Quantas vezes e de quantas maneiras quis escrever sobre coisas que vi de Antonioni? Quantas vezes escrevi pedaços de coisas sobre sensações que vi sentir por Antonioni? Lembro-me, com certeza, de memória, de frases escritas, de dois textos-ideia diferentes e de mais uma carta/novela sobre uma ida ao cinema com uma amiga italiana em Lisboa – Profissão Repórter.
Textos que nunca acabei por tanto neles querer dizer e encontrar coisas que ilustrassem e sublinhassem o que os filmes e os escritos de Antonioni evocaram.
Lembro-me de, uma noite, em Milão, certa vez, ter-me dado a ver La Notte Gabriele Basilico, um homem de olhar imenso que guarda com fulgorosa serenidade a vida dos lugares que fotografa. Vimos o filme, embalados pela conversa à volta de Antonioni e saímos, na noite, à sua procura em dois edifícios de tijolo, estilo "liberty" numa zona no centro. Foi como poder dar a mão a um actor nos bastidores de um teatro no final de uma representação. A luz dessa noite fez aumentar o encanto do passeio e toda a Milão pareceu entrar nesse profundo silêncio que envolve os filmes de Antonioni, um silêncio que é também espaço suspenso, um silêncio que Antonioni iluminou descobrindo mil faces. O silêncio do momento de um eclipse (L'Eclisse), o silêncio contido de uma explosão (Zabriskie Point), o silêncio de um vulto escondido nos sais de prata de uma fotografia (Blow Up).
Mas o mais material dos silêncios, que fez construir a passagem para um lugar estranho, fora do filme e fora do espaço da sala de cinema foi o silêncio das vozes altas, crú e demorado, ensurdecedor, dos gritos dos estudantes numa assembleia para uma manifestação em Zabriskie Point e dos ecos dos gritos romanos dos correctores de bolsa, alternados com o som abafado do interior de uma cabine telefónica, em L'Eclisse. Foi esse o som que sempre me marcou nos seus filmes, o som do vazio dos movimentos frenéticos de uma coisa indistinta – de uma moltitudine de pessoas e barulho, transformadas em paisagem distante e silêncio.
(por que é que sinto tal buraco no meio do peito?)
Luís Miguel Oliveira, Público, 31.07.2007
O Deserto (Ou: Cinema Negro)

Antonioni enganou-se: era para se ter tornado em devorador da morte, ao mesmo tempo que os seus filmes nisso se transformavam. Ou não. Talvez ele tivesse acabado consigo mesmo quando sujeitou à erosão mais dispersiva as imagens do deserto de Death Valley. Não satisfeito com a explosão de uma vivenda de luxo, tinha ainda feito inçar de amantes e amores as dunas embriagadas do ponto de Zabriskie.
(Anabela, fáfavor de deixar a correr aqui ao ladinho uma guitarrada de Jerry Garcia, qualquer uma das muitas que se ouvem neste filme. Agradecida.)
oh... (bolas!!) :-(

(consigo aprendi a solidão. cineasta da incomunicabilidade? não: entendemo-nos tão bem, sr. antonioni. nessa solidão que é a de cada qual.)
(tanto que me deu. tanto. de tudo, difícil escolher. este, porventura. poesia feita vento nas árvores. o senhor sabia tanto, sr. antonioni. sabia tanto...)
Blow-Up, 1966
10 anos... já!!
Colaborámos diversas vezes.
Com todo o prazer, também nestas comemorações do 10º aniversário.
Sempre às 21h, sempre de entrada livre, sempre no Jardim do Centro de Ciência Viva.
Os filmes são muitA bons. Ficam os trailers:
Dia 3, GENESIS, de Claude Nuridsany e Marie Pérennou.
Dia 4, KOYAANISQATSI - LIFE OUT OF BALANCE, de Godfrey Reggio.
Dia 5, UMA VERDADE INCONVENIENTE, de Davis Guggenheim, com Al Gore.
(mais informações daqui a pouco no nosso site)
Morreu o Bergman? Viva o Bergman!

Chorar um morto
(Fonte da foto: Lamento funebre artificiale. Pisticci (Lucania) in Ernesto de Martino, Morte e pianto rituale, Bollati Boringhieri Torino 2000)
oh...

farewell, mister bergman.
how can we ever thank you for your films?
showing them, discussing them, loving them?
that's a deal, mister bergman. it always was, here at the faro cineclub*.
so long, rest in peace.
(fica este [oportuno...] link, simplesmente porque o video correspondente não apresenta embed code)
* clicar aqui, e escrever Bergman no Campo "Realizador" (mesmo assim, a lista está incompleta)
já agora, livros de e/ou sobre que temos na nossa biblioteca (escrever Bergman no campo "Nome do Realizador")
e, por último (também uma lista incompleta), os filmes que temos em vhs/dvd (de novo, escrever Bergman no campo "Realizador")
[explicação extra: estas listas estão incompletas porque a actualização das bases de dados é um serviço que pagamos à parte ao nosso webmaster, e dinheiro é algo que - DEFINITIVAMENTE!! - não abunda por estas bandas]
Mais postais de NY
(reparem como me mantive fiel ao espírito que defendia para blog e não coloquei aqui uma janela ostensiva com as minhas fuças...)
Até ao próximo!
Happy hour
Era o West side, a rua era a Bleecker, a bebida, margarita, a hora imprópria (para parâmetros americanos era sim imprópria, umas oito à vontade), e eu feita Carrie Bradshaw num dia mau ao balcão de um bar mais ou menos.
Anyway, to cut to the chase, um rapaz pergunta se pode sentar-se no banco ao lado do meu. Boy, can you??, digo eu, certa de que ele não perceberia porque, a) a música estava alta; b) para disfarçar o meu contentamento, tinha feito o habitual ar de couldn't care less à Lauren Bacall, o que, em mim, resulta sempre em algo como Maria von Trapp meet Dory do Finding Nemo mas que nem por isso deixa de servir o seu propósito, ou seja, desconcertar o próximo. Adiante.
O rapaz, parece, é filmmaker. É o que diz aqui no cartão que me deu, e foi como filmmaker que se apresentou. Assim mesmo, Robert --, mão esticada para receber um passou-bem e entregar ao mesmo tempo, com uma flexibilidade que me estonteou, ou seriam as margaritas, o seu business card. Eu deixei de parte a Lauren Bacall, ou a Julie Andrews, tanto faz (a Ellen DeGeneres já tinha deixado muito antes) e, no meu melhor ar de Pauline Kael, respondi, Marina --, film critic.
O cartão de apresentação voou das minhas mãos e voltou para a carteira dele (como o tenho de novo comigo é o MacGuffin desta história, agora vão ter de ler até ao fim). Vi depois no olhar dele que pensava e reconsiderava, a tipa se calhar escreve para os Cahiers ou algo assim estrangeiro, é melhor pensar e reconsiderar. Então fez o pitch do filme. E devolveu-me o cartão. Também me ofereceu uma cerveja. Eram já perto das oito e meia da noite, a sede impunha-se, a vida de um crítico não é fácil.
Às nove estava em casa. Na televisão, o jogo dos All Star no estádio dos Giants em San Francisco. A alternativa era sentar-me à máquina (sempre quis dizer isto) e rememorar o meu dia na cidade.
É, de facto, a cidade perfeita para se ser filmmaker. Ou film critic. Ou nem uma coisa nem outra mas acreditar que sim. Sobretudo acreditar.
Bebamos a isso.
Notícias do Artur (a.k.a. Art, ou ainda A) :)
Deadman- Realização Jim Jarmusch- Música Neil Young

Nobody e William Blake passam por situações cómicas e violentas. Contrariamente à sua natureza, as circunstâncias transformam Blake num fora-da-lei perseguido, num assassino e num homem cuja integridade física vai ficando em risco. Atirado para um mundo que se revela cruel e caótico, os seus olhos abrem-se para a fragilidade que define a esfera da vida.

sugestão do miguel. em recente comentário ao post 'from her to eternity'
(simple men, hal hartley; ???, sonic youth)
(alguém arranja em formato audio? e manda por mail? pra vir a figurar no 'cineclubando' ali ao lado?)
actualização de uma polémica 'antiga'
passado um mês, o que pelo menos prova a vitalidade e importância da discussão que ele motivou. :-)
pareceu-me uma perspectiva importante demais para ficar soterrada numa caixa de comentários que entretanto já estava 'caduca' (só no arquivo)
"Pessoal
desculpe-me a intromissão, mas achei que poderia se oportuno. Não vamos aqui nem Defender Deleuze, nem condenar Deleuze. Deleuze não é o que importa aqui. Ele nem é a " última coca-cola gelada do planeta em dia de calor" mas é um dos mais criativos pensadores contemporâneos. Minha mãe nunca leu Deleuze e nem por isso deixa de ser feliz. Talvez nunca precise de Deleuze. Deleuze é como uma caixa de ferramentas. Quem já tem suas ferramentas não há o que procurar em Deleuze. Ele mesmo falava que o que importa em uma teoria é que faça a mesma funcionar. Quem encontra o que fazer com Deleuze, que faça e faça bem feito. Os demais que não usem. Agora também fazer críticas baratas a um pensador importante não é uma postura das mais interessantes. É melhor dizer que não conseguiu ver o que fazer com suas teorias do que se colocar num pedestal e sair atirando em algo que talvez sequer entendeu.
Fraternalmente."
bem vindo, 'Pedro'!
Peixes e cães (ou, Lynch, mais uma vez)
David Lynch começou a mexer em imagens como pintor. Um dia, frente a um quadro que preparava na Academia de Artes da Pensilvânia, "sentiu o assobio do vento e viu as plantas, na tela em movimento."* Foi como se achou a imaginar se os filmes não seriam uma maneira de dar movimento aos quadros. Ora, essa fixação na imagem pictórica movimentada, e não tanto com uma preocupação narrativa em primeiro plano, ajuda a entender o seu aparente menosprezo pelo fio das intrigas. É como o cão mais irado (beugh!, que estranho fica assim o "angriest") do mundo. De tira para tira, os quatro quadradinhos não se alteram. A história, aparentemente, mantém-se. Ou a imagem. Ou a linha narrativa. Só muda o discurso, aquilo que enforma a ideia. (A mim ninguém me tira que este cão, rei do absurdo, só pode ser a segunda vida do canito do vizinho de Meursault em Argel, n'O Estrangeiro de Camus. Sarnento, enraivecido de velho, dia após dia pontapeado até que, uma bela tarde de passeio, roubado ou fugido, se decide que não regressará ao dono.)
New York, New York
Incompreensível Lynch
Porque é David Lynch um autor (entre outros, claro) tão mal-amado? Para se ser um autor de culto, como sem dúvida é, tem de se manter longe das aclamações institucionais?Inland Empire é uma obra belíssima. Uma vez mais, depois de Mulholland Drive, depois de Lost Highway, de Laura Palmer, depois de Blue Velvet, Eraserhead, nem sei mais quantos nem quais, volta a pisar os riscos de uma terra entre o aqui e o nunca - entre o que escapa à compreensão de instrumentos não mais do que cartesianos, racionais; e aquelas zonas de sombra que a razão, certeira, nem sempre conhece. Desta vez, perdeu-se no rosto de Laura Dern. Confundiu nele os rostos das mulheres confusas que habitam Santa Monica Boulevard, que calcorreiam as confusas ruas de uma cidade de anjos - todos eles desertores de um combate, sem que se perceba se fugiram dali ou se foi ali que se refugiaram. Confundiu num rosto muitos, assim como muitas estradas numa só. E num rosto único contou pedaços de histórias de mil rostos, atravessados pela aura dos anjos que ainda não sabem se já se deu o choque com o chão ou se ainda pairam, sem peso e de olhos carregados, sobre as lixeiras imensas dos mundos de ilusões.
100 melhores filmes de sempre
http://throughablogdarkly.blogspot.com/2007/06/films-that-afi-forgot-twice.html
The ladies man

Quando os franceses, mais precisamente Truffaut, lançam a famosa "política do autor", onde tentam separar o joio do trigo no que dizia respeito ao cinema clássico, deixaram escapar este grande realizador, que para mim fica muito bem ao lado de outros nomes, tão mais reconhecidos, como Billy Wilder ou John Ford. Talvez por só ter feito comédias, um género menos respeitado, em certo sentido, Lewis nunca foi considerado um génio pela grande maioria da crítica. Seu filme de 1961, The Ladies Man, é talvez a obra surrealista mais bem realizada fora do âmbito do movimento. Aliás os surrealistas, que adoravam o cinema e viam nele uma arma eficaz para revolucionar a arte, não realizaram muita coisa. Mesmo Buñuel, que permaneceu surrealista toda a vida, saiu do clube do Breton ainda na altura dos seus primeiros filmes. Dalí acreditava que o que tornava um filme surrealista era o tipo de visionamento - todo e qualquer filme que fosse visto seguindo os preceitos do seu método, a paranóia crítica, converter-se-ia numa obra absolutamente surreal. E todos eles adoravam os cómicos dos anos 20. Animal Crackers, dos Irmãs Marx, era uma obra-prima! E, para mim, o filme de Lewis de que falo aqui, também o é. Um dos grandes problemas dos filmes que "tentaram" ser surrealistas foi o de "esquecerem" um dos princípios fundamentais do movimento: o maravilhoso não surge das sombras da noite, quando dormimos. Mas convive connosco à luz do dia. Não há separação entre o mundo do possível e o do impossível. O sonho frequenta a sala de jantar, não apenas o quarto de dormir. Quem não viu o filme, e gosta de cinema, tem obrigação de fazê-lo porque está tudo lá: desde o metacinema (a cena com George Raft é impagável!); passando pelas delícias do absurdo temperado com pitadas freudianas (um leão que vive numa casa só de mulheres, ideia actualizada por Almódovar em Entretinieblas, onde um tigre vivia num convento) até à convivência pacífica com a televisão, que começava a se tornar uma grande concorrente do cinema. Se não podia vencê-la, não a ignorava, trazia-a para dentro do filme e desmascarava os seus procedimentos. Ando a rever quase tudo dele que saiu em DVD e confesso que cada dia encontro mais motivos para elevá-lo ao meu patamar de realizadores de eleição.
"I think cinema is the only art that operates within the concept of temporality. Not because of its developing in time; there are also other art forms that do so: ballet, music, theatre. I mean `time' in he literal sense of the word. What is a take, from the moment we say `action' till the moment we say `stop'? It is the fixing of reality, the essence of time, a way of preserving time which allow to roll and unroll it forever. No other form of art can do that. Therefore, cinema is a mosaic made of time."Não esquecer!

Amanhã, em duas sessões, o CCF passa o filme de Regina Pessoa, História Trágica com Final Feliz (complementado por uma longa-metragem, Inland Empire, de David Lynch). Será às 18h e às 21h30. O filme tem sido muito premiado e, quanto a mim, cada um dos prémios que recebeu foi merecidíssimo. Não percam - é uma experiência que vale mesmo a pena, pela técnica utilizada na animação, pela história que se conta, pela beleza dos desenhos e pela voz magnífica da narradora (seja na versão portuguesa, a Manuela Azevedo dos Clã, seja na versão inglesa, a Elina Löwensohn, mítica actriz de Hal Hartley).
Listas de filmes
com a promessa de que vou escrever sobre
(mas mai' logo, tenho uma vigilância de exame - oh! estimulante tarefa! - à minha espera daqui a pouquinho)
nova musiquinha a tocar ao lado
E Deus criou a mulher...

Juliete Hardy: That's my favorite song!
Antoine Tardieu: It's the first time I ever heard it.
Juliete Hardy: Me too.
Momento cine-umbilical (ou uma das minhas experiências épico-hípicas)
"Western"
(para a Mirian)
Olha para a janela - o que faz um cavalo no meio do quarto de um palacete vazio?
George Stubbs desenhou cavalos. Autopsiava-os, ele e a mulher; depois pintava o desenho dos membros, da silhueta, do pêlo, dos olhos. Fixava os olhos.
O cinema começa no cavalo. Num momento do galope, as quatro patas soltam-se do chão. Eleva-se o cavalo, o corpo rijo e pesado. A imagem fixa o peso no ar.
Com o deserto por detrás, as montanhas de topos brancos, o desenho do dorso recorta outro movimento. O cavalo conduz a morte - aos homens de coldre, aos homens de rostos pintados - conduz à morte despejada na nuvem de pó, escangalhado na queda e na vertigem da nuvem. O olhar do cavalo não se move.
interrompendo o fluxo da escrita mais um nikito
rita hayworth e glenn ford em gilda, de charles vidor, 1946
(pus mais pequenino... :-((( fica tãooooo pequenino... snif....
Soundtracks - From Her to Eternity
(post a pedido)
No seguimento da "Nouvelle Vague", esta vem a propósito do texto da miriam lá em baixo e do desafio lançado pela marina, para além do filme e da música, brilhantes claro. pena que o video não inclua o fabuloso diálogo que se segue no bar do hotel entre o Bruno Ganz e a Solveig Dommartin...
ps-tb n sou dos maiores fãs d youtubes grandões e pesadões nos blogs, mas acho k fazem sentido neste caso, desde k n abusemos...
Put the blame on me
_01%5B1%5D.jpg)
Gilda: I can never get a zipper to close. Maybe that stands for something, what do you think?

A Laura Mulvey que me perdoe, mas o que teria sido do cinema clássico sem as femme fatale? Outro dia estava a folhear uma espécie de guia de leitura do cinema, feito para se utilizar em escolas, e nele, de forma esquemática, aparecia um quadro que descrevia como a mulher era representada no cinema hollywoodiano: dona de casa, mãe ou femme fatale. Havia mais dois ou três rótulos, dos quais não me recordo. De qualquer forma, caíam todos na dicotómica fórmula: mulheres boas e mulheres más. É claro que o cinema clássico, demasiadas vezes, reproduziu ideias e valores que representavam o que havia de mais conservador na cultura. O que deu azo as leituras das Mulveys e companhia, que acusam este cinema de sexista. E o Hitchcock de tarado (o que não está longe da verdade! Mas que não o invalida como génio!!!). Hoje em dia questiono até que ponto houve um cinema clássico, no pior sentido do termo, quando penso em uns quantos realizadores e mesmo géneros, que pervertiam o sistema o tempo inteiro. E não falo apenas daqueles que a política do autor consagrou. Muitos mais, que eram considerados apenas realizadores competentes, cuja obra ainda necessita de uma revitalizadora exegese. O cinema noir, que funciona quase como um metagénero, instala, confortavelmente, a perversão e o mal no seio das boas famílias. Nas sombras, tudo é permitido. Are you the shadow? No, I'm lost. E das sombras surge Gilda. Um dos mais sensuais strip teases de toda a história é protagonizado pela Hayworth quando tira…uma luva. Diz-se que um das principais armas de sedução do cinema é a pulsão escópica que nos move a todos. A relação, na pulsão escópica, repousa na ausência do objecto percebido, daí o carácter imaginário do seu significante, que se torna uma miragem perceptiva. Apesar dos excessos cometidos, um dos grandes achados da teoria feminista do cinema foi a leitura da imagem da femme fatale a partir da tensão entre o fluxo narrativo e o close up e, consequentemente, o seu papel na erotização do rosto feminino. O rosto, destacado do fluxo narrativo, provoca stasis e cria uma retórica do não-movimento, uma pequena morte, um instante de prazer. Que justifica o impulso à escopofilia e reitera o ponto de vista marcadamente masculino deste tipo de cinema. A femme fatale revela e oculta. Seu rosto, despido no ecrã, ainda esconde segredos. Segredos que irão aguçar o desejo do desvelamento, imbricação de epistemofilia com escopofilia: desejo de conhecer e de ver, mas ao mesmo tempo reconhecer que o visível não está ao alcance da mão, mas está ou esteve ali. Porque é antes de mais nada fotografia em movimento, com carácter ontológico que nos relembra uma presença, agora ausente. O isso foi do Barthes. Na foto, como no filme, a presença fica impressa pela luz, no fotograma. E esta presença emana provocando o desejo. E é do desejo que falamos, quando falamos de mulheres como Gilda.
e eis senão quando uma sugestão dá um belo de um post!
sugestão do miguel na caixa de comentários a 'mais um tema em cineclubando':
acho fantástico o facto de a banda se chamar Nouvelle Vague e o filme utilizado ser um grande emblema do grande movimento cinematográfico (nouvelle vague)
o filme é 'bande à part', jean-luc godard, 1964. a música original é dos Lords of the New Church, interpretada pelos Nouvelle Vague no seu álbum Bande à part, 2006.
Do inefável ;-)
O ARCO-ÍRIS E A CATAPLASMA
Quantos maristas cabem numa passadeira?
Quatro ou cinco?
Quantas colcheias tem um tenório?
1.230.424.
Estas perguntas são fáceis.
Uma tecla é um piolho?
Vou constipar-me para os braços da minha amante?
Excomungará o Papa as embaraçadas?
Sabe um polícia cantar?
Os hipopótamos são felizes?
Os pederastas são marinheiros?
Estas perguntas - também são fáceis?
Dentro de instantes virão pela rua
duas salivas de mão
conduzindo um colégio de surdo-mudos,
Seria indelicado vomitar-lhes um piano
desde a minha janela?
mais um tema em 'cineclubando'
(é para ver se se sentem espicaçados e também nos enviam as vossas sugestões de músicas para cinema / usadas no cinema...)
O passeio de Buster Keaton ou a poesia e o cinema
Em Julho de 1925 Lorca escreve uma peça, em um acto, que se chama El paseo de Buster Keaton. Alguns exegetas do poeta defendem que este texto surge como uma resposta a uma collage enviada por Dalí, no mesmo ano, intitulada El casamiento de Buster Keaton. O pintor parecia querer evidenciar, com este trabalho, a distância entre a arte e a vida: o Keaton personagem, que ambos admiravam, não era o mesmo Keaton que casava com uma famosa actriz da altura. Lorca escreve um dos primeiros textos onde deixa vir à tona o seu desespero e as suas dores de um desejo insatisfeito e não-resolvido, sequer assumido pelo poeta então. Neste texto, vida e arte se (con) fundem de uma maneira bastante intensa e prenhe de um surrealismo avant la lettre na obra deste cão andaluz. É interessante que a escrita lorquiana seja uma escrita poética, mesmo quando de poesia não se trata, e que a sua poesia, profundamente imagética, seja construída, em muito momentos, como se fora um guião. A influência do cinema na obra dos poetas da Geração de 27 espanhola, da qual Lorca é um dos principais membros, tem sido estudada e ainda há muito que se lhe diga. Transcrevo aqui um bocado do texto de Lorca, que mais do que uma peça de teatro, parece um guião, a sua câmara-caneta cria imagens poéticas que tentam, talvez, demonstrar que Dalí estava errado. Só há, para Lorca, um Keaton, de olhos infinitos e tristes como os de uma besta recém-nascida, que o cinema eternizou em gros-plan.El Paseo de Buster Keaton (Lorca, 1925)
(Sale Buster Keaton con sus cuatro hijos de la mano.)
BUSTER K. ¡Pobres hijitos míos!
(Saca un puñal de madera y los mata.)
GALLO. Quiquiriquí.
BUSTER K. (Contando los cuerpos en tierra.) Uno, dos, tres y cuatro.
(Coge una bicicleta y se va.
Entre las viejas llantas de goma y bidones de gasolina,
un negro come su sombrero de paja.)
BUSTER K. ¡Qué hermosa tarde!
(Un loro revolotea en el cielo neutro.)
(…)
BUSTER K. Es emocionante. (Pausa.)
(Buster Keaton cruza inefable los juncos y el campillo de centeno.
El paisaje se achica entre las ruedas de la máquina. La bicicleta
tiene una sola dimensión. Puede entrar en los libros y tenderse en
el horno de pan. La bicicleta de Buster Keaton no tiene el sillón de
caramelo, ni los pedales de azúcar, como quisieran los hombres
malos. Es una bicicleta como todas, pero la única empapada de
inocencia. Adán y Eva correrían asustados si vieran un vaso lleno
de agua, y acariciarían en cambio la bicicleta de Keaton.)
(…)
BUSTER K. (Levantándose.) No quiero decir nada. ¿Qué voy a decir?
UNA VOZ. Tonto.
BUSTER K. Bueno. (Sigue andando.)
(Sus ojos infinitos y tristes como los de una bestia recién nacida,
sueñan lirios, ángeles y cinturones de seda.
Sus ojos que son de culo de vaso. Sus ojos de niño tonto. Que son
feísimos. Que son bellísimos. Sus ojos de avestruz. Sus ojos humanos
en el equilibrio seguro de la melancolía.
A lo lejos se ve Filadelfia.
Los habitantes de esta urbe ya saben que el
viejo poema de la máquina Singer puede circular entre las grandes
rosas de los invernaderos, aunque no podrán comprender nunca
qué sutílisima diferencia poética existe entre una taza de té caliente
y otra taza de té frío.
A lo lejos, brilla Filadelfia.)
BUSTER K. Esto es un jardín.
(Una Americana con los ojos de celuloide viene por la hierba.)
AMERICANA. Buenas tardes.
(Buster Keaton sonríe y mira en gros plan los zapatos de la dama.
¡Oh qué zapatos! No debemos admitir esos zapatos. Se necesitan
las pieles de tres cocodrilos para hacerlos.)
(…)
BUSTER K. (Suspirando.) Quisiera ser un cisne. Pero no puedo aunque quisiera. Porque
¿dónde dejaría mi sombrero? ¿dónde mi cuello de pajaritas y mi corbata de moaré?
¡Qué desgracia!
(Una Joven, cintura de avispa y alto cucuné, viene montada en
bicicleta. Tiene cabeza de ruiseñor.)
JOVEN. ¿A quién tengo el honor de saludar?
BUSTER K. (Con una reverencia.) A Buster Keaton.
(La joven se desmaya y cae de la bicicleta. Sus piernas a listas
tiemblan en el césped como dos cebras agonizantes. Un gramófono
decía en mil espectáculos a la vez: «En América, no hay
ruiseñores».)
BUSTER K. (Arrodillándose.) Señorita Eleonora, ¡perdóneme que yo no he sido!
¡Señorita! (Bajo.) ¡Señorita! (Más bajo.) ¡Señorita! (La besa.)
(En el horizonte de Filadelfia luce la estrella rutilante de los
policías.)
Teorias
Tenho andado aqui pelas caixas de comentários em algumas "bulhas" intelectuais sobre a utilidade ou não de se ler/estudar os teóricos (Deleuze, etc), sobretudo no âmbito de escolas de cinema que queiram formar criadores/autores (realizadores/argumentistas) e não "teóricos de cinema" ou críticos (daí que pelo menos nas escolas norte-americanas se faça essa louvável distinção entre uma área de "film studies" e outra de "film directing"), e encontrei uma citação no Nietzsche (A Origem da Tragédia) que parece resumir um pouco o que penso igualmente. No excerto em baixo experimentem substituir "poesia" por "cinema", "poeta" por "realizador", e "dramaturgo" por "argumentista" (embora esta última palavra não precisasse de substituição por ser equivalente ou, no caso, podia ser igualmente substituida por "actor")."Se muitas vezes falamos de poesia em termos tão abstractos é que, de ordinário, todos somos maus poetas. No fundo, o fenómeno estético é simples; so é poeta o homem que possui a faculdade de ver os seres espirituais que vivem e brincam em torno dele; só é dramaturgo o homem que sente o impulso irresistível de se transformar e de falar mediante outros corpos e outras almas."






