BOM ANO NOVO NO CINECLUBE DE FARO! Janeiro e Fevereiro em cheio!

(esteja atento... como sabe, uns dias antes de cada filme... um post de jeito sobre ele!)

IPJ – 21H30

POR DETRÁS DO AMOR


JANEIRO

DIA 3
LA PIVELLINA


Tizza Covi e Rainer Frimmel

Itália/Áustria, 2009, 100’, M/6

La pivelina traz uma das mais jovens revelações da história do cinema, Asia Crippa. Com apenas dois anos a menina domina o ecrã e as outras personagens, por mais que pintem o cabelo ou o nariz de vermelho. Embora sem os mesmos ingredientes, nem a mesma estética, La Pivellina faz jus à riquíssima tradição neorrealista italiana e é mais um exemplo, depois do fenomenal Eu sou o Amor, de um novo cinema italiano que quer voltar a ser grande.
Manuel Halpern

DIAS 10 e 11 (em 2 partes dada a sua duração)
MISTÉRIOS DE LISBOA

Raoul Ruiz

Portugal/ França/Brasil, 2010, 272’

A identidade, a transfiguração, a natureza humana, num universo romântico em que todos os amores são intensos, sofridos e incontroláveis... Mas não é um filme que se exiba por uma grande mensagem, moral ou lição de vida. É antes um hino à intriga romanesca, numa hábil arquitetura, que nos deixa maravilhados pelo prazer lúdico que Camilo tem em contar uma história. Ou contar várias histórias como se fosse uma só e contar uma como se fossem muitas.
Manuel Halpern


DIA 17
LOLA

Brillante Mendonza

França/ Filipinas, 2009, 110’, M/16

em complemento A HISTORY OF MUTUAL RESPECT
Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt

Portugal, 2010, 23’, M/16

No cinema de Brillante Mendoza [finalmente no CCF] tudo parece o que é, mas nem tudo é o que parece. Lola, como em outros filmes do realizador, conta uma história simples de maneira linear, mas no interior desta narrativa encontra-se um outro enredo: a revelação e a denúncia da realidade filipina. Em complemento, A History of Mutual Respect, filme que valeu a Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt o Leopardo de Ouro no recente Festival de Cinema de Locarno. São 23 minutos visualmente muito atraentes, servidos com um argumento risível e uma representação patética das aventuras de dois rapazes em busca do amor verdadeiro na selva sul-americana.
Rui Monteiro

DIA 24
YUKI E NINA

Hippolyte Girardot e Nobuhiro Suwa

França/Japão, 2009, 92’, M/12

Um filme adulto para crianças, ou um filme sobre crianças para adultos: o segredo de "Yuki e Nina" está no tom, na delicadeza das suas modulações, na maneira como desliza entre crianças e adultos sem trair nem uns nem outros. Os realizadores trabalham aqui o cinema como uma arte que se faz de discrição e de um entendimento tácito entre a câmara e os actores.
Luís Miguel Oliveira


Dia 31
O REI DA EVASÃO

Alain Guiraudie

França, 2009, 93’, M/12

É um filme raro, pela extrema ternura que revela por personagens de pequena dimensão, por um trabalho miniatural de atenção ao pormenor, por uma espécie de secreto pudor com que trata questões complexas de secretas sexualidades: na crise da mudança de idade um homossexual vulgar e desinteressante deixa-se seduzir por uma jovem adolescente e revela facetas até aí ignoradas. Pungente e irónico, o filme de Guiraudie possui um cariz poético que perturba e revela uma espantosa capacidade para dirigir actores.
Mário Jorge Torres


FEVEREIRO

DIA 7
O VERÃO DA BOYITA

Julia Solomonoff

Argentina/ Espanha/ França, 2009, 93’, M/12

Uma história intimista numa Argentina cheia de imensidão. Duas crianças em crise de crescimento, sem sordidez nenhuma, nem sentimentalismos piegas. Apenas confusão, nostalgia e a delicadeza das pequenas descobertas e dos grandes desacertos. O filme ganhou recentemente o prémio do Festival Queer Lisboa, mas a temática tem muito mais a ver com o crescimento e com a adolescência do que propriamente com questões de identidade sexual. Questões humanas, em suma.
Ana Margarida de Carvalho


DIA 14
CÓPIA CERTIFICADA


Abbas Kiarostami

França/Itália/Irão, 2010, 106’, M/12

Kiarostami insiste sempre em descrever os seus filmes como aventuras existenciais que ele encena mas cujos enigmas, ao mesmo tempo, lhe podem escapar. Confessa mesmo que gosta de reencontrar os seus filmes muitos anos depois para os poder olhar com o mesmo "olhar virgem" do espectador. «Copie Conforme» é, por certo, um objecto fascinante para voltarmos a exercer esse olhar.
João Lopes


DIA 21
36 VISTAS DO MONTE SAINT-LOUP

Jacques Rivette

França, 2009, 84’, M/12

Puro génio: Jacques Rivette conta a história nostálgica de um velho circo ambulante que vai sobrevivendo no nosso presente, celebrando um misto de verdade e ilusão que tempera as relações humanas. Rivette recupera o tema obsessivo da teatralidade, mostrando como o fulgor criativo pode ser cúmplice da mais depurada austeridade. Com dois actores em estado de graça: Jane Birkin e Sergio Castellito.
João Lopes



DIA 28
TAMARA DREWE


Stephen Frears

Reino Unido, 2010, 111’, M/12

Uma novela gráfica de Posy Simmonds (publicada em 2005/2006 no The Guardian) serve de ponto de partida a um retrato irónico de uma residência rural para escritores que procura um ambiente paradisíaco. Em boa verdade, o paraíso está habitado pelos fantasmas da natureza humana e Stephen Frears consegue um espantoso filme em que o realismo do olhar se cruza com o mais descarnado desencanto moral.
João Lopes



ALLGARVE – Museu Municipal de Faro

OLHARES FORASTEIROS - O Algarve num certo cinema

11 Janeiro

As Ruínas do Interior, José de Sá Caetano, Portugal, 1977, 110'

Em 1943, próximo de uma aldeia de pescadores, Françoise, belga refugiada e dois filhos, habitam uma casa onde vão passar férias, na Páscoa, as crianças da família proprietária.
A serenidade, algo ritual, desse quotidiano, é perturbada por um episódio de guerra que termina junto ao mar. Dois sobreviventes são protegidos pelas crianças que, entre si, estabelecem um pacto de silêncio. Depois, lentamente, monta-se uma discreta máquina policial.

(filme igualmente em exibição entre 12 e 30 Janeiro em sistema de sessões contínuas entre as 10 e as 16h, mesmo local, entrada livre)


8 Fevereiro - CONCLUSÃO DO CICLO

Zéfiro, José Álvaro Morais, Portugal, 1993, 52'

Zéfiro é um filme-viagem, um fresco sobre Portugal Meridional. Deixa-se Lisboa de barco até à margem sul do Tejo. Depois atravessa-se grande parte das planícies alentejanas para regressar finalmente ao ponto de partida - Lisboa. Neste filme, o Sul de Portugal é tratado de uma maneira metafórica, como um lugar em que diferentes culturas se cruzam formando uma identidade muito própria.

(filme igualmente em exibição entre 9 e 27 Fevereiro em sistema de sessões contínuas entre as 10 e as 16h, mesmo local, entrada livre)

punk? is not daddy! 2ªf, 13, 21h30, IPJ + set DJ Solitaire, 6ªf, 17, 23h30, n'Os Artistas

Não há liberdade sem libertação? POIS NÃO! Seja o filme e o que documenta, seja o set DJ inspirado no filme! E a todos um Bom Natal!

PUNK IS NOT DADDY é uma viagem pelos anos oitenta, testemunhada por um cineasta neófito. São cine-diários inéditos de Edgar Pêra: as Ruínas do Chiado, o quotidiano em Lisboa e Madrid, os Estados Gerais do Cinema Português, e sobretudo intervenções de bandas pop - a principal referência cultural dessa época.

PUNK IS NOT DADDY testemunha o crescimento e ocaso dos Heróis do Mar, os bastidores dos GNR num concerto da APU, os concertos abrasadores dos Xutos & Pontapés, a sonoridade céltica dos Sétima Legião, a pop dos Delfins, a militância dos Clandestinos, a rodagem dos videolips dos Rádios Macau. E até a polémica da Final do Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous, os ensaios dos Censurados no apocalíptico quarto de João Ribas ou o derradeiro (anti)concerto do RRV com os Zao Ten de Farinha Master.

PUNK IS NOT DADDY retrata, na primeira pessoa, a primeira década descomprometida com o fascismo, já com a revolução em eco. Finalmente, arte em liberdade.



CRÍTICAS
Um arranque em beleza da secção competitiva [do DocLisboa], com arte, memórias, indústria e tradição, tudo ao som dos Ocaso Épico, com a mais recente criação do eterno independente Edgar Pêra. O realizador lança um olhar saudoso mas nunca gratuito ou gratuitamente nostálgico sobre o Portugal dos anos 1980, visto pelo prisma dos diários filmados de um estudante de cinema e realizador neófito descontente com um meio que (então como hoje) parece incapaz de sair da pescadinha de rabo na boca.

Guia para os anos 80
O "guia" de "Punk's Not Daddy" pela década de 1980 é a música moderna portuguesa, corporizada em raríssimas imagens de palco do culto perdido dos Ocaso Épico ou do último ensaio dos Heróis do Mar, dos GNR num concerto da APU ou dos concursos de música moderna do Rock Rendez-Vous. Mas há também visitas ao Chiado recém-ardido e aos Estados Gerais do Cinema Português na Gulbenkian (com Paulo Branco a manifestar a sua diferença), imagens de manifestações sindicais e do triste episódio dos "polícias contra polícias", e tudo ao som da movida do Bairro Alto. É um filme de memórias que nos pergunta para onde foi uma vitalidade que parece hoje retraída.
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Jorge Mourinha, Público



Edgar Pêra usou o seu arquivo pessoal e ergueu uma homenagem à área artística mais pujante dos anos 80 em Portugal: o rock. "Punk Is Not Daddy"- momento alto do DocLisboa.

Os anos 80 foram intensos, incorretos, politicamente ativos e cheios de fúria. São hoje vistos com nostalgia, mas, para mim, foram essencialmente um momento de rutura. Ou melhor, uma rutura com a rutura que tinha sido o 25 de abril. Foi nessa década que nos 'libertámos do facto de nos termos. libertado'e que passámos a viver, de facto, em liberdade. Foi nessa década que testámos os limites da democracia para sabermos até que ponto podíamos ir, sem estarmos constantemente a viver em função do que havia antes." Foi assim que Edgar Pêra nos descreveu os anos 80 e é sobre esse tempo que se concentra "Punk Is Not Daddy - Arquivos do Fim do Século, Vol. l: 1980-1990, um dos filmes mais siderantes da Competição Portuguesa deste DocLisboa. As pesquisas cinematográficas de Pêra são um caso raro de experimentação a nível mundial - isso já toda "a gente sabia. O que nem todos sabiam é que Pêra, muito antes de ter assinado o seu primeiro filme 'oficial' ("A Cidade de Cassiano", 1991), acumulou um arquivo gigantesco sobre rock português. É material captado em VHS, 'com sangue, suor e lágrimas' e na urgência do momento (o método faz recordar o de Lech Kowalski em "D.O.A. - Dead on Arrival", documento sobre os Sex Pistols), ao longo de toda a década de 80. Desse material nasceu "Punk is Not Daddy". Álbum de memórias? Filme de amigos? Documento histórico precioso? Há muito por onde pegar.

Pêra nunca considerou que aqueles "malogrados filmes imberbes" fossem para mostrar em público. "No fundo, são extensões de filmes da Escola de Cinema que serão agora mostrados em estreia absoluta... com 25 anos de atraso. Mas foi com eles que eu aprendi a filmar: e isto para mim é um fator decisivo. Filmar nos anos 80, para mim, não era levar uma equipa: era 'pegar numa câmara' e ser fiel ao do it yourself. Basicamente, fazia quase tudo sozinho com aquela câmara VHS, que era 'um tijolo'. O som era o do micro da câmara. Se estiveres atento até consegues ouvir o barulho do zoom. As filmagens eram tão selvagens como os concertos da época. E não nos podemos esquecer que aqueles eram tempos difíceis: o documentário estava completamente relegado para segundo plano; filmar em vídeo era considerado 'ofensivo' pelo poder instituído; e apostar num projeto que não pertencesse a determinados cânones 'culturais' - como se a cultura fosse um decreto... - era meio caminho andado para o chumbo dos apoios financeiros. Eu queria libertar-me desse contexto e só havia uma maneira de o fazer: pegar na câmara e ir para a rua filmar. Foi com esse ímpeto que fui parar aos concertos - queria ser testemunha e ao mesmo tempo participante. Tinha estudado Psicologia antes de ir para a Escola de Cinema. Em Psicologia, conheci o Pedro Ayres Magalhães. Na Escola de Cinema, conheci o Rui Reininho. Ou seja, acabei por acompanhar desde o início os Heróis do Mar, que foram a maior provocação dos anos 80, e uma boa parte do percurso dos GNR, que foram a verdadeira banda pós-moderna em Portugal, no sentido mais puro do termo. Os Heróis do Mar e os GNR cortaram, de facto, com os anos 70 e com aquele tempo em que era quase um crime não se ser revolucionário. São as duas balizas deste filme."

"Punk Is Not Daddy" começa em 1990, com um concerto de Farinha Master e os Zao Ten. "Farinha" era o nome de guerra de Carlos Cordeiro, genial artista já desaparecido, fundador dos Ocaso Épico, e o concerto que vemos no filme foi, por sinal, o último da mítica sala lisboeta Rock Rendez-Vous - "uma lança em África" para o realizador, bem como para tantos outros da sua geração. "Punk Is Not Daddy" mergulha depois de cabeça nos eighties, misturando imagens pessoais do realizador (making of da rodagem de um filme de escola, viagem de férias com os pais), factos históricos daquele tempo (imagens do 'Chiado apocalíptico' pós-incêndio, do metro de Lisboa e da notícia da explosão da nave espacial "Challenger") e concertos filmados 'a quente', em grande plano: Heróis do Mar, GNR, mas também Censurados (há um ensaio da banda filmado no quarto do vocalista João Ribas colado às imagens de uns Estados Gerais do cinema português, na Gulbenkian, em que se discutiam subsídios: "e a resposta", diz Pêra, "estava no rock"), Delfins (concerto em Cascais com a famosa cover de 'O Vento Mudou', de Eduardo Nas¬cimento), Xutos & Pontapés (em adrenalina máxima, num gig no Bairro Alto), Sétima Legião (também no Rock Rendez-Vous) e, de novo, Farinha Master, que, para Pêra, "foi fundamental para este filme, pois simbolizava a radicalidade máxima. Conheci-o na noite daquele concerto. Ele misturava tudo, folclore e vanguarda, performance e pop music, num caldeirão gigantesco. O Farinha era o tipo que tinha caído no caldeirão".
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Francisco Ferreira, Expresso



Concepção Câmara Montagem: Edgar Pêra
Arquivista: João Gomes
Assistentes de montagem: Francisco Carvalho, Tomé Palmeirim, Samuel Andrês
Camâra adicional: Laurent Simões
Produtor associado: Rodrigo Areias
Agenciamento: Bando à parte
Grafismo: Tó Trips
Duração: 70'

ANTÓNIO RAMOS ROSA - ESTOU VIVO E ESCREVO SOL de Diana Andringa

Dia 7 , 21h30; de 9 e 31 Dezembro em sistema de sessões contínuas entre as 10 e as 16h, Museu Municipal (sala audiovisual r/c), entrada livre

Este documentário sobre a vida e obra de António Ramos Rosa, certamente um dos mais importantes poetas portugueses da actualidade, foi realizado por Diana Andringa nos idos de 97 nesta nossa cidade, natal do poeta: Faro.

Saído de cá em 1962, esta obra segue e redescobre as memórias primeiras, em particular as da juventude, de um vulto da cultura e do activismo político anti-fascista, e para tal recolhe vários testemunhos de quem com ele privou. Salientem-se Duarte Infante e João Brito Vargas, que acompanham Ramos Rosa neste périplo de revisitação da capital algarvia, sócios fundadores do Cineclube de Faro, a cuja direcção o poeta também pertenceu.

São, para nós, pergaminhos de ouro poder contar na nossa história com este conjunto de sócios honorários, e memória grata a realização deste documentário pois, por feliz coincidência, aconteceu durante a realização dos nossos primeiros Encontros de Cinema, em Abril de 97, o que constituiu a melhor e mais bonita ocasião para entregar pessoalmente a António Ramos Rosa a placa de sócio honorário. Tal distinção tinha sido levada a cabo em cerimónia no ano anterior a um conjunto de 34 sócios mas, por motivos de saúde, Ramos Rosa não tinha podido comparecer. Ter esse momento registado para a posteridade neste filme enche-nos de comoção.


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa


(filme integrado no Ciclo Olhares Forasteiros - o Algarve num certo cinema, incluído da exposição Algarve Excêntrico, Visionário e Utópico comissariada por Nuno Faria)


como de um conto de saramago de 12 páginas se faz uma longa de 83' - inteligente e hilariante! EMBARGO, 2ªf, IPJ, 21h30


Fantasporto 2010 (Portugal) - Menção Honrosa do Jurí Internacional – selecção oficial
Montreal World Film Festival 2010 (Canadá) - selecção oficial
Festival do Rio 2010 (Brasil) - selecção oficial
Lund International Fantastic Film Festival (Suécia) - selecção oficial
15 Festival de Cine Internacional de Ourense (Espanha) - selecção oficial
Semana Internacional de Cine de Valladolid (Espanha) - selecção oficial
34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Brasil) - selecção oficial
Festival de Cine Latinoamericano y Caribeño de Margarita 2010 (Venezuela) - selecção oficial
Mostra de Cinema Ibero-Americano - Las Palmas 2010 (Espanha) - mostra
17th Annual Austin Film Festival (USA) - selecção oficial

(chega para aliciar?...)



Em Embargo (site), o conto de Saramago é como a pedra a partir da qual se faz a sopa. No final, a sopa não sabe a pedra, mas a verdade é que sem a pedra não haveria sopa. Ou talvez não seja assim tão pouco. Saramago dá o pretexto e o contexto a este Embargo, através de duas ideias: não há gasolina e o protagonista não consegue sair do carro. Tudo isto para ilustrar, por vias opostas, a dependência que o homem tem do automóvel. Essa ideia António Ferreira manteve, mas não lhe deu excessiva importância. Interessou-se mais pelo protagonista inventado, a que Saramago nem sequer deu nome, do que pelo próprio conto, em que o carro assumia preponderância. E fez muito bem. Até porque, de outra forma, não haveria história nenhuma para contar nem haveria filme.

Falar de Saramago, o único Nobel português de Literatura, que tão poucas vezes cedeu os direitos dos seus livros ao cinema, é inevitável. Nem que seja para dizer que, neste caso, mal precisamos de falar dele. Mas já que por aqui vamos comparemos o incomparável. Ensaio sobre a Cegueira, a megaprodução de Fernando Meireles, custou os olhos da cara, cerca de 25 milhões de dólares, enquanto Embargo ficou-se pelos 200 mil euros. Mas o que é mais extraordinário é que isso não fez de embargo um filme pior, apenas diferente.

Embargo, de António Ferreira, é a história de um homem que pelo menos tentou. À sua volta o mundo desfalece numa paisagem desértica, pós-apocalíptica, entre um western e o Mad Max, mas ele mantém-se obcecado pela geringonça que inventou: uma máquina que digitaliza pés. Pensa com isso conseguir mudar de vida. António Ferreira transporta o filme para um não lugar, com alguns traços surrealistas, que chega a lembrar o universo dos Irmãos Cohen.

Nuno é fixado nos seus objetivos e isso dá a força necessária ao filme, sobretudo pela qualidade dos obstáculos criados, sendo que o maior dos obstáculos é ele próprio Nuno. No final troca a maquineta por uma trotineta, que o leva de volta a casa. Ironicamente, a imagem do homem a dar balanço à trotineta numa estrada sem fim, indica o amadurecimento, o final de uma adolescência tardia e a entrada na vida real. Assim como o coelho branco, lynchiano, surge como um milagre, que lhe salva a vida, e imaginamos que, apesar do conformismo a que se submete, a partir dali tudo vai correr bem. Mas não deixa de ser um final alegre e triste, porque a aparente harmonia que se adivinha implica a resignação.

Se o filme é conseguido muito se deve à atuação de Filipe Costa, uma autêntica revelação para o cinema. Aliás, essa naturalidade não é casual, António Ferreira admite que o papel foi escrito a pensar no ator.

Frequentemente os livros de Saramago têm humor, através da ironia, nas entrelinhas, com o seu forte sentido crítico. Mas este filme atinge o outro tipo de humor. Estão aqui alguns dos melhores diálogos humorísticos do cinema português contemporâneo. Mérito de Tiago Sousa, um argumentista endiabrado, que criou esta história com uma liberdade criativa enorme, que foge a quase todos os parâmetros.

O próprio António Ferreira, realizador de guerrilha, é um pouco como aquela personagem, um exemplo de perseverança e luta. Por mais portas que se fechassem, ele insistiu até conseguir desembargar o seu filme em bom porto. É aquele que tenta, é aquele que arrisca. A propósito de um conto de Saramago inventou uma máquina de digitalizar pés. Nós compramos.
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Manuel Halpern, Visão



É uma pena que, por razões diversas, seja quase impossível para um realizador de cinema ter uma carreira prolífica em Portugal, independentemente da qualidade do seu trabalho. António Ferreira é bem o exemplo disso: o seu filme de estreia, Respirar (Debaixo d’Água), surgiu em 2000 e foi uma das curtas-metragens lusas mais elogiadas das últimas duas décadas; três anos depois surgiu a primeira longa, Esquece Tudo o que te Disse, com aplauso unânime do público e da crítica. E depois... depois, seguiu-se um percurso animado com mais curtas e videoclips, à espera de nova oportunidade de assinar um filme de fundo, que só chegaria sete anos depois, com Embargo.

Felizmente, a espera valeu a pena e se bem que não se possa dizer que consubstancie uma evolução face à fita anterior, é uma prova de que Ferreira respira cinema e sabe contar uma história com imagens como poucos cá pelo burgo. O filme adapta um conto de 12 páginas de José Saramago publicado nos anos 70, com um homem que se vê inexplicavelmente impedido de sair do automóvel, num cenário semi-apocalíptico provocado por um embargo petrolífero.

O filme acrescenta muita história ao conto original para conseguir preencher o tempo de uma longa-metragem, mas é uma daquelas obras que ganharia em força e acutilância se tivesse 15 minutos a menos, o que, dados os actuais 83 minutos de metragem, não seria uma opção propriamente viável em termos de exibição. Felizmente, a excelente prestação do protagonista Filipe Costa, a criação de um ambiente que escapa a coordenadas cronológicas e o virtuosismo cinematográfico de Ferreira fazem desta fita um projecto vencedor.
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Luís Salvado, TimeOut



Goste-se ou não da sua ficção torrencial, adaptar José Saramago tem-se revelado tarefa complicada, de tal modo o seu mundo conceptual parece resistir às imagens cinematográficas, carregado que está de forte carga alegórica e de sentidos que apenas parecem funcionar na página: tanto "A Jangada de Pedra" como, e sobretudo, "Blindness" evidenciavam essa pesada secura narrativa, essa busca por bizarrias representativas.

António Ferreira foi buscar para este seu filme "O Embargo", um conto de curtíssima dimensão, uma das primeiras aventuras do escritor, do tempo em que ainda era director literário da editora Estúdios Cor, mais tarde reunido em "Objecto Quase". Se optou por um texto menos complexo e dispersivo, esbarrou com uma outra dificuldade não menos insolúvel: trata-se de uma "anedota ilustrada", com escasso material narrativo que se possa desenvolver. Um homem fica prisioneiro dos caprichos do seu carro, durante um embargo petrolífero, de catastróficas dimensões, a roçar, ainda que forma subtil, o reino da ficção científica, forçando o absurdo das situações e permanecendo fechado em perigosos limites.

Diga-se, já, que o argumento procura dar a volta ao texto, complexificando-o e abrindo para outros horizontes, mais conformes à obra anterior do cineasta, um dos mais interessantes da sua geração. Desde a média-metragem "Respirar Debaixo de Água" (2000) que António Ferreira mostrara dois particulares talentos: uma extrema mobilidade de trabalho de câmara, a desvelar imaginativas soluções visuais; e um interesse acrescido por ficções familiares, por personagens de difícil inserção social e radical revolta contra o meio atabafante em que se movem.

"Esquece Tudo o Que Te Disse" (2002), o seu melhor filme até hoje, pelo menos dos que conhecemos, criava um microcosmos familiar, de conflitos surdos e confrontos geracionais com a rara noção do país real, do isolamento do indivíduo face a condicionalismos sociais e comportamentais. Por isso, o melhor de "O Embargo" passa pelo que não está em Saramago, uma família disruptiva, com um pai ausente e vulnerável e um filho desambientado, numa casa triste e depressiva. A questão é saber se esta imagem de classe encaixa na história "principal", de tal maneira temos, por vezes, a noção de que estamos perante dois filmes algo desconexos, a que nem a presença crua do real (a roulotte dos cachorros quentes e o patrão repressivo, por exemplo) consegue dar coesão.

Para agravar o problema, aparece um terceiro segmento narrativo que pretende aproveitar o ponto de partida do conto e, em simultâneo, remeter para o esforço de melhorar as condições de vida do acrescentado agregado familiar: uma sofisticada máquina de medir pés, invenção que o protagonista pretende colocar a nível industrial, esbarrando, na sua demanda, com a dificuldade de se ver livre do carro "assassino", ou melhor, "aprisionador". Ecos curiosos de "Christine", de John Carpenter, perdem-se na pequenez da anedota, na escassa definição de personagens, desde as crianças que roubam gasolina aos industriais de caricatura, a favorecer a rábula de José Raposo. Continuamos a acreditar que António Ferreira filma lindamente, mas precisará no futuro de escolher melhor o material de base: nem o conto de Saramago (o filme é melhor que o conto, diga-se) lhe fornece grandes hipóteses, nem os acrescentos resolvem uma espécie de vazio que impera.

Ficamos à espera de mais ambiciosos voos de um realizador em que acreditamos.
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Mário Jorge Torres, Público




UMA (ÓPTIMA) ENTREVISTA A ANTÓNIO FERREIRA

Embargo, da obra homónima de José Saramago, estreia hoje nas salas de cinema de todo o país. Um filme de António Ferreira, um realizador com uma produtora nos arredores de Coimbra. Sim, em Coimbra. Em Casconha, para sermos mais precisas. A sede da Persona Non Grata Pictures contrasta com um ambiente rural de casas típicas de aldeia. Importa conhecê-la, até porque António Ferreira já está farto da pergunta “mas é mesmo de Coimbra?”

Aos 20 anos, quem era o António Ferreira?
Aos 20 anos ainda era programador informático, trabalhava numa empresa em Coimbra, a Systematic, que, se a memória não me falha, estava em vias de falência. Eu já estava a fazer planos para dar uma volta, porque sabia que dali a um ano ia para a tropa, e como já estava mais ou menos farto da profissão de programador informático, decidi que não iria procurar outro emprego quando a empresa fechasse. Vendi o meu computador, por 200 contos – 1000 euros, e com esse dinheiro fui para França, viver um ano.

Em França fez o quê?
Fui trabalhar num restaurante, nos Champs-Elysées! (risos)

E só para fugir à tropa ou já com outros objectivos?
Na altura tinha uns amigos, que estavam lá a trabalhar, em Paris, numa pousada da juventude, que eu tinha conhecido numa viagem uns meses antes. Fui viajar, trabalhar, conhecer pessoas, aprender francês, etc.



E ainda não olhava para o cinema nesta altura?
Não de uma forma séria. Na altura já fazia fotografia, fotografei muitos casamentos, tinha um laboratório em casa… Já gostava de cinema, obviamente, mas nunca tinha pensado em entrar numa escola de cinema, por exemplo. Aliás, antes disso pensei entrar numa escola de fotografia, que era aquilo de que eu gostava mesmo, mas era tudo muito caro. Eram escolas privadas e foi uma coisa que nunca cheguei a fazer. Quando voltei da tropa reflecti um pouco. Soube de uma escola de cinema em Lisboa, resolvi concorrer e entrei – foi aí que, mais ou menos, comecei.

Mas mais tarde abandona a formação em Lisboa para ir para Berlim. Comparando essas duas experiências, como aconselha um jovem português que sonhe com uma carreira em cinema?
Nestas coisas não há fórmulas. Apesar de tudo, até gostei de ter passado pela Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, porque foi um bom contraste com aquilo que depois encontrei em Berlim. Em Berlim era uma escola muito mais americanizada, no sentido de ser mais virado para um cinema mais mainstream – embora tenha tido professores desde a Polónia, a Israel, Holanda, Nova Iorque… O ensino era muito aberto, foi isso de que gostei mais. A escola não tinha professores fixos, todos os anos convidavam 20/30 professores para dar seminários. Nunca tinha o mesmo professor durante mais de três semanas. E uns contradiziam os outros. O que um achava que era bom, outro achava que era uma porcaria, o que dava para relativizar as coisas. E isso foi, provavelmente, a coisa mais importante que eu aprendi: não há uma maneira de fazer cinema, há visões. Tu tens de descobrir a tua e ser o mais forte possível nela. Nesse aspecto, gostei muito mais da experiência em Berlim do que na escola de cinema em Lisboa. Aqui era tudo muito mais numa direcção, mais conservador, ainda só se falava de Godard, John Ford, ia-se até ao Hitchcock no limite, parecia que não havia cinema para além dos anos 70. E filmava-se muito pouco. Falava-se muito, escrevia-se muito, muita teoria… Em dois anos participei em seis filmes na escola de cinema em Lisboa e realizei um; no primeiro ano em Berlim participei logo em 14 filmes e realizei três. A um jovem: aconselho-o a diversificar. O excesso de teoria em Lisboa deu-me algum estofo, o que me permitiu chegar a Berlim e não tomar tudo o que via como verdade, saber ser crítico, relativizar as coisas. Aconselho a viajar! Se puderem fazer um ano em Lisboa, outro em Madrid e outro na Turquia ou em Cuba, seria o perfeito. Viajar é muito importante, o mundo não é como a gente o conhece. À medida que se viaja, percebe-se que há outras pessoas, outras formas de pensar; isso é importante.

Porque é que voltou a Portugal depois de ter estado em Berlim?
Acabei o curso e tal como qualquer pessoa que acaba o curso estava a ver o que fazia da minha vida, sempre um passo muito complicado. Na altura soube de um concurso de curtas metragens no actual ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), em Portugal, apresentei um projecto e, talvez sorte de principiante, deram-me logo um subsídio. Foi um projecto que eu escrevi lá, pensado para filmar em Coimbra – o Respirar (Debaixo de Água). Nessa altura estávamos em 98. Curiosamente, tinha acabado de chegar a Portugal e no dia em que comecei a trabalhar numa produtora, a Rosa Filmes (como assistente de realização do Joaquim Sapinho, no filme A Mulher Polícia), soube do resultado do ICA: tinha um filme para fazer. Mas resolvi levar o projecto até ao fim. Lisboa – Paris – Berlim – Casconha (risos)

Como é que viveu em Coimbra? Esteve na Alemanha a escrever uma coisa que se passava cá.
Eu sou de Santa Clara. A minha infância foi mais ou menos ali à volta. Estudei na Silva Gaio, depois no D. Duarte – não é à toa que o D. Duarte aparece no Respirar (Debaixo de Água), já apareceu em dois videoclips, etc. Numa fase mais crescida frequentava a Praça da República, o Tropical, o States. Na adolescência frequentava o Scotch. Agora sou mais de frequentar o Shmoo, mais ao fim-de-semana, que agora a vida é outra! Foi um percurso comum. Nunca fui muito de vida académica, também não estudei aqui. Nunca usei capa e batina e essas coisas, mas é impossível quem está em Coimbra não ter o mínimo de ligação à universidade e às pessoas que lá estudam.



Acha que Coimbra está limitada?
O pessoal queixa-se… Se olharmos bem para as coisas que acontecem em Coimbra durante a semana, ainda acontecem bastantes coisas! Concertos, teatro, cinema… Estamos sempre a comparar-nos a Lisboa mas Lisboa são 3 milhões e meio de habitantes e aqui somos 200 mil (no limite, já a grande Coimbra). Para a dimensão que temos, eu diria que as coisas não estão assim tão más como às vezes se pinta. E o pessoal também se queixa muito e depois participa pouco! Organizam-se coisas e depois as pessoas não aparecem. “Ah tem de se pagar para entrar”, pois, pois tem, as coisas custam dinheiro a organizar! A cultura custa dinheiro. Coimbra tem bastantes coisas a acontecer; mesmo comparando com outras cidades como Aveiro ou Leiria. Pela dimensão da universidade, por termos malta nova e vinda de vários pontos do país, poderia haver mais. Na altura em que eu tinha 16/18 anos, em Coimbra, havia uma irreverência que agora se perdeu um bocado.

Voltando ao Respirar (Debaixo de Água)… Foi daí que nasceu a Zed Filmes. O que é que é faltava?
Só podem beneficiar de subsídios produtoras. Antes de saber que tinha subsídio tentei arranjar um produtor – eu não percebia nada de produção. Ninguém quis pegar no projecto: o guião era um bocado extenso, complexo, envolvia filmagens debaixo de água, um acidente de automóvel. Depois da atribuição do subsídio houve um interregno de nove meses, porque quis levar o tal outro projecto até ao fim; ganhei experiência. Mas depois decidi produzir o filme, fui à aventura. Foi um projecto muito difícil, aconteceu-nos tudo e mais alguma coisa. Mas acabou e correu bem (ainda por cima).

E a produtora vingou.
Eu tive a felicidade de o filme ser seleccionado em Cannes – é uma questão de sorte, porque já fiz filmes melhores que não conseguiram ser lá seleccionados – e isso abriu-nos uma série de portas. O filme começou a circular internacionalmente, logo a seguir fiz uma longa-metragem; uma coisa foi puxando outra e a empresa ganhou dimensão.

Começou a rodar o Embargo aos 24 anos. Pôs isso de lado, agora retomou. Quais as razões quer para a paragem como para o retorno?
Na altura aquilo não era, propriamente, um projecto sério. Tinha acabado de entrar na escola de cinema, estava a dar os primeiros passos… Aquilo era uma coisa super manhosa! Aquilo era… Horrível! (risos) Foi uma espécie de grito de independência. Filmei três dias, seis cenas. Nunca deu em nada. Simplesmente ficou encostado. Depois a ideia voltou a surgir recentemente, penso que há dois anos. Estava a ver futebol, Portugal, no Parque Verde, nuns ecrãs gigantes e estava uma fila enorme de carros nas bombas de gasolina. Pensei “só a gasolina é que faz com que o pessoal não largue tudo para ver Portugal jogar”. Deve ter sido em 2008; houve a greve dos camionistas que paralisou o país e eu, de repente, comecei a ver os cenários que o Saramago descrevia nesse conto, o Embargo. Surgiu a ideia. 30 anos depois, isto está a acontecer: fez-se luz, o conto era absolutamente contemporâneo e pertinente. Esta questão do petróleo é novamente uma questão do dia e fazia sentido voltar a abordar o assunto.

E o que é que fez com o material antigo?
Vocês viram uma coisa que é o Embargado?



Sim.
(risos) Foi isso que fizemos. Na altura, ficou guardado. Agora, o facto de o filme ter começado há 15 anos atrás tinha o seu interesse. O Leandro, responsável pelo making of, teve a ideia maluca de trazer esse material para o projecto. Fazer um making of um pouco diferente, em vez das normais entrevistas e do “que espectacular que foi”.

No Embargo reconhecemos cenários e actores conimbricenses. Porque é que a escolha recaiu sobre eles, sobre Coimbra?
Coimbra é sempre a decisão natural, na medida em que estamos cá. Por acaso o Esquece Tudo O Que Te Disse não foi filmado aqui, porque eu queria uma casa à beira mar. O Deus Não Quis filmámos aqui, na Lousã. E neste, como é numa cidade, numa qualquer, a escolha natural foi filmar em Coimbra. Vocês reconhecem porque são de cá, mas não se vê a Torre da Universidade, placas… Podia ser uma outra cidade qualquer. Em relação aos actores, eu sempre tive em mente o Filipe Costa. Já há algum tempo queria trabalhar com ele. Pelo que tinha visto em teatro, achava que ele tinha uma força particular. Estava no escalão etário do personagem, tinha o perfil que eu procurava para este projecto. O Filipe Costa e a Cláudia Carvalho foram logo opções de início. O Taborda – já fiz três ou quatro filmes com ele – também foi natural. Eu gosto muito de trabalhar em família. A equipa do Embargo é, basicamente, a equipa que temos aqui, que levamos para os videoclips, para os documentários. Foi seguir com um trabalho de dez anos, trazer as mesmas pessoas para mais um projecto. Há o Raposo que é uma excepção; ele é um excelente actor, tem aquele toque espectacular para a comédia. Tinha-os quase todos os dias comigo. Também não tivemos um orçamento por aí além para fazer o filme e isso, obviamente, também pesou nas decisões.

Foi uma equipa de quantas pessoas?
Éramos uns 20, com actores incluídos. Não era uma equipa por aí além; acabámos de fazer um videoclip com 38 pessoas. O normal é entre 35 a 40 pessoas.

A Persona Non Grata está a pôr Coimbra no mapa?
De alguma forma sim, mas isso não é uma coisa tão relevante. Quanto muito, Casconha no mapa! (risos) O nosso trabalho tem o seu valor, mas não deixa de ser curioso quando reunimos com as instituições locais como a Câmara Municipal, o Turismo, para apresentar projectos, e invariavelmente: “mas vocês são de Coimbra?”. Uma pessoa anda há dez anos aqui a fazer coisas, não só os filmes, mas também o trabalho mais comercial (videoclips do Camané, dos Blind Zero, dos Ez Special, cinco vídeos para a Disney filmados em Coimbra para o mundo inteiro). As autoridades locais são bastantes desatentas. Está agora a mudar um pouco, sobretudo com a nova vereação da cultura – parece que há aqui uma mudança em relação à vereação anterior, que era absolutamente autista; a nova vereadora tem uma abertura completamente diferente. Portanto, nós contribuímos, mas não é uma andorinha que faz a Primavera. Também o nosso objectivo não é pôr Coimbra no mapa, não fazemos isto por uma questão de bairrismo. Sou de cá, cresci cá, a produtora entretanto ganhou estrutura aqui. Se amanhã tiver um filme em que a história se passa especificamente em Lisboa, vamos para Lisboa. Ou para outro sítio qualquer.


Não é uma questão de custos.
Também.

Como é que recolheram o cenário do Embargo?
Futuro retro (risos). Às vezes as pessoas podem pensar que encontrámos os sítios assim e não é nada disso. Tivemos uma equipa de decoração, cá de Coimbra também. Discutimos o conceito do filme com a Luísa Correia, arquitecta de profissão que há já muitos anos fazia decoração, sobretudo ligada ao teatro. Não é à toa que o filme tem aquela cor, todas as cores foram escolhidas. Não há vermelho no filme, tudo tem aquele tom castanho, verde pálido. Obviamente escolhemos os decors em função disso. Quando se tem muito dinheiro, chega-se a um sítio que não tem nada a ver e muda-se tudo completamente (a decoração sai cara e dá muito trabalho); nós tentámos escolher o que já estava próximo daquilo que queríamos e depois foi só retocar mobiliário, papel de parede… A casa do protagonista (uma casa anos 70: portas e chão em madeira, já com algum mobiliário) é a casa onde vivia a decoradora, a Luísa. Coitada! (risos) Nada está deixado ao acaso. A ideia era mesmo o tal toque de futuro retro. É um futuro porque não aconteceu. Tem objectos contemporâneos, como o scanner, o telemóvel, mas, para o toque envelhecido, de mundo parado, embargado, desgastado, fomos buscar todos esses objectos antigos – um carro com quase 40 anos, um telefone antigo. Não queria que as pessoas tentassem identificar o ano em que se passa o filme. A ideia foi baralhar. Introduzimos tantos objectos diferentes para ver se as pessoas já nem se perguntam sobre que época é aquela. É uma época qualquer! O que importa é que se centrem no filme e entendam o mundo naquela decadência.

É um tempo sem tempo ou de todos os tempos?
Pois, a ideia é ser intemporal. Se virmos bem, a história foi escrita há 30 e tal anos atrás, em 2008 vi acontecer uma coisa semelhante… O filme ganha em não ter uma data específica; espero que daqui a 20 anos ainda possa fazer sentido.

Como foi a reacção de José Saramago quando soube da adaptação?
Por acaso parti com medo das histórias que contavam que ele não era muito dado a permitir que as suas obras fossem adaptadas ao cinema, mas na verdade até foi um processo bastante rápido. Contactámos a agente dele na Alemanha, ela fez um contacto prévio com a Pilar e com o José Saramago e deu-me o email deles. Basicamente, e foi o único percalço que eu tive, peguei no email que tinha enviado à agente na Alemanha, em inglês, e mandei para o José Saramago. Recebo um email a vermelho, da Pilar, em espanhol: “porquê falar a língua do império se somos todos ibéricos?!”. “Estou lixado, agora é que eu estraguei tudo.” (risos) Lá reformulei o meu email, em português, e o email seguinte já dizia que estavam de acordo. Daí para a frente fomo-los mantendo informados do que estava a acontecer. Estávamos já a planear a vinda dele em Setembro a Portugal para a estreia do filme; apesar de em Fevereiro ter o filme já mais ou menos montado, nunca quis mostrar uma coisa não acabada. Entretanto ele faleceu e nunca pode ver o filme. Agora, a Pilar foi à ante-estreia em Lisboa.

Quais foram as palavras dela?
Nós alterámos imenso o conto original, mantivemos as ideias centrais. Para 15 páginas fizemos uma longa-metragem. A família não está no conto, não há um digitalizador de pés, o protagonista não trabalha numa roulotte de bifanas, não há o amigo – tivemos de inventar todo um enredo à volta da história central de um indivíduo que fica preso num carro, para ter pés e cabeça e aguentar 80 minutos de filme. Estava expectante para saber a reacção dela, que foi espectacular. No dia fartou-se de nos dar os parabéns, inclusivamente chamou ao filme um poema visual. Fiquei muito contente. No dia seguinte, mandou um email a agradecer a nossa honestidade com a obra. Nós já tínhamos feito um teste com o editor do Saramago que, depois daquele choque de não encontrar literalmente o conto no filme, adorou o filme. Achou verdadeiro, genuíno. Deixou-nos contentes que quem estava perto do autor tenha sentido justiça no filme.

Para além de ser uma história de ficção, o Embargo pretende incomodar vidas embargadas? Desembargar?
Não gosto de filmes moralistas e tento sempre que não o sejam. Ninguém tem autoridade para dizer aos outros o que deve fazer da vida. Agora, tentei conferir ao filme mais do que uma camada. Há uma segunda camada narrativa. Se alguém tiver vontade disso, pode reflectir sobre ela. O protagonista é completamente obcecado pela sua máquina, acaba por se esquecer um pouco da filha… Foi minha intenção a sua própria transformação. No fim ele é um tipo mais aliviado, mais humano – e isso é também um dos pontos mais importantes do conto do Saramago. O filme não depende disso mas, quem quiser, pode vê-lo, está lá. Quem o quiser ver de uma forma mais descontraída, a um nível superficial, pode ver.

A comédia vem aligeirar o realismo?
A ironia também tem a ver com o carácter fantástico do filme, de um indivíduo que fica preso num carro. Se não introduzíssemos a ironia, dificilmente essa coisa colava. Serve para envolver o espectador, comunicar, e lidar com uma questão fantástica, quase irreal.

Quando pensa num filme, pensa no que gostaria de ver realizado ou no que o público gostaria? Faço filmes narrativos, ponto final. Os meus filmes não são experimentais, não tenho necessidade de me afirmar como realizador. “Tão bem que o António Ferreira filma”? Estou-me perfeitamente nas tintas para isso. Gosto de filmes que contem uma história, claro que aprecio particularmente os que procuram fazê-lo de uma forma inovadora; qualquer espectador comum quer ser surpreendido. Antes de ser realizador, sou espectador. Gosto de ir ao cinema como uma pessoa perfeitamente comum. Desde a comédia de domingo à tarde (desde que minimamente inteligente) ao filme mais denso do Lars Von Trier, gosto de ver um bocadinho de tudo. E quando estou a filmar, coloco-me constantemente na posição de espectador. Uma coisa é aquilo que é claro para nós, que estamos por trás de todo o processo; outra coisa é só ver aquilo, o filme. Por exemplo, nós imaginámos uma história para o Nuno Silva [personagem de Filipe Costa]: ele conheceu a Margarida [personagem de Cláudia Carvalho] na universidade, ela engravidou, nasceu a filha, tanto um como o outro interromperam o curso, que nunca acabaram por causa disso… São coisas que não estão no filme, mas que são coerentes com o personagem que se está a ver. Isso permite aos actores terem estofo dramatúrgico, encarnar personagens, saber reagir. No filme, põem-se as pistas necessárias. É nesse sentido que me coloco constantemente na posição de espectador. Nos aspectos técnicos, penso como contar a minha história. Penso cena a cena, não faço planificações, não tenho storyboards. Só na cena do acidente é que fizemos um muito manhoso, porque envolvia alguns truques para aquilo ser credível.

Tem cooperações de produtoras fora de Portugal. Como é que isso tudo se processa? Em que é que elas participam?
Cada vez mais a co-produção é essencial. Portugal tem os recursos que tem, que são poucos, e, infelizmente, a política de apoio ao cinema está completamente errada. A prova disso é os resultados que temos. As pessoas têm um divórcio crónico com a nossa cinematografia. Alguma coisa aqui está completamente errada. Isto para contradizer aquele discurso oficial sobre os nossos filmes serem muito reconhecidos lá fora, a nossa cinematografia ser muito prestigiada no estrangeiro; é pura mentira. Há uma elite que reconhece Manoel de Oliveira e pouco mais. Isso não é o reconhecimento de uma cinematografia, são casos isolados e com pouca expressão. Basta comparar aqui ao lado com Almodóvar, isso sim é uma coisa mundial e de massas. No resto da Europa, as cinematografias locais tem um peso muito grande nas bilheteiras! Os espanhóis vêem filmes espanhóis, os francês vêem filmes franceses, os dinamarqueses… 20 a 30 por cento das bilheteiras são das cinematografias locais. Em Portugal andamos na casa dos dois por cento – é uma diferença colossal. Isto só mostra que a política cultural para o cinema está a apoiar produtos, filmes, que as pessoas, simplesmente, não querem ver. Pergunto-me: que apoio cultural é esse que não tem retorno? Se forem ao Centro Comercial Dolce Vita estão lá quatro filmes portugueses em exibição, este mês estreiam cinco, pura coincidência. Os dois filmes que estrearam na outra semana, Os Marginais e o Voo do Flamingo, na primeira semana, um fez 2600 espectadores e o outro dois mil – números muito muito maus. E há filmes que fazem isso ao longo de quatro semanas de exibição! Nós, como actores deste cenário, como promotores, mesmo quando queremos fazer alguma coisa diferente, estamos sempre a lutar contra este estigma do cinema português. Portanto, um caminho cada vez mais importante é a co-produção. No caso do Embargo, mais de 70 por cento do financiamento veio do estrangeiro. O apoio do ICA é minoritário e o da RTP também. Sem o apoio de Espanha e do Brasil não teria sido possível.



O apoio das produtoras internacionais, da Vaca Films…
… A Vaca Films, a Diler e Associados, a Sofá Filmes – é curioso porque quando começa o genérico do Embargo parece que vamos ver um filme pornográfico (risos). Já houve uma projecção em que o pessoal se começou logo a rir com o nome das produtoras.

O apoio destas produtoras é exclusivamente financeiro?
Sim, colaboram na divulgação nos seus países e no financiamento. Nós fomos captar recursos em Espanha e no Brasil. Por exemplo, vamos agora ao Festival do Rio (a produtora brasileira é, exactamente, do Rio de Janeiro) e o próximo objectivo é lançar o filme lá, num mercado nada fácil.

Como é que os filmes chegam aos festivais?
Isso dos festivais é uma coisa muito difícil. É sempre por concurso. A competição é a nível mundial. Este filme tanto pode ser amigo do público como pode agradar mais aos festivaleiros e a verdade é que está seleccionado em nove festivais internacionais. Quem compra filmes a nível mundial, está lá. Um filme só consegue circular fora do país se tiver esse percurso pelos festivais. Estamos agora a pesquisar na imprensa brasileira e o Embargo já é um dos seis a dez destacados, dos 200 filmes que estão no Rio de Janeiro.

É fácil ter lucro?
Se venderes o filme, começas finalmente a ter lucro. Mas o que dá lucro são os blockbusters e nós sabemos que não temos o Adrien Brody, a Nicole Kidman, o Robert De Niro. Esses são os filmes que realmente se vendem no mundo inteiro. Normalmente, os compradores internacionais estão interessados, entre outros, em filmes que foram grandes sucessos nos países de origem. Automaticamente, vendem no mundo inteiro. Neste momento, sabemos que não estamos a falar de um filme dessa dimensão.

Quanto custou o Embargo?
O Embargo custou 200 mil, é um filme barato. O que é considerado um filme low-budget, actualmente, está entre os 500 e os 600 mil euros. Nós estamos abaixo do low-budget. Acho que tivemos a arte de fazer um filme com pouco dinheiro que não tem um ar pobre, uma produção ao nível das outras.

Apostaram também muito na divulgação.
Sim, estamos a gastar e a apostar muito na divulgação. Está a aproximar-se o dia da estreia e estamos a ficar com um bocado de “cagaço”. Estamos a apostar que o filme vai conseguir fazer alguma coisa em sala, que vamos conseguir passar dos cinco mil espectadores. Se tivermos cinco mil espectadores vamos ficar completamente desiludidos, mas logo se vê. Aliás, os grandes distribuidores em Portugal disseram-me que era isso que o filme ia fazer. Tivemos que o distribuir nós próprios, porque acreditamos que o filme pode fazer muito mais do que isso.

Como é que o distribuem vocês próprios?
Estamos a distribuir os cartazes e a alugar as salas para o filme. Negociámos com a Lusomundo, com a Castello Lopes, com a NewLine (os donos das salas em Portugal) e, para além de pagarmos para estar nas salas, ainda temos de convencê-los a que nos deixem pagar. Nesta semana há dez filmes a estrear, ou seja, para conseguirem estrear os dez filmes vão ter que tirar alguns. E, portanto, nós vamos ter que convencê-los de que o nosso filme vai fazer mais espectadores do que um desses dez filmes – estamos a falar de, basicamente, dez filmes americanos. Eles dizem-nos “simpatizamos muito com vocês, queremos apoiar o cinema português, mas isto é negócio; estarmos a abrir uma sala para fazerem 100 espectadores numa semana…”. Para terem uma ideia, O Voo do Flamingo, por exemplo, estreou em 11 salas, se não me engano, e fez dois mil espectadores. Portanto, eles fizeram 200 espectadores por sala e isso dá uma média de sete espectadores por sessão. Ou seja, é mau. Ontem fui ver o Wall Street e já só conseguia sentar-me ou na segunda fila da frente ou na última do canto, lá atrás. Portanto, só numa sessão eles meteram 200 espectadores, num domingo à noite. E nós estamos a competir com eles! Isto é um negócio e tem que se fazer bilheteira. O filme vai estrear na quinta-feira e na segunda eles vão ver quem fez menos nesses quatro dias. Portanto, se arrancarmos mal, corremos o risco de, ao fim de quatro dias, começarmos a sair das salas. Por isso é que estamos a pedir às pessoas para irem logo neste fim-de-semana, para mostrar [às distribuidoras] que as pessoas querem ver o Embargo. Ou não. Deixem-me só completar esta ideia: era importante que quem está nos institutos de cinema e os próprios produtores e realizadores tivessem mais consciência disso. Ou, pelo menos, que o ICA parasse de dar dinheiro a pessoas que, pura e simplesmente, fazem filmes que ninguém quer ver. O ICA existe para evitar que esta arte desapareça. Portugal não tem dimensão para rentabilizar completamente uma obra cinematográfica. Se nós não tivermos algum apoio que permita, pelo menos, colmatar esta falha de mercado… Mesmo que tivéssemos 20 ou 30 por cento de share, não chegava para cobrir os 600 mil ou um milhão de euros que custa um filme. Se dessem metade do dinheiro – em vez de 600 mil euros – a cada filme, já seria possível fazer-se mais filmes. Podíamos duplicar o número de filmes que se faz em Portugal! Já sabemos que há filmes que correm melhor, outros pior, e isso também acontece com os americanos. É preciso haver mais produção para haver erro. O problema em Portugal é que há muitos que fazem 600 espectadores, 500, mil; há dois casos de filmes que fizeram 60 e tal espectadores: até me dá dó porque, coitado, o realizador não tem amigos! Nem os amigos dele foram ver o filme! (risos) Como é que um realizador que recebeu 600 mil euros pode fazer 60 e tal espectadores? Isto é um crime. Não lhe podem dar dinheiro a seguir! O que acontece é que dão. Passamos cheques em branco e depois o resultado está à vista: um divórcio completo entre o público e o cinema

O nome Persona Non Grata vem dessa alienação?
Também, mas nós já aprendemos a não depender disso. Obviamente é uma expressão da nossa revolta com o sistema, mas não vamos condicionar todo um trabalho de dez anos – e numa coisa tão importante como o nome da nossa produtora. O que nós procurámos foi um nome que funcionasse bem internacionalmente; é latim, é uma expressão internacional, qualquer anglófono percebe, era o que se punha antigamente nos passaportes quando uma pessoa estava impedida de entrar num país. E reflecte a nossa atitude de irreverência. Não queríamos ter nome de meninos bem comportados que querem ser grandes tipo Worl Wide Films (risos). Tem ironia, tem piada, é uma coisa bem disposta.



E porquê a mudança do nome? Para assinalar um novo período? Casa nova, aposta maior…
Exactamente. Coincidiu com uma série de coisas: a saída do Embargo, a mudança de casa. Apesar da Zed Filmes ser uma marca já instalada, achávamos que dava um ar um bocadinho amador à coisa. Decidimos, então, lavar a cara completamente e matámos o Zed de vez: Zed is dead, baby. Curiosamente, em três/quatro meses já quase ninguém fala da Zed.

Projectos futuros?
Para o mês que vem, 28 de Outubro, vamos estrear em sala o Futebol de Causas, que é mais um filme de Coimbra, de um realizador de Coimbra, sobre a Académica. A história, que nunca foi contada, da Académica e do envolvimento, na altura, de jogadores de futebol na política – uma coisa absolutamente inédita, não sei onde é que terá havido, no mundo, outras histórias dessas e certamente não veremos isso acontecer no futuro. Temos várias produções a decorrer, estamos neste momento a filmar três documentários. Um da Diana Andringa, um do Rodrigo Lacerda e da Rita Alcaire (sobre os trabalhadores da indústria sexual – Das Nove às Cinco) e outro do Tiago Sousa – o argumentista do Embargo – chamado Circo Cristal, uma família. São tudo coisas que esperamos para o ano ter finalizado. De longa-metragem tenho vários projectos, mas aquele que está neste momento mais encaminhado, espero filmá-lo dentro de dois anos, é uma adaptação de um romance da Rosa Lobato Faria. A Trança de Inês: a história de Pedro e Inês contada de uma forma completamente original. Não se passa apenas no séc. XIV, mas também no séc. XX e num futuro imaginário, tipo séc. XXII, num mundo ecológico, com uma redução drástica da população, tudo a energia solar, onde temos sempre um Pedro e uma Inês e em que as épocas parecem andar paralelas, com impacto umas nas outras. Neste caso, o filme será muito mais próximo do livro do que no caso do Embargo. Gostei do tom que a Rosa conta a história, uma extrema ironia. Temos uma ideia dela um pouco cor-de-rosa e não é nada: o livro é bastante duro, até chega a ser violento e tem uma ironia mordaz da qual eu gosto bastante.

Daqui a 20 anos, quem vai ser o António Ferreira?
(risos) Não faço a mínima ideia! Eu nem sei quem vai ser o António Ferreira daqui a seis meses. Tenho a minha agenda programada para as próximas duas semanas, depois não sei. Isto é uma coisa muito imprevisível, não faço planos a tão longo prazo. Espero filmar com mais regularidade do que tenho filmado. Quer dizer, eu filmo constantemente, não faço é tanta ficção como gostaria de fazer. Mas é como os jogadores de futebol: isto é jogo a jogo (risos).
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Eva Queiroz de Matos e Inês Silva, Revista Via Latina




Título original: Embargo
Realização: António Ferreira
Argumento: Tiago Sousa, a partir da obra homónima de José Saramago
Interpretação: Filipe Costa, Cláudia Carvalho, José Raposo, Pedro Diogo, Fernando Taborda, José Raposo,
Miguel Lança, Eloy Monteiro
Fotografia: Paulo Castilho
Música Original: Luís Pedro Madeira
Origem: Portugal/Espanha/Brasil
Ano de Estreia: 2010
Duração: 83’



recebemos por mail, pedimos autorização, obtivemo-la. eis uma apreciação do Filme do Desassossego:

Acabei de ver o Filme do Desassossego e vou partilhar aqui o que não fui capaz de partilhar na conversa pós-filme com o realizador. Senti o filme como uma peça de teatro não porque tenha sido feito com essa intenção (como por exemplo os Cães Danados) mas porque apenas o senti assim. E este apenas não é pouco pois o filme foi simples e belo.

Belo pelo som das palavras, belo pela fotografia, belo pelo desenvolvimento da trama que não tinha mas que cada um montava para si.

A peça que eu senti era um monólogo com dois actos intervalados pela cena da ópera.

No primeiro acto o Bernardo Soares desmultiplicasse em vários personagens (um pouco como na Confissão de Lúcio mas com uma desmultiplicação muito maior) e cenários (também senti os cenários como sendo parte do próprio Bernardo Soares). No segundo acto os personagens fundem-se em apenas um levando ao desenlace final – eu sou Deus.


Podia continuar a dissertar mas não vale a pena pois este filme é uma experiência singular. Obrigado ao João Botelho e ao Cláudio Silva por tornarem isso possível. E ao Cineclube por não ter deixado os farenses no esquecimento.

Tito

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(obrigado nós!)

Eduardo Marinho.avi



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josé e pilar, brilhante doc do MGM, está em exibição em Olhão até à próxima 4ªf. sabia? vá!

«Caros amigos e amigas,

Como sabem, o filme José e Pilar estreou na passada quinta-feira. A afluência em sala tem sido reduzida, fenómeno já habitual no cinema que não seja made in hollywood, pelo que, se gostaram do filme, pedimo-vos que passem palavra e que o divulguem; pois a primeira semana é crucial para que os exibidores o mantenham em sala.

O filme está em exibição em Lisboa, Porto, Cascais, Almada, Aveiro, Braga e Coimbra (nestas 3 últimas cidades é onde tem tido piores resultados, apesar de todas a críticas favoráveis).
No Brasil já foi visto por várias dezenas de milhar de pessoas e no próximo Sábado, dia 27 de Novembro, José e Pilar será filme de abertura do festival de Ronda (Espanha), onde será apresentado pelo Juiz Baltazar Garzón.

Um grande abraço a todos e obrigado por tudo,

Miguel»


a todos os que não couberam na nossa ante-estreia e aos demais...vão e passem palavra! o filme é magnífico!

GRANDE PRÉMIO INDIE LISBOA - cinema independente do melhor! Vão-me buscar alecrim, dos irmãos Safdie, é 2ªf, IPJ, 21h30.


Um homem irrequieto, dois miúdos reguilas e uma cidade acordada. De olhos bem abertos para a Nova Iorque de Vão-me Buscar Alecrim, o filme autobiográfico dos Irmãos Safdie.

Chuck Katz escreveu um livro com itinerários cinéfilos pelas ruas de Nova-Iorque. Já teve várias edições e é um deleite para os amantes de cinema que vistam a cidade. Através dele pode-se saber qual a conduta de metro que levantou as saias a Marylin Monroe, o bar em que Tom Cruise fazia os cocktails de Cocktail ou a praça em que Edward Norton cantou apaixonadamente para Drew Barrymore no musical de Woody Allen Toda a Gente diz que te amo. São páginas e páginas de referências de uma cidade que todos conhecemos dos filmes, mas que nunca vemos da mesma maneira. Apesar de tudo o que já foi feito, os irmãos Safdie, realizadores de Vão-me buscar Alecrim, descobrem um novo ângulo, que não é mais do que uma visão pessoalíssima da Nova Iorque que os viu crescer.

Vão-me buscar Alecrim ganhou o prémio principal da última edição do Indie Lisboa. É uma homenagem ao pai e à própria cidade, com fortes traços autobiográficos. Esclareça-se: aqueles dois irmãos reguilas, interpretados por Serge e Frey Ranaldo (filhos de Lee Ranaldo dos Sonic Youth), não são mais do que os próprios realizadores. E muito do que o filme mostra aconteceu-lhes mesmo.

De certa forma, é uma história de amor paternal, de um pai que se confunde com um irmão mais velho, numa paixão assolapada, imatura mas consistente pelos filhos. Tal faz com que o seu amor nunca seja posto em causa, mesmo quando, de forma imprudente ou negligente, põe a vida das crianças em risco, através do uso imponderado de soporíferos. Perdoamos imediatamente aquele pai, assim como os próprios filhos o fazem ao realizarem este carinhoso filme. Até porque, muito provavelmente, também o pai, que era projeccionista, influenciou as suas vocações.

A admiração por John Cassavetes é evidente. Logo no início, a câmara, aparentemente distraída, encontra, como por acaso, um homem, que acaba por ser o protagonista. Depois de comprar um cachorro quente, salta uma vedação do Central Park e tropeça, deixando cair a salsicha e tudo o resto. Ri-se sozinho, como se fosse um tolo. E assim fica retratada a personagem brilhantemente interpretada por Ronald Bronstein, um grande actor que nem sequer actor é (os irmãos Safdie levaram o espírito independente ao extremo de convidar o seu editor de imagem para actor principal). Percebemos que Lenny está apenas feliz porque chegou a altura do ano em que fica com os filhos.

Aquela vedação do Central Park, em que ele tropeça, é o que o separa da zona fina de Upper Manhatan, onde os filhos vivem tranquilamente com a mãe. Os miúdos são uns traquinas, capazes das maiores tropelias, como carregarem uma bisnaga de urina e disparem contra o babysitter. Mas o pai não lhes fica a trás, com o seu carácter hiperactivo, acriançado, irresponsável. Mostra uma envolvência física e emocional com os filhos, como um leão com as suas crias.

Assim é transmitida uma sensação de felicidade louca e espontânea, como de uma paixão, apesar de os resgatar de uma casa luxuosa, para um apartamento minúsculo da zona baixa da cidade, provavelmente Greenwich Village ou Soho.

A personagem, tal como nós, não se conforma com o fim daqueles dias, num tempo em que a custodia era mal dividida entre divorciados. E, mais uma vez, aceitamos o que o que aparentemente é condenável: o pai, que serve para quase tudo menos para ser pai, rapta os filhos, e parte, de frigorífico às costas, com as crianças debaixo dos braços, no esplendoroso teleférico de Roosevelt Island. E até acreditamos que a viagem não acaba logo ali, do outro lado do rio, mas apenas numa nuvem dos céus de Manhattan.
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Manuel Halpern, Visão



Na edição de Junho de 2010 dos "Cahlers du Chiéma", Benny Safdie, o mais novo dos cineastas e irmãos nova-Iorquinos que assinam esta estreia, foi convidado a escrever um texto sobre o lançamento em DVD de "Hi Mom!" (1970), filme mítico de Brian De Palma, com Robert De Niro. Talvez esta seja uma estranha forma de começar a falar de um filme, mas muito do mistério de "Vão-me Buscar Alecrim" (o título português ficou com imensa piada) resumiu-o Benny nesse texto. Afirma ele: "É o lado completamente frenético da narrativa que torna o filme tão excitante e divertido," Mais tarde: "Do início ao fim, o filme adapta o estilo do documentário (...) a interpretação torna-se muito realista e sentimo-nos imergir noutro mundo: suspendi a respiração ao ver tudo aquilo decorrer, como se fosse em direto, pois não sabemos mais onde a realidade se encontra," Ora, não pode haver melhor convite para entrar em "Vão-me Buscar Alecrim" do que aquelas palavras: é que Benny escreveu (sobre De Palma) do mesmo modo que os dois irmãos filmam. E o que eles filmam vem da urgência do momento, do improviso, por vezes da total confusão. Decorre tudo tão depressa que jamais há tempo para fazer uma pausa - mas só um planeamento engenhoso consegue garantir o triunfo deste efeito. Em 2008, Josh foi notado em Cannes, na Quinzena, com a longa-metragem "The Pleasure of Being Robbed". Os dois Irmãos já tinham assinado algumas curtas. À Quinzena voltaram, em 2009, com este (co-assinado) "Vão-me Buscar Alecrim". E, no passado mês de abril, o filme estreou finalmente em Portugal, no IndieLisboa, vencendo o prémio máximo. Agora, sim, entramos no 'alecrim', para falar do seu herói, espécie de 'pai-coragem', trintão gasto e de cabelo grisalho, divorciado, doido varrido, com vida desregrada... Chama-se Lenny (extraordinário papel de Ronny Bronstein, realizador de um filme inédito em Portugal de que gostamos muito: "Frownland"), vive sozinho e, durante duas semanas, apenas duas num ano inteiro, ele tem direito a ficar com a guarda dos seus dois filhos menores, dois rapazes. Mas Lenny é tudo menos responsável. É uma criança grande. Os dois miúdos são uma figuração dos próprios Safdie, que fazem aqui o retrato do seu pai. E o trio mete-se invariavelmente em sarilhos. Mas "Vão-me Buscar Alecrim" ultrapassa em muito o tom da autobiografia: é que aquele 'pai vagabundo' vai viver cada segundo das duas semanas com os filhos como se fosse o último. No gesto, reinventa-se uma paternidade nova, contraditória, polémica nas ruas, febris de uma Nova Iorque que Jamais foi filmada assim. A improvisação nunca tomba na caricatura, numa figura de estilo: ela é o próprio assunto do filme, a sua natureza mais absurda, emotiva e assustadora - até chegarmos à tal imersão de que falava Benny, uma imersão que deixa a story contagiar-se tanto pelo real como pelo lado mais fantástico do quotidiano que a rodeia. Sublime. Que o filme encontre entre nós o culto que merece.
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Francisco Ferreira, Expresso




É refrescante a forma de filmar a infância assim: o caos total.

No cinema actual (americano, mas para além dele) não deve haver coisa mais estereotipada do que o olhar sobre a infância, sobre as crianças, sobre as relações entre pais e filhos pequenos. Neste panorama, é refrescante encontrar um filme que, como "Vão-me Buscar Alecrim", seja capaz de filmar a história (disfuncional) de um pai divorciado (um "pai solteiro") e dos seus dois filhos desta maneira: caos total, a linha da irresponsabilidade cruzada mais do que uma vez, e no entanto... E no entanto, a relação entre aqueles três exala uma autenticidade sentimental comovente, uma espécie de felicidade acossada menos pelos sucessivos desastres do que pela maneira condenatória como o mundo (os "outros") olha para os desastres. Quer dizer, "Vão-me Buscar Alecrim" é a história de um "pai-herói", mas cuja heroicidade só é (só será, um dia) reconhecida pelos filhos. Toda a gente, todos os adultos, dos professores da escola à mãe das crianças, vê naquele homem apenas um irresponsável eventualmente perigoso; mas aqueles dois miúdos, Sage e Frey, quando crescerem, farão muito provavelmente um filme sobre o pai (que até é projeccionista e lhes mostra filmes, em película e tudo). Assim o fizeram, pelo menos, Joshua e Benny Safdie, dois nova-iorquinos de vinte e poucos anos: "Vão-me Buscar Alecrim" é a autobiográfica homenagem ao pai de ambos.

Podemos acreditar facilmente nesta Manhattan de "hot-dogs" e jardins, apartamentos atravancados, tascas e lojinhas - podemos acreditar que é nesta Manhattan que as pessoas, de facto vivem. Há uma cena em que se evoca directamente aquela célebre foto a preto-e-branco de Weegee com os miúdos a tomarem banho de mangueira na rua (a mesma foto que, no "Padrinho", Coppola também "reconstituiu", e pouco importa que ela tenha sido tirada, salvo erro, em Brooklyn), o que faz todo o sentido porque é a "rua", em sentido lato, que os Safdie querem filmar. E, no entanto, reconhecendo embora a pertinência do enquadramento de "Vão-me Buscar Alecrim" na nobre linhagem do "realismo independente nova-iorquino" (Cassavetes ''et al''), os outros emparceiramentos que o filme dos Safdie nos sugere estão um pouco longe de Manhattan: aquele belo filme do georgiano Otar Iosseliani, "Era uma vez um Melro Cantor", e o seu protagonista, sobre-comprometido como o pai dos Safdie, a lutar contra o tempo e contra o espaço para conseguir estar aonde tem de estar à hora a que tem de estar, o seu voluntarismo e entusiasmo sempre a jogarem contra ele; e, claro, o sítio de onde têm vindo sistematicamente os mais espantosos e "irregulares" retratos da infância e da família, o Irão: reparem na maneira como os Safdie conseguem criar um sentimento de angústia profunda a partir dos mais anódinos acontecimentos domésticos e, num ápice, dar o salto para o acontecimento extraordinário e extraordinariamente angustiante (toda a sequência, semi-absurda, com os miúdos adormecidos por um excesso de sedativos, é "cinema iraniano made in Manhatan", e não o dizemos com nenhuma espécie de provocação).

Longe de Manhattan: o plano final, supra-sumo da melancolia desafectada com que os Safdie filmam esta história, sugere que talvez do outro lado do rio, não muito longe mas suficientemente longe dali, o pai e os dois filhos encontrem o que lhes falta, o tempo e o espaço.
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Luís Miguel Oliveira, Ípsilon




Ponte para a infância de Josh e Ben Safdie (inclui declarações dos realizadores)

Dois irmãos, o caos na infância e a necessidade de catarse. Dois cineastas, o filme do trauma e uma transbordante fantasia. Que nos rapta. Uma das estreias do ano: "Vão-me buscar alecrim"/"Go get some rosemary". Em busca da infância perdida de Joshua e Ben Safdie com a ponte Queensboro em fundo

Joshua e Ben Safdie fizeram a educação sexual na Queensboro Bridge com o carro do pai imobilizado no trânsito e as bujardas de Howard Stern na rádio. Os nova-iorquinos exasperavam com as filas no único acesso grátis a Manhattan e desenvolveram uma relação de ódio com a ponte. Mas Paul Simon, por exemplo, gostava e fez-lhe uma serenata em andamento : é ouvir "The 59th Street Bridge Song (Feelin'Groovy)" do álbum "Parsley, Sage, Rosemary and Thyme", de Simon & Garfunkel, 1966. Joshua e Ben passaram a infância ali. A entrarem e saírem de Manhattan. Por baixo da Queensboro, um Grand Canyon de asfalto - a Primeira Avenida -, o East River, Roosevelt Island e o subúrbio onde eles viviam, Queens. Por cima, um teleférico vermelho.

Joshua: "Todos aqueles cabos, e no entanto um elemento de leveza. A liberdade que aquelas pessoas que vão no teleférico têm. Como uma espécie de fuga. Tudo parece pesado, e no entanto quando o teleférico levanta...".

Joshua e Ben perguntavam-se quando eram crianças: para onde iam aquelas pessoas?

Passaram 15 anos, o teleférico já não levanta - obras de remodelação só voltam a pôr a funcionar o meio de transporte para Roosevelt Island em Setembro - mas os irmãos contemplam, numa manhã de Junho com temperatura de Agosto, o cenário onde filmaram a sequência final da sua longa-metragem "Vão-me buscar alecrim"/"Go get some rosemary". Contemplam um pedaço da memória, e a verdade é que a sequência do filme experimenta-se como uma epifania.

Quando embarcam no apelo "triunfante" daquela hipótese de fuga de Manhattan, os Safdie estão a referir-se a um momento no filme em que um pai divorciado, Lenny, misto de mágico, aldrabão e disfuncional compulsivo (profissão: projeccionista), encontra finalmente um acordo no seu tempo e no tempo dos seus dois filhos. Como se só a bordo do teleférico, no ar, afastado da terra, os conseguisse raptar ao caos que ele próprio cria. É uma vitória mas também é uma derrota.

Eles são Lenny (Ronald Bronstein) e Sage e Frey (na vida real filhos de Lee Ranaldo dos Sonic Youth) e estão, obviamente, no lugar de Alberto, o pai, e dos irmãos Joshua e Ben. Que são também filhos de um casamento que cedo acabou. O pai não era projeccionista mas filmou obsessivamente a infância dos filhos. Quando lhes quis explicar o que tinha sido a vida familiar, encurtou o discurso e deu-lhes como exemplo a batalha entre Dustin Hoffman e Meryl Streep pela posse do filho em "Kramer contra Kramer", o filme de Robert Benton. E um dia depositou-lhes nas mãos as centenas de horas de imagens deles. Portanto, para Joshua e Ben, a vida vive-se para ser documentada. Portanto o cinema tinha de ser o legado. E tinha de ser biografia.




Sabem que são filhos do trauma. Há anos que os amigos lhes dizem que a sua infância dava um filme e que deviam fazê-lo. Esse pode ser um lugar-comum, mas no caso deles ganha mesmo sinais de vida - cinematográfica.

Quando, em "Vão-me buscar alecrim", filmam Lenny a pôr os filhos "K.O.", a dormir com comprimidos, para os miúdos não se assustarem com a sua ausência porque teve de substituir um colega na cabine de projecção, Joshua e Ben até podiam esperar que os espectadores do filme se dividissem. Mas não esperavam reacções tão "politicamente correctas" de alguma imprensa americana que os vê como vítimas de abuso.

Joshua: "Percebemos que aquela cena podia ser um ponto de viragem, mas estávamos sobretudo preocupados com o que aquilo significava para nós e não para a sociedade americana."
Talvez pressentindo o pudor do jornalista em explicitar a pergunta ("o vosso pai drogava-vos com comprimidos?"), Joshua antecipa-se: "Aquela cena está no lugar de outros dramas que nos aconteceram. Mas a verdade é que a relação das pessoas com a infância é culturalmente grosseira. Pelo menos na sociedade americana. As excessivas precauções repugnam-me. Interessa-me quando as crianças são tratadas como outras pessoas."

Joshua e Ben não (se) olham como vítimas. O que aprenderam com Alberto - e o que os filhos de Lenny provavelmente aprenderão com o pai de "Vão-me buscar alecrim", embora nunca se vá saber como essa história vai acabar... - é que o caos e a disfunção podem ser uma explosão de fantasia. "Vão-me buscar alecrim" começa por parecer um estudo de personagem e de cidade, tem momentos de "screwball comedy" crispada, mas é permeável pelo fantástico e pela ficção científica, como uma energia intrusiva que corrói o edifício por vários lados (há por lá um insecto gigante, como um urso polar se cruzava no "road movie" de uma cleptomaníaca em "The Pleasure of Being Robbed", obra a solo de Joshua, de 2008).

É como um assalto. E quem é assaltado é o espectador, sem possibilidade de se acostumar a um registo, ficando ao sabor angustiante da desordem de Lenny. A necessitar de um momento de descarga, a sequência final no teleférico. O Ípsilon marcou encontro com os Safdie no local do crime, Rua 59, Manhattan. O momento em que uma ficção termina em ascensão foi o início dos Safdie como cineastas tal como os conhecemos hoje, autores de longas, curtas e curtíssimas metragens.

Joshua: "Somos filhos desta personagem, que está dentro de nós. Este filme foi a forma de entendermos que há mais de uma década andamos a estudar o comportamento dele. Mas também somos uma espécie de pai dele. O nosso pai tem hoje 50 anos mas não vamos ter com ele para pedir conselhos. Ele é que vem ter connosco para nos pedir conselhos. A minha mãe e o meu pai já viram o filme. Ele umas oito vezes. Ela, que não vive com ele já há uns 20 anos, não tem memória dele por isso para todos os efeitos, o Lenny do filme é a cara do meu pai. E claro, acha que o filme é uma 'carta de ódio' ao ex-marido. Ele, pelo contrário, acha que os seus defeitos são as suas qualidades. O facto de cada um ver o filme a partir da sua própria realidade faz sentido para nós."

O estudo da personagem continuará, porque a próxima longa que os irmãos estão a escrever, "Uncut gems", passa-se no mundo da indústria da joalharia, "ali para a Rua 47". A escolha pode parecer uma guinada depois de "Vão-me buscar alecrim", mas o cinema continua ancorado no pai: os anos em que ele trabalhou no mundo "obscuro" das jóias.

Joshua: "Benny e eu andávamos a precisar disto, e a única forma de fazermos a catarse da nossa infância, para sabermos como foram os nossos primeiros 11 anos de vida, era ficcioná-la. Há uma razão para os gregos terem inventado o teatro. Recriar apenas a nossa infância não tem interesse, é mais interessante como a vivemos. Por isso, é como quando contamos a alguém um sonho: temos que acrescentar sempre um ponto para tornar a coisa mais interessante."

E os dois olham para os cartazes que anunciam o novo teleférico remodelado que vai surgir em Setembro. Já não vai ser como antes.

Ben: "Este filme mostra pela última vez o teleférico tal como era. Lá vão outra vez dizer que 'Vão-me buscar alecrim' é um filme de época."

O teatro de uma cidade

É verdade que a pergunta surge insistente: em que época se passa "Vão-me buscar alecrim"?. Há quem jure que esta Nova Iorque suja só existiu assim no cinema americano dos anos 70 e que estas personagens, Lenny sobretudo, estão sob influência, como nos filmes de John Cassavetes. Menciona-se o nome e Joshua e Ben ameaçam revirar os olhos. Dizem eles que antes de se falar de Cassavetes tem que se falar de "Ladrões de Bicicletas" de Vittorio de Sica (1948) ou de "Bleak Moments" de Mike Leigh (1971). Mas se calhar nem se deve começar pelo cinema.

Joshua: "Nunca a referência a filmes foi um tema nas nossas conversas. E na verdade não tínhamos visto nenhum filme de John Cassavetes antes de fazermos este."

Ben: "Não é verdade. Tínhamos visto 'Uma Mulher sob Influência'. E não te esqueças que tínhamos um professor na universidade de Boston, Ray Carney, que escreveu um livro sobre Cassavetes e sobre a natureza maníaca das personagens dele. Essa natureza corresponde a um certo modo de vida que tem a ver com Lenny. Mas, se se reparar, Cassavetes estava demoradamente com as suas personagens, até à exaustão, e nós obrigamos o espectador a saltar de situação em situação, quase que o frustrando."

Joshua: "Sim, não é possível sintetizar as coisas no nome Cassavetes. Se tem que se falar de filmes que estiveram antes deste, então temos de falar de 'Milestones' de Robert Kramer [1975]."

O nome de Cassavetes pode parecer incontornável, mas novas visões do filme mudam a forma de engavetar "Vão-me buscar alecrim". Isso e entrar em www.redbucketfilms.com, o sítio em que os irmãos apresentam as várias plataformas do trabalho da sua produtora, Red Bucket Films, que partilham com três amigos e colegas da universidade de Boston. É uma associação de gostos e impulsos individuais mas disponíveis para a solidariedade: quando um deles precisa, os outros põem-se ao serviço do projecto alheio com a função que for necessária. E a experiência com a ficção não se fica só pelos filmes, estende-se aos livros, fanzines e ambiciona chegar ao museu, expondo os objectos que vão coleccionando no seu périplo pelas cidades - como Lisboa, por exemplo, onde estiveram a apresentar o filme no IndieLisboa deste ano e a receber o prémio principal do festival. O "twist" é que nesse mostruário de objectos, histórias e filmes, o verdadeiro está misturado com o falso, o documental com o ficcional.




Mas entre-se em www.redbucketfilms.com, veja-se a série "Buttons", instantâneos, alguns só duram segundos, de Nova Iorque que Joshua e Ben roubam à cidade com as suas câmaras digitais. Ou então as curtas em que Nova Iorque e arredores surgem transfigurados, habitando um tempo que não é imediatamente reconhecível, e entre o burlesco (a presença "keatoniana" de Ben como actor) e o onírico, levando o espectador a querer insistentemente datá-lo. Isto para dizer que, afinal, é menos o cinema e mais a relação com a cidade que está na base daquilo que os Safdie fazem. Temos por isso que confessar que esperávamos encontrar na Rua 59 dois rapazes a verem o mundo avidamente com as suas câmaras digitais, como se só elas provassem que "aquilo" aconteceu, mas afinal quem apareceu foram dois exemplares de uma outra vertigem, proustiana, à moda de Manhattan.

Joshua: "Se nos encontrasse há um ano era assim que nos veria, mas depois começou a tornar-se um problema. Estávamos a viver experiências apenas para as registar, apenas pelo dispositivo. Resolvemos suspender isso. Estamos agora a enveredar por uma abordagem mais interior, de recriação. Mas é verdade que há um ano poucas pessoas andavam com as suas câmaras digitais e hoje é o que toda a gente faz. E, sim, são as coisas que vemos nas ruas de Nova Iorque que estão na origem de algumas das cenas dos nossos filmes." Josh resume: "The theatrics of the city."

Mas então "Vão-me buscar alecrim" é passado ou é presente? Por que é que anda por lá Abel Ferrara (um "cameo") a falar em Bill Withers, singer songwritter dos 70s? É tudo hoje, "agora", mas como Ben se encarrega de explicar, isso também é tudo "passado".

Ben: "Queremos sempre desesperadamente captar o agora, mas nunca conseguimos porque a partir do momento em que o filmamos é sempre passado, estamos sempre a olhar para trás. Mas é um passado lembrado no presente, não é o passado pelo passado. É a memória de coisas que passaram. Pode datar-se a memória? Eu diria que a nossa Nova Iorque é intemporal."

Era disso que falávamos, Proust em Manhattan - Ben fala menos, embora compense o maior voluntarismo dicursivo do irmão com uma disponibilidade no olhar que é transbordante e com uma capacidade de síntese que ilumina o que Josh acabou de dizer; a sintonia, de resto, é de siameses, assim como a pulsão para a pantomima.

Sobre Ferrara e Bill Withers, Joshua explica então que deram ao realizador, tornado aqui actor, uma série de discos que ele era suposto andar a vender na rua, numa sequência do filme. E foi Ferrara que escolheu o singer-songwriter negro dos anos 70 no meio dos discos "modernos" que a produção pôs à sua disposição. Não houve nenhum preciosismo ou calculismo de época.




Ferrara, para Joshua, é uma personagem perfeita para aquilo que ele chama "the theatrics of the city". Conheceu-o, quando tinha 18 anos, de uma forma que deverá ser muito nova-iorquina: Ferrara era vizinho de um amigo dos irmãos Safdie, e do apartamento onde morava muito barulho antecipava invariavelmente "uma porta que se abria e alguém que era atirado pelas escadas abaixo".

"Trabalhei depois numa loja de vídeo e ele era a única pessoa que estava autorizada a levar filmes grátis. Quantas vezes vi depois o Abel na rua à noite, e a chamar por mim [imita a voz rachada de Ferrara]: 'Josh, Josh, dá-me dinheiro.' Ele é o verdadeiro poeta da rua de Nova Iorque. Fazia sentido para nós que numa determinada cena do filme ele entrasse em contacto com Lenny."

Mais "teatro de uma cidade": "Outro dia vi um rapaz na rua com o som muito alto a sair de uma 'boombox' e a dançar e alguém pediu para ele baixar o som e ele respondeu: 'Fuck, I'm taking my city with me'. Esta cidade precisa da anarquia individual. A infelicidade adora companhia. Não quero que Nova Iorque seja um gigantesco Starbucks. Gosto de ter medo das pessoas na rua, se calhar porque isso me distrai dos meus problemas."

E o perigo espreita em Nova Iorque. Não um mosquito gigante não um urso polar, mas o irascível Dirty Harry transportado de São Francisco para Manhattan e disfarçado de papagaio. "Give me your finger and make my day!", mesmo numa esquina de acesso à Queensboro Bridge, é um íman que atrai Joshua e Ben Safdie. Dentro da loja de animais, asas abertas e "hellos" e "goodbyes" papagueados ao melhor estilo rachado de Abel Ferrara.

Isto é "Vão-me buscar alecrim".
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Vasco Câmara, Público


Realização e Argumento: Josh & Benny Safdie
Interpretação: Ronnie Bronstien, Sage Ranaldo, Frey Ranaldo, Victor Puccio, Éleonore Hendricks,
Sean Williams, Dakota Goldhor, Aren Topdjian, Aber Ferrara, Leah Singer, Salvie Sansone, Jake Braff
Direcção de Fotografia: Brett Jutkiewicz e Josh Safdie
Montagem: Josh & Benny Safdie, Brett Jutkiewicz
Origem: EUA/França
Ano de Estreia: 2009
Duração: 100’