post-a-sério sobre José e Pilar. Já faltou mais, para a sua ante-estreia comercial em faro...

Dia 17 de Novembro (Quarta-Feira)
21h30, Biblioteca Municipal

ANTE-ESTREIA com o Alto Patrocínio do Governo Civil de Faro

JOSÉ & PILAR
Miguel Gonçalves Mendes
Portugal/Espanha/Brasil, 2010, 125’, M/12
PRESENÇA DO REALIZADOR

Preços: Sócios - 2 euros/ Estudantes - 3,50 euros/Restantes casos - 4 euros

SITE OFICIAL

Miguel Gonçalves Mendes mostra o José que havia em Saramago.
E agora ao lado de uma grande obra, ficou com uma grande dívida. Miguel Gonçalves Mendes, aos, 32 anos, parece ter feito o trabalho de uma vida. Em José e Pilar descobrimos o Saramago que nunca vimos, intimo e pessoal.
Manuel Halpern, Jornal de Letras

Uma das produções mais concorridas do Festival do Rio 2010, o documentário "José & Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, estreou agora, numa sessão que abarrotou o Espaço de Cinema. Centrado na relação entre o escritor português José Saramago e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, foi aplaudido várias vezes durante a projeção, cercada de gargalhadas da plateia. Ao fim do filme, vários espectadores saíram da sala aos prantos, comovidos com as reflexões de Saramago sobre velhice e morte.
Rodrigo Fonseca, O Globo



Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário "Autografia" sobre Mário Cesariny que recebeu o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas. Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas. "O que acabámos de ver", explica Miguel Gonçalves Mendes, "não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme Saramago não aparece como aqui a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia. Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro «A Viagem do Elefante» (2008) até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele que foi quando adoeceu." Mas, assegura, o filme apesar de triste é também muito optimista, passa por lá a "vontade de viver e de amar", sem "rodriguinhos".




"Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e portanto é uma loucura continuar a trabalhar" nele, afirmou Miguel Mendes. "José & Pilar" é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo. Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na Flip que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo. "Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo."O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: "Ah, Miguel eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny."

O documentário "José & Pilar" termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava "morrer lúcido e de olhos abertos". Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.
Isabel Coutinho, Público



ENTREVISTA AO REALIZADOR
Já conhecia o José Saramago, que fez uma voz off num filme seu, de 2002. Ele reagiu com relutância quando lhe apresentou este projecto ou aceitou-o de imediato?
Sim, ele já tinha lido um excerto do Memorial do Convento num filme meu sobre a "palavra" saudade, D. Nieves. O José era um bocadinho relutante à temática do documentário, sobretudo à palavra "intimidade", que ele achava um bocadinho mais escabrosa. Demorou uns meses a aceitar a ideia. Eu achava que não havia um documentário como devia ser sobre ele e não me interessava nada fazer um filme convencional, preguiçoso, daqueles sobre "o homem e a obra". Não tinha sentido. E achava que também havia outra coisa que faltava: um documentário sobre a Pilar del Río, sobre o papel dela na vida do Saramago. Não só o papel na vida emocional , como também na consagração dele como escritor e na divulgação da obra. Portanto, propus um retrato dos dois, um retrato intimista. E também queria mostrar o que é ser um Nobel da Literatura nos dias de hoje e a relação entre duas pessoas que se amam e que se complementam. Curiosamente, houve uma coisa que mudou na atitude do José em relação ao filme, após as entrevistas que fiz aos dois. Ele viu o Autografia, o meu documentário sobre o Mário Cesariny, e disse uma coisa muito bonita: "Eu tenho é medo de não dizer coisas tão interessantes como o Mário diz." E eu respondi-lhe que claro que tinha, e que além disso era uma pessoa diferente do Cesariny. Acho que foi aí que ele percebeu que eu não queria fazer nada de convencional ou de sensacional, que a minha procura era por coisas distintas das que as outras pessoas filmavam. Aliás, depois de ver o filme, ele disse-me: "Por vezes tive sérias dúvidas sobre o que tu estavas a filmar, mas hoje acho que este filme é muito mais do que só sobre nós os dois." E eu disse -lhe que era uma grande dedicatória de amor a ele.

Vocês tiveram um acesso único, exclusivo, ao dia-a-dia e à vida deles. É impressionante o que conseguiram filmar.
Acho que foi de uma grande coragem por parte deles dar-nos esse acesso, até porque, durante as filmagens, apanhámos aquela fase muito difícil e complicada da doença do José. Mas mesmo assim não houve adiamentos no nosso plano de rodagem, nem tivemos de a suspender.



Tal como sucedia com Autografia, José e Pilar é um documentário auto-explicativo, sem narrador, em que nada é forçado ao espectador, nem um ponto de vista nem uma moral.
Eu não quis forçar nada, nem as imagens, nem uma qualquer moral, nem fazer "pedagogia". O filme dá espaço total ao espectador para o apreender. O filme do Mário era diferente, era preciso pô-lo a falar. No caso do José, as palavras dele já estão espalhadas por toda a parte, e o que eu queria não era isso, queria dados do quotidiano deles, porque o quotidiano diz muito sobre nós. O filme sobre o Mário era muito testamentário, enquanto aqui se passa precisamente o contrário. É um filme sobre alguém que tem sofreguidão pela vida, que quer continuar desesperadamente a viver para a sua luta e para poder continuar a escrever. Ele próprio diz, a certa altura, que começou a escrever muito tarde, e depois ganha o Nobel, o que é altamente inspirador: eis uma pessoa que nasceu no campo, numa família pobre, que não pôde fazer muitos estudos. É óbvio que a urgência dele era muito diferente da nossa. Era uma urgência de escrever, para a qual é necessário tempo.

Foi muito difícil equilibrar o filme, para não filmar mais o José Saramago ou a Pilar, e vice-versa, e mesmo assim mostrar como era a vida pública e íntima do casal?
Foi dificílimo. Filmámos 240 horas e a montagem deu um trabalho diabólico, mas contámos a história que queríamos contar, seguindo a estratégia formal que delineámos. É a história deste homem que quer escrever um livro e que tem medo de morrer antes de acabar, e desta mulher que ele ama e que o acompanha e apoia. E ele não só acaba o livro como ainda escreve outro a seguir. Podia ser um enredo de ficção. Houve muita coisa que caiu na montagem, coisas maravilhosas, mas que fugiam a este arco narrativo. Tínhamos de um lado este grande escritor, Prémio Nobel da Literatura, uma figura de enorme importância literária e política, e, do outro, esta mulher extraordinária que o ama e que o apoia, uma mulher com uma força e uma presença maravilhosas e altamente inspiradora. Aliás, acho que a Pilar merecia um filme só sobre ela, porque é uma personagem, uma mulher veemente, enérgica, afirmativa. Por isso, tivemos de estar sempre a equilibrar o tempo dos dois. Posso estar a ser abusivo, mas acho que o José olhava para ela quase como uma versão mais nova dele, em mulher. Foi a Pilar que lhe deu uma nova energia e uma nova vida. E eles complementam-se de forma clara e óbvia, sendo ele muito português e ela muito espanhola.

O título do filme era União Ibérica. Porque é que foi mudado?
O filme ia chamar-se União Ibérica, mas quando o José deu a entrevista ao DN, em que fez essas declarações e surgiu essa polémica, falou comigo e disse que talvez fosse melhor mexer no título, "senão vão achar que estamos aqui os dois a fazer um complot". Claro que o título era apenas uma metáfora sobre eles, porque eu sou completamente anti-iberista, acho que não temos nada que ver com os espanhóis. E o José e a Pilar sabiam dessa minha opinião, sempre souberam. Só que, depois da polémica que se gerou, o filme, com um título destes, passaria a ganhar uma carga política que não tem, e o próprio José disse-me que não queria que fosse ou ficasse vinculado a uma opinião política dele.

O documentário mostra ainda que a fama pode ser uma maldição. Eles andam sempre a correr mundo, em feiras do livro, cerimónias oficiais e sessões de autógrafos, não têm descanso nem férias.
Há muitas pessoas famosas que não se expõem a este tipo de coisas, mas é óbvio que qualquer actor, qualquer realizador, qualquer escritor, tem de vender os seus livros e filmes, e tem de fazer aquele trabalho. E é o que o José dizia: "Porque é que estou numa fila a dar 400 autógrafos às pessoas? Claro que é uma chatice, mas são aquelas pessoas que compram os meus livros, que me alimentam." E ele tinha o sentido do trabalho, um brio profissional que eu diria típico da velha guarda: "Sim, é um horror, mas sim, eu tenho de cumprir." Mesmo em relação às entrevistas, o José dizia: "Isto é quase uma tragicomédia, porque é uma chatice para mim responder sempre às mesmas perguntas, e é uma chatice para os jornalistas, que as têm de estar sempre a fazer. Eu sei as perguntas que eles vão fazer-me, eles sabem as respostas que eu vou dar, mas temos de continuar a fazer os nossos papéis. E se acredito nas coisas e quero continuar a lutar por elas, vou ter de as repetir até à exaustão." Ele e a Pilar achavam, e acham, que temos a obrigação de tentar continuar a mudar o mundo miserável que criámos.
Diário de Notícias


Título Original: José e Pilar
Realização: Miguel Gonçalves Mendes
Direcção de Fotografia: Daniel Neves
Montagem: Cláudia Rita Oliveira
Banda Sonora Original: Adriana Calcanhoto, Bruno Palozzo, Camané, José Mário Branco,
Luís Cilia, Noiserv, Pedro Gonçalves, Pedro Granato
Origem: Portugal/Espanha/Brasil
Ano de Estreia: 2010
Duração: 125’



1 comentário:

Oficinas RANHA disse...

Vi o documentário "José e Pilar" este fim-de-semana. Gostei muito.
Muito obrigada por me mostrares um lado mais pessoal e intimista de duas figuras que muito admiro.
Ana Cristina