CINEMA AO AR LIVRE: O melhor filme de guerra em muitos anos e um filme de acção que envergonha 95 por cento dos "blockbusters" americanos recentes.

ESTADO DE GUERRA, Kathryn Bigelow. Vencedor dos Óscares. Humilhou Avatar (yesssss!). Um filme fabuloso.

Inicia a Mostra de Cinema ao Ar Livre "Curtas Portuguesas recebem os Amigos Americanos". Dia 30 de Julho, Fábrica da Cerveja, 22h, sócios 1€, não-sócios 3,5€ (ou Passe para os 10 dias por 20€).


Dá vontade de ir directo à hipérbole: "Estado de Guerra" é o melhor filme de guerra em muitos anos. É uma trip impressionista pelo "lado escuro", uma injecção de adrenalina directa para a veia, uma "walk on the wild side" para citar a canção de Lou Reed. Porque - ao contrário da recente vaga de filmes americanos sobre o Iraque e as suas sequelas, ou de muito do cinema que se fez sobre o Vietname, por muito bons que alguns deles sejam - não é um filme que questione razões, motivos, psicologias. "Estado de Guerra" não pede desculpa por olhar para as coisas de frente e pegar o touro pelos cornos: sim, a guerra é um inferno (não são poucas as cenas onde o choque surdo da morte mesmo aqui ao lado bate com violência), mas para quem está lá no meio é também um vício, uma necessidade, uma maneira de estar vivo.


Tudo se passa numa unidade de minas e armadilhas, acompanhando os desafios quotidianos de um sapador-mineiro viciado nos riscos de desactivar os (progressivamente mais complexos) engenhos explosivos improvisados que os insurgentes constantemente plantam nas ruas de Bagdad, numa "escalada" em que cada bomba neutralizada abre caminho a um desafio mais elaborado e exigente. (Há, é verdade, algo de video-jogo aqui pelo meio, mas é uma leitura necessariamente a posteriori - e nunca um filme inspirado num jogo conseguiu o crescendo de tensão que Bigelow constrói aqui com virtuosismo.) Mas outra faena que "Estado de Guerra" faz ao touro é explicar que Iraque, Afeganistão, Vietname, Coreia, Balcãs, etc., são nomes diferentes para um mesmo território. O "onde" perde a sua relevância. A única ideologia é o pragmatismo. A guerras são todas iguais, há inocentes e culpados, entre mortos e vivos alguém se há-de safar.


Sim, este é um mundo de homens (as únicas mulheres aqui estão longe, em casa, mas esta camaradagem masculina é tão poderosa como frágil, ameaçada a cada momento), mas, paradoxo irónico, foi preciso uma mulher para fazer o melhor filme de guerra em muitos anos. É verdade que não é uma mulher qualquer - Kathryn Bigelow, ex-mulher de James Cameron, uma das poucas cineastas femininas que se impôs no mundo codificado do filme de género. Mas nada na sua obra anterior - que vai de "Ruptura Explosiva" a "Estranhos Prazeres", nem sempre conseguida, mas sempre estimulante - daria a entender que seria capaz de conseguir o que muitos outros têm procurado fazer sem lá chegar: um "statement" praticamente definitivo sobre viver a guerra, com todas as amplitudes térmicas emocionais que isso implica.


Não é, atenção, proeza exclusiva de Bigelow: tire-se o chapéu ao jornalista Mark Boal, que baseou o argumento nas suas próprias experiências acompanhando as tropas no Iraque, e à sua capacidade de desenhar personagens com dois ou três traços; à justeza de um elenco notável encabeçado por um Jeremy Renner na medida certa de obsessão; à "vérité" poeirenta da imagem de Barry Ackroyd (cúmplice habitual de Ken Loach). Mas foi Bigelow quem conseguiu a improvável alquimia de pegar numa história que tinha tudo para se tornar em mais um "statement" neo-liberal sobre a futilidade da guerra e transformá-la, primeiro, num filme de acção que envergonha 95 por cento dos "blockbusters" americanos produzidos nos últimos dez anos e, segundo, num dos olhares mais lúcidos e inteligentes sobre os homens que fazem a guerra sem precisar de recorrer a explicações freudianas.


Houve quem olhasse para "Estado de Guerra" como um filme paredes-meias com o exercício de recrutamento, mas Bigelow limita-se a admitir que há qualquer coisa de primitivo no nosso fascínio pela guerra, que a experiência é tão radical e limite que nada, mas nada, consegue equiparar-se-lhe - e que mais vale aceitar que isso é algo que não consegumos explicar verbalmente, e que transcende políticas e atitudes para ser, apenas, algo de intensamente pessoal e intransmissível. "Estado de Guerra" não explica: observa e constata.

E - milagre! - quem o quiser ver, apenas, como um "thriller" de acção pode fazê-lo que continua a ter direito a um filme notável.
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Jorge Mourinha, Público


«The Hurt Locker» é um filme para acabar com toda a conversa tonta sobre a existência de um cinema "feminino", ou "de mulheres", por oposição a um cinema "masculino", ou "de homens". Porque em «The Hurt Locker» Kathryn Bigelow filma a guerra no Iraque, e o comportamento, os sentimentos e a intimidade dos soldados como pouco homens o conseguiram, ou conseguirão fazer.

Escrito por Mark Boal, o argumentista de «No Vale de Elah», e rodado na Jordânia, «The Hurt Locker» segue o dia-a-dia da unidade militar americana com maior taxa de baixas no Iraque: os especialistas em bombas não detonadas e em armadilhas feitas com engenhos explosivos. Centrando-se em três daqueles soldados, o filme é uma sequência de episódios baseados em factos reais (Boal esteve no Iraque a falar com militares e a fazer o "trabalho de casa" muito bem feito), desde a desactivação de um carro armadilhado colocado perto de um edifício das Nações Unidas em Bagdade, até ao confronto com um homem-bomba à força, passando por uma cena infernal após o rebentamento de um camião-cisterna perto da Zona Verde e pela descoberta do corpo de uma criança transformado em cadáver explosivo, numa cena que Bigelow filma no limite do emocionalmente suportável.


«The Hurt Locker» é um daqueles cada vez mais raros filmes em que o rush de adrenalina e os índices de tensão atingem níveis tão elevados no ecrã como na plateia. Mas sendo um filme de guerra, e sobre homens em guerra, este consegue ser também um filme sobre a intimidade, e as suas formas particulares de expressão e de camaradagem, no microcosmo do trio de protagonistas, encabeçado pelo excelente Jeremy Renner no papel do temerário mas experiente sargento William James, para o qual a melhor maneira de desarmar uma bomba é "não deixar que ela rebente connosco". Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse fazem breves apariçães em «The Hurt Locker», mas o filme pertence todinho a Renner, a Anthony Mackie no sargento que funciona by the book, e a Brian Geraghty no soldado que precisa que lhe incutam confiança.
As bombas não são a única ameaça que estes especialistas enfrentam. Há ainda os "snipers", que muitas vezes ficam perto ocultos numa casa, num telhado ou num terraço, para fazer detonar os explosivos com um tiro quando estiverem o máximo de civis iraquianos e soldados americanos junto deles, ou para abater os especialistas quando eles estão a trabalhar na desactivação dos mecanismos. A realizadora disse na conferência de imprensa que «The Hurt Locker», não sendo, obviamente, "a favor" da guerra no Iraque, não era também um filme "para tomar partido", e contou que quando Mark Boal lhe falou nestes militares que enfrentavam a morte armados apenas com um alicate, uma protecção corporal e um capacete, soube logo que era a história deles que ia filmar a seguir. E a forma como alguns destes homens, caso do sargento James, precisam de estar no coração dos acontecimentos para se sentirem integrados nalguma coisa, verdadeiramente vivos, com uma função e uma razão de ser no mundo. Mesmo que a morte os espere para os fazer em bocados, no fundo de uma rua suja e devastada de Bagdade, dentro de um carro, debaixo do chão ou no terraço de um prédio.
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Eurico de Barros, Cinema 2000


James (William Renner), juntamente com o sargento Sanborn (Anthony Mackie) e com o soldado-especialista Eldridge (Brian Gegharty), cuja missão é orientarem-no pela rádio e darem-lhe cobertura enquanto ele tenta impedir o rebentamento de bombas, carros ou gente, é um dos três protagonistas de Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow, escrito pelo jornalista Mark Boal (No Vale de Elah). E Estado de Guerra, além do melhor filme feito até agora sobre a guerra no Iraque é também um dos grandes filmes de guerra já feitos, ponto final.

A intenção de Bigelow não foi realizar um filme “pró” ou “anti”-guerra. Foi descrever o quotidiano unicamente mortífero, as motivações, as relações e o funcionamento emocional e mental dos militares especializados que, nas ruas, casas e terraços das cidades iraquianas, por vezes sob a mira de snipers inimigos, arriscam ficar mutilados ou ser reduzidos a migalhas, enquanto, minimamente resguardados, tentam desactivar toda a sorte de bombas, booby traps mais ou menos sofisticadas, carros pesadamente armadilhados e pessoas forradas (as vivas) ou recheadas (as mortas) de explosivos.


Comandando uma câmara que não larga as personagens nem no meio do pior inferno de caos, chamas e morte fabricado por mão humana, Bigelow mostra-nos uma sucessão de episódios baseados em factos reais e ficcionados que levam os índices de tensão ao limite, instalam um clima emocional nos limites do suportável e esgotam a secreção de adrenalina.

Poderão as sensações intensas decorrentes de situações de combate extremas viciar o soldado, e levá-lo a querer experimentar mais, como parece suceder à personagem do sargento James? Talvez. Certo, certo, é que raras vezes a experiência humana da guerra foi tão visceral e implacavelmente visualizada e transmitida como nesta fita, por estes militares armados de alicates e que raramente vêem o inimigo. Kathryn Bigelow nasceu mulher, mas filma como um homem a quem a natureza dotou com dois pares de testículos.
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Sérgio Abranches, Time Out



Título Original: The Hurt Locker
Realização: Kathryn Bigelow
Argumento: Mark Boal
Direcção de Fotografia: Barry Ackroyd
Montagem: Chris Innis, Bob Murawski
Música: Marco Beltrami, Buck Sanders
Interpretação: Anthony Mackie, Brian Geraghty, Christian Camargo, David Morse,
Evangeline Lilly, Guy Pearce, Jeremy Renner, Ralph Fiennes
Origem: EUA
Ano de Estreia: 2008
Duração: 131’


EM COMPLEMENTO

A FELICIDADE, Jorge Silva Melo, Portugal, 2008, 8’

Um pai e um filho. O pai terá setenta anos, o filho pouco mais de vinte. O filho leva o pai ao hospital. Na rádio, música clássica. O Exultate, Jubilate de Mozart cantado por Teresa Stich- Randall. Nem o pai sabia que o filho gostava de música clássica, nem o filho sabia que aquela seria a última conversa que teria com o pai. Mas Mozart pede que as almas se alegrem, que os homens rejubilem.

Título Original: A Felicidade
Realização: Jorge Silva Melo
Argumento: Jorge Silva Melo
Direcção de Fotografia: José Luís Carvalhosa
Montagem: Vítor Alves
Interpretação: Fernando Lopes, Miguel Borges, Pedro Gil
Origem: Portugal
Ano de Estreia: 2008
Duração: 8’



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Não digam que não valeu a pena - Ciclo Michael Haneke chega ao fim com NADA A ESCONDER. Artistas, 22h, Entrada livre.

PRÉMIOS
Cannes 2005 – Prémio Melhor Realizador
Prémios da Crítica Internacional e Júri Ecuménico
5 Prémios do Cinema Europeu
Melhor Filme, Realizador, Actor, Montagem e Crítica Internacional
Críticos de Los Angeles e Críticos de São Francisco
Melhor Filme Estrangeiro


O realizador, que estudou Filosofia e Psicologia antes de se dedicar à sétima arte, sempre teve um talento especial para demonstrar o lado mais obscuro da natureza humana, incomodando, chocando e mexendo com as emoções do espectador. Nesta película não foge à regra. Apesar de alguns a considerarem mais acessível, esta é mais uma obra que que promete não ser consensual.

Com este filme sufocante e perturbador, Haneke quer mais uma vez envolver o espectador no mesmo sentimento de paranóia que o protagonista vive, e enquanto o faz, vai construindo uma alegoria política sobre a guerra franco-argelina, e criticando implicitamente o poder manipulador das imagens mediáticas.
Com uma dupla de excelência a assegurar os papéis principais, Haneke volta a surpreender com um final que promete deixá-lo desnorteado.
Goste-se ou não do seu estilo, prova que é um dos melhores realizadores europeus em actividade.
(daqui)

O novo filme de Michael Haneke, «Nada a Esconder», é um conto moderno sobre a vida das imagens, uma espécie de fábula assombrada sobre o poder daquilo que as imagens mostram e, sobretudo, do modo como o mostram. Bastará recordar o seu ponto de partida para nos apercebermos da inquietação que o atravessa: esta é a história de um casal, Georges e Anne Laurent (Daniel Auteuil/Juliette Binoche), que começa a receber cassetes de vídeo anónimas onde descobre imagens de si próprio, no dia a dia… Trata-se de um processo aparentemente chantagista, tanto mais perturbante quanto se começa a cruzar com algumas memórias traumáticas da infância de Georges.

Em todo o caso, não se julgue que o dispositivo montado por Haneke se reduz a uma lógica tradicionalmente policial. Ou seja: a eventual identificação dos responsáveis pelas imagens não basta para colocar um ponto final no drama do casal. Porquê? Porque aquilo que Haneke filma é um modo de vida em que as imagens, mais do que um “duplo” da realidade, passaram a existir como uma nova realidade, fortíssima e incontornável, enredada em todas as componentes da nossa existência.

Há, aliás, na definição do casal Laurent uma curiosa “oposição” que, num cinema tão preciso com os detalhes como é o de Haneke, está longe de ser indiferente. Assim, ambos trabalham com livros, mas ela fá-lo numa editora, enquanto ele apresenta um programa de divulgação na televisão. Quer isto dizer que Georges e Anne são personagens em trânsito entre a herança de um conhecimento predominantemente literário e a realidade triunfante de uma cultura dominada pelas imagens, ou melhor, pela gigantesca multiplicação dos respectivos circuitos de difusão. Daí o mal-estar que vai crescendo: as imagens que recebem são a prova real da sua vulnerabilidade, já que instalam no quotidiano, não o delírio canónico da ficção romanesca, mas uma espécie de hiper-realismo doentio que corrói todas as relações.

Daí também a infelicidade da solução adoptada para o título português. É certo que «Nada a Esconder» provém de uma frase dita pela personagem de Georges (que, face ao processo de “vigilância” a que a sua família é sujeita, proclama não ter “nada a esconder”). Mas é um título que inverte por completo a questão fulcral do filme, isto é, a existência de algo ou alguém “escondido” que vai dinamitando toda a estabilidade da vida quotidiana. A opção por «Nada a Esconder» é tanto mais inadequada quanto desmente também o original Caché (=escondido) que, aliás, nos mercados de língua inglesa deu origem à tradução literal «Hidden».

Haneke retoma, aqui, esse sentimento ambivalente que perpassava pelo seu extraordinário «Código Desconhecido» (2000), aliás também com Juliette Binoche. «Código Desconhecido» funcionava como uma metódica inversão do “naturalismo” gratuito da actualidade mediática e televisiva: alguns temas actuais (a violência no quotidiano, a agressão contra as mulheres, a errância europeia dos refugiados) reapareciam em tom de realismo fragmentário, visceral, irredutível. Em «Nada a Esconder», a questão da decomposição da vida privada surge, não como a excepção, mas a regra das sociedades de consumo pós-modernas.

Daí que seja inevitável sublinhar o que, face às ressonâncias “simbólicas” dos filmes de Haneke — lembremos a parábola política de «O Tempo do Lobo» (2002) — tantas vezes tende a ser esquecido. A saber: a espantosa riqueza psicológica do seu cinema. Na verdade, «Nada a Esconder» é também um retrato íntimo, obsessivo até ao pormenor mais delirante, de uma “família-como-as-outras” e da terrível ausência de comunicação que assombra as suas relações interiores. O efeito das cassetes anónimas no dia a dia dos Laurent é tanto mais violento quanto as suas imagens tornam sensível uma teia de solidões que tem o seu cume na personagem cinzenta, inquietante na sua opacidade, do jovem Pierrot (Lester Makedonsky), o filho do casal. Face ao mito das famílias “libertas” pelo bem-estar económico e tecnológico, Haneke contrapõe uma paisagem gélida de seres que, de facto, perderam o gosto, o afecto e até a própria ideia de comunicação.

Estreado no Festival de Cannes de 2005, «Nada a Esconder» (ou, insisto, Caché) é um fabuloso exemplo de um cinema de raiz europeia que possui uma abrangência temática e um sentido de risco que lhe conferem uma automática dimensão universal. Projectado internacionalmente através de «Funny Games» (1997), consagrado através de «A Pianista» (2001), Haneke confirma-se como um dos mais acutilantes retratistas de uma tragédia que o mundo televisivo todos os dias nos oculta: a de uma solidão que julgamos apagada pela simples proliferação das tecnologias de “comunicação”. No limite mais cruel, somos nós que estamos escondidos da nossa própria verdade.
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João Lopes, Cinema 2000

Georges (Daniel Auteuil) é um jornalista literário de sucesso com um programa de televisão de grande audiência. A sua mulher (Juliette Binoche) trabalha numa famosa editora parisiense. O casal tem um filho cumpridor, uma bela casa, uma vida desafogada e confortável. Um dia, começam a receber vídeos misteriosos da fachada do prédio onde vivem, como se estivessem a ser vigiados por alguém. A seguir, esse alguém passa também a enviar-lhes desenhos, que parecem ser feitos por uma criança e têm em comum o elemento do sangue. Georges e a mulher vão à polícia, mas esta não os pode ajudar enquanto não for cometido um acto criminoso concreto. E os vídeos enigmáticos e os desenhos doentios continuam a chegar.

Este é o ponto de partida de NADA A ESCONDER, do austríaco Michael Haneke (A Pianista, O Tempo do Lobo), que concorre em Cannes sob a bandeira da França. O filme, além de retomar alguns dos temas favoritos do realizador, caso da desconfiança das imagens e do seu potencial de manipulação (indicado logo na abertura, em que Haneke "engana" os espectadores com um plano que julgamos "pertencer" ao filme, mas afinal é de um vídeo do misterioso vigilante do casal protagonista), usa um formato de história policial para tratar o tema da culpabilidade. É que Georges, quando tinha seis anos, cometeu um acto cruel, que o tempo atirou para o arquivo morto da memória, mas que pode estar relacionado com os vídeos e desenhos anónimos.

Sem a ajuda de qualquer comentário musical (que o realizador recusa sempre), NADA A ESCONDER instaura um ambiente de mal-estar crescente, de tensão continua, de expectativa intrigada e de desconforto vizinho do medo, que são bem característicos do cinema de Michael Haneke (na conferência de imprensa, o realizador disse que é muito mais divertido trabalhar num filme seu do que vê-lo), mas que mesmo assim surgem aqui mais mitigados do que em Brincadeiras Perigosas ou O Tempo do Lobo.
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Eurico de Barros, Diário de Notícias

O espectador bem pode esperar que a história comece. Para que ele se esqueça da sua condição de espectador e se precipite rapidamente para a suspensão da descrença: ficção! narrativa! Mas não. O primeiro plano, que inclui genérico, é longo, enquadra da rua um banal bairro da classe média - a nossa atenção talvez se dirija para uma casa em particular... -, há transeuntes que passam, uma espécie de acordar da banalidade que desliza pelas ruas (podia ser tudo captado por uma câmara de vigilância), mas quando é que o filme começa, e quando começamos a dizer isso a nós próprios (e se calhar pode um espectador lançar a alta voz), "E então?!", ouvimos, como eco, a voz daqueles que serão os protagonistas do filme, que se interrogam também sobre essas imagens.

Assim já não sabemos para onde olhamos, onde estamos, o que é que vemos, quem filma o quê, e lá se vai a suspensão da descrença. A partir daqui, "Nada a esconder" contagia o espectador com o vírus da desconfiança. Estaremos sempre alerta no filme de Michael Haneke, é a condição irreversível de se ser espectador aqui - não era em "Funny Games" que um dos assaltantes de uma casa familiar se virava para o lado de cá do ecrã e disparava: "Quer apostar que esta família estará morta amanhã às 9 da manhã?"

E a história (daquele primeiro plano) é esta: Anne e Georges Laurent, ele apresentador de um programa cultural, ela trabalhando para uma editora (Daniel Auteil e Juliette Binoche), acabaram de receber um vídeo que mostra que alguém está a olhar para a quietude daquela casa familiar.

Que alguém os vigia e quer que eles saibam disso. As brechas começam a abrir - há sobretudo uma hostilidade não silenciosa, mas expectante, na mulher (Binoche), que não compreende o que está em causa, e suspeita que o marido (Auteil) sabe mais do que quer contar. A crispação do casal aumenta quando os vídeos dão lugar a desenhos de um "gore" infantilizado (traços e rajadas de sangue) e a telefonemas anónimos.

A história (por trás destas imagens, sempre banais, todas iguais, todas assépticas, como se todas se equivalessem - então uma imagem tem "tudo a esconder", se calhar outra, se calhar aquilo a que chamamos "realidade"!) chegará a um homem, argelino, Majid, que em tempos foi um irmão adoptado de Georges, e recuará no tempo, com "flashback", a um tempo de infância eterna que o racismo e o "problema argelino" em França interrompeu com uma traição - Georges, criança, traiu Majid, criança. É esse passado que agora assombra Georges? Mas quem o filma, quem desenha, quem telefona? Majid? Se calhar não.

Há um último plano. Fixo, como o primeiro. Mas não só inicialmente insondável. Escadarias de uma escola, que se vão esvaziando, para notarmos finalmente dois rapazes que falam. Um é o filho de Georges. O outro é filho de Majid. Um "complot" da nova geração contra o pecado dos pais? (nos filmes de Haneke os jovens, as crianças, têm esse efeito perturbador, são elas que rompem o tecido social). Não sabemos do que falam. Michael Haneke tirou-nos a possibilidade de ouvir o que dizem. O comentário social, a análise de tese, às vezes demonstrativa (sempre ecrãs de televisão a mostrarem o "estado do mundo", a divisão entre o Ocidente e o mundo árabe), o "thriller", as cenas da vida conjugal, combinaram-se numa experiência de que nós, espectadores, fomos cobais (quando só queríamos a suspensão da descrença...). O vírus da culpa foi-nos inoculado. Como se tivéssemos sido violados até chegarmos a uma nova condição, a uma nova consciência de espectadores: a culpa de quem "vê" vive aqui.
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Vasco Câmara, Público



ENTREVISTA AO REALIZADOR

Com a sua barba branca e o seu sorriso afável, Michael Haneke, 63 anos, esconde bem o seu jogo: o de um dos cineastas mais inquietantes da época. Encontro com um homem que vive entre Viena e Paris, entre duas línguas, duas culturas. Mas com uma única obsessão: pôr o dedo na ferida.

Em Cannes, até ao último momento, NADA A ESCONDER era o filme favorito: Não ficou desiludido?
Já vi tantos favoritos passar ao lado do palmarés. Há coisas piores na vida do que receber o Prémio de Melhor Realizador em Cannes. Teria ficado contente com a Palma, mas estou ainda mais com a óptima recepção internacional do filme, o que é uma novidade, mesmo na América, onde não costumam gostar de filmes em aberto. O filme já foi vendido para 50 países.

Michel Houellebecq elogiou o seu cinema em “Possibilité d’une île”...
Foi um grande elogio. Gosto muito do Houellebecq. Li “Extension du domaine de la lutte” e “Particules Élémentares” – estão todos traduzidos na Alemanha, onde é muito conhecido. É o escritor contemporâneo em que me sinto mais em casa: vivo no mesmo mundo que este homem. Mesmo que não tenha nada a ver com ele, o seu mal-estar é o mesmo que o meu. Ele escreve livros muito realistas, não são exagerados nem pessimistas, e acho que existe neles muita compaixão pelas personagens. É isso que conta: as pessoas que admira pensarem em si.

Porque explora a culpabilidade colonial francesa?
Remexo na história. Gosto disso. Foi semelhante na Áustria, onde há tantos buracos negros que a culpabilidade individual acaba por se fundir na culpabilidade nacional. Os factos existem: há 50 anos, os franceses agiram mal na Algéria, mas a memória colectiva do país não o aceitou. Aconteceu o mesmo na Áustria: ninguém era nazi durante a guerra, eram todos vítimas. Esta espécie de cegueira voluntária deixa-me louco.

Como nasceu NADA A ESCONDER?
Primeiro da vontade de trabalhar com Daniel Auteuil. Há um segredo nele. Alguns actores oferecem-nos tudo. Ele guarda algo, como Trintignant. Queria também fazer um filme sobre a culpabilidade, a culpa que vem da infância, das asneiras que fazemos aos 5 anos. O filme confronta um homem com o que ele fez quando era criança. E a sua escolha é reagir ou não à culpabilidade do passado. Não reagir, querer esquecer, é normal, mas aí ele sente-se mal. Toma dois comprimidos para dormir. É um pouco cobarde: “O que faríamos para não perder nada”, diz-lhe a vítima. É essa a frase chave. Para ilustrar este lado desconfortável, parti dum documentário sobre a manifestação do FLN reprimida pela polícia francesa, em Paris, em Outubro de 1961.

A forma do filme é muito peculiar.
Quis destabilizar. Nunca podemos dizer se a imagem da cassete de vídeo é o ponto de vista objectivo e o do cinema o ponto de vista subjectivo. Já não sabemos onde estamos: tudo é igualmente filmado com uma câmara HD. Os níveis de imagens são idênticos, e isso cria uma dúvida sobre a realidade. Não foi por acaso que todos os grandes escritores alemães abandonaram o romance depois da guerra: ficaram desconfiados da manipulação das palavras e das imagens. O que sempre me interessou, nos livros, filmes, quadros foi a destabilização.

No filme há um suicídio impressionante, porquê?
É o plano mais importante do filme: se a cena não fosse credível, todo o filme teria falhado. Era preciso que acontecesse num só gesto. E cinematograficamente era muito difícil. Um plano fixo, rápido, de um realismo terrível. Fizemos três “takes”, não mais. Foi muito duro para o actor, cair como uma pedra.

Porquê o lado de sátira da televisão?
Trabalhei durante vinte anos na produção de emissões parecidas com a que Auteuil apresenta em NADA A ESCONDER, emissões “inteligentes”. Mas a inteligência não protege da cobardia.

E o famoso último plano aberto?
Cada um pode encontrar aí a sua solução. Mas a maioria das pessoas em Cannes não viam nada! E se se vê algo aí ainda há mais interpretações possíveis. Escrevi um diálogo para as personagens, antes da rodagem. Sei o que eles dizem, qual o sentido, mas não vou contá-lo.
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Antoine de Baecque, Libération


Título Original: Caché
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Interpretação: Daniel Auteuil, Juliette Binoche , Maurice Benichou, Annie Girardot , Bernard Le Coq
Direcção de Fotografia: Christian Berger
Montagem: Michael Hudecek , Nadine Muse
Origem: França/Áustria/Alemanha/Itália
Ano de Estreia: 2005
Duração: 114’


RETOMAMOS O TEXTO QUE INICIOU ESTA RETROSPECTIVA. AGORA, COMO TODOS OS FILMES VISTOS, PODERÃO APRECIÁ-LO (OU CRITICÁ-LO) NUMA OUTRA PERSPECTIVA.

Tenham medo. Melhor ainda: não tenham medo da angústia que liberta um filme de Michael Haneke. Ainda não há muito, quando apresentava uma retrospectiva da sua obra em Londres, o cineasta austríaco com ar de entomologista, desejou aos espectadores uma "sessão inquietante". Não estava a fazer apenas "blague" - muito hitchcockiana, diga-se, embora no lugar da bonomia do obeso inglês se tenha de por a silhueta professoral do austríaco, mas Hitchcock é mesmo um cineasta em que se pode pensar quando se pensa no cinema de Haneke. Que, aos 63 anos, se considera um "optimista". Quer com isto dizer que o seu objectivo - isto é: com a prova de choque dos filmes - é abanar o torpor do espectador perante a forma inconsequente como violência domina os "media". "Optimista", portanto, no sentido em que acha sempre que vai conseguir - abanar, isto é. Uma coisa é certa: os filmes de Haneke - "O Sétimo Continente" (1989), "Benny"s Video (1992) , "71 Fragments of a Chronology of Chance" (1994), "Brincadeiras Perigosas" (1997 - primeiro público alargado -, "Código Desconhecido" (2000), "A Pianista" (2001) - Grande Prémio do Júri de Cannes -, "Le Temps du Loup" (2003) e "Nada a Esconder"/"Caché" (2005) não são para todos. Haneke não tem ilusões de que o seu cinema seja "mainstream". E no entanto "Nada a Esconder", saiu de Cannes com o prémio de Realização e em França esteve nas listas dos melhores do ano. O filme debruça-se - há sempre um tom de investigação e experiência ... - sobre a razão pela qual Georges (Daniel Auteuil), um apresentador de televisão de um programa sobre literatura (uma espécie de Bernard Pivot), não se sinta refém, nem sinta culpa, em relação ao seu passado quando recebe vídeos com imagens da sua própria casa (quem os filmou?) e quando recebe desenhos perturbantes onde uma criança deita sangue pela boca, ou quando recebe chamadas telefónicas suspeitas. Tudo isto, supostamente, é obra de um argelino, Majid, que em tempos, na infância, Georges tramou. Foi uma espécie de história de "irmãos" que correu mal e que o tempo veio cobrar; uma história que tem a ver com outro tempo, de facto, com o passado colonial francês, com a "questão argelina". Por isso nos espantamos quando Haneke diz ao Y que a política não lhe interessa. Mas este filme é abertamente político. Explicita a profunda separação entre o primeiro e o terceiro mundos e a estratégia dos "media" e do público nessa alienação. Os recentes motins em Paris, aliás, tornam o filme ainda mais pertinente. Mas Haneke insiste: "Em qualquer país encontramos uma situação semelhante, podemos entrar em comparações em relação à Áustria ou à Jugoslávia ou outros países. O filme tem uma versão alargada de temas e eu ficaria infeliz se fôssemos restringi-lo à questão colonial argelina." Para Haneke, o comportamento da personagem de Georges não é invulgar - quando ele se esconde debaixo dos cobertores e toma comprimidos para esquecer acontecimentos recentes. "Fazemos o mesmo com o terceiro mundo. Tomamos um comprimido, damos alguns milhões de dólares e depois esqueçemos. É a mesma maneira de esquivarmo-nos ao tema." Também não é coincidência que Georges seja apresentador de TV e um intelectual, diz o realizador. "Desta maneira não há desculpas possíveis, do género que tinha problemas de ordem material ou era demasiado estúpido para se comportar de outra maneira. Ele tem que ser confrontado com o que fez." "Acho que os intelectuais são seres humanos como qualquer outra pessoa e com os mesmos problemas. O facto de termos conhecimentos não nos ajuda do ponto de vista emocional - caso contrário o mundo seria um lugar diferente. Podemos saber tudo, mas isso não quer dizer que saibamos lidar emocionalmente com essas coisas. Não estou a ser pessimista ao dizê-lo; é apenas uma observação. Sou um intelectual, mas o facto de ser um intelectual não é de grande ajuda na minha vida privada." a ilusão da tv. Michael Haneke, nascido em Munique, filho de uma actriz e de um realizador, que passou a infância num subúrbio de Viena, Wierner Neustadt, tentando ser actor e pianista, começou a fazer filmes para a televisão austríaca e alemã, meio sobre o qual tem sido crítico. "Não acredito que a televisão nos faculte assim tanta informação sobre o que está a acontecer no mundo", diz, convicto. "Vemos imagens que são manipuladas - porque não existe essa coisa da imagem objectiva -, mas isso dá-nos a ilusão de possuirmos conhecimento. E isso é perigoso, porque acabamos por ser manipulados por essa ilusão." O primeiro filme realizado fora do pequeno ecrã, "O Sétimo Continente", era o relato, verdadeiro, do suicídio colectivo de uma família, onde todos os membros morriam num sofá, a fazer "zapping". "Benny"s Vídeo" centrava-se na história de um rapaz que passava o dia trancado no quarto rodeado de computadores e monitores a ver filmes de matanças ao vivo que fez com animais de quintas. Foi alvo de atenção internacional com "Brincadeiras Perigosas", o primeiro filme austríaco em 35 anos que foi à competição de Cannes - a imagem de uma televisão salpicada de sangue era óbvia, mas a história de dois jovens bem-educados que tomam como reféns uma família na sua casa de férias, forçando-os a jogos sádicos, era aterradora. Há alguns pontos de contacto com "Nada a Esconder". No facto de o "thriller" psicológico ir tomando forma, no facto de serem as gerações mais novas que sacodem as fundações do edifício social. A este nível está o intrigante plano final, em que os filhos de Georges e de Majid conversam, sem que o espectador oiça o diálogo: eram eles que urdiam o "complot" que se abateu sobre a família francesa? É uma nova aliança feita no rescaldo dos pecados e das culpas dos pais? "No fim, as pessoas têm diferentes interpretações dessa cena em que os filhos dos dois homens se encontram em frente à escola", reconhece Haneke. "É propositado. Não vou dar dicas sobre o que acontece. Filmei inicialmente a cena de forma a que pudéssemos ouvir o diálogo mas prefiri que o público adivinhasse o que está a acontecer. Quem sabe? Talvez sejam amigos que tenham combinado juntos [o plano dos vídeos e dos desenhos anónimos]. Talvez o filho do argelino esteja a preparar um rapto e vá levar o outro rapaz como refém. Ou talvez vejamos os dois rapazes como herdeiros dos problemas com os quais estamos a lidar no filme. Cabe-nos decidir. Construí o filme desta forma para assegurar que as pessoas iriam levantar questões. Se fizer como os outros fazem, que nos dão as respostas antes de levantarmos as questões, então iremos esquecer o filme, iremos esquecer o problema e a questão rapidamente. Quando vou ao cinema os filmes que permanecem na minha mente são aqueles que me desestabilizam e me inquietam. Esqueço todos os outros muito rapidamente." duche frio. Agora uma das actrizes predilectas de Haneke, Juliette Binoche faz equipa com o realizador pela segunda vez em "Nada a Esconder". Entrara anteriormente no primeiro filme francês do realizador, "Código Desconhecido". Ficou apanhada pela experiência. Em "Nada a Esconder" interpreta a mulher de Georges e trabalha na indústria editorial. A família goza uma vida calma e tem um filho com 12 anos, Pierrot. No entanto, à medida que Binoche vagueia pelo seu imaculado apartamento podemos sentir as gretas que começam a abrir nesta existência burguesa. A parte de Anne na história é a de uma testemunha dos emergentes segredos do marido e de uma violência latente. "Há coisas na vida que são insuportáveis, a traição é insuportável, a culpa é insuportável", diz Binoche. "De repente temos de encarar os nossos demónios e acho que o Michael Haneke está a lidar com temas que são difíceis e isso é necessário. Os seus filmes sublinham os pormenores da nossa vida diária e o que é muito forte, o que é especial sobre eles é que não estamos só envolvidos nos nossos próprios problemas, temos de abrir-nos para o resto do mundo. Todos os pormenores tornam-se universais. Foi um acessor de imprensa que me apresentou aos filmes do Michael. Vi "Benny"s Vídeo", mas não quis ver "Funny Games" porque fiquei assustada. Os seus filmes, mesmo quando são como um duche frio, levam-nos a pensar sobre o materialismo das nossas próprias vidas e nos nossos hábitos do dia-a-dia. Normalmente não queremos ser confrontados com o passado. Por isso acho que os seus filmes são necessários. De tempos a tempos é preciso vermos uma coisa assim. Embora não todos os dias", diz, soltando uma gargalhada. Michael Haneke escreveu o filme a pensar exactamente nos actores que queria. Neste caso, Binoche e Auteil. Fazer um filme, por isso, não é nada de excessivamente difícil. O realizador sabe o que quer. E termina a conversa com o Y com um largo sorriso: "Digo sempre que é mais agradável interpretar um filme de Haneke do que ver um filme de Haneke".
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Helen Barlow e Vasco Câmara, Público


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a nossa Vice-Presidente, Graça Lobo, vai participar!


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dia 29, pelas 11h50, falará, no Painel "Cinema - Comunicação", falará sobre "How to improve cinema literacy – The experience of Programa JCE" (é o programa de ensino de cinema nas escolas que ajudámos a fundar na Dir. Regional Educação do Algarve. nos idos de 1997).

não é bestial? :-)


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«sai-se da sala com uma sensação de paz e de sabedoria». Já não se fazem heróis como antigamente, não... 2ªf, IPJ, 22h.


Um condutor de comboios chega à reforma após 40 anos de carreira...
Há uma serenidade insólita, um gosto pelo burlesco servido a uma temperatura emocionalmente fria, uma vontade de esperança que teima em funcionar, mesmo quando o protagonista deste filme - sexagenário, solitário e já sem préstimo, pois a única coisa que verdadeiramente amava era guiar comboios pela Noruega fora - parece condenado a ficar simplesmente à espera da morte, ou a provocar um encontro com ela. "A Nova Vida do Senhor O'Horten" é um filme que chega da Escandinávia e é um primo talentoso e nada bisonho do cinema de Aki Kaurismäki. Se lhe sobrar tempo, leitor, a meio do burburinho pré-natalício, chegue-se a ele. Tem uma dose de humanidade plácida que funciona como lição de vida. E sai-se da sala com uma sensação de paz e de sabedoria.
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Jorge Leitão Ramos, Expresso

Noruega pode parecer tão exótica quanto a Roménia ou a Coreia do Sul. Tudo depende da perspicácia para revelar os pormenores mais excêntricos... enfim, excêntricos para os outros, claro está, elevados internamente a uma pertinência mordaz. Dito assim, até se leva a crer que falamos de uma comédia. Nada disso. Tanto ou tão pouco quanto um filme de Kim Ki Duk ou Corneliu Porumboiu. Ao contrário dos seus vizinhos escandinavos, a Noruega não conta na sua História com uma Bergman, um Dreyer, um Lars Von Trier que seja. Por isso, regra geral, a cinematografia norueguesa, o país com melhor qualidade de vida segundo as estatísticas, permanece misteriosa, assim como aquelas montanhas geladas a que chamam fiordes.


Do frio chega esta personagem fascinante, que irrompe por entre as montanhas de neve, à proa da moderna locomotiva que conduz. Chama-se O'Horten, nome escocês: a Escócia fica apenas a algumas milhas marítimas, e este O'Horten, pela cara se diz, que noutros tempos seria um pescador, que fora ali parar em busca de bacalhaus e outros peixe graúdos que por ali nadam. Nos nossos tempos, é maquinista, profissão idealizada e mostrada como sonho mítico de crianças, tal como astronauta. O'Horten é um maquinista que faz a sua última viagem, de Oslo para Bergen e vice-versa, antes da reforma. É apresentado como homem de poucas palavras que não gosta de dar nas vistas e funcionário competente, ao ponto de ser agraciado com uma locomotiva de prata (uau!).


O argumento é minimalista, centrado nesta intrigante personagem, cheio de bons momentos, como o contraste claro escuro, a neve e os túneis onde o comboio se esconde. Funciona bem enquanto retrato na busca da essência da condição humana.
Chega-se a desenhar uma aura de crime, que não se concretiza, mas há sobretudo uma noção de invisibilidade, numa sociedade desconfiada e fria, dando ideia que, parte das acções do protagonista, servem apenas para se assegurar da sua própria existência. Bent Hamer, realizador experiente, não resiste ao final moralmente positivo, do encontro consigo próprio e com uma segunda vida feliz. Mas o espírito geral do filme, dentro das suas intermitências, permanece em tom de busca do Norte.
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Manuel Halpern, Visão

De vez em quando, caem-nos no colo, saídos de sítios inesperados, filmes como A Nova Vida do Senhor O'Horten, do norueguês Bent Hamer. Não são obras-primas, nada disso, mas são bons pequenos filmes, que através de uma história modesta mas bem cosida, com personagens metidas num contexto quotidiano e de identificação emocional imediata, transmitem algo de particular da cultura e da sociedade a que pertencem, conseguindo ao mesmo tempo ser universais nos sentimentos.


O senhor O'Horten do título (um patusco Bard Owe) é um maquinista tímido e afável que chega ao dia da reforma e apercebe-se que tem à sua frente um resto de vida vazio. No entanto, o destino, na pessoa de um velho e pândego diplomata copofónico coleccionador de armas primitivas, dono de uma pachorrenta cadela e que consegue guiar carros de olhos fechados, vai mostrar-lhe que há vida para lá da reforma. E que pode ser vivida em pleno – mesmo que dentro das suas limitadas possibilidades.


Filmado com uma típica reserva nórdica que nem por isso deixa de encontrar motivos de comédia em todo o lado, dos bastidores do aeroporto de Oslo a uma loja de tabaco, passando por um restaurante de bairro (o favorito do próprio realizador), A Nova Vida do Senhor O'Horten é o melhor e mais caloroso filme extra-Hollywood desta recta final do ano.
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Sérgio Abranches, Timeout


Título Original: O’Horten
Realização: Bent Hamer
Argumento: Bent Hamer, Harold Manning
Interpretação: Baard Owe, Espen Skjønberg, Ghita Nørby, Henny Moan, Bjørn Floberg,
Kai Remlow, Per Jansen, Bjarte Hjelmeland, Tone Stern Bergersen, Peter Bredal, Einar Breian
Direcção de Fotografia: John Christian Rosenlund
Música: John Erik Kaada
Montagem: Pal Gengenbach
Origem: Noruega/ Alemanha/ França
Ano de Estreia: 2007
Duração: 90’



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Haneke em ficção científica. à Haneke. O Tempo do Lobo é 5ªf, 22h, Esplanada dos Artistas, entrada livre.

É um filme de ficção científica, mas com os habituais elementos futuristas e espectaculares eliminados. Houve um cataclismo na Europa – ataque terrorista, desastre ecológico ou guerra, fica por dizer – a ordem desabou, as comodidades desapareceram, da electricidade à água potável, os animais morrem, os campos são invadidos por famílias à deriva e tenta-se manter o equilíbrio possível para que a anarquia não estale. E é Inverno e faz cada vez mais frio.
Isabelle Huppert interpreta uma mulher a quem matam o marido e que se junta, com os dois filhos, a um grupo de pessoas, numa estação de comboio abandonada. Durante duas horas, Haneke filma as dificuldades dos cidadãos da sociedade da Internet e dos hipermercados para se adaptarem às novas e ásperas condições de vida, sem sacar dos clichés dos filmes-catástrofe, criando uma atmosfera de desamparo e angústia que incomoda pela sua espessa verosimilhança.
Eurico de Barros, Diário de Notícias

Só conheceremos as manifestações secundárias da catástrofe que atirou Anne e as crianças para a estrada: as pessoas que fogem, a penúria, a doença – nunca a causa. O TEMPO DO LOBO é o tempo em que a sociedade dos homens se desfaz para entrar num movimento que nada nem ninguém pode travar. Não interessa analisar as causas, mas apenas seguir o movimento. (…)
De qualquer forma, Haneke, até agora, sempre desconfiou da imaginação, preferindo a dissecação à evocação, mesmo arriscando privar de vida os seus assuntos. Mas neste filme é preciso sair da representação da vida na Europa Ocidental, que era o centro de “Código Desconhecido” e “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso”, porque é preciso filmar uma sociedade depois da sua morte, quando o exílio a transforma em fantasma.

Com uma coragem comovente, o cineasta austríaco renúncia às ferramentas que até agora lhe permitiam domesticar a dor e a violência que são a substância da sua obra. (…) Esta mudança de método, este salto no desconhecido, porquê fazê-lo? Para provocar medo. Para mostrar primeiro a fuga de Anne e dos seus filhos, numa longa sequência nocturna quase completamente mergulhada na obscuridade, ao mesmo tempo que uma ruptura irreparável aparece no seio da família – o rapaz é condenado ao silêncio, a adolescente apercebe-se das fraquezas da mãe. Encontram então um jovem rapaz que sobrevive à custa dos cadáveres. Juntos, seguem o caminho-de-ferro até uma estação onde um pequeno grupo heterogéneo espera um comboio hipotético, sobrevivendo sob o mando de um traficante de água e de sexo. Nesta estação, há rostos conhecidos – Patrice Chéreau, Béatrice Dalle, Maurice Bénichou, Olivier Gourmet (o traficante). Estes actores de excepção estão aqui para representar um dos actos da tragédia dos refugiados. A constituição de um grupo, a aprendizagem da duração da infelicidade. Uma cena magnífica opõe Chéreau a Dalle, um tentando jogar contra a má sorte, ela revoltando-se com uma violência tão devastador quão impotente. É provavelmente neste momento que o filme se encontra: o argumento apresenta então algumas postas poéticas (um velho recebe notícias do mundo exterior como se chegassem directamente do éter, uma mulher, louca talvez, procura os Justos no caos, tal como Lot antes da destruição de Sodoma e Gomorra) e o pequeno número de protagonistas permite a Haneke controlar o seu material de uma forma mais teatral, no sentido mais nobre do termo. (…) Nesta situação caótica, neste movimento perpétuo, encontramos organizados numa história os fragmentos que se poderiam apanhar durante a epidemia de cólera em Gomorra, ou durante o êxodo forçado dos kosovares na Albânia. Mas desta vez os fugitivos têm o nosso rosto e o que Haneke mostra em vários tons (…) é um lembrete e um aviso: mesmo do outro lado do mundo, estas guerras, estas tragédias também são nossas e a qualquer momento podem bater-nos à porta.
Thomas Sotinel, Le Monde

A Europa nunca existiu
Quando «O Tempo do Lobo» começa, um casal e os seus dois filhos chegam de carro a uma casa, algures no meio de uma floresta. É, certamente, o início de umas férias ou de um fim-de-semana de repouso. Todos os sinais indicam que estamos perante uma família típica, entregue às suas rotinas. Mais do que isso: a própria convenção cinematográfica faz-nos prever a história de uma crise familiar num cenário mais ou menos autónomo. Mas, ao fim de dois minutos, percebemos que nada sabemos do que acontece ou vai acontecer: dentro da casa está um casal desconhecido, com uma criança; há um tiro, alguém morre.

O cinema do austríaco Michael Haneke é feito destas situações em que, subitamente, todas as coordenadas, emocionais ou geográficas, podem vacilar. Era assim em «A Pianista» (2001), filme sobre o mapa cruel do desejo sexual. Era assim também em «Código Desconhecido» (2000), porventura o seu filme mais mal amado e também aquele que mais nos pode ajudar a percorrer «O Tempo do Lobo». Isto porque «Código Desconhecido» se organizava como uma aventura de angústia e perdição no nosso mundo saturado de informação: quanto mais as personagens (jornalistas) recolhiam dados sobre o que estava a acontecer, mais se sentiam enredadas num labirinto que, tragicamente, as podia conduzir à perda da sua própria identidade. No caso de «O Tempo do Lobo», aquilo que parece começar como a crónica de um crime brutal, rapidamente se transforma numa odisseia sem centro e sem destino.

Isto porque a morte inicial está longe de servir para desencadear uma clássica situação de investigação e inquérito. Ao fugirem, os sobreviventes descobrem-se num universo que, de facto, deixou de obedecer às suas coordenadas clássicas: as comunicações não funcionam, os meios de transporte estão desorganizados, os abastecimentos escasseiam, enfim, os cidadãos vagueiam pelos campos, sem destino certo, entregues às mais cruas tarefas de sobrevivência.
Até certo ponto, apetece citar alguns exercícios clássicos de ficção científica (quer literária quer cinematográfica) em que se vive uma situação pós-apocalíptica, com as personagens perdidas na indefinição e na instabilidade da própria paisagem. Em todo o caso, há uma diferença que importa sublinhar. É que nos modelos tradicionais da ficção científica, as personagens vão adquirindo um estatuto heróico: a sua resistência às condições adversas é também o princípio da sua excepcionalidade dramática. Ora, em «O Tempo do Lobo», dir-se-ia que quanto mais se acumulam as adversidades, mais as personagens tendem para um anonimato que as funde (e confunde) com o concreto das ameaças e a abstracção do cenário. De tal modo assim é que Haneke tem no seu filme nomes tão conhecidos como Isabelle Huppert, Béatrice Dalle ou Patrice Chéreau, sem que nenhum deles adquira qualquer protagonismo.

Tudo se passa numa atmosfera de perturbante ambivalência. Por um lado, «O Tempo do Lobo» acontece num espaço vago, num tempo indeterminado; por outro lado, das paisagens às personagens, passando pelas línguas faladas, tudo nos remete para uma certeza: estamos na Europa. Não é, no entanto, nem a Europa mítica das lendas, nem a Europa burocrática dos políticos: é uma espécie de resto simbólico, demasiado frágil para adquirir consistência dramática, demasiado vago para garantir a existência de laços seguros entre as personagens.
Haneke consegue, assim, uma proeza rara no cinema europeu (em boa verdade, no cinema contemporâneo): a de formular a questão da existência individual para além de todas as "garantias" diariamente marteladas pelo mundo mediático em que vivemos. No limite, como na espantosa cena da criança que se despe para se imolar pelo fogo, só nos resta a certeza de algumas verdades primordiais: o corpo, o fogo, a morte... «O Tempo do Lobo» é um prodigioso exercício de política narrativa, inclassificável e radical.
João Lopes, cinema 2000


ENTREVISTA AO REALIZADOR
A que se refere o título do filme?
Tirei-o do “Codex Regius”, o mais antigo poema alemão e mais precisamente do “Song of the Sightseer”, que descreve um tempo antes do “Ragnarök”, o fim do mundo.
O que é perturbador em O Tempo do Lobo é que o material narrativo pertence à ficção científica, mas o filme não se parece nada com esse género. Não há nenhuma semelhança com a “fantasia”, com algo que seja futurista. O que permanece é o “aqui e agora”, o presente puro.
Penso que na nossa sociedade, todas as pessoas já pensaram, em determinada altura, numa grande catástrofe. Nem é preciso ver televisão todos os dias para isso. Fosse uma guerra, um acto terrorista, uma catástrofe ecológica ou cósmica não mudaria muito. Isso não é importante. A única questão é: “Qual será a minha reacção e qual a do meu vizinho?”. O que faremos para enfrentar uma mudança tão grande? O quão rijo é o verniz da nossa sociedade? Até que ponto os nossos valores aguentam? Como nos vamos comportar com os outros num caso destes? Foi isso que quis explorar em O TEMPO DO LOBO. Quis fazer um filme limpo dos aspectos espectaculares do género “filme catástrofe”.
Esta situação existencial extrema é um motivo recorrente nos seus filmes. Sempre tratou essas situações como se fossem situações de todos os dias, evidentes, banais.
Quando as situações extremas são mostradas no cinema podemos cair facilmente no exagero. Este exagero pode torná-las implausíveis.
É isso que se deve evitar. Por isso o realizador tem de pensar nos meios narrativos que usa para basear a plausibilidade da história. Isto significa que tudo o que estiver para além da experiência dos espectadores incita a uma consideração da história como simples entretenimento e afasta-os do filme. A melhor e mais segura forma de evitar isto é a precisão.

O TEMPO DO LOBO NÃO SE PASSA ESPECIFICAMENTE EM NENHUM LUGAR OU TEMPO. É UM FILME SOBRE A EUROPA? OU ATÉ ISTO QUIS QUE FOSSE INCERTO?
Nunca pensei nisso. Quis que a situação acontecesse num ambiente familiar – meu e dos espectadores – para aumentar o potencial da identificação. Concordo que esta situação modelo fosse diferente noutra situação social ou climática. Como todos os meus filmes, a história fala do nosso mundo hiper-industrializado, da sociedade do supérfluo, e das pessoas que conseguem viver confortavelmente nas conveniências desse mundo. Só posso falar sobre estas coisas porque fazem parte do domínio da minha experiência. Tudo o que vai além deste contexto é do domínio do exotismo.

UMA QUESTÃO MUITO SIMPLES: O SEU FILME TEM PREOCUPAÇÕES SOCIAIS?
Não tenho uma mensagem para enviar, nem uma fórmula para resolver o problema apresentado. O filme não é didáctico. É uma tentativa para transpor coisas que observei e jogar com as possibilidades dramáticas da questão colocada. Se vê uma preocupação social como uma tentativa de perceber o outro como alguém que deve ser levado a sério, isso não me incomoda. Mas espero que as situações representadas sejam complexas o suficiente para não serem reduzidas a clichés.

entrevista por Stefan Grissemann



Título Original: Le Temps du Loup
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke
Interpretação: Isabelle Huppert, Maurice Benichou, Lucas Biscombe, Patrice Chéreau,

Béatrice Dalle, Anaïs Demoustier, Daniel Duval, Maryline Even, Olivier Gourmet
Direcção de Fotografia: Jürgen Jürges
Montagem: Monika Willi, Nadine Muse
Origem: França/Áustria/Alemanha
Ano de Estreia: 2003
Duração: 109’



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As Mães são mesmo uma força única. Ainda mais quando lutam pela inocência de um filho. Um extraordinário melodrama, hoje, 22h, IPJ.


O novo filme do coreano Bong Joon-ho é um extraordinário melodrama sobre a família, transportado por uma interpretação alucinada de Kim Hye-ja.

Mãe, diz o ditado, há só uma - pode ser uma verdade, mas pode também ser uma ameaça. No caso do filme do coreano Bong Joon-ho, a frase abrange todo o espectro da emoção: a mãe que lhe serve de centro, a sra. Yoon, é ao mesmo tempo mãe-coragem, mãe-galinha, mãe-possessiva, mãe-controleira, mãe-psicótica, mãe-resignada, mãe-determinada, mãe-enlouquecida. A sra. Yoon é todas as mães numa só, erguendo-se para defender até ao fim o seu filho, convicta para lá de toda e qualquer lógica ou razão de que Do-joon, que nunca bateu bem dos pirolitos, está inocente do assassínio de uma liceal. Mas essa convicção chega? Ou, no processo de defender Do-joon até às últimas instâncias, não estará também ela a soçobrar na loucura de que muitos acusam o filho, apenas por não ser igual aos outros?


O anterior filme de Bong Joon-ho, "A Criatura" (2006), história de uma família disfuncional de Seul que se unia para recuperar a filha levada por um monstro mutante que ameaça a cidade, já escapava à lógica do género. Aqui, ao cruzar o grande melodrama familiar com o filme policial de inspiração hitchcockiana, Bong repete a fusão de géneros à sombra de um olhar impiedoso sobre a sociedade coreana - embora estejamos numa cidadezinha de província e não na capital, tudo continua a ser um jogo de espelhos onde nada é o que parece, tudo se esconde por trás de uma fachada de civismo e coabitação. A família é o último laço que mantém o edifício de pé. Só que, em "Mother", até esse edifício se arrisca a ruir a qualquer instante à medida que a sra. Yoon começa a fazer a sua investigação e descobre verdades desagradáveis até para si própria. A família, vai-se a ver, também já foi contaminada - e quando se procura defender os seus valores, o que é que se está realmente a defender?


Notável na sua navegação à vista por estilos, géneros, formas completamente diferentes, "Mother" poderia correr o risco de ser um prato indigesto não fosse a arma secreta de Bong: Kim Hye-ja, popularíssima actriz coreana que se delicia a estilhaçar e subverter a sua imagem de marca de matriarca modelo. A sua mãe-coragem-galinha-monstro é um prodígio de modulação, capaz de ir do histerismo ao calculismo como um Ferrari vai dos zero aos cem, sem nunca cair no mero exercício histriónico. É preciso uma senhora actriz para resistir imperturbável às amplitudes térmicas que o guião de "Mother" exige, sob pena de o filme se desfazer. Encontro ideal entre um cineasta e uma actriz, "Mother" torna-se num extraordinário melodrama familiar que desafia estilos, géneros, convenções e nos deixa sem fôlego quando a projecção termina.
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Jorge Mourinha, Público


Assim como em seu ótimo O Hospedeiro e em sua obra-prima Memórias de um Assassino, o cineasta sul-coreano Bong Joon-ho desenvolve, em Mother – A Busca pela Verdade, um exercício de estilo que, transcendendo o gênero ao qual pertence, traz uma narrativa brilhante que tem a obsessão como centro absoluto. Com isso, o diretor de 40 anos volta a se estabelecer como um dos principais nomes do Cinema mundial – e é um terrível embaraço que este seu novo trabalho não tenha sido indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro ao lado do exemplar (e, em vários pontos, similar) O Segredo dos Seus Olhos, da Argentina.


Com um roteiro impecavelmente construído em parceria com Park Eun-kyo, Joon-ho se concentra aqui na determinada mãe do título (Hye-ja), cujo filho adulto e deficiente mental (Bin) é acusado de matar uma jovem local. Certa da inocência do rapaz e questionando o despreparo dos policiais que, acostumados aos pequenos crimes de uma cidadezinha, não lidam com um homicídio há anos, ela passa – no melhor estilo Miss Marple - a investigar sozinha o assassinato. A partir daí, a trama concebida por Eun-kyo e Joon-ho surpreende o espectador ao mostrar-se incrivelmente bem-amarrada, já que nenhum detalhe é introduzido sem razão – desde uma simples hemorragia nasal até a informação da fuga de um paciente de um hospício local.


Encarnando a protagonista com intensidade e foco absolutos, Kim Hye-ja concebe uma personagem profundamente determinada cujo amor pelo filho é estabelecido logo no início da projeção, quando a vemos tentando alimentar o rapaz mesmo enquanto este urina na rua – e é com um automatismo revelador que ela busca despistar o que ele fez, como se já estivesse mais do que acostumada a encobrir os atos inapropriados do sujeito. No entanto, mesmo cientes da dedicação da mulher, acabamos nos surpreendendo com sua força de vontade ao vê-la distribuindo panfletos que pedem a libertação do filho (quando suplica que as pessoas ao menos leiam o material antes de jogá-lo fora) ou ao acompanhar sua verdadeira peregrinação pela cidade enquanto busca o auxílio dos detetives, de um advogado, de possíveis testemunhas e por aí afora. Da mesma maneira, seu caráter é ilustrado com perfeição na cena em que ela comparece ao velório da moça assassinada e, depois de hostilizada pelos parentes da garota, quando chega a ser agredida fisicamente, se recompõe imediatamente ao maquiar as marcas dos tapas. Enquanto isso, Won Bin se mostra incrivelmente convincente como um adulto infantilizado pela deficiência mental, surgindo com o olhar vazio, a boca sempre entreaberta e com saliva acumulada e conversando com pausas que denunciam sua incerteza sobre tudo que diz – e assim compreendemos perfeitamente quando sua mãe, desesperada para obter alguma informação relevante, pede ansiosa para que ele “se concentre” por alguns minutos.


Demonstrando segurança cada vez maior como diretor (e percebam que Memórias de um Assassino já o trazia como um cineasta completo aos 34 anos), Bong Joon-ho investe numa atmosfera melancólica através da fotografia sem vida e da chuva constante, acertando também em planos gerais que trazem Kim Hye-ja pequena, solitária e fragilizada no quadro. Além disso, ele é hábil ao criar seqüências particularmente tensas como aquela em que a protagonista tenta sair da casa de um suspeito sem que este a veja – e a forma com que Joon-ho usa a queda de uma pequena garrafa d’água para aumentar o suspense pode até não ser totalmente original, mas é obviamente eficaz. E se a montagem de Moon Sae-kyoung prima pela fluidez e pela elegância (há vários raccords belíssimos ao longo da projeção, como aquele em que a cabeça inclinada de um detetive é imediatamente substituída pela da heroína em posição similar), vale apontar também o acerto do rápido flash em que vemos Do-joon ainda criança e prestes a tomar determinado líquido – uma imagem que por si só estabelece a culpa e a determinação de sua mãe, deixando claro que esta jamais poderá abandonar sua desesperançada investigação.


Investindo também no mesmo senso de humor peculiar que transformou O Hospedeiro numa experiência tão curiosa, Mother é um filme não apenas impecável do ponto de vista técnico, como ainda exige que o espectador assuma uma postura diante dos dilemas morais vividos pela personagem-título, obrigando-nos a fugir da passividade que a maior parte dos trabalhos do gênero nos leva a adotar. E a maior prova da eficácia de uma obra como esta reside no fato de sairmos da sala de projeção inquietos e questionando o que faríamos no lugar daquelas pessoas – especialmente se constatarmos surpresa diante de nossas próprias respostas.
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(daqui)


Título Original: Madeo
Realização: Joon-ho Bong
Argumento Eun-kyo Park, Joon-ho Bong, Wun-kyo Park
Interpretação: Hye-ja Kim, Ku Jin, Bin Won, Yoon Jae-Moon, Mi-sun Jun, Young-Suck Lee
Direcção de Fotografia: Kyung-Pyo Hong
Música: Byeong-woo Lee
Montagem: Sae-kyoung Moon
Origem: Coreia do Sul
Ano de Estreia: 2009
Duração: 128’



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para acabar em beleza O Mundo aos nossos pés, Ana Soares comenta O ESTADO DO MUNDO. Sábado, Pátio de Letras, 22h, entrada livre.

de

Ayisha Abraham - One Way
Chantal Akerman - Tombée de nuit sur Shanghai
Pedro Costa - Tarrafal
Vicente Ferraz - Germano
Bing Wang - Brutality Factory
Apichatpong Weerasethakul
- Luminous People


O Estado do Mundo reúne um conjunto de seis curtas-metragens, com duração aproximada de 15 minutos cada e resulta de uma encomenda feita pelo Fórum Cultural “O Estado do Mundo” a seis realizadores de diferentes nacionalidades: Apichatpong Weerasethakul (Tailândia), Vicente Ferraz (Brasil), Ayisha Abraham (Índia), Wang Bing (China), Pedro Costa (Portugal) e Chantal Akerman (França). As seis curtas são independentes entre si e cada uma delas é portadora de um olhar único e pessoal sobre aspectos diversos de pequenas partes do mundo actual.

É a estreia portuguesa do filme encomendado pela Gulbenkian a seis cineastas do mundo: Wang Bing, Pedro Costa, Apichatpong Weerasethakul, Vicente Ferraz, Chantal Akerman, Ayisha Abraham.

Não são todos imprescindíveis, mas alguns são-no. Falamos do chinês Wang Bing, do português Pedro Costa, do tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Não serão chamariz para uma enchente de espectadores numa sessão comercial dita normal (o risco valia a pena...), mas terão sido esses nomes, mais os da belga Chantal Akerman (menos certamente, os do brasileiro Vicente Ferraz e da indiana Ayisha Abraham), que fizeram com que a Quinzena dos Realizadores de Cannes seleccionasse este "filme colectivo" produzido pela Fundação Gulbenkian.

Seis olhares diferentes sobre o mundo foi a proposta dos programadores da iniciativa O Estado do Mundo. E assim foram arrebatados criadores contemporâneos que fazem a modernidade cinematográfica. A estreia portuguesa, depois da exibição em Cannes, vai acontecer sábado e domingo no Grande Auditório da Gulbenkian, em Lisboa. O que se segue: o circuito de prestigiantes festivais de cinema? Não custa a crer, mas o prestigio pode ser um gueto...

Queria-se complexidade, subjectividade, porque, diz o programa de intenções deste projecto, disponível no site da iniciativa, "hoje não é possível uma única síntese do Mundo, ainda que provisória". Ele aí está, o mosaico. Por nós, ficamos do lado dos espectros. Que é como quem diz, de "Brutality Factory", do chinês Wang Bing - nocturno, brutal, mais uma invocação dos fantasmas da História da China pelo realizador do monumental documentário "Tiexi District"; "Tarrafal", de Pedro Costa, exposição à luz e à natureza do seu mundo de cavernas e sombras - interessa-nos porque nos interessa ver nesta silenciosa explosão luxuriante uma outra luz ao fundo do mundo do realizador de "O Quarto de Vanda"; "Luminous People", de Apichatpong Weerasethakul, cujo título é adequadíssimo: um ritual fúnebre num barco no rio Mekong, ao longo da fronteira da Tailândia e do Laos, é matéria tão imponderável como a luz, ou assim ela nos chega por via das operações de imagem e de som do realizador.

Os outros três filmes são dignos, como se diz cumprem o programa: “Germano”, de Vicente Ferraz, ou os dilemas de uma tripulação que pesca na poluída Baía da Guanabara; “One Way”, de Ayisha Abraham, as memórias e o presente de um segurança que veio do Nepal para Bangalore, Índia; “Tombée de nuit sur Shangai”, de Chantal Akerman, que faz do “skyline” de Xangai um receptáculo do ensurdecedor novo mundo.
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Vasco Câmara, Público



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A Pianista é a melhor interpretação de sempre de Isabelle Huppert? Decida por si em mais um round Haneke. Hoje, 22h, Artistas, entrada livre

«A PIANISTA faz perguntas, como todos os filmes. E é ao espectador que cabe encontrar as respostas”.»
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Michael Haneke


A forma directa como Michael Haneke aborda o tema de A Pianista - o mundo mais íntimo e inconfessável que certas pessoas escondem dentro delas-, a maneira casual e anti-sensacional como filma o desfile de situações escabrosas, cruéis e bizarras, e o facto incomodamente inusitado de ser uma mulher e não um homem a comprazer-se, silenciosamente, em práticas que envolvem o voyeurismo mais grosseiro, a mutilação sexual e a pornografia hard, transformam A Pianista num verdadeiro - e raro - filme para adultos. O filme não teria conseguido atingir os seus picos de horror realista sem Isabelle Huppert, cuja interpretação roça o génio, numa personagem que muito poucas actrizes teriam coragem de aceitar.
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Eurico de Barros, Diário de Notícias

A Pianista é uma obra àspera, abrupta, incómoda, turbadora e inclusivamenbe perturbadora. Há dentro dela uma vontade anímica e artística de estirpe suicida, um poema sublevado, pleno de espírito e coragem subversivos, formalmente completíssimo e de uma terrível beleza ferida por um safanão de violência trágica de excepcional intensidade. O imenso talento de Michael Haneke atinge-nos entre os olhos com uma desalmada e brutal sinceridade. Isabelle Huppert move-nos e comove-nos com uma interpretação portentosa, de total genialidade, essa sua assombrosa e minuciosa construção de una mulher vítima total, submergida num poço insondável.

Poucas vezes como aqui se representou com tanta precisão o obscuro e silencioso desastre da repressão, dentro de paredes, neste nosso mundo, aqui, ao lado, em casa.
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Ángel Fernández-Santos, El Pais

Realizador de um cinema frio e cerebral, o austríaco Michael Haneke tardou em sair da teia que ele próprio foi tecendo ao longo da sua obra, onde abundam filmes demasiado programáticos e com pretensões a teses (sobre a violência nos audiovisuais em Benny’s Videos e Funny Games), ou filmes de retórica (sobre a impossibilidade de comunicação entre os humanos em Código Desconhecido). Em Haneke, o gosto pelo choque e a provocação deliberada ao espectador convivem lado a lado com um brilhantismo técnico insuperável.

Neste A Pianista Haneke deixa de lado a retórica, abraça o romanesco e arranca um filme portentoso de contenção. Propondo-se a filmar os fantasmas escondidos nos recantos mais sórdidos da intimidade de cada um, Haneke consegue passar ao lado das tentações do voyeurismo e do estereotipo moralista tipo “públicas virtudes, vícios privados”. Exemplar em termos de economia narrativa e de progressão dramática com cada cena a revestír-se de um papel preciso (as cenas das lições de Huppert são brilhantes em termos de definição da personagem), onde cada plano não está a mais nem a menos e tem a duração precisa para se tornar incómodo sem se tornar exibicionista (as cenas de sexo são disso exemplo). A colocação de câmara é milimétrica (magnifica a cena com Isabel Huppert a cortar-se na casa de banho, em que a câmara só poderia estar onde está, sob pena de o plano se tornar ridículo e pouco credível ou demasiado explícito), sem nunca cair no gratuito ou no envergonhado (e o tema convidaria a um ou a outro). Igualmente extraordinária é a escolha dos décors e o partido dramático que deles é tirado (a casa de banho do apartamento de Huppert é um portento pelo que tem simultaneamente de fria e de acolhedora).

Mas aquilo que mais separa A Pianista dos filmes anteriores de Haneke (e que torna o filme verdadeiramente inquietante) é o rigorosíssimo trabalho sobre o ponto vista no interior da cena e do plano (digno do melhor Hitchcock, o cineasta que melhor partido tirou do ponto de vista no cinema, e também ele cineasta do Desejo e da Culpa ). É aqui que Haneke dá um gigantesco passo em frente e em vez de atirar imagens mais ou menos chocantes à cara do espectador, fá-lo identificar-se com a personagem e aí sim o filme é uma experiência verdadeiramente desconfortável para quem vê.

O trabalho do realizador sobre o ponto de vista passa por duas fases distintas. Numa primeira fase (que corresponde à primeira parte do filme, até à cena em que Huppert coloca os cacos no casaco da sua aluna) o trabalho de Haneke tem por objectivo estabelecer a identificação do espectador com a personagem de Isabel Huppert, fazendo coincidir o olhar deste com o de aquele, através da alternância entre planos ditos subjectivos (que correspondem ao olhar da personagem) e planos objectivos (que correspondem ao olhar de ninguém). Atente-se, por exemplo, na cena do Drive-in construída sobre uma série de olhares (planos objectivos) e de corte sobre o que esses olhares vêm (planos subjectivos). Na cena dos cacos no bolso da aluna, Haneke vai mais longe e faz a passagem do objectivo a subjectivo dentro do mesmo plano, pondo a câmara em local aparentemente neutro e objectivo e fazendo a personagem alinhar-se com o eixo da câmara (subjectivando o plano a partir daí) precisamente antes de iniciar a sua acção (esta técnica típica da fase mais depurada de Hitchcock conheceu o seu auge no brilhante, mas mal-amado Marnie).

Numa segunda fase (desde a sequência entre Huppert e Magimel na casa de banho até ao final) em que o ponto de vista já está solidamente estabelecido, deixam de haver planos subjectivos e todos os planos sendo objectivos são fortemente subjectivados pelo olhar de Erika (é como se em todas as cenas houvesse um plano de um olhar de Huppert que reordena e dá um novo sentido à cena): veja-se a cena em que Magimel agride Huppert, e em particular o plano em que Huppert limpa o nariz ensanguentado à camisola enquanto olha para Megimel. Esse único plano faz com que toda a cena seja vista à luz desse olhar de Erika, sem que nunca se possa falar de plano subjectivo.

A partir do momento em que Haneke estabelece o ponto de vista, criando uma identificação da personagem com o espectador, é como se o filme evoluísse por si próprio, movido apenas pela força das situações dramáticas e da interpretação dos actores.

Sendo uma reflexão sobre a condição humana, A Pianista é simultaneamente um impiedoso retrato da sociedade vienense onde a música é uma capa epidérmica que esconde uma tensão e uma frieza prestes a eclodir (com a personagem de Huppert a funcionar como uma poderosa metáfora para a cidade).
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Rui M. Pereira, Cineclube de Faro

A maior actriz europeia (a maior actriz do mundo) é francesa, e LA PIANISTE, um filme do austríaco Michael Haneke, vai chegar para o provar. Porque nele Isabelle Huppert está no limite do pudor, ou seja, num expectante frenesim de prazer enquanto actriz.

Quando o filme foi exibido no último Festival de Cannes, houve choros (não da mesma forma que se chora num melodrama, embora o filme seja um melodrama) e assobios – e espaço também para os aplausos -, que foram, obviamente manifestações encontradas para exteriorizar o susto que o génio dela provocou.

O génio de Huppert tem a ver com uma qualidade de habitar as sombras, as suas próprias sombras, e atrair, de forma magnética, as dos outros. E ela faz isso num registo introspectivo, de imobilidade (por isso a sua presença é habitualmente classificada como “fria”, como se fosse uma pedra). Fala-se em génio porque se fala em lucidez: é uma experiência erótica pessoal de refúgio num mundo imaginário – é a forma como ela explica as coisas. Michael Haneke já disse em entrevistas que só fez o filme porque Huppert aceitou entrar no projecto. (...) Ora, desta vez Haneke transcendeu-se, fez um “filme de género”, metamorfoseou-se em ressonâncias melodramáticas. E até fez uma obra que materializa uma espécie de fantasia infantil de filme, europeu, para adultos – como se, vendo-o (...), não tivéssemos outra hipótese se não a de sermos crianças assuntadas perante um abismo incompreensível.

LA PIANISTE é uma adaptação do romance da “angry” Elfriede Jelinek, essa escritora tão enraivecida com a sua Áustria. É um filme vienense, sobre a burguesia de Viena, sobre a música, sublime, e sobre a música, monstruosa como um instrumento de poder – música / pianista, definiu Jelinek numa entrevista “uma relação quase sadomasoquista” no coração da cultura austríaca. (...)

E assim o céu, Bach, Schubert e Mozart, é também o inferno.
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Vasco Câmara, Público



ENTREVISTA A ISABELLE HUPPERT


Este projecto é diferente de outros filmes de Haneke, é uma brecha no seu sistema?
Nunca falámos em termos tão directos, mas penso que sempre persistiu nele a vontade de fazer um cinema bastante acessível e popular. Cada filme resulta de uma mistura entre o mental e o teórico com elementos extremamente físicos e animais. Elfriede Jelinek e Haneke gostam de dizer que A PIANISTA é, basicamente, a parodia de um melodrama. No filme, permanece algo de irónico mas a estrutura do melodrama, tipo popular, domina.

Quando leu o argumento, com cenas que…
… podiam colocar problemas?

Existe então uma vontade de desafio, de transgressão?
Sim, seria mentir dizer o contrário, ainda que seja rapidamente resolvida e afastada. Haneke tem frequentemente uma maneira espectacular de resolver os problemas com os quais temos medo de ser confrontados. Muitas vezes, damos conta que o poder emocional de uma cena, eventualmente problemática, é mais forte que as dificuldades que apresenta. A dificuldade nunca está onde podíamos esperar. A cena na cama entre Erika e a sua mãe, que se podia ler como um incesto, transforma-se noutra coisa, um grito primitivo, alguém que regressa a uma brutalidade primitiva num momento de abandono. Haneke vai além daquilo que a cena pode apresentar a priori de embaraçoso ou estupidamente provocador. Dizia frequentemente: "gostava que as pessoas ficassem tão perturbadas que não pudessem continuar a olhar para o ecrã." Ver o filme deve tornar-se uma experiência física, sensorial, é nisso que o seu cinema é desconcertante, mais do que pelas controvérsias moralistas que ele nunca precisou de provocar.

Houve um longo trabalho de repetições?
Trabalhámos com Benoît Magimel duas ou três cenas. Depois, trabalhámos o piano, infatigavelmente as peças de Bach, Schubert... Mesmo que não se veja muito ao ecrã, no resultado final, esta prática do piano ajudou-nos a entrar na história. Também passámos muito tempo escolher fatos, maquilhagens, cabelos; Haneke não deixa nada ao acaso, intervém nos mais pequenos detalhes. A seguir repetimos as cenas de zaragata. Haneke é obcecado pela verosimilhança. Quanto mais perto conseguíssemos chegar da verdade na expressão de um sentimento ou de uma emoção, menos a luta fictícia entre duas pessoas se assemelharia a uma luta verdadeira. Então, era preciso, através da encenação, por imposição, afastar-se da verdade para encontrar mais verosimilhança. Por exemplo, a cena da violação no fim, repetiu-se imensamente e rodou-se várias vezes; decidiu-se mostrar o menos possível de modo que ficasse o mais credível possível.

Também sentiu na pele essa exigência do realizador?
Senti, porque com Haneke, não há culpabilidade, nunca se trata de uma falta exclusiva do actor se a cena funciona mal. Por conseguinte, podemos demorar horas à procura de uma maneira de falar ou mover. Não me sinto nem fragilizada nem diminuída por isso. Sinto-me como um material que pode-se esticar até fundo das suas possibilidades. Ao mesmo tempo, talvez passe também por um jogo de resistência em relação àquilo que se pode fazer de mim; tenho uma implicação total... Mas com certa distância entre o papel e eu, o que preserva certa integridade, e permite ao espectador escapar à situação perversa de assistir a um processo de auto-destruição.

O filme, apesar da tragédia da personagem, produz um efeito muito libertador...
O filme diz o que diz e, ao mesmo tempo, diz o contrário. É a história de alguém que não quer perder o controlo, mas não há nenhuma dúvida que já perdeu o controlo há muito tempo. O filme coloca constantemente o espectador na posição de um passo em falso. Em vez de se refugiar atrás de figuras estereotipadas, como a mulher de poder, o filme faz circular a personagem masculina e feminina, e de maneira muito confusa. De um lado, há a violência, a crueza do que é mostrado, e do outro a candura e uma certa ingenuidade. É ao mesmo tempo um corpo contraído e explosivo, transbordando secreções: o sangue, o vomito, as lágrimas, a urina... Em Erika há mais perdição do que cálculo, mais fraqueza do que força. Creio que me identifiquei antes com o realizador, uma vez que ele mostra uma mulher que olha e não que é olhada. Também sou protegida por isso... Bom, ao mesmo tempo (longo silêncio)... ao mesmo tempo, o filme mostra o que mostra...

... e da parte de Haneke e da sua, não se pronuncia em vão: "o desejo de golpes, tenho-o há anos." É um território delimitado que não é neutro...
Ainda que dominasse completamente e analisasse este território, existe um limiar além do qual prefiro não arriscar para o tentar explicar. Nunca é totalmente por acaso que fazemos aquilo que fazemos.

Numa entrevista bastante antiga, em 1981, definia o acto de representar como " um prazer masoquista muito negativo".
Era verdade: fazer filmes era uma espécie de ascese, enquanto hoje é o contrário. Na representação, há algo fácil, ligeiramente mecânico mesmo, que se põe em marcha sem protocolo nem encenação. Klaus Michael Grüber dizia que um actor se torna bom no teatro quando deixa completamente de ter medo. Não é falso, e eu nunca tenho medo, seja o medo pontual do pequeno salto no vazio no início de um take ou o, mais geral, de fazer tal ou tal filme.

Este filme representa uma etapa na sua carreira, ou é mais um filme?
É precisamente porque é uma etapa, e incontestavelmente um papel decisivo, que é necessário pensar rapidamente que é mais um filme. Porque se ratifico a sua dimensão excepcional, o que é faço? Paro? Pelo contrário, faço quatro a seguir para lhe dar continuidade.

Como interpreta o gesto final Erika, este suicídio sem morte?
Ela não seria capaz de morrer da mesma maneira que toda a grande heroína romanesca que se preze. Não a autorizando a morrer, Haneke fustiga o tipo romanesco, mas ao mesmo tempo autoriza-o a sobreviver.
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Didier Péron, Liberation

Título Original: La Pianiste
Realização: Michael Haneke
Argumento: Michael Haneke, A partir do romance de Elfriede Jelinek
Interpretação: Isabelle Huppert, Benoît Magimel, Annie Girardot
Direcção de Fotografia: Christian Berger
Montagem: Monika Willi, Nadine Muse
Música: Martin Achenbach
Origem: França / Áustria
Ano de Estreia: 2001
Duração: 127’


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