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continuamos com o luxo 2ªf, 4ªf, 6ªf. na sede. 21h30. TRUFFAUT e GODARD de entrada livre.

(café, chá, bolinhos e... amêndoas também! :)

Dia 18
Pedro, o Louco, Jean-Luc Godard, França/Itália, 1965, 110’

Dia 20
Finalmente, Domingo!, François Truffaut, França, 1983, 110’

Dia 22
Eu Vos Saúdo, Maria, Jean-Luc Godard, Suíça/França, 1985, 105’


Dia 18
PEDRO O LOUCO

Jean-Luc Godard
França/Itália, 1965, 110’

Godard já fizera correr muita tinta, já tinha também posto a câmara a filmar muitas vezes quando chegou a PIERROT LE FOU, que em Portugal foi dos seus filmes o primeiro a estrear. Para além da energia investida como crítico (em 1950 na Gazette du Cinema, com Jacques Rivette e Eric Rohmer; nos Cahiers du Cinéma desde 1952) e da defesa inflamada da “Política dos Autores", tinha passado pela efervescência da Nova Vaga de que foi um dos notórios protagonistas. Já tinha proferido "tiradas" que ficaram tão célebres como a afirmação de o cinema é a verdade a 24 imagens por segundo". Tinham já acontecido, entre outros, À BOUT DE SOUFFLE, LE PETIT SOLDAT, UNE FEMME EST UNE FEMME (1961), VIVRE SA VIE (1962), LES CARABINIERS, LE MÉPRIS (1963), BANDE À PART, UNE FEMME MARIÉE e ALPHA VILLE (1965).

Para PIERROT, Godard pegou no romance policial de" Lionel White L 'Obsession, em Jean-Paul Belmondo (Ferdinand/Pierrot) e Anna Karina (Marianne Renoir) e pô-los anarquicamente em fuga na direcção do mar como uma espécie de último casal romântico. O filme não segue naturalmente o livro. Nunca assim acontece com os filmes de Godard que já na altura entendia o argumento ponto de partida para um trabalho de liberdade, em que à acção se sobrepusessem as palavras (diálogos, leituras, canções, inscrições nos fotogramas), às imagens os sons, colocando o cinema (e também a política, que o cinema é político segundo ele acreditou) no centro da questão. Neste sentido, PIERROT LE Fou (em que Samuel Fuller surge a dar a uma definição de cinema a Ferdinand antes deste pedir as chaves do Lincoln e abandonar a vida que levava com a mesma aparente facilidade de quem fecha uma porta) é um filme bastante livre.

Narrativamente, questionando o sentido de uma relação entre um homem e uma mulher. Formalmente, à procura de sentidos visuais. No fundo, a passagem do livro de arte Ferdinand lê na banheira no princípio do filme anuncia o programa de PIERROT: "Depois de chegar aos 50 anos, Velasquez já não pintava nada de concreto e preciso. Vagueava pelo mundo material, penetrava-o, como o fazem o ar e o crepúsculo...”

PIERROT não segue uma ordem canónica. Se a "história" é apesar de tudo tradicional (dois amantes que se encontram e se separam, vendo-se entretanto envolvidos num enredo policial onde cabem traficantes de armas, complots e assassínios), a forma de a “contar”, pelo contrário, procede por interrupções, foras de campo ou pela alteração da ordem temporal dos acontecimentos através da montagem. Há vários níveis de leitura, a interferência fragmentária de elementos de ordem diversa. Por exemplo, os planos de pintura ou de banda desenhada ou de palavras. Por exemplo, a aparição a dada altura de um figurante que chega, se apresenta e parte, sem que se saiba de onde veio nem para onde vai, ou o plano em que Ferdinand se vira para a. câmara e se dirige explicitamente ao espectador, como explica a Marianne.

Para além das "pausas", os contrastes são permanentes, também ao nível das cores, sobretudo o azul e o vermelho sempre presentes, marcados pelo imaginário da pop arte. O contraste começa logo na caracterização das duas personagens principais que em resumo se podem definir em termos de contemplação (Ferdinand) e de acção (Marianne). É mais do que neles, no espaço e no tempo que impossibilitam o entendimento entre eles que PIERROT se detém. Afinal, nem conseguem concordar no nome dele... a cada vez que ela lhe chama Pierrot (incitando o seu lado aventureiro?) ele responde, “o meu nome é Ferdinand" (afirmando a sua condição de intelectual?). Afinal, ela preocupa-se mais com a linha da sorte e ele com a da anca dela. É ouvir as canções, as histórias que contam um ao outro e tudo se percebe. É olhar os planos e a explosão final fará tanto sentido como a desconcertante última tirada de Belmondo: "Après tout, je suis idiot, merde, merde".
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Maria João Madeira, Europa 60 Ventos de Mudança, Cinemateca Portuguesa

pela importância deste filme e pelo conjunto de textos que recolhemos sobre ele, decidimos disponibilizá-los. siga o link :-)


Título Original: Pierrot Le Fou
Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard segundo o romance de Lionel White, L 'Obsession
Direcção de Fotografia: Raoul Coutard
Montagem: Françoise Collin
Música: Antoine Duhamel
Interpretação: Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Graziella Galvani, Dirk Sanders, Jimmy Karoubi,
Roger Dutoit, Hans Meyer, Raymond Devos, Aicha Abadir, Laszlo Szabo, Samuel Fuller
Origem: França/Itália
Ano de Estreia: 1965
Duração: 110’



Dia 20
Finalmente, Domingo!

François Truffaut
França, 1983, 110’

Ponto final duma obra cinematográfica cindida em duas fases pelo seu autor, Finalmente Domingo parece, em muitos aspectos, reatar estranhamente o discurso dos primeiros filmes de Truffaut. Despreocupação por vezes na fronteira do grotesco, desvios, jogos de palavras, alusões - trata-se em boa verdade dum filme de cinéfilos para cinéfilos. As situações ficcionais nunca são de facto tomadas a sério, mas muito pelo contrário apresentadas como convencionais. E o filme constrói-se com desenvoltura, evidenciando constantemente os protótipos convencionais que vai contudo respeitando até ao desfecho. A mania antológica de Truffaut exerce-se de maneira imperceptível, ao nível formal, infringindo sistematicamente todas as regras de direcção e de montagem que só se podem aprender numa escola de cinema. Todavia Truffaut, sucessor espiritual de Bazin, contribuiu para a fixação teórica dessas «regras» que permitem a «invisibilidade» da montagem, para além de ter leccionado no I.D.H.E.C.. Aliás, o filme tem um certo ar de filme «de escola», desta feita realizado não por um aluno mas por um mestre.

Ausência dos trabalhos pesados de «desdramatização», antes o júbilo da manipulação cinematográfica. Nada de esquiva - como seja a «câmara subjectiva» - o realizador pratica ostensivamente a batota: Barbara não vê o rosto do assassino quando este mata Louison porque a câmara não o apanha, o espectador é informado no fim, não das deduções da detective amadora, mas da sua descoberta (o gabinete do advogado comunica directamente com o salão da esteticista), etc.. O espectador deve aceitar deixar-se guiar, de olhos «vendados» pelas imagens impecáveis de Nestor Almendros comunica o seu prazer em trabalhar a luz no estilo mais convencionalizado do cinema: o filme «negro», de quando Hollywood ainda não se tinha «livrado» dos mestres expressionistas. Mudanças de ângulo que não se tentam justificar, montagem rápida, o cinema enquanto comboio eléctrico.

O prazer que sentimos ao ver este filme - inesperado após vários filmes em que Truffaut se comprometia sem recuo ou pelo contrário jogava o jogo das mais cansadas metáforas sobre a ficção inseparável da vida - vem-nos duma transparência da ficção que, sem facilidades como por exemplo mostrar o estúdio (E la nave va, The ladies’ man, High anxiety) - nem didactismo - como o movimento em abismo tão banalizado desde OITO E MEIO (A NOITE AMERICANA ou até INSERTS ou O ESTADO DAS COISAS, apesar destes dois últimos não se limitarem felizmente a este discurso) - lembra permanentemente a sua natureza fílmica. A evolução da intriga assenta na capacidade, por parte dos personagens investigadores, de representar papéis - trata-se uma vez mais duma convenção presente nas boas comédias hollywoodianas de Bells are ringing a The Sting. Nada de novo neste filme, a não ser uma respiração mais leve, liberta, se não das convenções, pelo menos das suas prevenções e pretensões, uma iconoclastia amadurecida. Algures, a serenidade de quem conseguiu dar forma aos seus sonhos cinematográficos de juventude.
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Saguenail, A Grande Ilusão n.º 2/3


Título Original: Vivement dimanche
Realização: François Truffaut,
Argumento: François Truffaut, Suzanne Schiffman e Jean Aurel, segundo a novela "The Long Saturday Night", de Charles Williams
Direcção de Fotografia: Néstor Almendros
Montagem: Martine Barraqué
Música: Georges Delerue
Interpretação: Fanny Ardant, Jean-Louis Trintignant, Jean-Pierre Kalfon, Philippe Laudenbach, Philippe Morier,
Xavier Saint-Macary, Jean-Louis Richard, Caroline Sihol, Castel Casti
Origem: França
Ano de Estreia: 1983
Duração: 110’



Dia 22
Eu Vos Saúdo, Maria

Jean-Luc Godard
Suíça/França, 1985, 105’

Importa que desde já se diga, Ju Vous Salue Marie é uma das mais belas homenagens à Mulher que jamais vi. Depois dele, Godard pode emparceirar com os mais destacados «cineastas da mulher», Bergman, Antonioni, Cukor, . . ., mas com uma diferença importante, é que este suíço, que se quer maldito, vai ainda mais além.

Muitos no filme só quiseram ver a anedota (quer dizer a narrativa), a transposição para os nossos dias da Imaculada Conceição, a história da Virgem Maria. Que Jean-Luc Godard tenha escolhido uma figura querida de uma das maiores religiões do mndo para a sua homenagem, só deveria ser motivo de congratulação para os cristãos. E alguns compreenderam-na assim, como aquele teólogo jesuíta italiano, Egidio Guidobaldi (um homem de 75 anos) que considerou o filme uma homenagem à doutrina do matrimónio, contra a opinião do próprio Papa. A questão religiosa não me parece o essencial, será, no entanto, de referir a sinopse. Não esquecendo nunca que uma sinopse, se pouco diz sobre um filme, muito menos ainda se se trata de um Godard.

Maria é estudante liceal e jogadora de basquetebol na equipa da sua escola. É uma rapariga como as outras. O seu namorado, José, é motorista de taxi. O pai dela explora uma bomba de gasolina. Nada, portanto, mais banal. O extraordinário chega de avião, um sujeito chamado Gabriel que a visita, acompanhado de um «querubim», e lhe dá a entender que tinha sido escolhida para algo de especial. Efectivamente Maria fica grávida, sem intervenção de José ou de qualquer outro homem (e muito menos por qualquer inseminação artificial). José, depois de muitas hesitações, perfilha a criança, entretanto nascida (cujo nome nunca é pronunciado no filme), e esta cresce, comportando-se como um menino relativamente normal. Paralelamente, desenvolvem-se outras «estórias», como a daquele exilado de um país do leste Europeu que se dedica ao futurismo e à cosmologia.

Isto, repita-se, quase nada diz sobre o filme. É que, através da homenagem a uma mulher, é da própria vida que Godard nos fala. É da mulher mãe-natureza que se trata. A ambição deste é pois ilimitada. Se WEEK-END era um juízo sobre a nossa sociedade, agora é o próprio Cosmos que é questionado.

No filme, o autor age pela insistência e pela depuração. Se por um lado só se fala do essencial (Godard aqui abandona as suas habituais "boutades»), por outro, esse essencial é constantemente sublinhado.

O primeiro plano de JE VOUS SALUE, MARIE mostra-nos as águas (berço da vida) a agitarem-se e o último «mergulha-nos» numa boca de mulher que se amplia num buraco negro (um vórtice).

Os "leit motiv» são o corpo de Maria e a Natureza. O corpo da mulher agitando-se, o corpo da mulher em convulsões, as plantas vergando-se, as nuvens movendo-se no horizonte. O sopro que percorre o corpo de Maria é o mesmo que anima a Terra. Talvez seja preciso ser-se panteísta para o afirmar, mas a ambiência telúrica do filme é de tal modo insistente que é difícil fugir a isso. O resto, são os pobres diabos, somos nós deambulando pelo mundo a tentar compreendê-lo, como o julgamento de José na loja de pronto-a-vestir. "É incapaz de escolher bem um gravata, ou mesmo de segurar o seu cão pela trela, tem horror aos buracos. . .».

A interrogação de Godard é esta. "E se tudo estivesse programado?”. Mistério não é aquilo que não tem explicação, é aquilo que ainda ninguém conseguiu explicar. José, como nós, não percebeu e questiona. Gabriel responde que é a Lei. A Lei é-nos dada no plano seguinte, um campo de plantas floridas agitadas pelo vento. É a lei da Natureza. A dureza de Gabriel é a dureza da Natureza. A Natureza não é suave. O sentido das palavras é completado com as imagens. Imagens e palavras complementam-se, nada é gratuito, nada está a mais ou a menos.

"Ser sábio seria poder ver a vida, vê-la mesmo», diz-nos Godard em MASCULINO FEMININO. Atrevo-me a dizer que poucos foram tão longe, nessa tentativa de nos mostrar a vida, como Godard. Não a vida do dia-a-dia (sempre presente nos seus filmes), não a vida do homem, a vida da mulher, a vida dos animais, mas, simplesmente, a Vida.

(...) Trata-se de facto duma obra de uma superior dignidade e mesmo alguns dos que fizeram profissão de fé o souberam reconhecer. Com Jean-Luc Godard novas relações se estabelecem entre o cinema e o sagrado.
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André de Oliveira e Sousa, Revista Cinema, n.º 9/10, Inverno 85/86


Título Original: Je vous salue, Marie
Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard
Direcção de Fotografia: Jacques Firmann e Jean-Bernard Menoud
Montagem: Anne-Marie Miéville
Música: Johann Sebastian Bach e Antonín Dvorák (compositores)
Interpretação: Myriem Roussel, Thierry Rode, Philippe Lacoste, Manon Andersen, Malachi Jara Kohan Juliette Binoche
Origem: França/Suíça
Ano de Estreia: 1985
Duração: 105’
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(lotação: 25 lugares)
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2ªf, 4ªf, 6ªf. de luxo. na sede. 21h30. TRUFFAUT e GODARD de entrada livre.

(café, chá, bolinhos e... amêndoas também! :)


Dia 11
A Noiva Estava de Luto, François Truffaut, França, 1968, 107’

Dia 13
O Bando à Parte, Jean-Luc Godard, França, 1964, 95’

Dia 15
Disparem sobre o Pianista, François Truffaut, França, 1960, 92’


Dia 11
A NOIVA ESTAVA DE LUTO
François Truffaut
França, 1968, 107’

Há, no modo como enfrentamos a câmara, um sentido de clausura em que perdemos de vista o artificio do cinema.
Somos reais naquele instante e presas da eternidade logo a seguir.

No palco convencional de um teatro, estamos cegos: o público é a quarta parede escura, diz-se.

No plateau, sabemos que uma multidão está ali, já não sabemos quantos takes fizemos e muito menos quantos ainda vamos repetir, mas, no momento em que o realizador nos solta, estamos sós: é o instante em que o animal, acossado na jaula, para se defender, ataca.

Solta-se em nós, por isso, quando a câmara é implacável, a energia e a bravura.

Jeanne Moreau é, de todas as feras da história do cinema, uma das mais fabulosas. Entre os seus domadores, Truffaut foi dos mais exímios.

Se o encontro fora perfeito em Jules e Jim, em A Noiva Estava de Luto o "casamento" é mais que perfeito. Nesta obra, não é em Hitchcock que se busca o eco da intriga, embora Truffaut estivesse, na altura, a finalizar o livro que é a longa entrevista àquele génio do mistério e do suspense.

François Truffaut é muito mais do que um narrador de intrigas. Ele é um dos homens mais apaixonados que o cinema terá conhecido e o encantamento que sentimos pelas suas personagens nasce do seu enamoramento caloroso com os seus actores.

Sendo assim, A Noiva Estava de Luto, mais do que uma incursão ímpar no campo do filme negro, conduz, sobretudo, uma história de amor extremo e um ajuste de contas com a tragédia de não ter sido consumado: o véu branco que se solta da noiva que está de luto e que falhou o suicídio voa, no primeiro crime, lentamente, com o sopro imaterial que leva para longe e para sempre uma particular virgindade. A tragédia vai começar.
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Leonor Silveira in Colecção Grandes Realizadores – François Truffaut


Título Original: La Mariée Était En Noir
Realização: François Trufaut
Argumento: Cornell Woolrich, François Truffaut e Jean-Louis Richard
Interpretação: Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy, Charles Denner, Claude Rich, Michael Lonsdale
Direcção de Fotografia: Raoul Coutard
Montagem: Claudine Bouché
Música: Bernard Herrmann
Origem: França
Ano de Estreia: 1968
Duração: 107’



Dia 13
O BANDO À PARTE
Jean-Luc Godard
França, 1964, 95’

Certa vez, a crítica de cinema Amy Taubin, da lendária revista semanal nova-iorquina Village Voice, escreveu que “Bando à Parte” (Bande à Part, França, 1964) era “um filme de Godard indicado para pessoas que não gostam de Godard”. É difícil pensar em uma expressão que defina melhor o longa-metragem, um dos mais obscuros trabalhos da fase mais celebrada do autor francês. Por ter sido filmado a toque de caixa, durante um período curto de 25 dias, e espremido entre produções de dois projetos bem mais caros, elaborados e ambiciosos do diretor, “Banda à Parte” exala frescura e despretensiosismo, duas características normalmente ausentes dos trabalhos assinados por Godard, sem abandonar o aspecto experimental. O resultado é um mix perfeito entre ousadia e simplicidade narrativa.

Na verdade, quem conhece bem a obra do cineasta mais irascível da nouvelle vague francesa sabe que a fatia mais hermética do trabalho dele surgiu do começo dos anos 1970 em diante. Na década anterior, Godard ainda estava interessado em contar histórias, mais do que em experimentar novas tecnologias e narrativas, embora já fosse conhecido por introduzir elementos metalingüísticos e novas técnicas de montagem, sempre lembrando a platéia que ela estava vendo um filme. Em “Acossado” (1960), por exemplo, o protagonista se dirigia à platéia algumas vezes, falando diretamente para a câmera. Os cortes abruptos, que rompiam a idéia de continuidade, também jogavam na cara do espectador o fato de que ele estava assistindo a uma obra de ficção.

Em “Bando à Parte”, Godard aprofunda a idéia de maneira mais bem-humorada, abandonando as brincadeiras com as imagens e rompendo o conceito de realismo através da edição de som – daí as experiências parecerem menos radicais e invasivas. Ele envia piscadelas ocasionais em direção ao público, lembrando-o (com um sorriso no canto da boca) sobre o caráter ficcional da narrativa. A cena mais lembrada do filme é um exemplo. Ela ocorre quando os três personagens principais – dois rapazes e uma moça que flertam entre si, num triângulo amoroso semelhante ao filmado por Truffaut em “Jules e Jim” (1962) – decidem fazer um minuto de silêncio, durante uma conversa de mesa de bar. Durante os 36 segundos em que os personagens ficam calados, Godard retira completamente o áudio da cena, eliminando os ruídos e abolindo por completo o realismo da cena.

Há mais quatro cenas que usam truques de edição sonora semelhantes e ajudam a derrubar a idéia do naturalismo, verdadeiro tabu para o cinema comercial. Em um momento, Franz (Sami Frey) finge atirar contra o amigo Arthur (Claude Brasseur), imitando momentos clássicos dos filmes de gângster pelos quais Godard era apaixonado, e usando o dedo indicador como se fosse um revólver. Pois o diretor fez questão de incluir o som de um disparo real na seqüência, uma tremenda ousadia para a época. Os dois personagens também assobiam a melodia principal da trilha sonora, quando ela sublinha certas ações. Há ainda interrupções do som ambiente da cena em que o trio dança num bar, para a introdução de “pensamentos” dos três personagens. Sem falar da cena em que os amigos decidem cruzar o Museu do Louvre correndo pelas galerias, momento homenageado por Bertolucci em “Os Sonhadores” (2003) e lembrado com saudade por dúzias de cineastas.

“Bando à Parte” é um dos filmes favoritos de Quentin Tarantino, e exerceu influência fundamental no trabalho mais conhecido do norte-americano, “Pulp Fiction” (1994) – a cena em que Uma Thurman desenha um quadrado com os dedos e a forma geométrica é “riscada” na tela por uma caneta invisível poderia muito bem ter saído do longa-metragem de Godard, sem falar da lembradíssima seqüência de dança entre Uma e John Travolta, que remete diretamente à já citada seqüência da dança no bar em “Banda à Parte”. Observe, também, como Godard filma a atriz Anna Karina, então namorada dele, de forma indisfarçavelmente apaixonada. Diz-se que ele e Truffaut faziam filmes para levar atrizes para a cama – e geralmente conseguiam.

Na parte narrativa, sobressai o comportamento hedonista dos três personagens principais. O hedonismo era uma característica marcante da juventude dos anos 1960, que Godard conseguiu mapear melhor do que qualquer outro diretor. Detalhe importante é que o roteiro não mostra esse comportamento como algo negativo, mas ressalta seu aspecto político, de resistência cultural. Os jovens de Godard expressão total desilusão para com o modo de vida hegemônico. Eles planejam um roubo, mas não são ladrões profissionais. Não ligam a mínima para dinheiro. O roubo é muito mais uma tentativa de vivenciar emoções fortes para espantar o tédio da vida cotidiana (de quebra, eles conseguiriam também grana suficiente para poder aproveitar a vida, sem precisar fazer coisas chatas como trabalhar).

Além de tudo isso, a longa-metragem consegue capturar muito bem o universo vulgar das novelas pulp baratas, onde Godard ia buscar inspiração. Os figurinos (sobretudos cinzentos, chapéus), a ambientação cênica (bares cheios de fumaça) e os personagens de moral ambígua aproximam o trabalho aos amados filmes de gângsteres que o diretor francês tanto elogiou, quando era crítico da revista Cahiers du Cinèma. A história, certamente menos importante do que o estilo, enfoca a amizade de Odile (Anna Karina) com os dois rapazes, e mostra-os planejando roubar a residência onde a garota – que hesita, mas não desiste do plano – mora. A narração em off, sempre irônica, ainda chega a prometer uma continuação (“aventuras em technicolor no Brasil”) que nunca veio. Afinal de contas, Godard nunca cedeu aos apelos da indústria cinematográfica. Não seria neste filme que ele faria isso, certo?
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Rodrigo Carreiro, cinereporter


Título Original: Bande à Part
Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard, segundo o romance de Dolores Hitchens, "Fool's Gold"
Fotografia: Raoul Coutard
Montagem: Agnès Guillemot
Música: Michel Legrand
Interpretação: Anna Karina, Claude Brasseur, Sami Frey, Danièle Girard, Ernst Menzer, Chantl Darget
Origem: França
Ano de Estreia: 1964
Duração: 95’


Dia 15
Disparem sobre o Pianista
François Truffaut
França, 1960, 92’

“Quando te detestar, porei o meu boné”: é a última frase de Charlie a Léna. Ele vai avisar os irmãos que deixará o chalé e partirá com ela. Mas os malfeitores que procura, o irmão encontra, o seu esconderijo. Léna morre na troca de tiros e o seu corpo rebola na neve.

A sequência começa com o plano mudo do carro dos bandidos a atravessar a paisagem. Segundo Truffaut, é a origem de “Disparem Sobre o Pianista”: “Uma única imagem levou-me a fazer o filme. Estava no livro. Numa estrada íngreme na neve, o carro descia sem fazer barulho. Era algo que ansiava visualizar, e o resto veio por acréscimo.” Truffaut adora a neve ao ponto de rematar vários filmes em paisagens cobertas de neve. A procissão dos homens-livros em “Fahrenheit 451”, a última sequência da rodagem de “A Noite Americana”, o fim de “A Sereia do Mississipi”, o regresso ao chalé de “Disparem Sobre o Pianista”. O que o cativa, sobretudo, é a intensidade fotogénica da neve, a força de abstracção, de estilização. A brancura da neve é, também, o meio mais natural de apagar cores, tão desprezadas por Truffaut. A neve dilui as formas e absorve os sons. Em “Disparem sobre o Pianista”, filme a preto e branco, Truffaut explora esta dimensão sonora, para mergulhar a sequência num silêncio feérico, subitamente rasgado pelo grito de Léna e pelos disparos. A morte da jovem é um dos mais belos excertos da obra de Truffaut. Depois do grito, a câmara segue o seu trajecto em grande plano. Ela parece andar à roda, até um plano de conjunto voltar a mostrar o seu percurso na paisagem: linha a direito rumo à bala que a mata.
Quando o corpo cai na ribanceira cheia de neve, mais parece uma criança a deslizar na encosta. Tal como em Cocteau, durante uma imagem poética, a morte pode dar a ilusão de ser um jogo, “a fingir”.

Terceiro momento forte da sequência: Charlie e Fido a correr para o corpo inerte de Léna, dois pontos negros na imensidão branca de um plano reduzido a duas faixas horizontais. Truffaut passa abruptamente para o movimento de Charlie, num grande plano, a virar Léna e a descobrir o seu rosto fúnebre semicoberto de neve. A sequência termina com um breve travelling, que isola o rosto petrificado. Esta sequência manifesta, também, de forma bem clara, a nostalgia do cinema mudo, o desejo de reencontrar a intensidade gráfica e a energia simples dos primeiros mestres. Truffaut assume essa influência, fazendo uma homenagem a Griffith: o plano de Léna a deslizar pela encosta cheia de neve remete para o fim de “Way Down East” (1920), quando um bloco de gelo desgovernado no rio traz o corpo inerte de Lilian Gish.
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Cyril Neyrat, Colecção Grandes Realizadores – François Truffaut


Título Original: Tirez Sur Le Pianiste
Realização: François Truffaut
Argumento: François Truffaut e Marcel Moussy
Fotografia: Raoul Coutard
Montagem: Claudine Bouché e Cécile Decugis
Música: Georges Delerue
Interpretação: Charles Aznavour, Marie Dubois, Michèle Mercier, Nicole Berger, Serge Davri, Richard Kanayan
Origem: França
Ano de Estreia: 1960
Duração: 92’

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(lotação: 22 lugares)
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Filme Socialismo: «ainda é possível encontrar novos caminhos para o cinema». 2ªf, IPJ, 21h30, o mais importante filme desde há muito, muito tempo.


Filme Socialismo é o mais godardiano dos filmes de Godard

(...) Jean-Luc conta 80 anos e não está para brincadeiras. “Filme Socialismo” é arte na sua acepção mais “dura”. Embora, como estilo, remeta mais à filmografia dele dos anos 2000, como “Elogio do Amor” (2001) ou “Nossa Música” (2004), o longa reafirma um imperativo presente desde seu primeiro longa – “Acossado”, de 1960. Desde o princípio, Godard se propôs a firmar o cinema como arte moderna, tão rigorosa e polivalente quanto a pintura ou a literatura. E a identificar no diretor a figura autoral, ou seja, o artista propriamente dito, que imprime uma estética, assina a obra e por ela responde diante dos públicos.

Como se sabe, o ímpeto por autonomia artística/autoral inaugurou o modernismo da nouvelle vague, associada aos críticos-cineastas da geração clássica da revista Cahiers du Cinéma (Truffaut, Rivette, Rohmer, Chabrol et al), responsáveis por uma seqüência de obras plenas de estilo, ao longo dos anos 60. (...) O caso é que o diretor parisiense sempre se guiou pelo desejo de inovar, de reinventar formas, de reconstruir-se na sua trajetória cinematográfica, ultrapassando a si mesmo. Por um lado, desde cedo, sua excentricidade por assim dizer deliberada produziu uma mitologia ao redor de sua figura. Por outro, nem por isso, por essa vaidade, fica descaracterizada a robustez e originalidade de sua obra, repleta de guinadas e reavaliações.

“Filme Socialismo” ressalta um cinema de reinvenção, que efetivamente pensa o meio que o possibilita e produz – como suporte, dispositivo, metiê, linguagem, construção de sentidos etc. Modernismo oblige. Com “Filme Socialismo”, atinge-se um patamar que, na literatura, foi alcançado pela obra de James Joyce. Por mais anacrônica e leviana a comparação, o filme causa uma sensação próxima a ler “Ulysses” ou “Finnegans Wake”. Ou seja, provoca um misto de desafio, espanto e intriga. Entre Joyce e Godard traçam-se várias paralelas. Como nos romances joyceanos, em “Filme Socialismo” vislumbram-se o fluxo de consciência, a subjetividade transbordante, as múltiplas camadas narrativas de sentido – tudo isso numa colagem intrincada de signos e elementos do imaginário, da mitologia, da história, da política, do próprio cinema. Como em “Finnegans Wake”, o conjunto não admite síntese ou sinopse, numa lógica fragmentária, em que cada fragmento desestabiliza a narrativa como um todo e estilhaça o tempo-espaço. Sobram cacos de imagens e ruídos.



(...) Sobretudo, “Filme Socialismo” retoma a “História do Cinema” (1988-98), cujos 240 minutos são agora condensados para exprimir o sentimento do século, na sua irracionalidade, barbárie, incompreensão e tragicidade. Como na “História do Cinema”, a imagem não cessa de expor e expor-se, toma posição no fluxo da história e constitui uma memória. Realidade e ficção, história e cinema entretecem-se num mosaico incongruente. No conjunto, a descontinuidade domina nas várias instâncias: a montagem conflitiva, o áudio dissonante, o enredo em tríptico, a dramaturgia anti-diegética e a encenação des-dramatizante. Há uma enxurrada de citações dos mais diversos pensadores do contemporâneo, na boca dos personagens e do narrador em off.

(...) Com o tour de force de montagem, Godard tenta tirar lascas de questões graníticas e ultimamente insolúveis: representar o irrepresentável, exprimir o inexprimível, aceitar o inaceitável. Desvela-se assim a afinidade entre “Filme Socialismo” e a filosofia da história de Walter Benjamin. O filósofo sondava fragmentos da revolução no continuum da história. E admitia, como faz o filme, a natureza contraditória e problemática da cultura. Daí a melancolia que permeia o longa, consciente de seu caráter inescapável como parte do sistema, como integrante da tradição dos vencedores. Godard sabe que seu manifesto ultramoderno deve ser diluído e neutralizado, na lógica de consumo cultural de hoje. Mas não se mostra pessimista. É romântico.

Como uma filmografia tão prenhe de realismo, inspirada por André Bazin nos anos 1950, pode convergir a tão confesso socialismo utópico? Ora, o realismo autêntico tem a utopia em seu núcleo. “Filme Socialismo” é uma quimera. Não pode existir um filme assim e é precisamente por causa disso que tanto precisamos dele. Godard ainda pulsa.


Sabemos desde os seus filmes dos anos 60 que Jean-Luc Godard tem uma sensibilidade de sismógrafo. Pressente agitações subterrâneas antes de elas se notarem à superfície: "Made in USA", "La Chinoise" ou "Weekend" são os filmes que melhor explicam o Maio de 68, e foram feitos antes de Maio de 68. De resto, isto não é nada de mais: é apenas o que ele tem como o "dever do cinema", e faz por cumpri-lo.

É curioso notar, a este propósito, a quantidade de coisas que aconteceram no espaço central de "Filme Socialisme" (o Mediterrâneo) depois de Godard o ter feito: a Grécia ("Hell As") foi transformada num pária da Europa; outros países (a Espanha, a Itália, e mesmo nós, mediterrânicos por afinidade) fazem o possível para evitar que a Sra. Merkel ("na Alemanha nunca se passa nada", dizia-se no mais godardiano dos Fassbinders, "Der Amerikanische Soldat") os conduza ao mesmo destino; do "outro" lado, a Tunísia revoltou-se, o Egipto revoltou-se, a Líbia entrou em combustão e na Europa teme-se o momento em que um "líbio oprimido" se transforme num reles "imigrante". Só em Israel e na Palestina, por onde o navio de Godard também passa, é que aparentemente não aconteceu nada, o que é o mesmo que dizer que continua a acontecer tudo.

"Alheado do mundo", Godard? Só se para reconhecer o mundo já não dispensarmos a empática condução de Javier Bardem (aludimos ao tão celebrado "Biutiful", cuja Barcelona também é visitada por "Filme Socialismo", e não somos originais na alusão). Não veremos este ano filme mais ligado, mais "em linha", com o mundo do que "Filme Socialismo".



Uma descrição de "Filme Socialismo" diria que ele se divide em três segmentos identificáveis. Primeiro, a bordo de um navio em cruzeiro pelo mediterrâneo, onde há belíssimos planos do mar (um mar a que ninguém dentro do navio parece prestar atenção), escalas em várias portos, alguns passageiros notórios (nomeadamente um criminoso de guerra, maneira de mostrar como a sociedade encontrou maneira de albergar, sem fricção de maior, os "salauds" - que hoje, ao contrário dos de outras épocas, são "sinceros", ouve-se dizer no filme) e uma grande multidão que habita o navio deliciada com os seus "gadgets", os seus écrans (de telemóvel, de computador), o seu casino, sem ligar um chavelho ao mar e às cidades, perfeita metonímia da "civilização do consumo" vista como a "Metropolis" de Lang, mas uma "Metropolis" de Lang onde o "capitalismo" tivesse criado a ilusão "socialista" de uma "sociedade sem classes".

Depois, segundo segmento, a história de um pequeno comércio algures na província francesa, um pequeno comércio de gasolina (uma estação de serviço), quer dizer, petróleo, para ligar o particular ao geral, ligação que é (todo o mundo reflectido numa pequena porção espacial) o tema do segmento. Há televisões regionais, crianças que "jouent à la Russie", e o fabuloso encontro de um lama e de um burro - quer dizer, Bresson, quer dizer, "Au Hasard Balthasar" para a era da "globalização". Finalmente, terceiro segmento, "histoires du cinéma", Godard a montar excertos de filmes antigos, de cinema-sismógrafo, de cinema "em linha". Subjacente a todos os segmentos, uma prodigiosa textura (som + imagem), legendas, música, frases soltas, citações. O último plano é um écran negro com a inscrição "no comment".

E antes dele, justaposta a um "logo" do FBI com avisos a autores de "downloads" ilegais, esta frase: "quando a lei é injusta, a justiça passa antes da lei". Quem se lembrar de proposição mais subversiva para os nossos dias ponha o dedo no ar.

Luís Miguel Oliveira, Público



Título Original: Film Socialisme
Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard
Direcção de Fotografia: Fabrice Aragno e Paul Grivas
Montagem: Jean-Luc Godard
Interpretação: Catherine Tanvier, Christian Sinniger, Jen Marc Stehlé, Patti Smith,
Robert Maloubier, Alain Badiou, Nadège Beausson-Diagne, Élisabeth Vitali
Origem: Suíça/França
Ano de Estreia: 2010
Duração: 101’