última sessão de homenagem a ANGELOPOULOS - 5ªf: A ETERNIDADE E UM DIA

5ªF, 21H30, SEDE. ENTRADA LIVRE.

Algures em A Eternidade e Um Dia conta-se a história de um poeta que ia aprendendo palavras e as compunha na esperança de que a Verdade as viesse habitar.

A história é, evidentemente, um símbolo, uma metáfora, das muitas que circulam por este filme envolvente, bonito e vazio. Tantas que se justifica dizer que Angelopoulos não tinha uma história para contar, mas que pretendeu organizar um conjunto de janelas fortes na qual inscrevesse sinais que o espectador leria com facilidade, nisso se sentindo em simultâneo inteligente, culto e saciado na sua necessidade de temas profundos (nada menos que o amor, a morte e o sentido da vida andam por ali). Tantas que quase apetece decretar que ao cinema seja interdito o uso de símbolos, que a metáfora seja considerada «persona non grata» da narrativa fílmica - salvo a dos leões no Potemkine, porque, realmente, quando a pedra se move, é razão para ficarmos em silêncio, se não em sentido.

Acontece que a história do poeta é símbolo conveniente para a atitude que julgo detectar nesta fita. Um cineasta internacionalmente consagrado como autor, inegavelmente dotado para a manipulação das matérias com que se faz o cinema, organiza um filme com um saber-fazer excepcional. Ele conhece as regras e os modos.

Começa por nos enlear na fábula (a história da cidade afundada que emerge apenas em noites de lua cheia, ainda antes do genérico), por nos acariciar a dolência pela música, por nos colocar na sempre funcional situação de um homem à beira da morte que rememora infâncias, defronta a solidão e tem inacabada a razão para a sua vida.

Depois, seja a escolha cenográfica, como a sábia utilização do plano-sequência, com ele se inventando o espaço e navegando o tempo, ou a astúcia pictórica (os nevoeiros, os três homens de amarelo que atravessam a noite), tudo labora como um relógio paciente e exacto. Vê-se o maquinismo a funcionar. Ganhar a Palma de Ouro em Cannes é uma das coisas que se lê no mostrador. Mas tal como um relógio não tem surpresas (a precisão do engenho é exactamente para garantir o cumprimento rigoroso da previsibilidade), A Eternidade e Um Dia contabiliza formas para cumprir uma expectativa: um filme de autor consagrado. E, como o poeta, o realizador espera que uma Verdade as habite. Mas não habita.

O que mais me impressiona na fita é pressentir encurralado Theo Angelopoulos, expoente do cinema grego, do cinema europeu, do cinema. Pressenti-lo cativo da sua própria imagem de marca, incapaz de sair do «efeito Angelopoulos», subjugando-nos pelo modo que não pela emoção da inventiva.

Lembro-me, algures, na minha vida de espectador de cinema já longa de décadas, de ter sentido idêntico constrangimento com cineastas tão notáveis como Ingmar Bergman (Lágrimas e Suspiros) e Martin Scorsese (New York, New York).
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Jorge Leitão Ramos, Expresso, 14/8/99


O que nos perturba neste filme, na senda dos outros dois estreados em Portugal e exibidos no Cineclube de Faro, é a dilatação do tempo e a nostalgia que se desprende no acto de uma vida à beira da morte.

Filme que se inscreve assim na obra recente do realizador de O passo suspenso da cegonha e de O olhar de Ulisses. Entrar neste cinema é igualmente uma viagem física e uma viagem pela memória. Obsessão de quem se interroga sobre a desordem de um mundo (os Balcãs) à beira da aniquilação. Do qual é preciso falar no presente, invocando o peso do passado. Por isso, à beira da fronteira, espaço de todas as ruptura, espaço mítico das sombras (belíssimo plano dos que, agarrados à rede, procuram a salvação do outro lado).

Cinema da memória, já se disse, explicitamente na busca das imagens da felicidade do passado, mas também do que ficou por completar.

À procura do filme nunca visto em O olhar de Ulisses corresponde a obra de um poeta desconhecido em A eternidade e um dia.

Ou a urgência de deixar "ver". Ou a urgência de perseguir a imagem ou a palavra do Homem, antes da de Deus.

Filme formalmente muito belo, com planos de "lavar os olhos”, mas provavelmente, demasiado artificial e maneirista para deixar respirar a história. Onde anteriormente Angelopoulos nos fizera arrepiar e emocionar, há neste filme algo de "já visto" e de excessivamente formal. Talvez um exagero de sentimentalismo perpasse este filme, na história do poeta que vai morrer (admirável Bruno Ganz, anjo exilado de As asas do desejo) e dedica o seu último dia a uma criança da rua, refugiado albanês. Uma espécie de último fôlego, de um encontro terminal com o doloroso real, ou de como há ainda uma certa esperança de que alguém nos recorde.

Não será o melhor filme deste autor, mas falamos de um cinema rigoroso e poético como há poucos. A eternidade e um dia ou a missão de um último dia com valor de primeiro face à eternidade do passado, face à eternidade, ela própria. Vã tentativa de eternizar o tempo de "aqui e agora", de deixar um rasto, uma poalha de estrelas nos olhos de alguém.
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Graça Lobo, Boletim Cineclube de Faro – Semana do Cinema Europeu, 1999


Pode traçar-se um caminho na longa carreira de Theo Angelopoulos, desde sempre vincada por uma errância desesperada. As suas personagens sentem-na dentro de si pelo inconformismo com o mundo, estão condenadas a uma emanação muito cara a Homero e à epopeia grega. Os filmes do autor acompanham essa viagem a partir das sensações das personagens, materializam a poesia odisseica sem ultrapassarem a fronteira (símbolo tão importante para Angelopoulos e para este filme em especial) que significa a morte.

A primeira fase da sua obra é totalmente dedicada à história política e social da Grécia - Angelopoulos revelava o seu cunho de autor baseado numa formação marxista, (falamos do seu período criativo durante os anos 70, em especial desse monumental fresco chamado A Viagem dos Actores) desenvolvia um cinema militante recusando qualquer registo melodramático e consolidava um trabalho estético notável, devolvendo um olhar universal sobre a revolta do Homem.

O tempo e o espaço cinematográficos encontravam uma simbiose rara que se tomou uma marca do cineasta, reconhecida ainda nos seus filmes recentes: o pêndulo da memória está em assalto constante por um presente contínuo, auxiliado por soberbos planos-sequência que desvelam, em bifurcação, a vida de cada figura e a sua relação com o mundo circundante. Nunca há uma aproximação realista e directa com o exterior - este está em permanente dialéctica com o âmago das personagens: a dinâmica de tudo o que está de dentro e de fora em cada filme de Angelopoulos, joga-se na fusão espácio-temporal.


Desde Reconstituição, a sua primeira longa-metragem, até Alexandre o Grande, Angelopoulos está envolvido nessa esfera política, bastante ligada a Brecht. Mas, pela sua formação, sente como poucos a queda das utopias em que acreditava. Passa a desenvolver uma relação menos intensa com a história e os seus filmes se¬guintes, sobretudo Paisagem nas Trevas (1988) e O Passo Suspenso da Cegonha (1991), são mais melancólicos. A poesia esconde nestas obras finais uma violência surda que nasce da impotência dos protagonistas (quase todos envelhecidos, somas de um alter ego do autor). Da influência de Brecht na fase anterior, Angelopoulos parece pretender passar em vão ao estigma de Marcel Proust e à sensação de «procura de um tempo perdido».

Depois de O Olhar de Ulisses, A Eternidade e Um Dia prossegue esse passo mas já só surpreende pela sua enorme beleza plástica. A manta de retalhos que se encontrava sobre a Grécia nos filmes da primeira fase (como se o autor visse os fragmentos de um país em evolutivo estado de decomposição) cai aqui numa visão europeísta e demagógica, centra¬da nos recentes conflitos dos Balcãs. Voltamos às imagens em possessão, desta vez as de «outro»Alexandre (interpretação de Bruno Ganz), um poeta que se encontra às portas da morte. Alexandre não consegue acabar um derradeiro poema, iniciado por Dionysios Solomos, o autor do hino nacional grego (séc. XIX). A falta de inspiração, provocada pelo assombro do passado, é perturbada por uma criança albanesa que ele tenta salvar de um destino incerto (a infância tem sido um assunto importante nos últimos anos: Angelopoulos encontra-lhe uma vitalidade perdida nos adultos). Tal como o nevoeiro do «passo suspenso» e a cor pálida que tinge A Eternidade e Um Dia, essa criança dissipa-se a todo o momento. Alexandre oferece-lhe dinheiro por palavras que já não pode encontrar, a criança foge quando ele menos espera.

O espectador que conhece a obra do realizador consegue sentir o problema: A Eternidade e Um Dia está admiravelmente filmado mas o raciocínio é, pela primeira vez em Angelopoulos, ultrapassado pelo embasbaque.
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Francisco Ferreira, Expresso, 14/8/99




Título Original: Mia Aiwniothta Kai Mia Mera
Realização e Argumento: Theo Angelopoulos
Com Colaboração de: Tonino Guerra, Petros Markaris
Imagem: Giorgios Arvanitis
Montagem: Yannis Tsitsopoulos
Som: Nikos Papadimitriou
Música: Eleni Karaindrou
Interpretação: Bruno Ganz, Fabrizio Bentivoglio, Isabelle Renauld, Achileas Skevis
Origem: Grécia/França/Itália
Ano: 1998
Duração: 137’

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