5ªf, 19, 22h, Claustros do Museu Municipal. Cinema ao ar livre!

ESTREIA EM FARO!!

UMA NOMEAÇÃO PARA ÓSCAR (Michelle Williams).

Um ícone que tenha marcado a História, seja do cinema, da música ou de qualquer outra área, terá certamente muito para contar. Então quando se fala de Marilyn Monroe é impossível alguém não ficar curioso com o que aí virá. A Minha Semana com Marilyn faz-nos recordar uma estrela através de outra: Michelle Williams, que prova aqui a sua qualidade como actriz, se é que ainda restava alguma dúvida.

Tendo por base dois livros de Colin Clark, onde este relata acontecimentos do tempo em que conheceu Marilyn Monroe, Simon Curtis realizou um filme leve, que não traz algo absolutamente novo, mas que reúne um elenco de alto nível, com excelentes interpretações, e que vive tudo tão intensamente que consegue que haja um grande envolvimento do público.

Tudo se passa em 1956, quando o jovem Colin Clark, acabado de sair de Oxford, quer fazer sucesso na indústria cinematográfica. Depois de grande insistência, o rapaz consegue um trabalho como assistente de produção do filme The Prince and the Showgirl, que junta Sir Laurence Olivier e Marilyn Monroe, que acaba de regressar de lua-de-mel, após o casamento com o seu novo marido Arthur Miller. Este trabalho proporciona a Colin a oportunidade de conhecer a actriz, acabando por passar uma semana inteira com ela. Enquanto ele lhe mostra a cidade e o estilo de vida britânico, ela abre-lhe as portas para a sua intimidade, dando-lhe a conhecer as suas inseguranças e fraquezas.

Colin Clark relata estes acontecimentos em dois livros, que serviram de base para A Minha Semana com Marilyn, tendo o primeiro sido lançado 40 anos depois destes acontecimentos. The Prince, the Showgirl and Me relata tudo o que aconteceu durante a rodagem do filme. Contudo, há uma semana que não é mencionada neste livro. Só alguns anos depois é que My Week with Marilyn é publicado e consigo também essa semana.


No filme, tudo é contado também do ponto de vista de Colin, através de quem vamos conhecendo as outras personagens e a relação que com elas estabelece. Com alguns momentos interessantes, o que realmente é de destacar em A Minha Semana com Marilyn é a própria, ou melhor dizendo, a actriz que a interpreta, Michelle Williams.

Ela é o filme, com uma interpretação magistral, digna de Óscar. Williams tem provado ao longo dos últimos anos a boa actriz que é, e podemos recordar o seu desempenho em filmes como O Segredo de Brokeback Mountain (2005), que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de melhor actriz secundária, ou mais recentemente em O Atalho (2010), Shutter Island (2010) ou, para mim o mais desafiante, Blue Valentine – Só Tu e Eu (2010), onde foi uma forte candidata a vencer o prémio da Academia para melhor actriz principal.

As parecenças físicas entre as actrizes são muitas mais do que se poderia imaginar, mas Michelle Williams não consegue apenas parecer-se com Marilyn Monroe fisicamente. Todos os seus gestos, a forma de caminhar nos lembra Monroe. As suas gargalhadas características, a sua forma de falar, um pouco afectada, sempre com um ar um pouco perdido, tudo tão igual à original. E a forma como Williams incorpora a personagem é de aplaudir. A dificuldade em lidar com a fama e o fascínio que desperta em todos aqueles que a rodeiam (e as implicações que isso tem também no seu estado psicológico), o desencanto que vive depois de uma série de relações fracassadas, as suas constantes alterações de humor e a dependência de medicamentos, que tão bem mostram o estado de depressão em que vivia, são todos exemplos que nos fazem aperceber da exigência desta personagem e da entrega da actriz que a interpreta.


O resto do elenco contribui também para que este seja um filme bastante agradável. Kenneth Branagh comoSir Laurence Olivier tem um interpretação muito curiosa, e é um óptimo exemplo da dificuldade em lidar comMarilyn, aliada a um encanto enorme pela actriz. Eddie Redmayne, na pele do protagonista Colin Clark, é quem nos conta tudo. A sua relação com Monroe é a chave para penetrarmos na sua intimidade. De destacar é ainda a sempre fantástica Judi Dench, no papel de Dame Sybil Thorndike, com quem facilmente se simpatiza. Com papéis mais pequenos, mas não deixando de ser um prazer vê-las, Julia Ormond é a também icónica Vivien Leigh, e Emma Watson (a eterna Hermione) regressa ao grande ecrã como Lucy.

É dos actores, especialmente de Williams, que A Minha Semana com Marilyn vive, e não seria preciso muito mais do que eles. Uma história contada de forma simples, mas interpretada de corpo e alma pela protagonista, fará qualquer um ficar com vontade de passar também uma semana com Marilyn Monroe, ou porque não, com Michelle Williams.
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Inês Moreira Santos, espalhafactos.com



Título Original: My Week with Marilyn
Realização: Simon Curtis
Argumento: Adrian Hodges , Colin Clark (livros)
Música: Conrad Pope
Fotografia: Ben Smithard
Montagem: Adam Recht
Interpretação: Michelle Williams, Eddie Redmayne,Kenneth Branagh, Julia Ormond,
Pip Torrens, Geraldine Somerville, Michael Kitchen, Miranda Raison
Origem: Reino Unido/EUA
Ano: 2011
Duração: 99’


Preço por sessão
Sócios CCF 2€, Estudantes 3,5€, Restante 4€
Passe para os 10 dias
Sócios 15€
Não-Sócios 25€

Reservas
cineclubefaro@gmail.com

4ªf, 18, 22h, Claustros do Museu Municipal. Cinema ao ar livre!

Normalmente são as curtas que vêm acopladas às longas, uma espécie de extra ou aperitivo que o distribuidor simpaticamente nos oferece. Desta vez é ao contrário, a curta emancipou-se e tornou-se no prato principal. O bónus, o digestivo, é a longa/média-metragem que se lhe segue. Não por demérito de Nana, que é um belíssimo filme, mas apenas porque a curta em causa é Rafa, de João Salaviza, o nosso realizador de ouro, que depois de ter sido o primeiro português a ganhar uma Palma de Ouro, no festival de Cannes, com Arena, repetiu a gracinha, ao ganhar o Urso de Ouro em Berlim. Falta-lhe só Veneza para completar o grand slam dos festivais de elite (talvez fique para a longa), mas para já é um dos raríssimos realizadores mundiais a guardar na mesma estante um urso e uma palma. Mas se é o próprio que diz, com a sua elegância, que os prémios são adereços, o que conta são os filmes, falemos então do filme.

Apesar de ser um realizador ainda em início de filmografia, desde já podem reconhecer-se traços autorais, reveladores de uma linguagem forte e marcada, através de pontos comuns aos seus três filmes (além de Rafa e Arena, Cerro Negro, uma encomenda da Gulbenkian, que esteve em competição no IndieLisboa). Um ótimo sinal que também se verificava nas primeiras curtas de realizadores como Miguel Gomes, Sandro Aguilar ou João Nicolau, embora os seus estilos sejam manifestamente diferentes. Há uma personalidade forte que atravessa a curta obra de João Salaviza, mas tal não se deve confundir com a descoberta de uma fórmula de sucesso, apenas a assunção de um universo e de uma linguagem.

Salaviza não se interessa pela burguesia, nem pelos dramas da classe média, mas por episódios realistas da classe baixa, urbana ou suburbana, desenraízada e frágil. É uma opção que engrandece os seus filmes até porque, como já alguém disse, a classe média não tem drama. O tempo e o ritmo são estreitos. Nunca há grandes elipses e permanece a ideia de uma viagem, de um percurso. E esse percurso altera as personagens. João Salaviza consegue no espaço de uma curta-metragem transmitir-nos essa forte ideia de mudança. Finalmente, parece haver uma obsessão pela prisão. O protagonista de Arena está em prisão domiciliária. Em Cerro Negro, a mulher visita o marido brasileiro que está preso. Em Rafa, o rapaz tenta libertar a mãe que foi detida por conduzir sem carta.

Em Arena, a ideia de prisão opõe-se à de liberdade. E o filme termina exatamente assim, com um gesto livre, o usufruto de um instante. Rafa, embora tenha a libertação da mãe (que nunca chegamos a ver) como pretexto, é um filme sobre o crescimento. Rafa, a criança-adolescente, atravessa a ponte, deixa a sua aldeia suburbana e arrisca-se na grande cidade, fazendo-se do homem da família. É como um ritual de iniciação, de passagem para a idade adulta. Salaviza, em entrevista ao JL, explicou que uma das dificuldades do casting foi descobrir um miúdo no estado intermédio, ainda criança mas quase rapaz. Rodrigo Perdigão foi um achado. E quando o filme acaba temos a noção de que alguma coisa mudou e aquele rapaz está agora mais preparado para a vida. Uma fábula do crescimento sintetizada num só dia.

O luxuoso complemento de Rafa é Nana, um belíssimo documento de Valerie Massadian, que esteve no IndieLisboa. Entra em contraste com Rafa, apenas pelo seu contexto rural. De resto, é uma forma muito crua de fazer um retrato de um dia no campo. Começa de forma algo chocante, com a matança de um porco, e depois vai avançando por pormenores do quotidiano de uma família, centrada em Nana, uma criança. Um ambiente raro, de forma crua, sem fantasias bucólicas, nem moralidades desajeitadas.
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Manuel Halpern, Visão


No início, uma matança do porco. No fim, uma canção em que se reconhece a voz da realizadora, Valérie Massadian, murmurada sobre o genérico: não mete mais medo? No início, sangue: a criança é testemunha, sabe que se mata para comer. No fim, para quem souber ver, talvez um pouco de pintura que o cinema se permite admitir. Estamos numa quinta da província francesa, na Basse-Normandie, mas isso não interessa muito, nem da quinta saímos. Quem está no centro? A pequena Nana (Kelyna Lecomte). Deve ter uns 4 anos. Tem um avô paciente, Nana. Pai, já era: nada dele sabemos. Mãe, criatura que se suspeita ser sinistra, vemo-la a sair depressa de um plano que é bem capaz de ser um flashback, mas não estamos muito seguros disso: a câmara está à altura da miúda, é pelos de Nana que olhamos para os seres e as coisas, e esta relação com o tempo é um jogo que não se joga nem à mesma escala nem com a mesma ordem dos adultos.

Do filme, não há grande história a contar. Contamos isto: "Nana" é a história de uma ex-modelo que também trabalhou longos anos em cinema e decidiu fazer um filme por uma força maior. Escreveu algumas páginas de argumento. Viu não sei quantas crianças em casting até se render a uma, indomável e possuída de singular imunidade ao comportamento dos adultos. Levou-a pela mão, bateu à porta da quinta de um vizinho de longa data (Alain Sabras, que faz de avô) e fez nascer um filme. À criança, perguntou: "Vamos passar algum tempo juntos?"

Documentário sobre a infância no seu estado puro, "Nana"? Ficção sobre os seus demónios? Ambos, seguramente, mas não é por teoria que "Nana" funde fascínio e terror e provoca tanto fascínio e tanto terror. O que fascina e aterroriza - e o que, admitamos, é da ordem do milagroso - é que esta infância sem carícias, a de Nana no filme de Valérie Massadian, consegue entregar-se ao abandono de si própria com o prazer de um conto fantasmagórico. Partilha uma estranha relação com as leis da natureza e recorda-nos que cinema e pedagogia, sobretudo quando se tem uma criança à frente da câmara, têm energias absolutamente irreconciliáveis. Quem quiser 'domesticar' esta miúda com a boa-fé da sua consciência vai arranjar problemas graves com o filme. Quem tentar fazê-lo, vai entrar em guerra com Nana e talvez acabe morto por ela, como aquela mãe que a miúda mata no seu jogo, que é bem real, não tem perdão nem deixa remorsos.

"Nana", já o escrevemos no ano passado em Locarno (onde se estreou e venceu o prémio de melhor primeira obra), tem irmãos no cinema francês. Irmãos de sangue perdidos ou tão-só desejados, em filmes de Truffaut, de Eustache, de Doillon e, sobretudo, no "L'Enfance Nue", de Pialat - todos eles nos trouxeram crianças guerreiras aos quais a beatitude estava interdita. Crianças que devoravam o mundo e que faziam dele a sua própria découpage. Nana é uma dessas crianças - e uma das criaturas mais poderosas que o cinema deu a ver nos últimos tempos. Sobrevive à morte dos porcos e à morte dos homens enquanto devolve a vida à carcaça de um coelho. Faz a sua própria fogueira no seu mundo de criança. E é quando nos apercebemos desse estado de incandescência da personagem que "Nana", o filme mais frágil do mundo, tão frágil que parece a cada segundo correr o perigo de extinguir-se, ganha uma força bruta.
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Francisco Ferreira, Expresso


ENTREVISTA A JOÃO SALAVIZA

Esta é mais uma história rodada num contexto urbano, como a grande Lisboa, mas que está um pouco à margem daquilo que se assume como “normal”. Gosta de captar estas realidades?
No caso do “Rafa”, filmei o momento em que o papel de responsabilidade dentro de uma família se reverte. É um miúdo que tenta ser o homem da casa. Sou uma pessoa que tem uma ligação muito forte com a cidade de Lisboa. Nasci e vivi em Lisboa praticamente toda a minha vida. Interessa-me fazer filmes verdadeiramente pequenos, dentro de casas, com miúdos. Não me interesso por narrativas muito épicas e aglutinadoras. O próprio modelo de produção dos filmes permite-me estar próximo de quem estou a filmar. Neste caso, um miúdo de 13 anos. Não tenho um programa. Não é uma coisa programática. Não faço um cinema social ou político. Não tenho essa intenção.

Não quer mudar nada com o cinema?
Seria muito pessimista se achasse que o cinema não interfere na vida de uma pessoa que vê um filme. No meu caso, aprendi muito com o cinema e continuo a aprender. Continuo a interrogar-me com alguns filmes que vejo, mas usar um filme como panfleto para veicular uma mensagem ou algum discurso, isso não me interessa. O cinema é fascinante porque é ambíguo, como a vida.

Só procura mesmo manter a liberdade na criação?
Eu gosto de fazer os filmes desta forma. Não gosto de um filme em que a voz do realizador se sobrepõe à inteligência e à sensibilidade do espectador. Nesse sentido, gosto de fazer filmes acreditando que há algum espaço para que cada pessoa se possa incluir no filme de alguma forma, à sua maneira. O acto de nos ligarmos ao filme passa sempre pela individualidade, por aquilo que nós somos. Os filmes que nos interessam provocam sempre reacções muito diferentes. Não gosto que toda a gente ria no mesmo momento e que toda a gente chore no mesmo momento. As pessoas são todas diferentes, logo vão-se relacionar de forma diferente com o filme.

O cinema que faz é um cinema realista?
Não sei se realista é a palavra certa porque o realismo pressupõe uma espécie de imitação da realidade e eu acho que o cinema é, às vezes, mais transcendente do que a realidade. O cinema reconstrói, organiza a realidade, apresentando-a de outra forma. São pessoas, são espaços. Pessoalmente, gosto, cada vez menos, de utilizar a expressão “realismo” ou até “naturalismo” porque acho que pressupõe essa mimética da realidade. Isso não me interessa tanto porque, depois, reconstruo tudo com os actores.

Já que falamos nos actores, dá-lhes muita margem de manobra?
A parte da construção da personagem é sempre feita com os actores. Aliás, uma grande parte do trabalho é feita por eles e outra por mim. Coloco sempre os diálogos que escrevo em confronto com as ideias do actor que vai trabalhar comigo. E, muitas vezes, percebo que o ponto de partida era apenas isso. Um ponto de partida. Não era interessante em si mesmo. Neste filme, mais uma vez, reescrevi diálogos com os actores.

Costuma pensar em determinados actores para desempenhar os seus papéis?
Em alguns casos sim. No “Rafa”, especificamente, não, porque eu não conhecia o rapaz que queria ter nesse filme. Quando escrevi a primeira versão, sabia que esse miúdo já existia. Pensava: estou em casa, a escrever alguma coisa e, eventualmente, isto vai transformar-se num filme. E, algures, há um miúdo que eu não sei quem é – e ele também não sabe quem eu sou – que vai fazer um filme comigo daqui a algum tempo. É muito bonito esse processo. De repente, quando se encontra, neste caso, o miúdo que vai fazer o filme… Assim que o vi torna-se tudo muito óbvio. Tudo muito claro.

Foi um encontro por acaso?
Nós procurámos um miúdo em vários sítios: bairros, campos de futebol, na rua. O Rodrigo Perdigão [protagonista de “Rafa”] foi encontrado numa festa durante os Santos Populares, por um amigo meu que trabalhou no filme. Viu-o na rua, conversou com ele e foi assim. Um encontro por acaso. Nunca na vida ele pensou entrar num filme e quando o abordámos ele também ficou estranho. “Porque é que estão a falar comigo?”

Já tinha feito o mesmo em “Arena”.
Foi um pouco o mesmo método.

É fácil trabalhar com estes jovens amadores, alguns deles oriundos de contextos sociais complicados?
Não é fácil, mas eu também não tento controlar o trabalho deles. Esse descontrolo e essa coisa muito adolescente que eles têm – muito impulsiva e confusa – dão-lhes vida quando os filmo. Portanto, tento ao máximo que esses vestígios da vida deles continuem no filme. As personagens não são bem personagens. Não são bem eles próprios, mas também não são personagens. São um espaço intermédio em que uma realidade idealizada pelo filme se cruza com a realidade deles.

Até agora, só falámos em curtas-metragens. E as longa-metragens?
Em princípio, se tudo correr bem – com a crise a situação está um bocado complicada no Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) –, devo entrar em rodagem da minha longa-metragem no final do ano. É a primeira. Tem um título provisório, mas vai mudar de certeza. Como os guiões. Eu não parto para a rodagem para confirmar alguma coisa que eu tinha imaginado. É precisamente o contrário. Parto para a rodagem como um viajante que se aventura num sítio qualquer desconhecido e que vai à procura de alguma coisa, mas não sabe muito bem o que é. Regresso com alguma coisa e, às vezes, não é o filme que imaginava. É outro. Mais interessante, normalmente.

A primeira versão deste guião foi escrita quando?
Em 2010. Já vai na terceira versão, mas agora tenho de escrever mais. Há muitas coisas que ainda não estão como quero.

Depender de subsídios complica muito a vida de quem faz cinema?
Em Portugal, já não basta existir muito pouco dinheiro para se fazer filmes – um filme custa dinheiro. Os sítios de onde chegam as verbas estão muito centralizados. Ao contrário de outros países onde há apoios locais, mecenato e apoio dos canais privados de televisão, em Portugal não existe nada disso para o cinema. Agora, há uma lei nova que está a ser discutida e, aparentemente, estão algumas coisas interessantes em cima da mesa. Há alguma expectativa por parte do sector para que alguma coisa mude daqui para à frente. Chegámos a um ponto que se tornou insuportável fazer cinema. Não há dinheiro. Há 15 anos que o valor de apoio do ICA não é aumentado. Nas longas-metragens, para a primeira obra, o subsídio anda à volta dos 500 mil euros. É um valor muito pequeno, quando comparado – e já nem falo de um filme norte-americano – com um filme espanhol, francês, inglês, italiano, húngaro, de onde quer que seja.

As co-produções aparecem em boa hora?
Pois. No caso do “Rafa” só me foi possível fazer o filme porque conseguimos uma co-produção em França. Tecnicamente, o filme é luso-francês, embora seja todo falado em português e filmado em Portugal. Há vários membros da equipa que são franceses e parte da pós-produção foi feita em França. Imagem e som foram feitos em Paris.

O nível que encontrou em França é superior ao de Portugal?
Em termos de meios técnicos, há mais estúdios, mais sítios onde fazer as coisas e o material é bom. Em termos humanos, acho que não. As pessoas que trabalham em cinema em Portugal são normalmente muito profissionais, rigorosas. Os filmes portugueses têm uma tradição de muita liberdade, mas ao mesmo tempo de muito rigor, muita precisão. A nível técnico e artístico. Pensamos no Manoel de Oliveira, Pedro Costa, João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes, João Canijo, Marco Martins. São todos realizadores que trabalham com muito rigor e precisão. Portanto, é óbvio que isso seja abrangente a toda a comunidade do cinema. Aos directores de fotografia, engenheiros de som e por aí adiante.

Apesar das dificuldades, augura um bom futuro para o cinema português?
Acredito que os realizadores portugueses fazem filmes absolutamente incríveis. É quase um milagre termos sucessivamente filmes em Cannes e Berlim. Ainda agora no Festival de Roterdão havia nove filmes portugueses. São números que devem ser comparados com cinematografias muito maiores do que a nossa, como a espanhola ou a inglesa. Não sei se este ano há mais filmes ingleses e espanhóis em Berlim do que portugueses. Estamos a falar de países que fazem 200 filmes por ano e nós fazemos dez. Isto significa alguma coisa. É preciso o mínimo de condições para que estes filmes continuem a ser feitos. Tenho alguma esperança que a nova lei venha devolver alguma dignidade que se tem vindo a perder ao longo dos últimos anos em termos de apoios.

Cresceu num ambiente cinematográfico. Isso foi fulcral no percurso que escolheu seguir?
Influenciou bastante porque o meu pai [José Edgar Feldman] sempre trabalhou em cinema, televisão e fez documentários. Nos últimos filmes do Paulo Rocha, por exemplo, tem trabalhado como montador. Não foi uma influência forçada porque sempre tive a liberdade de fazer aquilo que quisesse. Mas, na verdade, cresci rodeado de filmes. Lembro-me do meu pai ter uma mesa de montagem antiga em casa e eu ouvia a repetição de planos durante um dia inteiro. Também via filmes do Kiarostami quando eles ainda davam na RTP2. Portanto, isto influenciou-me e com mais ou menos 18 anos decidi que queria fazer cinema. Aí, comecei a aperceber-me que fui beber muitas das coisas que via em casa.

O seu pai é um bom crítico?
Nós temos muitas conversas sobre o nosso trabalho. Ele é quase o primeiro crítico. Sabe, quando lê um guião escrito por mim, a razão de eu executar algo de uma forma em particular. Tenho uma sorte tremenda de o meu pai perceber o que faço.

Aos 25 anos venceu a Palma de Ouro para melhor curta-metragem. Foi difícil regressar à Terra depois disso?
Fiquei um pouco surpreendido porque normalmente não é dada atenção ao cinema português. O meu filme recebeu muita atenção. Mas não tanto pelo filme em si, mas mais pelo que conquistei. Por um lado, claro que fico extremamente feliz por saber que muita gente viu o filme e que se calhar não o iria ver se o prémio não tivesse chamado a atenção. Por outro lado, acho que foi um pouco perverso. É preciso acontecer uma coisa destas para que haja interesse.

Ainda se sente colado à imagem do “realizador que venceu a Palma de Ouro”?
Há muita gente que vê tudo à luz do filme que conquistou a Palma de Ouro. Surgem sempre comparações: “melhor, pior, diferente”. Há sempre o estigma de ser visto em comparação. Com o “Rafa” espero que tudo corra bem e que isso deixe de ser uma coisa que me persegue pelos maus motivos.

Mesmo assim, gostava de voltar a ganhar um grande prémio de cinema?
Claro. Estaria a mentir se não dissesse isso. Mas os prémios são coisas secundárias nos festivais.

Para Berlim não se vai esquecer de levar papillon, como aconteceu em Cannes [à última hora arranjou um]?
(risos) Acho que em Berlim a coisa é mais informal. Se puder ir de calças de ganga e sapatilhas é preferível. Não me sinto muito confortável naquele traje. (risos)
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paragrafopontofinal.wordpress.com


NOTAS DA REALIZADORA

Estávamos muito sossegadas a fazê-lo, sem pressas. Mas era preciso uma câmara maior além da minha pequena, e além disso era importante não perder nada do teu palavreado, nem as abelhas que te chateavam, ou os pássaros que não paravam de chilrear. Por isso chegou o Léo, com a câmara grande, o Olivier com todos os seus microfones e a coisa que te colava na barriga e de que tu não gostavas. Axelle, Solène, Sophie, as minhas amigas que estavam a ajudar, e Christiane, a minha mãe que nos fazia de comer.

No início, enfureceste-te, gritaste comigo, querias que eles se fossem embora, para que pudéssemos fazer o filme como antes, só as duas. Com o passar do tempo, tiveste menos medo, e por acaso eu também. O filme era o teu território, um local em que fizemos tudo para te dar a maior liberdade possível. Trabalhar significava inventar jogos, colocarmo-nos perguntas e tentar responder-lhes. Trabalhar era ver como lutavas para fazer as coisas como os crescidos, porque és teimosa como uma mula, acariciar o coelho, achá-lo querido e depois doce e compreender que estava morto.

Sabes, às vezes à noite, não tinha a certeza se tudo isto daria um filme. O que sabia era que conseguíamos filmar sem forçar nem o tempo, nem as coisas e sobretudo nem a ti. E tudo isso era muito importante. E quando parávamos de respirar, porque diante de nós aconteciam pequenos acidentes tocados pela graça, cada vez que isso acontecia eu pensava sim, talvez fosse isso o cinema. Porque sonhava fazer dessa maneira, em vivendo. Juntas vivemos e fizemos este filme, procurámo-lo pouco a pouco, contigo, o Alain, que se tornou teu vovô, e Marie, a tua mamã. Tudo isso embalado pela mais simples das músicas, a que nos rodeava, da madame natureza.

Com o trabalho, Nana transformou-se em filme, encontrou o seu caminho, a sua história, ao ritmo de uma menina e de um mundo que esquecemos, o mundo dos nossos 4 anos.

O nosso filme, Kelyna, parece-se com os filmes antigos, os velhos contos para crianças, simples e um pouco cruéis. Acredito nos filmes como nos gestos de amor, de mim para ti, de ti para mim, de nós para os outros.

Agora, é preciso oferecê-lo aos outros e ficar de pé.
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Valerie




Realização e Argumento: João Salaviza
Imagem: Vasco Viana
Som: Olivier Blanc
Direção de Arte: Nadia Henriques
Interpretação: Rodrigo Perdigão, Joana Verona
Montagem: Rodolphe Molla e João Salaviza
Origem: Portugal/França
Ano: 2012
Duração: 25'

Realização: Valerie Massadian
Imagem: Léo Hinstin, Valerie Massadian
Som: Olivier Dandré, Jonathan Laurent
Montagem: Dominique Auvray, Valerie Massadian
Interpretação: Kelyna Lecomte, Alain Sabras, Marie Delmas, Yves Monguillon, Léo e Max Penot
Origem: França
Ano: 2011
Duração: 68'

3ªf, 17, 22h, Claustros do Museu Municipal. Cinema ao ar livre!

AMOR DE JUVENTUDE: É Amar-te Assim Perdidamente

Um filme sobre um desgosto sem cura. É tudo e é muito.

É uma maldição, é uma picada de fuso em dedo de bela adormecida... embora a picada que se solta deste fabuloso e despretensioso pequeno filme, pareça mais vinda do mosquito da malária. Um dia picou, e o parasita ficou na corrente sanguínea para a vida toda, pode dissimular-se inoculado durante anos, mas eis que os sintomas ressurgem, e a pessoa nunca mais se livra desta enfermidade que, no caso, é um amor de adolescência. E disse-se pequeno filme, mais pela sua modéstia e destituição de artifícios e de efeitos demagógicos do que pela construção de uma emoção, que essa enche o ecrã, tal como a música fluvial The Water, tão bem cantada pelos britânicos Johnny Flynn e Laura Marling. É um filme sobre o desgosto. Tão simples quanto isso. Este Amor de Juventude também nos fica, subcutaneamente, como uma angústia que não sai cá para fora. E é um exemplo de natarrologia fílmica, a forma como Mia constrói a passagem do tempo, as delongas, as cadências, a música e este desgosto que se arrasta e mói, e "melancoliza" a face de uma extraordinária jovem actriz (Lola Créton). E como a certa altura se convoca a arquitectura usada como metáfora de betão, num filme cheio carne e osso e coração. Camille tem 15 anos e está apaixonada. Logo nas primeiras cenas, a realizadora dá-nos a mobilidade de Sullivan, sempre de bicicleta de um lado para o outro, e a constância de Camille. Ela está irremediavelmente contaminada, não suporta a separação, nem à refeição tolera a distância de uma mesa. Ele precisa de cortar amarras e de pedalar o mundo, deixar de estudar, percorrer a América Latina. Ela, como uma Penélope, fica, a tecer mágoas e desenganos, à espera da volta daquele Ulisses esgrouviado: "Cada dia que passa é um dia sem ele". Os anos correm, menos que na Odisseia, mas ainda assim oito. Camille torna-se adulta, conhece outro amor mais maduro, mais "sintónico", um arquitecto norueguês e famoso. Mas um dia, o Sullivan aparece-lhe no caminho, e apetece dizer o contrário do que à Lara Antipova, na cena em que ela vai no eléctrico, perseguida pelo Dr. Jivago: Olha para trás, olha para trás. Aqui, apetece-nos gritar à Camille; não olhes para trás, não olhes para trás. Ainda por cima Sullivan tornou-se num adulto desinteressante, fotógrafo de fait-divers num jornal regional, trabalhador nas obras de sobrevivência. E ela é uma arquitecta que desenha residências de estudantes como se fossem mosteiros, cheios de reclusão, espelhos de água e contemplação. Eles já nem gostam do mesmo filme; Sullivan comenta à saída do cinema "c'est tellement français". Mas Camille não consegue virar a página. Resta-lhe a água do rio e a música de Flynn, que de intradiegética num carro, passa a extradiegética a céu aberto. A música, talvez a única profilaxia, enquanto não chega a vacina.
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Ana Margarida de Carvalho, Visão


Crónica tocante de uma paixão adolescente até à entrada na idade adulta, “Um Amor de Juventude” é o trabalho mais conseguido da cineasta francesa Mia Hansen-Love.

“Um Amor de Juventude" arranca com uma simplicidade tocante. Com Sullivan e Camille. São adolescentes. Trocam-se promessas de amor e juras de morte se esse amor acabar. Conhecemos a história, toda a gente a conhece: tem a idade do mundo. Depois, Sullivan parte para uma viagem pela América do Sul - está à procura de si próprio. É incapaz de se enraizar num sítio. Camille fica. Chegará à faculdade. Encontrará outras companhias, nova paixão. Os anos passam, num tempo jus¬to, à medida que aquele primeiro amor se vai tomando fantasma. Voltarão a encontrar-se, os amantes, já na vida adulta, num tempo deslocado, mas ainda preso à memória do que já aconteceu, do que já foi. Não será difícil imaginar que, da parte da realizadora francesa Mia Hansen-Love, o filme tem o seu quê de autobiográfico.

"Um Amor de Juventude", terceira longa-metragem desta cineasta de 31 anos após "Tout est pardonné" (2007) e "O Pai das Minhas Filhas" (2009), não escolhe propriamente o caminho de 'integração' mais fácil no cinema francês. Gostávamos de nos demorar um pouco aqui. Mia está muito longe de um cinema comercial de carreira com modelos formatados. Mas está igualmente longe de um cinema de autor francês preocupado em restituir o real e em que nada mais do que o real pode acontecer - neste ponto, é um filme 'contra a corrente'. O que procuram os seus filmes, afinal? Uma fluidez narrativa em que não fixaremos planos mas conseguiremos recordar sequências. Uma direção de atores (sublime o papel de Lola Créton) que se entrega ao romanesco e nele procura, não uma forma prática para contar uma história, mas a forma pertinente de contar uma vida. No caso, as vidas de Sullivan e Camille. A vida de uma paixão e da sua dissolução.


Os filmes anteriores de Mia, que tardavam a esclarecer-se e a convencer, já falavam da passagem do tempo, da melancolia, da autodestruição (eram autodestrutivas as figuras do pai em "Tout est pardonné" e "O Pai das Minhas Filhas"). Desta vez, acredita-se que a cineasta foi mais longe. Encontrou um tempo terno, subtil, outras vezes cruel, em que os sentimentos pouco a pouco se constroem. Ganhou a coragem de filmar uma cena de amor físico e de projetar a sua própria experiência, quando descobrimos, neste subtil filme de época, que a ação se passa entre 1999 e 2000.

Haverá um momento do filme em que chegaremos com Camille à fonte de um rio (é o Loire) , que só pode ser um rio de infância. Camille descobrirá aí que compreender a vida é saber deixar-se levar por ela. Também Mia Hansen-Love, artista ainda a meio caminho, tem procurado compreender o mesmo. Tem sabido deixar levar-se pelos filmes. "Um Amor de Juventude" é aquele que mais realça, e com uma, rara transparência, uma sensação de vi¬da oposta às imitações do cinema.
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Francisco Ferreira, Expresso

NOTAS DA REALIZADORA

Não sei pintar, mas sei que o cinema tem certas coisas em comum com a pintura: expressam o invisível através de imagens, tentando encontrar ou reinventar uma presença singular que está em falta; estabelecem um tom, uma cor, um movimento; tornam definitivo o efémero. Mas a especificidade do cinema é, por exemplo, a escolha de um actor, uma frase de um diálogo, um frame, um corte, ou a duração de um plano; é, sobretudo, o resultado final, a sensação de que se representou algo – é disto que retiro prazer, um prazer idealmente catártico, não só para mim como para os outros.

Por fim, aquilo que me impele à escrita é a história: gosto de ouvir histórias, e de contar histórias. Acredito que a ficção pode alcançar a verdade, desde que a ficção seja uma busca por uma linguagem individual.

A minha avó, que ainda não viu o meu filme, escreveu-me recentemente uma carta onde citava Kierkegaard de memória: “A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.” Era exactamente isto que eu queria dizer – e fazer – neste filme.
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Mia Hansen-Løve




Título Original: Un Amour de jeunesse
Realização e Argumento: Mia Hansen-Løve
Fotografia: Stéphane Fontaine
Montagem: Marion Monnier
Som: Vincent Vatoux e Olivier Goinard
Interpretação: Lola Créton, Sebastian Urzendowsky, Magne-Håvard Brekke, Valérie Bonneton, Serge Renko, Özay Fecht
Origem: França/Alemanha
Ano: 2011
Duração: 110’

2ªf, 16, 22h. Claustros do Museu Municipal. Cinema ao ar livre!

EM CÂMARA LENTA.
Homenagem a Fernando Lopes.
Inauguração de Exposição às 21h30 com a presença do filho do realizador, Pedro Lopes.


Uma aventura aquática pelos abismos da alma de um mártir de si próprio.O cinema é poesia.

Na véspera da sua morte, Sócrates compartilhava a cela com um tocador de lira. Pediu-lhe então que lhe ensinasse a tocar aquele instrumento. O outro respondeu espantado: "Mas se ireis morrer amanhã, porque quereis aprender a tocar lira?" Ele respondeu: "Tens razão, morrerei amanhã, mas amanhã saberei tocar lira". Este episódio que se conta da vida de Sócrates, relatado no filme de Fernando Lopes, serve de exemplo para a insaciável busca do conhecimento ou, como sintetiza o povo, a ideia de aprender até morrer. Aplicada a Em Câmara Lenta, mais do que o conhecimento em si, a citação, que no filme também é um prenúncio, pode ser entendida como a busca constante da arte e da poesia. Que é o que Fernando Lopes tem feito ao longo da sua obra, de forma mais ou menos assertiva. E que aqui chega a um dos seus esplendores poéticos. Cita-se Alexandre O'Neill à descarada, sobretudo as suas considerações sobre as mulheres, como que lhe dando um papel de inspirador marialva. De alguma forma, Em Câmara Lenta torna-se assim uma homenagem a O'Neill ou, pelo menos, uma manifestação de afeto e cumplicidade. Isto é feito de modo claro e até pouco subtil quando Santiago leva a sua amante ao Parque dos Poetas, em Oeiras, e cita O'Neill em frente á sua estátua. "Sigamos o Cherne"... E o filme segue o cherne até ao fim do mar. Só que o mar é tão extenso que o filme acaba antes que o mar acabe. Mas fica a ideia de nadar sem fim, num deserto de água, com uma pele marinha, nadar como quem foge e como quem se liberta. Nadar até ao nada. "Vou atrás de um peixe grande, e desta vez ou eu o apanho ou ele me apanha a mim".

Há um homem que se perdeu no mar, e outro que tenta encontrar o seu fantasma, mas não é um filme sobre pescadores, mas de mortos-vivos. Fala da perda de uma personagem que sem encontrar o outro não se encontra a si própria. E então fecha-se na improbabilidade dos relacionamentos, que nunca são suficientemente profundos, porque ele próprio não se consegue desprender do mar que o atravessa.

Aqui, a sinopse pouco interessa ou pouco nos diz. Porque, em resumo, até pode parecer vazio, um drama trivial, de triângulos e quadrados que se enrodilham de forma mais ou menos dramática. De angústias plausíveis e reconhecíveis. Não é um filme em que conte a história. Prevalece antes o olhar, a profundidade das personagens, ou melhor, a densidade em concreto de Santiago, figura altamente egocêntrica que chama para si as luzes e as câmaras, como se os dramas que o circundam não tivessem peso. Santiago não é uma figura simpática, queima tudo à sua volta e acaba por morrer queimado.


Não entrando no extremo da private joke, de Os Sorrisos do Destino, em que com algum pragmatismo trivial, Fernando Lopes importou para o filme um facto que lhe aconteceu na vida (o resultado é um dos piores filmes da sua carreira), continua a haver um lado de espelho em Em Câmara Lenta. Sabemos que Fernando Lopes está ali, em Santiago (Rui Morrison), personagem que o representa. De resto, não é por acaso que todas as personagens bebem uísque e é estranha a coincidência de todas as atrizes se chamarem Maria João.

A outra personagem masculina, Salvador (João Reis), faz o contrabalanço com Santiago, é a figura tragicómica, mas igualmente deprimida. O bêbedo alegre e espirituoso. É um grande momento quando, no British Bar, eleva a voz para dizer que tem um anúncio a fazer, e os clientes respondem em coro: "A minha mulher deixou-me!". Uma auto-ironia fantástica. É a personagem mais terna, cheia de pena de si própria, mas que, apesar de tudo, consegue ver o outro. Um fotógrafo que escreve um diário, e vive na esperança de voltar para a mulher, que o deixou por causa da bebida.

À exceção da mulher de Salvador, que nem chegamos a conhecer, as personagens femininas caracterizam-se por uma resignação e submissão algo misteriosa. Laurence, a mulher, aceita a amante de Santiago (ou melhor, o facto de Santiago ter uma amante) com uma naturalidade fiel. Subentende-se uma relação funcional, porventura incompleta ou inconsumada, mas sem plano de rotura. Ambos se conformam, mantendo apenas discussões educadas e elevadas, que até evidenciam cumplicidade.

Constança, a amante, submete-se a um destino que ela própria ditou e que a aprisiona. "Tu és o homem a quem me decidi entregar". E diz isso como uma fatalidade, absolutamente inalterável, um karma, que mais à frente a faz gueixa, na dicotomia entre o amor e a morte. A morte é a vingança do amor. Perante estas mulheres que, passivas, submissas, se rendem ao seu desígnio, Santiago reina de forma desafetada e egoísta, mas não deliberadamente maldosa. O pecado dele talvez seja gostar sem amar, ou amar sem cuidar, deixa-se levar mas não vai. Na viagem que faz, pede dois quartos no hotel, para grande desilusão de Constança. Quer acordar sozinho. Recusa-se a entregar-se totalmente. Em oposição ao avô de Constança, que vão visitar ao lar, e encontram-no a dormir na campa da esposa falecida: esse entrega-se mesmo até depois de a morte os separar.

Visão poética do realizador que recupera o melhor da sua estética, do seu olhar, com diálogos menos naturalistas, citações abundantes, imagens que preenchem a alma. Um sentido estético próximo de Lá fora. Santiago talvez seja o engenheiro que constrói os não lugares desse outro filme. Só que aqui o artificialismo não prevalece. Há uma poética do vazio e dos espaços sem fim, outrora artificiais, aqui apenas imensos. Em Câmara Lenta é o melhor filme de Fernando Lopes desde O Delfim. Uma aventura aquática pelos abismos da alma de um mártir de si próprio.
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Manuel Halpern, Visão


"Em Câmara Lenta" é uma adaptação livre para cinema do romance homónimo de Pedro Reis, a partir de um argumento assinado por Rui Cardoso Martins. É o novo filme de Fernando Lopes, que muito apreciou o livro e até o comentou, considerando-o "um asteróide romanesco raro e surpreendente na literatura portuguesa." Esta é a história de um homem, Santiago – e assim reza a primeira linha da sinopse - "que se deita ao mar para não voltar." Há muito a dizer sobre aquele homem. Ainda mais sobre aquele mar. Mas sigamos lentamente (como esta câmara), pois a esse ritmo o filme convida. À partida, uma pergunta parecia impor-se sobre todas: que mar foi este, para Pedro Reis, que mar é este agora, para Fernando Lopes? Alguém muito próximo do cineasta nos provou de-pois, do outro lado da linha telefónica, que a pergunta não vinha do acaso: "Digamos que entre o Fernando e o mar há um longo e difícil desentendimento."

"Em Câmara Lenta" é um filme especial para Fernando Lopes e o preocupante estado de saúde atual do cineasta não lhe é fator alheio. Não estamos aqui para falar disso, apenas de um filme, embora haja coisas que condicionam necessariamente outras. Acrescente-se apenas que o cineasta que fez "O Fio do Horizonte" bem pode ter dito nos últimos tempos que viu o horizonte por um fio. E foi num breve encontro inesperado para nós, quando todas as hipóteses de conversa já pareciam barradas, que Fernando Lopes, em sua casa, nos esclareceu a dúvida de uma vez por todas: "Santiago, bon vivant, é afinal um tipo completamente fascinado pela morte. Ele tem a mania do mar e, de um mergulho a outro, à medida que se vai enganando a ele próprio, é na morte que ele pouco a pouco mergulha. Para mim, o mar sempre foi em simultâneo fascinante e aterrador. Uma espécie de morte líquida. Sinto-me à vontade para lhe dizer isto: eu nunca aprendi a nadar."

Passamos a Santiago (papel de Rui Morisson) e ao crawl deste filme. Nada que se farta, oceano adentro, Santiago. Aventura-se em mar alto. O filme nunca dirá o que faz ele da vida e é bem provável que o conforto que esta lhe deu lhe tenha permitido viver sem fazer coisa alguma. Ele é "o último sobrevivente de uma espécie de varões e marialvas". Santiago é casado com Laurence (Maria João Luís). Tem uma amante que o adora acima de tudo e que adora botânica: cha¬ma-se Constança (Maria João Pinho). Frequenta bares de má fama onde encontra frequentemente Ma Vie (Maria João Bastos, a terceira Maria João do elenco). Em torno de Santiago há ainda Salvador (João Reis), seu boémio amigo que abraça amores perdidos com copos reencontrados - podem viver uns sem os outros? Começa logo pela manhã, Salvador, no balcão de um bar que é british e lhe serve de coro: é Salvador quem começa por estabelecer as ligações entre as personagens, no relato de um diário íntimo em que realidade e alucinação se confundem. Talvez a história de "Em Câmara Lenta" seja sua. Talvez sejam suas estas personagens, fantasmas que lhe surgem num momento da vida em que ele já aprendeu a dar outro valor à compaixão. Mas, como ele diz, "o que realmente interessa..." O que nos interessa?

As relações homem/mulher são há muito um assunto central no cinema de Lopes. Depois do ponto alto de "O Delfim" (2002), o aspeto (que consideramos) mais mundano dessas relações tem alimentado o seu trabalho recente: "Lá Fora", "98 Octanas", "Os Sorrisos do Destino". "Em Câmara Lenta" vai noutro sentido. A simplicidade não pediu condimentos e reduziu o texto ao osso. O desenvolvimento das personagens é ténue e 'descomplica-se', por opção própria. Há momentos que se julgam difíceis de seguir: foi um sonho ou vimos mesmo Laurence, de espada em riste, a desafiar gaivotas debaixo de um rochedo da Praia da Adraga? O filme passa a correr e o crawl de Santiago não exigiu mais que 70 minutos de duração: algo ficou por escrever, por filmar? Mas há outro assunto a sublinhar aqui e que importa: o tratamento do tempo - que Fernando Lopes dinamita. Não vale a pena procurar no parágrafo anterior a cronologia narrativa que o filme não dá, pois é através de flashbacks constantes que vão surgir as cenas e a natureza das personagens. Por flashbacks somos levados à story, sob a forma de 'aparições' que ora recordam a estrutura de "Uma Abelha na Chuva" ora os duplos de "O Fio do Horizonte", esse filme em que um homem vivo se descobria no espelho de um homem morto que era ele.


Dorme pouco, Santiago. Sonhos obsessivos não lhe dão repouso. O filme instala cedo a sensação de que o tempo de Santiago é frágil- e é iminente a sua rutura. "Em Câmara Lenta" vive num tempo adiado, que é em simultâneo um tempo de pânico. Pânico de que o tempo acabe, ou pior ainda, pânico que os dias se repitam ad eternum: Santiago é um daqueles homens que sabem que os homens pouco mudam. Para os da sua casta, é coisa certa, sabida e provada. E neste filme em que andam ao contrário os ponteiros do relógio, como tomba o varão e marialva? Verga-se pela indiferença na sua relação com Laurence. Verga-se pelo desespero na sua relação com Constança, essa Flora sem Zéfiro à altura que, num ritual erótico que é um ritual de morte, prova o veneno de um amor que ela quis mas nunca conseguiu viver por inteiro. O que resta a Santiago? O destino do cherne do famoso poema de O'Neill, que o filme cita e acaba com "solidão e mágoa"? O destino do mar? "Acho que hoje vou apanhar um peixe de sangue quente..."

Cineasta importante, cineasta único, cineasta vivo, Fernando Lopes realizou um filme crepuscular chamado "Em Câmara Lenta". Começa com o som do mar vibrante e termina em silêncio de sepulcro, com uma espada sobre cinzas. Uma câmara ardente? Não deixamos as ideias por aqui. É preciso voltar a um mar que se abre à ficção e liberta a realidade de Santiago dos seus limites. A um tempo que eclode e desvanece, de notas soltas. Neste tempo plural, labiríntico, o que Fernando Lopes constrói é um túmulo para Santiago. Um túmulo em que cabem sonhos e pesadelos, festas e desfeitas, a embriaguez e a ressaca do seu coração.

“Em Câmara Lenta" é' um filme que pergunta: 'quem somos nós e por que nos tornámos objetos de nós próprios? Objetos de cobiça e indiferença, objetos de incompreensão e de terror? Não fomos, afinal, neste infinitésimo de mundo que somos, os nossos maiores inimigos? Consciente do seu destino, Santiago desce ao fundo do desejo. Fernando Lopes filma-o com compaixão, em posição fetal, naquela imensidão de mar que é afinal um espaço uterino. É por isso que “Em Câmara Lenta” não nos parece um filme de um termo. Antes o filme de um reencontro, de uma reconciliação.
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Francisco Ferreira, Expresso




Realização: Fernando Lopes
Fotografia: Edmundo Diaz
Argumento: Rui Cardoso Martins, a partir do livro de Pedro Reis
Montagem: Carlos Madaleno
Interpretação: Rui Morisson, João Reis, Maria João Pinho, Maria João Luís, Maria João Bastos,
Carlos Santos, Nuno Rodrigues, Miguel Monteiro, John Frey

Origem: Portugal
Ano: 2011
Duração: 71’

O MELHOR CINEMA AO AR LIVRE - 16 A 27 JULHO, 22H. CLAUSTROS DO MUSEU MUNICIPAL

16 a 27
Exposição evocativa de Fernando Lopes
Feira do Livro de Cinema

DIA 16
EM CÂMARA LENTA, Fernando Lopes, Portugal, 2011, 71’

HOMENAGEM A FERNANDO LOPES - inauguração de Exposição Evocativa às 21h e apresentação deste filme pelo seu filho, Pedro Lopes, às 22h

Visão poética do realizador que recupera o melhor da sua estética, do seu olhar, com diálogos menos naturalistas, citações abundantes, imagens que preenchem a alma. Um sentido estético próximo de Lá fora. Santiago talvez seja o engenheiro que constrói os não lugares desse outro filme. Só que aqui o artificialismo não prevalece. Há uma poética do vazio e dos espaços sem fim, outrora artificiais, aqui apenas imensos. Uma aventura aquática pelos abismos da alma de um mártir de si próprio.
Manuel Halpern



Dia 17
UM AMOR DE JUVENTUDE, Mia Hansen-Løve, França/Alemanha, 2011, 110’, M/12

O terceiro (e, para nós, melhor) filme da francesa Mia Hansen-Løve ilustra na perfeição o velho adágio “não há amor como o primeiro” - e adiciona-lhe uma “segunda parte” que diz “e é uma coisa inexplicável”. Na prática, contudo, Um Amor de Juventude vai ganhando consistência à medida que avança, graças à limpidez e ao desassombro com que a realizadora olha para esta experiência fundadora das emoções, e sobretudo porque o lado bonito e romântico da coisa não esconde que há tanto de terno e ingénuo como de iludido e malsão nas obsessões românticas da juventude.
Jorge Mourinha



Dia 18
RAFA, João Salaviza, Portugal, 2012, 25’
NANA, Valerie Massadian, França, 2012, 68’, M/12

Nana (Kelyna Lecomte), de apenas quatro anos, vive com a mãe e o avô numa casa perto da floresta. Certo dia, ao chegar da escola, encontra a casa totalmente silenciosa e vazia. Depois da sensação física do vazio e do abandono, Nana retoma a sua vida normal: veste-se, alimenta-se, brinca e cuida da casa. É assim que aquela menina assume-se num mundo à altura dos seus 90 centímetros, liberta dos adultos e da sua orientação. Primeira longa-metragem da fotógrafa Valérie Massadian, foi o filme-revelação em Locarno, onde recebeu o prémio Opera Prima para primeiras obras.
Em complemento a curta "Rafa", de João Salaviza, sobre um rapaz de 13 anos que deixa a sua casa nos subúrbios e ruma a Lisboa, em busca da mãe que não regressou na noite anterior. "Rafa" foi o vencedor do Urso de Ouro para melhor curta-metragem na edição de 2012 do Festival de Berlim.

(trailers de ambos os filmes)


Dia 19
A MINHA SEMANA COM MARILYN, Simon Curtis, Reino Unido/EUA, 2011, 99’, M/12

Tudo aponta para que “A Minha Semana com Marilyn” queira ser o “Discurso do Rei” versão 2011 - um filme competente, profissional, clássico, um tudo-nada anónimo.Isso apenas torna mais digna de crédito a despretensão e o profissionalismo que tornam a primeira longa-metragem de Simon Curtis num filme simpático e perspicaz que tem uma noção exacta do que se esconde por trás da grande ilusão do mundo do cinema. Filme profissional, clássico, com excelentes interpretações de um elenco de luxo, tudo, evidentemente, feito com a impecável reconstituição de época e profissionalismo a que os ingleses nos habituaram.
Jorge Mourinha



Dia 20
SHAME, Steve McQueen, Reino Unido, 2011, 101’, M/18

Depois da “Fome”, a “Vergonha”: ao segundo tomo, a obra cinematográfica de Steve McQueen começa a parecer uma reflexão serialista sobre as misérias humanas, e talvez acabe aos sete, como os pecados. Já tínhamos gostado imenso de “Fome”, produto de um olhar fresco que tentava habitar a convenção (de um cinema “mainstream”, ou quase “mainstream”) para a rasgar, por dentro e com delicadeza, sem a pose sobranceira com que outros “artistas” se aproximam da “facilidade” do cinema. “Vergonha” sugere que “Fome” não foi um acaso, e que há que contar, de facto, com este olhar de McQueen. Um balanço perfeito entre um modo “cerebral” de fazer cinema e o inesgotável poder, muito físico, dos seres e dos lugares.
Luís Oliveira



Dia 23
MIDNIGHT IN PARIS, Woody Allen, EUA/Espanha, 2011, 100’, M/12

Comparado com a escuridão escarninha de filmes mais recentes como “O Sonho de Cassandra” ou “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos”, “Meia-Noite em Paris” é literalmente luminoso - é o filme de um realizador que, de certo modo, acabou de fazer as pazes com o mundo e se concentra naquilo que realmente interessa, com uma elegância e um humor abertos que já não víamos em Allen há uns anitos largos. Por trás da imagem há vida e emoção que vão muito para lá da superfície. E se, como se diz a certa altura no filme, o trabalho de um artista é “não sucumbir ao desespero”, Allen, por uma vez, recusou-se a fazê-lo. E sim, o resultado é o seu melhor filme desde “Match Point”.
Jorge Mourinha



Dia 24
A VINGANÇA DE UMA MULHER, Rita Azevedo Gomes, Portugal, 2012, 100’, M/12

A palavra-chave, neste filme, é cerimónia. Porque A Vingança de uma Mulher progride por antecâmaras que dão acesso a um espaço mental.Que homem se torna no fim Roberto? Que espectadores nos tornamos? É das experiências de maior envolvimento físico, por isso, neste momento em sala. E das mais fantasmáticas. Nada de arqueológico em A Vingança de uma Mulher: este fantasma de filme - de um cinema que se faz perigosamente físico ao tocar nos adereços de estúdio e, por isso, a desencadear coisas estranhas na nossa mente e no nosso corpo - insiste em manter-se aqui.
Vasco Câmara



Dia 25
MELANCOLIA, Lars von Trier, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011, 136’, M/12

Em “Melancolia”, filme-catástrofe de câmara passado numa luxuosa mansão campestre, o fim do mundo é uma metáfora mal disfarçada da depressão e do niilismo da sua personagem principal; o filme estica-se para lá do que a história aguenta, roda em seco parte do tempo, tem apenas duas personagens com espessura (sublimemente interpretadas por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg) e uma mão-cheia de bonecos a preencher o resto. Mas é também o filme mais sincero, mais frágil, mais desarmado de Von Trier, aquele em que sentimos um ser humano por trás de todo o estilo visual (aqui apurado ao limite da opulência) e não apenas um brincalhão irritante. Se continuar assim, ainda pode voltar ao panteão dos grandes.
Jorge Mourinha



Dia 26
O CAVALO DE TURIM, Béla Tarr, Hungria/França/Alemanha/Suécia, EUA, 2011, 146’, M/12

"O Cavalo de Turim" não é um filme que se revele à superfície, que responda às lógicas lineares da convenção tal como o cinema mais tradicional as usa. O Cavalo de Turim é um filme para quem espera do cinema que mexa consigo de uma forma elementar, quase inexplicável, puramente sensorial. Bela Tarr não é para quem quer, nem mesmo para quem pode - e não há nisto nada de elitista: trata-se apenas de admitir que há muitas maneiras diferentes de fazer cinema e a dele é “outra coisa”, a um tempo tão depurada que chega a ser arcaica e tão radical que chega a ser visionária. O Cavalo de Turim diz que o cinema é o que um artista quiser - e o que Béla Tarr quer deixa marcas inapagáveis. Saibamos merecê-lo.
Jorge Mourinha



Dia 27
A INVENÇÃO DE HUGO, Martin Scorsese, EUA, 2011, 127’, M/12

Provavelmente, reside aqui o mais singular objecto que Hollywood produziu nos últimos tempos, e basta sentir o desfasamento entre o “trailer” que promete uma coisa e o filme que é outra totalmente diferente para perceber essa singularidade. É que, com “A Invenção de Hugo”, Martin Scorsese assina uma carta de amor ao cinema meia de lição de história, disfarçada de filme familiar à moda antiga que quase podia ser um filme de imagem real da Disney dos anos 1950. Não há explosões nem violências desnecessárias (à excepção de um par de sequências de pesadelo), há uma história que repousa no engenho de um órfão decidido a resolver um mistério que o vai colocar em rota de colisão com o pioneiro do cinema Georges Méliès na Paris dos anos 1920.
Jorge Mourinha



Preço por sessão
Sócios CCF 2€, Estudantes 3,5€, Restante 4€
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Sócios 15€
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Informações sobre os filmes
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Apoios
Câmara Municipal de Faro
Direção da Cultura do Algarve
Hotel Faro


Arquitectura e Cinema: a conferência de Luís Urbano! Sede, 6f, 18h.


Tornar a nossa Biblioteca ainda mais viva. Todos os meses, um convidado apresenta um livro da nossa colecção. Que, como todos, está disponível para requisição – por qualquer um.



6ªf, 6 de Julho, Sede do Cineclube de Faro, 18h, Entrada Livre


LUÍS URBANO – “ Arquitectura emotivamente funcional”


Livro a apresentar – The Architecture of Image. Existencial space in cinema
de Juhani Pallasmaa


O Palestrante

Luís Urbano arquitecto, professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP). Licenciado pela Universidade de Coimbra e pós-graduado em “Arquitectura, Território e Memória” pela mesma instituição. Escreveu artigos sobre as intersecções entre a arquitectura e o cinema para JA – Jornal Arquitectos, Vírus, Dédalo, Indian Architect and Builder, bem como para livros como “SMS:SOS” (Edições ASA, 2003) "Designing Spaces: From Nature to Metapolis" (FLUP; 2004) e "Espaço como desejo" (FAUP; 2005). Co-editou "Designing Light" (FAUP, 2007) e Mundo Perfeito (2008). Coordenou 3 edições do Workshop Internacional Cinemarchitecture (2008, 2009 e 2010). Luís Urbano participou em conferências sobre arquitectura e cinema nos IV Encontros de Cinema Coimbra (1999), Museu de Serralves (2003), FAUP (2003, 2008 e 2010), Universidade Lusófona (2007), Design Cinema Conference, Istanbul (2008), Archfilm, Viena (2009), Universidade do Minho (2010), Society for Cinema and Media Studies Conference, Los Angeles (2010). Júri no Festival de Cinema de Ourense em 2005. Actualmente desenvolve o seu doutoramento em Arquitectura e Cinema, FAUP.


O Livro

"Estou interessado na forma como o cinema constrói espaços no espírito, contrói espaços-espírito; portanto, em reflectir a efémera arquitectura inerente ao espírito, pensamento e emoções humanos. A tarefa mental de prédios e cidades serve para estruturar o nosso estar-no-mundo e para articular a superfície entre a experiência do eu e do mundo. Ora, não é exactamente isso que faz o realizador nas suas imagens projectadas?"
Este extracto da introdução de Juhani Pallasmaa a este seu livro de análise de 5 filmes de 4 diferentes realizadores (A Corda e Janela Indiscreta de Hitchcock, Nostalgia de Tarkovsky, The Shining de Kubrick e Profissão: Repórter de Antonioni) revela as intenção do autor/arquitecto. Este livro explora as existentes relações entre cinema, arte e arquitectura. Pallasmaa examina cuidadosamente a maneira como estes realizadores usaram o imaginário arquitectónico para criar estados emocionais nos seus filmes.


Livros em Cadeia é um projeto financiado por


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4ª É ÚLTIMA SESSÃO, 22h, SEDE: Hepburn e Tracy - olha que dois!

5ªF, Dia 28 de Junho. 22H. Entrada livre.

Adivinha Quem Vem Jantar, Stanley Kramer, EUA, 1967, 108’

Produzido e dirigido pelo cineasta Stanley Kramer, "Adivinhe Quem Vem Para Jantar" é um ótimo e inesquecível filme. A trama se passa ao longo de um dia, quando duas famílias, uma branca e a outra negra, são surpreendidas com a inesperada informação de que seus respectivos filhos decidiram se casar. Assim, num pequeno espaço de tempo, as duas famílias têm que superar problemas de preconceito racial, principalmente por parte dos pais homens. As mães, ao contrário, logo após o primeiro impacto da notícia, passam a apoiar a decisão de seus filhos. É interessante observar o preconceito por parte da empregada negra da família da noiva, quando ela tenta persuadir o jovem médico de cor a abandonar seus planos de casamento.

Alguns críticos colocam que os Drayton só apoiaram o casamento da filha pelo fato do noivo negro ser um médico internacionalmente famoso; que, se ele fosse um negro viciado em drogas, a união dos dois não seria por eles apoiada. A pergunta que faço é: será que eles apoiariam o casamento da filha no caso do noivo ser um branco viciado? Na minha opinião, foi mais do que acertada a colocação de um noivo negro educado, famoso, de boa índole, pois, somente dessa forma, o não apoio à filha seria, com certeza, atribuído ao preconceito racial.

Na época, já com a saúde bastante abalada, Spencer Tracy teve negadas quaisquer coberturas por parte das Companhias de Seguro, de modo que, Stanley Kramer e Katharine Hepburn decidiram levar à frente o projeto considerando que, no caso da morte de Tracy durante as filmagens, os dois bancariam um novo ator para concluí-las. Na realidade, Spencer Tracy faleceu duas semanas após o término do filme.

Nos últimos minutos, as lágrimas derramadas por Katharine Hepburn, durante o comovente discurso proferido pelo personagem de Spencer Tracy foram, segundo ela própria, verdadeiras, pois ambos sabiam que aquele seria o último filme deles. Eles foram amantes por muitos anos mas Tracy, sendo católico, jamais tomou a decisão de se divorciar de Louise Treadwell, com quem foi casado por 44 anos.

Além do excelente trabalho realizado por Stanley Kramer, "Adivinhe Quem Vem Para Jantar" nos brinda com um roteiro perfeito, diálogos inteligentes, a bela trilha sonora de Frank De Vol e um ótimo elenco. Katharine Hepburn, como de costume, está maravilhosa e elegante como a Sra. Drayton. Apesar de doente, o velho Tracy também nos emociona. Merecem ainda destaques as atuações de Beah Richards, Cecil Kellaway, Sidney Poitier e Isabel Sanford, esta última como a empregada Tillie.
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CAA, in 65anosdecinema.br





Título Original: Guess Who's Coming to Dinner, 1967.
Realização: Stanley Kramer
Argumento: William Rose
Fotografia: Sam Leavitt
Montagem: Robert C. Jones
Música: Frank De Vol
Interpretação: Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Hepburn, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah Richards, Roy Glenn, Isabel Sanford, Virginia Christine
Origem: EUA
Ano: 1967
Duração: 108’

3ª SESSÃO, 22h, SEDE: Hepburn e Tracy - olha que dois! Comédias clássicas às 5f!

DIA 21 DE JUNHO. Entrada Livre.

A MULHER QUE SABE TUDO, Walter Lang, EUA, 1957, 103’

Bunny Watson (Katharine Hepburn ) é a chefe do departamento de investigação na Federal Broadcasting Company, uma importante estação de televisão. E faz o seu trabalho muito bem, muito obrigado! Designado pelo presidente da estação para informatizar algumas funções em determinados departamentos, Richard Sumner (Spencer Tracy) chega ao bem gerido departamento de Bunny para observar as actividades diárias. Infelizmente, Sumner tem de manter a sua missão secreta. Como resultado, todos pensam que vão ser substituídos. Para tornar as coisas ainda piores, parece haver um pouco de química a mais entre Bunny e Sumner, o que irrita Mike (Gig Young, o namorado de Bunny). Enquanto a tensão no escritório aumenta, aumentam também as gargalhadas nesta clássica comédia romântica.

Initially appearing as nothing more than a simple and extremely predictable romance Desk Set is actually a film that was a clear sign of the times when it was made. Taking several themes that include job security and the inevitable introduction of machines to the work place, it treads along those lines and bundles them with the romance and light hearted comedy everyone can enjoy. Beneath the surface it is making statements about the advent of technology in the modern world and tries to disperse people’s fears and insecurities as machines take over seemingly mundane duties.

What the film tries to achieve is to reassure people that technology is only as good as the people who have created it - Therefore, a database that provides all the answers to every question, can only be beneficial if it has been programmed with the relevant knowledge. We are to understand that people and machines are meant to work in harmony if the pairing is ever to be successful in future.

At heart, Desk Set is one of those fairytale like romances, where love blooms in the unlikeliest situation. I find myself accustomed to stories like this. It’s been done to death but even if Desk Set doesn’t always get full acknowledgement for being an overall good film; it at least contains some nice scenes that deserve some credit.

We have a marvellous personality test sequence, set on the rooftop of the company building and then later an equally fine moment when Richard and Bunny are at Bunny’s home, just waiting for that eventual scene when her boyfriend walks in. It is the fine dialogue that keeps the film above water.


Spencer Tracey and Katharine Hepburn had been acting together for a long time - that much shows in their on-screen chemistry as they bounce off of each other with witty line, after witty line. Whilst they are a joy to watch and huge talents, they don’t quite pull off their roles here to a fuller effect.

Spencer Tracey delivers his lines perfectly and he appears cheery but somewhat cumbersome, no doubt due to the fact that he wasn’t in the best of health at the time. He’s certainly an admirable fellow with fine qualities and in the past has made more memorable features. Here I just didn’t take to the romantic pairing between himself and Hepburn, even though it is obvious things are rushed toward the end, as director Walter Lang decides to play up the comic factor by giving us a large set piece that centres around the gigantic machine of knowledge, known as E.M.I.R.A.C. By the closing reel the effect just doesn’t seem as great after all the build up toward that eventual, romantic moment.

Hepburn is an actress that I admire off and on. It has always been my opinion that she is prone to overstate her performance in a scene. At times she is spot on and is brilliant at changing her emotions at the drop of a pin but at other times she creates her own trap by carrying on a scene for too long. There are several notable scenes in this film that look as if she is genuinely having fun, they have real qualities about them and she is giving it her all, but some of them do outstay their welcome and Lang should have tightened these up. Hepburn was very much into improvisation however, and while they are nice in some respects, they don’t always work in favour of the film.

The supporting cast all do fine jobs. In fact it is very much an ensemble piece that benefits from everyone’s input. Gig Young is fine as Bunny’s boyfriend who one minute you like, the next you’re thinking he’s a smarmy sod and don’t know why Bunny has put up with him for seven years. Joan Blondell, Dina Merrill and Sue Randall play Bunny’s likeable friends and get a few decent scenes together. Walter Lang respectfully gives each actress ample amounts of screen time and with the help of the wide lens we often get static shots featuring five or more actors on screen at one time. The actresses are enjoyable and play their parts convincingly.
Neva Patterson does a fine turn as E.M.I.R.A.C.’s "mother". Although she is introduced in the last act she displays a fine talent for comedy while Ida Moore manages to raise a few smiles on the viewer's face, as the old lady who just wanders around the building without uttering a single word.

Desk Set is filmed in Fox’s Cinemascope. At the time this was a revolutionary process and Walter Lang gets all the mileage he can from it. The film features some wonderful wide shots that show off the scale of some of the sets. It seems obvious that he had a desire to show off the beast of a machine that appears in the final act. It’s one of those films that you wouldn’t necessarily associate with having the need for scope but it works well in this instance and the shots have plenty of detail and various other things going on in the background that justify its use.
Lang also introduces split-screen techniques - a process that has been used countless amounts of time but are always effective. They create a comic book quality, primarily for phone conversation pieces and it’s another neat addition to the film that shows Lang’s willingness to experiment more with the camera.
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in the digitalfix.com


There is something quite amusing when you consider the premise of "Desk Set" as you have a team of researchers fretting over their jobs as computers are introduced. It's amusing because you wouldn't think that over 50 years ago computers taking over the work place would be seen as such a threat but apparently they were and as such "Desk Set" in some way is a movie made to assure people over the computer revolution. But whilst that is the premise "Desk Set" is also a fun romance, a predictable one, but one which has some great moments which is down to the pair of Spencer Tracy and Katharine Hepburn lighting up the screen with their wickedly sharp banter. If it wasn't for Tracy and Hepburn "Desk Set" would have been just another fun but average romantic comedy but watching these two basically fire off each other makes it so much more.

"Desk Set" is a movie which has two sides, the clever side is that it embraces what was then a threat of computers not so much taking over but leading to job insecurity. It's an element which almost gets lost beneath all the romantic fun but even so it is cleverly worked to be amusing but also realistic. What this premise achieves is that whilst computers are good they are only as good as the people who operate them and in doing so going some way to allay people's fears that computers will replace people in the work place.

For most movies the lack of ingenuity on an old formula would be a problem but for "Desk Set" it isn't because it is all great fun. And that great fun comes from Spencer Tracy and Katharine Hepburn who bring the comedy alive whilst also giving the movie a romantic spark. Some of the best scenes are when Bunny and Sumner are alone and the dialogue bounces back and forth between them such as the interview scene on the roof top or the comedy over the dinner. Without these two who are on brilliant form as they verbally spar "Desk Set" would have been fun but just average.

So good are Spencer Tracy and Katharine Hepburn in "Desk Set" that a talented supporting cast are put in the shade. Gig Young seems so under used as Mike Cutler getting just a couple of really good scenes in the whole movie and whilst Joan Blondell fires off some great snappy one liners is never given the chance to really fire on all cylinders. It does mean that rather than being a mess of comedy "Desk Set" focuses on that provided by Tracy and Hepburn but even so I would have loved for a bit more of Gig Young's slick repartee.

What this all boils down to is that whilst "Desk Set" may be a movie which goes some way to allay people's fears over the then computer revolution it is also a rather good romantic comedy. It maybe predictable and never strays from a well worked formula but with Spencer Tracy and Katharine Hepburn delivering scene after scene of laughs it's impossible not to like it especially with the spark of romance flying off the screen as well.
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in the moviescene.co.uk



Título Original: Desk Set
Realização: Walter Lang
Argumento: Phoebe Ephron e Henry Ephron, baseado numa obra de William Marchant
Música: Cyril J. Mockridge
Fotografia: Leon Shamroy
Montagem: Robert L. Simpson
Interpretação: Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Gig Young, Joan Blondell, Dina Merrill, Sue Randall
Origem: EUA
Ano: 1957
Duração: 103’