Encerramento do Tributo a Rohmer - Conto de Outono no Pátio de Letras. Sábado, 17h, entrada livre.

Conto de Outono

Este delicioso Conto de Outono, o último a ser filmado da série "Contos das Quatro Estações", é mais uma peça admirável de subtileza de escrita e «savoir faire» narrativo.

Mais do que isso, esta história das casamenteiras que querem arranjar um noivo para a protagonista acrescenta um novo capítulo a uma dimensão sociológica, essencial no trabalho de Rohmer. Que é como quem diz: dispensando todas as facilidades das «teorizações» mais mediáticas, ou apenas mais preguiçosas, Rohmer oferece-nos mais um painel de usos e costumes da França contemporânea. Tudo com a ironia que é apanágio dos mestres.
João Lopes, cinema2000.pt

Depois de Conto de Verão, Conto de Inverno e Conto da Primavera, Eric Rohmer despede-se das quatro estações com este esfuziante baile na aldeia. Como sempre, em Rohmer, uma maquinação amorosa - uma quarentona, Magali, sozinha desde que os filhos partiram, está à espera que os amigos lhe arranjem marido - e um grupo de personagens com a convicção firme de que conduzem os seus destinos. Mas, também como sempre nos filmes de Rohmer, há uma disponibilidade nas personagens para o logro - ou para se deixarem enredar no acaso.

Qual a diferença, então, entre Conto de Outono e o resto da obra do cineasta? É que sendo este menos um filme sobre o amor e mais um filme sobre a análise do amor, a luz dourada da Provença, a sólida arquitectura campestre, as teias de mal-entendidos e de folhagem conferem uma estrutura romanesca a mais uma "divertimento sério" deste insondável cineasta. Mas sendo um filme "outonal" - não por acaso, Rohmer foi buscar duas quarentonas que são veteranas na sua obra, Marie Rivière, Béatrice Romand - acaba por ser a grande comédia para este Verão.
Vasco Câmara, cinema2000.pt


e, em jeito de balanço de toda a série...

A organização da obra de Eriç Rohmer em "séries" (antes destes "contos sazonais", que num desafio ao calendário começaram pela Primavera e visitaram depois o Inverno, o Verão e, agora, o Outono, já tinha havido os "Contos Morais" e as "Comédias e Provérbios"), para lá da inabalável coerência interna de cada uma delas, não deixa de ser em si mesma uma considerável "boutade". Em Rohmer tudo rima com tudo, as correspondências e equivalências nunca se podem limitar ao constante de cada série. Até porque, não raras vezes, há "corpos estranhos" de permeio: pense-se em Os Encontros de Paris, estreado há poucos anos, que é impossível isolar completamente destes "contos de estações". Apaixonado pela pintura, Rohmer não resiste à utilização do titulo de um filme como parte integrante dele, ou seja, a tomá-lo como gerador de sentido, para iluminar ou para obscurecer. A reunião de grupos de filmes debaixo de um titulo genérico é sobretudo uma maneira de provocar a interpretação do espectador.

Dito isto, há sempre qualquer coisa que justifica esse titulo genérico. No caso destes "contos" é tudo uma questão de tom, de luzes e de cores. Cada estação - portanto, cada filme - tem a sua própria "mitologia", e não é tresler muito se dissermos que é ela, muito mais do que a narrativa, que vem relacionar filme e título. Rohmer é, de resto, um cineasta muito mais pictórico do que à primeira vista se imagina: um olhar atento sobre os seus filmes não pode ignorar a importância da composição (cromática, entre outras) na definição da atmosfera e do espírito que preside a cada um deles. E a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno são, afinal de contas, motivos tão bons como qualquer outros para a pintura de paisagens e sentimentos onde tudo o que conta são as modulações na luz e na cor.
Luís Miguel Oliveira, Público


Título original: Conte d'Automne
Realização: Eric Rohmer
Argumento: Eric Rohmer
Interpretação: Marie Rivière, Béatrice Romand, Alain Libolt, Didier Sandre, Alexia Portal...
Direcção de Fotografia: Diane Baratier
Música: Claude Marti, Gérard Pansanel, Pierre Peyras, Antonello Salis
Montagem: Mary Stephen
Origem: França
Ano de estreia: 1998
Duração: 112’


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Andrei Rubliov de Tarkovski. Hoje, 18h, Loulé: aqui tão perto.

Auditório do Instituto D. Afonso III (Convento Espírito Santo). Entrada livre.

ANDREI RUBLIOV, segunda longa-metragem de um dos grandes mestres da sétima arte, o russo Andrei Tarkovki, é um dos seus mais belos e aplaudidos filmes, tendo recebido em Cannes, em 1969, o prémio do Júri da Crítica Internacional.

Considerado por muitos a obra-prima de Tarkovski, o cineasta aborda, através da história da vida do pintor do século XV Andrei Rubliov, a eterna questão do artista contra a autoridade, mas também a da solidão de um génio e a sua capacidade de se erguer acima das multidões, e os problemas da fé e da falta da mesma.

O filme, que poderia ser descrito como um fresco ficcional constituído por episódios ligados por uma lógica mais poética que narrativa, foi apontado em 1995 pelos membros da Academia Europeia de Cinema e Televisão como um dos melhores dez filmes de sempre.

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Andrei Rubliov é peça fundamental no conhecimento internacional do seu realizador Andrei Tarkovski. Para isso contribuíram as dificuldades de difusão que encontrou na União Soviética. Como refere Ivor Montagu, num artigo inserido na revista inglesa Sight and Sound (Primavera 1973), as causas da proibição do filme na União Soviética não são muito claras; julga-se que a acusação de falta de verdade histórica terá estado na origem da sua interdição até 1971.


Andrei Rubliov foi um célebre pintor de ícones - um génio, no dizer de Tarkovski - que viveu entre 1370 e 1430. Talvez que a forma como o filme de Tarkovski recusa o simples preenchimento das convenções biográficas da lenda tenha, de algum modo, contribuído para a citada acusação. Tarkovski lembrou, a propósito, que tal acusação peca por falta de fundamentação: tendo em conta que pouco ou nada se sabe sobre a vida de um monge que viveu há mais de 500 anos, o mesmo critério deveria levar-nos a recusar também obras como Hamlet ou Júlio César.

No fundo, a questão formal que assim se levanta não é alheia, muito pelo contrário, à mise en scene do próprio filme. A suposta "inverosimilhança histórica" de Andrei Rubliov decorre do método narrativo e dramático adoptado por Tarkovski, nele radicando grande parte do fascínio e do carácter de excepção do filme.

Para Tarkovski, a história não é um espaço de integração (em categorias conhecidas), mas um lugar de permanente dispersão. A estrutura do filme não diz outra coisa: respeitando uma certa linearidade cronológica, ele está, ao mesmo tempo, organizado por episódios relativamente autónomos ("Jogral", "Juízo Final", "Sino", etc.) e que mutuamente se respondem e interrogam.
Assim como A Infância de Ivan, primeira longa-metragem de Tarkovski, se apresentava ciclicamente contaminado pela emergência do sonho, a ponto de o "histórico" e o "onírico" se articularem num originalíssimo regime narrativo, assim também em Andrei Rubliov podemos falar de uma relação singular entre o "simbólico" e o "individual". Mais precisamente, a trajectória do personagem Andrei Rubliov vai sendo marcada por episódios que instalam na sua existência a perplexidade do facto artístico e a inevitabilidade do acontecimento histórico: é o caso do desafio inicial do homem que voa e é, sobretudo, o caso do rapaz que decide fundir o sino, sob pena de perder a vida. Rubliov atravessa quase todos esses episódios como espectador, quer dizer, como alguém cuja prática profissional o exclui de uma participação directa, ao mesmo tempo que questões lancinantes emergem.

Consequência principal deste método é o facto de a história de Andrei Rubliov surgir como algo que escapa ao efeito de terminante ou determinista de qualquer centro (incluindo, naturalmente, o próprio Rubliov). Cada acontecimento da vida do personagem surge como prova, num duplo sentido: qual a verdade da história e qual a história da verdade?

"É estranho. Tudo o que realizei, tudo o que tenho a intenção de realizar está sempre ligado a personagens que têm qualquer coisa a superar, que devem vencer em nome desse optimismo ao qual dou tanta importância e de que falo constantemente. Dito de outro modo, o meu tema é este: um homem, apoiado por uma ideia, procura apaixonadamente a resposta a uma questão, vai até ao fim na sua procura para compreender a realidade. E obtém essa compreensão graças ao que experimenta, à sua experiência individual". Tarkoski (Moscovo, Julho de 1969)

A bem dizer, não há história em Tarkovski, isto é, não há evolução factual que não se reinscreva na dimensão estrita de um universo individual(izado) e, em tal deslocação, se amplie e reduza segundo uma lógica que escapa a qualquer verdade colectiva. Uma vez mais, o fabuloso episódio do sino encerra a acção de Andrei Rubliov pode servir de sintoma esclarecedor. Em primeiro lugar, tudo se desencadeia a partir de um logro fundamental: Boris, o rapaz responsável pela fundição, não sabe, realmente, a técnica a utilizar: depois fundição do sino é vivida com espectacular evento social, ao mesmo tempo consagração do poder divino e confirmação de vários poderes temporais; finalmente, tudo isso ecoa em Andrei Rubliov como efeito de desbloqueamento do seu silêncio e do seu desejo de pintar.

O fantasma dominante deste filme é, por isso, o da utilidade da arte, quer dizer, o da sua recuperação por discursos que a podem tornar fiel a um certo destino ou a um certo significado. Ao mesmo tempo, porém, há sempre um excesso que multiplica o ser da arte, confirmando o seu saber mas também o seu irrisório de não ser senão... arte.

Repare-se ainda como Andrei Rubliov não passa de mais um dos órfãos filmados por Tarkovski, ser de uma solidão que só encontra expressão na imensidão sempre reencontrada na natureza. Não é, por isso, a natureza um lugar de redenção em Tarkovski, mas um continente sempre aberto e em constante transfiguração que prolonga as contradições interiores do homem perante a afirmação do seu ser. A arte surge, então, como objecto devolvido à natureza e ao seu movimento. Não é, por isso, acidental, que a chuva comece por aparecer sobre a matéria dos ícones, antes do plano final dos cavalos junto à água. Talvez que a água corrente com que se inicia Solaris, o filme seguinte de Tarkovski, não seja senão a expressão do mesmo rio.

João Lopes, in 100 Dias 100 Filmes, Cinemateca Portuguesa


(colaboração com Allgarve '10)


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um homem só

a tentação de dizer que o filme do tom ford parece com os seu fatos é grande. e pode parecer um cliché. mas por ser cliché não é menos verdade. sóbrio e moderno. limpo. sem excessos. mas tão sem excessos, tão sem excessos que se percebe a mão do estilista. e realizador. um bom filme, bons actores, boas imagens e uma excelente história. li o livro do isherwood há vários anos. e dele tinha apenas uma lembrança: um percurso entre a casa e a universidade que se repetia vezes sem conta. e que se tornara invisível para o condutor - um homem só. e é desta solidão, ou da condição humana que pode ser traduzida, muitas vezes, pela solidão, que nos fala o escritor. e também o filme. e tanto num como no outro vemos que a solidão é um espaço que habitamos, é uma roupa que decidimos vestir. por isso não gostei da tradução do título do filme: um homem singular. porque singular não é necessariamente solitário. e mais do que um homem singular, porque ele é apenas mais um que vive esta condição demasiado humana, ele é um homem só. e o filme trabalha com esmero o em torno, os detalhes, o cenário. é um bom filme, acho eu. demasiado contido e bem vestido. mas temos de aprender a olhar também para as aparências. nem sempre o que devemos ver está, necessariamente, escondido.

Fome de Steve McQueen: uma obra-prima incontornável. 2ªf, IPJ, 21h30. Vai perder?...

sobre o filme:

Primeira identidade de "Fome", de Steve McQueen: é um filme que conta uma história.
A história dos últimos meses de vida de Bobby Sands, membro do IRA, que morreu em 1981, depois de 66 dias de greve de fome na prisão de Maze, Irlanda do Norte.

Segunda identidade de "Fome", de Steve McQueen: é um filme, realizado por um artista plástico, que está para lá dessa história. Dito de outro modo: lida com questões e temas intemporais e que, por isso, pertencem também ao presente. É difícil não pensar em Abu Grahib (embora o projecto se tenha iniciado antes da ocupação do Iraque pelos EUA) ou nos gestos tão resolutos quanto absurdos dos suicidas islâmicos.

"Fome" é um filme, também, sobre o bem e o mal, sobre relação entre o indivíduo e a sociedade (ou o Estado): repare-se na violência que estala, que se ouve no seu interior. Sobre a linguagem e o som: no diálogo entre um padre e o activista Bobby Sands ou no momento em que este parece perder a audição. Sobre o espaço e as suas texturas: das paredes, das feridas, do chão.


Oferece-se, por isso, como uma experiência - por vezes, mais do que a memória - ao corpo, à pele e aos sentidos, entre a narrativa e abstracção. Dirão que se trata, afinal, de um filme realizado por um artista plástico. É verdade, e ainda por cima reconhecido, talentoso. Mas este é o Corpo a última resistência. O artista plástico Steve McQueen fez um filme que conta a morte, por greve de fome, do activista do IRA Bobby Sands. Mas fez mais do que isso: o filme oferece-se como experiência ao corpo, à pele, aos sentidos. "Fome" leva-nos (a todos) com ele.

Então, quem é Steve McQueen? O que é "Fome"?

"Um grande filme. Uma obra total", diz-nos João Tabarra, "sobre um tema que trabalho há anos e que é a condição humana. Onde o torturador e o torturado se confundem, e que mostra o acto do corpo como forma última de resistência. Estamos todos neste filme". Para o artista português, um dos aspectos mais significativos da primeira obra cinematográfica de McQueen é, exactamente, o facto da significação ética e filosófica das imagens não ser limitada pelo contexto escolhido (a greve contra o governo de Thatcher que recusava o estatuto de prisioneiros políticos aos membros do IRA). "Ultrapassa-o para nos relembrar o mundo e a barbárie no mundo. E constrói, tem tempo, sobretudo na cena da conversa sobre o paradoxo do suicídio. Um tempo aliás diferente daquele que nos querem impor, embora também seja verdade que o encontro noutros filmes".


"Fome" é "um filme que constrói uma tensão entre os enquadramentos fechados da imagem e a arquitectura da prisão, quer através da enfatização que ambos emprestam um ao outro, com movimentos mecânicos e geométricos prolongados, quer pelo conflito que os movimentos da câmara também travam com esse espaço". No meio, acrescenta, estão "as personagens, sob estado de excepção e na espiral de violência de um conflito remoto, vítimas do castigo produzido pela violência e de uma justiça que se coloca acima do direito". É por essas personagens (sobretudo Bobby Sands e o padre Dominic Moran, quando este tenta convencer o primeiro a desistir da greve de fome) que, segundo Lapa, "passam a memória de muitos diálogos, como o de 'Antígona'", que aqui é "testemunho do terror secreto enquanto fundamento da ordem social e não apenas reclamação dos direitos humanos com que a democracia a lê"; refira-se que a conversa entre o religioso e o mártir político, filmada num único "take" de 20 minutos, é um dos momentos centrais de "Fome".


Finalmente, as cenas finais do corpo de Bobby, quando este caminha para a morte, merecem do director do Museu do Chiado uma leitura que toca uma problemática central dos limites da imagem: "Steve McQueen aborda o problema da representação e da interdição da representação: pelo sofrimento extremo e a impossibilidade de o transmitir por um dado meio artístico; e pelo interdito de proporcionar uma representação de algo demasiado monstruoso. E aqui estamos diante de Adorno sobre a possibilidade da poesia depois de Auschwitz. Muita arte moderna baralhou ambas as condicionantes e o artista procura oscilar entre os limites destas situações, mas só pode fazer como o filho de Bobby Sands, correr até a floresta escurecer muito e voltar."


Quanto às diferenças entre "Fome" e a restante produção de McQueen, identifica aspectos que permanecem, como "os enquadramentos fechados, as oscilações rítmicas entre o enquadrar e desenquadrar, os deslocamentos de câmara, a dimensão performativa e a relação próxima entre os processos formais e a sua alegorização numa narrativa". De novo, apenas, o desaparecimento do dispositivo da instalação e a presença de elementos como personagens e narrativa (ou seja, o cinema) Mas, sobretudo, um novo entendimento da relação (que já vem desde 2001) entre ficção e realidade ou entre ficção cinematográfica e documentário. "Ele ficciona uma narrativa através de dados documentais precisos para contar a história e sobre ela construir inteligibilidades. Se noutras obras tudo era filmado a partir da realidade e a construção e encadeamento das imagens produzia uma alegoria, em 'Fome' o processo é inverso. A ficção interpreta o documento".
Talvez seja na actualização dessa relação, entre o real e ficção, no seio da qual se encontra a narrativa, que "Fome" deva ser visto como cinema. Um cinema onde estamos todos.

José Marmeleira, Público

sobre o realizador:

A prisão e as fugas têm sido tema recorrente do cinema, quer na sua dimensão ficcional, incluindo adaptações de obras literárias, quer na sua faceta documental. Do erotismo de "Un chant d''amour" (1950), de Jean Genet à tensão de "Alemanha no Outono" (1978), um filme colectivo (Fassbinder entre os realizadores) centrado nos acontecimentos relacionados com os Baader-Meinhof, passando por "Titicut Follies" (1967), reflexão de Frederick Wisman acerca de uma prisão-hospital americana ou ainda pela lição de estética "Un Condamné à Mort s'est Échappé" (1956), de Robert Bresson, há uma multiplicidade de pontos de vista sobre as relações sociais que se estabelecem num espaço concentracionário. Falta, é certo, de um século soterrado de imagens, mais documentos que testemunhem o mal absoluto, essa interrogação permanente de Jean-Luc Godard, Marcel Ophüls ou Claude Lanzmann. Uma situação comum a tantas histórias, sobretudo aquelas que se querem distantes do olhar.


A primeira incursão cinematográfica de Steve McQueen (Londres, 1969), "Fome", é a mais próxima do corpo, neste caso o de Bobby Sands (Michael Fassbender), que parece transportar consigo todas as dores do mundo, de Cristo às vítimas da Sida - veja-se a segunda metade do filme, nomeadamente as imagens do hospital, tão próximas de tantas registadas a partir dos anos 1980 - e é nesse tempo que morrem também, em consequência de uma greve da fome, os prisioneiros do IRA. No âmbito de um filme político, a dimensão física dos planos sublinha que é ali, na gestão do corpo, da vida, onde tudo se joga: uma biopolítica, portanto. McQueen assinou já outras obras, enquanto artista plástico, nas quais a violência exercida sobre o humano constitui ponto essencial da reflexão - veja-se "Western Deep" (2002), descida ao fundo de uma mina na África do Sul.


A obra plástica de McQueen tem como protagonista o corpo, mas este politicamente investido, lembrando as teses de Michel Foucault para quem, já em 1974, a "luta pelos corpos" fazia da sexualidade um problema político. A condição de negritude do artista passa por algumas das suas obras mais significativas, de "Bear" (1993) - o filme de Genet ecoa aqui - a "Western Deep", passando por "Girls Tricky" (2001) ou ainda por "Exodus" (1992/ 1997). Luta pelos corpos, corpos que lutam e suam, explorados, colonizados. Corpos que cantam e caminham, em êxodo. Corpos que devêm escultura, como em "Deadpan" (1997), "remake" de uma cena de "Steamboat Bill Jr.", na qual um impávido Buster Keaton é atravessado pela fachada de uma casa - o agora cineasta manifestou o desejo, impossível, de ter como argumentista de "Fome" o escritor e dramaturgo Samuel Beckett (1906-1989), de quem o único filme, "Film" (1965), tem como protagonista Keaton. E há ainda o corpo de "Illuminer" (2001), vídeo no qual se observa, no escuro de um quarto hotel, McQueen deitado numa cama, sendo a sua presença apenas perceptível através da luz emitida por um televisor, onde passa uma reportagem acerca da presença dos exércitos britânico e americano no Afeganistão.


"Fome" pode ser assim visto como um prolongamento natural da obra plástica do artista. A proximidade aos corpos, a atenção às questões políticas, a forma de filmar - o grande plano - e ainda a tentativa de colocar o espectador dentro da acção, sobretudo através da escala do ecrã, são características de trabalhos anteriores de McQueen que podem ser detectadas na longa-metragem. Menos detectáveis são as influências exteriores, mas elas podem ser intuídas aqui e ali. O realizador, respondendo a uma pergunta relativa às suas influências no caso de "Fome", afirma, em entrevista à revista "Cahiers du Cinéma": "A grande referência é a pintura, mais particularmente a pintura espanhola, e sobretudo Velázquez - a sua forma de usar a luz natural em interiores, de uma maneira realista, mas que, de alguma maneira, dramatiza a visão, dá-lhe uma forma de gravidade e ao mesmo tempo atribui uma dignidade a tudo aquilo que ele representa, compreendendo o que poderia parecer horrível ou grotesco."


Velázquez, mas também o Van Gogh dos últimos dias, o de "Campo de Trigo com Corvos" (1890), visão próxima da morte, e o Grünewald do "Altar de Isenheim" (1512-1516). E mais perto de nós, Richard Hamilton e a pintura "The Citizen" (1981-83), uma obra baseada num documentário acerca do "dirty protest" realizado na prisão de Maze, na Irlanda do Norte, ou os murais realizados com lama por Richard Long. A abstracção a que chega o filme recorda, por outro lado, a estética de outro cineasta, Alexander Sokurov, o qual, em conversa com Maria João Madeira e Luís Miguel Oliveira (Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1999), sublinha tentar dar às suas personagens "uma vacina contra a morte, para que eles fiquem eternos." Bobby Sands foi eternizado por Steve McQueen. A sua fome é, por instantes, a de todos nós.

Óscar Faria, Público

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Tributo a Rohmer - Conto de Verão no Pátio de Letras. Sábado, 17h, entrada livre.

Conto de Verão

Há filmes cujas beleza, riqueza e profundidade se exprimem num tom aparentemente tão leve que deslizam como um sonho sem que o tempo da sua duração se faça sentir. Há obras que expõem a sua riqueza sem complexidades linguísticas, que na maior parte das vezes servem para confundir, mostrando aquilo que são numa narrativa simples e clara.

Eric Rohmer é mestre deste tipo de linguagem, deste género de história, capaz de expor a tese mais complicada e abstracta numa fascinante conversa de amigos (os «Contos Morais», em particular A Minha Noite em Casa de Maud). Mas, com a passagem do tempo, tendo alcançado a plena maturidade de pensamento e de obra, Rohmer depura-se inclusive de certas «preocupações» morais ou sociais para se limitar à exposição dos afectos entre as pessoas, como eles nascem, se manifestam, se chocam.

A série dos «Contos das 4 Estações», de que o filme agora estreado entre nós é o terceiro, representa essa fase maior da sua obra (não só: simples «divertimentos» intercalares como Os Encontros de Paris situam-se na mesma linha). O cinéfilo que conhêça razoavelmente a obra de Rohmer poderia estudar esta evolução bastando-lhe, para já, comparar Paulina na Praia com este Conto de Verão, que tem um pano fundo semelhante: ambos decorrem na praia e à volta de amores de Verão. Mas o primeiro é essencialmente um retrato feminino, desenhado de forma clássica, com a descoberta do corpo e da sexualidade, enquanto Conto de Verão é como que uma série de instantâneos que nos fazem a crónica do Verão de um adolescente, dos seus encontros e desencontros, de interrogações sem resposta e de respostas inesperadas a perguntas não feitas. (...)

O filme começa de uma forma magistral, que de imediato agarra o espectador: uma série de planos sem qualquer diálogo mostram-nos a chegada e estabelecimento de Gaspard no novo «território» e a forma como vai organizando os seus ritmos de vida: a «crêperie» onde vai comer (e onde conhece Margot), o percurso, o quarto, o passeio na praia, o ensaio com a guitarra. Apenas se ouve o ruído ambiente, captado em som directo (aliás, todo o trabalho de som, da responsabilidade de Pascal Ribier, é prodigioso, criando uma ambiência e um «realismo» raras vezes vistos). Dir-se-ia, como outros já referiram, um filme de Jacques Tati. Aliás, a este começo só faltam os «gags» para se confundir com o de As Férias do Sr. Hulot. (...)
Conto de Verão não é apenas o mais divertido dos filmes de Rohmer mas também aquele que melhor manipula o espectador, segundo a fórmula hitchcockiana, pois a pouco e pouco cria-se uma expectativa no espectador a que apenas o conhecimento (do final) permitirá a catarse. Só que neste caso o «suspense» é de humor. Delicioso, refrescante, Conto de Verão é um filme onde se mergulha com um prazer incontido.

Manuel Cintra Ferreira, Expresso




Título original: Conte d'Été
Realização: Eric Rohmer
Argumento: Eric Rohmer
Interpretação: Melvil Poupaud, Amanda Langlet, Aurélia Nolin, Gwenaelle Simon, Aimé Lefeuvre, Alain Guellaff, Evelyne Lahana, Yves Guérin, Franck Cabot
Direcção de Fotografia: Diane Baratier
Música: Philippe Eidel, Sébastien Erms
Montagem: Mary Stephen
Origem: França
Ano de estreia: 1996
Duração: 109’


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O Sétimo Selo de Bergman. 3ªf, 18h, Loulé: aqui tão perto.

Instituto D. Afonso III (Convento Espírito Santo). Entrada livre.

Numa manhã de Janeiro de 1956, Ingmar Bergman estava a fazer a coisa mais comum a todos os homens nesta hora do dia: barbeava-se. Para abafar o som da máquina, tinha posto o gira-discos no máximo, tocando "Carmina Burana". De súbito a música encontrou na sua mente as imagens de "Les Saltimbanques" de Picasso, e a litografia de Dürer "Cavaleiro, Morte e Demónio”. Começou assim a delinear-se, em tão prosaica manhã, durante tão trivial tarefa, a peça "Pintura em madeira", donde viria mais tarde a ser retirado o argumento de O Sétimo Selo.

Ao contrário do que é uma ideia feita, no cinema de Ingmar Bergman é pouco frequente, e muitas vezes inconsequente, aquela sensação de peso sufocante originada por uma qualquer repisada elaboração, que usualmente se diz ser comum aos seus filmes. Quando a atenção se vira ora para o conjunto da sua obra, ora para a sua cronologia, é uma diferente visão que acaba por transparecer. Em primeiro lugar, Bergman sempre teve mão exímia para a comédia - Uma Lição de Amor e sobretudo Sorrisos de uma Noite de Verão, filme que viria a consagrá-lo -, pelo que a Svensk Filmindustri se inclinava com maior facilidade a conceder-lhe créditos de produção nesse género de aceitação popular e êxito comercial, e tremia, com não menos facilidade, quando o realizador insistia nos dramas que asseguravam fiascos de bilheteira. Em segundo lugar, na fase da sua obra compreendida nos anos quarenta e cinquenta, Bergman deslumbra-se e deslumbra-nos com a luz de Verão onde se aquecem as paixões finalmente funestas mas brilhantes enquanto perduram de Rumo à Felicidade, Um Verão de Amor, Mónica e o Desejo ou Kvinnodrom. Em terceiro lugar, o cinema de Bergman é muito menos abstracto (quer dizer, desprendido das contingências da materialidade) do que um olhar desatento sobre os seus filmes poderia deixar supor; a angústia que em Fangelse, Torst e Gyclarnas Afton se desprende provém do facto de as misérias existenciais serem demasiado pequenas e o quotidiano demasiado trivial. Pode-se assim explicar porque razão O Sétimo Selo, quase sempre posteriormente tomado como um paradigma do cinema de Bergman, acabe por surgir um pouco à margem das tendências dramáticas que o realizador até aí demonstrara. Embora inaugurando uma nova frente nas motivações cinematográficas do realizador, O Sétimo Selo torna evidente o que até 1956 estava subjacente; esta será a sua novidade e ao mesmo tempo a sua coerência.

Novidade será, por exemplo a entrada - e fulgurante! - de Max von Sidow na família de actores de Ingmar Bergman, quer dizer, na família de actores cinematográficos, porque já era intensa a relação de trabalho entre eles no Teatro de Malmõ, que Bergman dirigia nesses anos. Também aqui se vê um Gunnar Bjornstrand que nunca se tinha visto nem nunca mais se verá, porque surpreendente numa interpretação bufa de um escudeiro nada grave e comedido, antes virado para as truculências carnais - um Sancho Pança em contraluz nórdica e protestante.

Com este filme Bergman inicia uma fase que genericamente termina em Luz de Inverno onde a pouco e pouco ganha consistência a dúvida sobre Deus. A resposta àquilo que até então parecia uma barreira intransponível à felicidade entre os seres humanos vai agora Bergman tentar encontrá-la junto ao divino; donde este súbito recuo no tempo e este súbito formalismo, quase ritual, que parece sustentar toda a narrativa do filme. Sendo grande o hiato temporal do ponto de vista da contemporaneidade, é permitido tomar a Idade Média como o terreno vago onde é possível que o formalismo dos conceitos informe totalmente os personagens. O que torna pois verosímil O Sétimo Selo não é qualquer efeito de realismo, mas precisamente essa ideia de fundação mítica do divino que nele decorre. Sabendo-se que uma das primordiais influências do primeiro Bergman foi Marcel Carné, seria impossível não entender em O Sétimo Selo uma resposta conclusiva a Les Visiteurs du Soir, se são flagrantes as diferenças entre os filmes, mais flagrante ainda se torna a sua relação. Aqui a morte e o cepticismo trazem-nas pela mão aqueles cuja acção é a de chegar: o cavaleiro Block e o escudeiro Jons; enquanto os saltimbancos, aqueles que passam, vivem ao largo de todas as questões que suscitam a infelicidade. Em Les Visiteurs du Soir quem chega - e assim traz o Mal consigo - são precisamente os saltimbancos, ao passo que os castelões, tal como Karin, a mulher de Block, aguardam, indefesos, os trabalhos do demónio. Mas em ambos os filmes assiste-se a um semelhante triunfo, que é o de Deus a escrever direito por linhas tortas, ou seja o da força inviolável do frágil amor. Um Deus dissimulado portanto, que aposta nas improbabilidades do afecto e despreza as virtudes da razão. Um Deus contraditório, portanto, com aquele que Bergman recebeu de seu pai, um pastor protestante (e contra cuja sombra o cineasta se debateu toda a vida), e muito mais próximo daquela imagem estranha e solar do Deus católico que, recorde-se, numa das falas decisivas de Luz de Inverno era interrogado com horror e fascínio. Mas, sobretudo, o que em O Sétimo Selo aparta Bergman de Carné é a ideia fundamental que o Mal não nasce estranho ao homem mas antes toma a imagem da Morte. Aqui não existe tentação, apenas uma perdição vista como inata.
Mas se em O Sétimo Selo Bergman salda de vez a sua dívida com Marcel Carné, não é menos certo que também ajusta contas com o teatro. De actores vistos como saltimbancos marginalizados é feito afinal o mundo em que vive o próprio realizador, e se A Noite de Circo propunha uma visão no mínimo apocalíptica do que é ganhar consciência de viver constantemente através da vida das personagens que se interpretam, agora cabe aos actores a felicidade de poderem ver o mundo - e Jof é um puro que tem visões - através desse limbo existencial que é a representação. Por isso é deles o privilégio dos amores solares, silvestres e livres de impurezas que já eram expostos em Um Verão de Amor e Mónica. Estão assim os actores, enquanto espécie humana que vive à margem das contingências do concreto, predestinados à compreensão da simplicidade das coisas transcendentes. Será este tema que Bergman irá reafirmar no futuro O Rosto e, de certo modo, desmentir, ou pelo menos interpelar, em Ritual. Será também a partir destas premissas que Tarkovski construirá o seu Andrei Rubliov, revendo O Sétimo Selo segundo a perspectiva daquele pintor de frescos da igreja, que por momentos conversa com Jons.

Viu-se no cavaleiro Block o símbolo do homem ocidental contemporâneo, crivado de dúvidas perante a presença da morte. Mas se já nesta altura Bergman tivesse a mesma opinião que manifestaria anos depois, a de uma total recusa do simbolismo nos seus filmes, poder-se-á então olhar para esse cavaleiro, em tudo o oposto de um crentíssimo D. Quixote, com olhos menos turvos e um pouco mais vastos de horizontes. Procurar o simbolismo num filme é interditar-se quase automaticamente para o transcendental, reduzindo a visão à segurança dos significados imediatos e O Sétimo Selo é, na sua essência, uma obra metafísica. E de tal modo o é que logo a primeira sequência evoca esse fabuloso Dies Irae de Dreyer, pelo acordo entre a tensão do preto e branco e a atmosfera soturna que naquela parcela de praia revela a alma dos personagens. Mais tarde veremos também, como se fosse marginal à ansiedade do cavaleiro, a mulher condenada por bruxaria, de tão resplandecente branco vestida que é impossível não ver logo (intuir, portanto) a sua inocência.

É um mundo desocupado pelos sinais de Deus este de O Sétimo Selo. A morte entrará de seguida em cena e de tal modo o faz, e sempre assim o fará, que por um genial raccord se entende que sempre ali esteve à espera do cavaleiro. Quando não acontece a sua presença, ficam os efeitos da sua passagem: a peste que destrói o rosto dos que se sentaram à beira do caminho, esses rostos sempre tão queridos do cinema de Bergman, ou a humilhação que se abate sobre os puros, tal como se vê na cena da taberna em que o pobre Jof é obrigado a passar por urso até à exaustão. Neste mundo sem sinais, logo sem símbolos de redenção, em que a Morte é um substantivo feminino encarnado por um actor masculino, a grande vitória é a de conseguir mexer os dedos dos pés perante a ansiosa eternidade e a grande moral de O Sétimo Selo vem contida na pergunta: "É assim tão inconcebível querer compreender Deus com os sentidos?" Nesta frase, afinal, condensam-se todas as questões que o cinema de Bergman tinha procurado colocar segundo diversos ângulos: a impossível supremacia dos sentidos contra as insistentes formulações da razão, ou seja, a felicidade que se sabe estar onde é inadmissível ir buscá-la. É disto afinal que, depois de se ver O Sétimo Selo, retrospectivamente nos acabam por falar Um Verão de Amor e Mónica e o Desejo, de forma talvez mais solar mas decerto tão contrastada, sempre num jogo entre duas pessoas que não admitem resguardar o seu envolvimento amoroso das violências do mundo e diante delas sucumbem. Porque aquilo que liga o cavaleiro ao seu escudeiro é a recíproca consciência que cada um deles tem dos limites do outro, ao contrário do casal de saltimbancos, Jof e Mia, que possuem o espelho de um filho - Mikael, certamente de S. Miguel, o santo protector das almas - tal como o farsante Skat, que ao seduzir Lisa, a mulher do ferreiro, obtém nesse gesto a satisfação assumidamente efémera dos sentidos, o que deixa de tornar inexplicável que morra ao simular a sua morte, quando ao fugir das iras do marido cornupto se recolhe na paz segura do anjo negro. O sétimo selo a ser aberto é o último do livro que desencadeará o apocalipse, então dos céus se ouvirá o cântico, à glória da ira de Deus. De um Deus que só se encontra na morte e tanto se procura nos filmes de Bergman, junto à terra e às paixões.

José Navarro Andrade in 100 Dias 100 Filmes, Cinemateca Portuguesa

(colaboração com Allgarve '10)
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O Canto dos Pássaros ouvido por Albert Serra. Ouça-o também. 2ªf, IPJ, 21h30.

(dado que este será o filme deste ciclo de Março com menores referências, deixamos aqui duas peças sobre o filme. Cremos que bastará ler algumas passagens delas para perceber que este é um filme imperdível)

Nada está perdido. Os aerólitos são cada vez mais raros, mas ainda caem no planeta cinema, são filmes inclassificáveis que parecem vir da origem dos tempos e abrem passagem a algo que há-de vir. Podia dizer-se que não há mais belo desafio para um cineasta do que criar a mise-en-scene do que não existe ou do que outrora pode ter existido mas desapareceu sem deixar rasto. O que desapareceu é aqui revelação de um mito da religião cristã que descobrimos permeável ao drama e até ao burlesco, repleto de imagens cristalinas e de sonhos infernais, sem que estes vasos comunicantes jamais fiquem compartimentados. Do muito que AIbert Serra nos contou sobre O Canto dos Pássaros há uma frase sua que intriga: "Quis captar o exacto momento em que o sagrado acaba de nascer, um momento de cinema antes do pecado." Ora, este desafio não só é gigante como é coisa rara de ouvir da boca de um cineasta, muito menos de um autodidacta com 34 anos. Dreyer tentou-o, Rossellini também. Depois deles, houve Pasolini, Godard, Herzog: todos perseguiram a mesma dimensão espiritual. Só que O Canto dos Pássaros - e é isto que é notável - consegue aparecer feito de uma audácia sem progenitura. Como se o tal 'momento do sagrado' pudesse de facto nascer sem qualquer blasfémia, graças a um milagre de cinema, inventando um tempo tão primitivo que é anterior à cultura. Um tempo tão solene e ascético que ainda é pagão. Um tempo em que o cordeiro acariciado pela Virgem Maria anuncia mas não figura ainda o Cordeiro de Deus das Sagradas Escrituras.



De todos os episódios do Novo Testamento, o dos Reis Magos é o mais secreto. A natureza destes monarcas, astrónomos e místicos, é tão incerta quanto a sua origem, e tão-pouco se sabe o que lhes aconteceu depois da adoração ao Deus Menino. Apenas se sabe que a viagem dos Magos ao presépio foi indicada por uma estrela e que o regresso tomou rumo distinto, para despistar a fúria do cruel Herodes, apavorado pelo nascimento do novo reino. Ou seja: do ponto de vista narrativo, esta história é uma página em branco. E o que faz Serra? Transforma três 'LIuíses' camponeses em reis: a Carbó e Serrat Masanellas, que são um ex-professor de ténis e um pedreiro rechonchudo (foram Quixote e Sancho Pança em Honra de Cavalaria), juntou-se Lluís Serrat Batlle, pai do último. A Virgem Maria é interpretada por uma amiga de infância de Serra e produtora dos seus filmes, Montse Triola. Todos eles são de Banyoles, pequena terra natal do realizador, e actores não profissionais. Praticamente, não há argumento, nem maquilhagem, nem iluminação (o filme foi rodado em exteriores, na Islândia, nas ilhas Canárias e em França, no Pays de la Loire). Serra usou duas câmaras HD e explorou a fundo o potencial da imagem digital a preto e branco, sublinhando os seus contrastes. E como se tudo isto não bastasse para estarmos já perante um filme raro, o realizador ainda chamou para o papel de São José um crítico de cinema canadiano, Mark Peranson, o único judeu do elenco. Peranson não fala catalão, mas ainda se recorda do hebreu que aprendeu em criança e foi convidado a falar nessa língua, aumentando ainda mais o efeito de estranheza de um 'canto' para recordar décadas e décadas a fio. Jamais houve um filme assim - e quantos, afinal, se podem orgulhar disso?

Francisco Ferreira, Expresso



O catalão Albert Serra, hoje já uma coqueluche cinéfila, faz filmes porque não consegue fazer literatura. O cinema, diz, é uma forma de não se aborrecer. Isso quer dizer que em O Canto dos Pássaros encontramos diversão? Não: encontramos fé.

Em Honra de Cavalaria, filme de estreia de Albert Serra, havia um Dom Quixote muito pessoal, aquele que (imaginamos) não fora descrito pelas palavras de Cervantes. Se quiséssemos uma sinopse jocosa do filme, podíamos dizer que se tratava de uma sequência de longos planos de Quixote e Sancho em caminhada pelo meio do mato - quase sem palavra.

Honra de Cavalaria não era apenas um pequeno cometa na tela - a sua feitura também parecia uma história mirabolante. Tinha sido realizado com meia-dúzia de tostões, um guião mínimo, uma equipa reduzidíssima e actores amadores. Era uma espécie de prova de que a imaginação e o talento valem mais que profissionalismo, produção esmerada e equipas de "marketing".

Dois anos depois, Serra prolonga essa linguagem de contemplação com O Canto dos Pássaros, de novo usando personagens que já fazem parte da nossa iconografia: desta feita o realizador segue os três Reis Magos no seu caminho de encontro a Cristo. A paleta de cores é diminuída para um preto e branco que nunca é austero, as palavras reduzem-se ao mínimo, os planos duram ainda mais - e começa a desenhar-se um imaginário: Serra parece querer filmar um desejo de transcendência, retirando aquilo que possa dar ao espectador guias de leitura. Somos deixados em suspenso, num exercício de adivinhação: o que querem estes homens?



Dificilmente se imagina Serra a partir dos seus filmes. É um catalão de 33 anos (faz 34 este ano), jovial e de palavra fácil, dado a pequenas provocações e com basto sentido de humor. Um homem de brincos nas orelhas e anéis nos dedos, de camisa branca, casaco azul escuro e gravata preta fina, bigodinho que podia pertencer a um chicano passador de droga, que recusa - com duas piadas - leituras excessivamente complexas da sua obra. Diz que só faz cinema para se divertir com os amigos. Há nisto uma qualidade de pose.

Esteve em Lisboa para apresentar O Canto dos Pássaros. Agora já não é um desconhecido que fez um pequeno e belo primeiro filme. É uma coqueluche do cinema, laudado em revistas e premiado em festivais. No seu registo uma-no-cravo-outra-na-ferradura, limita-se a dizer: "Não sei. Apenas fiz o que quis, o que gosto de fazer". Depois, não sem graça, começa a desmerecer o que faz. "Gosto muito de literatura, não de cinema. Mas a literatura dá muito trabalho e em Espanha é difícil ser melhor que os outros em literatura. No cinema não: é fácil fazer cinema e em Espanha é tudo muito mau, por isso é fácil ser melhor que os outros".

Há alguma verdade nisto, note-se. Serra licenciou-se em Literatura Hispânica e Literatura Comparada, pelo que o seu amor à literatura será verdadeiro. Mas insiste na mesma tecla: "Nunca estudei cinema, nunca estive numa filmagem que não fosse minha, só uso actores e técnicos da minha terra", insiste, recuperando o género de declarações que lhe conhecemos desde Honra de Cavalaria. Fiz cinema para quebrar a rotina. Era cinéfilo, certo, mas faço cinema para me entreter" - faz uma pausa e depois acrescenta, antes de desatar a rir: "Para me entreter a mim, porque os outros aborrecem-se com os meus filmes". Introduz uma ideia que repetirá: "Não sou profissional". Faz questão de que se perceba que nunca repete "a mesma cena", nem faz "ensaios porque são aborrecidos". A ideia de aborrecimento parece ser-lhe essencial.



Pelo menos admite que os seus filmes têm o mínimo grau de preparação, que "o filme está pensado antes da rodagem". Mas afiança que enquanto filma nunca olha "para o monitor", nunca vê "qualquer imagem antes de começar a montar". Vai para a rodagem "com um conceito preciso do que se vai fazer". Onde o filme se decide "é na montagem": "Demoro meses e meses a montar tudo com um amigo que domina mais a linguagem dos computadores. No último mês faço tudo sozinho, porque se trata de detalhes e sobre detalhes não gosto de discutir detalhes com ninguém".

Para o seu primeiro filme demorou "uma semana a fazer o guião". Foi escrito "numa viagem de avião do México para Madrid". Os guiões não são fechados: "Ponho o tema de um diálogo, o assunto acerca do qual os actores vão conversar, mas não escrevo o diálogo". Há uma cena em O Canto dos Pássaros em que os Reis Magos sobem uma montanha e vão conversando entre si. "Aí é tudo improvisado", explica, antes de atirar mais uma das suas frases laminares que parecem servir mais para despistar ou criar mistério que para explicar: "Um guião só serve para conseguir um subsídio".



É menos dado a provocações quando se dedica exclusivamente a pensar o seu cinema. Admite que este filme é, até certo ponto, um prolongamento do anterior, mas o mais interessante é ver como assinala as diferenças. Honra de Cavalaria, diz, "tinha muita contemplação", mas "a câmara era muito física, aproximava-se dos rostos, das ervas". O Canto dos Pássaros é "mais atmosférico, mais abstracto". "Neste filme há muita pedra vulcânica, muitas linhas definidas, o que provoca uma imagem muito gráfica. Há um fascínio, neste filme, com o nível superficial da imagem".

Tem visível prazer em pensar em termos imagéticos. Não o ouvimos discutir o "interior" das personagens - aliás, não gosta de "usar psicologia". A razão é óbvia: "Aborrece-me". A psicologia, adiante, "tem muitos clichés" e "a televisão faz isso melhor". É aqui que o humor de Serra se revela mais sério do que parece à primeira: "Os Sopranos fazem isso melhor, porque têm semanas para desenvolver uma personagem. Por isso o cinema tem de ir buscar algo mais poético, porque não pode fazer o que a televisão americana faz melhor. Porque é que nos recordamos de A Desaparecida, de John Ford? Interessa-nos o conflito com os índios? Não. Interessa-nos a coisa poética".

Isto explica a razão por que gosta de trabalhar "com figuras icónicas": "Toda a gente as conhece, não tenho de explicar a história", o que - imaginamos - o aborreceria fazer. "Não tenho interesse em fazer filmes sobre os problemas das famílias burguesas", acrescenta. Para que fique claro ao que vem, deixa uma frase pessoal em forma de programa estético (ou vice-versa): "Há filmes muito bons sobre isso, mas a mim não me interessa. Não me interessa na vida real (não tenho mulher, nem filhos, nem família) quanto mais em filmes".



O uso de figuras icónicas, no entanto, não implica que o tratamento delas seja sempre igual, e Serra assinala as diferenças entre Honra de Cavalaria e O Canto dos Pássaros: "No primeiro filme, aquelas personagens são arquétipos, porque já temos muita informação sobre elas. Mas os Reis Magos só os conhecemos da pintura, já que na Bíblia só há três linhas a respeito deles". Serra queria conservar esta origem icónica "de personagens planas, sem conflito dramático", o que leva a "uma intensificação do silêncio". Gosta de personagens que estejam "num esforço de superação", mas das quais "não vemos nunca a razão do seu esforço". O importante "está sempre fora do campo", o que implica uma cumplicidade entre espectador e filme: "O espectador tem de procurar o mesmo que os Reis Magos: tem de acreditar que no final do plano acontece algo". Chegamos ao fundamental da estética de Serra: o espectador que se senta para assistir a um filme seu incorre no mesmo que as suas personagens: "Uma busca de fé. O que se encontra no filme é a fé. Algo intemporal, alheado do tempo. A ideia de que ali vai nascer algo".

João Bonifácio e Luís Miguel Oliveira, Público




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MANIFESTO PELO CINEMA PORTUGUÊS - Petição Pública

Lançada pela APR (Associação Portuguesa de Realizadores).

Texto e Subscritores:

Nunca como nos últimos vinte anos teve o cinema português uma tão grande circulação internacional e uma tão grande vitalidade criativa. E nunca como hoje ele esteve tão ameaçado.

No mesmo ano em que um filme português ganhou em Cannes a Palma de Ouro da curta-metragem e tantos e tantos filmes portugueses foram vistos e premiados um pouco por todo o mundo, o cinema português continua a viver sob a ameaça de paralisação e asfixia financeira.

Desde há dez anos que os fundos investidos no cinema não cessaram de diminuir: a produção e a divulgação do cinema português vivem tempos cada vez mais difíceis.

E a criação de um Fundo de Investimento (e a promessa de um grande aumento de financiamentos), revelou-se uma enorme encenação que na generalidade só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos.

O cinema português vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos e em particular da senhora Ministra da Cultura.

O cinema português - o seu Instituto - ao contrário do que é repetido vezes sem conta, é financiado por uma taxa (3,2%) sobre a publicidade na televisão, e não pelo Orçamento de Estado.

O financiamento do cinema português desceu na última década mais de 30% e a produção de filmes, documentários e curtas-metragens, não tem parado de diminuir.

O Fundo de Investimento no cinema, que era suposto trazer à produção 80 milhões de euros em cinco anos, está paralisado e manietado pelos canais de televisão e a Zon Lusomundo, e não só não investiu quase nada, como muito do pouco que investiu foi-o em coisas sem sentido.

Por isso se torna imperioso e urgente

a) normalizar o funcionamento desse Fundo e multiplicar as verbas disponíveis para investimento na produção de cinema, nomeadamente multiplicando as receitas do Instituto de Cinema, e tornando as suas regras de funcionamento transparentes e indiscutíveis;

b) normalizar a relação da RTP (serviço público de televisão) com o cinema português, fazendo-a respeitar a Lei e o Contrato de Serviço Público, assinado com o Estado Português;

c) aumentar de forma significativa o número de filmes, de primeiras-obras, de documentários, de curtas-metragens, produzidos em Portugal;

d) e actuar de forma decidida em todos os sectores – não apenas na produção, mas também na distribuição, na exibição, nas televisões (e em particular no serviço público), e na difusão internacional do cinema português.

Depois de mais de seis anos de inoperância e desleixo dos sucessivos Ministros da Cultura, que conduziram o cinema português à beira da catástrofe, impõe-se:

1. Normalizar o funcionamento do FICA (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual) reconduzindo-o à sua natureza original: um fundo de iniciativa pública, tendo como objectivo o aumento dos montantes de financiamento do cinema e da ficção audiovisual original em língua portuguesa e o fortalecimento do tecido produtivo e das pequenas empresas de produção de cinema. E fazer entrar nos seus participantes e contribuintes os novos canais e plataformas de televisão por cabo (meo, Clix, Cabovisão, etc), que inexplicavelmente têm sido deixados fora da lei;

2. Multiplicar as fontes de financiamento do cinema português, nomeadamente junto da actividade cinematográfica, recorrendo às receitas da edição DVD (a taxa cobrada pela IGAC, cuja utilização é desconhecida, e que na última década significou dezenas de milhões de euros); à taxa de distribuição de filmes (que há décadas não é actualizada) e à taxa de exibição. As receitas das taxas que o Estado cobra ao funcionamento da actividade cinematográfica devem ser integralmente reinvestidas na produção e na divulgação do cinema português (produção, distribuição, edição DVD, circulação internacional);

3. Aumentar as fontes de financiamento do Instituto de Cinema, para aumentar o número, a diversidade, a quantidade e a qualidade, dos filmes produzidos. Filmes, primeiras-obras, documentários, curtas-metragens, etc.

4. Apoiar os distribuidores e exibidores independentes, e estimular o aparecimento de novas empresas nesta actividade, de forma a que o cinema português, o cinema europeu e o cinema independente em geral, possam chegar junto do seu público. E apoiar os cineclubes, as associações culturais e autárquicas, os festivais e mostras de cinema, que um pouco por todo o país fazem já esse trabalho;

5. Fazer cumprir o Contrato de Serviço Público de Televisão por parte da RTP, que o assinou com o Estado Português, e que está muito longe de o respeitar e às suas obrigações, na produção e na exibição de cinema português, europeu e independente em geral. E contratualizar com os canais privados e as plataformas de distribuição de televisão por cabo, as suas obrigações para com a difusão de cinema português.

O cinema português, que vale a pena, tem hoje em dia, apesar da paralisia, quando não da hostilidade, dos poderes públicos, um indiscutível prestígio internacional. Os seus realizadores, actores, técnicos, produtores, não deixaram de trabalhar apesar de tudo o que se tem vindo a passar. Está na altura de os poderes públicos assumirem as suas responsabilidades.

É necessária uma nova Lei do Cinema, mas é urgente uma intervenção de emergência no cinema português.

Os realizadores
Manoel de Oliveira
Fernando Lopes
Paulo Rocha
Alberto Seixas Santos
Jorge Silva Melo
João Botelho
Pedro Costa
João Canijo
Teresa Villaverde
Margarida Cardoso
Bruno de Almeida
Catarina Alves Costa
João Salaviza

e os produtores
Maria João Mayer (Filmes do Tejo)
Abel Ribeiro Chaves (OPTEC)
Alexandre Oliveira (Ar de Filmes)
Joana Ferreira (C.R.I.M.)
João Figueiras (Black Maria)
João Matos (Terratreme)
João Trabulo (Periferia Filmes)
Pedro Borges (Midas Filmes)


Se concordar, assine.
Escusado será dizer: é o nosso caso.



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Tributo a Rohmer - mais um filme no Pátio de Letras. Sábado, 17h, entrada livre.

Conto de Inverno

Os personagens de Rohmer são sempre encantadores, reais. Pessoas com sonhos, desejos, esperanças e traumas. As personagens importam mais do que o enredo. São os sentimentos, impulsos, encontros e desencontros que guiam a história, e não o contrário. Em Conto de Inverno, Felicie é facilmente reconhecível: alguém que amou intensamente, um amor que não foi fechado, e por isso ela não consegue continuar a viver afectivamente sem encerrar este ciclo.

Há tristeza em Conto de Inverno, mas nunca desânimo ou melancolia. Além disso, quando Felicie encontra finalmente a fé, o filme resgata outro elemento recorrente em Rohmer – as coincidências, a acção do destino para empurrar a acção até um ponto absolutamente inusitado. Esta situação surpreendente encaminha o filme a um final capaz de elevar a moral de qualquer um. A última cena, com a câmera parada na imagem de Elise chorando, é absolutamente emocionante. Como todos os filmes de Rohmer, Conto de Inverno não é um cinema de epifanias ou malabarismos técnicos, mas um cinema de gente calorosa, com cheiro de vida. Um cinema imprevisível e estimulante sobre o amor.
'cine-repórter'

Eric Rohmer aujourd’hui encore est l’un des rares à nous livrer des films sur la pensée et la perception du monde, qui sont sans doute deux des notions à nous définir le plus comme individus. Car les cinéastes et les films oublient trop souvent de se pencher sur ces affrontements des réalités subjectives, comment la vie peut exister d’abord par les différentes interprétations qu’on en fait. Or l’art cinématographique est sans doute un de ceux qui peuvent le plus aisément explorer ces questionnements. La caméra, la mise en scène fait office de tiers "objectif" faisant ressortir toutes ces ambivalences dans la compréhension sans doute impossible de l’autre, de l’instant et de l’amour. Parfois ironique, toujours ouvert à de riches ambiguïtés, Rohmer ne cède jamais à la facilité et continue à intervalles réguliers son œuvre absolument unique. Un cinéma qui n’a pour seuls artifices que ceux dont on se sert continuellement : les mots, la communication. Eric Rohmer c’est de la danse plus que des paroles. Avec Conte d’Hiver , il fait en quelque sorte un point définitif sur une question qui hante son cinéma : la confrontation du quotidien et du réel à l’idéal et l’absolu.
'cinétudes'




Título original: Conte d’Hiver
Realização: Eric Rohmer
Argumento: Eric Rohmer
Interpretação: Charlotte Very, Frédéric Van Den Driessche, Michel Voletti, Hervé Furic
Direcção de Fotografia: Luc Pagès
Música: Sebastian Erms
Montagem: Mary Stephen
Origem: França
Ano de estreia: 1991
Duração: 110’


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nova data para Terra de Silêncio e Escuridão de Herzog.

Por problemas técnicas a sessão prevista para a passada 3ªf não se pôde concretizar.

Assim, está já agendada para 3ªf, dia 6 DE ABRIL, pelo que, em lugar de ter iniciado o Ciclo 'Escolhas de Hugo Canoilas', o encerrará... em beleza!

Loulé, Auditório do Instituto D. Afonso III, 18h, entrada livre.
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a terra de silêncio e escuridão de werner herzog. 3ªf, 18h, loulé: aqui tão perto.

Instituto D. Afonso III (Convento Espírito Santo). Entrada livre.

«Quando ainda era criança, e podia ver e ouvir, assisti a saltos de esqui, e essa imagem vem-me sempre ao pensamento. Quando esses homens pairavam no ar, eu olhava atentamente as suas faces. Gostaria que você também as pudesse ver». Com estas palavras de Fini Straubinger inicia-se Terra do Silêncio e da Escuridão. Desta feita a sua atenção para o mundo dos cegos e dos surdos.

O filme acompanha Fini Straubinger, de 56 anos, que aos 16 perdeu a vista e dois anos mais tarde ficou completamente surda. Primeiramente é a sua existência quotidiana e a de várias outras pessoas em situação idêntica. Depois traça-se rapidamente a evolução da sua doença, a queda na escada, os sintomas sempre crescente da perda das suas faculdades, um longo período de desânimo e inação que, mais tarde, vem a ser superado. Fini Strauberg consegue triunfar das condições adversas em que vivia, ultrapassando a dificuldade de comunicação, o isolamento, a descrença. Vive agora na Baviera, trabalha como visitadora de outros seus semelhantes, lutando para que cada um possa ver melhorada a sua situação.

Através das deambulações de Fini Straubinger, vamos encontrando vários casos de pessoas desfavoravelmente integradas na sociedade: Elsie Faher, surda e cega, a quem colocaram numa clínica psiquiátrica, embora como é óbvio o seu lugar não devesse ser ali; a jovem Harald, surdo e cego de nascença, internado num hospital especializado, que beneficia do emprego de todas as modernas técnicas no sentido de impedir o progressivo isolamento; isolamento esse bem documentado no caso seguinte, de Wladimir, de 22 anos, incapaz de comunicação com qualquer outra pessoa, vítima da ignorância familiar, das atitudes de "tabu" e de "vergonha" geralmente sentidas em relação aos diminuídos. Finalmente, Heirich Fleischmann, o homem abandonado pelos outros homens e inteiramente dedicado às plantas e aos animais.

Sobre a cegueira e a surdez poderia realizar-se um filme que fosse um "documentário"; ou uma "história", mais ou menos "exemplar" que cedo cairia no melodrama; poderia olhar-se essa outra minoria humana com desinteresse ou especular com a emoção fácil do público. Poderia escolher-se a adesão primária, instantânea. Herzog optou pela simplicidade de um olhar atento que, sendo documental, ultrapassa a neutralidade impossível do “documento”.

De novo no filmografia de Herzog o estudo de um estado de incomunicação, isolamento, solidão. O pessimismo frente à condição humana? Eis a revelação da Terra do Silêncio e do Escuridão. Sendo, aparentemente, o filme que mais facilmente poderia cair num pessimismo radical, é, de entre todos os assinados por Herzog, aquele que maiores perspectivas abre para o exterior. Porque não se trata de um filme fechado sobre o círculo da incomunicabilidade, mas é, fundamentalmente, um filme dedicado àqueles que conseguem ultrapassar esses limites, na pessoa de Fini Straubinfer, no seu exemplo, na sua vontade.

«Sempre me sobressalto quando me tocam», revela Fini. E mais adiante: «A sua mão afasta-se da minha e é como se estivessemos mil quilómetros distantes um do outro». De olhos e ouvidos fechados para o mundo «se agora rebentasse a guerra, eu não o notaria», cegos e surdos reinventam o poder de dar as mãos. Por isso Herzog chamou ao seu belo filme "uma monografia sobre as mãos de uma cega-surda", esse cordão que dela se estende para os outros, em fraternal solidariedade.
Continuando a explorar uma escrita de grande concisão (planos longos, movimentos raros e lentos, um ritmo de montagem necessariamente pausado, usufruindo de uma respiração suspensa sobre o olhar essencial), Terra de Silêncio e da Escuridão, é uma contribuição notável para o conhecimento dessas minorias marginalizadas por "tabus" absurdos. Conhecimento que se impõe pelo respeito à pessoa humana, nunca como suporte de piedosas intenções. O mesmo espírito que se sentirá ter presidido à rodagem da obra.

Lauro António, Werner Herzog e o Novo Cinema Alemão


(colaboração com Allgarve '10)


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Séraphine de Sanlis, conhece? Em caso contrário, Martin Provost ajuda-o. 2ªf, IPJ, 21h30.

A vida da pintora Séraphine Louis entre as vésperas da I Guerra, em que é descoberta, e a altura da sua morte, durante a II Guerra. O filme dos Césares.

"Seraphine", que ganhou este ano vários Césares (incluindo o de melhor filme), baseia-se na vida da pintora Séraphine Louis, dita Séraphine de Senlis, entre o momento, nas vésperas da I Guerra, em que é descoberta pelo crítico alemão Wilhelm Uhde, seu futuro patrono, e a altura da sua morte, num asilo, durante a II Guerra. De certa maneira, Provost filma esta história (que toma algumas liberdades com a biografia de Séraphine, ao que podemos saber) como uma variação sobre a mitologia do "bom selvagem".



Séraphine, que já tinha 50 anos quando Uhde a encontrou, se não é uma "enfant sauvage" é uma "vieille dame sauvage", ensimesmada, de modos peculiares, profundamente devota, que pinta paisagens e visões de maneira compulsiva. "Naive?", perguntam a certa altura a Wilhelm Uhde; "gosto mais de dizer 'primitiva', uma 'primitiva moderna'", responde ele, e essa é a perspectiva do realizador Martin Provost. Em termos melodramáticos, o que se filma é o choque entre o "primitivismo" inerente a Séraphine e a "modernidade" em que Uhde a lança. Se a psicologia de Séraphine é, digamos, instável desde o primeiro momento, o sucesso das exposições de Uhde e das decorrentes vendas de quadros vêm criar um curto-circuito à pobre mulher. E quando Provost a deixa, nos planos finais, em pacificadas imagens de um bucolismo curiosamente "impressionista", em remissão para o ambiente em que víramos Séraphine várias vezes na primeira parte do filme fecha-se o círculo: o "primitivismo" e a "naiveté" de Séraphine só vivem em paz com o seu "ecossistema", no sentido mais literal e naturalista do termo, numa continuidade propriamente religiosa (como a devoção dela reforça). Interrompida essa continuidade, o equilíbrio perde-se - e o "selvagem" perde-se, enlouquece, às mãos do século XX, representado menos pelas grandes guerras que cronologicamente balizam o filme do que pelo "circuito artístico".



"Seraphine" não está isento de clichés do "filme sobre artistas", apenas ambiguamente contornados pela semi-loucura da personagem. A interpretação de Yolande Moreau segura as pontas, equilibrando uma personagem que facilmente entraria em roda livre e se mantém sempre credível. Provost revela-se um ilustrador sólido (alguns belos planos de natureza e de Séraphine na natureza), um pouco mais académico quando se trata de filmar a narrativa e os diálogos. É um filme digno e interessante.
Luís Miguel Oliveira, Público

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Coisas estúpidas (carta a Eric Rohmer)

«É estúpido escrever-lhe uma carta que você já não poderá ler. De qualquer modo vivemos num mundo em que já ninguém escreve cartas - as palavras escritas deixaram de ter cor, mão, respiração e compromisso, mesmo as mais íntimas. Despejam-se rapidamente em e-mails que se modificam, apagam e esquecem. É estúpido escrever-lhe uma carta mas aprendi nos seus filmes a amar a força das coisas estúpidas, que aparentemente não servem para nada e só nos atrapalham a vida. Um dos seus filmes de que mais gosto, "Conto de Inverno", narra a história de uma rapariga tão estúpida que se engana no nome da terra onde vive na hora de passar a morada ao grande amor que conheceu nas férias e mora noutro país. Encontramo-la cinco anos mais tarde, trazendo pela mão uma filha nascida desse grande amor e enganando a solidão entre dois amantes. Às tantas, estupidamente, decide ir viver com o mais fruste desses dois amantes, o seu patrão no cabeleireiro. A filha arrasta-a para o interior de uma igreja, porque é quase Natal e a criança quer ver o presépio. Sentada na igreja vazia a rapariga reza em silêncio pelo regresso do seu amor perdido, e o rosto banal ilumina-se-lhe de uma forma inesquecível. Não é católica, tem uma fé vaga, que não aprofunda - não é rapariga de leituras nem de aprofundamentos, desdenha mesmo aqueles que copiam a vida pelos livros, como o amante preterido. Esse amante intelectual dir-lhe-á uma frase belíssima: "Sabes porque te amo? Porque és bela, mas isso não basta. Amo-te porque tenho a impressão de ser capaz de ler o teu coração, e é raro poder-se ler o coração das pessoas". A força dessa rapariga advém da fidelidade absoluta ao seu próprio coração e da confiança que deposita nos sentimentos. Nunca, nem por um segundo, escondeu aos seus amantes que esperaria até ao fim da vida pelo pai da filha - e nunca, o que é ainda mais extraordinário, duvidou da reciprocidade do amor desse homem. Lá onde estivesse, ele seria dela como ela era dele. Nesse momento de revelação no interior da igreja decide deixar o amante que escolhera e viver só com a filha, aguardando o improvável reencontro. Mais tarde dirá que teve "uma premonição". E dirá também: "Não há boas nem más escolhas. É preciso que a questão da escolha não se coloque".

Você soube como ninguém mostrar a inteligência, a verdade, o valor imenso das coisas estúpidas. Há páginas e páginas escritas sobre a sua erudição e argúcia, os clássicos em que se inspirou - e que aliás aparecem delicadamente nos filmes, porque você não era um destes pós-modernos que empinam bibliotecas e as despejam como obras suas para brilhar em sociedade - mas a sua singularidade vinha de outra coisa: da observação apaixonada das escolhas humanas. Das justificações racionais fez capas de seda sob as quais refulge o brilho animal dos sentimentos imediatos. Você dá-nos a ver o modo como as pessoas se agitam através dos seus pequenos mundos pelo pavor de olharem para dentro de si mesmas, como se enganam de propósito por medo da felicidade - ou da liberdade, que é a mesma coisa. Você mostra-nos pessoas tristes que engendram esquemas para tornar os outros felizes.

Por estes dias revi os "Contos das Quatro Estações" recentemente editados em DVD, e tive saudades dos filmes que você já não vai poder fazer. Há cada vez mais gente a bradar pela falta de ética, para poder falhar gloriosamente em todos os valores - excepto o do trabalho, que se tornou o capataz dos novos deuses do sucesso e do dinheiro. Os seus filmes mostram, pelo contrário, que os valores estão nas nossas mãos, e que o mundo se altera, minuto a minuto, através das escolhas que fazemos. Quando decidimos não ter tempo para a tristeza de um amigo, ou sequer para decidir o que mais nos importa na vida, estamos a preferir um valor a outro. As escolhas, por sua vez, dependem de expectativas, e as expectativas dessa palavrinha imensa: fé. "O Signo do Leão", o seu primeiríssimo filme, é a história de um rapaz que passa de milionário a sem-abrigo da noite para o dia. Aquilo que o impede de se suicidar é a convicção de que, pertencendo ao signo astrológico de Leão, a miséria será temporária. Essa fé no signo, que é uma outra forma de fé em si mesmo, salvá-lo-á. Nos seus filmes, Eric Rohmer, as pessoas sabiam salvar-se, a si mesmas e umas às outras. E agora eu não sei como vou viver sem as pessoas dos filmes que você já não vai fazer.»

Inês Pedrosa

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010


Pronto. Está tudo dito.

No Pátio de Letras, a partir de sábado, e todos os sábados deste mês, pelas 17h, a série Contos das 4 Estações. A entrada é livre.

Começamos com


Conto de Primavera

Como dizer? Há no cinema de Rohmer, pelo menos nos filmes posteriores ao parêntesis Perceval, le Gallois/ A Marquesa d'O, um incomparável sentido da luz nos rostos. Ele filma personagens cujos rostos irradiam, numa espécie de exuberância da matéria humana que nos toca em primeiro lugar, em todo o caso um instante antes de olharmos a definição do «quadro» e de escutarmos as palavras. Eu sei que é quase sacrilégio, diante de um filme de Rohmer (esse habilíssimo manipulador de discursos, esse retorso ponderador de palavras imponderáveis e dos seus fluxos), afirmar que é possível e justo e infinitamente delicioso olhar para as pessoas e deixar os nossos olhos embeberem-se nelas, mesmo se para tal os nossos ouvidos se forçarem a ser momentaneamente distraídos (é uma pena que a prática das legendas não nos autorize por inteiro tal atitude). E que Conto da Primavera se pode desfrutar como um vaivém entre o que eles mostram e o que eles dizem, e que nesse ora-um-ora-outro há mais que tempo para vaguear sem destino fixo nem hora marcada.

Gosto de pensar que o Rohmer das Comédies et Proverbes e, agora, com os Contos das Quatro Estações (de que Conto da Primavera é o primeiro painel), se libertou da tirania de contar uma história. Sei que não é rigorosamente verdade, mas estes filmes têm qualquer coisa de contemplativo, no sentido de que cenas há que só lá estão porque há alguma coisa que é muito belo de se ver (como um muro, ou um jardim, ou um gesto, um sorriso, um movimento de mãos na orla de uma saia, um olhar) sem que haja qualquer decorativismo, o que quer dizer que é a beleza de olhar o seu ceme, que é o sentido de olhar o seu vector.

Como dizer? Conto da Primavera, hipotética e provável história de amor que se não cumpre, leva a disponibilidade de O Raio Verde até um ponto de equilíbrio entre a organização estrutural (tão cara a Rohmer e que esse filme não tinha) e uma deriva possível. Definitivamente, Rohmer não quer aqui ilustrar coisa nenhuma, esta sua fábula não tem moral nem mais-valia, ele salta - como dizer? - para uma espécie de hedonismo cinematográfico em que tudo desliza num encantamento a que ele sabe dar o seu iscozinho de pequeno mistério (a história do colar), a ironia doce (o personagem de Eva), um breve enredo de verdades e mentiras, como um «complot» para que os sentimentos aconteçam (a noite em que a protagonista e o pai da sua jovem amiga são deixados sós, como quem provoca uma situação a ver o que acontece), mas concluindo tudo como um parêntesis na vida, que antes existia e que, depois, volta à sua nonnalidade. Ou seja, é um fIlme sem consequências, que dura enquanto dura, nos deixa uma memória doce e nos atravessou em todas as direcções enquanto diante dele estávamos. Alguns pensarão que é em pura perda, mas não sei, finalmente, que coisa mais nobre se pode pedir à Arte, se ela nos dá o puro deleite dos sentidos e da inteligência.

Inteligência? Pois é: os primeiros quinze minutos deste filme, apontando-nos caminhos, fazendo-nos inquirir gestos e rotas, mas não nos dizendo nada, operando como quem desvenda pequenas pistas e guardando a revelação do seu sentido pleno, são sublimes como exemplo de uma arte de narrar que não pratica a obscuridade, mas inquire a nossa própria capacidade de interrogar e de ligar fios. Estou a ser injusto, porque Conto da Primavera não faz isso apenas durante os primeiros quinze minutos, todo ele se arquitecta num caminho que, assim que desvenda um facto assente (por exemplo: ela vive com um homem que está fora), logo multiplica imprecisões (ele deixou-a? é ela que o vai deixar enquanto ele está fora?) ou dúvidas (ela não o vai deixar nem ele a ela: mas será que ela não quereria deixá-lo? será que ela verdadeiramente o ama?) e que nos dá sempre mais aparências que certezas num jogo infindo, que a própria estrutura circular do filme deixa inconcluído, como se Rohmer nos incitasse a um olhar, a um ouvir e a um caminhar incertos.

Já vi filmes reconhecivelmente imponentes e outros que me deixam andar por eles, que não reconheço porque me propõem inusuais trilhos, como uma aventura feliz. São estes, porventura, os mais excitantes. Creio que se percebe que coloco Conto da Primavera nesta última e muito amável categoria.
Jorge Leitão Correia, Expresso, 11/1/1991




Título original: Conte de Printemps
Realização: Eric Rohmer
Argumento: Eric Rohmer
Interpretação: Anne Teyssèdre, Hugues Quester, Florence Darel, Eloïse Bennett, Sophie Robin
Direcção de Fotografia: Luc Pagès
Música: Jean-Louis Valéro
Montagem: Maria-Luisa Garcia
Origem: França
Ano de estreia: 1990
Duração: 103’




Pequena biografia:

O SIGNO DE ROHMER
Ao morrer no passado dia 11 de Janeiro, dois meses antes de completar noventa anos, Eric Rohmer deixou uma das obras mais coerentes e inteligentes de toda a história do cinema. E também muito variada, pois paralelamente às ficções que o tornaram célebre, Rohmer realizou diversos filmes educativos para a televisão.
De origem alsaciana, nasceu em Tulle, no centro da França, com o nome de Maurice Schérer e diz-se que adoptou o pseudónimo de Eric Rohmer para que a mãe não soubesse que ele fazia cinema, alterando também o seu lugar de nascimento, que nas suas biografias oficiais passou a ser Nancy. Diz -se também que proibiu que fossem publicadas fotografias suas enquanto a mãe vivesse. Com Godard, Truffaut, Rivette e Chabrol, todos cerca de dez anos mais novos do que ele, Rohmer foi um dos cinco nomes que revolucionou a crítica de cinema nos anos 50, nos Cahiers du Cinéma, onde continuaria a ter um papel fundamental e discreto durante muitos anos. Com os seus companheiros, também contribuiria para revolucionaram o cinema, no seio da Nouvelle Vague. Como crítico, foi o mais teórico e literário do grupo. Como realizador, surgiu em 1959, no mesmo ano que Godard e Truffaut, mas só alcançaria a consagração dez anos mais tarde, com MA NUIT CHEZ MAUD, já perto dos cinquenta anos. Em 1962, decidiu realizar uma série de seis filmes, a que chamou SEIS CONTOS MORAIS, sobre o mesmo tema, o que mostra a que ponto a sua arte é metódica e racional: “O narrador busca uma mulher e encontra outra, que monopoliza a sua atenção, até ao momento em que volta a encontrar a primeira”. Em todos estes filmes, Rohmer utiliza luz e cenários naturais e os diálogos, sempre num francês impecável e elegante, são abundantes e fundamentais, porque “na vida real, quando alguma coisa se passa, é sempre através da palavra”. Depois dos CONTOS MORAIS, Rohmer programou mais duas séries de filmes: as COMÉDIAS E PROVÉRBIOS (sem número preestabelecido, mas também foram em número de seis) e OS CONTOS DAS QUATRO ESTAÇÕES, fazendo diversas incursões a outros tipos de cinema: DIE MARQUISE VON O, PERCEVAL LE GALLOIS, A INGLESA E O DUQUE. Rohmer, que sempre trabalhou de modo independente dos grandes produtores, recusou-se a instalar-se numa perfeição rotineira. O seu cinema, aparentemente simples, é extremamente elaborado.

Cinemateca Portuguesa