Mostrar mensagens com a etiqueta realizador David Lynch. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta realizador David Lynch. Mostrar todas as mensagens

Peixes e cães (ou, Lynch, mais uma vez)

David Lynch começou a mexer em imagens como pintor. Um dia, frente a um quadro que preparava na Academia de Artes da Pensilvânia, "sentiu o assobio do vento e viu as plantas, na tela em movimento."* Foi como se achou a imaginar se os filmes não seriam uma maneira de dar movimento aos quadros. Ora, essa fixação na imagem pictórica movimentada, e não tanto com uma preocupação narrativa em primeiro plano, ajuda a entender o seu aparente menosprezo pelo fio das intrigas. É como o cão mais irado (beugh!, que estranho fica assim o "angriest") do mundo. De tira para tira, os quatro quadradinhos não se alteram. A história, aparentemente, mantém-se. Ou a imagem. Ou a linha narrativa. Só muda o discurso, aquilo que enforma a ideia. (A mim ninguém me tira que este cão, rei do absurdo, só pode ser a segunda vida do canito do vizinho de Meursault em Argel, n'O Estrangeiro de Camus. Sarnento, enraivecido de velho, dia após dia pontapeado até que, uma bela tarde de passeio, roubado ou fugido, se decide que não regressará ao dono.)
(*Em Catching the Big Fish: Meditation, Consciousness, and Creativity, onde explica as suas motivações criativas e conta este episódio, Lynch diz que não estava sob o efeito de drogas.)

Incompreensível Lynch

Porque é David Lynch um autor (entre outros, claro) tão mal-amado? Para se ser um autor de culto, como sem dúvida é, tem de se manter longe das aclamações institucionais?
Inland Empire é uma obra belíssima. Uma vez mais, depois de Mulholland Drive, depois de Lost Highway, de Laura Palmer, depois de Blue Velvet, Eraserhead, nem sei mais quantos nem quais, volta a pisar os riscos de uma terra entre o aqui e o nunca - entre o que escapa à compreensão de instrumentos não mais do que cartesianos, racionais; e aquelas zonas de sombra que a razão, certeira, nem sempre conhece. Desta vez, perdeu-se no rosto de Laura Dern. Confundiu nele os rostos das mulheres confusas que habitam Santa Monica Boulevard, que calcorreiam as confusas ruas de uma cidade de anjos - todos eles desertores de um combate, sem que se perceba se fugiram dali ou se foi ali que se refugiaram. Confundiu num rosto muitos, assim como muitas estradas numa só. E num rosto único contou pedaços de histórias de mil rostos, atravessados pela aura dos anjos que ainda não sabem se já se deu o choque com o chão ou se ainda pairam, sem peso e de olhos carregados, sobre as lixeiras imensas dos mundos de ilusões.