FELLINI SATYRICON ou Roma Antiga como nunca a viu. 4ªf, 21h30, Sede.


Entrada livre

Ciclo "Grécia e Roma
não têm nada de antigo",
incluído no projeto Livros em Cadeia

(contextualizando a conferência de dia 23, também na sede,
da Drª Adriana Freire Nogueira sobre
"Grécia e Roma na 7ª Arte")

Adaptação livre da obra inacabada de Petrónio, «Satyricon» narra as aventuras vividas por dois jovens estudantes em plena Roma decadente, no séc. I da nossa era.

Nesta obra monumental, onde cada plano é uma espécie de delírio visual, Fellini esforça-se por nos fazer esquecer todos os nossos referenciais convencionais herdados da cultura cristã. Ele aborda a descrição da decadência romana com o olhar puro daquele que decidiu abstrair os dois mil anos de cultura. Uma tal ascese conduz a uma obra única, onde cada imagem surpreende e desconcerta, ao mesmo tempo que respeita os escritos de Petrónio. O filme de Fellini é bem o equivalente visual deste livro a que faltam numerosas páginas e cuja leitura faz nascer a evocação de textos complementares. É aí que Fellini dá mostras duma cultura refinada, na abordagem que faz deste antigo texto. Ele visualiza a célebre fábula da matrona hedonista. Refere-se ao «Jumento de Ouro» de Apuleio e às «Metamorfoses» de Ovídio.

Acima de tudo, este «Satyricon» é uma maravilhosa ilustração do espectáculo da decadência. E, a propósito, este filme retoma as mesmas linhas de força de «A Doce Vida» esse outro fresco da decadência. Exaltação do dinheiro, visão dum apocalipse cultural, arte tornada plágio. E também o enfraquecimento da mulher como objecto erótico. Orgias, crueldades, convite ao canibalismo. No seu conjunto isto é traduzido por uma profusão de movimentos que se adapta perfeitamente ao esplendor pictórico. Tornar-se-á óbvio que uma só visão não permite apreender todas as riquezas desta ilustração poética da decadência, desta extravagante loucura visual e literária.
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R. L. in «Image et Som», Set.-Out.70


Embora o romance não seja propriamente o género literário que mais costumamos associar à literatura da Antiguidade Clássica, é facto que teve uma voga enorme a partir do final do século 11 a.C., primeiro na literatura grega, de que se conservam cinco romances, e depois nas letras latinas, onde os maiores expoentes deste género foram Petrónio, autor do Satyricon, e Apuleio, que escreveu um romance conhecido pelos títulos Metamorfoses ou O Burro de Ouro. Todos estes romances, tanto os gregos como os latinos, ostentam, à excepção de um (Dáfnis e Cloe de Longo), as mesmíssimas características: viagens, raptos, naufrágios, piratas... todos os ingredientes, em suma, do romance de aventuras que, na Europa, a partir do século XVII, tanta popularidade teria e que desaguaria, alguns séculos mais tarde, nas histórias romanescas oferecidas ao mundo por uma cidade chamada Hollywood. É interessante notar, a este propósito, que pelo menos um dos romances antigos, As Etiópicas de Heliodoro, contém já uma antevisão assombrosa, no que respeita à questão da focalização narrativa, das técnicas propriamente cinematográficas: o romance abunda em "zooms", "travellings" e outras coisas no género, pelo que se recomenda a sua leitura a todo o cinéfilo interessado em descobrir a pré-história das técnicas narrativas da sétima arte. Todos os romances antigos fazem convergir as peripécias narradas num casal de jovens apaixonados, que os naufrágios, raptos e piratas separam durante a maior parte da narrativa, mas que se conseguem sempre juntar num "happy end" final, depois de terem resistido heroicamente a ataques rocambolescos à sua castidade.


Ora, o Satyricon de Petrónio é justamente uma sátira a este tipo de romance. Em vez do par habitual da menina de boas famílias, espectacularmente bonita, e do seu jovem apaixonado, também de uma grande família e incrivelmente bonito, Petrónio deu-nos, em substituição, um "ménage à trois" homossexual: dois estudantes de "retórica" (o que, em Roma, corresponderia aos nossos estudantes universitários), Encólpio e Ascilto, e o jovem cinaedus (expressão latina que denomina uma personagem do sub-mundo do erotismo, algures entre prostituto e "travesti"), por quem ambos estão apaixonados, chamado Gíton. O romance chegou até aos nossos dias num estado muito fragmentado, começando e terminando abruptamente com várias lacunas pelo meio, mas a história principal - em que Petrónio "encaixou" uma série de outras (a da Matrona de Éfeso é a mais célebre) - conta as desgraças que sucederam a Encólpio depois de ter sacrílegamente presenciado ritos em honra do deus Priapo, divindade que os antigos representavam, como se sabe, sob a forma de um gigantesco falo em erecção. O castigo de Encólpio é a impotência sexual, que, no filme de Fellini, só é ultra-passada quando o herói (ou anti-herói...) se une à maga Enótea (que lembra um pouco a grotesca Saraghina de Otto e Mezzo): no romance de Petrónio, nem isso lhe vale.


Sobre a pessoa do próprio Petrónio, continua a pairar a dúvida. O mais provável é que tenha sido a figura do mesmo nome, que aparece na obra historiográfica de Tácito: misto de Oscar Wilde e do Duc des Esseintes do romance À Rebours de Huysmans, este Petrónio foi o arbiter elegantiae do imperador Nero, ou seja, a figura na corte do imperador capaz de inventar as diversões mais sofisticadas para deliciar o augusto psicopata. Acabou por se encontrar em maus lençóis, tendo de recorrer ao suicídio (tal como Séneca e Lucano, outros escritores e intelectuais contemporâneos). Até a morte de Petrónio foi romanesca: mais ou menos indeciso, cortou e ligou as veias uma série de vezes, sempre ao som de música e de leituras de poemas escabrosos, até que, finalmente, se decidiu pela morte. Chegou-se a aventar a hipótese de o Satyricon ter sido ditado por Petrónio entre as veias abertas e as ligaduras, mas já Voltaire classificou essa ideia de totalmente absurda. Não deixa, contudo, de ser pitoresca e, de certo modo, adequada ao autor do Satyricon.


E com isto tudo, mal se falou do filme intitulado Fellini-Satyricon. Mas também me parece que o enquadramento do filme na tradição literária antiga é absolutamente fundamental para a compreensão do mesmo: apesar de ter incluído o seu nome no título do filme, Fellini-Satyricon é, na sua maior parte, uma adaptação para o cinema do romance de Petrónio. E com esta afirmação, podemos agora debruçar-nos no que Fellini trouxe de novo ao original latino. Pondo de parte questões de pormenor como o facto, por exemplo, de Ascilto não morrer no original, temos pelo menos quatro sequências totalmente originais no Satyricon de Fellini: a dos suicídios do jovem César (Nero?) e do casal estóico. Haverá qualquer relação entre estes suicídios e o de Petrónio árbitro? Boa pergunta, que só Fellini estaria apto a responder. A sequência em que Encólpio tem de enfrentar o Minotauro também não foi escrita por Petrónio; e a do Hermafrodita também não: mas ao contrário do que sucede com a inclusão dos suicídios, o Minotauro e o Hermafrodita confirmam o carácter grotesco e caricatural, presente desde o início do filme, que falseia totalmente o romance original. Claro que isto não é uma apreciação negativa: o cineasta não tem obrigação nenhuma de "respeitar" seja o que for; mas para quem conhece o dito original, o facto de Fellini ter optado por uma interpretação tão... felliniana, digamos assim (no sentido de ser disforme, grotesca, aberrantemente barroca), não deixa de fazer uma certa pena, pois, em Petrónio, a beleza e fuga cidade da vida, o prazer e o deboche, o amor e o cinismo fundem-se numa poesia subtilmente perfumada que oblitera, por completo, o cheiro da putrefacção dos corpos (ou melhor, talvez, dos espíritos), que, bem ou mal, predomina no filme de Fellini: basta referir que o romance de Petrónio termina com a leitura do testamento de Eumolpo, onde se diz que só quem comer o cadáver do defunto poderá herdar os seus bens, seguido de elipse (ou lacuna), ao passo que, no filme de Fellini, temos mesmo à nossa frente uma agradável cena de antropofagia. Mas, diga-se a verdade, o último plano do filme, depois de a voz "off' sugerir que Encólpio encontrou um novo amante, quando vemos as personagens de Fellini transmudadas em frescos fragmentados junto a um mar "inteiramente azul" (Sophia de M.B.A.), só muito dificilmente fecharia melhor um filme baseado nos fragmentos mais preciosos da história do género romanesco.
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Frederico Lourenço, Federico Fellini – As Folhas da Cinemateca




Realização: Federico Fellini
Argumento: Federico Fellini, Bernardino Zapponi e Brunello Rondi, a partir do romance Satyricon de Petrónio
Direcção de Fotografia: Giuseppe Rotunno
Música: Nino Rota
Montagem: Ruggero Mastroianni
Interpretação: Martin Poller, Hiram Keller, Salco Randone, Max Born, Fanfulla, Mario Romagnoli, Capucine (
Origem: Itália
Ano: 1969
Duração: 128’


projeto financiado por
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Grécia não tem nada de antigo, mesmo - Édipo-Rei, de Pasolini. 4ªf, sede, 21h30. entrada livre

Num um texto célebre (cuja complexidade não se deixa resumir pela citação que se segue), Roland Barthes escreveu a propósito do derradeiro filme de Pasolini, Saló ou Os 120 Dias de Sodoma: «Falhado como figuração (de Sade ou do sistema fascista), o filme de Pasolini vale como reconhecimento obscuro, em cada um de nós mal controlado, mas seguramente incómodo: esse reconhecimento incomoda toda a gente porque, devido à ingenuidade própria de Pasolini, impede seja quem for de se resgatar.» (in «Le Monde», 15/6/1976).

A extrema subtileza desta observação - Pasolini como autor «cândido» e não «cérebro ideológico» - poderá, muito provavelmente, alargar-se ao conjunto da obra de Pasolini. Apetece, pelo menos, aplicá-la a este Edipo Rei, objecto de uma secura formal absolutamente irredutível. Secura até, se quiserem, pelas paisagens agrestes do deserto de Marrocos onde a maior parte das sequências foram rodadas, mas sobretudo pela austeridade que o cineasta impõe: ao adaptar a tragédia de Sófocles, Pasolini prefere «secar» as suas ressonâncias culturais (vulgo adaptação-de-um-grande-clássico-do-património-da-humanidade) para privilegiar a sua «redução» à condição insólita - e, afinal, primordial - de tragédia de qualquer homem.

Esse processo começa (ou acaba) na própria figura que Pasolini escolheu para interpretar o seu Edipo: Franco Citti que é, por assim dizer, o contrário de uma personagem esmagada pelo conflito que a habita. Dir-se-ia que Citti compõe um Edipo completamente terreno, sem nenhuma interioridade que o resgate da tragédia em que mergulha. No limite, ele não cega quando arranca os olhos - esse é apenas o momento em que a castração do seu olhar «naturaliza» a cegueira que sempre o marcou.

Diz a Esfinge de Pasolini: «Há um enigma na tua vida». E Edipo responde: «Não quero saber, não quero saber», ao mesmo tempo que empurra a Esfinge para o abismo. Cruel ilusão: «Tudo isto é inútil porque o abismo está em ti», responde-lhe a Esfinge. Edipo Rei é o filme desse abismo onde o homem se revê incessantemente na sua vulnerabilidade de perguntas sempre renovadas e respostas sempre adiadas. E se é verdade que o final do filme pertence à faceta mais primária (diríamos, ainda, ingénua?) do cinema de Pasolini - Edipo deambulando pela Bolonha contemporânea, cidade natal do autor e praça forte do Partido Comunista Italiano - não é menos verdade que a ambição maior que nele se exprime é também a ambição de toda a prática cinematográfica de Pasolini: fazer um cinema que incessantemente se abata sobre a realidade imediata do próprio espectador.

Há, por tudo isso, como Glauber Rocha bem notou (in «Pasolini Cinéaste», número especial dos «Cahiers du Cinéma», 1981) uma aproximação pasoliniana entre Cristo e Edipo. E se O Evangelho Segundo São Mateus, que Pasolini rodara quatro anos antes, é uma matriz essencial da sua obra, outra será a que se condensa neste Édipo Rei.

O homem pasoliniano é sempre o Cristo-Edipo de que fala Glauber, um ser irremediável só, lutando contra o sem sentido da realidade. Sendo político, mesmo ingenuamente, por causa desse vazio insuperável do mundo.
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João Lopes, Expresso, 28/7/90


... é um filme que se situa pelo menos em quatro planos. A primeira parte é a das recordações de infância, ao mesmo tempo muito sintetizadas e muito ricas, depois há a parte fantasmagórica, que eu chamo alucinatória, e que me parece a melhor. Ela é totalmente inventada, pois não parti de nada conhecido, e deixei-me guiar pelo puro prazer da imaginação (...)

Depois vem a terceira parte, que é nem mais nem menos do que o Édipo» de Sófocles. (. ..) Fiz algumas reduções, mas não verdadeiras alterações. A única alteração importante, em relação a Sófocles, foi que no fim suprimi a intrusão das raparigas, porque no fundo modifiquei o próprio Édipo. E as raparigas não correspondiam ao meu Édipo, nem Antígona. Há assim, em relação ao texto, mais uma exclusão do que uma modificação. As palavras da Esfinge não existem no texto de Sófocles. São apenas mencionadas. Isto diz respeito a - I'antefatto» (os antecedentes). A Esfinge faz parte da mitologia, do que se lê nas enciclopédias ou nos manuais escolares, não no próprio texto. Nele não se precisa como, nem em que termos, Édipo encontrou a Esfinge. Fiz portanto uma modificação em relação à mitologia popular grega, não em relação a Sófocles, ao fazer da Esfinge, muito simplesmente, o inconsciente de Édipo: (...) Édipo só pode fazer amor com a mãe na condição de empurrar a Esfinge para o abismo, quer dizer, empurrá-la para o seu próprio inconsciente.

... a coisa que mais me inspirou em Sófocles: o contraste entre a total inocência e a obrigação de saber.

Em Itália, as pessoas criticaram-me por não ter feito de Édipo um inte¬lectual, porque toda a gente em Itália imagina Édipo como um intelectual, mas eu acho que isto é um erro, porque a vocação de um intelectual é descobrir coisas; assim que um intelectual vê qualquer coisa que não funciona, por vocação começa a analisá-la. Enquanto que Édipo é exac¬tamente o oposto: é a pessoa que não quer olhar para as coisas, como todas as pessoas inocentes, aqueles que vivem as suas vidas como vítimas da vida e das suas próprias emoções.

O epílogo é aquilo a que Freud chama a «sublimação». Depois de se ter cegado a si próprio, Édipo reentra na sociedade através da sublimação das suas faltas.

Uma das formas de sublimação é a poesia.

Édipo toca flauta. O que significa, metaforicamente, que ele é um poeta. Primeiro toca para a burguesia, e toca a velha música japonesa conotada com o Oráculo - música ancestral, privada, confessional, música que poderia ser definida numa palavra como decadente: uma espécie de evocação do primitivo, das suas origens; depois descontente da burguesia, vai-se embora e toca a sua flauta (i. e. vai-se embora e age como um poeta) para os trabalhadores, e toca uma ária que era uma das canções da Resistência: era uma canção folclórica russa que alguns soldados italianos aprenderam na Rússia e que era cantada durante a Resistência como uma canção revolucionária.

A diferença profunda entre Édipo e os meus outros filmes, é que ele é autobiográfico, enquanto os outros não o eram ou eram pouco. Ou pelo menos eram-no quase inconscientemente, indirectamente.

Em Édipo, eu conto a história do meu próprio complexo de Édipo. O rapazinho do Prolog, sou eu, o seu pai é o meu pai, antigo oficial da infantaria, e a mãe, uma professora, é a minha própria mãe. Conto a minha vida, mitificada, evidentemente, tornada épica pela lenda de Édipo. Mas sendo o mais autobiográfico dos meus filmes, Édipo é aquele que considero com mais objectividade e distanciação, porque se é verdade que conto uma experiência pessoal, é uma experiência terminada e que praticamente já não me interessa.

Interessa-me no entanto como elemento de conhecimento, de reflexão, de contemplação. (...) Enquanto nos meus filmes precedentes, enfrentava problemas violentamente vivos -em mim, aqui, trato um assunto que se afastou de mim. Isto talvez dê ao meu filme um maior «esteticismo»,'mas também, espero, um recuo humorístico que existia menos nos outros. (...)

O trágico existe, a despeito de tudo, porque a razão mais profunda, quer do esteticismo quer do humorismo, é o terror da morte. (...)

O objecto da investigação de Freud já não me interessa muito, tal como já não me interessa muito o objecto da investigação de Marx. Já não estou de todo envolvido no magma que faz de Édipo um objecto de análise freudiana e marxista. É verdade que, no fim do filme, Freud parece vencer Marx. E Édipo vai perder-se no abrigo verde de choupos e água onde se criara. Mas mais que Freud é o Édipo em Calona a sugerir uma tal ideia: ou, pelo menos, na fusão arbitrária entre a sugestão freudiana e a de Sófocles, esta última vence-a. (...)

Quanto ao carácter gnoseológico, disse que o filme é uma alucinação, um «estado onírico» e penso que nada pode ser mais gnoseológico do que um sonho.

Pier Paolo Pasolini in Ciclo Pasolini Anos 60 (João Bénard da Costa, dir.), Fundação Calouste Gulbenkian




Título Original: Edipo Re
Realização: Pier Paolo Pasolini
Argumento: Pier Paolo Pasolini, baseado na peça homónima de Sófocles
Direcção de Fotografia: Giuseppe Ruzzolini
Montagem: Nino Baragli
Interpretação: Silvana Mangano (Jocasta), Franco Citti (Édipo), Carmelo Bene (Creonte),
Alida Valli (Mérope), Julian Beck (Tirésias)
Origem: Itália
Ano: 1967
Duração: 104'


projeto financiado por
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Parking Lot Jam in New Orleans

O som é deficiente, praticamente só se ouvem com uma certa distinção algumas partes da secção rítmica e as variações não são muitas mas a intensidade, a comunhão e alma (que o trombone a faz soar visível) são do melhor que se possa encontrar em qualquer jam que se preze. O registo vídeo é amador e quase estático, mas está tudo lá. I wish I was there.
Glenn David Andrews Glenn David Andrews and Friends

comemorar o Dia dos Namorados com UMA SEPARAÇÃO. filme do melhor cinema. é só prémios!

3ªf 14, IPJ, 21H30

sócios 2€, estudantes 3,5€, não-sócios 4€

Na ética de vida daquela sociedade há uma brecha, uma rutura, uma falha. Neste filme talvez haja um roubo e violência conjugal. Talvez haja um grave laxismo laboral e luta de classes. Talvez o dinheiro seja capaz de dissuadir indignações morais. Talvez as crianças saibam mais do que o que dizem. Há, com certeza, abandono de laços humanos que Asghar Farhadi delineia com paciente precisão e uma iniludível tristeza. Porque, finalmente, esse é o sentimento maior deste filme filigrânico que ganhou, este ano, o Festival de Berlim e nos volta a lembrar como pode ser entusiasmante o cinema que se faz no país de Kiarostami. O Irão dos ayatolas? Não - a Pérsia de uma cultura milenar!
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Jorge Leitão Ramos, Expresso


Filme de primeira água sobre um divórcio que descamba para um conflito judicial, “Uma Separação” não é “Kramer contra Kramer” em Teerão - mas é um filme que tem conquistado o Ocidente por todas as razões certas.

É um dos “casos do ano”. Podia sê-lo por todas as razões erradas (já lá vamos), felizmente não: Urso de Ouro e prémios de Melhor Actor e Melhor Actriz para o conjunto do elenco em Berlim 2011, um milhão de espectadores em França, candidato oficial à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, “melhor filme estrangeiro do ano” para os críticos de cinema nova-iorquinos e para a National Board of Review americano, aclamação crítica e sucesso público um pouco por onde tem estreado.

O êxito de “Uma Separação” podia ser indissociável da origem iraniana do filme de Asghar Farhadi; não é certo que lhe seja inteiramente alheio, mas a verdade é que este não é o “filme iraniano do costume”, e por difícil que seja vê-lo sem levar em conta a sua nacionalidade, a verdade é que o seu sucesso não se deve apenas à boa consciência ocidental. É que “Uma Separação” é realmente um grande filme, que lida, muito simplesmente, com a verdade, a partir do momento em que um acontecimento aparentemente anódino - um pedido de divórcio - despoleta um efeito-borboleta de consequências imprevisíveis.

Um fascinante jogo de espelhos que reflecte toda uma série de questões centrais da vida moderna: a classe média urbana e confortável de Nader e Simin contra a classe operária pobre e suburbana de Hojjat e Razieh, agnosticismo contra religião, orgulho contra pragmatismo, justiça contra injustiça - e tudo isto explica muito bem porque é que “Uma Separação” tem ressoado mundialmente. Não estamos longe de um “Magnolia”, de um “Babel”, de um “Crash” no modo como o filme de Asghar Farhadi recusa eleger um herói para se mover por entre um elenco de conjunto onde não há heróis nem vilões, como utiliza a mecânica narrativa do acaso e da coincidência.

A diferença de um Iñárritu ou de um Haggis está em que Farhadi não nos diz nunca o que devemos pensar nem sentir, recusa terminantemente toda e qualquer manipulação gratuita, sabe que basta confiar na força da situação e na entrega dos actores para gerar o suspense e a emoção. Longe de ser um filme que se deleita na sua importância moral, deixa ao espectador a abertura para tirar as suas próprias reflexões; é um cinema que não está ao serviço de nada a não ser da história que quer contar.

“Uma Separação” reflecte as contradições e a complexidade do mundo em que vivemos, ao ponto da sua nacionalidade deixar de ser significativa, mesmo que seja impossível olhar para ele sem sermos recordados dos problemas específicos da República Islâmica; não faz parte da estética autoral da maior parte do cinema iraniano que é divulgado mundialmente, não se refugia em meditações oblíquas e ensaios audiovisuais. É verdade que as questões todas que aqui se abordam também se jogam no tabuleiro de uma sociedade presa entre a espada e a parede, reflectindo de modo agudo as tensões subjacentes ao Irão moderno - mas este é um filme que sabe que só falando do pessoal conseguimos chegar ao universal. É por isso, também, que é bom perceber que o seu triunfo não se limita a ser um caso manifesto de condescendência de boa consciência ocidental. Nada disso: “Uma Separação” é um filme de primeiríssima água que calhou ser iraniano.
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Jorge Mourinha, Ípsilon


Num dos seus sketches, Omid Djalili, cómico britânico de ascendência iraniana, traçava uma curiosa linha de separação. Assim, quando se fala em “Pérsia” (nome pelo qual, durante séculos, o Irão foi identificado pelos ocidentais), temos tendência em evocar tapetes, exotismo e uma sofisticação mais ou menos misteriosa. Mas se dizemos “Irão”, pensamos logo em terroristas de cabeça tapada e uma bomba à cintura...

Semelhantes lugares-comuns podem servir de mote para aquilo que está em jogo face a Uma Separação, o admirável filme iraniano de Asghar Farahdi que, no passado mês de Fevereiro, arrebatou o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Trata-se, afinal, de saber até que ponto o nosso olhar, marcado pela formatação mediática com que tantas vezes são tratadas as sociedades do Médio Oriente, será capaz de olhar para Uma Separação, não para “confirmar” um qualquer esquematismo ideológico ou moral, antes para lidar com um... melodrama.

Porque é de uma crise conjugal que se trata, bem típica da longa e multifacetada tradição melodramática. Leila Hatami e Peyman Moaadi (magníficos actores, também premiados em Berlim) representam um casal atingido por uma crise que parece encaminhá-los para um irreversível divórcio: a mulher quer sair do país, considerando que a filha, de 11 anos, deve crescer noutro tipo de ambiente, enquanto o marido resiste à ideia, tanto mais que insiste em continuar a acompanhar o seu pai, atingido pela doença de Alzheimer; quando um tribunal decide que não há motivos suficientes para ser exarado um divórcio, a mulher sai de casa e o marido contrata uma criada para tratar do pai...

Este resumo simplifica a complexidade emocional e social do argumento do filme, também assinado por Farahdi. Em todo o caso, nele detectamos uma decisiva componente temática: encontramos aqui uma visão subtil do universo feminino e, em particular, das suas formas de dependência de laços (conjugais e simbólicos) organizados em função do poder masculino. Mais do que isso: Farahdi possui o tacto suficiente para não corrigir um maniqueísmo com outro maniqueísmo, traçando um retrato do marido que envolve uma singular e, por vezes, tocante vulnerabilidade.

Uma Separação constitui um excelente exemplo do grande cinema que continua a chegar às salas portuguesas e que, de um modo geral, tem uma visibilidade mediática, sobretudo televisiva, muito inferior a todos os produtos americanos sustentados por grandes campanhas promocionais (viu-se, por estes dias, com a proliferação de notícias sobre o novo capítulo de Missão Impossível). Escusado será dizer que nenhum filme se “mede” pela dimensão da sua campanha, além de que a cinematografia americana continua a ser um universo tão contrastado quanto fascinante. Acontece apenas que as convenções da publicidade natalícia não são uma boa razão para ignorar um filme tão brilhante como Uma Separação.
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João Lopes, sound-vision.blogspot.com


ENTREVISTA AO REALIZADOR
Um divórcio no Irão. Ela quer partir com o visto que levou anos a obter. Ele quer ficar porque o pai está doente. Prestes a desmoronar-se, aquela família está a pôr em causa os alicerces da sociedade do seu país. Farhadi, cineasta de 39 anos, dirigiu um elenco notável, premiado em Berlim. Em França, onde o encontrámos poucos meses depois do Urso de Ouro alemão, o filme foi um êxito tremendo. Sejam bem-vindos ao Irão contemporâneo.

Na primeira sequência, o casal protagonista que pede o divórcio é interrogado por uma voz off e pela câmara. A câmara está no lugar da autoridade. Toma o ponto de vista de quem julga. Porque começou o filme deste modo?
Sim, a câmara está no lugar do juiz, mas quem julga não simboliza a autoridade - e é importante assinalar a diferença. A questão é importante: o que eu queria mostrar era a posição do espectador perante o filme. Como quem diz: 'se há um juiz aqui, és tu, espectador, quem vai tomar essa responsabilidade.' É esse o convite inicial. Por outro lado, o juiz, que nesta perspetiva é o espectador, é convidado igualmente a ser uma personagem. Mas eu não queria sublinhar muito esta ideia. Resolvi por isso apresentá-la logo, na primeira sequência.

Ainda a propósito desse juiz, sentimos que há nele uma tranquilidade, até uma generosidade, perante o casal que se quer divorciar. Esse juiz corresponde à realidade ou foi suavizado pela ficção?
Fiz alguma pesquisa sobre essa questão e os juízes que encontrei assemelham-se àquele. Eles são empregados especializados naqueles casos e cumprem o seu papel. Não são representantes do poder instituído. Não estão lá com um bastão para bater nos clientes. O retrato é tão realista quanto possível.

Qual é a importância do avô no filme?
Ele é a alavanca do drama.

Será que há nesse avô - e noutros elementos do filme - um sentido metafórico? O cinema Iraniano tem por hábito retratar o país através de personagens que são instituições.
Compreendo o que diz mas creio que se refere a filmes que têm uma inclinação mais forte para o documentário. A metáfora e a parábola são expressões recorrentes desses casos. Em "A Separação", creio que as personagens têm a potencialidade de dar ao espectador uma leitura além do que elas representam. Mas tenho de sublinhar: a metáfora ou a parábola do avô não estão associadas ao passado, à história ou à tradição. Ele é simplesmente um exemplo da sua geração de iranianos. Uma geração que tem problemas em comunicar com as que lhe sucederam.


"Uma Separação" é um filme multo baseado na direção de atores. Como os selecionou e porquê?
A grande maioria do elenco é formada por atores profissionais e até já trabalhei com alguns nos meus filmes anteriores. Nesse elenco, há também quem faça habitualmente cinema, outros quase nunca. Acontece que, desde o momento em que todos eles assinaram contrato, sabiam que eu lhes ia pedir uma particular neutralidade. Como se eles estivessem a interpretar pela primeira vez. Eu trabalho frequentemente a partir deste efeito. Nunca lhes peço para interpretarem um papel. Ou melhor, o que lhes peço é precisamente o contrário: "não interpretem nada." Contudo, para atingir este grau de interpretação, é preciso ensaiar quatro ou cinco meses. Na verdade, 'estico a corda' durante os ensaios a um ponto tal que as interpretações acabam por dar a impressão ao espectador de que não há argumento por trás. Nem realizador. Aliás, o que é interessante neste método é que, nos ensaios, jamais trabalhamos a partir do argumento. O que nos interessa é a relação das personagens com as histórias que precedem e que prolongam o argumento, nunca aquilo que está escrito no papel.

Quando somos apresentados à empregada doméstica, Razieh, ficamos perante uma situação que evolui para uma história de luta de classes. Pelo menos, no filme, essas classes estão bem estruturadas.
Se o espectador decidir abordar o filme por um ponto de vista social, sim, notará que há um conflito de classes escondido. Mas essa luta de classes não pode ser considerada apenas sob um ponto de vista económico. O problema é mais profundo. É cultural.

O divórcio, aqui, é uma questão de dinheiro?
Não, é uma questão de emoção. E de amor.


Descobrimos que a ética e a moral do filme vêm das crianças, que não sabem mentir. Qual é o papel delas?
As crianças vão atravessar uma evolução. No início, são apenas joguetes dos adultos. Mas, à medida que o tempo passa, é a eles que se impõe a responsabilidade de uma escolha que terá de ser feita pois é isso que os pais e a sociedade lhes pede: quem tem razão? Para que lado é que devem tombar os pratos da balança? Já os adultos não conseguem sentir-se bem na sua pele. À medida que o filme avança, eles vão ter de lutar muito para existir.

Esta história poderia ter dado um drama terrível que, no entanto, você controla e evita, com subtileza...
A subtileza exigiu-me muito tempo de trabalho e também muito cuidado para não ceder à tentação do exagero e do grotesco, permanecendo no domínio do plausível. Vou tentar explicar-me: quando um realizador tenta forçar a empatia do espectador com uma personagem, corre um risco enorme. O efeito de realismo que se pretende pode virar-se contra a sua vontade. Neste domínio, é perigoso ir longe de mais: e há muitos filmes que fracassam por causa disto. Não resistem a realçar a tragédia. Às vezes, fazem-no a um tal ponto que, quando o espectador sai da sala, a tragédia evaporou-se pois toda a gente perdeu a vontade de pensar nela.

Nos anos 80 e 90, o cinema iraniano procurava a província, a natureza, uma contemplação sensível à fábula ou ao conto moral. Nos últimos anos temos descoberto outro tipo de filmes, mais urbanos e permeáveis à vida quotidiana onde o seu se inscreve. A velha marca da cinematografia tende a desaparecer?
Deixe-me acrescentar que esse cinema urbano também existiu no Irão dos anos 80 e 90. O problema é que os festivais ocidentais não se interessaram por ele! Há filmes que continuam por descobrir. Julgo que o cinema do Irão foi extremista e perdeu demasiado tempo a contemplar a vida nas aldeias. Pecou por repetir uma fórmula que estava longe de mostrar a totalidade da cultura iraniana. Mas o que você notou é simples de explicar: é que, entretanto, surgiu uma nova geração de cineastas. Agora, toda a gente quer fazer filmes na grande cidade. E eu espero que, daqui a uns anos, não nos perguntem: mas ainda há aldeias no Irão? Estou completamente convencido de que se tivesse realizado "Uma Separação" há dez anos o filme não teria ganho o Urso de Ouro. Aliás, aposto que nem teria sido selecionado pelo festival.
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Francisco Ferreira, Expresso




Título original: Jodaeiye Nader az Simin
Realização e Argumento: Asghar Farhadi
Montagem: Hayedeh Safiyari
Música: Sattar Oraki
Director de Fotografia: Mahmood Kalari
Interpretação: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat , Sarina Farhadi ,
Ali-Asghar Shahbazi , Babak Karimi, Kimia Hosseini, Shirin Yazdanbakhsh, Sahabanu Zolghadr

Origem: Irão
Ano: 2011
Duração: 123’

MARLON BRANDO+MANKIEWICZ+SHAKESPEARE=JÚLIO CÉSAR - uma obra-prima!!

4ªf, dia 8, 21h30, Sede, Entrada livre.

Ciclo "Grécia e Roma não têm nada de antigo",
incluído no projeto Livros em Cadeia


(contextualizando a conferência de dia 23, também na sede,
da Drª Adriana Freire Nogueira sobre
"Grécia e Roma na 7ª Arte")




Uma notável produção americana dos anos 50, com Joseph L. Mankiewicz a dar uma espantosa dimensão de thriller político à imortal peça de Shakespeare e a Marlon Brando um dos mais prodigiosos papéis da sua carreira.

Quando em 1953 Joseph L. Mankiewicz se lançou na produção do memorável "Júlio César", dos dois lados do Atlântico levantaram-se vozes discordantes, duvidosas e mesmo indignadas, apesar da reputação de Mankiewicz o colocar na posição de um dos maiores realizadores do seu tempo. O resultado foi, no mínimo, surpreendente para quem acreditava que Mankiewicz jamais seria capaz de dar forma cinematográfica digna e respeitável à peça de Shakespeare, sem adulterar a obra original ou sem, fatalmente, cair na fastidiosa peça de teatro filmada. Mankiewicz com a mestria do seu cinema torneou o dilema. Nunca em cinema se tinha sido tão fiel ao "Júlio César" de Shakespeare e, ao mesmo tempo, nunca se tinha dado a uma obra de Shakespeare forma cinematográfica tão exacta e fascinante. Mankiewicz filmou intencionalmente a preto e branco, contrariando as intenções da MGM, em décors de linhas simples e em tom de thriller político, servido por um portentoso trabalho de actores, nomeadamente, James Mason, John Gielgud, Louis Calhern e Marlon Brando, este último num dos momentos mais sublimes da sua arte e da sua carreira, calando de forma magistral as vozes mais cépticas que contra ele a espaços se ouviam.
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s/ ind de autor, RTP1


Cineasta profundamente ligado à esfera do teatro, Mankiewicz teria, um dia, de cruzar-se com Shakespeare. Cruzou-se duas vezes, uma pela fidelidade deste Júlio César, outra pelas ínvias alamedas de Cleópatra, ferida traumática de que o realizador nunca se curou. Lembremos, para precisar as ligações teatrais de Mankiewicz, que diversos dos seus filmes foram extraídos de peças de teatro (Bruscamente no Verão Passado, Tenho Direito ao Amor, Homicídio, Falam as Más-Línguas, Eles e Elas, O Perfume do Dinheiro e Autópsia dum Crime) e que neste leque há um pouco de tudo, do «musical» ao melodrama, da comédia ao policial.

Mas não é só por aí que Joseph L. Mankiewicz e o teatro são coisas que conjugam bem. É possível dizer-se que todo o cinema deste realizador é devedor do teatro, em especial pela determinante importância dada à palavra nos seus filmes, material fulcral de um cinema que, todavia, nunca foi teatro filmado mesmo nos momentos onde tal acusação pareceria mais justificada.


Júlio César é um desses momentos, digamos mesmo que é o momento por excelência em que a encenação propriamente cinematográfica mais se apaga em favor de outras realidades, o texto e os actores. Eu preferiria, em vez do verbo «apagar» utilizar o termo «não se exibir», porque o que me parece admirável neste filme é precisamente o espaço que ele cria para deixar passar o verbo de Shakespeare, o poderoso e mágico verbo de Shakespeare na voz e na interpretação corporal de um conjunto de actores divinos (tendo à cabeça John Gielgud, James Mason e o inadjectivável Marlon Brando – o seu discurso aos romanos é lapidar do êxtase que nos pode levar um rosto, uma voz, um gesto e um texto). Essa disponibilização é algo bonito de se ver, sobretudo para quem pensa que os grandes actores são seres em estado de graça.

«Escutai-os!» - diz-nos o filme. Que assim seja!
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Jorge Leitão Ramos, Expresso, 8/9/90


(link para o youtube na imagem)

Título Original: JULIUS CAESAR
Realização: Joseph L. Mankiewicz
Argumento: Joseph L. Mankiewicz, baseado na obra de William Shakespeare
Música: Miklós Rózsa
Fotografia: Joseph Ruttenberg
Montagem: John D. Dunning
Interpretação: Marlon Brando, James Mason, John Gielgud, Louis Calhern, Edmond O´Brien, Greer Garson, Deborah Kerr,
George MacReady, Michael Pate, Alan Napier.

Origem: E.U.A.
Ano: 1953
Duração: 120’
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projeto financiado por
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Wiseman entrou no Crazy Horse para pôr tudo a nu! TERÇA-FEIRA NO IPJ, 21h30.

Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€


NOTAS DO REALIZADOR

Em Abril de 2009, consegui autorização para filmar, sem restrições, o conhecido cabaret “Crazy Horse” na Avenida George V, em Paris. Era um projecto que me parecia uma boa adição aos quarenta documentários que já fiz acerca de instituições.

Fiz o filme por diversas razões. Em primeiro lugar, achei a ideia sedutora, a de poder explorar as diferenças entre o cabaret e o ballet.. Sempre me senti atraído pelas fantasias das pessoas, de uma forma abstracta. Não sei se estão, ou não, em conflito, mas existem uma série de fantasias que são evocadas por este ambiente burlesco: as fantasias dos donos, dos accionistas (que esperam conseguir lucrar com a exibição dos corpos destas belas mulheres nuas), dos espectadores (que se aglomeram para assistir ao espectáculo) e até mesmo as das bailarinas (que aceitam actuar, quase nuas, perante a audiência). Todas estas conjecturas me interessavam. E depois existia também a questão de o CRAZY HORSE não ser vulgar, ou pelo menos não da forma explícita que o era antigamente. O CRAZY HORSE sugere a vulgaridade, o que, por si só, molda mais um aspecto interessante.

A DANÇA
O CRAZY HORSE é o meu terceiro filme dedicado à dança, após “Ballet” e “A Dança”. Tenho um interesse especial por esta demanda pelo movimento perfeito, com todos os seus intermináveis ensaios com o único objectivo de alcançar uma espécie de mestria transitória, e que sustentará apenas um instante do espectáculo. Considero este trabalho particularmente tocante e também extremamente cinematográfico, especialmente durante os ensaios quando bailarinos e coreógrafos se incitam uns aos outros para conseguirem aperfeiçoar os seus passos. De facto já tinha tentado, em projectos anteriores ‐ “Basic Training” é um bom exemplo – enfatizar esta coreografia do corpo e dos seus movimentos.



Em CRAZY HORSE não nos encontramos muito longe da parada militar quando observamos aqueles bailarinos, uma espécie de marionetas em toda a plenitude da palavra, que se movimentam em uníssono, numa linha recta e que marcham pelo palco como se de soldados de brincar se tratassem. E todo esse “esforço bélico” é focado na provocação, no escandaloso, no erotismo. Existe aqui algo de, simultaneamente, fascinante e divertido.

O CORPO
Existe uma grande diversidade na forma como os corpos são retratados nos meus filmes: o corpo renegado em “Essene”, o corpo magoado em “Hospital” e “Near Death”, o corpo violento em “Basic Trainig”, “Manoeuvre” e “Domestic Violence”, o corpo mutilado em “Primate”, o corpo idealizado em “Model”, o corpo harmonioso em “La Danse” e o corpo marcado em “Boxing Gym”.
Em CRAZY HORSE o corpo enquanto templo erótico, conserva‐se no centro da trama, pois todos os esforços da instituição são direccionados para o único objectivo de proporcionar uma “revista” de corpos nus, duas vezes por dia ‐ três aos Sábados – num espectáculo que acto após acto se assemelha a um sofisticado catálogo de erotismo “tipicamente francês”.

FRANÇA
CRAZY HORSE é o terceiro de uma série de trabalhos meus acerca de instituições francesas – La Comédie Française e Le Ballet de l’Opera de Paris, foram os seus antecessores. O CRAZY HORSE é o único que funciona de forma privada, embora detenha um estatuto icónico em França. Parisienses, Japoneses, Americanos e muitos outros, vão até lá para passar a noite e serem fotografados (existe um fotografo de serviço que vai de mesa, em mesa para imortalizar a experiência) para que, ao regressarem a casa, possam dizer a si mesmos: “estive lá e era exactamente como tinha visto nos postais”. Acho extremamente aliciante a possibilidade de explorar os lugares icónicos de um país sem preconceitos, explorando a sua profundidade e estudando a forma como funcionam. Este fenómeno torna‐se particularmente interessante em França, onde a hierarquia de classes é muito mais rígida do que na América.

Frederick Wiseman


Um olhar sobre a fantasia do corpo e a ilusão do cinema na cidade dos nossos sonhos. É um filme de Frederick Wiseman sobre o famoso cabaret de Paris, cidade próxima do documentarista norte-americano, na qual tem realizado parte dos seus trabalhos recente.

Depois de "A Dança" (2009), documentário sobre o Ballet da Ópera Nacional de Paris, Frederick Wiseman regressou à capital francesa para fazer um documentário sobre o Crazy Horse, histórico cabaret da cidade e palco de sugestivas coreografias de despidos corpos femininos. Entre os dois projectos, realizou "Boxing Gym" (2010), documentário sobre um ginásio de boxe no Texas. Em Lisboa para abrir o Doclisboa com "Crazy Horse", ontem estreado, Wiseman admitiu, ao Ípsilon, a ligação existente entre os seus últimos filmes. Tal como os outros, "‘Boxing Gym' é um filme sobre dança", confessa-nos. Por outras palavras: "a disciplina e a coreografia, as carreiras curtas, o controlo sobre o nosso corpo, o facto de haver poucas pessoas com sucesso nesses trabalhos." Mas o interesse de Wiseman pela dança equivale-se às outras áreas que vem retratando no seu cinema há mais de 40 anos; e se existe um denominador comum, será o elemento natural que colocamos ao serviço do nosso trabalho. "Muitos filmes meus são sobre os usos específicos aos quais submetemos, ou não, o nosso corpo", explica. "O filme que fiz num mosteiro ["Essene", 1972] pode ser visto como [um documentário] sobre a negação do corpo. Os filmes militares são sobre corpos ao serviço do Estado. ‘Domestic Violence' (2001) é sobre o abuso feito sobre o corpo. ‘Hospital' (1970) e ‘Near Death' (1989) olham para a doença. E os filmes sobre dança entram também nessa categoria, pela criação de formas bonitas a partir do corpo."

Mas "Crazy Horse" é, mais especificamente, sobre a construção de uma sensação - a sensualidade -, a partir do que temos de mais natural. Ou seja, um trabalho sobre o uso do nosso elemento natural - o corpo humano - para criar um artifício que corresponda à imagem de um desejo e da instituição que o promove - o Crazy Horse. Wiseman acrescenta: "É isso, mas também sobre uma fantasia e como esta é criada para sugerir ideias de erotismo e sensualidade. Se são eficazes ou não, caberá ao espectador decidir."


A cidade dos sonhos
O documentarista mostra-nos os ensaios das bailarinas que compõem os espectáculos, assim como o discurso, na equipa criativa, sobre a ideia de construção artística que alimentará a fantasia dos espectadores aí presentes. No fundo, ideias que se assemelham à perspectiva de Wiseman na construção de um documentário: uma impressão da sua perspectiva sobre a realidade que assume, pela escolha de planos e posterior processo de montagem, a sua dose de artifício. "Tudo o que tem a ver com um filme é artificial e tudo o que está nele tem a ver com uma escolha. Cria-se algo de artificial que é baseado na realidade." O realizador procura "uma experiência a partir da qual consiga construir um filme. E se o filme tiver sucesso, cria uma ilusão, por muito momentânea que seja, que os eventos que aconteceram no filme tomaram lugar tal como os vemos aí."

Wiseman filma a construção dos espectáculos do Crazy Horse: obras que procuram seduzir espectadores pela sensualidade e ilusão de um jogo de luzes, sombras e espelhos, e que se deixam mergulhar, por aí, na projecção do seu próprio imaginário. Filma também projectores de cores quentes que se inspiram no universo de Michael Powell (também autor de um cinema de sedução), ou momentos compostos por projecções de sombras do corpo humano que nos remetem para os inícios do cinema. No rés-do-chão e cave do Crazy Horse, como a sala escura dos nossos sonhos, Wiseman parece-nos dizer que o cinema é o meio sensual por excelência. "Sim, é verdade, e parte deste filme é sobre filmes. A iluminação e a forma como os corpos das bailarinas são iluminados é um aspecto muito importante no espectáculo do Crazy Horse, e tirei partido disso para o filme."

O cinema de Wiseman tem-se focado no funcionamento de várias instituições e no seu processo de trabalho. Contudo, e apesar da vida exterior à "caverna" pouco interessar para o olhar do seu filme, Paris ocupa um lugar central na vida do documentarista.

"Fui viver para Paris depois do meu curso de Direito e de ter feito a tropa", conta-nos. Viveu dois anos na cidade em meados dos anos 50, um local que serviu de aprendizagem para os seus sentidos. "Em Paris, ia ao cinema e ao teatro quase todos os dias. Mas já tinha ido ao Crazy Horse - a primeira foi em 1957, com o meu padrasto", lembra-se. "Depois, fui numa outra visita para estudar o espaço e ver se gostaria de ali fazer um filme. Falei com a administração e comecei a filmar dois dias depois." Atravessar o Atlântico para viver na capital francesa serviu para cumprir uma fantasia de vida numa cidade que personifica os nossos sonhos. E estar aí presente para nos alimentarmos diariamente de cinema é o cumprimento máximo dessa fantasia. "Exactamente. Tenho trabalho lá nos últimos dez anos, em que fiz três filmes e duas peças na Comédie Française, e vou começar uma terceira na Primavera. A primeira foi ‘The Last Letter' [baseado em "Life and Fate" de Vasily Grossman] e a segunda ‘Happy Days' de Beckett, em que também fiz o papel de Willie, que foi maravilhoso. Dirigi a peça e tive a minha estreia enquanto actor na Comédia Française, foi dos momentos mais divertidos da minha vida. Agora, será uma peça sobre a vida de Emily Dickinson, ‘The Belle of Amherst'."


Película e HD
O interesse por teatro e literatura não virá apenas da extrema curiosidade que alimenta o olhar do realizador de 81 anos, mas também da sensibilidade com que filma, nos meandros do documentário, as capacidades dramáticas das pessoas que lhe dão uma experiência de vida para a câmara.

"Uma das experiências que retiramos de fazer documentários é pensar em que é que consiste actuar, tanto num palco, como nas pessoas filmadas fora dele mas que são muito dramáticas", explica. Recorda-nos uma experiência realizada no Centre Pompidou, em Paris, há seis anos: "Dei o diálogo de quatro cenas de ‘Welfare' a quatro actores. Cada um actuou a sua sequência e depois mostrei as cenas originais. Em alguns casos, estavam muito fiéis à cena original, noutros eram interpretações completamente diferentes. Surge aí a questão de saber se alguém pode assumir uma variedade de papéis diferentes. Não temos esse alcance no nosso repertório, mas conseguimos, apesar de tudo, fazer coisas incrivelmente dramáticas dentro do nosso alcance. Quando isso está enquadrado num filme, torna-se numa performance." Uma perspectiva sobre a realidade que tem alimentando o seu interesse e uma carreira essencial no cinema do documentário.

Propomos, então, uma possível definição deste, lembrando o contexto de "Crazy Horse": filmar um documentário como quem capta uma actuação baseada na realidade, sem um ensaio prévio. "A pretensão de um documentário está em obter uma sequência de acontecimentos com diálogos que, apesar de não terem sido escritos como em livros e peças, são reconhecidos enquanto tal", diz. "Quando penso em algumas sequências que consegui capturar em filme, teríamos de ter muita imaginação para nos conseguirmos lembrar de algumas daquelas falas e torná-las credíveis." Por outro lado, explica que "são apenas pessoais normais que o exprimem" e que teve "a sorte suficiente de estar presente quando isso aconteceu. Esse é o risco que encontramos em cada filme, tal como conseguir encontrar sequências que poderão sugerir alguma beleza física [no corpo do filme]." Nesse aspecto, "interessa-me tanto a estética de um filme como ‘Welfare' (1975) como ‘Crazy Horse', e isso requer apenas uma maneira diferente de filmar", diz. Neste último filme, viu-se obrigado a abandonar a sua tradicional película de 16mm para filmar, pela primeira vez, em HD. "Não acho que seja mau, embora não acredite que seja tão bom como filmar em película. Com a correcção de cor no digital, podemos chegar a uma imagem que se aproxima dela."

O seu próximo filme será sobre a Universidade de Berkeley, Califórnia, um documentário que estará mais próximo do recente "State Legislature" (2007), menos performativo. "Parte do que é interessante em fazer estes filmes está em ser sempre uma aventura: nunca sabemos aquilo que vamos encontrar. Sempre que começo, é como lançar os dados, e fico sempre curioso para ver o que vai acontecer."
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Francisco Valente, Público


Fred Wiseman é um dos documentaristas mais importantes da atualidade. Americano, notabilizou-se pela persistente e incisiva observação que, durante decénios, manteve sobre várias instituições do seu país. Nos últimos tempos dedicou grande parte da sua atenção às estruturas-ícones da cultura francesa - no seu sentido mais estrito e simultaneamente mais lato -, filmando "La Comédie-Française ou I'Amour Joué" e "La Dance - The Paris Opera Ballet". A completar o que parece ser uma trilogia 'ocasional', propõe-nos agora "Crazy Horse", sobre o cabaré parisiense que é uma verdadeira instituição do divertimento e uma vitrina sobre a criatividade incidindo nos corpos desnudados, na sua manipulação e na sua fruição.

O que se demarca desde logo na obra de Wiseman é a inteligência do olhar. O olhar é tudo, resumindo. Os fenómenos do objeto observado estão lá, disponíveis. Depende do criador que sobre eles se debruça descortiná-Ios, destacá-los, analisá-los, dá-los à observação dos espectadores do filme final. Sem entrevistas, sem comentários, sem manipulações para além das óbvias presenças da câmara, da equipa e... do 'ponto de vista'!

Aqui, o processo de trabalho é o mesmo de sempre: filmagem durante 10 semanas, sem investigação anterior prolongada, Wiseman confronta-se com os materiais, instala de imediato a câmara, regista centenas de horas de rodagem, finalmente concentra-se diante da mesa de montagem e corta, e cola, e põe, e repõe, e decide o recorte do 'olhar final', através de segmentos que ditam, no seu conjunto, uma série de sugestões livres que facilitam o posicionamento do espectador. Nada melhor, para um material como a construção de um show com as bailarinas do cabaré.


O filme observa a intensa luta – do ponto de vista artístico, e também fi¬nanceiro - que trava o coreógrafo Philippe"Decouflé para erguer o espetáculo "Désir". A câmara que John Davey conduz vai gradualmente penetrando no labirinto do tablado, e depois das discussões e debates da equipa de produção, e depois através dos labirínticos bastidores até ao ponto nevrálgico, a secção mais secreta do cabaré, "onde só é permitido filmar com autorização dos bailarinos", sítio onde realmente estes se despem de si próprios e passam a assumir a nova pele, tessitura plástica à disposição do criador da coreografia. Diz. Wiseman: "Tenho um interesse especial por esta demanda pelo movimento perfeito, com tolos os seus intermináveis ensaios, com o único objetivo de alcançar uma espécie de mestria transitória (...). De facto, já tinha tentado, em projetos anteriores - 'Basic Training' [sobre a instrução militar de jovens recrutas] é um bom exemplo - enfatizar esta coreografia do corpo e dos seus movimentos. Em 'Crazy Horse' não nos encontramos muito longe da parada militar quando observamos aquelas bailarinas, uma espécie de marionetas em toda a plenitude dá palavra." Do corpo se trata, realmente, para lá do rigor clínico com que disseca a instituição. Aqui, observa a harmonia coreográfica, mas também a harmonia dos corpos, a sua iluminação esplendorosa. Que sorte, para ele e para nós, Wiseman ter 'caído' logo na preparação de um espetáculo que tem na nudez do corpo feminino o espelho - a pantalha - para um jogo de luzes inusitado e para uma inovadora marcação dos figurinos em palco.

Wiseman explora "as diferenças entre o ballet e o cabaré", as distâncias de abordagem dos conceitos, a distância do usufruto dos corpos. E sai do cabaré relativamente fascinado, deixando, como quem não quer a coisa, espaço à aguardada sensualidade. E porque de respeito pelas personagens também trata os filmes deste documentarista, o que de vulgaridade e 'exploração' pode sugerir o nome do estabelecimento, aqui a stripper reganha a dignidade de artista e os corpos, desnudados na sua exposição, não estão disponíveis para um olhar gratuito.

Por isso o realizador conquista - está patente no filme - o respeito e a ade¬são das bailarinas que se dão à câmara sem receio e com orgulho.

As curvilíneas profissionais do Crazy Horse nunca mais serão as mesmas depois do filme de Wiseman. Ganharam em dimensão, e em dignificação após vergarem o olhar pouco cuidado de frequentadores e o preconceito habitual voyeurista. Tornaram-se agitadoras do corpo enquanto molde para o gesto artístico. Do coreógrafo Decouflé, claro. E do cineasta também.
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António Loja Neves, Expresso


APRESENTAÇÃO DE FREDERICK WISEMAN

Frederick Wiseman é um realizador americano, nascido a 1 de Janeiro de 1930, em Boston,
Massachusetts. Apaixonado pelo documentarismo, Wiseman realizou a maioria dos seus filmes sobre instituições norte‐americanas.
Depois de estudar direito, começou a dar aulas na área, trabalho pelo qual nunca conseguiu sentir grande entusiasmo. É quando decide que quer dedicar‐se a algo que o apaixone, que lhe surge a ideia de fazer um filme baseado no romance de Warren Miller – “The Cool Word”.

Considerando que nessa altura não contava com qualquer experiência na área do cinema, Wiseman recorreu à ajuda de Shirley Clark para realizar o filme. Esta experiência, contribuiu para que se inteirasse acerca do processo de execução dos filmes, fazendo com que decidisse começar a realizar, produzir e editar ele próprio os seus projectos. Três anos mais tarde, segue‐se a estreia comercial do seu documentário “Titicut Follies”, um olhar imparcial sobre um hospício para criminosos. Foi logo com este filme de estreia, que Wiseman estabeleceu aquele que viria a ser o seu estilo em todos os documentários: recolhe cerca de cem horas de material sobre cada uma das perspectivas e roda os filmes isento de preconceitos descobrindo‐os na sala de edição, num processo que costuma demorar cerca de um ano. Os seus filmes, muitas vezes comparados a ensaios literários, não contêm entrevistas, nem comentários, nem inserção de música, nem uma ordem cronológica. São construídos com base em segmentos temáticos que se complementam entre si formando momentos tanto de contraste como de ligação. Wiseman mostra‐se particularmente interessado em conservar a ambiguidade e a complexidade inerentes a cada projecto.

O ponto de vista dos seus filmes é revelado na sua estrutura, mas a edição deixa sempre margem suficiente para que a audiência possa decidir por si mesma como interpretar o material. Após o seu primeiro filme, “Titicut Follies”, realizou, editou e produziu diversos documentários – numa média de um por ano – com títulos sugestivos nos quais continuava os seus estudos sobre as instituições americanas. Os filmes encontram‐se tematicamente ligados e, de certa forma, podem ser considerados como um longo filme acerca da vida contemporânea. Todas as instituições que Wiseman optou por filmar na América detêm um importante peso social. Os temas dos seus filmes incluem “High School” e” Law and Order” em 1969, “Hospital” em 1970, “Juvenile Court”, em 1973 e “Welfare” em 1975. A juntar a “Zoo”, em 1993, Wiseman realizou mais três documentários acerca da relação humana com o reino animal: “Primate”, em 1974, sobre as experiências cientificas em animais; “Meat” em 1976, sobre a produção em massa de gado destinado a matadouros, e mais tarde, ao consumidor; e “Racetrack” em 1985, sobre o centro hípico de Belmont. Mais tarde, iniciou uma análise sobre a sociedade americana de consumo com “Model”, em 1980 e “The Store”, em 1983.



A inteligência do seu olhar, o seu humor sarcástico e a sua compaixão são as características que mais transparecem nos seus retratos de uma agência de modelos e de uma grande loja “Neiman Marcus”, autênticos ícones da sociedade ocidental moderna. Em 1995 Wiseman expandiu a sua carreira ao teatro e dirigiu “La Comédie Française Ou L’Amour Joué”. Em 1997 explorou novos temas sociais em “Public Housing” ‐ a análise social a uma casa de acolhimento num ghetto em Chicago ‐ e “Belfast Maine” (1999), uma exposição do quotidiano de uma cidade costeira na Nova Inglaterra. “Domestic Violence I” e “Domestic Violence II” (2001 e 2003), filmadas em Tampa, Florida, mostram o trabalho realizado no principal centro de acolhimento a mulheres e crianças, vítimas de violência psicológica. Em “State Legislature” (2006) – uma ode à democracia e ao processo legislativo – Wiseman acompanha o trabalho de dois gabinetes do Idaho State Capitol. Em 2002 Wiseman realiza no Comédie Française “La dernière lettre” baseada num capítulo do romance de Vassily Grossan. “La dernière lettre” é um monólogo sobre os últimos dias de uma médica judia, a viver num ghetto ucraniano, que escreve uma carta ao seu filho alguns dias antes de ser morta pelos alemães. Wiseman foi também responsável por outras peças como “Oh les beaux jours” de Samuel Beckett, igualmente na Comédie Française em 2006.

Os filmes de Frederick Wiseman foram seleccionados e distinguidos em diversos festivais, nomeadamente, o Festival de Cannes, Veneza e Berlim.



Realização: Frederick Wiseman
Director de Fotografia: John Davey
Montagem: Frederick Wiseman
Produção: Pierre Olivier Bardet / Frederick Wiseman
Origem: França/EUA
Ano: 2011
Duração: 128’

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4ªf, dia 8, Biblioteca Municipal - ENCONTRO COM ANTÓNIO FERREIRA

8 de Fevereiro - 15h00 - Entrada Livre


Especial

"CINEMA ENTRE LINHAS"


Encontro com o realizador António Ferreira



Público-alvo:

estudantes do 3º ciclo do ensino básico e do ensino secundário

e público em geral

(inscrição prévia para turmas: 289 870 834)

Como é realizar cinema?
Como é realizar cinema sem ser em Lisboa?
Como é adaptar obras literárias para cinema?
Há diferença entre realizar a partir de argumentos originais ou de adaptações da literatura?

Conversar!


- atividade em parceria com o Cineclube de Faro -


António Ferreira nasceu em Coimbra em 1970.

Em 2000, ganha notoriedade com a curta metragem “RESPIRAR (debaixo d’água)” que o levou até ao Festival de Cannes e com a qual ganhou vários prémios em diversos festivais internacionais.

Em 2002, estreia-se na longa metragem com “Esquece tudo o que te disse”, que se tornou num dos filmes portugueses mais vistos em Portugal nesse ano.

Em 2007 estreia a curta curta-metragem “Deus Não Quis”, com a qual ganha mais de uma dezena de prémios internacionais.

Em 2010 estreia a sua segunda longa-metragem "Embargo", uma adaptação de José Saramago.

Em 2011 encena a sua primeira peça de teatro “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant” de Fassbinder, para o Teatro Nacional D. Maria II.



O projeto “Cinema Entre Linhas” da Biblioteca Municipal de Faro é financiado pelo programa de promoção da leitura da Fundação Calouste Gulbenkian.


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ÀS 3ªF (TERÇAS) (TERÇAS-FEIRAS) NO IPJ - FEV-MAR - MARIAS CHEIAS DE GRAÇA

Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€

FEVEREIRO

Dia 7
CRAZY HORSE
Frederick Wiseman

EUA, França, 2011, 134’, M/16

Criado por Alain Bernardin e inaugurado a 19 de Maio de 1951 na Avenida George V, em Paris, Crazy Horse tornou-se num dos mais emblemáticos cabarés de todo o mundo, onde o estereótipo da beleza feminina e o erotismo dão o mote a um espectáculo de striptease.
É neste cenário inspirador que o mais importante documentarista americano, Frederick Wiseman, regressa ao seu registo habitual, apresentando à sua própria assistência as hierarquias, a disciplina e o sacrifício que implicam uma encenação destas proporções.




Dia 14
UMA SEPARAÇÃO
Asghar Farhadi

Irão, 2011, 123’, M/12

Quinta longa-metragem do iraniano Asghar Farhadi, o filme foi o grande vencedor da 61.ª edição do Festival de Berlim, arrecadando o Urso de Ouro, bem como ganhou o Globo de Ouro e se perfila como o melhor candidato ao Óscar para Melhor Filme Estrangeiro. “A minha homenagem aos cineclubes, que pelo "resto" do país, vai divulgando como pode, estas cinematografias e este "Uma Separação" será mais um. Actores fabulosos que têm aqui a representação das suas vidas. "Uma Separação" é obrigatoriamente um filme a ver.” J. Vieira Pinto




Dia 28
EFEITOS SECUNDÁRIOS
Paulo Rebelo

Portugal, 2008, 97’, M/12

A estreia na longa-metragem de Paulo Rebelo, colaborador de João Pedro Rodrigues em “Odete” e “O Fantasma”, é um bom exemplo de um filme que sabe usar as mais-valias que tem para ultrapassar as suas fraquezas - no caso, um trio central de actores de luxo absoluto e uma encenação escorreita e cumpridora, mesmo que pouco inspirada. Mais inexplicável é o porquê deste filme estar na prateleira desde que foi completado em 2009, exibido apenas em alguns festivais para surgir agora numa estreia “de autor” quase confidencial - destino que, apesar das suas evidentes fragilidades (que não são apenas de primeiro filme) e devido ao capital de simpatia que gera, “Efeitos Secundários” não merecia.
Jorge Mourinha



MARÇO

Dia 6
OFFSIDE – FORA DE JOGO
Jafar Panahi

Irão, 2006, 93’, M/12

Estar fora de jogo é a opção de Jafar Panahi, em "Offside", uma das mais brilhantes e atuantes das suas obras, de 2006, que se estreia agora em
Portugal. Um filme de futebol em que nunca se vê uma bola. Porque muitas vezes o mais importante passa-se onde ninguém está a olhar. No Irão, como noutros países islâmicos, as mulheres estão impedidas de ir ao futebol. Não quer dizer que não vão. Dezenas de raparigas, disfarçadas de rapazes, tentam à viva força entrar no estádio para aplaudir a sua seleção. E os soldados esforçam-se para que isso não aconteça.
"Offside" é sobre as raparigas que são proibidas de assistir ao futebol. Claro que, desta forma criativa, o realizador coloca o foco sobre o próprio regime e sobre a condição feminina nas sociedades islâmicas. Tudo com uma ironia brutal. O filme, em estilo documental, tem um travo de comédia. É simpático e complacente até com os próprios soldados e está cheio de momentos de humor que mostram os aspetos caricatos do próprio regime. E é mesmo ao regime que
se aponta o dedo, apesar de nenhum dado palpável o poder demonstrar. O que Jafar Panahi não esperava é que, deste feita, em vez do futebol, fosse o seu cinema que ficasse fora-de-jogo (foi por causa deste filme que o regime o prendeu e proibiu de filmar durante 20 anos). Um filme que revela a coragem de um homem livre, inspirado num evento real que aconteceu com a filha do próprio realizador, e o vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 2006.




Dia 13
APOLLONIDE - MEMÓRIAS DE UM BORDEL
Bertrand Bonello

França, 2011, 122’. M/16

Não era preciso chegarmos, já perto do fim de “Apollonide”, ao momento em que as prostitutas de um bordel parisiense de 1900 dançam ao som dos Moody Blues para perceber que o filme de Bertrand Bonello não quer ser um objecto realista. Esta reinvenção do quotidiano de um bordel de luxo na transição do século XIX para o XX como um espaço onde a submissão sexual é a chave da liberdade feminina numa sociedade patriarcal onde as mulheres (e por arrasto as prostitutas) são seres de segunda classe é uma espécie de “féerie” luxuriantemente decadente, de uma sublime e requintada elegância, como só o cinema é capaz de criar. O Apollonide de Bonello não é um bordel do corpo tanto como um bordel da alma, onde o sexo é simultaneamente salvação e perdição; é um filme deslumbrantemente esquivo e sedutor, espécie de equivalente fílmico das alucinações geradas pelo absinto.
Jorge Mourinha




Dia 19 (2ªf)
AMÉRICA
João Nuno Pinto
Portugal/Rússia/Brasil/Espanha, 2010, 111’, M/16

Presença de Luísa Costa Gomes, escritora e argumentista

Vítor (Fernando Luís) é um conhecido charlatão, especialista em enganar velhinhas, que envereda por um esquema novo: falsificação de documentos. Liza (Chulpan Khamatova), a sua jovem mulher, é uma imigrante russa que, desde o dia em que casou com ele, se vê sempre metida em sarilhos. Com esta nova ocupação, a vida - e a casa - de Vítor torna-se num ponto de encontro de ex-mulheres, vigaristas e imigrantes ilegais de todas as origens e nações. E é assim que Liza conhece Andrei (Mikhail Evlanov), um emigrante ucraniano por quem se apaixona e com quem tenciona fugir. Mas parece que a propensão de Liza para arranjar problemas só tem tendência a piorar: é que Andrei é procurado pela máfia do Leste europeu, que o tenciona ver morto... Uma comédia em estilo burlesco, realizada por João Nuno Pinto, com a participação do humorista Raúl Solnado, argumento e diálogos de Luísa Costa Gomes.




Dia 27
ATTENBERG
Athina Rachel Tsangari

Grécia, 2010, Cores, 96’, M/16

“Attenberg”, segunda longa de Athina Rachel Tsangari, caiu de pára-quedas em Veneza 2010 e desde então tem vindo a fazer uma carreira internacional que tem dividido a crítica entre a rendição e a rejeição, e faz sentido que assim seja. A realizadora, que estudou nos EUA, vem do experimentalismo e da arte multimedia, pelo que a sua abordagem a esta história de uma rapariga que enfrenta com grande relutância a entrada na idade adulta é tudo menos convencional. “Attenberg” tem tanto de genuinamente humano e emocional como de deliberadamente confuso e provocador, traindo o controlo preciso e formalista com que Athina Rachel Tsangari conduz a sua história. É um filme que, à imagem da sua personagem principal, concilia uma inegável maturidade criativa com um tactear à procura do melhor meio de a utilizar dentro de um quadro narrativo. Tão provocante como mas bem mais acessível do que “Canino”, “Attenberg” é uma pequena e muito recomendável surpresa que não pode nem deve ser vista como um reflexo da sociedade grega contemporânea - mas que é certamente um bom exemplo do cinema grego contemporâneo.
Jorge Mourinha


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