Desassossego - parte 7, as entrevistas ao realizador

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!) e do protagonista CLÁUDIO DA SILVA

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

Bilhetes já à venda (sede ao lado da Zara, 2ªf, 3ªf e 4ªf, 10h30-12h30 / 14h30-17h30, e sessões IPJ às 2ªf 21h30)


Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.







ENTREVISTAS

Começou, há 30 anos, com um encontro entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, passou por Dickens, Diderot, Agustina (introduzir aqui Carolina Salgado é quase sacrílego). Agora, João Botelho regressa à língua que é a sua pátria com Filme do Desassossego.

O realizador ousou entrar no infinito particular de Bernardo Soares. Numa fase complicada da sua vida, o Livro do Desassossego caiu-lhe em cima: "Salvou-me a vida". O livro, os fragmentos, as palavras, toda aquela "depressão serena e tormentosa", a transcendência, a melancolia, o estranhamento, a incomodidade de uma cidade que acolhe e é hostil vão andar em digressão por telas de todo o país. E de um não-livro, de uma ruína literária João Botelho ergueu um filme que não é de época mas que é fora de época. E de um livro-caos, encontrou o seu pedaço de cosmos, sem fim, nem meio, nem princípio - exactamente por esta desordem.

Desta fez tentou o impossível ao adaptar ao cinema um livro que muitos sustentam que nem existe?
Não é impossível. As pessoas pensam sempre que é difícil adaptar literatura ao cinema, quando os textos são muito bons. Difícil é não ter medo dos textos. Diz-se que para fazer um bom filme é preciso utilizar um mau romance. Hitchock é que sabia disso, de romances de cordel fazia obras primas do cinema. Pegar em obras muito fortes da literatura é arriscado. Há inconvenientes que são os de fazer cinema em Portugal: os filmes são raros, há pouco dinheiro, é cada vez mais difícil filmar... Mas há uma vantagem que é a de ser ir arriscando, de ser fazerem protótipos e não séries e repetições, e tentar que os filmes sejam importantes. Por exemplo, com a Conversa Acabada, há 30 anos, interessou-me pegar no modernismo português como afirmação de algo inovador da cultura portuguesa. Peguei na relação entre o Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro, que tinha a ver com a criação e a amizade. Foi talvez a coisa mais arriscada que fiz na vida. Agora apeteceu-me voltar à carga. Senti-me novo, outra vez...

Lembra-se de algum caso em que um bom livro tenha dado um bom filme?
Sei lá... Rebecca de Daphne du Maurier. Hitchcock fez-lhe uma boa adaptação.

O Leopardo de Visconti?
Nem sei se o filme nem é melhor que o romance. Mas neste caso, eu não fiz um filme do Livro do Desassossego, eu fiz uma parte do Livro do Desassossego, aproveitei bocados. O Livro do Desassossego tem uma vantagem sobre as outras coisas, é um livro que não tem princípio nem meio nem fim. O Richard Zenith vai na sétima versão, cada um pode fazer um livro de desassossego diferente, pegar naquilo e ordená-lo por metonímicas, associações de ideias, cronologias, racords de luz e de música...

Qual foi a sua ordem?
Foi a ordem que Pessoa me indicou. (risos) A sério. Uma é a ideia do tempo que me ajudou a estruturar o filme todo. O tempo do sonho nunca é o tempo da vida. No cinema também não. O filme é estruturado em três dias e três noites na vida de Bernardo Soares, mas podem ser três minutos. Na primeira cena faltam três minutos para as três da manhã e na última, o relógio marca três. E, na verdade, o filme dura uma hora e 59 minutos... São caixas dentro de caixas...

O filme acompanha as deambulações quase sonâmbulas de Bernardo Soares...
Ele não é um heterónimo, é quase um Fernando Pessoa, mora em Lisboa na mesma rua ("sou da rua dos douradores como a humanidade de inteira"), tem quase a mesma profissão de Pessoa, que não é guarda-livros mas também trabalha num escritório, leva uma vida miserável, de abnegação, de isolamento. E essa ideia de viagem que não vai ter a lado nenhum também me ajudou. "Comboio andando ao Cais do Sodré. Chego a Lisboa mas a nenhuma conclusão" Uau! (risos)

Fernando Pessoa odiava viajar...
Mas se calhar sem sair do mesmo lugar foi a pessoa que mais viajou. A ideia de tempo e de viagens que não existem, esse fingimentos interessaram-me muito na construção deste filme. Porque no cinema também é tudo a fingir. A única verdade do cinema é a relação entre o espectador e aquilo que vê. De resto, não se viaja, não se morre no cinema, não se vai para a cama no cinema a não ser nos pornos. E houve uma frase muito bonita que me confirmou o desejo de ser democrátrico quando filmo: "Devem-se iluminar as polainas com a mesma luz que se iluminam as caras dos santos". E eu tentei fazer isso toda a minha vida. Os ricos e os pobres devem ter a mesma dignidade de luz. O cinema é luz e sombra e pessoas aflitas lá dentro. E o Livro do Desassossego é isso também: luzes e sombras e uma pessoa aflita. Mas a melhor frase de todas, aquela que me deu o filme, diz que os grandes textos dele "só existem lidos em voz alta ou em voz baixa desde que se ouçam". Portanto, só no cinema ou no teatro fazem sentido. Têm uma musicalidade, e uma outra camada completamente estranha em relação ao que está escrito. O que está escrito tem um sentido ou um não sentido ou o quiser, mas ganha-se outro quando se começa a falar em voz alta. Mesmo com o meu sotaque do Alto Douro, a gente começa a falar e cria-se uma dimensão estranha.

Mas se só lhe tivessem interessado as imagens filmava com o ecrã em preto como o João César Monteiro... As palavras também lhe inspiraram imagens?
Não sei se consegui ou não, mas tentei não ilustrar nada, o texto devia ganhar, e estar sempre acima de qualquer coisa. Apenas criei situações em que os textos pudessem ser ditos. Tentei tornar Lisboa o mais abstracta possível, tornando-a muito inquietante. Quando ele sai desesperado da igreja depois de resposta sobre a existência de Deus dada por um coro de crianças diabólicas, mudo a geografia da cidade, a casa dos bicos está em cima da calçada de São Francisco... Isso tem a ver com ideia de modernidade, de cubismo, com esta Lisboa de cartão como planos esmagados em cima uns dos outros. Lisboa não é muito bonita casa a casa, mas é deslumbrante com as casas todas juntas. Deu-me essa ideia de distorcer Lisboa, também através de vidros pintados à frente da câmara, planos filmados a partir de espelhos, sombras artesanais projectadas na parede. Coisas de estranheza. Eu não gosto muito das coisas, gosto das ideias das coisas. Fui buscar o escritório mais sinistro que podia encontrar em Lisboa, no Arquivo Militar em Chelas, com salas e salas monumentais e corredores muito estreitos, que desse a sensação de esmagamento às pessoas que lá trabalham. O sótão onde Bernardo Soares vive, angustia-o pelo vazio. O restaurante Sol Mar, nas portas de Santo Antão podia ser um décor de hoje, de ontem ou daqui a 40 anos. A ideia era sempre criar estranheza. Como o travelling da fila das sopa dos pobres nas arcadas do Terreiro do Paço e a rapariga nua debaixo de um casaco de peles a passar...

Mas esse já é um toque muito seu...
Essa cena foi-me inspirada num filme em que há um concurso de aristocratas para ver quem traz a coisa mais excêntrica. Ganha o que leva um pobre... Ricos e pobres divertem-se da mesma maneira. Têm suas drogas, apenas as dos ricos são mais requintadas.

Um é a sopa dos pobres outro o manjar dos ricos...
Mas é tudo igual. Só a pose de divertimento nos ricos é diferente da dos pobres.

A Alexandra Lencastre faz de centro de mesa...
A Alexandra é uma querida. É uma brincadeira por causa da Mulher que Queria Ser Presidente dos EUA e também uma homenagem à própria Alexandra.

Alexandra Lencastre, Catarina Wallenstein, Ana Moreira, Mónica Calle, Margarida Vila-Nova, Rita Blanco... Quase que dá vontade de perguntar que actriz não entra no seu filme?
A Maria João Luís que é óptima, por exemplo, quem me dera...

Mas descobriu um Bernardo Soares admirável...
O Cláudio Silva é um grande actor mas não lhe têm ligado muito. É um rapaz predestinado para representar, tem uma excelente voz, é calmo e inquietante. É um grande actor mas que andava um bocado perdido por aí...Vi-o numa peça de Shakespeare, no Dona Maria, Tanto Amor Desperdiçado, e ele fazia um papel deslumbrante. Eu disse: "É este!". Teve uma doença infantil que lhe deu uma pequena deficiência física. Ele é muito bonito e dramático - assim uma mistura entre Gael Garcia Bernal e Johnny Depp. Tem uma grande coragem de interpretação. Entrou mesmo no personagem, foi um óptimo portador. Dei-lhe uma pequena indicação: "Ó Cláudio, no cinema os olhos são mais importantes que o resto. Não pestanejes". E ele não pestanejou o filme inteiro. Apenas duas vezes quando o fumo do tabaco lhe incomodava os olhos e, mesmo assim, pestaneja em câmara lenta, que é uma coisa que só a Anna Magnani conseguia.

Ao longo deste processo nunca se sentiu um profanador, ao dar um cosmos a um livro-caos?
Quis fazer um filme sério a partir daquele que é talvez a obra mais importante da literatura portuguesa do século XX. Mas não lhe dei sentidos, aquilo não tem repostas só perguntas. Queria encontrar uma Lisboa que fosse justa com o texto. Nem realista, nem vouyeurista. Queria inquietar. Os filmes não devem confortar as pessoas. Kafka diz que a literatura deve rasgar, dividir, partir incomodar, em última instância levar suicídio. Depois há uma criança que diz 'Ó pai... ' (Risos) As pessoas não devem ficar indiferentes nem consumidoras. O sexo no filme é seco, duro, não é voyeurista... Há uma violência física extraordinário, sem uma única palavra. Queria que o texto fosse mais importante. Como o grande plano da boca da Catarina no texto da Educação Sentimental dito na íntegra. É ali, na língua, na saliva, no lábio, é dali que sai a voz, a origem...

Porque que é que as mulheres são sempre assim nos seus filmes, lábios vermelhos, vestidos de cores saturadas e penteados exuberantes?
Porque ficam mais giras (risos). São ideias de mulheres, não são mulheres. Quando fiz A Mulher que Queria Ser Presidente... fui acusado de misógino. Não era nada, aquilo era a Sarah Palin dez anos antes. Era igual, juro-lhe, era uma ideia do que iria acontecer.
Quando fiz o Tráfico, ninguém diria que Portugal ia ficar assim, mas ficou... Nós realizadores temos tempo para pensar, portanto podemos anunciar qualquer coisa. Gosto de estilizar, de ser abstracto. Passo a vida fazer a uma coisa nos meus filmes: dar um rebuçado ao espectador e depois tirá-lo de repente. Só têm um defeito: vê-se a estrutura toda, onde está a câmara, de onde vem a luz, como é montado...

Isso é bom ou mau?
Há pessoas que dizem que é mau porque retira às pessoas a capacidade de se evadirem, mas eu sou contra o cinema da ilusão, sou a favor do cinema da matéria. Gosto de pintura abstracta. Quando ouço musica não penso em nada. O problema do cinema é que concretiza de mais. Na literatura há uma liberdade que o cinema não tem. Diz-nos: "Aquele senhor anda com sapatos castanhos e camisa verde" e nós podemos imaginar centenas de tons de castanhos e de verde. No cinema não, é aquele castanho e aquele verde. A ideia é chegar a esta abstracção. Mas nunca se consegue a abstracção que outras artes conseguem. Tem sempre de contar, tem sempre de mostrar. O cinema é uma arte com pecado. No princípio para se ver cinema metia-se uma moedinha e tornava-se logo negócio, nunca se conseguiu libertar desse lado, porque é caro e tem de haver retorno. Depois é uma arte vampírica, não é uma coisa pura, vai buscar ao teatro, à música, à poesia... É uma ladroagem. Eu sou um vampiro. Por exemplo, este filme está estruturado em torno de dois pintores: um é Gerhard Richter sobre o desfoque e a percepção, por isso é que Pessoa limpa os óculos no início. Outro é Lucian Freud para a posição e aquele torcer dos corpos. E depois há um com que ando toda a vida que é o "sr Caravaggio". que me ensinou o que era a sombra e a luz, a luz pontual que ilumina uma mão e um olho. E depois há aquela memória que se me vai acumulando, a arte pop, cores fortes, os lábios vermelhos, os homens cinzentos e mulheres exuberantes...

No filme há 12 minutos de ópera, três fados, uma música estranha de Lula Pena, outra de Caetano, um bocadinho de rap numa cozinha - mas não é um musical. Em que género o inscreve?
Em nenhum. Podia ser assim como as peças do Brecht em que há sempre zonas musicas que comentam a cena anterior, Aqui as partes musicais, ligam, mais do que comentam. O Eisenstein fez a montagem de atracções, do pára e arranca, como a vida. Só que é cinema, não a vida. Logo é abstracto.

Conta-se que o Eisenstein queria filmar também algo tão impossível como O Capital...
Seria uma coisa genial. Garanto-lhe que se pode fazer um grande filme sobre O Capital, juro-lhe. As pessoas têm a mania que o cinema é uma coisa só, uma arte de se contar histórias, mas não é...

Talvez agora com o trecho "a minha pátria é a língua portuguesa" no seu filme as pessoas reparem que é um texto nada patriótico...
Porque Pessoa foi tudo, de direita, de esquerda, do centro e viva a contradição! Um génio! Eduardo Lourenço diz que esse trecho é a maior invenção desde as Descobertas. Ele diz que não se importava nada que nos invadissem, que viessem os espanhóis, desde que não o incomodassem pessoalmente. E acaba esse trecho com uma frase notável: "Eu não escrevo em português, escrevo eu mesmo". Depois há partes de um individualismo absoluto, sobre o isolamento e a capacidade de criar. No meu filme, ele acaba a dizer 'Deus sou eu , ah, ah ah'... (risos) É preciso ter muita lata...

Também é preciso ter muita lata para ter entrado neste universo pessoano?
Calhou-me... Caiu-me na cabeça. Estava numa fase estranha da minha vida, naquelas fases em que a pessoa nem sabe se está velho se está novo, e comecei a ler o Livro do Desassossego, em simultâneo com a Corte do Norte. Aquilo salvou-me. O que é o meu sofrimento ao pé deste? Aquele grande texto está para lá de nós. É um livro da abdicação e do prazer enorme de se estar sozinho. É um prazer enorme da solidão. É um tratado de escrita.

Fernando Pessoa dizia que Bernardo Soares era ele "sem afectividade nem racionalidade". Parece que sobra pouco para a sua personagem?
Sobra tanto, minha querida, sobra tanto... É a transcendência. A arte abstracta também não tem afectividade nem racionalidade e eu choro perante um Pollock. É emoção pura, arrepia-me, fico angustiado. Há coisas que nos deixam num estado superior da vida, levam-nos para cima. Há coisas que estão para além da expressão dos sentimentos... Há uma frase que diz que "quando a arte era a observância cuidada das regras havia poucos artistas e eram muito bons, quando a arte se transformou numa expressão dos sentimentos é uma porcaria, toda a gente pode ser artista porque toda a gente tem sentimentos..."(risos). Há coisas que estão para lá dos sentimentos, são construções...Quantas horas terá levado Pessoa a escrever isto, quantos neurónios terá gastado? Para escrever assim só mesmo levando uma vida anónima e desinteressante. E quando morreu aos 47 parecia que tinha 80...Como o Da Vinci parecia que tinha 100.

Porque é que optou por não estrear o filme no circuito comercial?
Esta é uma opção comercial, garanto-lhe. Os circuitos comerciais estão reduzidos a centros comerciais. A Corte do Norte foi esmagada por centros comerciais. Hoje quem vai ao cinema são crianças entre os 8 e 18 e querem ver entretenimento, com pipocas, telemoveis, galhofas, e medos e sustos. São contos para crianças, conta-se tudo em três minutos. No tempo dos grandes clássicos cada plano tinha dez ideias, agora uma ideia dá para um filme inteiro. Muitos efeitos, muitas imagens, três mil planos, os miúdos hoje só se concentram com o desfilar das imagens, se a pessoa lhe der um plano fixo, são incapazes de ver o vento nas árvores. Têm um cérebro, se calhar, muito maior do que o meu, mas não tem pensamento abstracto, não projectam geometricamente no espaço, não entendem as contradições e a dialéctica, mas têm gosto. Este filme vai ter mais espectadores e receitas nos cineteatros do país. E vou ter uma coisa fantástica que já não tenho há muito tempo: pessoas em silêncio a ver e ouvir.

Mas face a isso, essa opção, é uma desistência ou uma resistência?
É uma dissidência. Quando se é resistente perde-se sempre, ensinou-me Jean-Marie Straub. Porque é que eu hei-de de ter 10 mil espectadores se posso ter 40 mil? Se não posso ganhar as maiorias, quero ganhar as minorias.

Ana Margarida de Carvalho, Visão


É uma das obras mais arriscadas da filmografia de João Botelho: "Filme do Desassossego", adaptação do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, tem estreia absoluta no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, na próxima quarta-feira, dia 29. É uma obra central da literatura portuguesa, das mais traduzidas a nível mundial, que chega agora ao cinema, dando corpo a Bernardo Soares, o quase-heterónimo que Pessoa criou para espelhar a sua vida diária em Lisboa, e às projecções que Botelho construiu da cidade. Num gesto radical, o cineasta recusou distribuir o filme nas salas de cinema do país e optou por criar o seu próprio roteiro alternativo: depois da estreia, o filme será exibido numa rede de salas de espectáculo e de cineteatros espalhada pelo continente e pelas ilhas.

Como se adapta o "Livro do Desassossego"? É um livro em que tudo é relativo e o relativo é absoluto....
Podia fazer um filme de 50 horas ou 50 filmes de uma hora. O "Livro do Desassossego" não é um livro definitivo, é um livro aberto. Podíamos ir pela cronologia de vida, por associação de ideias. Mas quis uma cronologia na progressão: há um hiato de 15 anos entre a primeira fase do texto e o final, mais maduro. Qualquer um de nós pode fazer um "Livro do Desassossego": o Pessoa permitiu isso, é um puzzle sem fim nem solução. E isso é muito agradável no cinema. Tinha isso como ponto de partida: a ideia de que o cinema é aberto. Há três coisas no "Livro do Desassossego" que me levaram a esse risco. A primeira é a sua ideia de luz: devem iluminar-se as caras dos santos e as polainas das pessoas normais da mesma maneira. Pessoa ia ao cinema - o Richard Zenith [investigador pessoano e organizador da edição do "Livro do Desassossego" na Assírio & Alvim] disse-me que havia textos inéditos dele sobre cinema. Depois, havia um texto sobre a distorção do tempo. Como o tempo do cinema nunca é o da vida, isso deu-me a estrutura do filme. Parece que se passa em três dias e três noites, e depois em três minutos, mas na verdade passa-se no tempo real do filme. Por fim, havia uma afirmação fundamental: o "Livro do Desassossego" só existe em voz alta. Isso permitiu-me brincar com canções e óperas.

Essa oralidade torna a adaptação cinematográfica difícil devido à presença da declamação. É um filme em que toda a cidade tende para a literatura, o que pode ser sufocante.
Mas a ideia é sufocar. O grande risco está em não permitir que os actores interpretem o texto; não queria que acrescentassem sentidos abusivos. Por outro lado, queria tornar o filme o mais abstracto possível, com índices de realidade e de inverosimilhança e uma geografia de Lisboa fora do tempo, que tanto pode ser de há 30 anos como de daqui a 50. O filme são fragmentos em série, tal como a escrita de Bernardo Soares. Bernardo Soares está cada vez mais angustiado, e, quando parece que atinge o sossego, fica de novo desassossegado. Dá-nos armadilhas sucessivas, como quando diz "a minha pátria é a língua portuguesa" e a seguir "não escrevo em português, escrevo eu mesmo". O grande problema é ser digno do texto e não o violentar. Se calhar, o ideal seria fazer como o João César Monteiro, só com negro e texto. Mas precisava de uma Lisboa abstracta que permitisse a circulação de alguém que não é uma pessoa igual ao Pessoa, mas um quase-igual.

De onde vem a sua relação com o livro?
Estava numa crise de vida, comecei a ler o livro e não parei. O meu sofrimento, ao pé daquele, era ridículo. Salvou-me porque era um livro muito violento sobre a abdicação. Diz que não é preciso dançar, basta ver dançar. A grande dificuldade foi escolher o que deitar fora, trabalhei seis meses até chegar a uma solução razoável. Sei que é apenas uma das hipóteses de filmar o "Livro do Desassossego". Há textos que deixei quase integrais, como "Educação Sentimental", um dos mais comoventes que já li. Queria chegar à origem, fazer o grande plano da matéria do texto na sua boca. Chegar a isso foi muito atractivo.

Como é que se consegue ser livre a adaptar um livro com uma carga cultural tão pesada?
É-se livre quando se arrisca. O texto é do "Livro do Desassossego", mas fiz alterações para haver ligações. Ser livre é usar uma premissa que aprendi com Godard: pôr tudo num filme. Lumière é o meu início do cinema, mas este filme está cheio de Méliès: há vidros pintados à frente da câmara, sombras projectadas com papéis e um projector no chão. Tenho coisas feitas à mão, algo que me interessava experimentar. Há muitos planos feitos contra o espelho para dar uma inquietação da imagem. Não tinha muitos meios, mas gosto de filmar as ideias, como a ideia da morte e a ideia do sexo, sem "voyeurismo". Isso sim é complicado.

Como é que se filma o sonho?
Não há um único sonho, são cenas de ficção. Bernardo Soares inventa conversas como, por exemplo, a de Rita Blanco com Miguel Guilherme sobre a literatura e a gramática. Bernardo Soares diz: "Eles nunca disseram isto, inventei esta cena porque achei que deviam falar assim" . Interessava-me a possibilidade de uma ficção quase sem ficção. O cinema é uma associação de ideias, gosto que o cérebro circule, que não existam soluções mas inquietações. É um filme cheio de perguntas sobre a forma e as situações. No final, o livro não é dele: Pessoa inventou uma personagem e Bernardo Soares inventou as pessoas. E o que é decisivo nele é a maneira de escrever. Nem é o que está escrito - é a maneira como ele escreve. No texto da morte do Luís II da Baviera, dei conta de que podia dividi-lo em rimas musicais, como nas canções do filme. Queria afirmar a musicalidade de Pessoa.

Existe também uma ficção da cidade, cenas em que as paisagens de Lisboa se sobrepõem.
Interessou-me um texto dele sobre o cubismo. Filmei quase tudo a 50 metros de minha casa. É uma liberdade do cinema: ele vive na Rua dos Douradores, mas filmei-o noutro sítio. O escritório é o Arquivo Histórico Militar em Chelas, o mais angustiante que encontrei - são corredores de 80 metros de prateleiras com a nossa vida. Quis mudar a geografia de Lisboa porque Pessoa foi o maior viajante do mundo sem nunca ter saído da cidade. A sua escrita tem muitos níveis: psicanálise, psicologia, sociologia, textos de direita, de esquerda, anárquicos. É a fragmentação de um mundo sem centro, tal como o mundo de hoje. E isso é uma premonição em relação ao futuro.

Não existe o perigo de recriar a Lisboa de Pessoa como um postal?
Sei que Pessoa frequentava o Terreiro do Paço e gostava de estar no Cais das Colunas. Pôr a Lula Pena a cantar "O Criador de Argonautas" quando a personagem está em contraluz em relação à paisagem serve para atenuar isso. Pode parecer um postal, mas por outro lado é o meu Infante, é a perda do mar.
Quando abordo a solidão do Pessoa quanto à ideia de Deus, fui buscar a Igreja da Inquisição mais negra, com mais passado e peso cultural sobre Lisboa, onde houve um incêndio e se faziam os autos de fé. Quis uma geografia que destruísse a ideia do postal bem feito. É evidente que não podia fugir à Rua dos Douradores, aquela rua miserável e pequenina que foi uma grande parte da vida dele.

Acha que a Lisboa de Pessoa ainda está presente?
Sim. Ele pensava o futuro. Há uma luz que se faz em certas pessoas, como quando se faz as "Demoiselles d'Avignon" e se muda a pintura do mundo. Sei que os heterónimos já existiam, mas Pessoa criou um mundo de escrita, uma nova maneira de ligar as palavras portuguesas. Tive a sua arca comigo quando fiz "Conversa Acabada" (1982) e nem se sonhava com o "Livro do Desassossego", só se ouviu falar dele alguns anos depois... Encontrei folhas que pareciam can¬ções do Cole Porter. Ele meteu-se em tudo, era um cérebro descomunal.
Outro elemento do presente é a maneira como associa as actrizes às imagens a que estão associadas na representação ou na vida: a Mónica Calle como corpo nu, a Margarida Vila-Nova como mãe, a Ana Moreira como rapariga pálida, a Alexandra Lencastre como centro da mesa...
É a democracia do texto - utilizar os actores como são. O Cláudio da Silva, que interpreta o Bernardo Soares, anda com a manca que realmente tem. Quando diz que tem dificuldade em andar, é um texto meu, tive de justificar um actor que teve pólio na infância. Esse defeito (ou virtude) físico permitiu-me criar um desequilíbrio, sem o disfarçar. Trata-se de não esconder ou alterar as pessoas, poderem ser elas a dizer um texto de Pessoa. Peguei na minha família de actores e juntei outros, como a Maria Antunes, que trabalha no Lux e é a minha Vénus de peles. Quando filmo, pego sempre em dois pintores: peguei em Lucian Freud para filmar os corpos e em Gerhard Richter para a desfocagem. Depois destruí-os, porque é algo que não sei fazer, mas há sempre um ponto de partida de re¬erência. São matérias e convocações que me ajudam. Há coisas do Griffith neste filme, são memórias.

Como objecto cultural, o "Livro do Desassossego" também tem uma função escolar. O filme não vai passar nas salas de cinema e vai ser distribuído numa rede de teatros e escolas.
Vou fazer sessões à tarde em que vou falar de cinema, e também para os alunos das escolas e das faculdades. Há filmes que precisam disso. Fiquei muito triste com "A Corte do Norte" (2008): é uma boa adaptação de um livro da Agustina Bessa-Luís e fez uma merda de espectadores, desculpe a expressão. Já chega de salas de coca-colas, perdemos as salas todas. No centro do Porto, não há uma sala de cinema; em Lisboa, só em centros comerciais. É preciso criar dignidade no cinema, Inspirei-me no "Miserere" da Cornucópia, há uns meses, no Teatro Nacional D. Maria II. Estavam lá miúdos, uma confusão enorme, telemóveis ligados. Começou a peça e calaram-se, viram-na religiosamente. A dignidade da sala impôs respeito. E é também a ideia do cinema ambulante: uma carrinha e um projector, Somos apoiados pelo Estado, por isso devemos fazer serviço público. Não se pode estar numa sala a ouvir o texto de Bernardo Soares a comer e a beber.

As salas de cinema já não são dignas dos filmes?
Não. É uma coisa para aventuras infanto-juvenis. A maioria das pessoas que vão ao cinema são miúdos. Os adultos têm mais relação com as séries televisivas americanas, onde há mais cinema clássico, do que em filmes com três mil planos. Hoje, ir ao cinema é consumir, tanto faz comprar sapatos como ver um filme. Desapareceu a ideia da sala escura, a dignidade do espectáculo. Os adultos vêem em casa, com agrado, os "Sopranos" e o "The Office", que é uma invenção inacreditável do ponto de vista cinematográfico; eles olham para a câmara e não se sabe se é verdade ou mentira. Os miúdos vão às salas porque é uma aventura de adolescentes. Há miúdos que acham que o cinema começou com o Tarantino!

Mas que futuro é que as salas têm se cineastas que carregam a história do cinema já não passam lá os seus filmes?
É preciso fazer novas salas.

Mas se tirarmos os espectadores delas...
É preciso inventar circuitos de arte e ensaio que não sejam de consumo imediato. Quero chegar ao máximo número de pessoas, nunca penso fazer 300 mil espectadores, mas quero, pelo menos, 30 mil, não três mil. E a maneira de o fazer é com projecções no país inteiro. Depois, faço uma sessão na Aula Magna para 1.400 pessoas. Vou também a outras universidades arrastar as pessoas para uma sessão.

Vai seleccionar os seus espectadores...
Quem me dera que fosse para todos, mas não querem. Se eu pusesse o filme numa sala comercial, destruíam-me.

Numa sala comercial com 20 espectadores. 19 podem detestar o filme, mas há um que adora. Pode mudar a vida desse espectador.
Mas os 19 que detestam incomodam a pessoa que adora. Quero um sítio onde as pessoas sejam livres, sem telemóveis a perturbar a atenção. Como dizia o ManoeI de Oliveira, bastam dois espectadores para o filme existir, mas temos de chegar ao maior número de pessoas possível. Em Portugal, se o cinema não for apoiado pelo Estado, não existe. Os filmes que se dizem comerciais dão mais prejuízo do que os filmes de arte e ensaio. Não saem de cá e o mercado português não dá para pagar um décimo do filme. Somos apoiados pelo Estado, por isso temos de devolver a atenção que o Estado nos dá para ganhar o maior número de pessoas. Trata-se de dar a possibilidade de existir a um cinema que pensa.

Mas custa-lhe não poder fazer isso com outros filmes? Porque o "Livro do Desassossego" é um objecto que, à partida, permite...
Pode ser a inauguração de uma rede. Comprámos um projector para ir de sala em sala, vamos tentar pagá-lo com a exibição. Há teatros fantásticos: uns dão a receita, outros compram a exibição. Numa sala de cinema, o distribuidor dá apenas um quinto do bilhete ao produtor.
Francisco Valente, Público


Desassossego - parte 6, a rodagem

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!)

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

Bilhetes já à venda (sede ao lado da Zara, 2ªf, 3ªf e 4ªf, 10h30-12h30 / 14h30-17h30, e sessões IPJ às 2ªf 21h30)


Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.



RODAGEM
Desassossego: s. M. 1. Inquietação. 2. perturbação de ânimo. Assim é explicada a palavra pelo dicionário. Mas o desassossego é mais do que isso. Quem o diz é João Botelho, que passados quase trinta anos após Conversa Acabada (um filme sobre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), volta a mergulhar no universo pessoano. Tem pela frente a difícil tarefa de adaptar uma obra considerada um verdadeiro puzzle em aberto. Bernardo Soares, semi-heterónimo do poeta e escritor Fernando Pessoa, assina Livro do Desassossego. Anos mais tarde, João Botelho transporta esta história fragmentada para o cinema. O desafio é arriscado, mas seguramente o mais aliciante da carreira do realizador.

Passam poucos minutos depois das 23 horas. Chuva e vento fustigam o Terreiro do Paço, em Lisboa. Ao fundo, debaixo das arcadas, do lado esquerdo, uma vasta equipa de produção prepara o décor para que seja filmada mais uma cena de Filme do Desassossego. De cigarro na mão, João Botelho gesticula por entre os figurantes que participam nesta cena. O cinema em Portugal é muito precário e, portanto, quando se faz, deve-se fazer arriscado. (...) é um livro quase impossível de adaptar, vou correr um risco, afirma mais tarde quando gentilmente nos cede alguns minutos de entrevista antes de iniciar as filmagens dessa noite. Foram necessários cerca de dois anos a João Botelho para escolher os textos e compor o argumento baseado na obra mais conhecida, e traduzida para 37 línguas, de Fernando Pessoa. Tira o maço de cigarros do bolso, fica com eles na mão e esclarece: É evidente que isto não é o livro (...) do desassossego chama-se Filme do Desassossego e é um bocadinho do livro, mas é a minha adaptação (...). O livro é o limite do isolamento e espero que o filme também o seja. Apesar da profunda complexidade do texto de Livro do Desassossego, João Botelho encontrou três grandes indicações cinematográficas que o levaram a acreditar nas possibilidades desta adaptação: Em primeiro lugar, a luz é aqui muito importante. A luz que ilumina o face dos santos deve iluminar os sapatos dos homens comuns. Depois, o distorção do tempo: o tempo no cinema é como nos sonhos, nunca é o tempo real. E a terceira é que o Livro do Desassossego é feito para ser lido em voz alta. Detalhes visuais que levaram o realizador, nascido em Lamego, a acreditar na possibilidade desta adaptação. Não se considera um argumentista na verdadeira acessão da palavra, mas um ladrão de histórias: Acho que os realizadores roubam de todo o lado, são vampiros das outras coisas e eu roubei, a história do livro de uma certa maneira. (..). O texto do livro é maravilhoso, não é sobre o sonho, mas sim sobre a teoria dos sonhos, mas é sobretudo um texto sobre a língua portuguesa.

Esta nova incursão de Botelho ao universo de Pessoa deve-se ao enorme apreço que o realizador nutre pela escrita do autor modernista. Acende um cigarro e diz: Primeiro é uma defesa de um dos grandes textos da Literatura Portuguesa, se calhar o maior texto escrito no século XX (...) Preocupei-me muito com o texto, em ser fiel, em não perder uma palavra, uma sílaba, uma vírgula e em musicá-lo bem. E segundo é dizer que o texto não caiu do céu, caiu das preocupações individuais das pessoas e tem a ver com as pessoas hoje. Preocupações de ontem idênticas às de hoje. Problemas que assombram o quotidiano das pessoas, cada vez mais isoladas numa redoma chamada solidão. Apaixonado pelo próprio país, Botelho consegue com este filme realizar outro desejo antigo, o de filmar Lisboa. Uma homenagem que presta à cidade que diz amar. Nunca filmei um filme inteiro em Lisboa (...) e hoje estou a filmar finalmente o coração de Lisboa, no Terreiro do Paço, diz, esboçando um largo sorriso e soltando urna gargalhada. E é no Terreiro do Paço que se juntam mais de duas dezenas de figurantes para ouvirem as marcações do realizador. Um vento forte e gelado continua a soprar velozmente. mas a chuva parou. A cena que se filma é a recriação de uma sopa dos pobres. Por entre as dezenas de figurantes, habituados a trabalhar em cinema e contratados para esta cena, alguns são verdadeiros sem-abrigo da cidade de Lisboa. Passaram o dia com a equipa, jantaram com eles e partilharam histórias de vida. Receberam um cachet pela participação nesta produção nacional, onde a distância entre realidade e ficção ficou assim encurtada. Filme do Desassossego conta a história de três dias e três noites na vida de Bernardo Soares, personagem fictícia, sobre quem o realizador tem uma opinião que diverge de muitos especialistas: Bernardo Soares é quase igual a Pessoa, é quase um anagrama. Não é um heterónimo, ao contrário do que as pessoas pensam. Tem o mesmo tipo de profissão, o mesmo tipo de vida, o mesmo isolamento. Similares em quase tudo, como explica Botelho, diferem, no entanto, na escrita. Enquanto que Fernando Pessoa escreve versos, o semi-heterónimo expressa-se em prosa poética.
Para interpretar o papel de Bernardo Soares, a figura central deste drama, o realizador escolheu Cláudio da Silva. Com pouco mais de 30 anos, este actor é essencialmente conhecido pelos seus desempenhos no teatro. João Botelho acende outro cigarro e entusiasma-se ao falar do actor: Vi o Cláudio numa peça chamada Tanto Amor Desperdiçado, de Shahespeare. E achei-o incrível (...), é uma pessoa fora do vulgar e tem uma capacidade enorme de transportar, para a face, a imagem de um interior. Não sei o que ele pensa, mas o que ele diz faz-nos pensar quinhentas coisas que estão lá dentro.
Com um olhar profundo e misterioso, de quem abandona por instantes e para uma breve entrevista a personagem que habita por estes dias, Cláudio da Silva confessa-nos que a preparação desta personagem não diferiu muito do método que utiliza no teatro: Trabalha-se como normalmente se trabalha um personagem de teatro. Estuda-se o pape, lêem-se os livros que forem precisos e está-se atento às coisas que acontecem na nossa vida. Vai-se ouvindo o que as outras pessoas têm para dizer sobre o papel. recolhendo esse tipo de informação, para ir compondo a coisa. Enquanto apaga o cigarro, Botelho acrescenta: É um actor magnífico e grandioso (...) e depois tem uma coisa fantástica que é: não pestaneja. Acho que o cinema são os olhos. O olhar de um actor que dá vida a um homem complexo que toma nota dos próprios pensamentos fragmentados. Esta é uma história sobre a solidão e o desespero dos dias que correm, sobre o desassossego. De repente. Cláudio da Silva joga a mão ao bolso do casaco. Procura pelo caderno onde vai anotando pensamentos e ideias. Li uma vez uma coisa interessante a respeito disso... Continua a procurar no caderno. Encontra finalmente o que procura e lê: É o movimento do mistério. A pergunta era sobre o significado da palavra desassossego. A produção chama pelo actor principal do filme. Vão ensaiar a cena completa. Antes de se despedir, Cláudio reforça ainda: Sinto uma responsabilidade enorme pela importância que o livro tem e por trabalhar com o João, pela confiança que me foi oferecida. Para além de Cláudio da Silva, o filme conta ainda com um elenco composto por mais de 40 actores, entre os quais Margarida Vila-Nova, António Pedro Cerdeira, Rui Morrison, Ana Moreira, Suzana Borges, André Gomes, escolhas recorrentes nos filmes do realizador português.

Para o filme, serviu de ajuda preciosa à equipa de produção um protocolo assinado entre o realizador e a Câmara Municipal de Lisboa. O filme é caro, tem muita gente, muitos décors, é caro para Portugal e barato para o mundo. (...) Portanto, sugeri um protocolo. Fiz um documentário sobre Lisboa e Pessoa (...) e, em contrapartida. a câmara ajudou-nos, cedeu locais e autorizações para filmar e algum dinheiro para fazer o filme, explica o realizador. Os Lugares de Pessoa é o nome do documentário que se encontra já totalmente pronto e editado. Será lançado em Abril, para ser utilizado pela autarquia em acções de promoção. Produzido pela Ar de Filmes, Filme do Desassossego tem estreia marcada para o final do Verão. Um filme que brinca com os contrastes da história fragmentada de um homem solitário.

Paula Campos, Première, Abril 2010

Desassossego - parte 5, a inquietação de antónio rodrigues

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!) e do protagonista CLÁUDIO DA SILVA

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

Bilhetes já à venda (sede ao lado da Zara, 2ªf, 3ªf e 4ªf, 10h30-12h30 / 14h30-17h30, e sessões IPJ às 2ªf 21h30)


Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.




INQUIETAÇÃO, RECEIO, AGITAÇÃO, PERTURBAÇÃO, ALVOROÇO
(definições dos dicionários para desassossego)

O homem, um dia, emergiu do sonho
como de um deserto viscoso,
olhou para a vã luz da tarde, que confundiu de início
com a da aurora e percebeu que não tinha sonhado.
Durante toda aquela noite e todo o dia
a atroz lucidez da insónia se abateu sobre ele.
Jorge Luis Borges, “As Ruínas Circulares”

Numa entrevista de 1996, inserida no catálogo de uma retrospectiva que lhe foi consagrada em Bergamo, quando lhe perguntaram quais eram as características comuns que uniam os cineastas portugueses João Botelho respondeu: “a presença da literatura e sobretudo da poesia nos filmes, a escolha de enquadramentos secos, com uma composição muito cuidada, uma montagem descarnada. E a falta de dinheiro, que nos leva a fazer coisas estranhas…”.

Passados tantos anos e depois das mudanças radicais que o mundo conheceu desde então, estas observações não são certamente válidas para todos os cineastas portugueses em actividade (inclusive para os mais talentosos entre os mais novos), mas continuam a ser válidas para o cinema que faz João Botelho. Muito precisamente, para Filme do Desassossego. No entanto, algo mudou no que toca uma das características mencionadas por ele: a falta de dinheiro. O dinheiro continuou a ser pouco para este tipo de cinema e deverá ser cada vez mais escasso, pois o poder político já não se interessa de todo por alianças provisórias com os artistas que pensam e fazem pensar. Chegou à conclusão que eles já não lhes servem de nada. Mas houve uma mudança técnica, o suporte digital, que tornou o acto de filmar muito mais barato do que a rodagem em película. Por conseguinte, passou a ser possível filmar com menos dinheiro. O digital, no entanto, é uma faca de dois gumes. Como é extremamente (talvez excessivamente) simples filmar em suporte digital e que se pode obter de imediato uma imagem, sem se ter de esperar pelos custosos resultados do laboratório para ver o resultado daquilo que se filmou, não são poucos os que se contentam com qualquer imagem, com qualquer resultado: não trabalham a luz, o
enquadramento, a presença dos corpos, o peso da imagem. As novas tecnologias acarretaram um maremoto de amadorismo e desleixo formal, a tal ponto que não seria descabido sugerir uma volta aos Lumière: não para filmar como eles, mas para ver como faziam. Há mais consciência e maior domínio da matéria cinematográfica (do enquadramento, da duração, do acaso) nos filmes feitos pelos irmãos Lumière em 1895 do que em muitos filmes actuais, sobretudo os documentários, cujos realizadores são incapazes de terem ponto de vista e não conseguem fazer um plano que seja fixo e tenha mais de três segundos de duração, um plano que tenha consistência. Mas isto não é uma fatalidade. E se a imagem digital não terá jamais o mesmo peso e a mesma densidade do que a imagem em película (nem pode ter: a matéria é outra, são tão diferentes como a madeira e o betão), os cineastas que começaram por trabalhar em película e que não são poucos, nem são todos velhos (os mais novos têm cerca de trinta anos) chegam directa e naturalmente a uma imagem que tem peso e estrutura, que tem sentido, em que os ângulos de câmara e a luz são escolhidos, como um escritor escolhe as suas palavras e constrói as suas frases. As “coisas estranhas” a que se referia João Botelho em 1996 continuaram a ser possíveis e necessárias, o luxo de pobres que consiste em fazer cinema com consciência e estilo continua a ser possível. Filme do Desassossego é um desses filmes e, felizmente, é um exemplo entre muitos.

É um tanto ingénuo afirmar que ao se confrontar a O Livro do Desassossego João Botelho abordou uma tarefa impossível. Uma tarefa só é impossível se for abordada com meios inadequados. Descendente, como outros cineastas portugueses mais velhos e mais novos do que ele, de duas grandes vertentes do cinema moderno, complementares e até certo ponto antinómicas que são Jean-Marie Straub e Jean-Luc Godard, Botelho não se deixou intimidar pelo prestígio, a vastidão e a complexidade do texto de Pessoa. Nem se deixou intimidar pelo facto da maioria dos seus espectadores potenciais e reais desconhecerem por completo este texto. Não o abordou com a intenção de o ilustrar, mas num diálogo com uma matéria preexistente, num verdadeiro trabalho de encenação, não a encenação de acontecimentos dramáticos, de uma narrativa, mas a encenação de palavras e de ideias. Neste sentido, foi straubiano, não nas aparências, mas na essência e por isso o filme é tão denso, quase sem frestas. E ao situar o filme na Lisboa de hoje, com tudo o que a cidade pode ter de semelhante e diferente da de Fernando Pessoa, extraindo todos os monólogos e diálogos do texto pessoano, Botelho transformou este texto numa vasta citação, levando a um ponto extremo a poética da citação que está no cerne do cinema de Godard. Mas, para ele, Straub (Conversa Acabada) e Godard (Tráfico) nunca foram modelos e sim exemplos, pontos de partida e não de chegada, pontos de onde se partia nos anos 70 e 80, uma vez constatado o fim do ciclo do cinema clássico, uma vez definitivamente encerrado o período clássico do cinema, que Botelho conhece e ama (Hitchcock, Renoir e tantos outros) e do qual também descende, mas que optou desde sempre por não tentar prolongar.

O primeiro filme de João Botelho, Conversa Acabada (1982) aborda Fernando Pessoa, através da sua correspondência com Mário de Sá Carneiro, num filme composto por um diálogo à distância, que só é interrompido pela morte, pelo silêncio final. Em Filme do Desassossego o diálogo é mais complexo e se passa a dois níveis: com o texto pessoano e com o espectador, que talvez seja meu semelhante, meu irmão, talvez não. Tudo começa do modo mais simples: o encontro entre Fernando Pessoa e Bernardo Soares, que é mais um alter ego do que um heterónimo. Pessoa é caracterizado com o chapéu, os óculos e a gabardine a que o associamos (mas sem bigode), Bernardo Soares é um homem de trinta anos dos nossos tempos, com a cara e a roupa de um homem de hoje. Num bar nocturno e soturno, que podia estar na Lisboa dos anos 30 como na de hoje, ambos começam por observar uma cena que pode ter lugar em qualquer cidade e em qualquer época: um grupo de ricos que vem se acanalhar com a plebe e a aventura acaba por lhes correr mal. A partir deste núcleo, desta abertura que, não por acaso, poderia perfeitamente ser a de um filme “narrativo” e “realista”, o espectador é levado por uma série de meandros, em cenas nocturnas e diurnas, por becos, ruas, praças e pelas margens do Tejo, através de um labirinto sem fim nem centro, com a presença constante de O Livro do Desassossego, de diversos dos seus fragmentos estanques e magníficos, que nunca são ditos de modo pomposo, com a dignidade antiquada que muitos julgam ser obrigatório dar a um “grande texto”. Botelho inventa situações em que decide inserir o texto. Passamos por modestos quartos, assistimos ao enterro de uma criança, vemos pessoas que saem pelas ruas e pessoas que vivem na rua, uma manifestação política (só os pés dos manifestantes, nenhum slogan), uma mãe de família que canta um fado numa praça, um pedinte no metro que ouve Caetano Veloso cantar um texto de Pessoa (duas faces da língua portuguesa), diálogos na sala e na cozinha de um restaurante (o palco e os bastidores de uma sociedade), caras diversas numa repartição de trabalho, uma festa ostensivamente rica, agressiva, decadente - que parece clamar por uma revolução - uma cena de uma ópera sobre Luís II da Baviera. Os personagens que vemos neste périplo são semelhantes aos que vemos de perto ou de relance em outros filmes de João Botelho, Tráfico, Três Palmeiras, A Mulher que Queria Ser Presidente dos Estados Unidos da América, O Fatalista. Contrapostos e justapostos, sem nome próprio nem identidade definida, são figuras do mosaico do mundo, formas humanas e sociais que podemos ver, idênticos ou quase, nas ruas, nos locais onde trabalhamos, nos teatros, nos museus, nos cafés e restaurantes, cuja presença responde às ideias
expostas no texto de Pessoa. Cada bloco do filme é uma incursão numa parte da realidade que nos cerca, espelhada pelo cinema, cada um destes momentos é ao mesmo tempo representação e análise. E no desenlace, numa solução narrativa que é frequente no cinema clássico, tudo parece ter sido um sonho. Voltamos ao ponto de partida, ao mesmo bar sinistro onde tudo começara e onde Fernando Pessoa e Bernardo Soares se tinham encontrado. Mas Pessoa recusa o manuscrito de O Livro do Desassossego que o dono do bar lhe dá, julgando que ele se esquecera de o levar, porque o livro não é dele, é do outro, o outro que ninguém viu e só existe na imaginação dele. Bernardo Soares imaginara Fernando Pessoa da mesma maneira que Pessoa o imaginara, um é o sonho do outro, o que é uma maneira extremamente inteligente de fechar a narrativa de modo circular e, ao mesmo tempo, deixá-la em aberto. A aventura do realizador e do espectador através de texto pessoano, que se desdobra em cenários e em situações variadas e complexas, até desembocar na representação de uma ópera sobre um rei louco, que fascinou escritores e cineastas (entre os quais Fernando Pessoa), é enquadrada por dois episódios “realistas”, que situam definitivamente O Livro do Desassossego aqui e hoje. É como se tudo o que vemos e ouvimos fosse o fruto de uma conversa inacabada entre Fernando Pessoa e
Bernardo Soares.

Filme do Desassossego pode parecer árduo a alguns porque é extremamente denso, mas permite que o espectador se abandone à sedução da forma. A organização do espaço, a composição dos planos, com alguns impressionantes cenários e adereços, o recorte absolutamente nítido das figuras, a coexistência de corpos idealizados –corpos glamour, de cinema - e de corpos mostrados na sua crua banalidade, são elementos que seduzem o espectador que se interessa pelas formas cinematográficas. Mas não o adormecem, permitem que o texto de Pessoa em vez de ser dado como uma leitura seja dado como um percurso. Há inclusive momentos de alta virtuosidade como pura mise en scène (no sentido em que se emprega a palavra virtuosidade em música) como o monólogo dividido em três partes em que a câmara, lentamente, se aproxima cada vez mais da actriz, até chegar à sua boca (o que desperta no espectador associações com a pintura e o cinema). Este é um elaborado momento de cinema, executado com elegância, mas não é gratuito, puramente ornamental. É daquela boca vermelha, tão cinematograficamente perfeita, que sai o texto de Fernando Pessoa, aquele grande plano sobre uma boca também é um grande plano sobre o texto. O simples facto deste filme existir é um gesto de teimosia, de resistência. Mas Filme do Desassossego é uma obra que dá prazer e emoção, os prazeres e a emoção que pode proporcionar a “atroz lucidez”. Inquietos, receosos, agitados, perturbados, alvoroçados: desassossegados.

António Rodrigues, Cinemateca Portuguesa

Desassossego - parte 4, a raiva dos iluminados de jorge leitão ramos

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!) e do protagonista CLÁUDIO DA SILVA

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

Bilhetes já à venda (sede ao lado da Zara, 2ªf, 3ªf e 4ªf, 10h30-12h30 / 14h30-17h30, e sessões IPJ às 2ªf 21h30)


Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.

O livro de Bernardo Soares não tem transposição fílmica possível. Como todas as obras de arte, é algo de intraduzível, pois depurou uma linguagem até ao cristal. Mais: na perfeita indefinição de género (não é romance, nem poesia, nem ensaio, antes uma prosa que edifica uma perturbação de sentidos) não se pode saber nunca o que o "Livro do Desassossego" pede como rima. O que João Botelho intenta é um instalação na bruma frondosa desse monumento pessoano, uma catedral de névoa. E consegue-o, mercê de um filme onde fragmentos de ficção dão suporte de atenção ao que, deveras, é do domínio não só do indizível (é impossível contar o "Filme do Desassossego"), mas, muitas vezes, do insignificável.

As imagens, os sons, as palavras acontecem numa massa que é melopeia, projetando o nosso entendimento para lugares onde, é uso, só a poesia chega. Não tem uma história, tem visões - que tanto podem ter a cor de uma ópera tocada e cantada entre pedras na serra de Sintra como o marulhar do Cais das Colunas, mendigos derramados pelas arcadas do Terreiro do Paço, plácidos diante de um fado improvável que irrompe ou burgueses a desandar em briga ébria nas ruelas e bares do Cais do Sodré. E mergulha-no numa beleza visual que, evidentemente, já sabíamos pertencer aos instrumentos expressivos de Botelho, mas nunca pareceu tão justa como aqui. Para mais, os seus atores - imensa galeria de notáveis - foram postados em atitude artificialista, propiciando que, mesmo quando as falas têm uma significação direta, se sinta sobretudo a espessura das palavras. Ao ver este filme, é possível convocar diversas figuras tutelares - Greenaway e Syberberg serão as mais óbvias, mas não será idiotice dizer que também Duras e Jarman, Cesário Verde e Pablo Picasso -, contudo o que mais gosto nele é a sensação de que o cineasta transformou influências em algo de profundamente original, de tal maneira que, mesmo quando evoca, nunca está a fazer "à maneira de..."

Há muitos anos, levei uma criança pequena a uma peça teatral fascinante, mas em manifesto desajuste com a sua idade. No fim disse-me "não percebi nada, mas gostei tanto!" É esse risco de imergir num universo embriagador sem que, por estatuto, seja acompanhado de compreensão, que João Botelho pede neste filme. Entre poesia, ópera, mulheres nuas, decadentismo, uma Lisboa desmanchada e uma prosa sublime. Fazendo-nos caminhar às apalpadelas e em estado de maravilhamento num território que é tão reconhecível como a nossa casa e tão estranho como um sonho caprichoso.

E que bom é fitar o cinema português outra vez de pé, outra vez a desafiar o público para um grande salto! Há neste filme de João Botelho uma tão grande vontade de romper com o status quo em que se despenhou a maior parte da nossa cinematografia dos últimos anos - e o país também, está bom de ver - que eu avisto facas nos dentes, um olhar assassino, uma bomba de manufactura caseira, mas muito eficiente, nas suas entranhas. Uma arte feita com a raiva dos iluminados que levam tudo à frente.

Jorge Leitão Ramos, Expresso



Desassossego - parte 3, a conversa inacabada de pedro mexia

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!) e do protagonista CLÁUDIO DA SILVA

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

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Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.




Conversa inacabada

Trinta anos depois de Conversa Acabada, a conversa continua inacabada. A primeira longa-metragem de João Botelho leu o início da nossa modernidade à luz de um diálogo. Um diálogo quase perfeito, embora angustiado, fracturado e precocemente interrompido. A correspondência entre Pessoa e Sá-Carneiro teve interlocutores reais, mas os textos é que ficam. E por isso Botelho fez «um documentário sobre poesia que progride e se resolve em drama poético».

Filme do Desassossego sugere que o Livro do Desassossego é a continuação, em drama poético, dessa conversa, desta vez enquanto monólogo. Pessoa já não dialoga com um outro mas com outros dentro de si mesmo. Criou os heterónimos (entre os quais Bernardo Soares). E transforma em ficção poética aquilo que observa nas ruas da Baixa.

O carácter fragmentário do Livro do Desassossego é transposto para a tela através de uma sucessão de quadros que animam os textos de Pessoa. Tal como em Conversa Acabada, não se procura qualquer realismo, mas uma assumida encenação, que neste caso se distribui numa multiplicidade de vozes lisboetas, mais ou menos intemporais, dos burgueses aos pedintes. Trata-se, uma vez mais, de um «filme de textos», o que não é estranho num cineasta que trabalhou Diderot e Dickens, Garrett e Agustina.

A encenação dos textos do desassossego divide-se entre o pudor e a boémia. Lisboa e os seus habitantes aparecem como um circo sentencioso, cheio de tristes alcoolizados, ridículas preciosas, aparições eróticas e Esteves da tabacaria. Pessoa ouve a gente por quem passa, e é essa gente que dá vida às palavras que ele escreveu, como se a cidade fosse um fantoche e ele um ventríloquo. Lisboa, aliás, é aqui filmada sem a menor cedência ao postal ilustrado, é uma Lisboa fantástica, quase uma Lisboa de Escher, desdobrada em formas imaginadas e impossíveis.
Já Pessoa, o funcionário cansado, parece uma criatura infotografável, como numa cena que ironiza a própria dificuldade de passar estes textos ao cinema. Pessoa é o contrário das multidões que atravessam as ruas, «não sou de multidões», diz ele, sofre fechado em quartos e em escritórios, ameaçado por espelhos, labirintos e ventanias. Cláudio da Silva encarna com grande justeza o pudor de Pessoa (que é também o pudor de Botelho), e sofre as agruras da sua infatigável consciência, que nunca o deixa em paz.

Pessoa defendia a «dignidade do tédio», redimida através da fúria de escrever. Foi isso que João Botelho nos deu. Tédio e fúria. Pudor e consciência. Isso a que chamamos «desassossego».
Pedro Mexia



Desassossego - parte 2, o desejo de não desejar de joão lopes

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!) e do protagonista CLÁUDIO DA SILVA

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

Bilhetes já à venda (sede ao lado da Zara, 2ªf, 3ªf e 4ªf, 10h30-12h30 / 14h30-17h30, e sessões IPJ às 2ªf 21h30)


Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.


O desejo de não desejar

Escreve Pessoa, prefaciador do “Livro do Desassossego”: “Nunca — eu o creio — houve criatura por fora humana que mais complexamente cedesse a sua consciência de si própria”.

Esta cedência da consciência envolve um assombramento visceralmente português (se é que num país ocupado pela pornografia telenovelesca ainda temos a serenidade ou, se for caso disso, a coragem de contemplar os fantasmas da nossa intimidade). É o assombramento de um desejo que transporta a nitidez indizível da morte. Ou ainda: o desejo de não desejar.

Esse é, afinal, o desafio sempre actual, ou melhor, sempre presente de Bernardo Soares: o de renegar qualquer certeza do destino, pensando e escrevendo num universo de tão depurada geometria emocional que, no limite, poderia dispensar a convulsão mágica do desejo. Esse é também o desafio imenso, desassossegado e cru, do filme de João Botelho: como filmar o antidesejo de desejar ser português?

Não por acaso, «Filme do Desassossego» repele a peste do determinismo televisivo. Não, não se trata de evocar um génio da cultura para ilustrar qualquer heroísmo oficial. Não, este não é o retrato de um símbolo do ser português. Desde logo, porque o herói se distingue pela sua fuga a qualquer missão que não caiba na espessura intratável do texto. Depois, porque agonizamos numa avalancha de simbologias que, nas últimas décadas, nos fizeram perder o contacto tanto com a densidade existencial do salazarismo como com as energias que, apesar de tudo, o desmantelaram.

Este é um filme orgulhosamente primitivo, “griffithiano” por método, não por revivalismo. Nele se celebra a crueza original de ser uma imagem e ser um som, essas coisas de que se faz o cinematógrafo, oferecendo-nos passaportes para o não ser que não cabe nos telejornais. “O lema que hoje mais requeiro para definição do meu espírito é o de criador de indiferenças”, Bernardo Soares dixit.

Num avisado axioma, Roland Barthes ensinou-nos que, nisto de cultura, o desejo tende a ser medieval. Talvez isso nos ajude a dizer o que aqui acontece: «Filme do Desassossego» é um glorioso objecto medieval. Tanto pior para a modernidade.

João Lopes, Cinema 2000

Desassossego - parte 1, as notas do realizador

Dia 26, 21h30, Grande Auditório de Gambelas

Com o apoio da Reitoria da Universidade do Algarve

FILME DO DESASSOSSEGO, de João Botelho

PRESENÇA DO REALIZADOR (mesmo!) e do protagonista CLÁUDIO DA SILVA

Preços: Sócios e Estudantes - 4€ / Restantes casos - 5€

Bilhetes já à venda (sede ao lado da Zara, 2ªf, 3ªf e 4ªf, 10h30-12h30 / 14h30-17h30, e sessões IPJ às 2ªf 21h30)


Às 18h, no Clube Farense, encontro com Richard Zenith e João Botelho. Organização da UAlg. Entrada livre.





NOTAS DO REALIZADOR

O LIVRO DO DESASSOSSEGO, “composto” por um misterioso e modesto ajudante de guarda livros de nome Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, está traduzido em 37 idiomas e espalhado pelo mundo inteiro. É o livro mais lido e divulgado do poeta, essa labiríntica e inigualável aventura literária. Nunca houve um génio criador que se identificasse tanto com o coração da cidade que o viu nascer, que coincidisse quase em absoluto com o emaranhado de ruas que calcorreou e descreveu como ninguém, com a infinidade de gentes com quem se cruzou e que descreveu com “o olhar de Deus”, numa Lisboa centro de um mundo sem centro. Não é assim o mundo hoje?

“A minha pátria é a língua portuguesa.”. Esta frase do LIVRO DO DESASSOSSEGO que é “a nossa maior invenção desde as Descobertas”, levou-me a enfrentar um mar de textos transformado numa obra universalmente conhecida, armadilha de um génio, puzzle perfeito e genial porque todas as soluções são diferentes e nenhuma é definitiva. “É impossível filmar O LIVRO DO DESASSOSSEGO”, diziam-me todos. “Talvez”, disse eu, mas a partir de um texto que não tem tempo, não tem fim e não tem igual, foi-me possível criar um FILME DO DESASSOSSEGO que não pretende ser o livro (outra coisa é o cinema, que não arte literária); não em nome da experimentação ou da artística diletância, mas em nome do cinema que eu amo acima de tudo, e da língua, que é também a minha pátria. Há no LIVRO DO DESASSOSSEGO dois pequenos e preciosos textos que foram decisivos para estruturar o filme e o modo de filmar. Um sobre a autonomia grandiosa do som dos textos que, quando são lidos em voz alta ou voz baixa, se elevam muito para cima do seu criador, tornando a escrita maior que o sujeito que a criou; E, outro, sobre a noção de tempo, a sua distorção, ideias que se ajustam na perfeição à noção do tempo cinematográfico. Há ainda uma pequena frase maravilhosa sobre a luz: “ A mesma luz que ilumina a face dos santos e os sapatos do homem comum.” Não foi preciso mais nada para eu ficar contente. Alcançar o grão da voz, encontrar os ritmos de música verdadeira e grandiosa dos fragmentos do livro. Leiam-no em voz alta ou voz baixa, como diz Pessoa. O aperto que sentem no peito não é de gloriosa felicidade? Os olhos não ficam rasos de lágrimas e o cérebro efervescente? Distorcer o tempo e as imagens, pôr em causa o modo de as ver (utilização de diferentes velocidades, ralentis, acelerações e até lentes anamórficas, embaciadas, desfocadas) pintar o espaço com cores excessivas, não realistas, mas também fazê-las esmorecer, quase desaparecer, chegar aos tons secos, e até à pureza da gama de cinzentos, do preto e do branco. Bernardo Soares, um homem contemporâneo, de aspecto normal, indecifrável do comum dos mortais, mas com a angústia e o tédio desesperado de um funcionário modesto, e Lisboa uma cidade misteriosa, labiríntica e profunda, de inquestionável beleza e luminosidade. “Oh, Lisboa meu lar!”. Todos os outros personagens e todos os incidentes que os envolvem são, na vertigem dos sons das frases que os fazem existir, parte do desassossego do ano 2010 da nossa era.
João Botelho, Julho de 2010

Título Original: O Filme do Desassossego
Realização e Argumento: João Botelho
Adaptado de Livro do Desassossego de Bernardo Soares/Fernando Pessoa
Interpretação: Cláudio da Silva, Alexandra Lencastre, Ana Moreira, André Gomes, António Pedro Cerdeira,
Carlos Costa, Catarina Wallenstein, Dinis Gomes, Filipe Vargas, José Eduardo, Luísa Cruz,
Manuel João Vieira, Marcello Urgeghe , Margarida Vila-Nova, Miguel Guilherme , Miguel Moreira,
Mónica Calle, Paulo Filipe, Pedro Lamares, Ricardo Aibéo, Rita Blanco, Rui Morrison, Sofia Leite, Suzana Borges
Fotografia: João Ribeiro
Montagem: João Braz
Música: Caetano Veloso, Carminho, Lula Pena, Ricardo Ribeiro
e Ópera “Marcha fúnebre para o rei Luís Segundo da Baviera” de Eurico Carrapatoso,
com interpretação de Angélica Neto e Elsa Cortez
Origem: Portugal
Ano de Estreia: 2010
Duração: 104’

Irène: «a intimidade das recordações, a sinceridade das confissões e a complexidade dos sentimentos chegam a ser incómodos de tão profundos». 2ªf, 22.


IPJ, 2ªF 22, 21H30. Sócios 2€, Estudantes 3,5€, Restantes 4€.




A 16 de janeiro de 1972, lrène Tunc, antiga Miss França e atriz de Melville, Resnais e Truffaut (entre outros), morreu num acidente de viação em Versalhes. Em 2009, quase quatro décadas depois, o cineasta Alain Cavalier, seu marido à época, regressou ao local do crime, reabriu o processo de inquérito e reavaliou as únicas provas do acontecimento que conseguiram resistir à erosão do tempo (as memórias da sua conturbada relação com lrène) para confrontar o espectador com uma pergunta fundamental de mise en scène: como filmar, sem a atraiçoar, a irrepetível singularidade de um corpo já abolido que, tal como exprime a palavra bíblica do hapax, veio à existência "apenas uma vez e nunca mais"? Que o mesmo é perguntar, em abstrato: como incorporar na matéria uma memória?

A questão, como é bom de ver, confunde-se necessariamente com a questão sobre a própria ontologia do cinema, ou melhor, com a questão sobre a essência fantasmática de uma arte que se define, em cada caso, como um exercício de representação de uma ausência, de um passado já transcorrido que reencarna no ecrã graças a um efeito mecânico de projeção luminosa. Ora, perante esta pergunta, a resposta de Cavalier consistirá, sobretudo, numa tentativa de aprofundamento do trajeto de progressiva depuração que tem vindo a marcar o seu cinema, pelo menos, desde "Le Plein de Super" (um curioso road movie de 1976, improvisado com os atores a partir das suas próprias experiências). Com efeito, de então para cá, o cinema de Cavalier tem procurado despojar-se - à força de austeridade minimalista - do acessório, reduzindo as suas equipas de rodagem ao estrito mínimo indispensável e renunciando gradualmente a todas as convenções narrativas tradicionais para visar uma absoluta anulação da distância, um contacto tão próximo quan¬to possível entre aquele que olha e aquilo que é olhado - gesto radical que, ao longo dos anos, o haveria de conduzir ao documentário, primeiro (veja-se, por exemplo, "Un Étrange Voyage", de 1981), e ao diário íntimo filmado em suporte digital, depois (como "Le Filmeur", de 2004).

Neste quadro, o novo filme do cineasta mais não faz do que levar às últimas consequências a forma e o conteúdo do discurso articulado pelos seus trabalhos anteriores. De facto, filmado com uma câmara digital quase sempre transportada à mão e com recurso exclusivo à iluminação natural, "Irène" constitui uma espécie de making of de um filme que se limita a documentar a sua própria impossibilidade, que perscruta incansavelmente os vestígios físicos e afetivos deixados pelo desaparecimento do seu único objeto de investigação (o corpo de Irène) para descobrir que aquilo que configurava a sua singularidade não pode voltar a ser figurado (daí que, aqui, não existam atores; daí que, aqui, a presença de um corpo seja coisa rara). Mas, no meio deste malogro voluntário da representação, o que há para ver, afinal? Apenas isto: o percurso, narrativa e visualmente errático, de um velho viúvo (o próprio Cavalier) que, sempre em voz on, vai confessando à câmara a sua incapacidade de resgatar o seu Lázaro feminino do reino dos mortos.

Filme frágil, tateante e titubeante, que ao mesmo tempo nos comove e nos demove pela ausência de distância que impõe (as suas imagens são quase demasiado íntimas para poderem constituir o objeto de um espetáculo, por mais minimalista que ele seja), que se perde em derivas tão infinitas como inúteis para logo se reencontrar e retomar o fio à meada, "Irène" cativa-nos, é certo, mais pelas questões teóricas que levanta do que pelas respostas concretas que formula. Contudo, que questões como as suas ainda possam, hoje, ser colocadas numa sala de cinema em Portugal é uma coisa que não podemos deixar de aplaudir.
Vasco Baptista Marques, Expresso, 28/8/10




Este cineasta não gosta de ser fotografado. Filmado, ainda menos. E, no entanto, se ele "saiu das imagens" foi para habitá-las e descobrir nelas uma proximidade mais intensa. O cineasta filma-se, é verdade, mas não filma o seu rosto: prefere captar as mãos ou o som da sua voz, que parece estar a centímetros da orelha do espectador. Se a câmara treme, é porque o cineasta tremeu. Se a câmara cai, é porque o cineasta, provavelmente, tropeçou. Encontrámo-lo em Paris, no início deste ano - e falámos um pouco de tudo isto.

A "Irene", tal como a ''Le Filmeur” (2005), tal como a “La Rencontre” (1996), chamem-lhe diário filmado, chamem-lhe confissão, chamem-lhe vídeo amador - não se está muito longe disso aqui. Mas nem o seu autor é amador nem há vídeos assim no horizonte.

Pouco adianta resumir o percurso único de Alain Cavalier, ele que foi compagnon de route da Nouvelle Vague e na sua sombra permaneceu, filme após filme, do fim dos anos 50 até ao presente. Pelo meio, há o ascético e magistral "Thérese" (1986), o seu trabalho mais famoso, sobre a vida de Santa Teresa de Lisieux. Mas o cinema, entretanto, mudou. E o de Cavalier, esse, mudou radicalmente. Como? "A minha resposta é material, está relacionada com a evolução das câmaras e o aparecimento do DV. E creio que esta evolução correspondeu a um pedido inconsciente, quer dizer: cada vez que trabalhava com uma equipa de cinema, em 35 milímetros, dizia-me que aquilo não era para mim. Entre o momento em que sentia uma emoção e aquele em que conseguia filmá-la, perdia tempo precioso, ora a procurar dinheiro, ora a montar uma equipa... Sonhava com outra coisa. Acho que começou tudo com a preparação de 'Thérêse': houve um dia em que tínhamos de filmar um casting e o operador não veio. Meti a câmara no tripé, carreguei num botão. Começou assim. Pouco a pouco, fui descobrindo outro método de trzabalho. E, a partir de 'La Rencontre'; percebi que podia fazer cinema, como eu costumo dier, 'na primeira pessoa': ser o cineasta que filma e que fala, em simultâneo, na urgência do instante, com uma liberdade incrível de movimentos."

A "Irene" podíamos também chamar história de fantasmas. Sim, até porque é do reino das sombras que vem este título (que também é "Reine" e "Renié"), de Irene Tunc, saberemos depois, actriz francesa desaparecida há quase 40 anos e, à época, mulher de Cavaljer. "Irene" é um filme de luto, e aquela é a mulher que aqui se recorda, como quem folheia um álbum de memórias. Em "Irene", sentimos essas páginas imaginárias passarem, uma a uma, enquanto o filme se vai escapando de todas as categorias e o documentário é certamente uma delas.

"Sei que não voltarei a fazer um filme como 'Thérêse''', disse Cavalier. "Não me interessa. Quero ficar em face da pessoa que sou, da realidade, dos objectos, com esta pequena câmara que cabe no bolso. Sinto-me livre. E a minha relação com as coisas é mais digna, mais sincera, se eu estou sozinho. Olho para a história do cinema, e o que é? Uma celebração dos corpos do homem e da mulher. Dos seus movimentos no espaço. Noventa por cento dos filmes são assim. Já quis fazê-lo ardentemente, e fi-lo, com actores magníficos, o Trintignant, a Romy Schneider, o Delon e o Maurice Garrel, o Piccoli e a Deneuve... Agora, prefiro o meu pequeno artesanato."
Francisco Ferreira, Expresso, 28/8/10



ENTREVISTAS A ALAIN CAVALIER
Um homem e a sua câmara atrás de uma mulher que morreu há mais de três décadas. Alain Cavalier diz-nos que durante esse tempo ela lhe batia à porta - havia coisas para concluir entre os dois. Foi com este cinema solitário, diarístico, que acredita nos objectos como sinais (de emoções, de presenças), que Cavalier a ressuscitou. "Ela está sentada ali...", "Irène".


Lembram-se de James Stewart, a querer reconstituir obsessivamente na morena Kim Novak o corpo que perdera da loura Kim Novak... o trémulo, o tão trémulo e tão manipulável Stewart, às aranhas com as suas vertigens, a tentar uma ressurreição, em busca de um corpo "d'entre les morts" (o nome da novela de Pierre Boileau e Thomas Narcejac que Alfred Hitchcock transformou em "Vertigo"; em português "A Mulher que Viveu Duas Vezes").

Alain Cavalier, 79 anos, acredita nesta proximidade entre vivos e mortos. E a verdade é que nos lembrámos de James Stewart ao vê-lo, Alain Cavalier, em "Irène", o diário filmado em que ele, com a sua câmara, persegue o rasto de Irène Trunc, a sua companheira durante anos, que morreu num desastre de automóvel em 1972. Cavalier também vacila em "Irène": chega a cair numa escada rolante de metro com a sua pequena câmara, o instrumento com que renasceu como "filmeur". Isto é, o instrumento com que cortou definitivamente com a sua carreira de "metteur-en-scène", com a grande "máquina de cinema" (actores, guarda-roupa, argumento, produção e etc.), que para ele, que começou como assistente de Louis Malle em 1958 ("Fim-de-semana no Ascensor") e que nos anos 60 dirigiu Alain Delon, Catherine Deneuve ou Romy Schneider, se tornou coisa morta.

Cavalier foi regressando aos poucos - como quem regressa "de entre os mortos"?-, depois do corte com o cinema tradicional, até algo que, para ele, ainda é possibilidade de vida em cinema: o diário filmado, a autobiografia, um homem, a sua câmara e um microfone. Ou, dito de outro modo: com a consciência de que o cinema balança sempre entre o registo da vida e a proximidade da morte, para quê utilizar maquilhagem e efeitos especiais para filmar a morte quando a morte faz tão bem esse trabalho?

Não deixa de ser uma irónica contradição, por isso, encontrar este "filmeur" num hotel de Paris cheio de "metteurs-en-scène", argumentistas e actores (o "rendez-vous" anual da indústria francesa, em que a imprensa internacional é convidada a encontrar e entrevistar, como se diz, "os talentos"), um hotel cheio de gente que se esconde atrás de personagens ou que só se expõe via ficção. É isso que começámos por perguntar a Cavalier: se temos direito, vendo um pedaço exposto da sua vida íntima em "Irène", a lembrar-nos de James Stewart e de Alfred Hitchcock.


Hitchcock é da minha geração. Fomos todos formados por ele. Mas não pensei nele. De qualquer forma, eu venho realmente do trabalho de construção, de como se começa um filme, com a questão do suspense, das personagens, etc, etc, coisa que trabálhamos todos, cada um à sua maneira, a partir dos filmes de que gostávamos. Há em "Irène" um inquérito sobre uma mulher. Há um lado de argumento clássico, de que o cinema usou e abusou durante anos e anos: "O que é que se passou?", "Quem é aquela mulher?", "Ela é isto, é aquilo, serão todas essas a mesma mulher?". Há um pouco disso, um inquérito. Eu não tenho vertigens, como James Stewart, mas sou eu que faço esse inquérito. E, por outro lado, há uma diferença: aquilo que é calculado em Hitchcock, o argumento, a realização, a direcção de actores, no meu caso é um suspense imediato, é vivido naquele instante.

É interessante que fale em suspense imediato, não calculado, porque quando vemos pela primeira vez o rosto de Irène o filme já começou há uma hora. Foi um trabalho consciente sobre o voyeurismo do espectador?
Podia ter sido, mas não foi assim que se passou. Eu dizia a mim próprio como cineasta: é preciso dar um corpo a esta mulher, e não conseguia, e contei ao público que não conseguia. E depois disse: vou tentar dar uma imagem mental de Irène, que pode ser fabricada pelo próprio público. Acabei, na verdade, por dar ao espectador uma vaga realidade do seu rosto. So em determinado momento percebi que podia mostrar uma imagem dela porque isso se enquadrava na acção. Há aquele episódio da fotografia com o cão de Irène a olhá-la, e o texto que escrevi naquela altura, uma página em que descrevia o cão, a praia, a lágrima, aí tinha a ocasião de mostrar uma imagem: ou seja, uma ocasião puramente cinematográfica. Podia acabar o filme ali, se tivesse sido um efeito de construção. Mas era o filme que me conduzia, que me dirigia e eu tinha confiança nele, e foi como uma espécie de prenda. Não foi uma construção, uma coisa pré-estabelecida.

Coloca agora, como cineasta, questões diferentes, você que trabalhou com actores, que escreveu personagens, que trabalhou a construção dramática? Por exemplo, segue um argumento ou algo próximo disso?
Não escrevo, porque já escrevi o argumento: de alguma forma tenho um reflexo de construção no fundo do meu cérebro que funciona automaticamente. Não tenho necessidade de escrever, porque desejo respeitar a vida, ou seja, o que acontece entre alguém, o espectador, sem precipitar as coisas: gosto de ficar a ver o que acontece sem meter coisas à frente. Por isso não quero saber a continuação do filme, como antes fazia, quando rodava em função de um determinado fim. E se eu não sei, o espectador também não pode saber. Hitchcock dizia que o filme era mais rápido do que o espectador, mas aqui isso não é verdade. Em "Vertigo" tudo está construído na base da demonstrção de que aquelas duas mulheres, afinal, são uma só. No meu filme não quero demonstrar nada, O que procuro é descobrir a origem de um sentimento: o regresso desta mulher à minha vida 37 anos depois da sua morte. Eis como me coloquei - perante um inquérito.

Tudo começou com a morte da mãe de Alain Cavalier - primeira imagem de "Irène": o cadáver dela - e o regresso dele aos seus diários. Descobriu, afinal, que era Irène, e não a mãe, que estava em todas páginas - como se um fantasma batesse à porta.

Quem era Irène?

Cada espectador pode reconstrui-la a partir do imaginário de um "film noir": a mulher fatal, dúplice, que mesmo depois de morta chama pelo amado. Ou utilizar ou a sua própria experiência: as cenas da vida conjugal entre Alain e Irène são universalmente "bergmanianas" ou podem assemelhar-se a uma peça de Edward Albee, mesmo se não ouvimos em directo o som de quem pragueja, temos apenas sussurros de uma memória.

Ela dizia "les garçons" ou "les mecs", quando se referia aos homens. Quando dizia "les hommes" queria reduzi-los a patifes. "Les hommes" queriam dormir com ela, ela acabava por ir e um dia laqueou as trompas.

Gostava do sexo pela manhã- o sexo à noite interrompia o seu ritual de preparação para o sono. Chorava no orgasmo.

Muitas vezes Irène queria desaparecer, e Alain ficava tão assustado que a queria salvar. Ou queria desaparecer com ela - ou então desejava que ela morresse.

Há crueldade, e o peso, o fardo, aquilo que já não se aguenta. "Eu esperava pela separação, mas não era capaz de a provocar", diz Cavalier. Um dia ela foi com um homem que gostava de pagar às mulheres pelo sexo. Ela foi e não correu mal. "Não te faz nada que eu te conte tudo? Conto porque quero que me batas. Mereço". Desatou a partir pratos.

Um dia, a seguir ao almoço, Irène impacientou-se, quis ir dar uma volta de carro, chamou por Alain, ele disse "espera", ela não esperou. E foi-se embora. Como se se cumprisse qualquer coisa de que ambos estariam à espera - mas não desta forma, num acidente. Por isso a sensação de que algo ficou por cumprir. Segundo Cavalier, Irène continuou a bater-lhe à sua porta mais de três décadas depois do desaparecimento. E ele nunca sossegou por não ter visto o rosto dela morta. Há culpa, há desejo de pacificação. Mas interessa menos responder à pergunta "quem era Irène?" do que ver como Cavalier, com a sua pequena câmara, vai ao encontro desse fantasma até um reino das sombras.

Há um anterior filme do cineasta, um objecto insólito, raro, e de uma solidão tremenda, "Ce répondeur ne prend pas des messages" (1979), em que ele diz, sobre uma imagem de um filme dele dos "antigos" - daqueles com actores -, que "as imagens, tal como as palavras, não tinham mais utilidade". É um documento que assinala a crise, e não é por acaso que o filme chega no fim de um período de quase dez anos sem Cavalier filmar. É o tal momento de fechamento, de corte do realizador, que aqui se figura envolto em ligaduras (como uma série B, "O Homem Invisível"), pintando as paredes e as janelas do apartamento de negro (como Truffaut isolando-se do mundo com os seus mortos em "O Quarto Verde"). Mas, nos momentos finais de "Ce Répondeur...", o homem que se quer tornar invisível ao mundo faz um fogueira com os restos de uma cadeira que desmantelou. Possibilidade de luz na morbidez escura: filmar-se e ao seu próprio mundo.

Algo iria recomeçar, e outro momento da aventura autobiográfica chamar-se-ia "La Rencontre" (1996). Tratava-se do encontro entre homem e mulher, que praticamente não eram filmados, e era o encontro de Cavalier com o seu novo método: a emoção dos objectos, que se tornam veículos, capazes de incorporarem o que está ausente ou que (por pudor) não se pode figurar ("o amor é imposível de mostrar em filme", ouve-se). Acreditando na equivalência entre tudo (pessoas, objectos, vivos, mortos), este cinema, acredita Cavalier, não deixa de estar próximo da morte, mas é o que pode proporcionar a ressurreição.

Já aí, em "La Rencontre", se documentava a decadência do corpo (a miopia). Como, em "Le Filmeur" (2005), o cancro na pele. O pudor em confrontro com o impudor. "É o teu sonho, meter a tua câmara no interior de mim", diz ao homem da máquina de filmar a sua companheira, Françoise, depois de exames ginecológicos.

A ternura de Alain por Françoise: uma perna de cordeiro prestes a ser cozinhada. Uma garrafa amolgada: as costas da mãe. "Ela podia morrer enquanto eu a filmo", diz Alain sobre a mãe; conseguiria esse plano, a mãe morta, em "Irène". Que é o filme culminante de um método.


Comecei "Irène" com a minha mãe porque a morte dela foi o momento de viragem. Ela morreu muito velha. Eu já tinha filmado o meu pai morto. Ela esteve em câmara ardente durante três dias, ao terceiro dia fui à casa mortuária, à noite, podia ficar horas com o corpo dela à noite. Mas os imbecis tinham-lhe tirado o véu da cara, não era filmável o seu rosto e eu estava furioso. Primeiro chorei e depois fiquei cinematograficamente furioso. É por isso que a filmei de longe. Mas eram planos fundamentais para mim. Por causa dela fui buscar os meus cadernos de diários, que tinha posto de lado há muito, e percebi que havia muito pouca coisa sobre a minha mãe e muita sobre Irène. Foi aí que passei da minha mãe a Irène. Mas fiz isso porque já antes da morte da minha mãe Irène batia à porta.

É muito bonita em "Irène" esta objectificação do corpo dela, que é ao memo tempo um exercício lúdico de fantasmar: as coberturas da cama que duplicam o corpo feminino, as bolas a fazerem de seios. Como é que essas coisas "aparecem"?
É muito simples, é um método. Instalo-me durante alguns dias num local que não conheço - por exemplo, alguém me diz que tem um apartamento que dá para o porto de Marselha e mo pode emprestar. Instalo-me, e estou num estado obsessivo em relação a Irène. Passam-se dois, três, quatro dias e nada acontece, nada vem em minha direcção... E como não quero fabricar nada, uma manhã levanto-me, vou fazer a minha higiene, regresso ao quarto e a cobertura é Irene. É uma prenda da Irène. E aquelas bolas que estavam a um canto tornam-se a cabeça, os seios, e o ventre se ela estivesse grávida... é assim que as coisas se passam. E há um momento em que encontro um fruto vermelho no mercado, não sei o que fazer, compro, trago para casa e, bendito acaso, ao lado há uma caixa de ovos e automaticamente consigo figurar o meu nascimento, tirado a fórceps...Isto acontece porque estamos abertos. São coisas que a minha imaginação nunca poderia inventar, que eu nunca poderia receber. É uma espécie de telepatia.

Houve um momento no seu trabalho em que decidiu fazer as coisas de outra maneira. Porquê?
Sou um materialista. Trabalho em função dos utensílios que tenho. Comecei com câmaras que eram assim [e abre muito os braços], sabia que o ponto de vista não era o meu. O meu é mais rápido e mais imediato quando tenho uma emoção. Antes, quando eu tinha uma emoção, e com câmaras daquele tamanho, eram precisas duas pessoas para montar o aparato, um operador de câmara, etc, etc, e a emoção desaparecia... Aos poucos as câmaras foram permitindo que, se eu tivesse uma emoção, a fizesse sair e ela ficasse imediatamente registada. De repente o mundo mudou completamente. Estou sempre à procura de quem sou, do meu corpo, das transformações do meu corpo, das transformações das ideias, e felizmente que o material [as câmaras] se transformou para poder seguir esse fluxo.

Qual o efeito da rodagem do filme na sua obsessão?
Tem um efeito terapêutico, obviamente. Deve haver uma bolha que se move, que tem necessidade de sair. Os assuntos de filme em que investimos totalmente são raríssimos na vida de um cineasta. Acontece raramente uma situação em que se diga: "quero fazer um filme com isto e vou estar inteiramente dentro." Às vezes esperamos anos. Portanto, tem de facto um efeito terapêutico e ajuda-nos profundamente a viver, mesmo tratando-se de coisas terríveis: dá-nos uma espécie de vitalidade, de luz. Devemos estar no nosso melhor: o nosso corpo, o nosso espirito. Eu tinha decidido terminar a minha vida de cineasta.

Porquê?
Para se ser cineasta é preciso estar fisicamente em forma. Para filmarmos sozinhos - e nunca mais me encontrarei no meio de uma equipa - é preciso ter bons pés. Bons olhos e boas orelhas. Quantos cineastas conheci que já não ouviam bem, que andavam com dificuldade e que continuavam a filmar...

Mas olhe, saiu em DVD o filme de Hervé Guibert "La Pudeur et l'Impudeur", documentário em que ele expôs e documentou [entre Junho de 1990 e Abril de 1991] a sua situação terminal devido à sida [morreu em Dezembro de 1991, e em 30 de Janeiro de 1992 a TF1 difundiu o documentário]. Há momentos magníficos de cinema...
De um jovem doente. E ele não acabou o filme. Foi uma montadora que pegou naquilo e montou, colocou música. Há aquele momento em que ele põe digitalina num copo, e se pergunta se vai beber para morrer ou não, e há uma câmara ali... os homossexuais são os pais do cinema na primeira pessoa. Por causa da urgência que sacode essas pessoas, devido à sida. Há outro filme magnífico...
"Silverlake Life, the View from Here" [de Tom Joslin e Peter Friedman]
... uma obra-prima de emoção, de construção e de ferocidade da vida [tendo sido diagnosticada a sida a Joslin e ao seu companheiro, Mark Massi, o primeiro começa a filmar a experiência com a doença; Joslin morre, e é um amigo e antigo estudante de cinema, Peter Friedman, que continua o projecto]. Transformar isso em ficção seria impossível, não seria justo, não seria verdadeiro. Seria contrario à vida. Eles estão dentro, podem fazê-lo. E ao mesmo tempo está construido como um espectáculo.


Você está a dar uma entrevista, no fundo está a "promover" algo de íntimo. Há jornalistas que lhe vão colocar questões íntimas ou, pelo contrário, deixar de lhe colocar questões porque podem ser íntimas. É contraditório...
Uma vez tive medo de apresentar o filme ao público, numa sessão, tive medo que me perguntassem coisas, um suplemento de informação sobre aquilo que eu mostrava no filme. Mas já há uma parte visível do icebergue com alguma dimensão que permite sugerir o que está escondido... Nunce me recusei responder a questões indiscretas... cada um tem a sua vida, as pessoas vêem o filme e aos poucos o meu ponto de vista subjectivo e os das outras pessoas misturam-se, cruzam-se as experiências pessoais. "A mim aconteceu-me o mesmo, mas não foi bem a mesma coisa porque...". Nunca tive problemas a tentar completar, mas é delicado. E Irène não está cá para dar a sua versão dos factos. Não se pode abusar. Agora que a ressuscitei, ela está sentada ali. Se conto uma mentira...
Vasco Câmara, Público, 27/8/10


Irène foi, durante vários anos, a esposa do cineasta Alain Cavalier. Foi dela que Cavalier emprestou o nome para o seu filme, numa tentativa louca e sublime de reviver, através do cinema, uma história de amor marcada pela trágica morte da actriz no início da década de 70. Conversámos com o autor deste íntimo poema que reúne uma visualidade e exactidão impressionantes.


Pelo tom familiar, pela forma como filma e destaca as palavras escritas nos seus diários, IRÈNE aparece como um filme muito literário. As primeiras obras, mais ou menos, similares que me ocorrem são dos livros NADJA de André Breton e LACRIMOSA de Régis Jauffret: duas celebrações de amores ausentes e sombrios (Nadja acaba internada e Charlotte suicida-se).

Porque optou pelo cinema e não pela literatura para contar a sua história?
Cresci com a literatura. Foi por isso que escrevi os diários.
Depois, quando passei para o cinema, comecei a utilizar as palavras para fazer filmes: uma palavra filmada é tão cinematográfica quanto um rosto.
Reuni as minhas duas paixões.

“Sem morte, sem traição, as histórias de amor tornam-se enfadonhas”, LACRIMOSOSA. “Cobardia, traição e injustiça são tão preciosos quanto o amor, a ternura e força” é um sentimento que ecoa em IRÈNE. Acredita que possa tê-la traído ao fazer este filme?
Se traí Irène ao relatar a nossa vida, sabendo que ela já não está cá para oferecer uma outra perspectiva dos acontecimentos? Falei com ela durante as filmagens. Ela encorajou-me. Não parava de lhe repetir que sabia que era um grande erro da minha parte reduzir os anos que passámos juntos a 85 minutos de filme, mas que era incapaz de resistir a fazê-lo.

“Não existe mais nenhum caminho correcto, ou percurso luminoso, com alguém que nos abandonou. (…) Quando se trata daqueles que amamos, podemos parar de falar e não é silêncio”, escreveu Réne Char logo após a morte do seu amigo Albert Camus.
Ao longo de todo o filme, expressa a Irène, ao espectador e a si mesmo as suas dúvidas quanto à necessidade de fazer este documentário que, aliás, vai adquirindo uma beleza tremenda, “convulsiva”, diria Breton…
Comecei a rodar o filme sem saber se seria capaz de terminá-lo. Sabia, simplesmente, que tinha o perdão e a confissão à minha espera. Acho que ao filmar todos os dias acabei por me libertar, vou usar o filme como entrada para a minha mente e para o meu coração.

Depois de MARTIN E LÉA (1979), THÉRÈSE (1986) e RENÉ (2002), tornou a dar a um filme o nome do seu protagonista. É uma recorrência consciente?
Ao dar a um filme o nome da sua figura central está-se a sugerir ao espectador que vai ter a oportunidade de entrar na intimidade de uma pessoa, de se envolver numa relação entre personagem, realizador e ele próprio. Uma espécie de momento construído a três em que o filme nos é sussurrado ao ouvido.

Irene morreu num acidente de automóvel na década de 70. Porquê esperar tanto tempo para lhe dedicar este filme?
Continuo a sentir que a Irene está mesmo atrás da porta e que, de vez em quando, ainda se lembra de bater. Porquê hesitar em abrir? Por medo do que ela me possa dizer? Por medo de alguma confissão? Porque deveria evitar os meus recantos escuros?
Eu aceito-a de volta, quero que ela reviva. Quero tentar ir mais longe e alcançar a reconciliação.

“Irène queria morrer por um motivo secreto” relata-nos, muito discretamente, no seu filme. Jauffret mostra-se menos escrupuloso: “O suicídio é um homicídio como qualquer outro. Um assassinato premeditado, por uma qualquer fracção da psique. Uma fracção que gradualmente se vai consolidando até ao momento final de indolência”, escreveu em Lacrimosa.
Porque é que na questão das “sombras” de Irène optou pelo sigilo, ao invés de revelar a verdade?
Se observar cuidadosamente o filme torna-se, seguramente, perceptível que são desvendados alguns segredos.
Estão codificados mas não são indecifráveis. Queria partilhar algumas coisas mas, não expondo-as de forma demasiado evidente. Não se trata necessariamente de escrúpulos, mas de uma apreensão em traduzir com base, simplesmente, em palavras os mistérios de uma vida fascinante.

“Desejo que estejas loucamente apaixonada escreve Breton, sobre Nadja. Irène é um filme sobre a loucura (uma mulher, um amor, umas demanda cinematográfica)?
Como é magnífico ser-se jovem e gastar toda aquela descomunal energia para tentar descobrir quem somos, para explorar o amor e o cinema…

Título Original: Irène
Realização: Alain Cavalier
Argumento: Alain Cavalier
Interpretação: Alain Cavalier, Catherine Deneuve, Vanessa Widhoff
Direcção de Fotografia: Alain Cavalier
Origem: França
Ano de Estreia: 2009
Duração: 85’


é oficial! somos rnaj!

entidade equiparada a associação juvenil, por despacho do senhor secrectário de estado da juventude de 2 de novembro!

que bom! :-)

(para além de tudo o resto, podemos candidatar-nos a apoios para uma série de actividades - e porque jovens fazem parte do nosso público e são alvo da nossa cinefilia, imaginem como estamos satisfeitos!)

últimas notícias sobre a ante-estreia de josé e pilar

boa notícia - a ante-estreia já esgotou (mas vá à biblioteca na 4ªf, há reservas que, quem sabe, não serão levantadas!!); má notícia - a produtora não deixa fazer mais nenhuma sessão :-(

má notícia - o realizador não vem;
boa notícia - mas estará no fim do filme via skype para o debater com o público!! eia que modernos estamos!...


(desculpem tudo isto...)

post-a-sério sobre José e Pilar. Já faltou mais, para a sua ante-estreia comercial em faro...

Dia 17 de Novembro (Quarta-Feira)
21h30, Biblioteca Municipal

ANTE-ESTREIA com o Alto Patrocínio do Governo Civil de Faro

JOSÉ & PILAR
Miguel Gonçalves Mendes
Portugal/Espanha/Brasil, 2010, 125’, M/12
PRESENÇA DO REALIZADOR

Preços: Sócios - 2 euros/ Estudantes - 3,50 euros/Restantes casos - 4 euros

SITE OFICIAL

Miguel Gonçalves Mendes mostra o José que havia em Saramago.
E agora ao lado de uma grande obra, ficou com uma grande dívida. Miguel Gonçalves Mendes, aos, 32 anos, parece ter feito o trabalho de uma vida. Em José e Pilar descobrimos o Saramago que nunca vimos, intimo e pessoal.
Manuel Halpern, Jornal de Letras

Uma das produções mais concorridas do Festival do Rio 2010, o documentário "José & Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, estreou agora, numa sessão que abarrotou o Espaço de Cinema. Centrado na relação entre o escritor português José Saramago e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, foi aplaudido várias vezes durante a projeção, cercada de gargalhadas da plateia. Ao fim do filme, vários espectadores saíram da sala aos prantos, comovidos com as reflexões de Saramago sobre velhice e morte.
Rodrigo Fonseca, O Globo



Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário "Autografia" sobre Mário Cesariny que recebeu o Prémio Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas. Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas. "O que acabámos de ver", explica Miguel Gonçalves Mendes, "não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme Saramago não aparece como aqui a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia. Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro «A Viagem do Elefante» (2008) até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele que foi quando adoeceu." Mas, assegura, o filme apesar de triste é também muito optimista, passa por lá a "vontade de viver e de amar", sem "rodriguinhos".




"Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e portanto é uma loucura continuar a trabalhar" nele, afirmou Miguel Mendes. "José & Pilar" é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo. Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na Flip que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo. "Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo."O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: "Ah, Miguel eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny."

O documentário "José & Pilar" termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava "morrer lúcido e de olhos abertos". Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.
Isabel Coutinho, Público



ENTREVISTA AO REALIZADOR
Já conhecia o José Saramago, que fez uma voz off num filme seu, de 2002. Ele reagiu com relutância quando lhe apresentou este projecto ou aceitou-o de imediato?
Sim, ele já tinha lido um excerto do Memorial do Convento num filme meu sobre a "palavra" saudade, D. Nieves. O José era um bocadinho relutante à temática do documentário, sobretudo à palavra "intimidade", que ele achava um bocadinho mais escabrosa. Demorou uns meses a aceitar a ideia. Eu achava que não havia um documentário como devia ser sobre ele e não me interessava nada fazer um filme convencional, preguiçoso, daqueles sobre "o homem e a obra". Não tinha sentido. E achava que também havia outra coisa que faltava: um documentário sobre a Pilar del Río, sobre o papel dela na vida do Saramago. Não só o papel na vida emocional , como também na consagração dele como escritor e na divulgação da obra. Portanto, propus um retrato dos dois, um retrato intimista. E também queria mostrar o que é ser um Nobel da Literatura nos dias de hoje e a relação entre duas pessoas que se amam e que se complementam. Curiosamente, houve uma coisa que mudou na atitude do José em relação ao filme, após as entrevistas que fiz aos dois. Ele viu o Autografia, o meu documentário sobre o Mário Cesariny, e disse uma coisa muito bonita: "Eu tenho é medo de não dizer coisas tão interessantes como o Mário diz." E eu respondi-lhe que claro que tinha, e que além disso era uma pessoa diferente do Cesariny. Acho que foi aí que ele percebeu que eu não queria fazer nada de convencional ou de sensacional, que a minha procura era por coisas distintas das que as outras pessoas filmavam. Aliás, depois de ver o filme, ele disse-me: "Por vezes tive sérias dúvidas sobre o que tu estavas a filmar, mas hoje acho que este filme é muito mais do que só sobre nós os dois." E eu disse -lhe que era uma grande dedicatória de amor a ele.

Vocês tiveram um acesso único, exclusivo, ao dia-a-dia e à vida deles. É impressionante o que conseguiram filmar.
Acho que foi de uma grande coragem por parte deles dar-nos esse acesso, até porque, durante as filmagens, apanhámos aquela fase muito difícil e complicada da doença do José. Mas mesmo assim não houve adiamentos no nosso plano de rodagem, nem tivemos de a suspender.



Tal como sucedia com Autografia, José e Pilar é um documentário auto-explicativo, sem narrador, em que nada é forçado ao espectador, nem um ponto de vista nem uma moral.
Eu não quis forçar nada, nem as imagens, nem uma qualquer moral, nem fazer "pedagogia". O filme dá espaço total ao espectador para o apreender. O filme do Mário era diferente, era preciso pô-lo a falar. No caso do José, as palavras dele já estão espalhadas por toda a parte, e o que eu queria não era isso, queria dados do quotidiano deles, porque o quotidiano diz muito sobre nós. O filme sobre o Mário era muito testamentário, enquanto aqui se passa precisamente o contrário. É um filme sobre alguém que tem sofreguidão pela vida, que quer continuar desesperadamente a viver para a sua luta e para poder continuar a escrever. Ele próprio diz, a certa altura, que começou a escrever muito tarde, e depois ganha o Nobel, o que é altamente inspirador: eis uma pessoa que nasceu no campo, numa família pobre, que não pôde fazer muitos estudos. É óbvio que a urgência dele era muito diferente da nossa. Era uma urgência de escrever, para a qual é necessário tempo.

Foi muito difícil equilibrar o filme, para não filmar mais o José Saramago ou a Pilar, e vice-versa, e mesmo assim mostrar como era a vida pública e íntima do casal?
Foi dificílimo. Filmámos 240 horas e a montagem deu um trabalho diabólico, mas contámos a história que queríamos contar, seguindo a estratégia formal que delineámos. É a história deste homem que quer escrever um livro e que tem medo de morrer antes de acabar, e desta mulher que ele ama e que o acompanha e apoia. E ele não só acaba o livro como ainda escreve outro a seguir. Podia ser um enredo de ficção. Houve muita coisa que caiu na montagem, coisas maravilhosas, mas que fugiam a este arco narrativo. Tínhamos de um lado este grande escritor, Prémio Nobel da Literatura, uma figura de enorme importância literária e política, e, do outro, esta mulher extraordinária que o ama e que o apoia, uma mulher com uma força e uma presença maravilhosas e altamente inspiradora. Aliás, acho que a Pilar merecia um filme só sobre ela, porque é uma personagem, uma mulher veemente, enérgica, afirmativa. Por isso, tivemos de estar sempre a equilibrar o tempo dos dois. Posso estar a ser abusivo, mas acho que o José olhava para ela quase como uma versão mais nova dele, em mulher. Foi a Pilar que lhe deu uma nova energia e uma nova vida. E eles complementam-se de forma clara e óbvia, sendo ele muito português e ela muito espanhola.

O título do filme era União Ibérica. Porque é que foi mudado?
O filme ia chamar-se União Ibérica, mas quando o José deu a entrevista ao DN, em que fez essas declarações e surgiu essa polémica, falou comigo e disse que talvez fosse melhor mexer no título, "senão vão achar que estamos aqui os dois a fazer um complot". Claro que o título era apenas uma metáfora sobre eles, porque eu sou completamente anti-iberista, acho que não temos nada que ver com os espanhóis. E o José e a Pilar sabiam dessa minha opinião, sempre souberam. Só que, depois da polémica que se gerou, o filme, com um título destes, passaria a ganhar uma carga política que não tem, e o próprio José disse-me que não queria que fosse ou ficasse vinculado a uma opinião política dele.

O documentário mostra ainda que a fama pode ser uma maldição. Eles andam sempre a correr mundo, em feiras do livro, cerimónias oficiais e sessões de autógrafos, não têm descanso nem férias.
Há muitas pessoas famosas que não se expõem a este tipo de coisas, mas é óbvio que qualquer actor, qualquer realizador, qualquer escritor, tem de vender os seus livros e filmes, e tem de fazer aquele trabalho. E é o que o José dizia: "Porque é que estou numa fila a dar 400 autógrafos às pessoas? Claro que é uma chatice, mas são aquelas pessoas que compram os meus livros, que me alimentam." E ele tinha o sentido do trabalho, um brio profissional que eu diria típico da velha guarda: "Sim, é um horror, mas sim, eu tenho de cumprir." Mesmo em relação às entrevistas, o José dizia: "Isto é quase uma tragicomédia, porque é uma chatice para mim responder sempre às mesmas perguntas, e é uma chatice para os jornalistas, que as têm de estar sempre a fazer. Eu sei as perguntas que eles vão fazer-me, eles sabem as respostas que eu vou dar, mas temos de continuar a fazer os nossos papéis. E se acredito nas coisas e quero continuar a lutar por elas, vou ter de as repetir até à exaustão." Ele e a Pilar achavam, e acham, que temos a obrigação de tentar continuar a mudar o mundo miserável que criámos.
Diário de Notícias


Título Original: José e Pilar
Realização: Miguel Gonçalves Mendes
Direcção de Fotografia: Daniel Neves
Montagem: Cláudia Rita Oliveira
Banda Sonora Original: Adriana Calcanhoto, Bruno Palozzo, Camané, José Mário Branco,
Luís Cilia, Noiserv, Pedro Gonçalves, Pedro Granato
Origem: Portugal/Espanha/Brasil
Ano de Estreia: 2010
Duração: 125’