2ªf, 15, IPJ: Um filme grego virulento, feroz, francamente original, em que todos os valores da célula familiar são levados ao passevite.

NOTAS DO REALIZADOR
A ideia para o Canino (site) nasceu da especulação sobre o que seria o futuro da família.
Como evoluiria este conceito (se é que evoluiria de todo)? O que aconteceria se este organismo social, tal como o conhecemos, se extingue-se de todo? O que seriamos capazes de fazer para o tentar conservar? O que aconteceria aos envolvidos? Quão destorcidos podem ficar os corpos e as mentes após terem sido isolados e manipulados?
Trabalhámos com os actores numa perspectiva física e verbal mais do que intelectual. Queríamos descobrir o que aconteceria às faculdades humanas mais básicas e fundamentais – como a linguagem, as palavras e o senso comum – quando submetidas a situações extremas: em que posição ficaríamos? Que problemas práticos seríamos forçados a enfrentar?
O universo de Canino tem lugar em qualquer tempo. Não existem quaisquer elementos que nos indiquem se a acção do filme decorre na actualidade, há muito tempo atrás, ou algures no futuro.
Yorgos Lanthimos



Um poema de comédia negra sobre a disfunção, uma verdadeira opereta da auto-mutilação, este brilhante e bizarro filme do grego Yorgos Lanthimos contém actores soberbos. O filme cativa-nos desde as primeiras cenas. Canino pode ser lido como o exemplo superlativo do cinema do absurdo ou simplesmente o total oposto – um profundo e clínico retrato íntimo do realismo psicológico.
Peter Bradshaw, The Guardian


A segunda longa-metragem do grego Yorgos Lanthimos venceu Un Certain Regard em Cannes 2009 e tem vindo a acumular prémios um pouco por todo o mundo, entre os quais o grande prémio do Festival do Estoril. É um "jeu de massacre" formalista e glacial que cruza a crueldade desconfortável de Michael Haneke (ou do "Home" de Ursula Meier) com o isolamento da "Vila" de M. Night Shyamalan no seu olhar surrealista sobre o núcleo familiar. O pai, gestor numa fábrica, é o único laço com o mundo deste clã que vive numa casa isolada no meio do nada, e cujos três filhos, que já há muito passaram a adolescência, nunca sairam dos terrenos, tendo sido inteiramente educados pelos pais e mantidos à parte de quaisquer influências externas. Lanthimos nunca nos explica os motivos ou a lógica desta experiência educativa radical, desenhada de modo tão vago que cada espectador poderá projectar nela a metáfora que bem entender. Independentemente de se gostar ou não de "Canino", inegável é o talento e a inteligência do realizador, visível no modo como encena meticulosamente cada momento, cada plano, cada corte para criar exactamente o efeito que pretende, com uma segurança quase ofensiva no modo como tudo está no sítio certo.
Jorge Mourinha, Público


Giorgios Lanthimos filma os gestos e os sinais que compõem um regime familiar concentracionário num registo seco que evita a retórica demonstrativa de Michael Haneke.

Os gregos têm queda para alegorias, como bem sabemos. E "Canino", não sendo o mais platónico filme do mundo, é dos mais cavernícolas que vimos nos últimos tempos. Felizmente, Giorgos Lanthimos filma mais a caverna do que a alegoria - e o seu registo muito "matter of fact", muito directo, às vezes muito seco, impede que "Canino" se deixe invadir pelo peso retórico e demonstrativo que frequentemente se encontra nos filmes de Michael Haneke (a quem imaginamos facilmente a filmar uma história parecida, e é outro adepto do tipo de "negrume civilizacional" que "Canino" explora).

A situação é simples, mas não imediatamente perceptível. Começamos, aliás, por uma cena em tom de poesia absurdista: três miúdos, ou enfim, três jovens adultos (um rapaz e duas raparigas), num ambiente muito branco, ouvem uma espécie de "dicionário gravado" que para cada palavra propõe uma definição errónea mas, nalguns casos, estranhamente bonita - ficamos assim a saber que naquele universo uma carabina é "um belo pássaro branco" (assim como, mais tarde no filme, daquilo que a legendagem escolheu traduzir por "pachacha" será proposto como entendimento que se trata de uma "luz"). O que se passa, na verdade, é que um pequeno industrial grego (sobre cuja saúde mental nunca seremos elucidados - tudo é mesmo "matter of fact") decidiu criar e manter os seus três filhos numa "caverna" protegida do exterior. A caverna é a casa familiar, e o exterior é o mal absoluto, o perigo constante, a ameaça total. Um mundo de ficção, ritualizado e codificado como um universo mítico (é aqui que entram as abundantes referências aos "caninos", sejam eles dentes ou, de facto, canídeos).

Lanthimos descreve este "mundo" - espaço concentracionário, espaço totalitário - a partir das ficções que o sustentam e das acções que lhe garantem a ordem. A presença dos aviões é conspícua, sejam os que cruzam os céus sejam os aviões de brinquedo: o "medo permanente" que é instilado aos miúdos tem pontos de contacto evidentes com o quotidiano do mundo ocidental pós-11 de Setembro, lá fora o caos e "breaking news" sempre que alguém encontra um sapato desirmanado num aeroporto qualquer. A alegoria do paternalismo do poder político - e do seu reverso, a infantilização dos súbditos - expande-se por aqui. Lanthimos filma os gestos e os sinais que compõem este "regime", com um sentido de humor certeiro: uma canção de Frank Sinatra ("Fly me to the Moon") ouvida em família com o pai a fazer "tradução simultânea" (e na versão traduzida, Sinatra diz "que se porta bem" e, por isso, "o pai gosta dele").

Mas filma, sobretudo, a sua decomposição, o avançar do caos. As brechas que se abrem na relação dos miúdos com o "regime" - e que se abrem pelo desejo (o sexo, que começa por ser "organizado" e convencional, e se vai tornando "desregulado"), pela curiosidade (de ver o que está lá fora), pela vontade (de serem adultos), pela dúvida (de que as palavras não significam de facto o que o lhes dizem). Toda a força da sua descontrolada humanidade virada contra a educação e os condicionamentos: a Grécia anda tensa, como também sabemos.
Luís Miguel Oliveira, Público




O impacte internacional de Canino, de Giorgos Lanthimos, é indissociável da sua performance em vários festivais, incluindo Cannes, Mar DeI Plata, Sitges e Estoril. Mas passa também pela estranha e perturbante universalidade da sua história. Assim, encontramos aqui uma família que funciona numa espécie de clausura «idílica». E o paradoxo da definição não podia ser mais sugestivo: três filhos adolescentes vivem no ambiente paradisíaco de uma casa de campo que nunca abandonam; mais do que isso: a pouco e pouco compreendemos que os pais os educaram num sistema de estrita autoridade que os levou a não querer sair, a não ser quando cair algum dos seus dentes (caninos).

Dizer que se trata de um retrato social das relações pais/filhos seria inadequado, uma vez que deparamos com uma verdadeira «ditadura familiar» alicerçada numa brutal interdição de contactos com qualquer exterior. Ao mesmo tempo, também não faz sentido definir Canino como um filme de ficção científica mais ou menos futurista, quanto mais não seja porque Lanthimos tem o cuidado de definir um ambiente quase naturalista, com sinais (guarda-roupa, móveis, máquinas, etc.) que podiam perfeitamente pertencer ao nosso mundo.

Em boa verdade, o filme faz-nos sentir que qualquer relação (social, familiar, etc.) pressupõe um contrato, implícito ou explícito, que pode oscilar entre o compromisso e a mais radical desordem. Daí que Canino apele à metáfora: esta é, afinal, a história de um desejo de pureza que, a pouco e pouco, vai atraindo o exacto contrário daquilo que o fundamenta e faz funcionar. Nesse sentido, talvez se possa acrescentar que Canino se situa nos antípodas da ideologia «telenovelesca» que comanda a maior parte das encenações correntes do espaço familiar: neste caso, quanto mais familiar, mais estranho. Esta é, afinal, uma fábula sobre os equívocos da pureza.
João Lopes, Diário de Notícias



Depois de um filme como "Toy Story 3" onde a noção de família é preciosa e tem ainda mais relevo que o 3D de Lee Unkrich; vira-se a página e o que se encontra? Um filme grego virulento, feroz, francamente original, em que todos os valores da célula familiar são, pura e simplesmente, levados ao passevite. Gostamos destes acasos, destas oposições, de encontrar uma cinematografia grega da qual se conhece tão pouco e que tenta, em plena canícula lisboeta, encaixar-se no espaço de distribuição dominado pelo blockbuster animado (fossem todas as semanas assim). Giorgos Lanthimos, que já antes havia sido notado, é um cineasta radical. Procura despertar reacções extremas. Inscreve-se num novíssimo cinema grego circunspecto e severo, que aposta em enquadramentos milimétricos e no plano fixo, num tom mordaz que tende para a coreografia. Os mistérios do filme não nos serão dados de barato e - aviso à navegação - não é fácil entrar nele. Há uma casa, pai, mãe e três filhos (um rapaz e duas raparigas), algures entre os 20 e os 30 anos. A casa, afastada da grande cidade, tem um enorme jardim com piscina e uma vedação à volta. O décor é old jashion, anos 80 como o Mercedes Benz do pai, mas há qualquer coisa de errado ali, pois não é nos anos 80 que estamos (o pai, no emprego, usa telemóvel).

Na verdade, 'nada bate certo'. As coisas chamam-se por outros nomes: a palavra 'vento', por exemplo, significa 'estrada'. De seguida, numa cena de jantar em família, uma das filhas pede à mãe que lhe passe o 'telefone' - e o que a mãe lhe dá é o sal de mesa. O filme não tarda muito a abrir-nos a porta do seu jogo de crueldade: esta meta-linguagem que gera tanta confusão, inventada pelo pai com o consentimento tácito da mãe, faz parte de uma 'tática de cativeiro' porque os três filhos, todos adultos, jamais saíram de casa. Julgam que o mundo acaba ali, na vedação do jardim. Foram criados e educados em casa, pelos pais, entre quatro paredes, em ambiente hipnótico. Contudo, os pais fizeram-lhes uma promessa: eles estarão preparados para sair quando... perderem os dentes caninos. Vem daqui o título do filme, bem como a sua desesperada conclusão.

A alegoria sobre uma família que se transformou numa micro-sociedade totalitária é aterradora mas não se pense que o filme passa o seu tempo a sublinhá-la: Lanthimos não faz julgamentos das suas personagens e tanto se constatam os momentos de maior agressividade como os de maior ternura. O espectador identifica rapidamente quem é vítima e carrasco, mas há nuances pelo meio: as relações de filiação não são a preto e branco. Lanthimos consegue por em prática um 'filme sem género' que obriga o espectador a casar o terror com o absurdo, a repugnância com o humor, até tornar credível o que é inverosímil. Os actores, envolvidos neste sistema, todos com uma 'cara de pau' inquietante mas perfeitamente coerente com os objectivos do filme, cativam pela estranheza.

"Canino" é um filme que não se cataloga. Não se inscreve em nada já feito e já visto, nem na Grécia nem na China: chamemos-lhe 'ovni grego', um belo ovni, disso restam poucas dúvidas. Para lá da situação ética e moral chocantes que Lanthimos apresenta, sem desafinar, com a maior tranquilidade do mundo, para lá de uma situação social cancerígena que o poder dos instintos e do sexo acabarão por resolver, o que mais apreciámos aqui foi a proposta de análise ao valor da representação, às fronteiras entre o real e o imaginário e o modo audaz, problemático, como este filme as dilui.
Francisco Ferreira, Expresso


INCLUI DECLARAÇÕES DO REALIZADOR
A Grécia fechada em casa, sozinha contra o mundo.

É assim que sempre a temos visto: como um país na cauda da Europa, em luta pela sobrevivência e pelo reconhecimento internacional enquanto estrutura social possível, obrigada a seguir regras impostas pelo mundo exterior para reconquistar a legitimidade perdida e voltar ao bom caminho do crescimento económico exigido pela União Europeia.

É assim que a vemos também em "Canino", segunda longa-metragem de Yorgos Lanthimos (aqui co-argumentista, além de realizador), em que uma família luta contra a ameaça do mundo que a rodeia e que nunca vemos. Todo o filme, que em 2009 ganhou a secção Un Certain Regard do Festival de Cannes e também o prémio principal do Estoril Film Festival, se passa na agradável casa suburbana em que coabitam um casal e os seus três filhos adolescentes, quase adultos. Uma enorme cerca delimita o amplo jardim com piscina, impedindo a família de construir qualquer imagem do mundo exterior. As crianças nunca de lá saíram, não por não poderem, mas porque o mundo lá fora, segundo o que ouvem nas histórias dos pais, é demasiado perigoso. É um mundo de monstros e de violência que apenas estarão prontos para encarar quando lhes cair o primeiro dente canino.

"Canino" é um ensaio sobre como a linguagem, mais do que um instru¬mento de aprendizagem do mundo, pode ser uma forma de controlo parental da curiosidade, da imaginação e das puIsões dos filhos. Um "zombie" é uma pequena flor amarela, o "mar" é uma cadeira e uma "vagina" é uma grande luz, diz a mãe. Este é o mundo hipnótico de uma família que decide contornar a realidade e distorcê-la a seu favor.

A criação de um cativeiro parental é indissociável do controlo sobre a linguagem - e é uma ferramenta que não apenas os pais, mas todas as fontes de informação, utilizam, argumenta Lanthimos. "A linguagem é uma das principais formas que os pais têm de controlar os seus filhos. É uma das coisas mais importantes que temos, porque é a maneira como comunicamos e percebemos as coisas, a maneira como falamos uns com os outros." Esse poder, diz, começa na família, mas condiciona depois todo o processo de crescimento e a nossa colocação num lugar social. "Se o significado das palavras for alterado, conseguimos fechar as pessoas num certo ambiente. Interessou-me muito a maneira como nos servimos da linguagem para esconder coisas, a maneira como alimentamos as pessoas com informação e isso se transforma em conhecimento."

Se, para os adultos, ainda existe a possibilidade de escolher a informação recebida e a forma de a processar (apesar de, paradoxalmente, cada vez mais informação ser sinónimo de cada vez mais informação igual), as crianças estão absolutamente à mercê de uma educação. A família de "Canino", a pretexto de proteger as crianças do exterior, decide levar esse controlo ao extremo, lembrando a forma como os Governos autoritários controlam a comunidade através da propaganda política. Numa das cenas mais marcantes do filme, as crianças pedem para ouvir "a canção do avô": trata-se de "Fly me to the moon" de Frank Sinatra, tocada enquanto que o pai traduz a letra para os seus filhos e transforma a música num hino à autoridade parental e à obediência familiar. Lanthimos sublinha que começou por querer escrever uma história sobre uma família, mas que a comparação política tornou-se, também, num elemento importante da sua reflexão. "Acaba por ser inevitável associarmos a história ao lado político e à gestão mediática da informação."

A distorção da linguagem implica, por outro lado; um jogo físico permanente entre aqueles que possuem o poder de estipular os significados (os pais, donos do conhecimento) e aqueles que devem corresponder à aprendizagem (os filhos). Em “Canino”, o dia das crianças é preenchido pela expectativa dos jogos teatrais montados pelos pais: testes de respiração debaixo de água, corridas, procura de objectos escondidos no jardim. Os vencedores são premiados, alimentando uma relação de competição que serve; de novo, como pretexto para a preparação para o mundo exterior inventado, mas que os concentra, também, na obtenção de um reconhecimento paternal que tarda em chegar, e do qual precisarão, a nível emocional, para saírem dos limites da sua casa.

Numa altura em que a Grécia é ela própria uma sociedade em risco pelos desvios à lógica da concorrência em que se baseia todo o espírito do capitalismo, Lanthimos recusa, contudo, que o seu filme constitua uma crítica. "A crise é provocada por um conjunto de coisas que se influenciam umas às outras, pela maneira como fazemos tudo funcionar, pelos objectivos que estão por trás e o ponto até ao qual estamos dispostos a ir. Não podemos dizer que a concorrência seja, em si, uma coisa má, pois também é responsável pelo nosso
pro¬gresso enquanto sociedade." Um dos objectivos de "Canino", segundo o realizador, é precisamente mostrar a validade múltipla dos critérios da vida em família e em sociedade. "Não podemos dizer que existe uma coisa errada e outra boa. É exactamente isso que o filme nos diz. Não podemos dizer isso sobre nada. "



A defesa, ou a aplicação radical, da nossa percepção do mundo pode ser tão violenta como os valores desta família. "A violência é uma parte importante da nossa sociedade. Tudo o que encontramos no nosso dia-a-dia, na nossa família, nas nossas relações, é levado ao exagero no filme, mas a violência é uma parte importante disso tudo." Aqui, a violência surge, sobretudo, nos momentos em que os pais perdem fisicamente o controlo. "De repente, as pessoas sentem-se autorizadas a usar a força para obrigarem os outros a acreditar naquilo em que elas querem que acreditem. "

No cativeiro de "Canino", o físico ganha uma importância central, mas uma importância totalmente desprovida de emoção. O sexo, explícito e mecânico, é meramente funcional. Lanthimos aborda-o não só a partir da perspectiva que é imposta pelas pais do filme (desprovida de paixão e, por isso, ultrapassando os limites morais do incesto), mas também a partir da perspectiva que lhe foi imposta pelos seus próprios pais, no seu país. "É algo que vem da minha infância. Hoje em dia, as coisas já não são assim, mas há duas décadas atrás, havia a ideia, dentro das famílias, de que o pai se orgulharia se os seus filhos rapazes tivessem sexo." Um orgulho vedado às raparigas: “Era simplesmente um tabu”.

Em “Canino”, os pais concentram-se nas necessidades físicas do filho de forma muito directa, ao entregar-lhe a única visita do mundo exterior, uma funcionária da fábrica do pai que vem cumprir os seus desejos sexuais. “É um mero cumprimenta de uma função: está aqui, despacha-te com isso e pronto". O desabar dessa imagem começa quando as filhas vêem essa mesma pulsão a tomar conta dos seus corpos. "É tentar controlar uma coisa que, obviamente, nunca poderá ser controlada. O sexo e os instintos naturais das pessoas surgem de forma natural e, a partir de uma certa altura, toda essa estrutura vai abaixo."

Essa supressão psicológica que pais procuram impor também foi necessária, no "plateau", para o resultado que o cineasta procurava no actores. Lanthimos conseguiu com esse controlo interpretações cujo efeito ganha, por vezes, contornos bressonianos. "O Robert Bresson é um dos meus realizadores preferidos. Existe uma ligação com ele pela forma como evito, a todos os níveis, uma maneira psicológica ou mental de trabalhar com os actores, ou qualquer tentativa de explicar e discutir os seus sentimentos. Dirijo-os de forma física, fazendo, exercícios e jogos com eles. "

Independentemente do que possamos ver nesta casa, algures ali dentro está também aquilo que é a natureza implícita do cinema: uma visão que vem do conhecimento adquirido de um autor, que nos propõe uma maneira de observar aquilo que nos rodeia. “A mecânica do cinema é essa: uma cãmara que grava coisas, a maneira como as vemos través dela... Tudo depende das pessoas que usam o meio”.

Se “Canino” nos mostra alguma coisa, é isto: não existe uma percepção correcta e uma percepção errada, não existe, porventura, nenhuma forma comprovada de ver ou de estar no mundo. “Temos de acreditar em tudo aquilo que nos disserem sobre coisas que não podemos, de facto, comprovar. Temos de acreditar no que certas pessoas nos dizem, e elas poderão estar enganadas sobre o assunto. Abre-se uma grande porta sobre as coisas que sabemos sobre o mundo. Serão verdadeiras as coisas em que acreditamos? Quem poderá dizê-lo?”, questiona Lanthimos.
Quando o portão da casa desta família se abre, é também para esse desconhecido que vamos.
Francisco Valente, Público


INCLUI DECLARAÇÕES DO REALIZADOR
Pode o mundo caber dentro de quatro paredes? No mundo de "Canino" sim. Imagine uma casa enorme, mas isolada por muros altos que as crianças nunca passaram, uma família em que os três filhos são crianças permanentes - mesmo que tenham, como têm no filme, 20 anos - e os pais inventam propositadamente novos significados às palavras - só para dar alguns exemplos, os aviões são brinquedos e os zombies pequenas flores amarelas. É assim que tudo começa: com um filho deslumbrado porque encontrou um par de "zombies" (amarelos) no jardim.

Estas são as premissas do filme do realizador grego Yorgos Lanthimos que arrecadou o galardão de melhor filme no Estoril Film Festival e o prémio "Un Certain Regard" no Festival de Cannes. Coisa rara para um grego? "Sim, sobretudo porque não podemos dizer simplesmente que o cinema grego é desconhecido. É pior: o cinema grego não existe", responde Yorgos Lanthimos, que aos 38 anos viu o seu terceiro filme ser premiado em vários festivais de cinema. "As ajudas chegam sempre aos realizadores com mais de 70. Tens de fazer tudo por tua conta, pedir aos actores que trabalhem de borla."

Em "Canino", tudo começa e acaba na ideia que lhe dá o título. Na família grega liderada por um homem de negócios de meia-idade e rico - e o único que tem contacto com o mundo exterior -, as crianças não são educadas: são treinadas a obedecer como cães. "É a história de uns pais que, por acharem que a noção de família está em perigo de extinção, resolvem criar um mundo que não existe dentro daquela casa", descreve o realizador, antes de entrar numa discussão difícil sobre se o sentido de "Kynodontas" (o título original, em grego) seria o mesmo do título traduzido para português.

O mundo cabe todo dentro daquelas paredes? Poderia caber, se não houvesse intrusos. A realidade além dos muros só entra naquela casa pelas mãos de uma personagem: Christina, a mulher contratada pelo pai para entrar na mansão de olhos vendados e servir as necessidades sexuais do filho.

Sátira ou drama?
Para proteger os filhos do mundo exterior, não bastava mudar as regras da casa, limitar as visitas a uma única mulher, impedir que se passasse a cerca ou que se visse na televisão outra coisa que não os filmes caseiros da família. "Se aquele mundo tinha regras diferentes, sendo a linguagem o principal veículo de comunicação, era essa a primeira mudança que deveria mostrar", explica Lanthimos.

O realizador fez um filme em que a segurança é uma obsessão ou paranóia, as crianças andam vendadas, a casa funciona como uma prisão. Mas apesar disso, os ambientes são luminosos, algumas cenas divertidas, a casa grande o suficiente para não a vermos como um espaço claustrofóbico. "Aparentemente tudo é belo e luminoso, para reproduzir a maneira como aquelas crianças imaginam a realidade. Só o fundo é escuro." "Canino" tem tanto de negro como de bizarro, de negro como de comédia, de drama como de bizarro. E Yorgos Lanthimos fê-lo propositadamente: "Quero que cada espectador faça a sua interpretação. Às vezes é negro, outras vezes satírico. Diria que é um filme sem género ou com vários géneros."

Admirador do cinema de Buñuel ou Bresson, Yorgos Lanthimos tem ouvido com frequência analogias entre o universo de " Canino" e os regimes totalitários. E apesar de o pilar ser a família, não nega que possa existir uma série de mensagens subentendidas. "Sobretudo queria mostrar como é fácil manipular a percepção que as pessoas têm das coisas e do mundo. Isso serve para uma família, para grupos sociais ou para um país."
Sílvia Caneco e Filipe Morais, Semanário I



Título Original: Kynodontas
Realização: Giorgos Lanthimos
Argumento: Efthymis Filippou, Giorgos Lanthimos
Interpretação: Christos Stergioglou, Michele Valley , Aggeliki Papoulia , Mary Tsoni, Christos Passalis , Anna Kalaitzidou
Direcção de Fotografia: Thimios Bakatakis
Montagem: Yorgos Mavropsaridis
Origem: Grécia
Ano de Estreia: 2009
Duração: 96’


a 1 semana da ANTE-ESTREIA de José e Pilar! (peça sobre o filme)

4ªf, dia 17 de Novembro, BIBLIOTECA MUNICIPAL, 21h30, presença do realizador!
Já comprou/reservou o seu bilhete? Na sede, ao lado da Zara, 3ªf, 4ªf e 6ªf das 10h30-12h30 e 14h30-17h30; na sessão de 2ªf dia 15 no IPJ, a partir das 21h30.

allgarve-museu-entrada livre-olha-que-bom!

Ciclo OLHARES FORASTEIROS - O Algarve num certo cinema
Museu Municipal (Sala Audiovisual r/c), 21h30, entrada livre

9 Novembro

O Moinho Branco de Cachopo
Jorge Murteira
Portugal, 2007, 25’
(apoio da Câmara Municipal de Tavira)

O Moinho Branco de Cachopo acompanha a reabilitação de um moinho da serra algarvia, retratando as técnicas tradicionais de construção e os que contribuiram para que as velas voltassem a rodar na aldeia.




O Grande Rio do Sul: Guadiana
Germano Vaz
Portugal, 1994, 58’

Wadi-Ana para os árabes, a Ribeira d'Odiana dos Alentejanos é o rio misterioso que os antigos não sabiam onde nascia e que Cervantes apelidou subterrâneo por desaparecer nas entranhas da terra durante o seu curso. A viagem entre a nascente e a foz - que muitas vezes parece apenas uma dura travessia de um cenário agreste - percorre lugares de uma beleza invulgar, pura e selvagem, chegando finalmente à sua larga bacia, que, entre Vila Real de Santo António e Ayamonte, parece poder albergar todas as serras e planícies por onde passou. Mas de tudo o que se passou e podia ainda aí passar sobra uma parcela diminuta: menos barcos, menos água , menos peixes, menos vida..."

O Grande Rio do Sul, é um documentário sobre todo o curso do Rio Guadiana, concebido e realizado pelo realizador Germano Vaz, entre os anos de 1987 e 1991. O ano de 1987 foi aquele em que os primeiros textos chegaram ás mãos dos dirigentes da Associação de Defesa do Património de Mértola, que à altura encararam sem receios nem demoras a possibilidade de apoiarem e subsidiarem a realização deste documentário e um conjunto de outros, importantes protagonistas das transformações de fundo que vieram a registar-se no sector português do Rio Guadiana, nos últimos 18 anos.


(filmes igualmente em exibição entre 10 e 30 Novembro em sistema de sessões contínuas entre as 10 e as 16h, mesmo local, entrada livre)





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as MUITO divertidas histórias de 6 realizadores romenos: castigar as ditaduras com sarcasmo. 2ªf, dia 8, IPJ, 21h30.



(sócios 2€, estudantes 3,5€, restantes 4€)

NOTA DE INTENÇÕES
O CONCEITO
Histórias da Idade de Ouro (site) propõe uma visão original e subjective do fim do comunismo na Roménia, através de histórias extraordinárias que aconteceram a pessoas normais. Nós, romenos, consideramos estes “mitos urbanos” histórias verdadeiras, transmitidas pela tradição oral. Estas histórias eram o tema principal de conversa nas longas filas provocadas pelo racionamento de comida. O humor permitiu aos romenos sobreviver e Histórias da Idade de Ouro procura recuperar esse espírito.

O projecto consistia em mergulhar com alguma nostalgia na época da nossa adolescência, nos anos 80, através da música, linguagem, objectos e estereótipos dessa época. O filme oferece o retrato de uma nação que tenta sobreviver ao dia-a-dia face à implacável lógica da ditadura, revelando na passagem aspectos cómicos de um sistema político que se leva demasiado a sério.

A ESTRUTURA
Histórias da Idade de Ouro é composto por histórias ligadas pelo ambiente da época e os detalhes históricos: o único carro que se via na rua era a versão local do Renault 12, o Dacia; só há duas horas de televisão; toda a gente rouba as reservas do Estado; a comida é mais importante que o dinheiro; é preciso obedecer ao Partido, mesmo se as ordem são perfeitamente ilógicas. Toda a gente usa uma máscara de lassidão e, no entanto, no fundo de cada um, todos estão vivos, e procuram amar e ser amados.

A ABORDAGEM ARTÍSTICA
Depois de uma projecção do 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, um espectador disse-me que achava que cada vez mais os realizadores faziam filmes para os festivais e não para o público. Perguntou-me se podia remediar isso. Decidi então abrir o projecto Histórias da Idade de Ouro a vários realizadores romenos na condição de terem idade suficiente para terem vivido naquele período. Escolhi as histórias, escrevi o argumento, participei nos vários castings e montagem dos vários filmes, de forma a que se tornasse um filme coerente e não uma acumulação de pontos de vista. Mas cada realizador podia guardar o seu livre-arbítrio e o seu estilo.

Histórias da Idade de Ouro inscreve-se, na minha opinião, na linhagem dos filmes italianos dos anos 60 e 70, filmes directos e divertidos. Tentei encontrar com este filme a alma popular do cinema.
Christian Mungiu




Mais um grande filme saído da Roménia, tutelado por Cristian Mungiu (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) que também produz e escreveu todos os episódios, realizando um deles e entregando os restantes a Hanno Höffer, Razvan Marculescu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru. Todos se passam nos últimos 15 anos da ditadura comunista de Ceausescu (a referência a uma “Idade de Ouro” no título é descomunalmente irónica).

Como a rir é que se castigam não só os costumes, como também os absurdos, os ridículos, as misérias, as mesquinhices e as prepotências do totalitarismo, todos os segmentos de Histórias da Idade de Ouro são cómicos, se bem que alguns deixem um aftertaste ácido. As histórias tratam de assuntos tão diversos como a passagem do Secretário-Geral do Partido Comunista por uma aldeola onde não há pombos brancos para largar e um carrocel a estragar a paisagem, o problemático retocar de uma fotografia de Ceausescu numa cerimónia oficial que vai sair no jornal, ou a matança de um porco trazido às escondidas da aldeia para um bloco de apartamentos de Bucareste – e que acaba por se transformar numa arma de destruição de alcance limitado.

Um filme que diz mais sobre o que significava viver o dia-a-dia sob uma ditadura de Leste do que muitos volumes especializados.
Sérgio Abranches, TimeOut



Hilariante. Escrito pelo vencedor da Palma de Ouro, Cristian Mungiu, que também realiza um dos segmentos, é um filme irresistível. Não só todas as partes são muito fortes, como o seu efeito cumulativo nos dá um retrato surreal da vida da Roménia nos anos 80.
Screen International

Histórias absurdas, surrealistas, que denunciam com humor negro a perversidade do regime e o fim do comunismo. Super divertido.
Le Figaroscope


Com ainda se pode rir do período mais dramático do regime de Ceausescu? Os romenos podem e valem...

Há meia dúzia de anos eram uma promessa, hoje já são uma certeza. Dantes eram cinema emergente agora já têm presença consolidada em festivais de todo o mundo e chegam às salas comerciais. Histórias da Idade de Ouro vem com a assinatura de Cristian Mungiu (ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1997, com 4 meses, 3 semanas e 2 dias), mas ainda não é o grande filme sequencial daquele que virou todas as atenções mundiais para o novo cinema romeno E o 4,3,2 é de facto, um filme extraordinário, com um apuradíssimo entrelaçamento formal e narrativo.

Mas não restam dúvida de que é novo este cinema, uma lufada de ar fresco no panorama europeu, a provar que os milagres existem, e que um cinema em estado comatoso, pode a qualquer momento despertar, vivo e a dar pontapés. Os realizadores nasceram na década de 60 e 70, e auto-intitulam-se a "geração dos filhos do decreto", porque foram fruto de um baby boom provocado por um decreto em que Ceausescu proibia abortos e não facilitava a contracepção.

No seguimento de Califórnia Dreamin', de Cristian Nemescu (prémio Un Certain Regard, em Cannes), ou de A Morte do Sr Lazarescu, de Cristi Puiu ou de 12:08 a Este de Bucareste, de Corneliu Porumboiu, chega-nos agora estas Histórias da Idade de Ouro (ante-estreou no Indie), seis curtas-metragens todas elas escritas e produzidas por Mungiu, uma filmada por ele, as restantes por novos autores (das suas respectivas filmografias só constam duas ou três curtas).

E só o título vem carregado de ironia. Os últimos 15 anos de Ceausescu foram considerados dos piores na história da Roménia, no entanto a máquina propaganda chamava-lhes "os anos de ouro". Nestas seis curtas, em que se retratam alguns mitos urbanos (histórias que se contavam como verdadeiras, e se non è vero, è ben trovato), os romenos voltam a mostrar que é possível rir-se de si próprios, mesmo quando viviam debaixo de um demencial totalitarismo à asiática.
É um humor de guerrilha, que ataca quando menos se espera, e investe nos locais mais improváveis. Ao revisitar um regime ainda tão quente na memória colectiva ( a revolução romena aconteceu em Dezembro de 89), os realizadores podiam mostrar a desgraça, a decadência, a demência - e fazem-no, só que não através do registo trágico (como Mungiu optara no seu 4, 3, 2) mas através da sátira, do riso, do escánio... E isto pode ser muito mais demolidar, e ter do mesmo modo um efeito denúncia.



No retrato do país daquele tempo em que "a comida era mais importante que o dinheiro, a liberdade mais importante que o amor e a sobrevivência mais importante que os princípios" - na história de um fotógrafo que tem de fazer os famosos photoshop, noutras duas que envolvem tráfico de garrafas de ovos, na do polícia ganancioso que leva para o seu exíguo apartamento um porco vivo, noutra de um diligente militante em campanha de alfabetização na Roménia, e no extraordinário caso de uma aldeia que se engalana para receber uma comitiva oficial - não é só o regime que sai caricaturado, mas os próprios romenos, vítimas sim, mas dotados de um chico-espertismo que parece não ser só propriedade nossa.

Quando os portugueses falam do regime de Salazar, não ousariam fazer comédias (ou talvez Fantasia Lusitana, de João Canijo tenha ido mais por esse lado, mostrando no seu documentário a tragicomédia de um país), pelo contrário salientam o sofrimento, a opressão, o penar dos perseguidos, a pobreza, a miséria... Os romenos também o fazem, mas com a enorme superioridade moral de saber gozar consigo próprios... Aliás, eles têm uma palavra para isto: "Râsu-plânsu". Em português seria qualquer coisa como "chorir" - se alguma vez nós nos tivéssemos lembrado de inventar uma palavra para "rir e chorar ao mesmo tempo", ou para "gozar com a própria desgraça". E para usar quando as coisas já estão tão mal, que já só vale a pena rir. E este enorme talento de rir de si próprios é ao mesmo tempo regenerador e catártico. Desassombradamente, sem a miopia da distância, nem o astigmatismo da proximidade.
Ana Margarida de Carvalho, Visão


Título Original: Amintiri Din Epoca de Aur
Realização: Ioana Uricaru, Hanno Höffer, Rãzvan Mãrculescu, Constantin Popescu, Cristian Mungiu
Argumento: Cristian Mungiu
Direcção de Fotografia: Oleg Mutu, Alex Sterian, Liviu Mãrghidan
Música: Hanno Höffer, Laco Jimi
Montagem: Dana Bunescu, Theodora Penciu, Ioana Uricaru
Interpretação: Diana Cavallioti, Radu Iacoban, Vlad Ivanov, Tania Popa, Liliana Mocanu, Alexandru Potocean,
Teodor Corban, Emanuel Parvu, Calin Chirila, Romeo Tudor, Avram Birau, Paul Dunca, Viorel Comanici, Ion Sapdaru
Origem: Roménia
Ano de Estreia: 2009
Duração: 155’



novembro-dezembro. no IPJ e não só. (novembro e dezembro é MUITO BOM)

(faremos depois post mais perfeitinho. por agora, a indicação dos filmes e suas sinopses)

SESSÕES ESPECIAIS

4ªf, dia 17 Novembro, 21h30, Biblioteca Municipal
Ante-Estreia de JOSÉ & PILAR

de Miguel Gonçalves Mendes, Portugal/Espanha/Brasil, 2010, 125’, M/12
Com o Alto Patrocínio do Governo Civil de Faro
PRESENÇA DO REALIZADOR

Documentário sobre a relação entre José Saramago e a sua mulher Pilar Del Rio, através do registo do dia-a-dia em Lanzarote e das suas viagens de trabalho pelo mundo. O filme relaciona o romance “A Viagem do Elefante” com a própria experiência do autor durante o processo de criação deste livro.


6ªf, dia 26 Novembro, 21h30, Grande Auditório de Gambelas
FILME DO DESASSOSSEGO

de João Botelho, Portugal, 2010, 104’, M/12
Co-Organização com a Reitoria da Universidade do Algarve
PRESENÇA DO REALIZADOR

O Livro do Desassossego é uma obra central da literatura portuguesa, das mais traduzidas a nível mundial, que chega agora ao cinema, dando corpo a Bernardo Soares, o quase-heterónimo que Pessoa criou para espelhar a sua vida diária em Lisboa, e às projecções que João Botelho construiu da cidade.







Ciclo NÃO HÁ LIBERDADE SEM LIBERTAÇÃO - IPJ - 21H30
com o apoio da Civis (Associação para o Aprofundamento da Cidadania)

NOVEMBRO

DIA 8
HISTÓRIAS DA IDADE DE OURO

de Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu, Ioana Uricaru, Roménia/França, 2009, 155’, M/12

Os últimos 15 anos do regime de Ceausescu foram os piores na história da Roménia. No entanto, a máquina de propaganda referiu-se a essa época como os anos de ouro... Mitos surpreendentes, cómicos, bizarros abundavam, mitos que derivavam de acontecimentos por vezes surreais do quotidiano sob o regime comunista. O humor fez com que os romenos sobrevivessem e este filme tenta encontrar esse espírito. O filme combina várias histórias verdadeiras para retratar uma era em que a comida era mais importante que o dinheiro, a liberdade mais importante que o amor e a sobrevivência mais importante que os princípios.

DIA 15
CANINO

de Yorgos Lanthinos, Grécia, 2009, 94’, M/18

O pai, a mãe e os três filhos vivem numa casa nos subúrbios da cidade. À volta dela, existe uma cerca alta que as crianças nunca passaram. São educadas, entretidas e exercitadas pelos pais, sem qualquer influência do exterior. Acreditam que os aviões são brinquedos e que os zombies são pequenas flores amarelas. Uma alegoria sobre o funcionamento das ditaduras.
Prémio Un Certain Regard em Cannes e Grande Prémio do Estoril Film Festival.

DIA 22
IRÈNE

de Alain Cavalier, França, 2009, 83’, M/12

Para Alain Cavalier, que começou como assistente de Louis Malle e depois dirigiu Alain Delon, Catherine Deneuve ou Romy Schneider, a grande máquina do cinema tornou-se coisa morta: filma sozinho, só ele e a câmara, colada à vida das memórias da sua falecida mulher.

DIA 29
VÃO-ME BUSCAR ALECRIM

de Joshua e Ben Safdie, EUA/ França, 2009, 100’, M/12

Um homem irrequieto, dois miúdos reguilas e uma cidade acordada. De olhos bem abertos para a Nova Iorque de Vão-me Buscar Alecrim, o filme autobiográfico dos Irmãos Safdie.
Grande Prémio Indie Lisboa 2010.


DEZEMBRO

DIA 6
EMBARGO

de António Ferreira, Portugal, 2010, 93’, M/12

Nuno trabalha numa roulotte mas desde sempre teve um espírito criativo. Um dia, descobre algo realmente revolucionário: um digitalizador de pés que transformará, para sempre, toda a indústria do calçado. Mas, quando tudo parece estar a jogar a seu favor, o inesperado acontece: fica fechado no seu próprio carro e, para seu total desespero, parece que nada, nem ninguém consegue resolver o problema.
Adaptação de um conto de José Saramago, integrado no livro "Objecto Quase", publicado em 1978.

DIA 13
PUNK IS NOT DADDY

de Edgar Pêra, Portugal, 2010, 70’

PUNK IS NOT DADDY é uma viagem pelos anos oitenta, testemunhada por um cineasta neófito. Cine-diários das Ruínas do Chiado, rodagens, concertos dos GNR, Xutos e Pontapés, Sétima Legião, Delfins, o último ensaio dos Heróis do Mar, o anti-concerto de encerramento do Rock Rendez Vous.
Finalmente, arte em liberdade.

de 24 a 31, Festa do Cinema Francês. 14 sessões. 1 grátis. As outras a 3€. Passe para todas por 10€ (menores de 30 anos) e 20€

DE QUE É QUE ESTÃO À ESPERA????

Fui lá hoje - Teatro Municipal de Faro, já todos sabem, não é? - comprar os meus bilhetes (vou a 5 sessões) e aquilo (ainda) ESTÁ ÀS MOSCAS!!!!!

Ouçam:

ABRE COM O ÚLTIMO FILME DO JEUNET!! Sabem, aquele?... esse mesmo, o de Delicatessen? E É À BORLAAAAAAAAA! MICAMACS À TIRE LARIGOT (domingo, 24, 21h30):



E logo no 2º dia O MELHOR FILME DE TODOS, O MAIS AGUARDADO - mais propriamente, desde há... 7 anos!! - do ESPANTOSO criador de animação Sylvain Chomet, o de La Vieille Dame et Les Pigeons (curta) e da estrondosa longa Les Triplettes de Belleville/Belleville Rendez-Vous. Agora, finalmente, numa adaptação de um argumento nunca realizado de Jacques Tati, que Chomet homenageia figurando o Mr Hulot, L'ILLUSIONISTE (2ª, 25, 19h):



Na 4ª, 27, também às 19h, ELLE S'APPELLE SABINE, o documentário que a actriz Sandrine Bonnaire - 'madrinha' desta 11ª edição da Festa do Cinema Francês, que lhe dedica um ciclo do qual poderemos ver em Faro Mademoiselle e Sans toi, ni loi - fez da sua irmã autista, Sabine, recorrendo a imagens recolhidas ao longo de 25 anos. Comovente, claro está, e importante, como mensagem-testemunho do nosso desconforto (nosso, o da sociedade) em lidar com a diferença absoluta como no caso deste distúrbio.



Aceitem estas como sugestões minhas. Mas, aceitando-as ou optando por outros filmes, vão. Bom cinema, para além daquele que o CCF dá, não abunda pelas nossas bandas.

Certo? Certo.


2ªf dia 18 termina o nosso ciclo. e muito bem: EU SOU O AMOR. IPJ, 21h30.


Tilda Swinton é sublime num filme gloriosamente operático que reinventa o melodrama clássico e a saga familiar para um tempo em que eles já não existem.

Atente-se na "chave" que dá título a este grandíssimo filme: Maria Callas, ela própria, interpretando a ária da "Mamma Morta" de Giordano, na banda-sonora do "Filadélfia" de Jonathan Demme, que Tilda Swinton vê uma noite na cama à beira de adormecer, antes de o marido chegar e mudar de canal sem sequer lhe perguntar o que está a ver. A frase que Callas canta é "Io sono l'amore" - "eu sou o amor" - e é nesse momento em que o marido a ignora como mera presença utilitária que a divina, gloriosa Tilda toma perfeita consciência do seu papel na poderosa família milanesa. Ela é a verdadeira "mamma morta" (aliás, mais tarde, alguém lhe dirá "tu não existes"), até o amor lhe cair do céu, numa noite de Inverno, na pessoa de um visitante inesperado que nem sequer fica para tomar café.

É complicado explicar o que se passa em "Eu Sou o Amor" sem correr o risco de menorizar a terceira ficção de Luca Guadagnino, porque o que eleva o filme ao estatuto de obra-prima é a abordagem operática, virtuosa, formalista, estilizada, hiper-romântica e pós-modernista com que o cineasta siciliano encara o melodrama clássico e a saga familiar, o modo como ele instala no classicismo do género um corpo estranho através de Tilda Swinton. Vamos, ainda assim, tentar: conhecemos os Recchi, poderosa família industrial milanesa, à volta da mesa do jantar de aniversário do patriarca, que acaba de decidir deixar o negócio de família ao filho e ao neto. Nesse jantar que respira um travo de passado glorioso, de aristocracia fora-de-tempo, percebemos também o papel que as mulheres nele desempenham: Rori, a matriarca, fiel guardiã da tradição familiar; Betta, a neta, de temperamento artístico, que começa a sentir-se limitada pelas expectativas da família; e Emma, a mulher do filho, a anfitriã perfeita, uma mulher discreta que aceitou representar o papel que lhe foi distribuído. Mas que, muito rapidamente, compreendemos que não lhe chega.


Emma é, evidentemente, Tilda Swinton, e a sua presença introduz o pauzinho na engrenagem da saga familiar; é o tal "corpo estranho" de que falávamos - não apenas pela sua personagem ser uma "intrusa" que, aceite pela família, nunca se sentiu inteiramente parte dela, mas também porque a presença física da actriz, pálida, alta, observadora, cria um contraste, lança um desequilíbrio, introduz uma nota de dissonância no conforto luxuoso que a rodeia. Esse contraste é depois amplificado pelas cenas de exteriores rurais onde se desenrola o "affaire" de Emma, de uma sensualidade exacerbada que se opõe à rigidez estruturada do palacete dos Recchi. Guadagnino mantém essa emoção a borbulhar subterraneamente durante todo o filme (sabiamente sublinhada pela música do compositor minimal John Adams), para apenas a deixar sair em momentos judiciosamente escolhidos, como uma panela de pressão que já quase não consegue aguentar a tensão.

É inevitável pensarmos em mestre Visconti (há um travo de "O Leopardo" a passar por aqui, um fôlego de grande ópera italiana) ou em mestre Sirk (a transcendência da história banal através da encenação arrebatada e gloriosa), mas o que é notável em "Eu Sou o Amor" é que Guadagnino consegue marcar a distância dos mestres, criar o seu próprio modo de os actualizar e modernizar, sem medo de correr riscos e sem se retrair para não parecer ambicioso. Fá-lo com a preciosa ajuda da divina Tilda, a comprovar como é uma das maiores actrizes contemporâneas, e de um elenco impecável onde encontramos o actor e encenador Pippo Delbono e os veteranos Gabriele Ferzetti e Marisa Berenson (é impossível não recordar "Morte em Veneza"...), como quem sublinha que a estrutura rígida do melodrama exige o tal corpo estranho para rebentar por todos os lados e construir algo de novo que se insere numa tradição e a reinventa sem pruridos.

"Eu Sou o Amor" é uma obra-prima.
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Jorge Mourinha, Público


Não é Visconti quem quer e o milagre de "Sentimento", disseminando o pathos operático pela História e pela complexidade romanesca, não se repete facilmente, de tal modo reflecte uma visão fascinante e irrepetível do mundo. E, no entanto, "Eu Sou o Amor" entendeu a lição do mestre e não se limita a repetir estereótipos decadentistas e neo-barrocos, com a saga familiar de "O Leopardo" em mente, a voz magoada e langorosa de Maria Callas nos ouvidos, e o grande melodrama cinematográfico no olhar - de Visconti a Stahl ou Douglas Sirk, passando pelo quase sempre esquecido De Sica de "O Jardim dos Finzi-Contini", adaptado de Giorgio Bassani, uma referência literária tão incontornável em Luca Guadagnino como Lampedusa. O que faz deste filme uma sedutora revisão (é a palavra) da tradição melodramática é a sua improbabilidade narrativa, a noção da passagem do tempo, da inutilidade do "pastiche". "Eu Sou o Amor" faz todo o sentido, porque sabe que já aparece fora de moda, que se dirige a um paradigma morto, que se compraz num fim de mundo em que tudo mudou e nada muda. Por isso, Tilda Swinton se revela tão magnífica na contradição de uma personagem impossível, presa a uma sensualidade feita de esplendorosas ruínas fílmicas. Como diz David Thompson de "Amar Foi a Minha Perdição" de John M. Stahl, é um filme para se ver em estado febril e, acrescentamos, em melancólico êxtase. De outro modo, arriscamo-nos a uma reacção racional que "Eu Sou o Amor" não comporta.
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Mário Jorge Torres, Público


Eu sou o Amor é um banquete da aristocracia milanesa, daqueles que anos depois ainda se pensa: comi tão bem naquele dia. Àqueles que se perguntam, por onde tem andado o cinema italiano de Rosselini e Visconti, de que nem Moretti nem Benigni são sucessores, aqui têm uma boa resposta. Eu sou o amor é um filme eminentemente viscontiniano, a começar pelo ambiente aristocrata em que a história se desenlaça e a acabar pelo magistral domínio do movimento da câmara de Luca Gudagnino. É um filme de uma sumptuosidade rara, com a espessura psicológica de um romance clássico russo e a temática universal do amor. Sobretudo da explicação de um amor impossível e impassível perante as atrocidades da vida. Tilda Swinton (O curioso caso de Benjamin Button), que faz de russa que se casou com um aristocrata rico, cumpre um dos melhores papéis da sua carreira. O realizador já lhe tinha dedicado o documentário The Love Factory (2002), e aqui fá-la brilhar, inclusive quando a actriz inglesa finge que não sabe inglês. O percurso da personagem é de tal forma rico, que esta começa no pomposo e luxuoso almoço de família no seu palacete em Milão e acaba nua numa gruta na estrada de San Remo. A ascensão e queda dos Recchi.
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Manuel Halpern, Visão


Título Original: Io sono l'amore
Realização: Luca Guadagnino
Argumento: Luca Guadagnino, Barbara Alberti, Ivan Cotroneo e Walter Fasano
Direcção de Fotografia: Yorick Le Saux
Montagem: Walter Fasano
Música: John Adams
Interpretação: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Alba Rohrwacher,
Pippo Delbono, Diane Fleri, Maria Paiato, Marisa Berenson
Origem: Itália
Ano: 2009
Duração: 120’
Classificação: M/12



só mesmo nós para poder mostrar este filme: COMPRÁMO-LO! uma obra feita de trabalho artístico sobre a LUZ. aqui, bem aqui na nossa Ria Formosa.

Ciclo OLHARES FORASTEIROS - O Algarve num certo cinema

Museu Municipal (Sala audiovisual da Exposição Algarve Excêntrico, Utópico e Visionário, no r/c), 21h30, entrada livre

3ªf, Dia 12
NAS CORRENTES DE LUZ DA RIA FORMOSA

Jon Jost
EUA, 1999, 104'

(filme igualmente em exibição, no mesmo local, entre 13 e 31 Outubro, em sistema de sessões contínuas entre as 10 e as 16h, entrada livre)
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A purely visual documentary of a small beach and fishing village on the coast of Portugal's Algarve.
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site do realizador. aconselhamos! afinal, trata-se de um dos mais importantes documentaristas e artistas da actualidade!
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DECLARAÇÕES DO REALIZADOR
Nas Correntes de Luz da Ria Formosa (In the Rays of Light of Ria Formosa) is a kind of documentary shot over a period of 3 months in summer of 1997 and then edited over the next 2 and a half years. It utilizes the aesthetic nature of DV, and in this case of the particular quality of a specific DV camera, the SONY DX700, a camera which was withdrawn from the market quickly owing to apparent complaints about its focusing system. LUZ willfully uses this “problem” as the basis of its aesthetic: it is all a little to very much out of focus, which with this camera also produces a kind of aura or bloom in areas with brighter light. I liked this quality very much and shot about 12 hours of material in the small town of Cabanas, Portugal, and a bit in nearby Tavira. The work is a spiritual portrait of a place and time. It is, as is Cabanas, willfully slow, meditative, passive. It has no evident narrative, though I hope I was able in my editing and other choices to impart a kind of slowly developing momentum which functions vaguely like a narrative, or like the melodic line in a piece of music. Finally LUZ is about light, and philosophically about life, and our place on this planet, and its place in the universe.



Nas Correntes de Luz Ria Formosa is a tour de force in which Jost employs a defective camera for a sublimely distracted variation on the city symphony film. The defective camera yields a range of out-of-focus images which emerge in the film as semi-abstract landscapes with blurred lines and edges. The images look more like paintings than photos, although movement, sound, a sense of off-screen space, and the sensation of stray, suspended moments in time contribute to a multi-dimensional effect that seems to transcend both painting and photography. Human figures pass through some of the images, but they play only transient and marginal roles in the overall narrative. The scenes and shots are evocative of city life, but with soft outlines that suggest settings of an entirely different sort. The implied author of these images seems caught up in a distracted gaze, one that is both averted and diverted – turning away from both the familiar and the dramatic, and finding a curious kind of peace in a sort of domesticated strangeness.
Peter Hogue (totalidade do artigo, com análise da filmografia do realizador)



1997-1999 Digital Video Color Sound 112 minutes

Camera, edit, and concept : Jon Jost

Music: Carlos Paredes, guitar, very much altered on computer.

Shown at Rotterdam 1999, Festival dei Popoli, Florence


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História do filme, pelo próprio:

«Querida Clarinha,

(...) Nós ficámos o Inverno em Londres, e no fim da Primavera fomos um mês para a Escócia onde efectuei pesquisa sobre um filme e fui convidado a fazer uma exposição de arte na Alemanha, a Dokumenta. Nesse Verão em 1995, regressei a Portugal, passando um mês ou mais em Cabanas, mudando-me depois para Lisboa, onde a tua mãe continuou a trabalhar no argumento do seu filme. Honestamente não me lembro bem da ordem das coisas nesta altura, mas creio que a tua mãe e eu ficámos um mês em 1996 em Cabanas onde filmei o meu primeiro filme em DV, Nas Correntes de Luz da Ria Formosa, e nesta altura a tua mãe ficou grávida de ti. Lembro-me de comprar um teste de gravidez para ela verificar, e de ver a pequena faixa de papel vermelha transformar-se em azul. E lembro-me de nós os dois em conjunto gritarmos: yes! Mudou as nossas vidas, e acrescentou a tua. Mudámo-nos então para Lisboa, para morar num sitio encantador em Alfama, com um largo pátio onde eu pintava e Teresa trabalhava ainda em Os Mutantes [sim: Teresa Villaverde]. Passei muitas horas a passear e filmar na área enquanto aguardava a tua chegada. Só agora, este ano, edito o material que filmei nesse ano, um retrato de um pequena parcela de Lisboa, no ano do teu nascimento. Espero terminar no fim deste ano esse trabalho, em conjunto com outro, Piccolli Miracoli, sobre ti e mim, a tua vinda a este mundo e os outros 3 anos e meio que estivemos juntos. Espero de facto terminá-lo neste ano. (...)

Amo-te
O teu pai, Jon»

(na íntegra aqui)

(jon jost tem, assim, um blog dedicado à filha: páginas para clara - letters to my daughter)


Last Tango in Paris

Last Tango in Paris

O mais fascinante, interpelativo, inteligente e original filme estreado em 2010: SHIRIN de Kiarostami. 2ªf, dia 11, 21h30, IPJ

Cento e catorze actrizes iranianas e uma actriz francesa: espectadoras mudas da representação teatral Khosrow e Shirin, um poema persa do século XII, encenado por Kiarostami. O desenvolvimento do texto – que sempre apaixonou os espectadores na Pérsia e no Médio Oriente – permanece invisível para o espectador do filme. Toda a história é contada pelos rostos intensos e belos das mulheres que assistem ao espectáculo. Um mapa de ricas e pungentes emoções. É um trabalho “fora de campo” levado ao limite.


Homenagem absoluta ao rosto feminino: um fascinante exercício do cineasta iraniano.
O que interessa Kiarostami são unicamente as mulheres. Elas constituem um retrato composto de Shirin. Mas são ao mesmo tempo um manifesto político. Uma tal acumulação de rostos femininos tem qualquer coisa de subversivo num país tão patriarcal como o Irão. Mas o que mais nos interessa é o mistério destes olhares, que acabam por nos criar uma vertigem. Este filme tem algo de profundamente perturbador: estas mulheres não são apenas o retrato colectivo de uma história de amor, e por isso da mulher iraniana em todo o seu esplendor heróico, e erótico, mas o retrato também do espectador de cinema em geral. O espectador é o realizador último do filme, são os seus olhos que o fazem existir. Sublime demonstração do cineasta iraniano.
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Vincent Ostria, Les Inrockuptibles

É este o convite de "Shirin": espectadores de cinema, venham ver outros espectadores de cinema. Que é feito de nós, espectadores de cinema? E lembramo-nos do que dizia Serge Daney, que vamos ao cinema para que o filme nos veja? Em primeiro lugar, "Shirin" é isto: um olhar - apetece dizer: "elegíaco" - sobre essa espécie que todos os relatórios dão como estando em vias de extinção, o espectador de cinema; e um filme que se põe no lugar do filme, como um plano subjectivo do próprio ecrã, no momento em que olha para os seus espectadores. Por outras palavras, é este o convite de "Shirin": espectadores de cinema, venham ver outros espectadores de cinema. É um resumo muito simples do filme? É. Mas é importante preservar essa simplicidade, porque também é dela que Kiarostami está à procura.

Olhos nos olhos, ou quase; questão de ângulos, a câmara deambula perante a plateia, em movimentos laterais, mas é raro que apanhe alguém a olhar directamente para ela, antes um pouco mais para o lado ou um pouco mais para cima, para o lugar do suposto écrã, onde está ser exibido um suposto filme baseado numa velha lenda persa sobre um amor de perdição (é a heroína dessa lenda, Shirin, que dá nome ao filme). O efeito especular não é, em rigor, total, mas a sua sugestão é fortíssima - e é por isso que a sua dinâmica conceptual pede que o filme seja visto em sala de cinema, em situação "clássica", pesem embora todas as vezes em que já lemos essa mesma dinâmica conceptual de "Shirin" ser comparada a uma "instalação", assim menorizando o sentido que o filme faz em condições tradicionais de recepção (sentido que, parece-nos, só nestas condições é pleno).


Isto é o geral, passemos aos pormenores, sobretudo a este, fundamental: a plateia é composta essencialmente por mulheres, cento e tal actrizes iranianas de todas as idades, no meio das quais Kiarostami sentou ainda a bem conhecida Juliette Binoche - e o efeito de reconhecimento de cada vez que ela aparece em campo é estranho, quase uma interrupção da "suspension of disbelief" ou coisa parecida, mas nada nos garante que Kiarostami não a convidou justamente em busca desse efeito. No seu segmento para o "A Cada um o seu Cinema" (o filme de conjunto promovido pelo Festival de Cannes) Kiarostami já ensaiara o caminho de "Shirin", e há uma sequência parecida com este dispositivo (usando, no caso, uma representação de teatro Nô) no "Pont des Arts" do tão vilipendiado Eugène Green. Não é, evidentemente, a "originalidade" que é importante, mas a sua transformação numa experiência contemplativa de fundo, que progressivamente converte a sua simplicidade poética numa crescente ambiguidade - "Shirin" é um filme sobre o rosto feminino, feito numa sociedade islâmica teocrática - e num novelo artificioso que no fundo é o mesmo de todos os filmes de Kiarostami. Contrariamente às evidências, as mulheres não estão a ver filme nenhum, nem é seguro que estejam a ouvir o que nós ouvimos (o som e os diálogos do suposto filme): olhamos para elas sem saber o que é "reacção" e o que é "representação", o que é "espontâneo" e o que é "encenação". Razão para suspeitar, ou mais do que isso, para afirmar, que "Shirin" é a mais sofisticada "mise-en-scène" do olhar que alguma vez alguém fez. Seguramente, a mais bela.
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Luís Miguel Oliveira, Público


Nunca se poderia imaginar que um só rosto de mulher, mudo, parado,simplesmente a olhar, pudesse conter em si tanta acção. Nunca se poderia imaginar que uma lágrima a extravasar de um olho e a percorrer uma face fosse todo um ensaio sobre a nostalgia feminina. Nunca se poderia imaginar que Abbas Kiarostami, o genial realizador iraniano, fizesse do seu filme Shirin este ensaio de homenagem às mulheres, colocando seus rostos na mais imaculada das visibilidades, num país em que muitas vezes andam vendados de censura e prepotência. E que as colocasse em primeiro plano, quando as conjunturas patriarcais e cruéis da religião as arredam lá para trás. Na humilhação das retaguardas.

É um filme de "fora de campo". Algo que já foi feito por Bergman, quando filmou as caras de quem assistia à ópera mas não a ópera em si. Ou mesmo por João César Monteiro quando colocou o célebre casaco em cima da câmara, em Branca de Neve - mas no caso de Kiarostami sem um pingo de provocação ou de intenção experimentalista. Uma actriz francesa (Julliette Binoche)e 114 actrizes iranianas, com belos olhos oblíquos (Machado de Assis chamar-lhes-ia "olhos de ressaca", com os de Capitu), magnificamente debruados por sobrancelhas que traçam aquele arco perfeito (como só têm as mulheres orientais), assistem na obscuridade da sala de cinema a um filme. Que é uma história de amor, de Shirin, uma princesa arménia enamorada pelo rei da Pérsia- poema persa do século XII, uma história tão famosa e matricial no Médio Oriente como o Romeu e Julieta para a cultura ocidental. Nós ouvimos a acção do filme a decorrer, os diálogos, as batalhas, tilintares, risos, prantos, cascos de cavalo, relinchares, arfares, música, restolhares de água, ondas, pingos ou as espadas a cravarem-se nas carnes. Mas todas as emoções são-nos dadas através das expressões (sobretudo dos olhos) destas mulheres que assistem. É uma espécie de transferência, como se fossemos atacados por um género de cegueira especial e nos estivessem a fazer uma tradução em simultâneo das paixões da alma através de uma linguagem não verbal. Que é esta dos olhos e das suas nuances e metamorfoses, e das suas águas que se esgueiram devagar e escorrem pela face, dos pequenos esgares, dos mínimos movimentos destas sobrancelhas perfeitas, dos sobressaltos, dos sorrisos nunca abertos, nunca desbragados, nunca sonoros e daquele subtil ajeitar do lenço, gesto lesto e tão típico das mulheres islâmicas. As mãos também fazem parte dos rostos, quando repousam no queiXo ou deslizam pela zona da testa. Também há homens nesta plateia, mas Kiarostami retira-os do enquadramento, corta-lhes a cabeça, só para mostrar a irrelevância da sua presença.

Alguns rostos são maravilhosos. A iluminação é extraordinária, às vezes parece que as actrizes têm aqueles véus de gaze que se usava na objectiva para dar um ar mais etéreo às estrelas e esconder as imperfeições e outras injúrias nos close ups, nos tempos do cinema mudo. O é importante é invisível aos olhos, diz uma frase famosa. Mas o que é importante pode ser visível no fundo destes rostos, canais directos para alma e o coração. E o fora de campo torna-se dentro outra vez através destes olhos que em vez de pupila preta têm o lampejo de brilho projectado pela tela. Através da banda sonora formam-se as imagens, criam-se em cada um de nós os protagonistas que dizem frases como "o amor aquece os homens as mulheres queimam-se". E neste efeito espelho, neste voieurismo sobre o voieurismo há um abismo sem margens, só com precipícios.
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Ana Margarida de Carvalho, Visão



sobre Abbas Kiarostami

“Numa sala de espectáculos, a arte sai dos espectadores” Henri Langlois

Era uma vez uma princesa. Tão bela, tão livre, tão disposta a seguir o seu desejo. Foi amada por um rei, Khosrow, e um trabalhador, Farhad. Amou um e outro. Foi infeliz e sincera, livre e destroçada. Chamava-se Shirin, a sua história é inspirada em personagens reais – o rei Khosrow II Parwiz (590-628) e a rainha da Arménia que deu nome a uma cidade hoje entre o Irão e o Iraque, Qasr-eChirin. Os amores de Shirin foram cantados pelo grade poema épico persa O Livro dos Reis, e depois, no século XII, o poeta Nezâmi dedicou à história sensual e trágica a sua obra Khosrow e Shirin, tornando-a tão célebre no Irão como na Europa o são Romeu e Julieta e Tristão e Isolda.

Era uma vez um artista de cinema. Explorou até aos confins a sua arte. E, no início da sua carreira, Abbas Kiarostami definia-se como artista e pedagogo e por isso descobriu muito cedo que a arte do cinema podia ajudar a compreender melhor o mundo e a fazê-lo compreender melhor. Realizou curtas-metragens que mostram práticas do quotidiano (Duas Soluções para um problema, Com ou sem ordem), e foi, enquanto cineasta, testemunha precisa da Revolução iraniana, como nenhuma outra revolução terá cronista, foi testemunha e analista (Caso 1, Caso 2), estudou, sempre graças à realização, os sistemas de ensino (Trabalhos de Casa) e de justiça (Close-Up) ou os comportamentos cívicos (O Concidadão). Havia nestes trabalhos de pesquisa mais beleza e graça que em tantos filmes auto-proclamados obras de arte, e sobretudo esta beleza e esta elegância afiguravam-se como os meios necessários para cumprir a
tarefa. Desde o início (O Pão e a Rua, a primeira curta-metragem, Traje de Casamento, a primeira média, à primeira longa-metragem, O Viajante), os filmes de ficção têm também esta marca desta forma de ver o mundo, sabendo filmá-lo com elegância.


Kiarostami afirma há muito tempo que nenhuma obra digna desse nome é dada terminada ao público, que assim seria reduzido ao estatuto único de consumidor, mas sim que só teria sentido se permanecesse aberta, para ser terminada por cada um. É no olhar e no coração dos espectadores que a obra fica terminada e que a sua tarefa é abrir apenas o mais possível o espaço em que cada um pode entrar. Não foi o primeiro a dizê-lo e a colocá-lo nas suas obras, mas são raros os que o tenham feito com tanta consistência e talento. Mas é o primeiro a empurrar esta lógica de inteligência na arte ao limite, filmando os espectadores para mostrar como os rostos e os corpos manifestam o que experimenta o espírito e os corações devante uma proposta artística. A primeira tradução concreta desta inversão foi o espectáculo Tazieh, em que Kiarostami filma em grande plano e mostra em grandes ecrãs os rostos (separados) de homens e mulheres que assistem, comovidos, a uma representação de uma peça religiosa que comemora todos os anos no Irão o massacre de Kerbala.

Belo como a paixão de Joana d’Arc de Dreyer, e constitui-se sobre o mesmo princípio, toda a emoção se joga nos rostos.
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Jean-Michel Frodon



Título original: Shirin
Realização: Abbas Kiarostami
Direcção de Fotografia: Mahmoud Kalari
Montagem: Abbas Kiarostami, Arash Sadeghi
Interpretação: Mahnaz Afshar, Pegah Ahangarani, Taraneh Alidoosti, Juliette Binoche...
Origem: Irão
Ano: 2008
Duração: 92’
Classificação: M/12


Óscar de Melhor Filme Estrangeiro - O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é 2ªf dia 4 no IPJ. 21h30.



O vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro é uma pequena surpresa - um filme "mainstream" como Hollywood já deixou de saber fazer há muito tempo.

Há um problema muito sério a encimar qualquer abordagem a "O Segredo dos Seus Olhos": foi a este o filme que a Academia de Artes e Ciências de Hollywood atribuiu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, no ano em que concorriam à estatueta "Um Profeta", de Jacques Audiard, e "O Laço Branco", de Michael Haneke. Como é possível, perguntar-se-ão os mais atentos, que dois dos mais extraordinários filmes europeus recentes, entre eles uma Palma de Ouro em Cannes, tenham sido negligenciados em favor de um filme argentino que vinha apenas com a reputação de ser o maior êxito comercial da história do cinema local?


Obviamente, tal "escândalo" só o é se partirmos do princípio de que os Oscares premeiam a qualidade acima de tudo o resto - coisa que já por repetidas vezes compreendemos não ser verdade. Mas este é um caso em que vale a pena deixar de lado os preconceitos. Mesmo se assumirmos que o Oscar foi roubado a "Um Profeta" ou a "O Laço Branco", "O Segredo dos Seus Olhos" é uma pequena surpresa. Primeiro, pela elegância e pela inteligência com que abrange e entrelaça géneros muito diferentes (o melodrama romântico, o filme policial, o "thriller" político) num todo plenamente satisfatório. Segundo (e principalmente), pelo facto de este ser um filme exemplar de um tipo de cinema "mainstream" inteligente, adulto, sóbrio, que Hollywood produzia em tempos desembaraçadamente mas que hoje abandonou por completo. Este podia perfeitamente ser um dos "thrillers" liberais dos anos 70, dirigidos por gente como Alan J. Pakula ou Sydney Pollack - e, nem por acaso, o filme passa-se de facto nos anos 70, na transição da Argentina liberal para a época peronista da repressão política e dos "desaparecidos", só que vistos a 30 anos de distância, pelos olhos de um antigo investigador judicial que recorda o crime que mudou a sua carreira e decide escrever um romance nele inspirado.

Oscilando entre o presente em que Benjamín recorda e o passado em que procura resolver quem violou e matou uma jovem na sua própria casa, Juan José Campanella constrói um elaborado quebra-cabeças onde a história se desenrola em três tabuleiros simultâneos. O mistério policial clássico com laivos de film noir, com o investigador no papel do "incorruptível" desencantado metido em cavalarias demasiado altas, desdobra-se ao mesmo tempo no melodrama de amores desencontrados que dá ao filme o seu centro emocional, e nas discretas alusões políticas que lhe dão um aroma simultaneamente histórico e claustrofóbico. Os acontecimentos de um nível reflectem-se nos outros de modos distintos mas constantes, com Campanella a não fazer mais do que uma adequadíssima gestão dos vários níveis em função do que a história lhe pede e do que o espectador precisa de saber.


Mais do que um "autor" como Audiard ou Haneke (as únicas notas de autor que se podem sentir em "O Segredo dos Seus Olhos" acabam por minimizá-lo: os planos "descentrados" algo óbvios e a única sequência de acção do filme, um longo plano-sequência trucado com câmara à mão que parece ter sido enxertado de um outro filme), Campanella está aqui do lado dos grandes funcionários de Hollywood que se moldavam àquilo que o filme lhes pedia e, no processo, construiram um modo de pensar o cinema com inteligência e lealdade que se perdeu completamente. "O Segredo dos Seus Olhos" não será a obra-prima que o Oscar faria pensar. Mas é, por onde se quiser ver, um exemplo de um cinema "mainstream" que não toma o espectador por parvo e que anda a fazer demasiada falta. Se o Oscar levar as pessoas a vê-lo, já não se terá perdido tudo.
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Jorge Mourinha, Público



Quando O Segredo dos Seus Olhos conquistou o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, em Março deste ano, muita gente torceu o nariz em reprovação e/ou desconfiança pela escolha da Academia. Eu, admito, fui um deles. Não apenas como ‘adivinhador’ dos vencedores, como todos somos um pouco, mas acima de tudo como forte defensor de O Laço Branco que era e sou. A surpresa foi, portanto, compreensível, apesar de ter alertado, na minha antevisão desta categoria, para a possibilidade da Academia ir contra as expectativas. A verdade é que O Segredo dos Seus Olhos venceu mesmo e deixou a dúvida no ar, em todos aqueles que não haviam visto o filme, se havia ‘merecido’ ou não. Dois meses e pouco depois estreia finalmente em Portugal e essa dúvida pode ser tirada: a resposta é sim.

É sim por várias razões, mas a principal é o facto de ser um filme capaz de transmitir mil e uma coisas, de colocar na mesma tela, na mesma cena até, o melhor e o pior do que significa ser humano. Examinando e desconstruindo os conceitos de justiça e vingança, no seu significado mais lato versus a sua verdadeira natureza, o filme centra-se na figura de Benjamin Esposito (Ricardo Darín), um federal de justiça de Buenos Aires reformado, ainda assombrado por um caso por resolver, ocorrido 25 anos antes, em 1974. Ao decidir escrever um romance baseado nesse caso (em que uma jovem de 23 anos havia sido brutalmente violada e assassinada), Esposito depara-se com a necessidade de tentar resolver o caso uma última vez, ao mesmo tempo que redescobre o seu amor por uma mulher (Soledad Villamil) a quem nunca revelou os seus verdadeiros sentimentos.


Construído como thriller-crime convencional, contado através de flashbacks, O Segredo dos Seus Olhos é, efectivamente, um mistério cuja força propulsora se concentra no puzzle que se vai formando e na necessidade de descobrir o que, e como aconteceu. Mas essa é apenas a primeira de várias camadas de um filme complexo e exigente; debaixo dela escondem-se muitas mais. Como nos grandes filmes da era noir do cinema americano, o crime funciona como o elemento mais visível, escondendo-se atrás dele uma belíssima, mas subtil história de amor, um estudo sobre a memória, um olhar sobre a sociedade Argentina dos anos 70, sobre a justiça, a corrupção e a vingança.

É, no fundo, a sua dedicação ao estudo da condição humana que faz de O Segredo dos Seus Olhos um filme poderosíssimo e capaz de encapsular temas com os quais qualquer pessoa consegue facilmente identificar-se, independentemente da sua origem geográfica ou social. Enquanto que O Laço Branco e Um Profeta se concentravam em temas e lugares muito específicos, recorrendo também a técnicas muito próprias, o filme de Juan José Campanella dedica-se essencialmente à análise do homem pelo que ele é, do que faz da humanidade a humanidade: amor, paixão, ódio, inveja, fraqueza, luxúria, amizade, arrependimento, maldade, etc. É tudo isto e muito mais que nos define, quer recuemos ou avancemos no tempo, ou viajemos a qualquer ponto do planeta.
As personagens, e a forma como são interpretadas, ajudam igualmente a reforçar esse sentimento de empatia e identificação. Ao longo do filme não há um único momento em que pareçam nada menos que reais, o que provém tanto dos diálogos naturais de Campanella como das sólidas interpretações do elenco. Darín, interpretando o que são no fundo duas personagens diferentes – o Esposito jovem e optimista, que sorri frequentemente e manda piropos a qualquer mulher bonita, e o de 25 anos depois, desgastado, solitário e permanentemente invadido pelo sentimento de uma vida perdida – é fantástico, conseguindo fazer essa separação na perfeição. Villamil complementa-o, fazendo da sua personagem uma mulher forte, independente, dividida entre as suas obrigações e desejos. Destaque também para a fenomenal interpretação de Pablo Rago, como o marido da vítima, que nos mantém em constante dúvida sobre a sua natureza, e Guillermo Francella, como Sandoval, colega e melhor amigo de Esposito, responsável por grande parte do humor com que Campanella vai regando a película.


Complementando o elenco está o trabalho de Campanella por detrás da câmara que, nunca sendo exagerado, consegue manter o filme a um ritmo quase sempre perfeito, com opções estéticas que fazem dele visualmente atractivo, mas obtendo sempre um raro equilíbrio entre o que vemos e o que ouvimos, já que O Segredo dos Seus Olhos é em muitos sentidos um filme de diálogo.

Quando as palavras não têm destaque, a belíssima e clássica fotografia de Félix Monti assume-o, com imagens saturadas, ora estáticas ora dinâmicas, por vezes flutuantes, bem como a música de Federico Jusid e Emilio Kauderer, que reforça o ambiente a que Campanella aspira criar.

Na sequência central do filme, uma cena de perseguição ininterrupta de sete minutos, Esposito e Sandoval, após descobrirem que o autor do crime (cuja identidade é revelada na primeira meia hora) é um apaixonado adepto de futebol e do Racing Club de Avellaneda, localizam-no (de forma pouco provável, diga-se) num estádio Argentino no meio de 60.000 pessoas, seguindo-se uma perseguição a pé que se inicia nas bancadas, continua no interior do estádio, passando por uma casa de banho e acabando no relvado. Campanella e Monti fazem desta cena o ponto alto do filme ao filmá-la de forma rápida, estilística e feroz, como se de um filme de acção se tratasse, iniciando-a com um plano aéreo do estádio e descendo, claramente com assistência CGI, até ao público, furando por entre este até encontrar Esposito e Sandoval. É uma cena magistralmente pensada e executada, que se contrapõe ao tom literário e romântico de grande parte do filme e que por essa mesma razão o eleva.


O Segredo dos Seus Olhos tornar-se-á, acredito, um clássico do cinema, no futuro. Ilude em apresentar-se como mais um típico thriller baseado num romance, pois a forma como incorpora elementos de drama, noir e suspense distinguem-no como uma obra única que consegue ir buscar inspiração a Hitchcock e ao cinema americano em geral e mesmo assim manter-se distintamente sul-americano, conseguindo no entretanto agradar a Hollywood. O seu único defeito será o recurso frequente ao melodrama, que nunca ofusca o quão brilhantemente construído é, nem tão-pouco a sua extrema dedicação e atenção a detalhes, que o tornam natural e ao mesmo tempo imprevisível, qualidades insubstituíveis em qualquer thriller.

Indiscutivelmente um dos melhores filmes de 2010, até ao momento e provavelmente depois do ano terminar.
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Pedro Ponte, ante-cinema


Título Original: El secreto de sus ojos
Realização: Juan José Campanella
Argumento: Juan José Campanella e Eduardo Sacheri, a partir da novela deste último
Direcção de Fotografia: Félix Monti
Montagem: Juan José Campanella
Música: Federico Jusid e Emilio Kauderer
Origem: Argentina / Espanha
Ano: 2009
Duração: 127'
Classificação: M/16


3 SEGREDOS NÃO MUITO SECRETOS - IPJ, 21h30, às 2ªf.

Sócios 2€ *, estudantes 3,5€, restantes 4€*
*decisão da Assembleia Geral Extraordinária de 13 de Setembro


Dia 4
O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

Juan José Campanella

Argentina/Espanha, 2009, 127’, M/16

O vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro é uma pequena surpresa – mesmo se assumirmos que o Oscar foi roubado a "Um Profeta" ou a "O Laço Branco". Primeiro, pela elegância e pela inteligência com que abrange e entrelaça géneros muito diferentes (o melodrama romântico, o filme policial, o "thriller" político) num todo plenamente satisfatório. Segundo (e principalmente), pelo facto de este ser um filme exemplar de um tipo de cinema "mainstream" inteligente, adulto, sóbrio, que Hollywood produzia em tempos desembaraçadamente mas que hoje abandonou por completo. Este podia perfeitamente ser um dos "thrillers" liberais dos anos 70, dirigidos por gente como Alan J. Pakula ou Sydney Pollack - e, nem por acaso, o filme passa-se de facto nos anos 70, na transição da Argentina liberal para a época peronista da repressão política e dos "desaparecidos", só que vistos a 30 anos de distância, pelos olhos de um antigo investigador judicial que recorda o crime que mudou a sua carreira e decide escrever um romance nele inspirado.
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Jorge Mourinha, Público




Dia 11
SHIRIN
Abbas Kiarostami

Irão, 2008, 92’, M/12

No Irão deve-se baixar os olhos perante uma mulher. Em SHIRIN, Abbas Kiarostami põe-nos a olhar, durante hora e meia, para 114.

Em SHIRIN está o império do feminino – e um império dos sentidos. Durante cerca de hora e meia, os rostos – o olhar – de 114 mulheres, actrizes iranianas de várias gerações (uma europeia entre elas, Juliette Binoche), que observam o que se passará num palco: a representação de um poema persa do século XII, “A História de Khosrow e Shirin”, sobre os amores de uma princesa arménia pelo rei da Pérsia e sobre o triângulo de paixões que se forma quando Shirin conhece Farhad.

Elas (e este será um retrato de senhora multiplicado por 114) reagem, choram, riem – o que vêem está fora de campo para nós. E Kiarostami, voyeurista assumido, já que gosta de olhar para quem está a ver, observa-as. Nós estamos com ele. E imaginamos o que elas podem estar a imaginar. Ou seja, estamos numa caixa de ressonância onde a fantasia e a nossa memória de espectadores (e somos espectadores daquelas espectadoras…) estão a ser constantemente alimentadas, excitadas.

E sempre dentro e fora, mergulhados na emoção, subjugados perante 114 mulheres.
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Vasco Câmara, Público


Dia 18
EU SOU O AMOR

Luca Guadagnino

Itália, 2009, 120’, M/12

Tilda Swinton é sublime num filme gloriosamente operático que reinventa o melodrama clássico e a saga familiar para um tempo em que eles já não existem. Atente-se na "chave" que dá título a este grandíssimo filme: Maria Callas, ela própria, interpretando a ária da "Mamma Morta" de Giordano, na banda-sonora do "Filadélfia" de Jonathan Demme, que Tilda Swinton vê uma noite na cama à beira de adormecer, antes de o marido chegar e mudar de canal sem sequer lhe perguntar o que está a ver. A frase que Callas canta é "Io sono l'amore" - "eu sou o amor" - e é nesse momento em que o marido a ignora como mera presença utilitária que a divina, gloriosa Tilda toma perfeita consciência do seu papel na poderosa família milanesa. Ela é a verdadeira "mamma morta" (aliás, mais tarde, alguém lhe dirá "tu não existes"), até o amor lhe cair do céu, numa noite de Inverno, na pessoa de um visitante inesperado que nem sequer fica para tomar café.

É complicado explicar o que se passa em "Eu Sou o Amor" sem correr o risco de menorizar a terceira ficção de Luca Guadagnino, porque o que eleva o filme ao estatuto de obra-prima é a abordagem operática, virtuosa, formalista, estilizada, hiper-romântica e pós-modernista com que o cineasta siciliano encara o melodrama clássico e a saga familiar, o modo como ele instala no classicismo do género um corpo estranho através de Tilda Swinton. “Eu Sou o Amor” é uma obra-prima.
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Jorge Mourinha, Público