UMA (ÓPTIMA) ENTREVISTA A ANTÓNIO FERREIRA
Embargo, da obra homónima de José Saramago, estreia hoje nas salas de cinema de todo o país. Um filme de António Ferreira, um realizador com uma produtora nos arredores de Coimbra. Sim, em Coimbra. Em Casconha, para sermos mais precisas. A sede da Persona Non Grata Pictures contrasta com um ambiente rural de casas típicas de aldeia. Importa conhecê-la, até porque António Ferreira já está farto da pergunta “mas é mesmo de Coimbra?”
Aos 20 anos, quem era o António Ferreira?
Aos 20 anos ainda era programador informático, trabalhava numa empresa em Coimbra, a Systematic, que, se a memória não me falha, estava em vias de falência. Eu já estava a fazer planos para dar uma volta, porque sabia que dali a um ano ia para a tropa, e como já estava mais ou menos farto da profissão de programador informático, decidi que não iria procurar outro emprego quando a empresa fechasse. Vendi o meu computador, por 200 contos – 1000 euros, e com esse dinheiro fui para França, viver um ano.
Em França fez o quê?
Fui trabalhar num restaurante, nos Champs-Elysées! (risos)
E só para fugir à tropa ou já com outros objectivos?Na altura tinha uns amigos, que estavam lá a trabalhar, em Paris, numa pousada da juventude, que eu tinha conhecido numa viagem uns meses antes. Fui viajar, trabalhar, conhecer pessoas, aprender francês, etc.
E ainda não olhava para o cinema nesta altura?Não de uma forma séria. Na altura já fazia fotografia, fotografei muitos casamentos, tinha um laboratório em casa… Já gostava de cinema, obviamente, mas nunca tinha pensado em entrar numa escola de cinema, por exemplo. Aliás, antes disso pensei entrar numa escola de fotografia, que era aquilo de que eu gostava mesmo, mas era tudo muito caro. Eram escolas privadas e foi uma coisa que nunca cheguei a fazer. Quando voltei da tropa reflecti um pouco. Soube de uma escola de cinema em Lisboa, resolvi concorrer e entrei – foi aí que, mais ou menos, comecei.
Mas mais tarde abandona a formação em Lisboa para ir para Berlim. Comparando essas duas experiências, como aconselha um jovem português que sonhe com uma carreira em cinema?Nestas coisas não há fórmulas. Apesar de tudo, até gostei de ter passado pela Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, porque foi um bom contraste com aquilo que depois encontrei em Berlim. Em Berlim era uma escola muito mais americanizada, no sentido de ser mais virado para um cinema mais mainstream – embora tenha tido professores desde a Polónia, a Israel, Holanda, Nova Iorque… O ensino era muito aberto, foi isso de que gostei mais. A escola não tinha professores fixos, todos os anos convidavam 20/30 professores para dar seminários. Nunca tinha o mesmo professor durante mais de três semanas. E uns contradiziam os outros. O que um achava que era bom, outro achava que era uma porcaria, o que dava para relativizar as coisas. E isso foi, provavelmente, a coisa mais importante que eu aprendi: não há uma maneira de fazer cinema, há visões. Tu tens de descobrir a tua e ser o mais forte possível nela. Nesse aspecto, gostei muito mais da experiência em Berlim do que na escola de cinema em Lisboa. Aqui era tudo muito mais numa direcção, mais conservador, ainda só se falava de Godard, John Ford, ia-se até ao Hitchcock no limite, parecia que não havia cinema para além dos anos 70. E filmava-se muito pouco. Falava-se muito, escrevia-se muito, muita teoria… Em dois anos participei em seis filmes na escola de cinema em Lisboa e realizei um; no primeiro ano em Berlim participei logo em 14 filmes e realizei três. A um jovem: aconselho-o a diversificar. O excesso de teoria em Lisboa deu-me algum estofo, o que me permitiu chegar a Berlim e não tomar tudo o que via como verdade, saber ser crítico, relativizar as coisas. Aconselho a viajar! Se puderem fazer um ano em Lisboa, outro em Madrid e outro na Turquia ou em Cuba, seria o perfeito. Viajar é muito importante, o mundo não é como a gente o conhece. À medida que se viaja, percebe-se que há outras pessoas, outras formas de pensar; isso é importante.
Porque é que voltou a Portugal depois de ter estado em Berlim?
Acabei o curso e tal como qualquer pessoa que acaba o curso estava a ver o que fazia da minha vida, sempre um passo muito complicado. Na altura soube de um concurso de curtas metragens no actual ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), em Portugal, apresentei um projecto e, talvez sorte de principiante, deram-me logo um subsídio. Foi um projecto que eu escrevi lá, pensado para filmar em Coimbra – o Respirar (Debaixo de Água). Nessa altura estávamos em 98. Curiosamente, tinha acabado de chegar a Portugal e no dia em que comecei a trabalhar numa produtora, a Rosa Filmes (como assistente de realização do Joaquim Sapinho, no filme A Mulher Polícia), soube do resultado do ICA: tinha um filme para fazer. Mas resolvi levar o projecto até ao fim. Lisboa – Paris – Berlim – Casconha (risos)
Como é que viveu em Coimbra? Esteve na Alemanha a escrever uma coisa que se passava cá.Eu sou de Santa Clara. A minha infância foi mais ou menos ali à volta. Estudei na Silva Gaio, depois no D. Duarte – não é à toa que o D. Duarte aparece no Respirar (Debaixo de Água), já apareceu em dois videoclips, etc. Numa fase mais crescida frequentava a Praça da República, o Tropical, o States. Na adolescência frequentava o Scotch. Agora sou mais de frequentar o Shmoo, mais ao fim-de-semana, que agora a vida é outra! Foi um percurso comum. Nunca fui muito de vida académica, também não estudei aqui. Nunca usei capa e batina e essas coisas, mas é impossível quem está em Coimbra não ter o mínimo de ligação à universidade e às pessoas que lá estudam.
Acha que Coimbra está limitada?
O pessoal queixa-se… Se olharmos bem para as coisas que acontecem em Coimbra durante a semana, ainda acontecem bastantes coisas! Concertos, teatro, cinema… Estamos sempre a comparar-nos a Lisboa mas Lisboa são 3 milhões e meio de habitantes e aqui somos 200 mil (no limite, já a grande Coimbra). Para a dimensão que temos, eu diria que as coisas não estão assim tão más como às vezes se pinta. E o pessoal também se queixa muito e depois participa pouco! Organizam-se coisas e depois as pessoas não aparecem. “Ah tem de se pagar para entrar”, pois, pois tem, as coisas custam dinheiro a organizar! A cultura custa dinheiro. Coimbra tem bastantes coisas a acontecer; mesmo comparando com outras cidades como Aveiro ou Leiria. Pela dimensão da universidade, por termos malta nova e vinda de vários pontos do país, poderia haver mais. Na altura em que eu tinha 16/18 anos, em Coimbra, havia uma irreverência que agora se perdeu um bocado.
Voltando ao Respirar (Debaixo de Água)… Foi daí que nasceu a Zed Filmes. O que é que é faltava?
Só podem beneficiar de subsídios produtoras. Antes de saber que tinha subsídio tentei arranjar um produtor – eu não percebia nada de produção. Ninguém quis pegar no projecto: o guião era um bocado extenso, complexo, envolvia filmagens debaixo de água, um acidente de automóvel. Depois da atribuição do subsídio houve um interregno de nove meses, porque quis levar o tal outro projecto até ao fim; ganhei experiência. Mas depois decidi produzir o filme, fui à aventura. Foi um projecto muito difícil, aconteceu-nos tudo e mais alguma coisa. Mas acabou e correu bem (ainda por cima).
E a produtora vingou.
Eu tive a felicidade de o filme ser seleccionado em Cannes – é uma questão de sorte, porque já fiz filmes melhores que não conseguiram ser lá seleccionados – e isso abriu-nos uma série de portas. O filme começou a circular internacionalmente, logo a seguir fiz uma longa-metragem; uma coisa foi puxando outra e a empresa ganhou dimensão.
Começou a rodar o Embargo aos 24 anos. Pôs isso de lado, agora retomou. Quais as razões quer para a paragem como para o retorno?Na altura aquilo não era, propriamente, um projecto sério. Tinha acabado de entrar na escola de cinema, estava a dar os primeiros passos… Aquilo era uma coisa super manhosa! Aquilo era… Horrível! (risos) Foi uma espécie de grito de independência. Filmei três dias, seis cenas. Nunca deu em nada. Simplesmente ficou encostado. Depois a ideia voltou a surgir recentemente, penso que há dois anos. Estava a ver futebol, Portugal, no Parque Verde, nuns ecrãs gigantes e estava uma fila enorme de carros nas bombas de gasolina. Pensei “só a gasolina é que faz com que o pessoal não largue tudo para ver Portugal jogar”. Deve ter sido em 2008; houve a greve dos camionistas que paralisou o país e eu, de repente, comecei a ver os cenários que o Saramago descrevia nesse conto, o Embargo. Surgiu a ideia. 30 anos depois, isto está a acontecer: fez-se luz, o conto era absolutamente contemporâneo e pertinente. Esta questão do petróleo é novamente uma questão do dia e fazia sentido voltar a abordar o assunto.
E o que é que fez com o material antigo?
Vocês viram uma coisa que é o Embargado?
Sim.
(risos) Foi isso que fizemos. Na altura, ficou guardado. Agora, o facto de o filme ter começado há 15 anos atrás tinha o seu interesse. O Leandro, responsável pelo making of, teve a ideia maluca de trazer esse material para o projecto. Fazer um making of um pouco diferente, em vez das normais entrevistas e do “que espectacular que foi”.
No Embargo reconhecemos cenários e actores conimbricenses. Porque é que a escolha recaiu sobre eles, sobre Coimbra?
Coimbra é sempre a decisão natural, na medida em que estamos cá. Por acaso o Esquece Tudo O Que Te Disse não foi filmado aqui, porque eu queria uma casa à beira mar. O Deus Não Quis filmámos aqui, na Lousã. E neste, como é numa cidade, numa qualquer, a escolha natural foi filmar em Coimbra. Vocês reconhecem porque são de cá, mas não se vê a Torre da Universidade, placas… Podia ser uma outra cidade qualquer. Em relação aos actores, eu sempre tive em mente o Filipe Costa. Já há algum tempo queria trabalhar com ele. Pelo que tinha visto em teatro, achava que ele tinha uma força particular. Estava no escalão etário do personagem, tinha o perfil que eu procurava para este projecto. O Filipe Costa e a Cláudia Carvalho foram logo opções de início. O Taborda – já fiz três ou quatro filmes com ele – também foi natural. Eu gosto muito de trabalhar em família. A equipa do Embargo é, basicamente, a equipa que temos aqui, que levamos para os videoclips, para os documentários. Foi seguir com um trabalho de dez anos, trazer as mesmas pessoas para mais um projecto. Há o Raposo que é uma excepção; ele é um excelente actor, tem aquele toque espectacular para a comédia. Tinha-os quase todos os dias comigo. Também não tivemos um orçamento por aí além para fazer o filme e isso, obviamente, também pesou nas decisões.
Foi uma equipa de quantas pessoas?Éramos uns 20, com actores incluídos. Não era uma equipa por aí além; acabámos de fazer um videoclip com 38 pessoas. O normal é entre 35 a 40 pessoas.
A Persona Non Grata está a pôr Coimbra no mapa?
De alguma forma sim, mas isso não é uma coisa tão relevante. Quanto muito, Casconha no mapa! (risos) O nosso trabalho tem o seu valor, mas não deixa de ser curioso quando reunimos com as instituições locais como a Câmara Municipal, o Turismo, para apresentar projectos, e invariavelmente: “mas vocês são de Coimbra?”. Uma pessoa anda há dez anos aqui a fazer coisas, não só os filmes, mas também o trabalho mais comercial (videoclips do Camané, dos Blind Zero, dos Ez Special, cinco vídeos para a Disney filmados em Coimbra para o mundo inteiro). As autoridades locais são bastantes desatentas. Está agora a mudar um pouco, sobretudo com a nova vereação da cultura – parece que há aqui uma mudança em relação à vereação anterior, que era absolutamente autista; a nova vereadora tem uma abertura completamente diferente. Portanto, nós contribuímos, mas não é uma andorinha que faz a Primavera. Também o nosso objectivo não é pôr Coimbra no mapa, não fazemos isto por uma questão de bairrismo. Sou de cá, cresci cá, a produtora entretanto ganhou estrutura aqui. Se amanhã tiver um filme em que a história se passa especificamente em Lisboa, vamos para Lisboa. Ou para outro sítio qualquer.
Não é uma questão de custos.Também.
Como é que recolheram o cenário do Embargo?
Futuro retro (risos). Às vezes as pessoas podem pensar que encontrámos os sítios assim e não é nada disso. Tivemos uma equipa de decoração, cá de Coimbra também. Discutimos o conceito do filme com a Luísa Correia, arquitecta de profissão que há já muitos anos fazia decoração, sobretudo ligada ao teatro. Não é à toa que o filme tem aquela cor, todas as cores foram escolhidas. Não há vermelho no filme, tudo tem aquele tom castanho, verde pálido. Obviamente escolhemos os decors em função disso. Quando se tem muito dinheiro, chega-se a um sítio que não tem nada a ver e muda-se tudo completamente (a decoração sai cara e dá muito trabalho); nós tentámos escolher o que já estava próximo daquilo que queríamos e depois foi só retocar mobiliário, papel de parede… A casa do protagonista (uma casa anos 70: portas e chão em madeira, já com algum mobiliário) é a casa onde vivia a decoradora, a Luísa. Coitada! (risos) Nada está deixado ao acaso. A ideia era mesmo o tal toque de futuro retro. É um futuro porque não aconteceu. Tem objectos contemporâneos, como o scanner, o telemóvel, mas, para o toque envelhecido, de mundo parado, embargado, desgastado, fomos buscar todos esses objectos antigos – um carro com quase 40 anos, um telefone antigo. Não queria que as pessoas tentassem identificar o ano em que se passa o filme. A ideia foi baralhar. Introduzimos tantos objectos diferentes para ver se as pessoas já nem se perguntam sobre que época é aquela. É uma época qualquer! O que importa é que se centrem no filme e entendam o mundo naquela decadência.
É um tempo sem tempo ou de todos os tempos?
Pois, a ideia é ser intemporal. Se virmos bem, a história foi escrita há 30 e tal anos atrás, em 2008 vi acontecer uma coisa semelhante… O filme ganha em não ter uma data específica; espero que daqui a 20 anos ainda possa fazer sentido.
Como foi a reacção de José Saramago quando soube da adaptação?
Por acaso parti com medo das histórias que contavam que ele não era muito dado a permitir que as suas obras fossem adaptadas ao cinema, mas na verdade até foi um processo bastante rápido. Contactámos a agente dele na Alemanha, ela fez um contacto prévio com a Pilar e com o José Saramago e deu-me o email deles. Basicamente, e foi o único percalço que eu tive, peguei no email que tinha enviado à agente na Alemanha, em inglês, e mandei para o José Saramago. Recebo um email a vermelho, da Pilar, em espanhol: “porquê falar a língua do império se somos todos ibéricos?!”. “Estou lixado, agora é que eu estraguei tudo.” (risos) Lá reformulei o meu email, em português, e o email seguinte já dizia que estavam de acordo. Daí para a frente fomo-los mantendo informados do que estava a acontecer. Estávamos já a planear a vinda dele em Setembro a Portugal para a estreia do filme; apesar de em Fevereiro ter o filme já mais ou menos montado, nunca quis mostrar uma coisa não acabada. Entretanto ele faleceu e nunca pode ver o filme. Agora, a Pilar foi à ante-estreia em Lisboa.
Quais foram as palavras dela?
Nós alterámos imenso o conto original, mantivemos as ideias centrais. Para 15 páginas fizemos uma longa-metragem. A família não está no conto, não há um digitalizador de pés, o protagonista não trabalha numa roulotte de bifanas, não há o amigo – tivemos de inventar todo um enredo à volta da história central de um indivíduo que fica preso num carro, para ter pés e cabeça e aguentar 80 minutos de filme. Estava expectante para saber a reacção dela, que foi espectacular. No dia fartou-se de nos dar os parabéns, inclusivamente chamou ao filme um poema visual. Fiquei muito contente. No dia seguinte, mandou um email a agradecer a nossa honestidade com a obra. Nós já tínhamos feito um teste com o editor do Saramago que, depois daquele choque de não encontrar literalmente o conto no filme, adorou o filme. Achou verdadeiro, genuíno. Deixou-nos contentes que quem estava perto do autor tenha sentido justiça no filme.
Para além de ser uma história de ficção, o Embargo pretende incomodar vidas embargadas? Desembargar?
Não gosto de filmes moralistas e tento sempre que não o sejam. Ninguém tem autoridade para dizer aos outros o que deve fazer da vida. Agora, tentei conferir ao filme mais do que uma camada. Há uma segunda camada narrativa. Se alguém tiver vontade disso, pode reflectir sobre ela. O protagonista é completamente obcecado pela sua máquina, acaba por se esquecer um pouco da filha… Foi minha intenção a sua própria transformação. No fim ele é um tipo mais aliviado, mais humano – e isso é também um dos pontos mais importantes do conto do Saramago. O filme não depende disso mas, quem quiser, pode vê-lo, está lá. Quem o quiser ver de uma forma mais descontraída, a um nível superficial, pode ver.
A comédia vem aligeirar o realismo?
A ironia também tem a ver com o carácter fantástico do filme, de um indivíduo que fica preso num carro. Se não introduzíssemos a ironia, dificilmente essa coisa colava. Serve para envolver o espectador, comunicar, e lidar com uma questão fantástica, quase irreal.
Quando pensa num filme, pensa no que gostaria de ver realizado ou no que o público gostaria? Faço filmes narrativos, ponto final. Os meus filmes não são experimentais, não tenho necessidade de me afirmar como realizador. “Tão bem que o António Ferreira filma”? Estou-me perfeitamente nas tintas para isso. Gosto de filmes que contem uma história, claro que aprecio particularmente os que procuram fazê-lo de uma forma inovadora; qualquer espectador comum quer ser surpreendido. Antes de ser realizador, sou espectador. Gosto de ir ao cinema como uma pessoa perfeitamente comum. Desde a comédia de domingo à tarde (desde que minimamente inteligente) ao filme mais denso do Lars Von Trier, gosto de ver um bocadinho de tudo. E quando estou a filmar, coloco-me constantemente na posição de espectador. Uma coisa é aquilo que é claro para nós, que estamos por trás de todo o processo; outra coisa é só ver aquilo, o filme. Por exemplo, nós imaginámos uma história para o Nuno Silva [personagem de Filipe Costa]: ele conheceu a Margarida [personagem de Cláudia Carvalho] na universidade, ela engravidou, nasceu a filha, tanto um como o outro interromperam o curso, que nunca acabaram por causa disso… São coisas que não estão no filme, mas que são coerentes com o personagem que se está a ver. Isso permite aos actores terem estofo dramatúrgico, encarnar personagens, saber reagir. No filme, põem-se as pistas necessárias. É nesse sentido que me coloco constantemente na posição de espectador. Nos aspectos técnicos, penso como contar a minha história. Penso cena a cena, não faço planificações, não tenho storyboards. Só na cena do acidente é que fizemos um muito manhoso, porque envolvia alguns truques para aquilo ser credível.
Tem cooperações de produtoras fora de Portugal. Como é que isso tudo se processa? Em que é que elas participam?
Cada vez mais a co-produção é essencial. Portugal tem os recursos que tem, que são poucos, e, infelizmente, a política de apoio ao cinema está completamente errada. A prova disso é os resultados que temos. As pessoas têm um divórcio crónico com a nossa cinematografia. Alguma coisa aqui está completamente errada. Isto para contradizer aquele discurso oficial sobre os nossos filmes serem muito reconhecidos lá fora, a nossa cinematografia ser muito prestigiada no estrangeiro; é pura mentira. Há uma elite que reconhece Manoel de Oliveira e pouco mais. Isso não é o reconhecimento de uma cinematografia, são casos isolados e com pouca expressão. Basta comparar aqui ao lado com Almodóvar, isso sim é uma coisa mundial e de massas. No resto da Europa, as cinematografias locais tem um peso muito grande nas bilheteiras! Os espanhóis vêem filmes espanhóis, os francês vêem filmes franceses, os dinamarqueses… 20 a 30 por cento das bilheteiras são das cinematografias locais. Em Portugal andamos na casa dos dois por cento – é uma diferença colossal. Isto só mostra que a política cultural para o cinema está a apoiar produtos, filmes, que as pessoas, simplesmente, não querem ver. Pergunto-me: que apoio cultural é esse que não tem retorno? Se forem ao Centro Comercial Dolce Vita estão lá quatro filmes portugueses em exibição, este mês estreiam cinco, pura coincidência. Os dois filmes que estrearam na outra semana, Os Marginais e o Voo do Flamingo, na primeira semana, um fez 2600 espectadores e o outro dois mil – números muito muito maus. E há filmes que fazem isso ao longo de quatro semanas de exibição! Nós, como actores deste cenário, como promotores, mesmo quando queremos fazer alguma coisa diferente, estamos sempre a lutar contra este estigma do cinema português. Portanto, um caminho cada vez mais importante é a co-produção. No caso do Embargo, mais de 70 por cento do financiamento veio do estrangeiro. O apoio do ICA é minoritário e o da RTP também. Sem o apoio de Espanha e do Brasil não teria sido possível.
O apoio das produtoras internacionais, da Vaca Films…
… A Vaca Films, a Diler e Associados, a Sofá Filmes – é curioso porque quando começa o genérico do Embargo parece que vamos ver um filme pornográfico (risos). Já houve uma projecção em que o pessoal se começou logo a rir com o nome das produtoras.
O apoio destas produtoras é exclusivamente financeiro?
Sim, colaboram na divulgação nos seus países e no financiamento. Nós fomos captar recursos em Espanha e no Brasil. Por exemplo, vamos agora ao Festival do Rio (a produtora brasileira é, exactamente, do Rio de Janeiro) e o próximo objectivo é lançar o filme lá, num mercado nada fácil.
Como é que os filmes chegam aos festivais?
Isso dos festivais é uma coisa muito difícil. É sempre por concurso. A competição é a nível mundial. Este filme tanto pode ser amigo do público como pode agradar mais aos festivaleiros e a verdade é que está seleccionado em nove festivais internacionais. Quem compra filmes a nível mundial, está lá. Um filme só consegue circular fora do país se tiver esse percurso pelos festivais. Estamos agora a pesquisar na imprensa brasileira e o Embargo já é um dos seis a dez destacados, dos 200 filmes que estão no Rio de Janeiro.
É fácil ter lucro?Se venderes o filme, começas finalmente a ter lucro. Mas o que dá lucro são os blockbusters e nós sabemos que não temos o Adrien Brody, a Nicole Kidman, o Robert De Niro. Esses são os filmes que realmente se vendem no mundo inteiro. Normalmente, os compradores internacionais estão interessados, entre outros, em filmes que foram grandes sucessos nos países de origem. Automaticamente, vendem no mundo inteiro. Neste momento, sabemos que não estamos a falar de um filme dessa dimensão.
Quanto custou o Embargo?
O Embargo custou 200 mil, é um filme barato. O que é considerado um filme low-budget, actualmente, está entre os 500 e os 600 mil euros. Nós estamos abaixo do low-budget. Acho que tivemos a arte de fazer um filme com pouco dinheiro que não tem um ar pobre, uma produção ao nível das outras.
Apostaram também muito na divulgação.
Sim, estamos a gastar e a apostar muito na divulgação. Está a aproximar-se o dia da estreia e estamos a ficar com um bocado de “cagaço”. Estamos a apostar que o filme vai conseguir fazer alguma coisa em sala, que vamos conseguir passar dos cinco mil espectadores. Se tivermos cinco mil espectadores vamos ficar completamente desiludidos, mas logo se vê. Aliás, os grandes distribuidores em Portugal disseram-me que era isso que o filme ia fazer. Tivemos que o distribuir nós próprios, porque acreditamos que o filme pode fazer muito mais do que isso.
Como é que o distribuem vocês próprios?
Estamos a distribuir os cartazes e a alugar as salas para o filme. Negociámos com a Lusomundo, com a Castello Lopes, com a NewLine (os donos das salas em Portugal) e, para além de pagarmos para estar nas salas, ainda temos de convencê-los a que nos deixem pagar. Nesta semana há dez filmes a estrear, ou seja, para conseguirem estrear os dez filmes vão ter que tirar alguns. E, portanto, nós vamos ter que convencê-los de que o nosso filme vai fazer mais espectadores do que um desses dez filmes – estamos a falar de, basicamente, dez filmes americanos. Eles dizem-nos “simpatizamos muito com vocês, queremos apoiar o cinema português, mas isto é negócio; estarmos a abrir uma sala para fazerem 100 espectadores numa semana…”. Para terem uma ideia, O Voo do Flamingo, por exemplo, estreou em 11 salas, se não me engano, e fez dois mil espectadores. Portanto, eles fizeram 200 espectadores por sala e isso dá uma média de sete espectadores por sessão. Ou seja, é mau. Ontem fui ver o Wall Street e já só conseguia sentar-me ou na segunda fila da frente ou na última do canto, lá atrás. Portanto, só numa sessão eles meteram 200 espectadores, num domingo à noite. E nós estamos a competir com eles! Isto é um negócio e tem que se fazer bilheteira. O filme vai estrear na quinta-feira e na segunda eles vão ver quem fez menos nesses quatro dias. Portanto, se arrancarmos mal, corremos o risco de, ao fim de quatro dias, começarmos a sair das salas. Por isso é que estamos a pedir às pessoas para irem logo neste fim-de-semana, para mostrar [às distribuidoras] que as pessoas querem ver o Embargo. Ou não. Deixem-me só completar esta ideia: era importante que quem está nos institutos de cinema e os próprios produtores e realizadores tivessem mais consciência disso. Ou, pelo menos, que o ICA parasse de dar dinheiro a pessoas que, pura e simplesmente, fazem filmes que ninguém quer ver. O ICA existe para evitar que esta arte desapareça. Portugal não tem dimensão para rentabilizar completamente uma obra cinematográfica. Se nós não tivermos algum apoio que permita, pelo menos, colmatar esta falha de mercado… Mesmo que tivéssemos 20 ou 30 por cento de share, não chegava para cobrir os 600 mil ou um milhão de euros que custa um filme. Se dessem metade do dinheiro – em vez de 600 mil euros – a cada filme, já seria possível fazer-se mais filmes. Podíamos duplicar o número de filmes que se faz em Portugal! Já sabemos que há filmes que correm melhor, outros pior, e isso também acontece com os americanos. É preciso haver mais produção para haver erro. O problema em Portugal é que há muitos que fazem 600 espectadores, 500, mil; há dois casos de filmes que fizeram 60 e tal espectadores: até me dá dó porque, coitado, o realizador não tem amigos! Nem os amigos dele foram ver o filme! (risos) Como é que um realizador que recebeu 600 mil euros pode fazer 60 e tal espectadores? Isto é um crime. Não lhe podem dar dinheiro a seguir! O que acontece é que dão. Passamos cheques em branco e depois o resultado está à vista: um divórcio completo entre o público e o cinema
O nome Persona Non Grata vem dessa alienação?
Também, mas nós já aprendemos a não depender disso. Obviamente é uma expressão da nossa revolta com o sistema, mas não vamos condicionar todo um trabalho de dez anos – e numa coisa tão importante como o nome da nossa produtora. O que nós procurámos foi um nome que funcionasse bem internacionalmente; é latim, é uma expressão internacional, qualquer anglófono percebe, era o que se punha antigamente nos passaportes quando uma pessoa estava impedida de entrar num país. E reflecte a nossa atitude de irreverência. Não queríamos ter nome de meninos bem comportados que querem ser grandes tipo Worl Wide Films (risos). Tem ironia, tem piada, é uma coisa bem disposta.
E porquê a mudança do nome? Para assinalar um novo período? Casa nova, aposta maior…
Exactamente. Coincidiu com uma série de coisas: a saída do Embargo, a mudança de casa. Apesar da Zed Filmes ser uma marca já instalada, achávamos que dava um ar um bocadinho amador à coisa. Decidimos, então, lavar a cara completamente e matámos o Zed de vez: Zed is dead, baby. Curiosamente, em três/quatro meses já quase ninguém fala da Zed.
Projectos futuros?
Para o mês que vem, 28 de Outubro, vamos estrear em sala o Futebol de Causas, que é mais um filme de Coimbra, de um realizador de Coimbra, sobre a Académica. A história, que nunca foi contada, da Académica e do envolvimento, na altura, de jogadores de futebol na política – uma coisa absolutamente inédita, não sei onde é que terá havido, no mundo, outras histórias dessas e certamente não veremos isso acontecer no futuro. Temos várias produções a decorrer, estamos neste momento a filmar três documentários. Um da Diana Andringa, um do Rodrigo Lacerda e da Rita Alcaire (sobre os trabalhadores da indústria sexual – Das Nove às Cinco) e outro do Tiago Sousa – o argumentista do Embargo – chamado Circo Cristal, uma família. São tudo coisas que esperamos para o ano ter finalizado. De longa-metragem tenho vários projectos, mas aquele que está neste momento mais encaminhado, espero filmá-lo dentro de dois anos, é uma adaptação de um romance da Rosa Lobato Faria. A Trança de Inês: a história de Pedro e Inês contada de uma forma completamente original. Não se passa apenas no séc. XIV, mas também no séc. XX e num futuro imaginário, tipo séc. XXII, num mundo ecológico, com uma redução drástica da população, tudo a energia solar, onde temos sempre um Pedro e uma Inês e em que as épocas parecem andar paralelas, com impacto umas nas outras. Neste caso, o filme será muito mais próximo do livro do que no caso do Embargo. Gostei do tom que a Rosa conta a história, uma extrema ironia. Temos uma ideia dela um pouco cor-de-rosa e não é nada: o livro é bastante duro, até chega a ser violento e tem uma ironia mordaz da qual eu gosto bastante.
Daqui a 20 anos, quem vai ser o António Ferreira?
(risos) Não faço a mínima ideia! Eu nem sei quem vai ser o António Ferreira daqui a seis meses. Tenho a minha agenda programada para as próximas duas semanas, depois não sei. Isto é uma coisa muito imprevisível, não faço planos a tão longo prazo. Espero filmar com mais regularidade do que tenho filmado. Quer dizer, eu filmo constantemente, não faço é tanta ficção como gostaria de fazer. Mas é como os jogadores de futebol: isto é jogo a jogo (risos).