Sensibilidade e Bom-Gosto: BLUE VALENTINE, domingo, 22h. Ao ar livre, como merece.

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL

Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Estudantes 3,5€ / Restantes 4€



Um realizador subjugado perante a música dos seus actores. Um realizador paralisado pela doçura?

Aquela sequência em que Ryan Gosling toca e Michelle Williams canta... a suspensão que a improvisação origina, como uma explosão, a distância que se anula, tudo suspenso, inclusive o discernimento que fica sem efeito. Essa sequência contém "Só tu e eu": um realizador, Derek Cianfrance, subjugado perante a música dos seus actores. Um realizador paralisado pela doçura?

A história de Dean (Gosling) e Cindy Periera (Williams) é a catarse feita por um filho de pais divorciados, Cianfrance. É um "labour of love", que demorou 12 anos e 66 versões de argumento a ser concretizado, sobre o fim do amor. Dois tempos, em progressão através do "flashback" - o passado e o presente, o amor e o cansaço -, caminham até ao ponto em que a união e a separação de Dean e Cindy se encontram, um desencontro final. E ainda, pensando na sequência em Manhattan Bridge, filmada numa única "take": aquela resistência de Michelle Williams, uma forma própria que a actriz continua a ter de (nos) agredir com a doçura; o generoso "mergulho" de Ryan Gosling (no caso da cena em questão é, antes, ameaça de voo), actor que aqui tanto lembra o jovem Robert de Niro - não por semelhança física, mas pelo clima de ameaça; e não que ele ameace fazer mal, ele ameaça fazer-se mal.

Com os actores, peças que se tornaram decisivas para a forma como o filme se foi "escrevendo", o realizador organizou uma rodagem em dois tempos: filmou primeiro o enlevo amoroso, o passado, depois o fim do amor, o presente, e separou os dois com a convivência "forçada" de Ryan e Michelle, durante um mês, no quotidiano da "sua" casa. Para ficarem devidamente cansados um do outro.

Cianfrance tinha, portanto, um diamante entre mãos - temos dúvidas é que tenha conseguido autoridade suficiente para o lapidar. Dito de outra forma: este é daqueles casos em que o investimento e a generosidade de um realizador não é proporcional à afirmação de um cineasta. A questão dos "tempos", por exemplo, é problemática. Mesmo tendo utilizado - como Cianfrance explica em entrevistas - técnicas diferentes em cada "segmento", a coexistência que "Só tu e eu" vai tecendo entre passado e presente é sempre mais apaziguada e linear do que convulsa e tensa. E é como se, progressivamente, as hipóteses de tensão fossem anuladas.

Somos gentil e docemente guiados pela dramaturgia de uma separação que nos é descrita em vez de sermos apanhados pela derrocada emocional - como acontecia, por exemplo, em "Cenas da Vida Conjugal" (1973), de Bergman (isto é: lucidez fulminante), como acontece (isto é: prostração) no cinema de John Cassavetes, referência que Cianfrance assume. "Só tu e eu" tem menos possibilidade de enfrentar esses monumentos. Poderá ser mais capaz de medir forças com a nostalgia, com "O Nosso Amor de Ontem" (1973), de Sidney Pollack, por exemplo, mas a tristeza aí também era alimentada pelo fim do melodrama clássico, consciência que já não assombra Cianfrance. Realizador subjugado perante a beleza dos seus actores. Realizador paralisado pela doçura? Sim, um filme doce.
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Vasco Câmara, Ípsilon

Perguntar o que é o amor, é tão universal quanto a questão imortalizada por Paul Gauguin «D’où venons-nous? Que sommes-nous? Où allons-nous?» (De onde vimos? Quem Somos? Para onde vamos?). A resposta é também ela universal e incerta. À parte de explicações científicas que resumem tudo a uma dose de hormonas e elementos químicos, a verdade é que para quem se questiona é difícil aceitar algo tão básico. Tudo isto para dizer que nada é tão simples quanto aparenta, ou mesmo que o seja, não se aceita. Porque somos complicados, assim como as relações o são.

Blue Valentine, a que em Portugal acrescentaram um sufixo que lhe reduz toda a magia do título – Tu e Eu – é original precisamente por isso. Porque retrata à luz da realidade a relação entre casais habitualmente romantizada pela indústria cinematográfica. Porque parte da questão universal sobre o que é o amor, se é eterno, como nasce e como morre. Foge da tendência do cinema romântico em apresentar o relacionamento entre duas pessoas como o mar de rosas, que efectivamente não é. Não quer com isto dizer que Blue Valentine é um filme pessimista, porque não é. É um filme real, sobre a rotina. É isto o amor? Não sabemos. Tanto pode ser como não, pode ter um fim ou não, mas tem sempre as suas curvas ascendentes e descendentes.

Derek Cianfrance divide-se entre as duas épocas que compõem o amor de Dean e Cindy: a fase inicial, do conhecimento, paixão, espontaneidade e a fase final, o desgaste da rotina, o afastamento, as dúvidas, a complexidade. Um contraste contínuo e alternado entre a recordação e nostalgia do passado, com a constante percepção do presente. As coisas mudaram e de quem é a culpa? É dos dois? Ou de nenhum? A facilidade do início é contraposta pela dificuldade em colocar um fim a algo que aparentemente já não tem futuro. Cindy tem dúvidas. É a ela que lhe começam a nascer. Ora pelo firmar da sua relação ter sido algo precipitada, ora por um encontro acidental com alguém do seu passado começar a colocar em questão o futuro. Não surpreende que parta dela a intenção de terminar o remediado. Ele, Dean, assume que não. Mas ficamos na dúvida, nós e ele, se essa dificuldade em aceitar o inevitável parte daquilo que conhecemos por amor ou apenas remediar o que já não tem remédio, o eventual corte com a rotina que tanto custa.


E tão bem, o cineasta assume essa tendência para o corte – pessimista ou realista, não interessa – ao visualmente retratar essas dúvidas. Se o passado é filmado com cores vivas e tons quentes, o presente é retratado em cinza e tons frios. Tão irónico quanto o quarto de motel onde tentam por fim resolver as dúvidas se chamar quarto futurista. Como uma premonição do eventual fim. Tão irónico quanto o tom sufocante que simultaneamente invade as personagens e o espectador. Nobody baby, but you and me. Porque ali são apenas eles. Dean e Cindy numa réstia de firmeza ao passado num quarto tão sufocante, num ambiente que tem tanto de sexy como de desesperante. Tanto de belo e poético como decadente.

Michelle Williams e Ryan Gosling assinam aqui uma das melhores interpretações da sua carreira. Ela, nomeada ao Óscar para Melhor Actriz, nunca chega a atingir a genialidade de Ryan Gosling, um dos actores mais menosprezados desta geração, mas principalmente um dos mais talentosos e injustamente sem uma nomeação ao Óscar de Melhor Actor. Eles transformam-se em Dean e Cindy. Eles são Dean e Cindy e sentem as mesmas dores e as mesmas dúvidas. A mesma obsessão em tentar sobreviver à ruptura que insiste em assolar a sua vida conjunta. Assim como nós. Nós somos eles. Vivemos o mesmo turbilhão, a mesma desolação e melancolia. A mesma dúvida: é isto o amor? Talvez seja, talvez não. Mas a doçura com que Blue Valentine coexiste com os nossos próprios medos é tão realista e honesta que não há forma de não nos apaixonarmos.

Em Blue Valentine há um fim. Mas nunca chegamos a saber se este fim é eterno ou não. Naquele dia sim. Mas o amor e uma vida acaba assim de uma vez, num dia? Também de pouco interessa porque está aqui criado um dos mais importantes e belos retratos do amor e da relação humana.
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Tiago Ramos


INCLUI DECLARAÇÕES DE RYAN GOSLING

É um facto: Ryan Gosling está a tornar-se um dos talentos mais disputados em Hollywood, mas o intérprete de "Só tu e eu" / "Blue Valentine" nunca irá ser um ídolo convencional de matinées. Já foi nomeado para um Óscar como professor toxicodependente em "Encurralados" /"Half Nelson" e, prestação inesquecível, em "Lars e o Verdadeiro Amor" apaixonava-se por uma boneca insuflável. É natural: para quem foi admitido no Mickey Mouse Club aos 12 anos - era importante ter nos seus membros uma criança canadiana - Ryan está a compensar.

"Só tu e eu", de Derek Cianfrance, é simultaneamente um romance e a história conturbada do seu fim. Michelle Williams interpreta a outra metade do casal, que luta para salvar um casamento de seis anos. Vemos o princípio do fim no início e depois há um "flashback" até à altura em que os dois se conheceram, tempos mais felizes. Mas para Gosling, 30 anos, a relação não está forçosamente no fim. "As relações crescem quando as pessoas passam por períodos difíceis" , diz-nos. "Essas dificuldades mostram-nos quem somos realmente. Este casal passa por dias complicados."

Afinal: acabam ou não? "Bom, pelo menos naquele dia. Eles têm uma criança e uma vida juntos e isso não acaba assim de um momento para o outro quando o filme acaba. 'E Tudo o Vento Levou' é mais definitivo. Ele diz: 'sinceramente, minha querida, estou-me nas tintas' e vai-se embora. Em 'Titanic', ele morre e a coisa acaba. Em 'Blue Valentine' ela está a sentir-se sufocada. Percebo que queira dar um tempo."


"É um filme romântico e sim é um filme sexy", continua. "Enfrenta a verdade das relações. Que são complicadas. Quando se vê muitos filmes, assume-se que o amor se comporta de determinada maneira e quando a nossa vida se revela diferente dos filmes, pensamos que a devemos mudar. Estamos atrás de uma imagem que é uma distorção da realidade. Já filmei muitas cenas de sexo, mas nenhuma como aqui, de forma íntima". Como é que se prepara? Bebe? "Não, se assim fosse a coisa corria o risco de se tomar real! É preciso ter cuidado. Mas connosco não houve problema."

Gosling não é sempre cuidadoso. Numa cena improvisada, em que o realizador lhe disse para insistir com a personagem de Williams, saber o que se passava com ela (ela está grávida, de outro homem), ele começou a escalar pelas grades da Manhattan Bridge até ao topo.

"Filmámos durante horas, Michelle não me respondia e o sol estava a desaparecer e estávamos a perder luz, e até já estávamos a filmar para além do tempo que nos tinham autorizado. Eu estava desesperado, quase me matei. Foi estúpido. Quando acabámos a take, havia lágrimas nos olhos da equipa." Michelle continuou "cool". "Ela puxou as coisas até ao limite. É como disse o Derek: eu sou a rapariga e ela é o rapaz. É o contrário do padrão da maioria dos filmes, onde os homens são sempre quem se vai embora e as mulheres querem ficar."

Em última análise Gosling levou a personagem até limites que nem ele nem Cianfrance tinham imaginado. "Não percebo como funciona a representação. Para mim é um mistério. O que é nosso e o que não é e quanto da personagem somos nós, nunca entenderei. É difícil fazê-lo e sabê-lo ao mesmo tempo."

A primeira vez que falou sobre "Blue Valentine" com Cianfrance tinha 23 anos e acreditava ser demasiado novo para fazer de pai de uma criança de seis anos - como acontece na última parte da história. A espera de seis anos acabou por ser apropriada. "Todo o filme é um estudo do tempo e dos seus efeitos, físicos e emocionais", diz Gosling. "Acho interessante e aprendi muito com isso. Olhando para trás, foi a experiência mais gratificante da minha carreira."

Filho de Thomas e Donna Gosling, que se divorciaram quando o filho era criança, Ryan foi criado na religião Mormon. Criança hiperactiva, criando problemas na escola - passou a ter aulas em casa - encontrou uma base de apoio: cantar com a irmã mais velha, Mandi, em casamentos. Foi aceite no Mickey Mouse Club onde, segundo ele, a sua incapacidade para cantar e dançar o faziam sempre aparecer no início e só depois no fim de números musicais que tinham como vedetas Justin Timberlake, Christina Aguilera e Britney Spears. Mas voltou a ter problemas quando foi apanhado a esclarecer as raparigas sobre as várias posições sexuais. "Diziam que eu era demasiado sexual para trabalhar para a Disney. Eu acho que era normal. Eu nunca toquei naquelas raparigas."

Depois de mudar para Los Angeles, aos 16 anos, teve o papel principal em "Young Hercules", série onde pôde, enfim, ser ele próprio. Uma década depois, estava no centro das atenções devido à sua nomeação para o Óscar por "HaIf Nelson" e pelo excêntrico "Lars and the Real Girl". Ele é, de fac¬to, um excêntrico nato. De todas as suas personagens é com Lars que mais se identifica - a boneca do filme, para que conste, está hoje na sua sala de estar "Pu-la a ler um livro, à janela. Mudo o livro uma vez por mês, para ela não se aborrecer", brinca.
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Helen Barlow, Público, 25/2/11




(desculpem as legendas em brasileiro...)
Título Original: Blue Valentine
Realização: Derek Cianfrance
Argumento: Derek Cianfrance, Cami Delavigne, Joey Curtis
Fotografia: Andrij Parekh
Montagem: Jim Helton, Ron Patane
Música: Grizzly Bear
Interpretação: Ryan Gosling, Michelle Williams, Faith Wladyka, John Doman,
Mike Vogel, Marshall Johnson, Jen Jones, Maryann Plunkett, James Benatti, Barbara TroyCarey Westbrook

Origem: EUA
Ano: 2010
Duração: 112'
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Reservas até às 17h do dia da sessão: ccf@cineclubefaro.com (levantar até às 21h45)
Comprar para qualquer sessão (na sede ou nas sessões – bilheteira abre às 21h30)
Abertura das portas do recinto: 21h45

Lixo é Arte? É! Um projecto MARAVILHOSO de VIK MUNIZ ao ar livre: sábado, 22h - LIXO EXTRAORDINÁRIO. Mesmo!

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL

Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Estudantes 3,5€ / Restantes 4€



O filme tem um efeito arrebatador por juntar arte e lixo, elementos quase opostos, não só pelo valor estético, mas também por sua representação social.
O Globo

Filmado extraordinariamente, este retrato de trabalhadores pobres, mas orgulhosos e cheios de recursos, tocou o coração de todos os que o viram.
Empire

Um filme surpreendente que mostra como a arte pode afectar a vida de um grupo de catadores no maior aterro do mundo no Rio de Janeiro.
LA Times


As sequências dos catadores a trabalhar são fascinantes. A música original de Moby transmite de forma assombrosa as características do local.
Variety

Vê-se com alegria, apesar de toda a miséria que é filmada. Não é um simples documentário sobre o trabalho de um artista e apela enormemente à emoção do público.
The Hollywood Reporter

O lixo de um homem é a arte de outro. Esta é a lição do fascinante documentário Lixo Extraordinário, um retrato de Vik Muniz, um artista de sucesso nascido no Brasil, mas radicado em Brooklyn.
New York Post

Lixo Extraordinário é um filme sobre reciclagem, mas é muito mais espantoso que os ditos eco-documentários. No centro da narrativa estão os catadores de lixo e a forma como um artista criou retratos maravilhosos de uma dúzia desses catadores e lhes transformou as vidas.
San Francisco Chronicle

Que um filme belo possa ser filmado na maior das lixeiras parece um oximoro, mas o aclamado documentário de Lucy Walker consegue exactamente isso. A realizadora segue o trabalho do aclamado fotógrafo Vik Muniz num projecto ambicioso: ir para o Jardim Gramacho, a maior lixeira do mundo a céu aberto, e fotografar os catadores de materiais recicláveis e depois trabalhar com eles na transformação dessas fotografias em retratos feitos a partir de materiais recicláveis. O seu objectivo é inspirar estes catadores de forma a que eles se vejam a si mesmos de uma nova forma e até mesmo repensarem as suas vidas.
Los Angeles Times


PRÉMIOS E PARTICIPAÇÕES EM FESTIVAIS
Oscars - Nomeado Para Melhor Documentário
Festival de Berlim - Prémio do Público, Prémio da Amnistia Internacional
Festival de Sundance - Prémio do Público
Festival de Paulínia - Prémio do Público, Prémio Espacial do Júri
Festival de Durban - Prémio Melhor Documentário, Prémio do Público, Prémio da Amnistia Internacional
Festival de Seattle - Prémio Golden Space Needle – Melhor Documentário
Princeton Environmental Film Festival - Melhor Filme
Frozen River Film Festival - Prémio do Júri
Festival de Estocolmo - Silver Audience Award
Festival de Documentário de Amesterdão - Prémio do Público
Mostra Internacional de São Paulo Internacional - Prémio Itamaraty de Melhor Documentário
Festival do Rio - Première Brasil Hors Concours
Festival de Provincetown - Prémio Hbo do Público - Melhor Documentário
Festival de Dallas - Prémio Target Film Maker - Melhor Documentário


Lixo Extraordinário: "Ruim não é ser pobre,...
... ruim é ser rico no mais alto degrau da fama com a moral coberta de lama": Um documentário que mostra como, entre o lixo e o luxo, só muda mesmo a vogal.

É a última estação, o culminar do caminho, o fim da picada. É a terra do desperdício, paraíso das moscas, dos fungos e da sarna. É o mais deprezado e agoniado dos solos, imerso em cheiros nauseabundos, podridão, sobras, e foras-de-prazo. Dos urubus pairando. Dos vultos catando lixo, despojos dos dias, sobras dos outros e sobrevivência. É o maior aterro da América Latina (nos arredores do Rio de Janeiro), onde são despejadas oito toneladas de lixo, diariamente, e onde foi rodado o multipremiado documentário anglo-brasileiro (nomeado para os Óscares da 83ª edição), Lixo Extraordinário, co-realizado pela inglesa Lucy Walker e pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley. E nesta terra de aparente esterilidade o documentário vai em busca de fecundação, e segue o processo criativo de Vik Muniz, o artista plástico brasileiro, que das suas origens humildes em S. Paulo "virou" uma das estrelas mais bem cotadas nas galerias nova-iorquinas.

E de repente, tudo muda, tudo se transforma e recria. Lixo Extraordinário é um filme sobre o processo criativo de um artista, que incorpora materiais (neste caso lixo) nas suas fotografias? Claro que sim. Também é um filme ambientalista. E sobretudo humanista. Mas é antes de tudo um filme sobre o poder transformador. Da arte. Das pessoas. Do lixo reciclável. E o nosso próprio olhar enquanto espectador transforma-se. Afinal aquilo que eram montanhas de decomposição, insalubridade e objectos desvalidos tornam-se em acumulação de coisas potencialmente valiosas. O que parecia miséria (não deixa de ser) mas pode ser olhado com "empreendedorismo". O ordinário torna-se extraordinário. O inútil torna-se útil - e torna-se inútil outra vez, nas composições de Vik Muniz, porque a inutilidade é a essência de toda a arte. E os catadores, vultos curvados e miseráveis, já são uma espécie de garimpeiros de material reciclável, profissionais altamente especializados que distinguem seis tipos de plásticos só pela forma como eles soam quando se aperta. São ecologistas, politizados alguns, inteligentes, com histórias de vida incríveis, e que fizeram uma escolha de dignidade: a de trabalharem em defesa do meio ambiente, "em vez de andarem na prostituição ou no tráfico". Na verdade, eles são Suelem, Ísis, Zumbi, ou o senhor velhote (morreu antes do filme estrear) que dizia frases fantásticas como a do alto da página. E argumentava sempre que uma lata é importante: "Porque o negócio é o seguinte, dezanove não são vinte". E Tião, o carismático presidente da associação de catadores que lê livros surpreendentes que encontra na lixeira, como O Príncipe de Maquiavek ou Niestsche. E que depois do filme e da venda de milhões de dólares do quadro com a sua fotografia (na pose do revolucionário Marat, morto na banheira) se tornou uma espécie de consultor da reciclagem, fundador de vários pólos e 200 cooperativas no Brasil inteiro.


E, subitamente, encontramo-nos no lugar da utopia, onde a arte pode de facto mudar o mundo. Num lugar conceptual mas muito materialista ao mesmo tempo, porque aqui a tese e a antítese realmente se fundem e não existem classes sociais: o lixo todo se junta, "vem da mansão do rico ou da favela do alemão". E parece, comenta Vik à VISÃO que se completa aqui um ciclo: "Todas as coisas começam num lugar comum que é natureza, depois transformam-se, cumprem a ideia de função e de propriedade, pertencem a pobres ou a ricos, mas acabam todos no mesmo lugar comum, que é a lixeira". Vik sempre sentiu este fascínio pelo lixo, um pouco "obcecado", confessa, "por aquilo que deixa de ter valor": "Uma sociedade pode-se definir por aquilo que produz, mas também por aquilo que joga fora". Uma vez, nos anos 90, viu um computador "jogado" no lixo. "Fiquei impressionado, afinal hoje em dia a curva da novidade se faz com tal rapidez.... Dantes, a função ritual de um objecto durava gerações, passava de pai para filho, ficava impregnado da história de quem o usava. Com a produção massiva, o valor do objecto diminuiu e faz até um circuito à escala global. O sistema de recuperação de um objecto pode ser planetário. Num menino de África vê-se a camiseta de um garoto de classe média de Nova Iorque, ténis do Canadá nos pés de um cambodjano. Antigamente provavelmente passariam para o irmão mais novo... Olho muitas vezes a sucata e tento traçar no trajecto do objecto até chegar ali".

Andar mais de um ano no "lixão" (a concretização do documentário durou três) não foi fácil... Para Vik e para a equipa de rodagem. Sobretudo a se acostumarem ao cheiro. "Mas nada demais, não dá para sobrevalorizar, faz parte do trabalho, se quisesse outra coisa ia para um escritório", diz à VISÃO João Jardim, um dos co-realizadores. Pelas "personagens incríveis" que encontrou naquele lugar, acredita mesmo que "o mundo está ficando tão louco e inusitado, que as pessoas têm as experiências mais estranhas, e a realidade ficou mais rica do que a ficção". E garante que "encontrar beleza no feio" não foi só "questão de enquadramento". Existe mesmo beleza e horror. Explica Vik: "Primeiro fica-se lá um tempo, e há o cheiro, o barulho, o desconforto e uma situação de agnosia. É tudo demasiado confuso, o olhar não consegue pousar em lugar nenhum. Porque o lixo não é definível, é algo entre a matéria e o objecto. É difícil para nós pensar na decomposiçãoo e na entropia, é contra-intuitivo, é mais fácil varrer para debaixo do tapete. Mas torna-se muito desafiante".

Vick saiu do Brasil de uma forma muito brasileira. Ia tentar separar uma briga alheia, acabou "pegando um tiro". Com o dinheiro da indemnização fez uma viagem aos EUA para aprender línguas. Pensou passar um fim de semana, ficou 28 anos. Tornou-se artista de fama mundial. "Nova Iorque é um óptimo sítio para se fazer arte, mas enquanto cidadão é o Brasil que me completa", sobretudo depois das mudanças sociais e culturais alcançadas pelos últimos mandatos presidenciais. "Eu tenho a nítida sensação de que tenho mais do que preciso e então tento encontrar outras formas de felicidade". Que passam por este tipo de projectos sociais no Brasil. Onde trouxe os próprios catadores para dentro do processo criativo. Porque o que o mais impressionou foi "a humanidade das pessoas, independentemente do lugar onde elas estão. Mesmo no lugar mais difícil e confuso do planeta, a dignidade humana resiste. Essas pessoas formidáveis que encontrámos na lixeira não se transformaram pela arte. Elas já a tinham dentro delas. Elas apenas se revelaram".
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Ana Margarida de Carvalho, Visão



INCLUI DECLARAÇÕES DO REALIZADOR

Já passaram mais de três anos desde que o artista plástico brasileiro Vik Muniz entrou pela primeira vez no aterro sanitário do Jardim Gramacho, o maior do mundo, que recebe todos os dias mais de 7 mil toneladas de lixo, 70% dos detritos que o Rio de Janeiro produz, e ainda hoje se lembra do "ataque aos sentidos" que foi esse contacto: "O cheiro é absolutamente insuportável, o barulho é incrível e sentimo-nos um pouco autistas, porque o lixo é tanto que não temos onde descansar os olhos", disse ao DN numa entrevista telefónica.

Muniz, um dos maiores artistas contemporâneos do Brasil, conhecido por trabalhar com materiais pouco tradicionais, desde diamantes e corder até chocolate e açúcar, foi para o Gramacho com uma equipa de filmagens, para criar quadros fotográficos usando o lixo como matéria-prima, em colaboração com os catadores que seleccionam os materiais recicláveis do entulho e os vendem para sobreviver. Dessa experiência resultou «Lixo Extraordinário», de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, vencedor do Prémio do Público no Festival de Sundance e nomeado para o Óscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem.

"O lixo é tudo o que ninguém quer", explica o artista. "Se por exemplo, trabalhamos com um material como o diamante, ele já vem com uma conotação estética e de valor e prazer. Mas o lixo, além de ninguém o querer, já tem uma tendência para a invisibilidade, porque é uma coisa que estamos a querer esconder."

Muniz retratou com lixo 7 dos cerca de 3500 catadores que todos os dias se afadigam no aterro do Gramacho, tornando-os nos protagonistas do seu trabalho. "Foi um trabalho cooperativo único, uma colaboração do artista com o tema. Os retratados foram também retratistas", explica. E continua: "Perguntam-me muito como é que escolhi aquelas 7 pessoas entre os milhares que trabalham naquele purgatório. Quem chegou ali normalmente tem uma história muito tocante. Aquelas pessoas já tiveram uma situação melhor, são em geral da classe média baixa e por causa de uma morte na família, ou do desemprego, foram aí parar. Mas podiam ter ido parar ao crime, à droga ou à prostituição, e isso não sucedeu. São pessoas fascinantes por essa razão. Ali há muita dignidade, eles são orgulhosos, o que os levar a lever o dia-a-dia. Por isso, conseguimos uma variedade muito grande de gente e histórias, com uma enorme qualidade humana."

Esta colaboração, contretizada em 7 retratos depois expostos no Rio e em cidades como Londres, onde foram vendidos para angariar dinheiro, mudou de a vida de alguns dos 7 retratados, como conta o artista: "Uns compraram casas, outros deixaram o aterro. A Associdação de Catadores ficou com as finanças em dia. Comprámos equipamento para ela e hoje é uma associação-modelo, patrocinada pelo Instituto Coca-Cola, por exemplo." O filme, a forma como beneficiou os catadores, e os projectos sociais que originou tiveram tal repercussão na Brasil, que levou à aprovação pelo Presidente Lula, de uma nova e mais avançada lei dos resíduos sólidos.
"A vida daquelas pessoas mudou e a minha também", diz Vik Muniz. "O efeito que esta trabalho teve em todas as pessoas foi incrível. isto dá validade a todo o meu trabalho e mudou toda a minha maneira de pensar."
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Eurico de Barros, Cinema2000


A EQUIPA

VIK MUNIZ
Vik Muniz nasceu numa família da classe operária em 1961, no estado de São Paulo, Brasil. Quando era jovem, foi baleado na perna enquanto tentava separar uma luta e recebeu uma indemnização pelas lesões sofridas. Com o dinheiro, financiou uma viagem a Nova Iorque, onde acabou por se radicar e trabalhar. Vik começou a carreira de artista plástico como escultor, mas à medida que se ia interessando pelas reproduções fotográficas do seu trabalho, acabou por se dedicar exclusivamente à fotografia. Ele incorpora uma multiplicidade de materiais improváveis nos seus processos fotográficos. Frequentemente Vik utiliza diamantes, açúcar, cordas, calda de chocolate e lixo nos seus trabalhos, trabalhando sobre imagens clássicas do fotojornalismo e da História da Arte. A sua obra aclamada pelo público e pela crítica tem sido exibida em todo o mundo. A sua exposição individual no MAM (Museu de Arte Moderna), no Rio de Janeiro, foi a segunda mais vista, ficando atrás apenas da exposição de Picasso. Foi no MAM que Vik expôs pela primeira vez a série "Pictures of Garbage” no Brasil.

FABIO GHIVELDER
Colaborador e director do estúdio de Vik Muniz no Rio de Janeiro, Fabio Ghivelder foi fundamental na série de trabalhos apresentados em Lixo Extraordinário. Fabio foi responsável pela identificação do Jardim Gramacho como o local para Vik criar as suas obras. Foi também responsável por estabelecer contacto com os catadores antes da chegada da equipa e por lidar com os funcionários da Comlurb e do Jardim Gramacho. Foi o mentor da criação do novo estúdio no Rio e o conselheiro de Vik em todos os aspectos criativos do projecto.

OS CATADORES

TIÃO (SEBASTIÃO CARLOS DOS SANTOS)
Tião é o carismático jovem presidente da ACAMJG (Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho), uma cooperativa que tem por objectivo melhorar a qualidade de vida dos catadores. Inspirado pelos textos políticos de livros que encontrou no lixo (O Príncipe, de Maquiavel; A Arte da Guerra, de Sun Tzu) Tião teve que convencer os colegas de trabalho de que a organização poderia fazer a diferença. Ele é catador desde os 11 anos de idade.

ZUMBI (JOSE CARLOS DA SILVA BALA LOPES)

Zumbi é o intelectual da lixeira. Quando encontra um livro, ele não vê apenas a reciclagem de papel. Já montou uma biblioteca na sua casa e começou a emprestar livros à comunidade. Zumbi faz parte do conselho deliberativo da ACAMJG e trabalha no Jardim Gramacho desde os nove anos.


SUELEM (SUELEM PEREIRA DIAS)
Suelem trabalha na lixeira desde os sete anos. Aos 18, já era mãe de três filhos. Ela acha o trabalho em Gramacho mais honesto do que ser prostituta ou estar envolvida no tráfico de droga. Suelem adoraria trabalhar numa creche ou mesmo poder ficar em casa com os seus filhos.

ISIS (ISIS SIS RODRIGUES GARROS)

Isis adora moda e odeia “catar” lixo. A determinada altura revela-nos o drama que a levou a trabalhar na lixeira.

IRMA (LEIDE LAURENTINA DA SILVA)

Irma é a cozinheira da lixeira, que cozinha o prato do dia a partir dos ingredientes mais frescos que encontra no Jardim Gramacho.

VALTER (VALTER DOS SANTOS)

Valter era o “catador” mais velho do aterro, faleceu logo após conhecer Vik. Perito em reciclagem, era conhecido pelas suas rimas e lições de moral.

MAGNA (MAGNA DE FRANÇA SANTOS)

As dificuldades de Magna começaram quando o marido perdeu o emprego. Apesar de ainda a chatear que as pessoas a olhem de lado por causa do mau cheiro que exala ao final de um dia de trabalho, ela orgulha-se de viver a vida de forma honesta.




Realização: Lucy Walker , João Jardim, Karen Harley
Montagem: Pedro Kos
Fotografia: Dudu Miranda
Com: Vik Muniz, Fabio Ghivelder, Isis Rodrigues Garros, José Carlos da Silva Baia Lopes (Zumbi),
Sebastião Carlos dos Santos (Tião), Valter dos Santos, Leide Laurentina da Silva (Irmã),
Magna de França Santos, Suelem Pereira Dias
Música: Moby
Origem: Brasil/ Reino Unido
Ano: 2010
Duração: 99’
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Reservas até às 17h do dia da sessão: ccf@cineclubefaro.com (levantar até às 21h45)
Comprar para qualquer sessão (na sede ou nas sessões – bilheteira abre às 21h30)
Abertura das portas do recinto: 21h45

Somewhere, Sofia Coppola ao ar livre! Em Faro, Museu, 6ªf, 22h. ESTREIA EM FARO! (inacreditável, mas é!)

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL

Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Passe para os 10 dias 25€ / Estudantes 3,5€ / Restantes 4€


"Somewhere" anda às voltas sem sair do mesmo sítio - tal como Sofia Coppola, ela própria. E isso, neste caso, é bom.

Sofia Coppola está habituada ao escrutínio dos holofotes – como se não bastasse ser filha de quem é, quem assina em “Lost in Translation – o Amor é um Lugar Estranho” um dos primeiros filmes seminais do século XXI ergue inescapavelmente as expectativas a uma fasquia difícil de manter.

Daí que, quatro anos depois de uma “Marie Antoinette” que dividiu as águas e levou alguns a chamarem-lhe mulher de um só filme, o primeiro “frisson” inevitável da competição de Veneza fosse “Somewhere”.

O filme foi acolhido calorosamente – a idiossincrasia de “Marie Antoinette” foi perdoada, mesmo que não reencontremos aqui a inspiração do sublime “Lost in Translation”, mesmo que este filme que se diz ser o “mais pessoal” da filha Coppola seja no fundo mais uma variação sobre o seu tema habitual – gente em limbo à procura do seu lugar na vida.


Mas chegará isso para recuperar o estatuto?

Não sabemos. Apesar dos aplausos que recebeu o filme na projecção de imprensa, estamos mesmo a ver muita gente a resmungar que é mais um filme de menina rica sobre meninos ricos que não sabem o que fazer na vida.

É verdade. Lembrámo-nos, a certa altura, do episódio que Sofia escreveu para a “História de Nova Iorque” do pai Francis, há vinte anos, sobre uma menina rica que vive num hotel – e Johnny Marco, o actor desenraizado interpretado por Stephen Dorff que é o centro de “Somewhere”, vive no lendário Chateau Marmont de Los Angeles.

Lembrámo-nos, também, de Marie Antoinette, menina rica perdida num mundo que não dominava – e Johnny também está perdido, na cerveja, nas noitadas, no tabaco, no sexo fácil a toda a hora, nas “lap dances” ao domicílio, no super-luxo dos hotéis e do tratamento VIP. Que não são “substitutos” de nada mas apenas maneiras de preencher o vazio.

Mas o que Sofia faz tão bem é precisamente fazer-nos sentir o vazio - viver o vazio. Dentro desta fachada de luxo não há nada e é preciso que haja alguma coisa, quanto mais não seja por Cleo, a filha adolescente que visita Johnny de vez em quando e acaba por lhe mostrar, imperceptivelmente, o que lhe falta.


E é preciso estar com atenção para ver o que falta. “Somewhere” é um filme de pormenores subterrâneos, planos longos e cores queimadas (rodadas e projectadas em película – o director de fotografia é Harris Savides, que assina aqui um segundo belo trabalho de Los Angeles em filme depois do “Greenberg” de Noah Baumbach). É o filme mais despojado, mais austero, mais “vazio” de Sofia - e esse despojamento é o exacto oposto da máquina da fama que “Somewhere” retrata com um misto impiedoso de melancolia e humor que fere onde dói mas não passa julgamento e ao qual o próprio filme se presta ao estar a concurso num festival tão mediaticamente VIP como Veneza.

A ironia não se perde: ao nosso lado na projecção está uma jornalista italiana louríssima, impecavelmente produzida, que logo antes do filme começar pega no espelho para ver como está o cabelo, bufa aborrecida um par de vezes ao longo do filme e, assim que as luzes sobem, saca da bolsa para retocar a maquilhagem.

Há, evidentemente, algo de rebelde num filme que morde (mesmo que gentilmente) a mão que lhe dá de comer, de menina rica que se queixa sobre como é chato ser uma menina rica. Mas são essas contradições que alimentam a tensão do cinema de Sofia e, sobretudo, de “Somewhere”.

E, como em todos os filmes de Sofia, é nesse vazio onde nada parece acontecer que tudo acontece – por camadas, por acumulação de pequenos nadas que constroem uma história pontilhista.

É legítimo perguntar: estaríamos a prestar tanta atenção a “Somewhere” se fosse outra pessoa (digamos, Vincent Gallo) a realizá-lo? Gostaríamos tanto? É uma pergunta sem resposta. Mas pensá-lo implica que Sofia é uma menina rica que só filma por ser filha de quem é. E o que faz de “Somewhere” um bom filme é precisamente isso: ninguém filma o vazio do sucesso como alguém que o conhece de dentro para fora. Alguém como Sofia Coppola.
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Jorge Mourinha, Ìpsilon


De que se faz, afinal, o cinema de Sofia Coppola? Que temas, obsessões ou sentimentos ligam "As Virgens Suicidas" (1999), "Lost in Translation" (2003) e "Maria Antonieta" (2006)?

Digamos que o seu novo filme, "Somewhere / Algures" (premiado com o Leão de Ouro de Veneza, em 2010), pode ajudar a responder um pouco a tais questões. Que é como quem diz: esta história da relação instável de um actor famoso e a sua filha corresponde a uma espécie de nostalgia romântica, e familiar, que desemboca quase sempre num desencanto suave. Dir-se-ia que as personagens vivem na memória de uma utopia, não política, mas afectiva, que nunca mais poderão encontrar.

Inevitavelmente, a história da relação do actor (Stephen Dorff) e da sua filha adolescente (Elle Fanning) suscitou paralelismos diversos com a próprio biografia de Sofia Coppola. Afinal de contas, ela é filha de um dos nomes grandes do moderno cinema americano, Francis Ford Coppola, e podemos sempre supor que a sua relação com o pai terá passado também por momentos em que algum conflito terá havido entre as nuances da vida particular e as exigências da profissão.

Dito isto, importa também acrescentar que o filme não nos força a tal tipo de metáfora. Aliás, o maior problema de "Somewhere" não é o seu maior ou menor grau de verdade, mas a ligeireza com que tudo é tratado, a ponto de se instalar uma indefinição pouco produtiva: crónica sofrida intimidade ou retrato caricatural da arte de ser célebre? Se Sofia Coppola é uma cineasta dos impasses existenciais da modernidade, "Lost in Translation" continua a ser o momento mais forte do seu trabalho.
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João Lopes, cinemax


ENTREVISTA À REALIZADORA

Qual a sua motivação principal para fazer este filme? Poderemos ver em ‘Algures’ um filme autobiográfico?
Todos os meus filmes têm um lado introspectivo. Nesse sentido, é um trabalho muito pessoal, mas não vou tão longe a dizer que é autobiográfico, pois a minha vida de criança e adolescente foi bastante diferente da que é mostrada no filme. Mas não deixa de ser pessoal. Nesse sentido, usei e imaginei muito do meu passado. É algo que gosto de mostrar.

E o que torna este filme pessoal para si?
É o tipo de vida que mostro. Apesar de ser diferente do que é hoje em dia, não deixa de me ser familiar; depois, o facto da minha filha (Romy, nasceu a 2006) ter nascido pouco tempo antes de começar a escrever o guião fez-me pensar como ser mãe alterava a minha perspectiva sobre o mundo. Embora seja algo diferente da de Johnny Marco (personagem de Stephen Dorff), um actor em momento de pausa e à espera do seu próximo filme. Foi mais esse ponto de vista que quis passar, mesmo que a minha vida tenha sido diferente da dele.

De que forma o facto de ser mãe influenciou todo esse processo?
Ao ser mãe acabamos sempre por olhar para o passado, para a nossa infância. Tentei recordar-me de memórias de momentos importantes que acabei por colocar no filme. No fundo, imaginei a vida deste actor com uma filha (Elle Fanning) e de que forma as prioridades se baralham e alteram a nossa maneira de pensar.

Acha que com o nascimento da sua segunda filha (Cosima, nascida em Junho de 2010) irá limitar mais o seu tempo de trabalho?
Acho que sim, apesar de ser importante continuar a ser criativa. Acho que vou encontrar o meu próprio equilíbrio familiar e continuar a trabalhar. Aliás, o que eu gosto nos filmes é que podemos trabalhar com muita intensidade, mas ter também bastante tempo livre. Acho que consigo ter o melhor desses dois mundos.

Podemos dizer que, de certa forma, o seu pai está presenta na personagem de Johnny Marco?
Não. É apenas o lado divertido e doce de um pai com uma criança. A personagem do Johnny Marco foi baseada em diversos actores e músicos, mas não no meu pai.

É até uma bela surpresa vermos o Stephen no papel excelente, ele que ultimamente estava um pouco arredado dos filmes de primeira linha... Porque se lembrou dele?
Por acaso, foi um actor de que me lembrei logo, quando estava a escrever. Foi uma imagem que me ajudou durante esse processo e que acabou por impor-se. Felizmente, foi possível trabalhar com ele.


Mas porquê o Stephen?
Já o conheço há bastante tempo e achei que ele possui essa doçura de que falava e poderia acrescentar essa dimensão humana a esta personagem com bastantes defeitos e, de certa forma, fazer-nos sentir alguma empatia com ela.

É interessante a inclusão das ‘stripers’ de ‘pole dancing’ na cena em que o Johnny Marco está no Chateau Marmont... Conhecia este tipo de ‘stripers’ que montam o seu espectáculo no local do cliente?
Não sabia que existiam, mas achei que poderia trazer à personagem uma dimensão interessante.

A Sofia lembra-se também de passar a vida em hotéis como sucede a Elle Fanning no filme?
Sim, sem dúvida. Tenho muitas memórias desse período em que estava quase sempre com adultos. O meu pai levava-me a lugares onde normalmente as crianças não iam. Lembro-me, por exemplo, de aos 16 anos o meu pai de me ter levado a Cuba e de ter conhecido o Fidel Castro. E de termos ido a Las Vegas e a Reno.

Imagino que seja difícil de eliminar as suas memórias de acompanhar o seu pai na rodagem de alguns dos seus filmes...
Claro. A relação com o meu pai é muito importante para mim e está presente no meu trabalho.

Nessa altura quando o acompanhava ainda jovem, já pensava que poderia um dia fazer um filme sobre essa vivência itinerante?
Só comecei a pensar nisso quando estava a viver em Paris, depois de ‘Marie Antoinette’. Foi talvez ao ver fotografias de alguns actores no Chateau Marmont que poderei ter começado a pensar em fazer um filme.

Disse na conferência de imprensa, aqui no festival que o seu pai teria dito que só você poderá ter feito este filme...
Talvez porque viu parte da minha personalidade no filme. Acho que sentiu algo especial.

É algo que ele costuma fazer, dar a sua opinião isenta?
É um pai e, está a ver, como pai tende a ser menos exigente. Mas ele viu este filme e disse-me que gostou muito. Mas é o meu pai, por isso... (risos)


A Sofia também é capaz de ajuizar os filmes dele?
Admiro imenso o trabalho dele. Não gosto de o analisar. Prefiro admirá-lo. Se ele me pedir alguma opinião, sobre guarda-roupa, por exemplo, sou capaz de ajudar...

Fez apenas quatro filmes, mas ao ver este percebemos que só poderia ser feito por si. Percebe-se que está a desenvolver um estilo muito próprio.
Eu gosto de filmes de realizadores em que percebemos a personalidade deles. Não é genérico que possamos reconhecer o estilo deles.

O que lhe fascina mais no processo criativo? É escrever, realizar? Trabalhar com os actores? Montagem...
É difícil de dizer. Talvez seja a montagem, pois aí já temos todos os elementos e é divertido começar a ver o filme ter uma estrutura. E acrescentar a música e o som. Mas gosto também muito de trabalhar com os actores. Há muita energia quando estamos a filmar, apesar de ter também algo desgastante.

Acha que por viver em Paris sente uma maior liberdade criativa?
Eu também vivo em Nova Iorque, não apenas em Paris. Não sei se será liberdade o que sinto, talvez seja apenas uma experiência diferente. Paris tem um ritmo diferente que Nova Iorque. É um pouco mais lento. Talvez por isso tantos escritores se tenham inspiram na vida dos cafés de Paris.

É interessante quando mostra as entrevista no hotel Four Seasons. Como é que avalia esse lado do seu trabalho, ou seja, o contacto com a imprensa e a promoção do filme. É um aspecto contratual? É algo penoso ou até pode ser algo gratificante? Até porque percebemos que o Johnny (Stephen Dorf) não liga muito a isso.
Sim, alguns actores podem ter esse lado. Sobretudo o Johnny Marco que está com uma ressaca e não está interessado em vender um filme que não gostou de fazer. Para mim é diferente, porque gosto muito deste filme. E quero falar sobre ele. E quero que chegue às pessoas. Às vezes pode é ser difícil de falar de certas coisas, pois tenho um envolvimento grande com o filme. Acho que me expresso melhor a fazer filmar.
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Paulo Portugal, c7nema.net




Título Original: Somewhere
Realização: Sofia Coppola
Argumento: Sofia Coppola
Fotografia: Harris Savides
Montagem: Sarah Flack
Música: Phoenix
Interpretação: Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Michelle Monaghan
Origem: EUA
Ano: 2010
Duração: 97’
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Reservas: ccf@cineclubefaro.com (levantar até às 21h45)
Comprar para qualquer sessão (na sede ou nas sessões – bilheteira abre às 21h30)

5ªf, 22h, ao Ar Livre: ARTE DE RUA por Banksy. Quem?? Esse mesmo, o anónimo artista subversivo e activista!

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL

Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Passe para os 10 dias 25€ / Estudantes 3,5€ / Restantes 4€



Este filme é entretenimento puro, um fascinante documento sobre trabalhos cujo tempo de vida normalmente é ditado pelas câmaras municipais e respectivas empresas de limpeza.
New York Times

É uma história demasiado boa, estranhamente rica para ser inventada.
The Boston Globe

É um filme feito com perfeição: original e perspicaz, coloca questões em vez de nos dizer o que pensar e, ao mesmo tempo, consegue ser muito, mesmo muito engraçado.
Greason Awards

Banksy – Pinta a Parede! é uma maravilhosa engenhoca sui generis, uma louca roda gigante que mantém o espectador a girar com ela.
Entertainment Weekly

Subversivo, provocador e inesperado, Banksy – Pinta a Parede! diverte-se em apanhar-nos de surpresa, começando devagar, mas terminando numa sala de espelhos tão perturbadores como qualquer uma das experiências que a Alice de Lewis Carrol viveu. A história tem tantas ressonâncias que o filme permite diferentes interpretações.
Los Angeles Times

Um acto de provocação em si mesmo. Todo o filme é uma série de descarrilamentos dolorosamente engraçados.
Chicago Tribune

A maioria dos documentários sobre arte chegam até nós como aborrecidas e brilhantes hagiografias dos retratados. Não é o caso de Banksy – Pinta a Parede!, uma irreverente e divertida pesquisa sobre arte de rua de guerrilha, que aparenta ser uma coisa (uma crónica sobre esta arte centrada numa das suas mais enigmáticas figuras, Banksy) mas que se reverte e começa a examinar um pretenso realizador de cinema, Thierry Guetta. Uma aproximação tão pouco convencional, na qual o sujeito troca de lugar com o narrador, encaixa perfeitamente nestes artistas, personagens anarcas.
Variety



Foi no início dos anos 90, em Bristol, na Inglaterra. As paredes começaram a amanhecer cobertas por uns desenhos que sobressaíam claramente da moda recente de ‘pixar’ as paredes urbanas. Ratos, meninas, polícias, soldados surgiam envolvidos em breves ações, pequenas histórias habitadas por um humor simultaneamente direto e ácido. De repente, parecia que os melhores cartoons tinham escorregado dos jornais para infestar a rua com uma frescura e uma qualidade estética que não autorizavam a arrumar o assunto como puro vandalismo. O autor? Banksy. Só que ninguém sabia nem sabe hoje quem é Banksy. De onde veio ou que rosto tem o homem que se tornou no maior emblema as street art mundial. Esta estratégia genial de marketing que opta pela clandestinidade em vez da habitual sede de exposição começou a surtir os seus efeitos. À medida que as intervenções de Banksy alastravam, primeiro para Londres e depois para várias outras paragens pelo mundo fora (Cuba, Los Angeles, Sydney...), acabariam por transformá-lo numa espécie de Robin dos Bosques que, fugindo à polícia na calada da noite, nos entregava as melhores fábulas libertárias. Misturando o espírito pop com a performance e uma boa dose de consciência política, Banksy atingia com os seus stencils o coração do imaginário coletivo com uma eficácia com que os ‘artistas políticos’, fechados nos museus de arte contemporânea, pareciam nem poder sonhar. Entretanto, ao mesmo tempo que a fama crescia, alargava quer o âmbito das sua ações quer o risco que elas envolviam. Numa delas, colocou clandestinamente, em vários museus americanos, quadros seus que parodiavam algumas relíquias do passado. Noutra, conseguiu pendurar um Rato Mickey de braços abertos e vestido de prisioneiro de Guatánamo em plena Disneylândia. Em 2005, no muro construído por Israel para isolar a Faixa de Gaza, fez um desenho que rasgava o cimento numa paisagem idílica. O mercado, obviamente, não ficou indiferente a tanta agitação. Banksy é hoje um artista com galeria e os seus desenhos, que valem milhões, são comprados por estrelas de cinema como Johnny Depp ou Brad Pitt. Ele mostrara como se podia fazer arte socialmente relevante fora do sistema, mas acabaria por comprovar uma outra verdade universal: esse mesmo mercado pode absorver tudo. No seu filme autobiográfico “Banksy – Pinta a Parede!”, o autor troca as voltas ao espectador como costuma trocar à polícia, propondo uma ficção desfocada de si, mas não consegue escapar à tentação de um ponto de vista moralista e caricatural sobre o mesmo art world pelo qual até ele se deixou assimilar.
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Celso Martins, Expresso, 28/5/11


A intervenção dos artistas plásticos no cinema fez-se, quase sempre (ou pelo menos, noa casos mais notáveis, como os de Duchamp, Warhol ou, mais recentemente, Steve McQueen), por via da experimentação formal. Com o primeiro filme de Banksy – e em linha com a essência da sua obra plástica -, os jogos formais, mantendo-se embora presentes, são relegados para segundo plano em favor da corrosão satírica e da afirmação política. O que temos aqui? À primeira vista, um documentário sobre a tentativa de um tal Thierry Guetta de realizar um documentário sobre a arte urbana, em geral, e sobre Banksy, em particular; à segunda vista, um falso documentário sobre a meteórica ascensão no mundo das artes de uma figura sem talento (a do próprio Guetta); em última análise, uma feroz crítica política ao ‘estado da arte’.

Vamos por partes. No início, estamos em Los Angeles de 1999, e através da narração em off de Rhys Ifans, somos apresentados a Guetta, o dono de uma loja de vestuário vintage falsificado (o pormenor é importante) que teria o hábito de filmar obsessivamente todos os instantes da sua vida (e note-se que, a fazer fé no mito, o filme de Banksy teria resultado, em boa parte, da montagem de fragmentos dessas filmagens). Figura lunática que, pelo modo como se deixa absorver pelo seu imaginário do cinema de Michel Gondry, Guetta cedo travará contacto (por meio do sei alegado primo, o artista francês Invader) com os mais destacados cultores de arte urbana (de Shepard Fairey ao próprio Banksy), dedicando-se, então, a documentar as suas operações de conversão das ruas em galerias de arte. Até que, a pedido de Banksy, Guetta lhe mostra o produto das suas filmagens: documentário intitulado “Life Remote Control” que, nas palavras do primeiro, seria “na hour and a half of unwatchable nightmare trailers”.



Incapaz de revelar a Guettao seu desagrado, Banksy instigá-lo-á a iniciar-se na arte urbana. Guetta vende tudo, abre um ateliê, recruta assistentes (que farão o trabalho por ele) e, por fim, esboça uma campanha de marketing onde se reclama discípulo de Banksy. Meses depois, é inaugurada em Los Angeles a exposição “Life Is Beatiful”, reunindo quadros e instalações assinadas pelo alter ego artístico de Guetta: Mr. Brainwash. O nome é adequado, pois, como as de Jeff Koons, as peças de Mr. Brainwash são apenas reproduções mecânicas de um gesto que, originalmente, se queria subversivo – aquele (mais tarde herdado pela arte pop e por segmentos da arte urbana) que, em 1917, levou Duchamp a expor o seu urinol. Quanto às ‘obras’ de Mr. Brainwash, essas, vender-se-ão que nem ginjas.

Neste quadro, saber se a figura de Guetta é ou não real, se ela é ou não um alter ego satírico de Banksy e se, por inerência, o seu filme é ou não um documentário de facto... sabê-lo, dizíamos, é o que menos importa (embora, contrariando as afirmações do produtor, nos pareça óbvio que, aqui, tudo foi encenado ao milímetro). O que importa, sim, é a forma como o filme articula diferentes camadas de texto e imagem (despistando-nos quanto à sua origem) para, inteligentemente, colocar uma questão essencial: a da conformação, pela possibilidade de uma indefinida reprodução técnica do ‘mesmo’, da obra de arte às leis do mercado (onde, como se sabe, não há originais, mas apenas exemplares de uma origem perdida). “I think the joke is on. I don’t know who the joke is on, really. I don’t even know if there is a joke”, diz-nos a páginas tantas o porta-voz de Banksy. Se encontrarem uma melhor síntese do filme (e do ‘estado da arte’ em geral), façam o favor de nos avisar.
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Vasco Baptista Marques, Expresso, 28/5/11



Título Original: Exit Through the Gift Shop
Realização: Banksy
Narração: Rhys Ifans
Montagem: Chris King & Tom Fulford
Som: Jim Carey
Música Original: Roni Size
Com: Banksy, Thierry Guetta (aka Mr. Brainwash), Debora Guetta, Space Invader, Monsieur Andre,
Zeus, Shepard Fairey, Ron English, Swoon, Borf, Buffmonster

Origem: EUA/ Reino Unido
Ano: 2010
Duração: 87'
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Reservas: ccf@cineclubefaro.com (levantar até às 21h45)
Comprar para qualquer sessão (na sede ou nas sessões – bilheteira abre às 21h30)

O Estranho Caso de Angélica que afinal não estava morta... ao ar livre! 4ª, 20, 22h, Oliveira a brincar connosco.

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL

Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Passe para os 10 dias 25€ / Estudantes 3,5€ / Restantes 4€



“Uma radiante história de fantasmas e uma história do próprio cinema.”
Artforum

“Uma fantástica fábula de amor.”
Chicago Tribune

“Um verdadeiro presente, de um realizador que tem quase a idade do próprio cinema.”
The New York Times

Um homem fotografa uma jovem morta e a imagem... sorri para ele! Comédia? Drama» Dir-se-ia um cruzamento perverso de ambos, filmado como se fosse um requiem irónico por todas as ilusões e desilusões do romantismo. Manoel de Oliveira nunca desistiu deste velho projecto (o argumento original foi escrito em 1954) e ainda bem: o resultado é um objecto de deliciosa e contagiante liberdade artística.
João Lopes, Cinema 2000


Não esperem meias tintas nem elogios discretos: o novo filme de Manoel de Oliveira, história de um fotógrafo siderado pelo fantasma de uma mulher morta, é magnífico. O seu melhor dos últimos anos. E tem um passado negro.

"O Estranho Caso de Angélica" chega às salas portuguesas quase 60 anos depois da primeira versão do argumento, escrita por Manoel de Oliveira. Quem seguir este longuíssimo percurso concluirá que a saga, afinal, até acabou bem, com o filme a estrear no Un Certain Regard de Cannes (no ano passado), logo ali colhendo louvores e reconhecimento dos quatro cantos do mundo. Porém, a história deste 'estranho caso' está envolta em trevas. Obriga-nos a regressar aos fascistas anos 50 portugueses e à década mais miserável e estéril do nosso cinema - década indigna deste filme e da grandeza do seu autor.

O projeto data de 1952 e chamava-se "Angélica". Não foi o primeiro - nem seria o último - que Oliveira deixaria na gaveta desde "Douro, Faina Fluvial'', mas, neste terreno de dúvidas e de filmes por fazer, todos os indícios levam a acreditar que foi o projeto mais importante do cineasta do Porto. Em 1952, Oliveira submete o guião ao julgamento do Secretariado Nacional de Informação (SNI), organismo responsável pela propaganda política de Salazar, pela informação pública e também pelo cinema. Naqueles anos, as comédias populares portuguesas que triunfaram apesar da penúria do seu valor artístico, esses filmes de triste figura que serviam de extensão do regime, começavam a ser atacados, em especial pelo movimento dos cineclubes, muitos clandestinos. Para aquela geração de cinéfilos lusos, Oliveira é já a figura mais importante da cinematografia, a sua maior esperança. Contudo, o veredicto do SNI, que chumba "Angélica", é severo: "Argumento pessimista e demasiado mórbido." Recusa recebida com indignação... mas pia-se fininho.

Nestes anos 50, Oliveira - é ele quem o diz no dossiê de imprensa de Cannes - descobre ainda que tem outro problema em mãos: "Com 'Angélica', tinha algumas reservas relativamente à ideia de filmar o sonho, já que a máquina de filmar não filma nem sonhos nem pensamentos (...). A pessoa diz que sonhou ou que pensou, mas não podemos ter a certeza quanto ao que ela diz. É qualquer coisa que está deformada ou que pode ser mentira." Ora, em "Angélica", a imagem do sonho está na origem do drama. E é este drama que permitirá transfigurar o real, até ao ponto em que a morte se possa transformar em vida. Esta ideia, como hoje se sabe, é matéria de exploração infindável em Oliveira veja-se "Benilde ou Virgem Mãe", de 1975, bem como os seguintes "Amor de Perdição", "Francisca" ou "Le Soulier de Satin". Só que "Angélica" nascera 20 anos antes, em tempo maldito - e filme maldito se tornou.

É necessário mantermo-nos ainda nos anos 50 para melhor compreender a travessia do deserto de Oliveira e a história de um argumento que ganhará reputação mítica com a passagem dos anos. Em 1954, todo o edifício do cinema português construído pelo regime nos anos 30 aproximava-se do colapso. Fecham estúdios. A produção é magra, a qualidade aberrante. "Restava à nova crítica, que entretanto tomara o poder, pedir para o cadáver do cinema português o local adequado: o cemitério", escreveu João Bénard da Costa num livro que documenta estes factos ("Histórias do Cinema", ed. Casa da Moeda, 1991). Em 1954, Oliveira tinha 46 anos. Não filmava há 12, desde "Aniki Bóbó". Afastara-se do cinema para se dedicar a negócios na indústria e na agricultura. E, em 1955, ano em que o projeto de criação da RTP começa a ganhar corpo, o cinema português chega ao seu annus horribilis, o único da sua história em que nenhum filme foi estreado. Curiosamente, é nesse preciso ano que Oliveira parte para a Alemanha, para um estágio nos laboratórios Agfa, em Leverkussen, onde se familiariza com a fotografia a cor. De regresso a Portugal, realiza em 1956 uma nova curta-metragem sobre o trabalho do grande pintor de aguarelas António Cruz, na cidade do Porto: "O Pintor e a Cidade". Filme notável que valerá a Oliveira, em 1957, o primeiro prémio internacional da sua carreira.

Regressemos ao argumento do filme rechaçado pelo poder, "Angélica", publicado na íntegra (com data de 18 de junho de 1954) no livro "Alguns Projectos Não Realizados e Outros Textos de Manoel de Oliveira" (ed. Cinemateca Portuguesa, 1988). O argumento foi inspirado num episódio autobiográfico, já que ao cineasta, tal como ao protagonista Isaac (Ricardo Trêpa), alguém pediu que fotografasse uma jovem mulher morta, amiga da família. Oliveira possuía uma máquina fotográfica - uma Leica - e notou que, ao fazer o foco, conseguira uma imagem sobreposta em que parecia que, do corpo, se evolava uma figura viva. A ideia do filme nasce desse episódio. E é por causa da fotografia acidental que Isaac começa a acreditar na ilusão de que a morta voltou à vida, ou seja, é pela fotografia que a imagem ganha o poder de uma alucinação.

Esse argumento, bastante próximo da versão que Oliveira atualizou para os tempos de hoje (ainda que com nuances que parecem vir dos anos 50) e que daria origem a "O Estranho Caso de Angélica", é um documento com uma precisão e uma inventividade apaixonantes. Já vêm daí os ruídos estridentes e desafinados, todos esses sons penetrantes e desconexos que assaltam a tranquilidade do jovem Isaac. Também no argumento se encontra descrito ao detalhe o delicioso episódio do gato que se fixa a mirar o pássaro na gaiola, augurando a fatalidade que há-de vir. E, embora Isaac não seja exatamente um alter ego de Oliveira, não podemos esquecer que é ele, tal como o cineasta, aquele que vê e nos dá a ver a fotogenia de Angélica, essa fotogenia fatal, prova de contacto com um 'além deste mundo' que libertará a personagem e em simultâneo o assombra, dia e noite, até à exaustão.

"O Estranho Caso de Angélica" é um filme denso e inesgotável, um desses raros que conseguem - e graças a simples truques de Méliès - interrogar o poder do cinema e a sua relação com a verdade e a mentira. É um ghost movie furioso, ainda que realizado por um homem cético que nos diz que, da morte, nada sabemos: "Pois ninguém de lá veio para a contar." E, no entanto, Oliveira é extraordinário a fazer a mise en scene dos seus fantasmas. Seis décadas volvidas, "O Estranho Caso de Angélica" prova que teria sido a obra-prima dos anos 50 que o cinema português tanto precisou e não teve. A mesma obra-prima que é hoje.
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Francisco Ferreira, Expresso, 30/4/11


Em O Estranho Caso de Angélica, os segredos da vida para além da morte podem estar por detrás da câmara de um fotógrafo.

"Eu da vida ainda presumo saber alguma coisa, da morte não sei nada. Nunca a experimentei, nunca ninguém a experimentou", diz Manoel de Oliveira, do alto dos 102 anos, em entrevista a António Preto, a propósito de O Estranho Caso de Angélica, o filme em que filma a morte/ a morta e a morte/ a morta lhe sorri. É a primeira vez que Manoel de Oliveira recupera um projeto tão antigo. O guião original remonta a 1952 e foi abandonado antes das filmagens. Talvez assim se justifique a elipse temporal comum a alguns filmes de Oliveira, como se o tempo cronológico fosse um pormenor que se dilui... (uma década em 100 anos não é a mesma coisa que uma década em 30). Há assim uma ambiguidade temporal, tal como acontecia em Singularidades de uma Rapariga Loura. Manoel de Oliveira diz que este não é um filme de época, mas claramente situa-se num meio tempo... o tom de época está lá e dificilmente nos convence da contemporaneidade, nem mesmo quando, pela primeira vez na sua filmografia, utiliza efeitos especiais. A própria personagem central, Isaac, interpretada por Ricardo Trepa, padece desse problema temporal: o argumento original foi escrito ainda na ressaca da II Guerra Mundial, onde ser judeu em Portugal tinha determinada conotação que hoje se perdeu, até porque a comunidade é demasiado pequena para ser estigmatizada e também por isso, há um nível de leitura do filme que facilmente se perde. Mas isso não é mesmo o mais importante deste O Estranho Caso de Angélica, que se fosse um livro inserir-se-ia próximo de Teixeira de Pascoaes.
O que realmente importa aqui é o sorriso da rapariga morta, que para morta não está nada mal. É como se Oliveira a filmasse do outro lado, transformada em querubim. A frieza da morte é substituída pelo ideal de beleza romântico, que não é naturalmente o das peles morenas queimadas pelo sol, mas a alva brancura dos sorrisos pálidos, dos cabelos loiros e imaculados, assim como os 'deuses' do Renascimento.

Angélica, claro está, como diz o nome, é um anjo, apesar de não se aplicar o ideal de pureza bíblico - "o marido está inconsolável". Angélica é casada e os anjos têm sexo. Isaac, o fotógrafa judeu que é chamado para tirar o retrato à rapariga depois de morta, encontra no sorriso uma chamada do transcendente. Mas esse apelo, essa atração que não é física mas sim metafísica, não deixa de ter uma carga impura de infidelidade, o que só torna o filme menos óbvio e mais interessante. Isaac, que é um homem espiritual, que fotografa o que ninguém quer reter, a rudeza dos trabalhadores do campo, as vinhas do Douro, sente ali uma atração pelo intangível. Há uma sedução pelo infinito, pela beleza e pelo amor absoluto que não podem ser encontrados na vida. Se por um lado o sorriso de Angélica pode ser visto como o canto das sereias que atrai os marinheiros para o fundo do mar, por outro também se pode descobrir nele um olhar doce sobre a morte, como se, quando partíssemos, partíssemos desta para melhor.
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Manuel Halpern, aeiou.visao.pt




Título Original: O Estranho Caso de Angélica
Realização: Manoel de Oliveira
Argumento: Manoel de Oliveira
Fotografia: Sabine Lancelin
Montagem: Valérie Loiseleux
Som: Henri Maikoff
Interpretação: Ricardo Trêpa, Pilar López de Ayala, Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra,
Ana Maria Magalhães, Isabel Ruth, Filipe Vargas
Origem: Portugal
Ano: 2010
Duração: 97’
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Micmacs ao ar livre! Original, criativo, imaginativo, hilariante... único, como Jeunet! 3ªf,19, 22h

CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL
Sócios - 2€ (caderno de 5 senhas, 10€)
Não-Sócios - Passe para os 10 dias 25€ / Estudantes 3,5€ / Restantes 4€



“Um arrombamento delirante e perseguições malucas fazem parte do programa de um filme 100% festivo, que faz mexer os músculos zigomáticos sem parar.”
Caroline, Vié in 20 Minutes

“O mirabolante Micmacs à tire-larigot surpreendente, no sentido tradicional do termo, do princípio ao fim. Além de turbulento e colorido, faz sonhar com Houdini, Edison ou Meliès.”
Bayon, Libération


O estatuto que Jean-Pierre Jeunet alcançou a nível mundial faz pensar numa longa filmografia de culto. A verdade é que o início da sensação começou apenas em 1991, com Delicatessen, uma comédia negra que foi apenas um ponto de partida para um estilo muito próprio e delicado que o cineasta estabeleceu. Depois realiza La cité des enfants perdus (1995) de uma menos bem sucedida incursão ao universo de Hollywood com Alien: O Regresso (1997), mas foi com o sucesso estonteante de O Fabuloso Destino de Amélie (2001) – considerado um dos mais importantes filmes da década passada e com cinco nomeações aos Óscares incluindo Melhor Filme Estrangeiro – que o cineasta atingiu a popularidade que tem nos nossos dias. Antes de partir para esta nova incursão ao seu universo fantástico, o realizador ainda teve em mãos a adaptação do romance Sébastien Japrisot com Un long dimanche de fiançailles (2004), um filme comovente e apaixonante em cenário de guerra.

Agora chega a Portugal, com quase dois anos de atraso, o seu mais recente filme Micmacs – Uma Brilhante Confusão, que estreou antes na Festa do Cinema Francês 2010 e no Fantasporto 2011. A verdade é que este novo trabalho do cineasta francês vem envolto sob alguma discussão acerca da originalidade do seu trabalho. Tema que por si só é contraproducente. Quando com outros realizadores se assume a existência e o assumir de um estilo único e identificador, com Jean-Pierre Jeunet parece não haver permissão por parte de alguma crítica em criar obras que se assemelhem ao seu estilo de fábula e uma estética de tons alaranjados e quentes. Se não absolutamente original no seu estilo ou conteúdo, esta não é uma obra que perca o seu mérito próprio por isso. Muito pelo contrário. O cineasta absorve aqui um registo insólito e surreal, mais semelhante a Delicatessen (1991) e faz aquilo que de melhor sabe: um filme delicado num contexto bizarro. Neste caso, estamos perante um braço de ferro entre um homem juntamente com várias personagens de um ferro-velho e a indústria bélica (nomeadamente duas grandes empresas rivais).


Micmacs – Uma Brilhante Confusão é um dos filmes mais inconsequentes e divertidos filmes do cineasta. É uma obra de entretenimento puro, de argumento simples, que despoleta facilmente ora sorrisos, ora gargalhadas. Num estilo muito cartoonesco e caricatural, somos levados ao encontro de uma sucessão de personagens de contornos extremamente bizarros e mesmo que disparatados, encantadores na sua construção, confirmando o costume habitual de Jean-Pierre Jeunet de promover o encontro casual entre personagens marginalizadas. Num ambiente de quase freak show de um circo, destaque para a presença de uma contorcionista, um homem-bala e até de uma calculadora-humana.

Esteticamente mantém-se a marca do cineasta, com recurso a uma fotografia saturada em tons quentes, da autoria de Tetsuo Nagata (La vie en rose), a montagem de Hervé Schneid (habitual colaborador de Jean-Pierre Jeunet desde sempre) e a direcção artística de Aline Bonetto (que trabalhou com o cineasta em Le fabuleux destin d’Amélie Poulain e Un long dimanche de fiançailles, tendo sido nomeada para os Óscares por ambos os trabalhos). A nível de elenco temos prestações competentes e adequadas ao argumento surreal: caso especial de Dany Boon (Bienvenue chez les Ch’tis), André Dussollier (Amélie e Um Longo Domingo de Noivado), Nicolas Mairé (99 francs) e Julie Ferrier (Paris).

O humor fácil, aliado a diálogos cómicos e uma dose burlesca de diversos acontecimentos fazem de Micmacs – Uma Brilhante Confusão um bom e divertido filme, num misto de comédia com um intrincado e surreal heist movie. É também o seu filme com a mais directa mensagem política e anti-guerra, daí que tende no seu final para uma dose exagerada de moralismo. Embora essa fácil lição de moral caia menos bem no goto do espectador, o filme não perde muito por isso, culminando numa hilariante cena final. A marca intemporal de Jeunet continua bem viva e recomenda-se.
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Tiago Ramos, cinema2000


Jean-Pierre Jeunet já descreveu 'Micmacs' como um cruzamento entre 'Delicatessen' e 'O Fabuloso Destino de Amélie', e não anda longe da verdade. O protagonista é Dany Boon, que é acidentalmente alvejado no crâneo e que, após algum tempo como sem abrigo, encontra um bizarro grupo de marginais que vivem debaixo da terra e decide vingar-se dos fabricantes da bala que tem no cérebro e da mina que lhe matou o pai. O filme, como de costume, é visualmente magnífico, está pejado de referências cinematográficas e é bastante divertido. Mesmo sem grandes inovações, quem goste do estilo de Jeunet tem aqui um prato cheio.
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Luís Salvado , Timeout.sapo.pt




Título Original: Micmacs à tire-larigot
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Interpretação: Dany Boon, André Dussollier, Yolande Moreau, Dominique Pinon, Omar Sy, Julie Ferrier, Nicolas Marie
Argumento: Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant
Fotografia: Tetsuo Nagata
Montagem: Hervé Schneid
Música: Raphaël Beau
Origem: França
Ano: 2009
Duração: 105’
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