar, para saber até que ponto elas existiam assim. No fundo, essa mulher é um paradigma daquela coisa do Aristóteles: é mais estranha do que a realidade. A partir daí, o resto não me interessou. Adaptei a intriga, e a partir daquela senhora criei outra que não tem nada a ver com ela.

Tem consciência de que, tratando-se de pessoas "reais", se o que aparece no ecrã não tem nada a ver com elas, isso não impedirá um choque no confronto com as imagens? Sendo a história deles, não é a história deles...
Não me interessava fazer "Casos da Vida" da TVI. Nesse sentido, o filme tem tanto a ver com a história deles como é a versão portuguesa de "O Carteiro Toca sempre Duas Vezes".

Porquê Sines?
Se fosse para Reguengos ou para uma vila qualquer do interior do Alentejo, tinha forço¬samente que caracterizar o lugar. Tinha de perder tempo de ficção, espaço e energias. Escolhendo um lugar anónimo, suburbano embora não o sendo - Sines - não perdi tempo nenhum.

É um espaço abstracto...
Tanto pode ser Sines como a Rinchoa. Não mostro sequer o lugar. Mostro as luzes, vagamente.

A personagem principal dos seus filmes ¬"Três Menos Eu" (1988), "Filha da Mãe" (1990), "Sapatos Pretos" - é sempre uma mulher em turbulência. Rita Blanco nos dois anteriores, Ana Bustorff neste. Será uma casualidade...
...não é casual.


...se parecer a mesma mulher em progressão?
Absolutamente. Nos dois primeiros filmes, a personagem da Rita é a mesma; num caso mais abstracto, mais adolescente - até porque eu era mais adolescente; no outro, "Filha da Mãe", a Rita está muito bem, o filme é que é falhado. Houve excesso de confiança, muita parvoíce infantil. Aquilo era demasiado ambicioso, era a adaptação da "Electra", houve coisas que achei que podia dominar. A ideia era começar como comédia e acabar em tragédia e ficou uma salgalhada. Mas a partir daí as coisas para mim partem sempre das tragédias gregas - "Sapatos Pretos" não, mas o próximo sim. E mesmo que não parta, quando estou a escrever um argumento, estou sempre a relê-las. Nunca li a Bíblia, mas já li várias vezes todas as tragédias e histórias da mitologia grega.
Funciono muito em função das mulheres. A Rita era a musa inspiradora...

Nunca mais ninguém olhou para ela dessa maneira.
Também nunca mais tive alguém como a Rita. Era evidente que a Rita não poderia fazer a personagem de "Sapatos Pretos", portanto a Ana é uma substituição da Rita. E é – não querendo pessoalizar - a transposição da minha vida sentimental pós-Rita. O cinema não pode ser outra coisa, acho eu.

"Sapatos Pretos" acentua, em cores saturadas, algo que já vinha de trás: um olhar negro sobre a conjugalidade e a família. Depois da operação ao peito de Dalila [Ana Bustorff], o cancro parece invadir a casa, como se estivesse figurado através de um candeeiro.
Se calhar esse é o problema que me interessa. "Três Menos Eu" já era a história de uma menina que tentava libertar-se da família. A partir daí centrei-me, de facto, na conjugalidade. São as relações potencialmente mais violentas que alguém pode ter. Os filhos estão fora disso, os filhos tornam tudo o resto relativo, porque com eles não há problemas de posse e de fidelidade.

Filmou “Sapatos Pretos” em vídeo. Numa cena de “Três Menos Eu”, aparecia Paulo Rocha a falar do vídeo:” Qualquer coisa nova que não sabemos onde é que vai levar”...
Não é premonitório, é um “private joke”.

Sim, mas no filme seguinte, “Filha da Mãe”, a relação entre Rita Blanco e José Wilker evoluía tendo a pintura como cenário – o trabalho sobre a cor é uma constante; é um cineasta pop? Agora em “Sapatos Pretos” junta as duas coisas: pinta com o vídeo.
Eu não quero fazer a preto e branco, e para fazer a cores só posso fazer mesmo a cores. Não é para ser natural.

Comecei a experimentar com vídeo quando comecei a trabalhar para televisão e em algumas coisas pude fazer o que me apeteceu sem responsabilidade nenhuma. Fiz coisas que nunca me atreveria a fazer. Antes, tinha a mania que a câmara não se podia mexer, só se podia mexer à Jobn Ford, com uma justificação forte. Agora as coisas não são tão rígidas. Para o próximo filme, sei que a câmara vai mexer dramaticamente - ou seja, não arbitrariamente -, mas vou escrever as cenas de modo a que ela não pare. O cinema tende para a abstracção, não há outra maneira de o fazer. E um filme tende a ser fragmentos de uma ficção. O Pedro Costa dizia que lhe interessa mais o que está entre os planos, o que não se vê, do que o que está nos planos. Concordo absolutamente - e os meus filmes não têm nada a ver com os do Pedro Costa -, e há duas maneiras de chegar a esses fragmentos: através daqueles murros terríveis do Costa que deixam o espectador de pantanas, que depois tem tempo para recuperar e levar o seguinte quando menos espera; e através do "kickboxing": não dar ao espectador tempo para nada.


É o que quis fazer com "Sapatos Pretos''?
É o que fazem o Cassavetes em "A Morte de Um Apostador Chinês" e o Wong Karwai. É aí que quero chegar, "Sapatos Pretos" ainda é um esboço. A câmara à mão foi uma defesa para tentar fazer uma coisa que não tinha a certeza de ser capaz de fazer. Porque com a câmara à mão eu sabia que existiria sempre pulsão.

Como é que aparece o vídeo?
Em termos de ficção televisiva, fiz o equivalente a 12 longas-metragens em vídeo, o que é muito. Por contingências de produção de "Sapatos Pretos", o Paulo Branco [produtor] propôs-me que filmasse em vídeo, já que conhecia os dinamarqueses da Zentropa [empresa de Lars Von Trier], e que depois se passava para 35 mm. A minha primeira reacção foi: "Não." Quinze segundos depois, foi: "Sim." Antes disso, eu sabia que queria fazer câmara à mão, queria fazer sujo. O vídeo era isso mesmo e houve uma altura em que eu queria que se vissem o grão e as linhas. Com o conhecimento do processo técnico, percebemos que se fizéssemos as coisas de forma normal quase não se notaria que era vídeo; sem o contraste e a saturação das cores ao limite, não se notaria nunca que era vídeo. Como testámos e verificámos que a passagem a película aguentava tudo o que quiséssemos - que, por exemplo, e ao contrário dos nossos receios, o preto não ficava cinzento -, a partir de então já não era necessário evidenciar o grão e as linhas, a cor podia explodir por todos os lados.

Este filme é vídeo, é cinema e é teatro - "Filha da Mãe" era teatro. O período de oito anos que se seguiu à sua anterior longa-metragem, e em que encenou peças com regularidade, não foi então apenas uma procura de alternativas à impossibilidade de filmar. O teatro está, afinal, no centro do seu cinema.
Dizem que as peças que faço são cinematográficas. O que me interessa numa coisa e noutra são as relações entre as personagens, que para mim passam pela marcação, pela "mise-en-scene". Sempre foi a marcação que levou a câmara; e sempre foi a marcação no palco que estabeleceu as relações de olhares entre os actores e entre espectadores e palco. E sempre procurei criar marcações que fossem dramáticas à partida; actores pouco precisavam de fazer, bastavam existir, para a relações entre eles serem muito fortes.

A teatralidade dos seus filmes passa também pela exibição do artifício da cenografia, dos figurinos, como propostas de cenários.
Isso é mais forte nos filmes do que no teatro. No teatro não existe. No teatro, os "décors" são completamente normais. São bons ou maus - gosto muito, por exemplo, do cenário de "Jogos de Praia" (1987) e de "Confissão ao Luar", de Eugene O'Neill (1995), a coisa melhor que fiz até este filme e que ninguém viu.

O seu cinema é impuro, mistura naturezas diferentes. Não se distingue o erudito do popular. Fala em tragédia grega, fala em Aristóteles, mas em "Sapatos Pretos" o que está é a televisão e a música "pimba".
Nada tem que aparecer como referência. Sempre me preocupou a concretização das personagens e do seu ambiente - e nisso ajuda-me muito o Pierre Hodgson, que é inglês, que escreveu comigo "Sapatos Pretos" e "O Curioso Impertinente", um excelente argumento que nunca foi feito, no qual perdemos três anos de vida e de paixão. E é o que gosto nos filmes americanos: em três pinceladas está a situação dada e estão as personagens caracterizadas. A partir do momento em que se tem a situação concreta, entendível pode-se brincar, tornar o concreto abstracto.

Um filme como gesto, traço, intuitivo.
Para poder ser abstracto e transmitir pulsões, tem que haver uma base muito concreta, senão fica tudo no ar, deixa de haver sensações. Podia fazer a cena do baile em "Sapatos Pretos" com os Xutos e Pontapés a tocar, ou com os Madredeus, ou com o Pedro Abrunhosa. Seria verdade alguma vez? Não, e obrigava-me a ser artista. Eu não quero ser artista. Não estou a fazer arte, estou a fazer um filme, algo que, como uma canção, transmite emoções imediatas; depois pode transmitir outras coisas, mas essas não tenho que as mostrar à evidência. O que tenho de mostrar à evidência são as sensações. Na tragédia grega, está lá tudo em bruto. É por isso que recorro à tragédia grega. Para não me enganar. As histórias foram todas contadas lá. Depois houve um senhor que contou as que faltavam, o Shakespeare. O resto é repetição.


Há um turbilhão apocalíptico em "Sapatos Pretos"; os ecrãs de televisão, a música...
Era essa a ideia... A televisão e as imagens interessam-me muito porque vivemos dominados por elas. Será horrível mas é assim. Os filmes de época têm uma lareira; agora temos a televisão. Em relação à música, sou surdo. Mas ao mesmo tempo escrevo com canções, com música. E oiço as coisas mais estranhas, desde que tenham uma pulsão, um batimento, que não me distraia muito. Com o Alexandre [Soares, autor da música do filme], foi um entendimento à primeira vista: eu sabia o que é que queria, mas não sabia como explicar. E ele explicou-me: não se pontua dramaticamente cada momento; mantém-se uma tensão permanente por baixo.

Como é que essa pulsão - musical - trabalha os diálogos e as vozes dos actores? Ana Bustorff mantém uma distância em relação à personagem, como se estivesse a vê-la.
Isso vem do treino do teatro: a relação do texto com o actor que o vai dizer. Um diálogo não pode ser naturalista; tem de ser elaborado literariamente parecendo que é naturalista. Portanto, funciona por rimas e por imagens. Tento sempre defender a interpretação dando diálogos muito estruturados. Depois, depende do actor. Não quer dizer que o siga vírgula a vírgula. Se trocar tudo, mas disser aquilo que quero, ou se a rima dele é melhor, tudo bem. O Vítor Norte, por exemplo, nunca diz o que foi escrito; nunca se sabe o que é que ele vai dizer. Mesmo quando os diálogos são escritos com ele - geralmente no cinema os ensaios são leituras em que troco diálogo com cada um dos actores.

Escreveu a pensar em Ana Bustorff?
A última versão sim. É uma mulher grande e forte, um excesso. Entrega-se de forma alucinada. Se a Rita Blanco é um Paganini, uma cantora de "lied" virtuosíssima, de "lieder" delicados - podendo chegar aos agudos e à histeria - a Ana é uma diva da ópera, daquelas óperas pesadas do Wagner. Só pode cantar coisas extremas, nunca é subtil, é sempre excessiva.

A Dalila é uma mulher na mudança de idade, está a perder a juventude, mas ainda é uma mulher apetitosa Numa história destas, em que se transcende o abstracto para o hiper-realismo e onde o tema central é o sexo, o sexo só podia ser cru e duro. O único cuidado que tive foi nunca fazer estético, plástico. Tudo menos o "Crash" [David Cronenberg], em que havia estátuas, pinturas, estava tudo composto. Quis ao contrário, horrível, sujo, cru.

No seu primeiro filme, via-se um cartaz de 'Francisca" ...
Isso era uma homenagem ao senhor Manoel de Oliveira.

Como em relação ao trabalho com materiais díspares, a cinefilia parece ser mais uma pulsão interior, menos uma consciência.
Completamente. Mas devo dizer que só com este filme é que me livrei da sombra do senhor Manoel de Oliveira. Tinha exigências para mim próprio sobre o rigor do enquadramento e o rigor das posições dentro do enquadramento que eram estudadas até ao milímetro – ficou-me da experiência de rodagem com o Oliveira, sobretudo "Soulier de Satin". Agora estou-me um bocado a borrifar.

A minha grande formação foram Oliveira e Wim Wenders. Com Wenders, era o improviso. No "Estado das Coisas", ele tinha três ou quatro linhas, a partir dela uma ideia de plano e depois metia os actores dentro do plano. Oliveira é o contrário: está tudo super definido desde o princípio e não há o mínimo de improviso. Mas a direcção de olhares que o senhor Oliveira marcava era fundamental para a cena existir. Era extremamente rigorosa - chegavam a ser espetados preguinhos na parede - e fazia com que houvesse uma separação entre o texto e o corpo do actor. As coisas assim ganham outra dimensão.

A cinefilia... esqueço-me muito dos filmes, mas ficam cá as coisas. Vi tudo do Ford e do Renoir. Depois esqueci. Agora não tenho paciência para os filmes americanos normais. Ainda vou ver quando metem porrada. E vou ver coisas que me cheiram. Cheirava-me que ia gostar do [Takeshi] Kitano ["Fogo-de-Artificio"], não tinha visto nada dele e neste momento é uma das minhas referências. Tem a ver com uma coisa que me interessa muito: a violência - o Wong Kar-wai também passa por aí. E um murro violentíssimo e depois pára, e depois há outro mu¬ro. Fascina-me a pureza daquela sobriedade. Cinefilia... conheço tudo, mas não quero andar a mostrar que conheço.

Fala em projectos... o seu primeiro filme estreou-se em 1988, dois anos depois a sua carreira parecia estar acabada. Oito anos depois voltou.
São oito anos muito bem contados.

Tem consciência de que há uma geração de espectadores em Portugal para quem João Canijo é nome sem obra? Os seus filmes não são visíveis - não estão na mostra de Cinema Português Contemporâneo a decorrer em Lisboa, por exempIo - e raramente há discurso sobre eles em textos sobre cinema português.
E eu que já existi internacionalmente...

O que é que aconteceu?
A culpa é minha. Juntou-se a fome à vontade de comer: João Canijo e Rita Blanco, um casal que se tornou insuportável para toda a gente. Éramos arrogantes, tínhamos a mania que dominávamos o mundo, não dávamos uma entrevista a sério, só dizíamos parvoíces. Criámos uma imagem antipática.

Isso explica a ausência?
São anos que correspondem também ao consulado Santana Lopes [como secretário de Estado da Cultura] e Zita Seabra [como presidente do IPACA]. Eu era mais fácil de eliminar do que os outros. A Zita Seabra achou que eu era reeducável e quis mandar-me para a América estudar argumento.


Não terá a ver também com o facto de o seu cinema cruzar de forma oblíqua...
Marginal.

Não tanto marginal, porque não corre ao lado. Cruza, não se misturando, não se fixando.
Não tenho família de cineastas portugueses. Reconheço-me no Costa - "Ossos" é absolutamente extraordinário – e não tenho nada a ver com o Costa; como na altura de "Três Menos Eu" me reconhecia no "Bobo" [José Álvaro Morais]; e como me reconheço na "Comédia de Deus" [João César Monteiro]. No quadro "As Meninas" do Velásquez, aparece um gajo ao fundo, na porta; se ele estivesse a gritar cá para dentro um grande palavrão, essa seria a imagem do cinema que eu gostaria de fazer: exigência de rigor formal – a sombra do senhor Oliveira -, mas dentro disso algo de dramaticamente chocante, vivo, para lhe dar outra dimensão.

Que projecto é "O Curioso Impertinente"?
É um projecto caríssimo, custa à volta de 500 mil contos. É a adaptação de uma novela do Cervantes que está no "D. Quixote", é a história de um senhor que quer ter a certeza do amor. É um pequeno D. Juan que se apaixona todos os dias, é uma necessidade que ele tem, mas um dia apaixona-se de maneira diferente e casa. E diz ao amigo que tem a certeza de que poderia amar muito mais se tivesse a certeza do amor da mulher e não tem porque o amor dela nunca foi posto à prova. Ele quer ter a certeza daquilo que é impossível ter: a certeza do amor. Passa-se no Porto, a única cidade que conheço em Portugal onde esses sentimentos podem existir. É uma cidade que nem é província nem é cidade. Todos os meus amigos do Porto são muito mais excessivos, nos gostos e nos ódios. Dizemos tudo da boca para fora; somos facilmente odiáveis. E sempre muito apaixonados.

"Sapatos Pretos" é a hipótese de renascimento?
Ainda está para se ver. Sei que é o melhor filme que fiz, não sei se isso será reconhecido e se posso dizer que a minha carreira recomeçou. Tenho muito medo que isso não seja verdade.

Próximo projecto...
Agora sei o que quero fazer em cinema. Por isso não posso fazer já o "Curioso Impertinente", não é uma história que entre na maneira como quero fazer filmes agora. É uma coisa para daqui a dez anos, e vou fazê-la porque é completamente autobiográfica: nasceu quando descobri que a personagem do Cervantes era eu. Mas agora quero pegar no que fiz em "Sapatos Pretos", tirar-lhe a câmara à mão e fazer uma coisa ainda mais violenta, mais fragmentada, que não pare e que se mantenha sempre lá em cima. Sem respiração. É a história de uma senhora, 35, 36 anos, emigrante em França há 20, que trabalha numa daquelas empresas que limpam escritórios; já é chefe de brigada, animadora da comunidade emigrante. Tem uma vida aparentemente feliz com o marido, taxista. De repente aparece uma paixão funesta, ela cai em desgraça e descobre na desgraça que a vida real é aquela e não a outra. E no fim, como a paixão funesta tem uma culpa, ela sacrifica-se para pagar a culpa dele. Implica um trabalho de investigação da vida dos emigrantes, um trabalho muito concreto para aquelas pessoas poderem existir e eu não ter que as mostrar tanto. É por isso que gosto tanto de "Ossos": mostrando imensamente aquelas pessoas, o Costa não as mostra.

Qual é o olhar que têm sobre si os seus colegas cineastas?
Sempre achei que era benevolente no mau sentido.
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Vasco Câmara, Público, 10/4/98




Realização: João Canijo
Argumento: João Canijo e Pierre Hodgson
Fotografia: Mário Castanheira
Montagem: Rudolfo Wedeles
Música: Alexandre Soares
Interpretação: Ana Bustorff, Vítor Norte, João Reis, Teresa Madruga, Adriano Luz, Márcia Breia, Fernando Luís
Origem: Portugal
Ano: 1998
Duração: 97’

Um dos grandes filmes do ano: o MONUMENTO "AUTOBIOGRAFIA DE NICOLAE CEAUSESCU" é 2ªf, 21h30, IPJ.


Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€


O filme de Andrei Ujica é uma lição superior sobre o poder das imagens, uma verdadeira "master class" de montagem e realização e uma aula de história a que é urgente assistir. Por onde quer que se veja, "A Autobiografia de Nicolae Ceausescu" é um monumento.
Jorge Mourinha, Ipsilon




Ultimo capítulo de uma trilogia de documentários sobre a queda do comunismo que teve em "Videogramme einer Revolution" (correalizado em 1992 com Harun Farocki) e em "Out of the Present" (1999) os seus primeiros momentos, o novo filme de Ujica começa e acaba exatamente no mesmo ponto: com imagens do julgamento sumário ao qual Ceausescu foi submetido no final de 1989. Entre o princípio e o fim, e ao longo de três horas de filme, há uma tentativa de reconstituir - em jeito de imenso flashback histórico-psicológico - uma possível memória do ditador sobre as principais etapas da sua carreira política (de 1967, com a sua chegada ao poder após a morte de Gheorghe Gheorghiu-Dej, até 1989, com a derrocada do regime comunista na Roménia, passando pelos seus encontros com uma miríade de chefes de Estado).

Pois bem: para tentar coincidir com o ponto de vista que Ceausescu poderia ter tido sobre si mesmo nos últimos dias da sua vida (é a ficção a invadir o documentário), e levando às últimas consequências o método de trabalho que empregara já nos seus filmes anteriores, Ujica socorrer-se-á aqui, exclusivamente, das cerca de mil horas de imagens de época (e, sobretudo, das imagens de propaganda do regime) que conseguiu resgatar aos arquivos da televisão e do cinema romenos. E, por 'exclusivamente', entenda-se: sem narração em off, sem intertítulos e evitando, por inerência, a contextualização verbal, indireta, dos acontecimentos históricos retratados, numa tentativa de acentuar a força expressiva das imagens e de não atraiçoar o olhar do ditador sobre a sua própria biografia.

Trata-se, neste quadro, de uma recusa de artifícios narrativos que, por um lado, permite que a história contemporânea apareça, sobretudo, como a história das imagens que produz e que, por outro, convida a montagem a assumir, por si só, a função de veicular um ponto de vista. De facto, como Ujica esclarece na entrevista que nos concedeu, aqui, a montagem desempenha um duplo papel: o de destruir as relações de sentido estabelecidas por um material previamente existente (as imagens de arquivo) e o de construir, pela 'remontagem' das imagens 'desmontadas', uma nova lógica de sentido. Ora, é através deste colossal exercício de montagem de uma banda imagem e de uma banda som que vai emergindo, lenta e organicamente, a perspetiva crítica do cineasta sobre o seu objeto de estudo. Por exemplo: depois de nos obrigar a assistir a um discurso de Ceausescu sobre a inutilidade do simbolismo em política, Ujica mostra-nos, com uma ironia subtil, como o poder do ditador se apoiou no uso intensivo que fez dos símbolos pois aquilo que em seguida vemos são imagens de um gigantesco desfile popular, onde os retratos de Ceausescu se deixam venerar pelas massas.

O poder, da era da reprodutibilidade técnica da obra de arte até à era do vídeo, do digital e do YouTube (que é a de um olhar panóptico fomentado pela desmultiplicação ao infinito dos suportes de registo do real), tornou-se indissociável das imagens que produz. Ter a ousadia de virar as imagens forjadas pelo poder contra si mesmas, dando-lhes a possibilidade de desmestirem - com os meios do cinema, os nexos de sentido que o poder lhes quis imputar ... aí reside toda a força de uma obra que acredita, como poucas, nas infinitas potencialidades da sua matéria-prima.
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Vasco Baptista Marques, Expresso


A chave para “Autobiografia de Nicolae Ceausescu” é a palavra autobiografia. A extraordinariamente poderosa montagem feita a partir de imagens de arquivo não é um testemunho dos terríveis crimes do ditador, mas antes uma inteligente manipulação da própria propaganda de Ceausescu utilizada para transmitir a sua devastadora crítica, não só à sociedade romena, mas também ao sistema político internacional: todos permitimos que isto acontecesse.

O documentário de Ujică, que conquistou compreensivelmente os estatutos de culto e de obra polémica na Roménia, exige muito do espectador. As figuras histórias apresentadas permanecem por identificar e não existem dobragens ou explicações textuais que possam interferir com a neutralidade das imagens. Também não são apresentadas datas, embora o filme nem sempre siga uma sequência cronológica. O documentário inicia-se e termina da mesma forma: exibindo as cenas do, bem conhecido, julgamento de Ceausescu e da mulher Elena, pouco antes das suas execuções em Dezembro de 1989. Da cena inicial, em que o casal é filmado com uma aparência frágil e debilitada durante o seu julgamento, Ujică e o seu editor passam para 1965 com a morte do presidente romeno Georghes Gheorghiu-Dej, quando Causescu assume a liderança da Roménia. Seguem-se cenas que mostram a Roménia da época, um lugar aberto à influência externa: homens e mulheres sofisticados (que não teriam destoado se fizessem parte de uma cidade da Europa Ocidental) são mostrados em festas ou a caminhar nas ruas. São também mostradas lojas com grande variedade de bens de consumo e fábricas a trabalharem a um ritmo acelerado. Tudo isto advém, naturalmente de imagens oficiais de arquivo, cuidadosamente recolhidas de forma a fazer a Roménia parecer um país moderno. No entanto, quando comparadas com imagens posteriores (recolhidas após a tomada de poder de Ceausescu) o cenário parece muito mais pobre e contido, mesmo tratando-se de imagens de propaganda. Ujică inclui uma serie de excertos de discursos de Ceausescu, tornando fascinante para o espectador a possibilidade de acompanhar a sua sucessiva desagregação. Os poderosos – embora extremamente previsíveis – discursos iniciais do ditador, vão sendo substituídos por expressões como “socialismo”, “trabalhadores” e “materialismo dialéctico”, como se de mero paliativo se tratassem, sem qualquer sentido ou significado oculto. Claro que a situação é precisamente a oposta e Ceausescu usava mão de ferro para controlar os cidadãos romenos, enquanto simultaneamente discursava, acerca da boa vontade entre os Homens. Esta compreensão do passado histórico romeno devia ser um pré-requisito para assistir ao filme, embora não seja essencial que todos os espectadores fora da Roménia reconheçam o ditador, ou os aduladores do regime. O importante é que a audiência seja capaz de identificar Richard Nixon, Charles de Gaulle, Imelda Marcos, Mão Tse-Tung e uma serie de outros líderes que, embora soubessem da repressão na Roménia, continuaram a apoiar Ceausescu. Neste aspecto, o filme de Ujică apresenta um olhar particularmente condenador à superficialidade diplomática, que em muitas ocasiões ajuda a esconder a tirania (assistir aos elogios que Jimmy Carter tece à politica de Ceausescu é, particularmente, perturbador). O realizador não poupa também o seu povo, apresentando a Roménia sob um olhar igualmente crítico, insinuando subtil mas devastadoramente que a monomania crescente de Ceausescu (alimentada, em grande parte, pelas homenagens que lhe foram prestadas pela China e Coreia do Norte) foi sendo sustentada pelo frenesi da população que assistia aos seus discursos. Desta forma, o que começa por ser um “vejam por aquilo que passámos” transforma-se num “vejam aquilo que permitimos” com o realizador a apresentar o povo romeno como passivo e complacente face à ambição desmesurada de um homem por poder. As imagens oscilam entre segmentos a cores e a preto e branco, com alguns planos que parecem ter sido pensados para o grande ecrã. Nas cenas sem som, Ujică opta por conservá-las silenciosas (mantendo somente o som magnético e empoeirado da película no background), ou por ampliar a essência do filme (acrescentando o som de passos ou dos aplausos da multidão). A escolha irónica da banda sonora (“I Fought the Law”, por exemplo) consagra um comentário tão poderoso como a sua perspicaz edição.
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Jay Weissberg, Variety


Com ditadores, tudo tem frequentemente tendência a ser uma questão de escalas e ordens de grandeza. Uma das coisas fascinantes de "Autobiografia de Nicolae Ceausescu" tem a ver com esta evolução rumo à total desproporção. Quer dizer: nas imagens dos primeiros tempos de Ceausescu como máximo dirigente do regime romeno ainda existe alguma realidade palpável, ainda podemos acreditar que está ali um homem como os outros rodeado de pessoas como as outras - ou seja, ainda não há "monstruosidade". E depois, compare-se isso com aquela alucinante sequência, já do final dos anos 80, quando tudo começava a ruir, e há um congresso em que um desgraçado (não sabemos quem era, se calhar nem era desgraçado nenhum) resolve criticar Ceausescu e apresentar-se como alternativa a ele; pois bem, tudo, nessa sequência (do gigantismo do auditório ao comportamento da plateia, como se fossem todos "clones" uns dos outros) representa já um mundo distorcido, que dispensa o próprio ditador (nesse momento, a presença de Ceausescu é "virtual") mas não se dispensa de ser o seu reflexo, o seu escudo, não se dispensa de ser um mundo refeito e redimensionado em exclusiva função dos desejos daquele que o conduz. Não era nisto que Bazin e Godard pensavam naquela frase que abre "Le Mépris" (e que falava disto: de um mundo substituído por um desejo para o mundo), mas é inevitável pensar que, por todas as razões e mais alguma, este filme também se podia chamar "O Cinema de Nicolae Ceausescu".

Este exercício de recomposição dos 24 anos do poder de Ceausescu é uma coisa notabilíssima. É denso, é cruel, é irónico, é complexo por detrás de uma aparência de simplicidade sem deixar de ser simples para além de toda a sua aparente complexidade. Ou seja, tanto é um trabalho prático de compilação de documentação (encontrada em milhares de horas de "footage" oficial do regime romeno), como um tratado, dir-se-ia entre a antropologia e a psicologia, sobre este ditador (e não outro qualquer), como ainda uma reflexão téorica sobre o poder e as imagens do poder (porque em certos pontos tudo se encontra, e Ceausescu não é totalmente diverso de outros ditadores de esquerda ou direita, nem mesmo de alguns "democratas"...). Na sua progressivamente alucinada mundanidade (seja perante a Rainha de Inglaterra seja com os operários de uma fábrica), o Ceausescu desta "autobiografia" parece a versão documental do Adenoyd Hinkel de Chaplin (no "Grande Ditador"). Mas, pela estrutura em "flash-back" lançada nos que seriam (sabemos nós, ele talvez não) os últimos momentos da sua vida (o surreal "tribunal popular" que o julgou a ele à sua mulher), pensa-se noutro cidadão que teve o mundo a seus pés, o Charles Foster Kane de Orson Welles. Mas não há "rosebud" nenhum, e Ujica nem sequer monta as (celebérrimas) imagens dos cadáveres do casal Ceausescu: o ditador chega vivo ao fim do filme, mas a sua humanidade, essa, desaparecera muitas imagens antes.
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Luís Miguel Oliveira, Ípsilon



ENTREVISTA A ANDREI UJICĂ

Andrei Ujica, 60 anos, nasceu na Roménia, mas desde o princípio dos anos 80 que estabeleceu a sua base profissional na Alemanha. Foi aí que começou a realizar filmes, no princípio dos anos 90. "Videograms of a Revolution" , feito em 1992 em colaboração com Harun Farocki, e centrado nas transformações políticas do Leste europeu, tornou-se um pequeno "clássico" do cinema de análise político-mediático. A monumental "Autobiografia de Nicolae Ceausescu" que agora chega a Portugal, inteiramente construída sobre imagens de arquivo produzidas pelo regime do "conducator", é ao mesmo tempo um filme histórico - a crónica de um "statu quo" entre a ascensão ao poder de Ceausescu e as quase burlescas imagens do seu julgamento em tribunal popular, em 1989 - e um melodrama psicológico, como se, nos seus instantes finais, Ceausescu revisse a sua vida, e a apre-sentasse em apologia. Em conversa telefónica, Andrei Ujica ajuda-nos a compreender a natureza das imagens com que trabalhou, e o lugar que Ceausescu - "como um pequeno Robert Mitchum" - habitou dentro delas.

Existe muito material filmado com Ceausescu? Mergulhar nele deve ter sido uma tarefa hercúlea...
Existem milhares de horas. É um material que está dividido por dois arquivos: num estão sobretudo as imagens filmadas para cinema, noutro as imagens para televisão. Para complicar as coisas, é um material que na sua maioria não está indexado, não existe um catálogo.

Como se processou, então, a sua pesquisa para esta «Autobiografia"?
Trabalhei com dois investigadores, que encarreguei de fazerem uma primeira triagem. Dei-lhes indicações tão rigorosas quanto possível para que soubessem exactamente o que procurar, nomeadamente uma lista cronológica detalhada dos acontecimentos mais importantes na vida política de Ceausescu.

Feita essa triagem, trabalhou directamente com quantas horas de filme?
260 horas.

E quando se atirou a essas 260 horas, já tinha uma ideia precisa do filme que ia fazer ou foi descobrindo ao longo do trabalho?
Mais ou menos. Tinha uma ideia da estrutura e tinha o título. Sou daqueles cineastas que têm que começar pelo título... A ideia principal era a estrutura em "flashback", como numa narrativa clássica. Pegar nas imagens de Ceausescu durante o julgamento no tribunal popular, e fazer entrar um retorno temporal. Que funciona como uma espécie de tempo psicológico, como se não se passasse mais do que uma meia dúzia de segundos, mas durante esse tempo toda a vida de Ceausescu lhe desfilasse perante os olhos.

Um dos aspectos decisivos do filme é a total ausência de «pistas" para o espectador. Nem voz «off" , nem intertítuIos explicativos, o espectador é atirado para o mundo de Ceausescu por sua conta e risco.
É verdade. A questão da narração "off" era fundamental. Quando comecei a trabalhar na montagem tinha algumas dúvidas; uma delas era saber se o filme se aguentava sem voz "off". Depois de ter os primeiros 20 minutos montados, examinei-os cuidadosamente: se sentisse que aquilo precisava de ter uma narração por cima, teria liminarmente desistido de todo o projecto. Para a questão dos intertítulos era mais flexível. Na verdade, no principio do trabalho estava convencido de que, mesmo pretendendo construir uma narrativa do modo mais directo possível, seria necessário incluir algumas legendas a contextualizar esta ou aquela situação. Mas fui percebendo que a força da narrativa as dispensava, e que as imagens não pediam esse tipo de explicação.

Talvez não seja realmente importante saber isto para perceber o filme, mas é uma pergunta que surge durante o visionamento: qual foi o destino original destas imagens? Foram filmadas para quê, foram vistas como?
Na sua maior parte, foram filmadas por um estúdio que tinha a incumbência de produzir documentários sobre a vida oficial da Roménia. Propaganda de estado, basicamente, segundo um modelo decalcado do que acontecia na URSS. Estavam sempre presente em tudo o que era cerimónia protocolar ou acontecimento oficial. Mas é preciso dizer que Ceausescu gostava de ser filmado, tinha um prazer pessoal nisso. Normalmente, era filmado durante uma hora por dia. Agora faça as contas: uma hora por dia durante 20 e tal anos... Dá qualquer coisa próxima das 9.000, dez mil horas... E para além dos documentários havia a televisão, que também o seguia para todo o lado. É curioso que há muito material "duplicado", muitos acontecimentos que foram filma¬dos, com ligeiras diferenças, pela equipa da televisão e pela equipa do cinema. Depois as imagens eram vistas, essencialmente, de duas maneiras: ou na televisão, onde Ceausescu falava todos os dias, numa espécie de programa de crónica política, ou no cinema, nos "newsreels" que tradicionalmente antecediam a projecção de uma longa-metragem de ficção. Mas atenção que boa parte do que era filmado nunca chegava a ser visto, nem sequer montado. Na "Autobiografia" incluí alguns destes "rushes" , que nem sequer tinham som.

Obviamente, o cinema, e a imagem em geral, foi importante para o regime de Ceausescu. Mas, e não sei se será uma ideia errada, esta não parece uma propaganda especialmente sofisticada, se levarmos em conta o que conhecemos de outras ditaduras célebres, comunistas ou de outro género...
Não, não era muito sofisticada... No entanto, o filme deixa de fora a maior parte da propaganda mais espectacular; praticamente só vemos a propaganda quotidiana, muito simples. Mas também é verdade que essas tentativas de encenar grandes acontecimentos de propaganda foram sempre um fracasso. Ceausescu tentou, é certo, copiar os exemplos célebres, mas aquilo nunca resultou muito bem. Nesse género, Kim Il-Sung é que foi imbatível: para mim, ele foi o perfeito "link" entre Leni Riefenstahl, o "pro-letkult" estalinista, e os musicais da Hollywood dos "forties"...

E para além de, como disse, "gostar de ser filmado", que importância e que empenho conferia Ceausescu a esta propaganda filmada?
Por natureza, e não apenas porque os tempos eram outros, Ceausescu não era uma pessoa obcecada com os media. Não era uma "figura mediática" no sentido moderno do termo. Penso que ele acreditava sinceramente na necessidade de construir uma memória histórica, e essa era a importância maior que dava a esta incessante cobertura das suas palavras e das suas deslocações. Não distinguia entre a vida oficial e a vida privada, para ele era tudo o mesmo, e de tudo era importante guardar memória histórica. Havia uma crença ideológica muito simples: cada qual deve fazer o seu trabalho. Para Ceausescu, tudo isto fazia parte do seu trabalho. E ele desempenhou-o, pelo menos ao princípio, de forma muito minimalista, como um pequeno Robert Mitchum. Ceausescu era um profissional, e comportava-se como um profissional.

E tinha a noção de que ser um actor, desempenhar um papel, era uma das suas atribuições profissionais?
Perfeitamente. Julgo que para ele era perfeitamente claro que o seu trabalho era um trabalho de actor. Tinha um papel a desempenhar, um papel ideológico. Fazia-o convictamente, porque acreditava mesmo nesse papel e na ideologia que ele representava. É isso que lhe dá uma dimensão shakespeareana. Ceausescu, de certa maneira, foi uma vítima da sua crença, não foi certamente um oportunista como muitos outros dirigentes do Bloco de Leste. Era um tipo sério, genuinamente convicto e compenetrado no seu papel. Austero e minimalista. Como esse grande actor Robert Mitchum. Uma vez perguntaram a Mitchum por "estilos de representação" e ele respondeu que só conhecia dois: "com cavalo e sem cavalo" . Ceausescu diria. o mesmo: ou há cavalo ou não há cavalo.
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Luís Miguel Oliveira, Ípsilon


Argumento e realização: Andrei Ujică
Edição e Som: Dana Bunescu
Fotografia: Vivi Dragan Vasile Rsc
Pesquisa: Titus Muntean
Produção: Velvet Moraru
Origem: Roménia | Alemanha
Ano: 2010
Duração: 180’

GANHAR A VIDA - espantosa Rita Blanco, espantoso João Canijo.

4ªf, 21h30, Sede, Entrada Livre.

(bela maneira de comemorar a proclamação da República!)

Três anos após Sapatos Pretos, João Canijo está de volta. Depois do Alentejo e de um "fait-divers" criminal, o cineasta volve os olhos para a distância de Paris.

Não Paris como a vemos quando vamos de visita, mas aquele lado que nunca encontramos e que só sabemos de ouvir dizer: Paris segunda cidade portuguesa, em bairros de habitação social, Paris de emigrantes em vida áspera e ensimesmada, fazendo os possíveis por não serem notados, deslizando no interior da sociedade francesa com um sentimento de gratidão por os deixarem lá permanecer, tendo a sensação aguda de ali não ser o seu lugar. Um outro Portugal, ausente, de que nos apercebemos em Agosto, pelas aldeias, ou no rigor das estatísticas. De lá quase não há notícias, que eles fazem os possíveis por as não justificar, e portanto também não há histórias. No cinema não lembro nenhuma - Ganhar a Vida tem a ousadia de ser pioneiro. Pioneiro até, no uso desse crioulo peculiar que alguns emigrantes falam, entre o francês e o português, que só temos visto em "écrans" como matéria de escárnio, mas que neste filme é uma verdadeira língua cuja utilização acentua um efeito de estranheza e uma clara definição de distância.

O entrecho de Ganhar a Vida é simples. Há uma mulher, Cidália, que trabalha de madrugada em limpezas várias, mãe de família, com o marido na construção civil e dois filhos que vão crescendo naquela desolação. O mais velho, certa noite, em rusga de polícia, é apanhado por um tiro, cruzados os mastins de caça com um bando de jovens onde certos comportamentos marginais se misturam. Morre no lajedo, entre correrias, alvoroço, gritos. A mãe fica desfeita. Só que, em vez da lusitana resignação que os usos tornaram costume, acorda-se dentro de uma vontade de reagir. Manifestando-se em frente da polícia, em sonoro toque de caixa e firmeza, tentando uma mobilização de compatriotas para abaixo-assinado pedindo que não matem os nossos filhos, tornando-se, assim, notada, com televisão a difundir o caso e a incomodidade alastrando entre os conterrâneos que sempre tiveram como verdade que essa é a última coisa que convém. E assim começa a perder tudo o que lhe resta: as amigas, a família, a paz social. Vai acabar no mais irremediável desespero.

Cidália é Rita Blanco, retornada de uma travessia pelo inferno da facilidade e do cabotinismo televisivos, já que o seu desempenho em Ganhar a Vida é exemplar de rigor e desamparo. É gratificante vê-la expulsar a máscara que a desfigurava e afivelar o rosto de actriz. Grande parte da força do filme vem dela, convindo nomear os restantes actores, em particular Adriano Luz e Teresa Madruga, contidos e acertados. A realização de Canijo utiliza-os e serve-os, em filmagem onde o vídeo torna os movimentos pressurosos, a proximidade urgente. Nunca nada de bonito se aproxima deste filme que se adequa com gravidade à realidade que mostra. O olhar é seco, exterior, a postura é de partilha. Mesmo a sequência da festa, com Romana como atracção musical, é construída sem ponta de arrogância, ironia, desdém. Sem cegueira, também - quem tem olhos para ver que veja.


Ganhar a Vida é um filme sombrio como o céu do norte de França, feio como os HLM onde os seus personagens vivem, friamente iluminados como os escritórios que elas limpam quando o resto da cidade ainda dorme, irrespirável como a tinta dos "bâtiments" que eles constroem, solitário como a vida daquela gente portuguesa que labuta tendo como horizonte a casa lá na terra que já nem é terra a que os filhos queiram pertencer. É também, provavelmente, um retrato onde não nos queremos reconhecer, os de cá ou lá. Talvez isso seja o reflexo mais nítido dos seus méritos, os que terão levado à sua selecção para o Festival de Cannes, porta aberta para a divulgação internacional de um cineasta que tanto já merece.
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Jorge Leitão Ramos, Expresso, 05/05/01

PRÉMIOS
Globo de Ouro, Portugal (2002) – Prémio Melhor Actriz (Rita Blanco)
NOMEAÇÕES
Festival de Cannes, França (2001) – Selecção Oficial Un Certain Regard
Festival de Toronto, Canadá (2001) – Contemporary World Cinema
Festival de Montreal, Canadá (2001) – Nouveau Cinéma, Nouveaux Media
Festival de Senef, Coreia do Sul (2002) – Grande Prémio Senef
OUTROS FESTIVAIS
St. Paul Trois Château, França (2001)
Nice, França (2001) – Festival de Cinema Português
Bordéus, França (2001)
Frankfurt, Alemanha (2003)
Cinemateca de Bolonha, Itália (2003)




Realização: João Canijo
Argumento: João Canijo e Celine Pouillon
Música: Alexandre Soares
Fotografia: Mário Castanheira
Interpretação: Rita Blanco (Cidália), Adriano Luz (Adelino), Teresa Madruga (Celestina), Alda Gomes (Alda), Olivier Leite (Orlando), Maria David (Lúcia), Yvette Caldas (Fátima), Jinie Rainho (Jinie), Adélia Baltazar (Fernanda), Luis Rego (Adérito)
Origem: Portugal
Ano: 2001
Duração: 115’

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