Às vezes acho que gostar só não basta.
Afinal, o que é gostar de cinema? O que quer dizer “gostar de cinema”? Em que se pensa quando se diz “gosto de cinema”?
Para procurar uma resposta a estas perguntas, podemos recorrer a Kant que explicita e categoriza as condições inerentes à faculdade do juízo do gosto, e define e distingue o aprazível, o bom e o belo. Há muito tempo, portanto, que deixou de fazer sentido questionar se um filme como Superman Returns é mais ou menos belo do que La Terra Trema, porque belo é tudo aquilo que universalmente se aceita como tal. Mas o cânone está mais ou menos estabelecido, e poucas dúvidas restam acerca do que é belo no cinema, se tomarmos em consideração a lógica Kantiana. “Gostar de cinema” é, no entanto, diferente de gostar deste ou daquele filme porque o cinema, infinito e incomensurável, não é um objecto a que se possa chamar belo. Ou então não faria falta um cânone. Nem fariam falta juízos estéticos; a todos os filmes seria inerente o belo.
Deixando de parte questões de estética, coloco outras. Gostar de cinema é o mesmo que gostar de “ir” ao cinema? Porque pode ser que, independentemente das qualidades intrínsecas ao objecto em exibição, o espectador se sinta atraído pela sala às escuras, pelo som do projector, pelo fechar das portas e abrir das cortinas, ou pela lembrança do sonho ou útero, pelo esquecimento do corpo, pelo despertar da visão, pela evocação do espelho, pela (in)satisfação do desejo. Gostar de cinema confunde-se, por isso, com gostar da sala de cinema, de estar no cinema, de ir ao cinema.
Se gostar de cinema está directamente relacionado com gostar de estar na sala de cinema, o que dizer dos que vêem cinema no monitor do computador? O que dizer do DVD? Do ipod e da televisão? E se, de novo, surgisse o drive-in? O que pensar da distribuição online e do lançamento directo para o circuito de vídeo? Bubble, de Steven Soderbergh, por exemplo, foi lançado simultaneamente na Internet, na TV por cabo e nas salas de cinema. Atentado contra a instituição “cinema” ou reflexão crítica um tanto forçada sobre o que é, enfim, o cinema (e gostar dele)?
Outra vez, se gostar de cinema e gostar de estar no cinema são uma e a mesma coisa, por que razão não se privilegia o Imax? Por que razão não singram as salas de cinema com ecrãs gigantescos? Por que morreu quase à nascença o 3-D? Por razões estéticas, de novo? Porque os filmes aí projectados não são belos? Mas uma das instalações multimédia de Douglas Trumbull, o supervisor dos efeitos especiais de 2001 e de Blade Runner, está em exibição no Imax de um casino/hotel de Las Vegas.
Não acho que gostar de cinema (que é uma expressão em que não acredito) tenha de estar dependente de tantas variáveis ou tenha de obedecer a tantos critérios. Gostar de cinema (o que quer que isso seja) acontece porque e quando se experimenta, com maior ou menor grau de intensidade, uma ou todas ou nenhuma das situações a que acima faço referência. A distinção que quero fazer é outra, no entanto. E podem discordar.
A tendência para subordinar o cinema às outras artes, nomeadamente à literatura, é bem conhecida. Frequentemente se esquece que as duas artes obedecem a gramáticas diferentes e procura-se no cinema as regras e o desvio às regras que se aplicam à literatura. O facto de se “gostar” de cinema não ajuda. Na academia, o cinema serve muitas vezes de ilustração, de legenda, de nota de rodapé, o que o reduz a mero exemplo (a horrível máxima “uma imagem vale mil palavras” não faz justiça, afinal, nem ao cinema nem à literatura) e o priva da sua função estética.
Foram muitas as vezes que vi fazer referência ao cinema, em Stanford, a universidade americana que me acolhe desde Setembro. Fico sempre um pouco inquieta quando isto acontece, mas não acho que seja muito grave. Afinal, todos “gostamos de cinema” e eu não posso permitir que uma forma de “gostar de cinema” (a minha) prevaleça sobre outra (a dos outros). Mas levanto alguma resistência quando um professor de Literatura Anglo-Saxónica ensina o cinema de Woody Allen porque, e cito, “I love the movies” e “I love Woody Allen”. Gostar de cinema e gostar de Woody Allen é fantástico, é “cool”, é novidade e frescor, sem dúvida. Mas não salva este professor (e outros, há outros) de passar hora e meia a ensinar generalidades impressionistas e imprecisas. O cinema de Woody Allen é aliciante para este professor porque 1) ambos têm a mesma idade, 2) ambos passaram pelas mesmas experiências, 3) ambos se sentem atraídos pelas mesmas questões filosóficas e psicanalíticas, e 4) ambos acham que o humor é uma arma. Que razões dará este professor para ensinar Emily Dickinson, pergunto-me.
Por isso acho que gostar só não basta. A especialização é uma chatice, todos sabemos e concordamos, mas se o contrário é um discurso generalista repleto de banalidades e trivialidades, eu prefiro a compartimentação.
Preferia que, ao menos uma vez, alguém dissesse “não gosto de cinema”. Talvez o distanciamento que daí resultasse deixasse espaço para o rigor, o critério e o espírito analítico. O cinema ia gostar.

10 comentários:

anabela moutinho disse...

AHAHAHAH:
«O cinema de Woody Allen é aliciante para este professor porque 1) ambos têm a mesma idade, 2) ambos passaram pelas mesmas experiências, 3) ambos se sentem atraídos pelas mesmas questões filosóficas e psicanalíticas, e 4) ambos acham que o humor é uma arma. Que razões dará este professor para ensinar Emily Dickinson, pergunto-me.»
BINGO!

eh pá, eu não sabia mt bem por onde começar. este teu post dá pra 30 milhões de respostas possíveis!

(bem que podias tê-lo dividido em várias postazinhas, assim ficavas com coisa pra alguns dias :D

mas enfim, direi pra começar que sim, concordo contigo: SE fosse a condição para se abordar o cinema de uma maneira teorica e analiticamente séria - e não recorrer a ele com a ligeireza cool de ilustração-piscar-de-olho -, mil vezes o 'não gosto de cinema' ao 'gosto de cinema'.

pra complicar ainda mais, eu se calhar não gosto de cinema, mas de filmes com momentos de cinema lá dentro. como o post da ana sobre vertigo (mau exemplo, esse filme é todo ele composto por momentos de cinema, ao ponto de ser ele um momento de cinema no seu conjunto, sem brecha ou lacuna. mas a fingir que não disse isto, não me dá jeito pro raciocínio). como os pedaços que - em definitivo - vou passar a deixar neste blog como resposta a - esta - tua questão.

bamos a isto.

Artur Ribeiro disse...

Olá, não sei em que área estás a estudar em Stanford mas por este teu lúcido e estimulante texto acho que devias ter um lugar nas escolas de cinema deste país que são capazes de precisar de algumas clarificações próximas do que apontas para o teu professor sobre o Woody Allen... Aliás, será que aqui se ensina alguma coisa que não seja porque: 1) se tem a mesma idade (pelo menos mental) de quem se idolatra 2) se gostava de ter passado pelas mesmas experiências 3) sentem-se atraídos pelas mesmas questões filosóficas mesmo que não as percebam 4) julgam que o tédio é uma arma...
Muito bom o teu texto, e, já agora, no meu caso (talvez patológico) o cinema não é uma questão de gostar ou não, é como respirar, não sei se gosto de respirar ou não, se calhar até é agradável mas normalmente não penso nisso (a não ser quando me tentam esganar, aí sou capaz de apreciar quanto gosto de respirar - mas é uma coisa que felizmente não tem acontecido muito...), e assim é comigo com o cinema. E como por vezes se respiram ares mais puros do que outros, assim também é com o cinema (já para não fazer metáforas com o cheiro e barulho sufocante das pipocas...) Mas este comentário já vai longo, tenho de voltar à superfície para respirar...
Óptimo texto, venham mais.

cristina firmino disse...

Excelente texto,
excelentes comentários (o que eu me ri com a comparação com o acto de respirar...).
Realmente tenho pena de ser uma dessas cinéfilas (?) pouco conhecedoras e que se deixam levar demasiado pelas impressões. Mas que sabe bem ler bons textos sobre cinema, lá isso sabe!

Anónimo disse...

como devo ser das poucas cine-clubistas, que só ontem viu " A vida dos outros", vem a propódito dizer que esse filme reflecte bem da importância e eficácia do cinema ( nenhuma outra arte transmite a intensidade da denúncia e a complexidade do ser humano num só olhar) e penso que isto tem que ver com o que estava escrito
Clarisse

Ana Soares disse...

Creio que vem a proposito um artigo que saiu no LATimes ha poucos dias. E´sobre literatura, mas aplica-se: http://www.latimes.com/news/opinion/la-op-schickel20may20,0,7430993.story?coll=la-opinion-rightrail

marina disse...

wow, obrigada. 4 comentários! não se habituem, porque um textinho destes é coisa para dois dias de biblioteca...
estava cheia de hesitações antes de clicar "publish post"; agora ainda vai ser pior, não vos quero decepcionar.
obrigada,
marina

mom disse...

Como não há quatro sem cinco, aqui vai mais um (comentário, claro). Excelente texto, óptima reflexão.
Parabéns!
Continua a clicar "publish post". Estamos cá para ler e... comentar!

anabela moutinho disse...

ana,
uau!
«Let me put this bluntly, in language even a busy blogger can understand: Criticism — and its humble cousin, reviewing — is not a democratic activity. It is, or should be, an elite enterprise, ideally undertaken by individuals who bring something to the party beyond their hasty, instinctive opinions of a book (or any other cultural object). It is work that requires disciplined taste, historical and theoretical knowledge and a fairly deep sense of the author's (or filmmaker's or painter's) entire body of work, among other qualities.»

e ainda:
«And we have to find in the work of reviewers something more than idle opinion-mongering. We need to see something other than flash, egotism and self-importance. We need to see their credentials. And they need to prove, not merely assert, their right to an opinion

uau pelas seguintes razões:
1. ouch! agora é que ninguém mais se vai atrever a postar ou comentar neste blog! :D

2. ouch! essa deve ter doído ao prof da marina!

3. ouch! tanta gente que era - justamente! - varrida, fosse da crítica nos jornais fosse da própria universidade!!

4. ouch! nunca mais vou conseguir fazer uma apresentação de um filme no ccf (hurraaaaaaaaaaaaaa, ouço a multidão bramir ao longe......)

clarisse (olá) :-)
tem sim, a ver. concordo consigo. ie, concordo que o cinema tem uma capacidade efectiva de denúncia que, seja pelo seu carácter específico, seja pelas audiências a que ele acedem, tem um maior impacto que outras artes.

marina,
bom... só faltava... qual decepcionar qual nada! já foi a 2ª vez que me fizeste rir, pá! queres melhor cartão de visita neste blog? (agora não te preocupes, não tens que me fazer rir - ou a ninguém - sempre que puderes vir cá! :-)))))

agora:
(como vês, artur, não me importo mt com a dimensão dos meus coments! :D

- tenho cá ideia, do baú da memória mais longínqua, que não era bem-bem akilo que o kant kantava. e só a existência de categorias, mm em kant, não permite (pelo contrário) arrumar a questão de que 'portanto, todos os filmes são belos'. seja como for,

- sim, creio que se confunde: 'gostar de' e 'gostar de ir ao'. mm com todas as hipóteses de aceder à obra fílmica (que não à obra cinematográfica - ou talvez vice-versa, estou cansada, é muito tarde) que hoje nos são oferecidas. suponho mm que ambos se confundem tanto que, sem ceder a qq purismos desajustados, a nossa memória de um filme é também a memória do local onde o vimos. e se sós ou acompanhados, até. (aceito contraditório).

- qt à parte final do teu post, comentei-a logo pela manhãzinha. e tou prali com uma quantidade de posts latentes pra partilhar 'momentos de cinema'.
acho mesmo, marina, que me deste uma ideia do caraças; se bem poupadita, me vai permitir posts até ao final do ano!!!

jocas a todos. isto hoje já animou um nikito!! bjs!

Ana Soares disse...

(F***! Ja tinha um comentario todo catita e esta m*** desapareceu. Estou danada! Tentei recuperar a linhado que escrevi antes, mas deve haver por ai "buracos", mais do que os que ja estavam pela natureza do proprio argumento. Paciencia, amigos, e cara alegre.)
Fixe! Gosto e' de ideias animadas, isto sim! Ora bem, o artigo do Schickel e' polemico o bastante e nao o subscrevo totalmente. Quando o li comecei por me sentir seduzida pela ideia (tambem conservadora) do "nao suba o sapateiro acima da chinela". Mas, afinal, a coisa tem de ser bem vista. Schickel fala desde o ponto de vista de um panico critico, gerado ultimamente pela proliferacao de meios eficazes e rapidissimos de transmissao de opiniao. Afinal, se se confundirem as duas coisas, opiniao e critica (aceitemos, para ja, que sao distintas), muito bom critico "encartado" (aceitemos que existem, de facto) ficara em perigo de extincao por fusao completa com os desencartados (id), ou meros (va, so mais um esforco) "opinion-givers". Mas o que nao subscrevo, acima de tudo, e' o tom de Schickel, pois acaba por deitar a perder a validade do seu argumento. Vejo o amor aos filmes como um patamar: para que uma analise seja feliz ("successfull", bem sucedida, e' este o sentido de "felicidade" a que aqui recorro), tem de, em algum momento, amar-se aquilo que se analisa (nao e' assim com tudo a que queremos dedicar o nosso tempo e o nosso esforco?). Mas nao se trata de uma operacao de factores necessariamente comutaveis: nao e' preciso, para se amar um filme, que se analise. Dizia, no meu comentario perdido, duma maneira muito menos foleira do que me saira agora, que isto era assim como uma estrada em que uns caminham, vao andando pelos filmes, para os conhecer melhor, analisandos, esventrando-os (eu nao disse?), enquanto outros ficam sentadinhos 'a beira da estrada, ou no meio dela, so numa contemplacao amadora (ih, pois era, metia o Barthes e tudo, caracas, agora, pffff...). Ora, e disto me lembro bem, a mim da-me nos nervos ("gets on my nerves", claro) que, se for eu a estar sentadinha, na minha, a amar um filme, me venha um caminhante obrigar a retomar a estrada. Ou, pelas mesmas razoes, que, se andar muito entretida a apanhar pedrinhas 'a medida que vou seguindo, me forcem a sentar-me e a contemplar. Nao sei se sera possivel amar e analisar ao mesmo tempo. A questao e' complicada e sinceramente nao vejo uma resposta definitiva. Sei e' que, aqui neste espaco por natureza livre, a ultima coisa que me verao a fazer e' obrigar alguem a seguir ou a parar, a fechar ou a abrir os olhos. Entendam as metaforas como quiserem. Ama-se tao bem 'as cegas como num descampado de que o sol nao se desvia. Ora, que p****! Isto estava muito melhor. A ver se na proxima polemica nao sou tao naba com os comentarios. Marina, OBRIGADA!

anabela moutinho disse...

lol ana! é f****** sim senhora qd tal acontece! raios p**** o blogger etc e tal!

agora:
eu tb me estava a parecer fruta a mais.. que alinhasses por um discurso ADORAVELMENTE tão elitista quanto aquele, que eu, NATURALMENTE, subscrevo letra a letra.

(e EM PARTICULAR o tom dele!!)

«nao e' preciso, para se amar um filme, que se analise.» ele não diz o contrário. ou eu li mal o txt ou tu é que o estás a ler mal: ele não fala de amar os filmes, os filmes que se veem ou os filmes que se analisam. fala sim na critic and review de filmes. certo?...

mas isto, amei: «Ora, e disto me lembro bem, a mim da-me nos nervos ("gets on my nerves", claro) que, se for eu a estar sentadinha, na minha, a amar um filme, me venha um caminhante obrigar a retomar a estrada. Ou, pelas mesmas razoes, que, se andar muito entretida a apanhar pedrinhas 'a medida que vou seguindo, me forcem a sentar-me e a contemplar.» contudo, insisto, ele não defende o contrário...

crítica ao método introspectivo usado na psicologia: o observador não pode ser o observado em simultâneo. foi o que me lembrou esta tua frase: «Nao sei se sera possivel amar e analisar ao mesmo tempo.» mas sabes, amor? pode sim. amar e analisar. e amar porque analisou. e analisar sem amar. e analisar com amor.

o que não pode (deve) é ter-se a pretensão que se analisa só pq se mandam uns bitaites, como o prof da marina. porque o dito schickel tem TODA A RAZÃO: And they need to prove, not merely assert, their right to an opinion.»

beijos