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2ªf, 23, 22h, Claustros do Museu Municipal. Cinema ao ar livre!

“Meia-Noite em Paris” é o melhor filme de Woody Allen em muitos anos (desde “Match Point”) - uma comédia serena sobre a lucidez de dizer adeus às ilusões.

De x em x anos, os rumores começam a rodar outra vez que Woody Allen voltou à sua grande forma, a partir de um filme particularmente inspirado - aconteceu entre 1994 e 1996 (“Balas Sobre a Broadway”, “Poderosa Afrodite” e “Toda a Gente Diz que Te Amo” de rajada), depois em 1999 (“Através da Noite”) e 2005 (“Match Point”), apenas para o que vem a seguir decepcionar significativamente. Em 2011, os rumores davam a entender que o novo “Meia-Noite em Paris”, a mais recente paragem na “tournée europeia” iniciada com “Match Point”, era o novo “regresso à grande forma” - tornou-se no seu maior êxito comercial em muitos anos (nos EUA é mesmo em quase 30 anos) e no seu filme melhor recebido desde “Match Point”. E é verdade, “Meia-Noite em Paris” é mesmo o melhor Allen desde “Match Point”. E tal como aquele remetia forçosamente para uma das últimas grandes obras-primas do cineasta (“Crimes e Escapadelas”, 1989), também o novo filme marca um regresso à leveza fantasiosa de “Toda a Gente Diz que Te Amo” dentro de uma narrativa que retoma a premissa melancólica da lendária “Rosa Púrpura do Cairo” (1985).

O tema, não por acaso, é caro a Allen: a nostalgia de uma “idade de ouro” passada, traço que sempre foi recorrente no cinema do nova-iorquino (“O Agente da Broadway”, “Os Dias da Rádio” ou “A Maldição do Escorpião de Jade” são exemplos) ou mesmo nas suas escolhas artísticas (como o jazz pré-II Guerra Mundial que ele continua a tocar todas as segundas-feiras e que compõe, desde há décadas, a exclusiva banda-sonora dos filmes).

Quem conhece os seus textos humorísticos reconhecerá em “Meia-Noite em Paris” referências a alguns deles (e nomeadamente ao “Episódio Kugelmass” onde a Madame Bovary de Flaubert se materializava na Nova Iorque contemporânea) nesta história de um americano em Paris, fascinado pelo passado mítico da cidade, que um táxi mágico transporta até aos anos 1920. É uma aplicação prática da velha máxima “dantes é que era bom”, que Allen confronta engenhosamente com a realidade para provar por A+B que não senhor, dantes era tão bom como os dias de hoje. O jogo de passados e presentes que o realizador encena com humor, com Gil Pender (Owen Wilson como o mais recente alter-ego Alleniano) a encontrar (e a pedir conselho a) Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Dali ou Picasso, é lucidamente resolvido em favor do presente, tornando “Meia-Noite em Paris” numa espécie de “adeus à inocência”, moderando a amargura recente dos últimos filmes com uma serenidade discreta e um optimismo que sugere que, afinal, tudo pode dar certo.

Comparado com a escuridão escarninha de filmes mais recentes como “O Sonho de Cassandra” ou “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos”, “Meia-Noite em Paris” é literalmente luminoso - é o filme de um realizador que, de certo modo, acabou de fazer as pazes com o mundo e se concentra naquilo que realmente interessa, com uma elegância e um humor abertos que já não víamos em Allen há uns anitos largos. Pode-se acusar o filme de tombar no cartão-postal do turismo parisiense (e o que é a abertura do filme senão uma versão parisiense de “Manhattan”?) mas essa é também uma parte importante do engenhoso jogo de espelhos que Allen lança, com o postal a funcionar como metáfora das ilusões feitas para serem desfeitas: por trás da imagem há vida e emoção que vão muito para lá da superfície. E se, como se diz a certa altura no filme, o trabalho de um artista é “não sucumbir ao desespero”, Allen, por uma vez, recusou-se a fazê-lo. E sim, o resultado é o seu melhor filme desde “Match Point”.

Jorge Mourinha, Ípsilon


ENTREVISTA A WOODY ALLEN

Gil e Inez (Owen Wilson e Rachel McAdams) são um jovem casal americano, estão noivos e chegaram a Paris para umas férias com os pais dela. Gil é argumentista de sucesso nos EUA que está a tentar dar o salto - por enquanto sem êxito - para o seu primeiro romance. Quando chega a Paris, apaixona-se perdidamente pela cidade. Encontra ali a inspiração que lhe faltava e entusiasma-se a tal ponto que até o namoro com Inez fica em risco. Porquê? É que, quando a noite cai, Gil gosta de deixar o hotel para dar uma volta. Vai sempre sozinho. Num dos passeios, perde-se na cidade. E descobre um local mágico quando o relógio marca a meia-noite em que um velho carro passa e o leva para os loucos anos 20. Conversámos com Woody Allen no último Festival de Cannes, um dia depois da estreia mundial do filme.

Tem trabalhado muito na Europa nesta última década. Fez quatro filmes em Londres, um em Barcelona, rodou este em Paris e, tanto quanto sabemos, o seu próximo projeto vai passar-se em Roma. Como é que tem funcionado esta tournée europeia?
Bom, antes de tudo tenho de dizer que são as cidades que me convidaram. Eles fazem-me a proposta e ocupam-se da montagem financeira do filme. Depois, sim, começo a pensar se posso fazer um filme ali. Se serei capaz. Se um dia fosse convidado para filmar em Berlim, acho que faria um filme de intriga e espionagem, é essa a vibração que a cidade me traz à cabeça. Do mesmo modo, para Paris, pensei numa comédia romântica.

Você costuma dizer que detesta viajar.
Sim, mas a minha família adora. Eles gostam de vir à Europa passar férias e se eu posso fazer um filme ao mesmo tempo tanto melhor.


A Paris que vemos neste filme é uma fantasia. Sente-se Influenciado pelas suas próprias memórias da cidade?
Muito. A verdade é que as cidades onde tenho trabalhado são ou já foram locais muito importantes para mim. Detestaria tratá-las só como um pano de fundo. Paris é uma cidade mágica, jamais a poderia ver de uma forma realista. O mesmo se passa com Manhattan: vejo sempre a 'minha' Nova Iorque através de uns óculos cor de rosa. Só vejo as coisas boas. As más existem, obviamente, mas eu não as filmo. Além disso Paris é uma cidade bonita de se ver. Não sei que filme conseguiria fazer numa terriola desinteressante e industrial. Nós enviamos sempre um grupo de olheiros antes da rodagem para que eles escolham os décors. Eles trazem-me mui¬tas possibilidades para cada cena do argumento, compete-me depois escolher o local definitivo.

O que o leva a fazer o filme seguinte?
O divertimento. Para mim, o cinema é um hobby.

Também sofre crises de inspiração como as da personagem de Owen Wilson?
Às vezes aparecem, sim. A receita é sempre a mesma: sento-me no meu escritório e fico sozinho, o tempo que for preciso, até a crise passar. Eu gosto de escrever, basicamente. Nunca tive uma agenda de argumentistas. É um dos poucos defeitos que não tenho...

Como lhe surgiu a Ideia da viagem no tempo?
Veio do título: "Midnight in Paris". Começou tudo aqui. Eu estava à procura de algo interessante que se passasse à meia-noite. Queria que a personagem fosse para uma festa secreta. Depois tive a ideia do carro, um carro dos anos 20 que o levaria para esse tempo, e o leque abriu-se.

Gil vai parar a uma época em que havia uma troca de ideias abundante entre intelectuais e artistas. Gostaria de ter vivido e trabalhado nesse meio?
Nos EUA, todos nós conhecemos os anos 20 na Europa e as coisas extraordinárias que aconteceram nessa década para a arte do século XX. Estavam lá Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Buñuel, Dalí... Aquilo era um mundo de boémios que trocavam de namoradas a toda a hora e adoravam beber juntos... Eu jamais poderia trabalhar naquele meio. Definitivamente, sou muito mais classe média! Preciso de estar no meu quarto silencioso e confortável, não me sento à mesa de cafés a beber com intelectuais. À noite gosto de estar em casa a brincar com os meus filhos e ver futebol na TV.

Qual é a sua equipa?
De futebol? Os New York Giants. Em basquetebol, sou dos Knicks e em basebol dos Yankees. Todos de Nova Iorque, como é óbvio. Li muitos livros mas não o suficiente para me considerar um intelectual. Nunca fui, de modo algum. Tirando os óculos... Não me especializei em nada: nem em vinhos, nem em desporto, nem em mulheres...

Cinema à parte, não tem pelo menos uma categoria em que se considera especialista? Na música?
Bom, eu acho que sei muito, muito mesmo, sobre jazz de Nova Orleães. Mas é a exceção.


Faz tudo no cinema: realiza, produz, interpreta, ocupa-se da montagem. Controla os seus filmes do início ao fim e faz pelo menos um por ano. Quais são as vantagens disto?
A maior de todas é aceder a uma regularidade de trabalho. Para mim, tudo isso vem de uma só palavra: organização. Sou muito meticuloso no que faço. Gosto de controlar to¬dos os detalhes. É claro que respeito quem consegue trabalhar no caos e fazer coisas fantásticas mas eu não sei fazer. A minha organização, volto a dizê-lo, é muito classe média: levanto-me de manhã bem cedo, faço exercício físico, tomo o pequeno-almoço, levo os miúdos à escola e depois começo a escrever.

O seu tipo de cinema é complicado de fazer nos EUA? Mesmo para alguém com o seu estatuto?
Na América, acho que não tenho estatuto... É impossível obter financiamentos sem ter um argumento terminado e um elenco confirmado. Na Europa é muito mais fácil porque não há indústria nem sistema de estúdios. Há quem pague (na maioria das vezes, é o Estado), e quem fique feliz em fazê-lo. Eu realizo, eles pagam: é o paraíso.

Conseguiria trabalhar sem independência?
Acho que não. Sabe, nestes anos todos de carreira, eu sempre tive o final cut dos meus filmes. Nunca ninguém interferiu nos meus argumentos. Não era agora que eu ia abdicar disso. Preferiria passar a escrever peças de teatro e terminar assim os meus dias se já não pudesse fazer cinema à minha maneira. É por isso que eu trato o cinema como hobby. Quando toco clarinete, é a mesma coisa, é outro hobby. As pessoas vêm aos concertos porque viram os meus filmes. Não querem perder pitada e dizem: "vamos lá ouvir o Woody Allen." Ouvem-me e nunca mais voltam...

É nostálgico?
Sou. Mas, a nostalgia é uma armadilha. Não é um sentimento doce, pelo menos para mim. A nostalgia não significa pensar na infância, na rádio, nos rebuçados e nos livros de BD. A minha foi horrível. Ia para a escola e... nem imagina como eu a odiava. Lembro-me nessa altura de estar mortinho por crescer só para me livrar daquilo tudo.

Houve tempos melhores para si enquanto cineasta?
Não penso assim. Nenhum tempo foi melhor do que outro. Tive sempre que lutar muito para financiar os meus filmes, montá-los como queria, ter o final cut, etc. Nunca foi fácil, nem nos tempos de "Annie Hall" e "Manhattan". No cinema, estamos sempre no escuro. Não é a mesma coisa que tocar clarinete ou jogar basebol. Fazer filmes é um trabalho difícil, há sempre algo que falha. Mas se não falhasse, acho que o cinema deixava de ser uma arte. Tornava-se uma indústria de salsichas.

Disse em tempos que falhou quase todos os seus filmes. Passando por cima do exagero, não há nenhum com que se sinta plenamente satisfeito? "Annie Hall", por exemplo?
Humm... "Annie Hall", nem por isso. Mas fiquei satisfeito com "A Rosa Púrpura do Cairo". E com "Match Point". Há assim um grupo de filmes - não muitos - em que olho para trás e digo: "Oh, pá, até fiz aqui um bom trabalho."

Como é que decide que vai interpretar ou não um filme seu?
Depende dos filmes. Não tenho saudades de interpretar. Além disso, é preciso fazer a barba todas as manhãs. Uma maçada.

Faria um filme em Lisboa?
Why not? Você paga?
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Francisco Ferreira, Expresso



Título original: Midnight in Paris
Realização e Argumento: Woody Allen
Fotografia: Johanne Debas e Darius Khondji
Montagem: Alisa Lepselter
Música: Stephane Wrembel
Interpretação: Owen Wilson, Kathy Bates, Adrien Brody, Carla Bruni, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Michael Sheen,
Origem: EUA/Espanha
Ano:2011
Duração: 100’

Preço
Sócios CCF 2€, Estudantes 3,5€, Restante 4€

Reservas
cineclubefaro@gmail.com

O filme mais sombrio de Woody Allen. 4ªf, 21h30, sede. (perante ele, Match Point é joguinho de cabra-cega)

UM dos filmes vividos por David Gilmour e o seu filho em Clube de Cinema (livro que foi apresentado por Graça Lobo).

CRIMES E ESCAPADELAS (Crimes and Misdemeanors), EUA, 1989, 104’

Um filme sombrio ou um reflexo de sombras? Não interessa. É o regresso de Woody Allen, genial, como é costume.

Woody soma e segue. Novo filme obra grande do cinema americano. Sem grandes alardes, sem o apoio das fortes baterias publicitárias que pontuam a estreia dos megafilmes dos seus colegas de Hollywood. «Crimes e Escapadelas» é a habitual visita anual do nosso amigo americano.

Desta vez Woody traz algumas novidades na bagagem. Começam no elenco, passando ainda pelas tonalidades com que pinta a história, terminando com a inserção de um elemento até agora inédito no cinema de Woody. Mas fica já um aviso à navegação: desiludam-se os que vão procurar comédia em «Crimes e Escapadelas». O filme não é para rir e Allen parece cada vez menos interessado em regressar às gargalhadas. «Crimes e Escapadelas» é mesmo o mais sombrio filme de Woody, pintado com os já habituais tons outonais que definem o «deserto de almas» que as suas personagens atravessam. Drama, cada vez mais complexo, onde Allen continua a questionar a possibilidade de felicidade e o significado da vida. A herança de Bergman nota-se cada vez mais.

«Crimes e Escapadelas» coloca os seus protagonistas face a dilemas com a dimensão da vida. As questões morais e éticas que presidem à sua resolução é o objectivo cinematográfico de Allen. Não há bons nem maus, apenas pessoas enfrentando problemas de importância vital num dado momento da sua existência.

Temos pois uma narrativa montada como um castelo de cartas onde cada elemento segura e dá consistência aos outros. No início são duas histórias contadas em paralelo, aparentemente sem ligação. Temos os problemas de Judah Rosenthal, um oftalmologista famoso, a braços com uma situação complicada: leva uma vida dupla (família e amante). Com a sua imagem oficial de grande humanista, indivíduo devotado a nobres causas, chefe de uma família modelo a ser posta em causa pela face escondida, pelos acessos de histerismo da amante farta de permanecer na sombra. Temos ainda o caso de Cliff Stern, um documentarista de meia idade, apanhado numa encruzilhada da vida, tanto no aspecto intímo (um casamento que se apaga, com amor-afecto a ser canalizado para uma sobrinha) como no foro profissional.

Em «Crimes e Escapadelas» Woody reforça a sua família cinematográfica com uma série de nomes sonantes. A juntar aos «habitués» Mia Farrow (décimo filme com Allen) e Sam Waterstorb (quarta participação depois de «Intimidade», «Ana e as Suas Irmãs» e «Setembro»), surgem Martin Landau, excelente na sua composição de Judah Rosenthal, um dos personagens centrais do filme, Anjelica Huston, Alan Alda, Claire Bloom, Jerry Orbach, Caroline Aaron e mesmo, de forma episódica, Daryl Hannah. Se Martin Landau merece destaque maior, pelo seu peso no filme, pela sua nomeação para o Oscar de melhor secundário, pelo segundo fôlego da sua carreira, a participação de Alan Alda é, do ponto de vista cinematográfico, mais estimulante.
Uma obra brilhante, excelentemente fotografada pelo sueco Sven Nikvist, onde Allen reforça e apura a sua tendência para um cinema romanesco e intimista.

M.P., Se7e, 26/4/90


Para um crime perfeito «à la Hitchcock», aliás explicitamente citado no filme, Woody Allen faz um filme quase perfeito.

Se em UMA OUTRA MULHER se tratava da escuta, em CRIMES E ESCAPADELAS é o olhar que ocupa obviamente a atenção de Woody Allen. A esse respeito o argumento do filme é extremamente hábil. Desde logo na plateia que aplaude Judah (Martin Landau), o oftalmologista publicamente distinguido no auge da sua carreira. Virtudes públicas, vícios privados. Ele que trata dos olhos vive a situação de conflito entre o modo como é visto e aquilo que oculta (eventuais fraudes económicas, uma vida amorosa clandestina e finalmente um crime). Os olhos de Deus, retomados da educação religiosa hebraica da sua infância, são a metáfora do papel que assume perante si próprio, da forma como se vê. A consciência moral identifica-se com a capacidade de enfrentar um olhar exterior, em certa medida o olhar dos outros.

Lester (Alan Alda) é um personagem de alguma maneira semelhante. Ele é produtor de televisão mas não goza do prestígio de Judah. Por isso mesmo empenha-se num documentário a seu respeito. Para Lester trata-se ainda de ser visto, de através da plateia electrónica dos «mass-media» que ele controla, criar uma imagem positiva de si próprio.

No pólo oposto há os personagens que vêem. Ben (Sam Waterson) é um rabi, logo alguém que vê os outros através de referências morais que não dependem de momentos circunstanciais.
Progressivamente fica cego. Cliff (Woody Allen) é um documentarista empenhado naquilo que dá a ver. Acaba despedido, e o seu melhor material filmado é posto em causa pela morte do filósofo protagonista do documentário que procurava realizar.

Mas CRIMES E ESCAPADELAS não é apenas um filme sobre o visto. Woody Allen preocupa-se também com o dito não apenas nos discursos (do oftalmologista, do produtor, do Filósofo) mas também no relato do que de certo modo é inconfessável (a experiência sexual da irmã de Cliff com um desconhecido), ou na quase compulsão da confissão que parece assaltar Judah (mas a dado momento quando numa reunião familiar exclama «fiz uma coisa horrível» o que o move é o pretexto para uma melhor dissimulação do seu envolvimento com a amante assassinada).

A própria palavra se liga à culpa. Afinal o crime fora tão fácil como um simples telefonema. O crime perfeito de Judah pode ser só uma excelente ideia para um argumento cinematográfico, de que ele próprio pode dividar-se entre o desejo e a culpa, como o desejo de Cliff se pode identificar com o crime perfeito nesse excelente diálogo equívoco da cena final entre ambos.

Das palavras parece ainda desconfiar Woody Alllen quando contrapõe o discurso humanista e optimista do filósofo, ainda a palavra pública submetida ao efeito de plateia, com a resolução do homem consigo próprio no gesto suicida.

O que Woody Allen reflecte é talvez uma realidade nova resultante duma mutação cultural do mundo moderno televisual onde o que é visto tem uma importância primordial mas a própria multiplicação quase infinita de pontos de vista torna-os cada vez mais relativos. Woody Allen interroga os fundamentos da consciência moral num mundo que se tem de habituar a uma certa dose de incerteza que em última análise destrói a visão global necessária ao desenvolvimento que qualquer ideologia ou mundividência que dê suporte a uma moral.

O que não é visto, a mais obscura zona da intimidade, pode ainda ser motivo de um sentimento de culpa na medida em que pode ser revelada. Mas haverá um limite para o que pode ser contido? Aparentemente é a distância que vai entre a vida e a morte, entre o oftalmologista que sobrevive, que consegue conter a culpa de uma carga que vai acumulando na luta pela sobrevivência até ao limite do crime, e o filósofo que se suicida (como a mãe de INTERIORS),que não consegue suportar a vida provavelmente em contradição com o discurso que produz. Crimes maiores e menores (parece ser o sentido do título original CRIMES AND MISDEMEANORS) são a carga escondida, não vista, de uma humanidade que deseja a perfeição, a harmonia, a beleza. Sobreviver é em certa medida a negação desse absoluto, mas paradoxalmente também a sua condição de existência.
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A. Roma Torres, Grande Ilusão, n. 11, Dezembro 1990



Título original:
Crimes and Misdemeanores
Realização: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Fotografia: Sven Nykvist
Música: Bach e Schubert
Montagem: Susan E. Morse
Intérpretes: Martln Landau, Claire Bloom, Alan Alda, Woody Allen, Anjellca Huston, Sam Watterson, Mia Farrow, Carollne Aron, Joanna Gleason, Jenny Nlchols
Origem: EUA
Ano: 1989
Duração: 104’
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projeto financiado por
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projeto financiado por
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O Homem dos Nossos Sonhos ao Ar Livre. 2ªf, 18, 22h é noite de Woody Allen

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL
Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Passe para os 10 dias 25€ / Estudantes 3,5€ / Restantes 4€


Woody Allen regressa com uma comédia agridoce e coral sobre a velhice e o desapontamento.

O último filme de Woody Allen, estreado em Cannes 2010 (fora de competição), arranca com uma citação em forma de epitáfio: "A vida é uma história cheia de ruído e de furor contada por um idiota e que nada significa." A frase é de Shakespeare, um dos dois pilares essenciais do trabalho de Woody Allen (o outro chama-se Ingmar Bergman). E o idiota que conta a história, num gesto de autoironia a que o cineasta nos habituou, bem podia ser Woody himself, ele que tem vindo a atraves¬sar (teoria nossa) a década de trabalho mais irregular da sua carreira, década de altos e baixos que se traduziu no fulgurante ("Match Point") mas também no irrelevante ("Vicky Cristina Barcelona").

"Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos", 'opus 46' de Woody depois da surpresa de "Tudo Pode Dar Certo", confirma que o homem, que já se está nas tintas para as obras-primas, não perdeu a mão. A comédia, essa, é agridoce como sempre e espelha-se na simplicidade do quotidiano, sem mistérios nem transcendências - o velho Woody é hoje um autor funcional e pragmático, igual à sua 'fábrica de produção' que lhe permite fazer pelo menos um filme por ano. No centro da história temos um casal de sexagenários, os Shepridge, com o casamento em crise, Alfie (Sir Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones). Temos um casal de trintões, a filha do casal anterior, Sally (Naomi Watts), e o marido, Roy (Josh Brolin), a passar por igual tormenta. Alfie encontrará uma call girl 30 mais nova que se diz 'atriz' - e põe fim abrupto a 40 anos de casamento. Helena, que frequenta, sessões de espiritismo, conhecerá um velho alfarrabista espirituoso. Sally, por seu lado, começa a apaixonar-se pelo seu patrão sedutor, dono de uma galeria de arte (Antonio Banderas). E Roy, escritor falhado, não se fica por menos: enfeitiça-se pelos acordes de uma jovem de origem indiana (Freida Pinto, atriz de "Slumdog Millionaire") que anda a estudar música e ensaia na janela do prédio em frente. Ou seja, neste filme-puzzle, cada personagem vai encontrar uma nova cara-metade. Ou será que a cara-metade não passa de uma ilusão?

As personagens de "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos", todas protagonistas de uma mesma história feita de desapontamentos, continuam fiéis à 'família de Woody': estão demasiado ocupadas com o seu egocentrismo e os seus problemas, vivem presas a crises existenciais que Woody sabe serem comuns a todas as idades. Desta vez, vão juntar-se a um mesmo coro que se impõe pela graça e nos fala subtilmente da desgraça, de ilusões perdidas.
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Francisco Ferreira, Expresso, 22/1/11


Uma frieza peremptória, que tem tudo a ver com o essencial do filme, enésima variação de Woody Allen sobre o tema do destino.

A meio do visionamento de "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos" damos por nós a pensar que Woody Allen se tornou um realizador de "série B", um pequeno marginal a trabalhar na fronteira do sistema, numa espécie de "poverty row". Tornou-se um irmão dos autores europeus que, nos últimos dez anos, viram o seu público minguar e desaparecer.

Quando o paradigma de um "cinema adulto" e intelectualmente exigente é hoje Christopher Nolan, estamos conversados. Se Woody Allen anda agora a saltitar entre Londres e Barcelona isso é mais do que uma consequência simbólica, porque não foi apenas simbolicamente que o seu território foi ocupado.

Em "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos", Londres outra vez. Na verdade, podia ser outro lugar qualquer - muito mais do que em "Match Point", Allen trata Londres como um estúdio (o estúdio onde ele pode filmar), um cenário ou um conjunto de cenários. A cidade nunca se impõe nem à câmara nem às personagens (que podiam ser nova iorquinas), o exercício nunca é sociológico nem turístico. É uma Londres funcional, como o cartão pintado de que os cineastas da "poverty row" obscureciam os contornos para não danificar o "efeito de real", e de facto é pelo tratamento do cenário que começamos a ver "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos" como uma série B. Curiosamente, o filme acompanha a lembrança.

Economia de meios, certamente; mas uma economia traduzida na própria "escrita" de Woody Allen: tudo muito rápido, tudo muito seco, praticamente sem planos de ligação, dramaturgia cortada à faca. Uma frieza peremptória, que tem tudo a ver com o essencial do filme, enésima variação de Woody Allen - insistimos: entre as mais geladas de sempre - sobre o tema do destino, algures entre o fatalismo dos gregos e o fatalismo de Edgar G. Ulmer, e sobre tudo o que dá errado mesmo quando parecia que podia dar certo.

As personagens - uma mulher recém divorciada (Gemma Jones); o ex-marido dela (Anthony Hopkins) e a sua nova conquista (Lucy Punch, perfeita enquanto protótipo da "tart", para sermos fieis ao calão britânico); a filha deles (Naomi Watts), prisioneira de angústias profissionais e matrimoniais, e o marido (Josh Brolin), escritor medíocre que sofre por ser um escritor medíocre - começam o filme em estado de desespero e quando Woody as deixa, num final súbito e em suspenso, estão em estado de condenação. Entre um momento e o outro, o que fazia rir (as visitas de Gemma Jones à vidente) foi-se tornando angustiante.

Ao contrário da vidente, Woody Allen não tem nada a prometer, nem está aqui para dizer o que o cliente quer ouvir. "Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos" não dá uma nesga de esperança - mas pensando nisso, o "tall dark stranger" do título original podia ser uma maneira de descrever uma certa e incontornável figura que, por exemplo, Ingmar Bergman, um mestre de Woody, filmou no "Sétimo Selo"...
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Luís Miguel Oliveira, Ipsilon



O título do filme é uma promessa para o futuro, frase de esperança para quem vive uma vida desalentadamente cinzenta numa Londres.
Um rumor repetido até que quem o ouve o tome como verdade e siga por ele.
Lançados nessa dica incerta, todas as personagens apostam o seu destino numa eventualidade.
Não importa a promessa, o filme de Woody Allen vem carregado de desalento. O seu pessimismo é enorme sem ser demasiado severo.
A forma como estas personagens se agarram a quaisquer indícios de esperança é motivo de pena e fonte de comédia sobre os seres mal-amados que Woody Allen adora.
Que trata mal mas dos quais faz excelentes personagens com a ajuda dos excelentes actores que mal podem esperar para se sujeitar a ser figuras tão tristes.
E as personagens não têm recompensa senão o infortúnio.
Excepto aquela que, logo de início, já estava desafortunada. As outras olharam para o que tinham de bom e desejaram ainda mais.
De todas as ilusões brotam desilusões, porque cruzando exageradamente o topo da onda optimista acaba-se sempre suspenso no vazio.
Que o destino se recuse a cumprir com a felicidade implícita na frase-tipo de quem lê a sina é sinal de que quem controla o destino é um idiota - decida-se agora se esse alguém é "superior" ou a própria pessoa.
Assim continua Woody Allen a fazer inteligentes comédias negras sobre a vulgaridade existencial.
A sabedoria dos seus muitos e muitos filmes até o tornou ligeiramente diferente, castigando os que são demasiado espertos para o seu próprio bem e abençoando a ingénua - mesmo crédula - dona de casa abandonada.
O niilismo é o mesmo que sempre lhe reconhecemos, apenas está a resultar em algo diferente.
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Carlos Antunes, splitscreen-blog.blogspot.com/



INCLUI DECLARAÇÕES DO REALIZADOR


Novo Woody Allen: um americano em Londres

No Festival de Cannes de 2010, numa mesa-redonda com jornalistas de vários países, Woody Allen apresentou-se com um gag que poderia estar num dos seus filmes: "Estou constipado, por isso agradeço que não me beijem..." Em boa verdade, o autor de Annie Hall limita-se a ser igual a si próprio, recusando qualquer "evolução" para explicar o humor amargo com que retrata os pares londrinos de Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos (estreia-se na quinta-feira em Portugal) "Sempre vi as coisas assim. As relações humanas são muito difíceis e é preciso ter muita sorte."

O desencanto vem de longe: "Cresci muito marcado por Nietzsche e Freud. Um dos meus grandes ídolos era Eugene O'Neill. Todos disseram isso melhor do que eu: apenas conseguimos sobreviver com as nossas ilusões; se não tivermos ilusões, a vida torna-se insuportável. Quando nos aproximamos demasiado das coisas da vida, a mensagem que recebemos é desagradável e assustadora. Na verdade, acho que personagens como a que é interpretada por Gemma Jones, com as suas ideias new age, são patetas: se as encontrasse na vida real, não teria paciência para as aturar. E, afinal, talvez sejam mais felizes do que eu... São pessoas religiosas que escutam muito os rabis e os padres... Acho-as ridículas, mas é verdade que têm vidas melhores do que eu."

Quer isto dizer que menospreza as pessoas que recorrem a tais "serviços"? Nada disso: "As pessoas querem respostas, e não as censuro por isso. Só querem alguma magia nas suas vidas... Eu também, mas infelizmente não há magia." Não admira que a hipótese da reencarnação não esteja nas contas existenciais de Allen: "E se eu renasço, daqui a 300 anos, numa família pobre num país fascista?"


Paradoxalmente, isso não significa que Woody Allen menospreze o que conseguiu na sua própria vida: "Tendo em conta o que é humanamente possível, considero que tenho tido uma vida boa, com saúde e sucesso. Mas acabamos todos por morrer: a vida é curta, violenta, solitária, assustadora... Um dia destes, o sol arde por completo, desaparece e desaparecem todas as estrelas. Desaparece tudo aquilo que encaramos como as nossas instituições culturais: deixa de haver Beethoven, Shakespeare, Miguel Ângelo ou Picasso."

Não admira que já não se sinta na "obrigação" de assumir as personagens centrais dos seus filmes. Considerando que isso lhe trouxe bons "papéis românticos", contracenando com actrizes como Diane Keaton ou Mia Farrow, reconhece que, neste filme, poderia ter assumido a personagem de Anthony Hopkins. Mas não teria comparação: "Hopkins é um extraordinário actor shakespeariano; eu talvez conseguisse mais gargalhadas, mas seria mais linear."

Além do mais, muitas vezes, o processo de produção é mais rápido na Europa: "Por vezes, nos EUA, podem gastar-se anos: escreve-se um argumento, arranja-se um produtor, o produtor diz que sim se conseguirmos uma estrela... Depois marcamos um almoço com Jack Nicholson, ele diz que sim, daí a seis meses. Seis meses depois, Jack Nicholson diz que, afinal, lhe apareceu outra coisa... Três anos depois, o realizador talvez consiga fazer o filme. No meu caso, parto já com o financiamento garantido, escrevo o filme em dois meses, mais quatro ou cinco para o fazer... Não é assim tão difícil."

Por isso, Woody Allen insiste que tem muita sorte: "Tenho tempo para tocar com a minha banda de jazz, para estar com os meus filhos, para ir de férias, para assistir a jogos de basebol ou basquetebol..." Aliás, afirma-se como um grande fã de desportos: "Interesso--me muito por desporto. Na escola, era mesmo atleta, apesar de usar estes óculos que me dão um ar de intelectual. Joguei basebol muito bem. Quando voltar a casa, em Nova Iorque, a primeira coisa que vou fazer é ligar a televisão para saber notícias do basebol."

João Lopes, Diário de Notícias







Título Original: You Will Meet a Tall Dark Stranger
Realização: Woody Allen
Interpretação: Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Brolin, Gemma Jones, Pauline Collins,
Rupert Frazer, Kelly Harrison, Freida Pinto, Antonio Banderas
Argumento: Woody Allen
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Montagem: Alisa Lepselter
Origem: EUA/Espanha
Ano: 2010
Duração: 98’
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