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Um filme "misterioso, sonhador, doce, sereno, mágico". A Palma de Ouro Cannes 2010 é na 2ª f, 21h30, IPJ.

Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€


Tem um nome complicadíssimo de pronunciar para as gentes do ocidente, mas prefere que o chamem de Joe. Apichatpong Weerasethakul venceu a Palma de Ouro na última edição de Cannes graças a este filme, que é também a sua primeira obra a estrear nas salas portuguesas, apesar de algumas terem sido projectadas nalguns festivais nacionais e de ter duas magníficas fitas (Febre Tropical e Síndromas de um Século) editadas em DVD.

Como filme, O Tio Boonmee... surgiu enquanto o realizador criava para o Primitive, projecto artístico que o levou a filmar no nordeste tailandês e a contar algumas das suas lendas e histórias. Primeiro surgiu A Letter to Uncle Boonmee, espécie de preâmbulo para esta longa-metragem que nos leva à memória de um senhor em convalescença que entra em contacto com os espíritos de alguns dos seus familiares e que se recorda, ou projecta, reincarnações suas enquanto animal e espírito no passado e no futuro.

O resultado é belíssimo, uma viagem pela floresta, onde espíritos convivem com animais e humanos, num misto de realidade e conto popular, ou lendas, desfasado de noções temporais, de uma orientação que condicione a experiência que Apichatpong proporciona. A certa altura, um espírito diz que o Céu é um local sobrevalorizado. Será, certamente. Lá não existirão filmes assim.
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André Santos, Timeout



Não é preciso muito tempo, bastam dois ou três planos (até que o boi amarrado se solte e se aventure por uma floresta filmada em "noite americana", ou que assim parece) para se ter a sensação, muito clara, muito nítida, mas também, como dizer, muito calma, de que "O Tio Boonmee que se Lembra das suas Vidas Anteriores" é uma espécie de janela que alguém abriu, uma corrente de ar fresco soprada sobre a tristíssima avalanche de entulho que semanalmente se abate sobre o chamado "circuito comercial".

É um filme extraordinário, em todos os sentidos da palavra, um filme que devolve o cinema à sua (quase) esquecida vocação demiúrgica. É verdadeiramente um filme de "criação", de criação de um "mundo". E se com isto evocamos o que Godard escreveu, há muitos anos, sobre o "Índia" de Rossellini (que se tratava do "filme da criação do mundo"), fazemo-lo porque "O Tio Boonmee", no seu trabalho sobre o folclore, a mitologia, a história, empregues como maneira de "dobrar" a realidade sobre a sua própria fantasia (ou vice-versa), tem momentos em que nos traz o filme de Rossellini à cabeça - e evidentemente não apenas por, também aqui, os animais falarem (coisa que provavelmente desde o filme de Rossellini eles não faziam tão bem).

Lembra-nos mais coisas: Disney (o Disney genuíno), Powell / Pressburger, o "Brigadoon" de Minnelli, e claro, os indianos, certas coisas de Satyajit Ray ou Ritwik Ghatak, influência maior do cinema tailandês que talvez Apichatpong Weerasethakul nunca tivesse denunciado desta maneira. É assim tão especial, como são especiais os momentos, cada vez mais raros, em que sentimos o cinema a reencontrar-se consigo próprio. De resto, Apichatpong disse que "O Tio Boonmee" era a sua "pequena lamentação" pelo cinema. Voltaremos a ela, porque parece condensar-se no derradeiro plano.


O observador distante totalmente alheado do folclore e das tradições tailandesas, em vez de lamentar que a sua ignorância o condene a ver "O Tio Boonmee" como um objecto hermético, deve congratular-se por isso mesmo: está em óptima posição para remeter tudo o que não percebe para o "folclore e as tradições tailandesas" e limitar-se a apreciar o que vê. É mais misterioso, e se calhar ainda mais belo, assim. E no entanto, perfeitamente claro: é como dizia Jean Douchet nos anos 50, não precisamos de "aprender japonês" para perceber Mizoguchi, basta que "aprendamos Mizoguchi". Precisaremos, de facto, de saber alguma coisa da Tailândia para perceber o fabuloso intróito da princesa desfigurada à procura da sua imagem "redimida" pelo reflexo nas águas do lago? Ou por que razão foi o Tio Boonmee, numa vida anterior, um peixe-gato? Ou porque é que os homens-macacos de olhos que brilham no escuro confraternizaram e tiraram fotografias com os soldados que andavam pela floresta a matar comunistas? Claro que não, basta que saibamos "aprender Apichatpong".

E o "Apichatpong", aqui, é um cinema funde todas as ordens de realidade, o vivido e o sonhado, a experiência e a imaginação, a profundidade e a ligeireza, a metafísica e o aparte anedótico (a não negligenciar, o seu sentido de humor, que já conhecíamos pelo menos desde "Síndromas e um Século), com uma graça, uma delicadeza e um equilíbrio pouco menos que perfeitos. O Tio Boonmee, que está moribundo (mal dos rins), evidentemente não morre; ou por outra, a morte entrega-o ao que foi a sua vida, aos seus fantasmas, aos seus remorsos, aos seus desejos, às suas memórias, que se materializam por acção combinada do cinema e da natureza. É isto "O Tio Boonmee", é isto "o Apichatpong". E os que ficam depois dele, pobres diabos, ficam especados em frente a um minúsculo ecran de televisão. É o derradeiro plano.
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Luís Miguel Oliveira, Público



Há coisas que fazem sentido em Tio Boonmee… e coisas que não. Coisas que nem nós nem os nativos da Tailândia, certamente mais conhecedores das tradições e costumes desse país, conseguimos perceber. Fala-se aqui em perceber no sentido de conseguir atribuir uma via lógica, dentro da trama e da narrativa. Nesse aspecto, sim, existem coisas aqui que eu provavelmente jamais conseguirei compreender. Mas a nível emocional e sensatorial, Tio Boonmee… está em sintonia constante com quem estiver disposto a sintonizar-se na frequência correcta.

Quem já tiver visto Tropical Malady (igualmente magnífico) ou outro dos filmes do realizador, já saberá o que esperar: um universo aparte, diferente do nosso, que proporciona ao espectador nada mais que uma verdadeira viagem. Apichatpong Weerasethakul faz cinema como mais ninguém faz, transformando o mínimo em puro artifício e a natureza (haverá mais alguém que filma assim a floresta?) em sonho. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes com este seu último filme, está agora nas bocas do mundo, e com uma obra assim, tudo isso é mais que justificado. Mas enquanto que em Tropical Malady ou Syndromes and a Century tínhamos uma narrativa fragmentada, Tio Boonmee… fica a ganhar em centrar-se acima de tudo sobre um determinado grupo de personagens. Ao fazer isto, a relação emocional com as personagens torna-se maior, e o realizador consegue aqui criar um grupo de personagens com as quais o espectador se relaciona. Mas façamos uma pequena sinopse da história: Boonmee é um homem que está às portas da morte, vítima de uma doença terminal. Para cuidar dele, a sua mulher regressa dos mortos e o seu filho, desaparecido há muito, regressa… sob a forma de um macaco fantasma (sim, leram bem). A trama (se é que esta existe propriamente… e todo o relembrar das vidas passadas de que o título fala é algo que deve ser guardado para o filme) desenvolve-se a partir daí, e que se desengane o espectador que espera apenas um monte de planos bonitos e um filme que apela aos sentidos: este é, acima de tudo, um filme sobre um homem obrigado a lidar com a morte. E o que torna todo o filme tão único e diferente é exactamente o facto de Apichatong ter uma visão muito particular da morte e de toda a mitologia que a acompanha. Aqui, os fantasmas abraçam os vivos e vêm com eles fotos do passado. “O céu é sobrevalozirado”, diz a certa altura a sua mulher regressada do além. Para o realizador tailandês, o outro mundo está já aqui ao lado.


Além de alguns momentos verdadeiramente tocantes e outros com o humor particular do realizador, sempre embebidos de uma poesia como só Apichatong consegue (há que dar destaque a toda aquela caminhada em direcção à gruta, perto do final, e a uma lindíssima cena de diálogo entre Boonmee e a sua defunta mulher), temos aqui todo um mundo totalmente novo para experimentar. Tal como foi dito, para Apichatong o natural e o sobrenatural co-existem, e o filme está todo ele filmado segundo esse princípio. O tom é todo ele poético e etéreo, com todo aquele espírito naturalista do realizador (câmara frequentemente estática, tudo filmado tal como é) que acaba por dar a Tio Boonmee… um ar de sonho. É, realmente, algo notável: Apichatong mostra-nos uma floresta, e filma-a tal como uma floresta, mas a sua câmara, milagrosamente, consegue colocar-nos lá dentro de forma que nos apercebamos de que aquela floresta é, de facto, muito mais que isso. É um portal para o cinema deste realizador. A fotografia é, portanto, lindíssima, tal como o trabalho de som, que captura sem filtros o som de toda a vida existente naquela enorme floresta. Há imagens que ficam marcadas na memória, vivendo com o espectador depois deste ter saído da sala (aqueles macacos fantasmas…). É, a nível sensatorial, uma experiência envolvente, que nos agarra e prende por todos os lados, ao mesmo tempo despertando-nos a nível emocional.

Tio Boonmee… é uma autêntica viagem por um mundo como só Apichatpong Weerasethakul sabe criar (pelo seu mundo), uma autêntica janela que se abre como raramente se vê no cinema. Um triunfo em todos os aspectos, desde o trabalho de imagem e som até, claro, aquelas personagens que nos conseguem por vezes encantar, por vezes comover. Veja-se aquela simples e curta história da princesa envelhecida que vê num lago o reflexo do seu eu jovem, com toda a beleza que antes possuía, ou alguns diálogos simples e curtos que encerram em si mesmo mais sentimento enterrado sob as palavras que o que parece à primeira vista. É inclassificável, inqualificável, único, diferente e sem dúvida intolerável para muitos. O seu ritmo lento certamente criará bocejo em muitos e fascinará outros tantos, e percebe-se facilmente ambas as reacções. Não é definitivamente um filme para todos (haverá algum que seja?), que pode tão facilmente despertar fascínio como desprezo. Mas o que temos em Tio Boonmee… é cinema como meio de viagem, é a arte como meio de criar um mundo novo e diferente. Isto é, afinal de contas, cinema do género Fantástico, com fantasmas e morte, magia e vidas passadas. Mas aqui o Fantástico é normal, e o natural e o sobrenatural fundem-se, criando um universo banhado a sonho e preenchido de alma. Numa indústria onde os filmes em sala estão cada vez mais iguais, onde o que cada vez mais interessa são as pipocas, é bom ver uma longa-metragem de Apichatong (sim, não me atrevo a tentar escrever o seu último nome) nas salas. É bom ver o ecrã transformado em janela e viver uma viagem que nos preencha por completo, seja de que forma for. Quer se goste quer não, este é um filme que tem muito a dar. A forma como o recebemos, por outro lado, é algo que variará com cada um de nós. No meu caso, fascinou-me (e, tal como o texto certamente tornou óbvio, nem consigo explicar bem porquê, não estando a fazer esta crítica jus ao filme). Mas certamente não será assim com todos.
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Gonçalo Trindade, antecinema




Título Original: Loong Boonmee raleuk chat
Realização, Argumento e Produção: Apichatpong Weerastethakul
Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom, Yukontorn Mingmongkon, Charin Pengpanich
Montagem: Lee Chatametikool
Interpretação: Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee
Origem: Reino Unido/ Tailândia/ Alemanha/ França/ Espanha
Ano: 2010
Duração: 113´
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Os manifestos poéticos de Maio. E os outros dois da trilogia. SEMPRE EM CIMA DA JOGADA.

IPJ – 21H30 - Entrada 2€ Sócios, 3,5€ Estudantes, 4€ Restantes

CICLO MANIFESTOS POÉTICOS

DIA 2
O MÁGICO*

Sylvain Chomet
Reino Unido/ França, 2010, 80’, M/6
*Sessão para escolas às 10h30, entrada 1€

A partir de um guião original de Tati, o autor de "Belleville Rendez-vous" animou uma pequena elegia melancólica sobre o tempo que passa. Poesia em movimento. Tati sem ser Tati, Chomet sem ser Chomet, amalgamando elementos de ambos (e também da banda-desenhada clássica, com um perfume da "linha clara" franco-belga) para construir uma pequena elegia melancólica sobre um tempo perdido para nunca mais voltar. O filme é, cena a cena, visualmente espantoso, com panorâmicas de estarrecer e a colher do universo de Tati uma atenção inusitada aos detalhes, aos pequenos nadas do dia-a-dia, além de uma quase total ausência de diálogos, substituídos, na maioria das vezes, por expressões ininteligíveis. Mais ainda: há na relação entre as duas personagens centrais uma ternura, uma riqueza e uma complexidade não verbalizadas que deixam a perder a vista a maior parte do cinema que por aí vemos. Ou seja, pura magia cinematográfica.
Luís Salvado

DIA 9
O TIO BOONMEE QUE SE LEMBRA DAS SUAS VIDAS ANTERIORES

Apichatpong Weerastethakul
Reino Unido/ Tailândia/ Alemanha/ França/ Espanha, 2010, 113’, M/12

Palma de Ouro de Cannes 2010

Apesar da sua curta carreira cinematográfica, Apichatpong Weerasethakul é já reconhecido como uma das mais originais vozes do cinema asiático e mundial. As suas quatro longas-metragens e as suas curtas-metragens granjearam-lhe o reconhecimento internacional e diversos prémios em festivais pelo mundo fora. O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores complementa o projecto Primitiv de Apichatpong, que tem a ver com a ideia de extinção e da memória de vidas passadas.
Não é preciso muito tempo, bastam dois ou três planos (até que o boi amarrado se solte e se aventure por uma floresta filmada em "noite americana", ou que assim parece) para se ter a sensação, muito clara, muito nítida, mas também, como dizer, muito calma, de que "O Tio Boonmee que se Lembra das suas Vidas Anteriores" é uma espécie de janela que alguém abriu, uma corrente de ar fresco soprada sobre a tristíssima avalanche de entulho que semanalmente se abate sobre o chamado "circuito comercial".
É um filme extraordinário, em todos os sentidos da palavra, um filme que devolve o cinema à sua (quase) esquecida vocação demiúrgica. É verdadeiramente um filme de "criação", de criação de um "mundo".
É assim tão especial, como são especiais os momentos, cada vez mais raros, em que sentimos o cinema a reencontrar-se consigo próprio.
Luís Miguel Oliveira

DIA 16
A CIDADE DOS MORTOS

Sérgio Tréfaut
Portugal, 2010, 63’, M/12

Na vastidão do cemitério El Arafa, no Cairo, existe uma cidade com um milhão de habitantes que vivem em edifícios construídos entre túmulos e mausoléus. Há funerais todos os dias, enquanto à sua volta a vida decorre normalmente nas padarias, cafés, mercados e escolas. Tudo dentro da maior necrópole do mundo. A Cidade dos Mortos é gigante, mas parece uma pequena aldeia, onde um jovem pastor leva o seu rebanho pelas ruas estreitas, uma mulher tenta vender alguidares de plástico e as crianças brincam por entre as lápides, com os seus papagaios voadores. Este filme apresenta-nos vários aspectos deste estranho e maravilhoso enclave. Observamos as sepulturas cor de areia, com a sua beleza e serenidade, em simultâneo com a agitação de um lugar onde uma população predominantemente pobre luta para sobreviver. Os movimentos da câmara são calmos e comedidos, tal como a voz que descreve os atractivos desta cidade dos mortos, onde o ritmo da vida é definido pelo Corão. Alá pode ser omnipresente, mas isso não impede ninguém de se encostar a uma sepultura e de arrotar, insultar pessoas que passam ou falar abertamente do desejo de ter sexo antes do casamento. Como diz uma local “viver tão perto dos mortos só pode trazer sabedoria”. Preparado e rodado ao longo de cinco anos (2004-2009), este filme procura dar a ver a alma invisível do cemitério. Seleccionado para dezenas de festivais de cinema documental, obteve o Grande Prémio Documenta Madrid 2010.
Festival Indie Lisboa

DIA 23
POESIA

Lee Changdong
Coreia do sul, 2010, 139’, M/12

Lee Changdong filma o seu argumento premiado pelo Festival de Cannes o ano passado, mais uma vez, como acontecia, por exemplo, em Oasis (premiado no Festival de Veneza, em 2002), com emoção e profundidade e desejo de reflexão. Esta mulher que não sai de cena (a extraordinária Yun Jeong-hie), a braços com um neto insolente que se torna criminoso ao participar numa violação colectiva, um grupo de pais empenhado em abafar o crime e um patrão prepotente; esta velha a lidar ainda com os seus próprios sinais de Alzheimer, que luta para aprender poesia, é, mais do que um símbolo de um mundo em extinção, um exemplo de vida que o realizador acolhe no seu desejo de trazer a realidade para o cinema. O que faz de maneira lírica e delicada, sem retórica florida nem desejo de propaganda, instilando talvez mais do que insinuando, acrescentando humanidade onde geralmente só existe desdém, dando a ver em imagens rigorosas e pungentes outro lado do quotidiano, uma faceta onde juventude, beleza e saúde não evocam fogos de artificio.
Rui Monteiro

DIA 30
MEL

Semih Kaplanoglu
Turquia/Alemanha, 2010, 103’, M/12

Urso de Ouro em Berlim 2011

Um filme turco cheio de palavras ausentes nesta história sobre um menino gago, o seu pai único, as abelhas, o faisão e a poesia a germinar no silêncio da contemplação. Todo o filme é-nos transmitido através daquilo a que o próprio realizador chama, paradoxalmente, "realismo espiritual". Sempre na perspetiva de quem vê o mundo a um metro do chão. E é nesta perpendicularidade, entre a verticalidade das árvores enormes da floresta onde o pai assaltava colmeias, e o olhar horizontal no miúdo, que se encontra um ponto qualquer onde se formam as "origens da alma", na palavras do realizador. Ou se vai incubando, fermentado, acumulando, cozinhando com leite, mel e ovos, o armazenamento vocabular e sensorial de um poeta que ainda não sabe que o será porque ele apenas é um poeta em construção. Diz-se que a palavra pode ter a valência de mil imagens e não o contrário, e produzir um efeito impactante, mas a pausa - no momento certo, na hora e no local certos produz um efeito ainda mais estrepitante. Por isso, este é um filme de pausas cheias de poesia lá dentro. E a poesia, como se sabe, é feita da mesma matéria com que se constroem os sonhos. E não por acaso o filme acaba com o miúdo a dormir, no meio da imensa e misteriosa floresta, cheio de "brancos pavores", tão líquidos como o rio que corre ali perto. E cita-se uma frase maravilhosa em latim, que condensa todo o filme - soa muito melhor em latim, mas a tradução impõe-se: Altissima quaeque flumina minimo sono labi, os rios mais profundos correm sempre com menos ruído.
Ana Margarida de Carvalho

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Continuamos a propiciar chá, café e bolinhos na nossa sede… a acompanhar filmes! Pois SE Mel é o terceiro elemento de uma trilogia (o único estreado em Portugal), e se só se pode 'apreendê-lo' na sua plenitude conhecendo os dois primeiros... qual é a função de um cineclube, qual é? :-)

SEDE CINECLUBE DE FARO - 21H30 - ENTRADA LIVRE – LOTAÇÃO 25 LUGARES

CICLO OS OUTROS DOIS DA TRILOGIA

DIA 11
OVO
, Semih Kaplanoglu, Turquia, 2007, 97’, M/12

DIA 25
LEITE
, Semih Kaplanoglu, Turquia/França/Alemanha, 2008, 102’, M/12

Palavras do realizador:
MEL é o terceiro filme da minha “Trilogia Yusuf”. A ideia para esta trilogia começou a formar‐se quando estava a rever um guião, que tinha escrito há muito tempo, sobre a história de Yusuf durante os seus anos de universitário em SÜT / LEITE. Enquanto estava a elaborar esta personagem dei por mim a especular sobre como seria o seu futuro enquanto adulto (YUMURTA/OVO) e acerca de como teriam sido o passado e a infância do rapaz (BAL/MEL). Estas ideias ajudaram a moldar a trilogia. Comecei com YUMURTA/OVO, talvez porque a minha intenção fosse ir descobrindo a personagem em camadas, até chegar ao centro. Toda a trilogia pode ser vista como um extenso flashback. Nenhum dos filmes pode ser considerado de época: todos eles decorrem na actualidade, em diversos ambientes e escalões económicos turcos. Perguntam‐me se todos estes Yusufs são, efectivamente, a mesma personagem. Opto por não responder para não denunciar os seus segredos, a relação directa e indirecta entre os filmes, os mistérios da trilogia.
Semih Kaplanoglu