esclarecimentos :)))))

Só um esclarecimento: a minha citação do Deleuze foi absolutamente aleatória como acho que o que ele escreve é também absolutamente aleatório, um bom exercício, se quisermos, de improvisação jazzística cine-filosófica... Há quem não consiga apreciar os filmes só pelo que eles são e precisa de discorrer tomos insuportáveis que depois obrigam os estudantes de cinema a ler, castrando toda e qualquer inspiração que tenham para fazer cinema e acabando com o cinema que temos... :) Os alunos das escolas de cinema, que usam e abusam do Deleuze, quando vão filmar ficam bloqueados sem saber onde colocar a câmara, pois têm dúvidas se o plano que estão a fazer é uma imagem-tempo ou uma imagem-movimento... A todos eles aconselho a resposta do David Mamet a quando lhe perguntam onde é que é para pôr a câmara: "Over there!" :)
Artur, em caixa de comentário ali abaixo.

Por partes:

1. para o caso de não ter ficado claro, eu estive ali a inventar uma série de frases sem sentido nenhum. o meu propósito era gozar com a ideia de que 'isto tem de subir de nível' e poder rematar com o que me interessava enfatizar: que ela é boa como o milho.

2. donde, artur, sim, quantas vezes, olhamos para a teoria mais complexa e ficamos atrofiados e incapazes de acção (sem ser a de dizer 'olha que gaja mais boa / olha que até o comia todo'. essa, espera-se, manteremos sempre).

3. com a tua observação voltamos ao post da marina e respectivos comentários... até que ponto é a teoria necessária ou mesmo útil para usufruir um filme? responderei de uma maneira apressada: provavelmente, não é. mas para usufruir o cinema, é, sim.

4. depois, há teorias e teorias. umas insuportavelmente herméticas e que se deleitam em sê-lo (caso do deleuze) e outras tão claras, cristalinas e transparentes que o cinema passa a sê-lo ainda mais (sei lá, bazin).

5. por último, a mim que não ocorre, nunca ocorreu ou ocorrerá fazer cinema, é absolutamente adorável a teoria mais teórica, obscura, pura e dura (mesmo deleuze, mesmo que eu discorde dele, até talvez por isso mesmo). nado nela como o tio patinhas na piscina das moedas (quero eu dizer, o meu prazer em nadar nela é semelhante ao do tio patinhas etc). e tal nunca afectou minimamente o prazer que retiro em ver um filme, seja de entretenimento hollywoodiano seja do mais instransigente bergman. mas aceito que, para um aluno de uma escola de cinema que leve a teoria demasiado a sério, ela possa ser castrante ou pelo menos desorientante (sei que não existe a palavra, foi só para rimar :D ...

pelo que, como em tudo, imagino que seja uma questão de bom senso. e bom gosto. para ambos os lados.

bora lá aos contraditórios! :-)

9 comentários:

Artur Ribeiro disse...

Bom, à conta deste blog ainda fui ler o Guatarri que felizmente na minha inocente vida cinéfila e cineasta até agora não tinha ouvido falar... Cáspite! Ao convidarem-me para este blog vocês criaram um monstro!!! He's alive!!! :)

anabela moutinho disse...

ahahhahaha.

quem diria, hein???

Mirian Tavares disse...

um monstro com senso de humor!!! e disposição para ler Guattari :-) Acho que devíamos montar uma produção em série ;-)

marina disse...

eu acho, só para contrariar, que muito bom aluno de cinema devia ler deleuze, sim senhora, e guattari (eu acho-os fantásticos, já agora). essa de pôr a câmara "over there", do david mamet, é muito bonita, mas uma coisa é o david mamet, outra é um aluno de cinema que pensa que é o david mamet. o que me leva de novo ao meu post (e único): cinema não é uma questão de "over there", de "whatever", de "take your pick", nem para o crítico nem para o cineasta, muito menos para o estudante de cinema; um aluno de cinema, antes de poder pôr a câmara onde bem entender, tem de ler muito guattari e deleuze, sim, e boudry, e dayan, e mulvey, e mcluhan, e, sei lá, todos.
ou se calhar sou eu que estou feita uma chata desde que me apaixonei por... deleuze(?)

Artur Ribeiro disse...

Tenho que responder à provocação, claro :) Um aluno de cinema que queira ser crítico ou "filmosófico", pode e deve ler tudo e mais alguma coisa -- mas pode e deve também abster-se de querer fazer filmes. Mas um aluno de cinema que queira ser realizador ou argumentista não tem absolutamente nada de ler Deleuze e afins. Pode ler, claro, e se for inteligente não lhe fará mal nenhum (mas também tenho a certeza que não adiantará nada ao seu talento de criador, se o tiver). O aluno de cinema tem é de experimentar e, o mais importante de tudo, para poder saber onde pôr a câmara tem de ter alguma coisa para dizer (por isso que o Mamet sabe que a câmara é "ali", porque sabe que é o sítio certo para aquilo que ele quer dizer -- ver o texto de onde vem esta citação "On Directing Film"). E o resto é conversa -- venham mais uma cervejinhas e sardinhas para acompanhar :)

marina disse...

Vencida mas não convencida. Um realizador não precisa, de facto, do Deleuze para aprender a colocar a câmara, mas, por essa ordem de ideias, se a posição da câmara não passar de uma escolha pessoal, também não precisará do Mamet. Só queria dizer, na minha defesa da teoria chatíssima e hermética dos deleuze desta vida, que um realizador deve ter lido, deve saber ler, deve querer pensar a posição da câmara como antes pensou a filosofia (de Deleuze ou de outro à escolha).
Ou então sou eu que ando a ler demais.
Venham então essas sardinhas, e sardinheiras, Lisboa, que saudades.

Artur Ribeiro disse...

Mas só uma pergunta: achas que o Antonioni pensava no Deleuze quando filmava? :) O Deleuze é uma espécie de vampiro que se apropria à posteriori de coisas criadas por autores que de certo não pensaram em nada do que ele escreve ao colocar a câmara, e de certo que não se revêm em nada do que ele escreveu sobre os seus próprios trabalhos. Não sei se há alguma veracidade histórica no que acabo de afirmar mas se houver factos que me contradigam riscarei esses realizadores da minha lista de favoritos... :) (o Godard acho que a princípio disse que o Deleuze não percebia nada de nada mas mais tarde aceita-o e cita-o, o que vai de encontro ao que eu acho do Godard também - começou bem, depois perdeu-se -- mais uma vez não tenho nenhuns dados históricos mas quase que apostava que foi quando começou a levar a sério o Deleuze. :) Bom, um dia deste tenho uma fatwa contra mim neste blog :) Já se percebeu que tive de ler os dois tomos do Deleuze para um trabalho de licenciatura? :) Mas só para terminar também acho que não é preciso ler o Mamet. Mas é preciso ver o Mamet e o trabalho de outros realizadores e argumentistas. O Deleuze e amigos é que não têm nada para ensinar, e para ler, é muito melhor ler o Shakespeare!

Pedro disse...

Pessoal
desculpe-me a intromissão, mas achei que poderia se oportuno. Não vamos aqui nem Defender Deleuze, nem condenar Deleuze. Deleuze não é o que importa aqui. Ele nem é a " última coca-cola gelada do planeta em dia de calor" mas é um dos mais criativos pensadores contemporâneos. Minha mãe nunca leu Deleuze e nem por isso deixa de ser feliz. Talvez nunca precise de Deleuze. Deleuze é como uma caixa de ferramentas. Quem já tem suas ferramentas não há o que procurar em Deleuze. Ele mesmo falava que o que importa em uma teoria é que faça a mesma funcionar. Quem encontra o que fazer com Deleuze, que faça e faça bem feito. Os demais que não usem. Agora também fazer críticas baratas a um pensador importante não é uma postura das mais interessantes. É melhor dizer que não conseguiu ver o que fazer com suas teorias do que se colocar num pedestal e sair atirando em algo que talvez sequer entendeu.
Fraternalmente.

anabela moutinho disse...

vou transformar isto em post, valeu?

obg e bem vindo!

:-)