VIDAS - o nosso EX-CELS-SO Ciclo Setembro-Outubro no IPJ. 21h30.

O título diz tudo: são biografias, senhores, são - que! - biografias.

Sócios - 2€

Estudantes - 3,5€
Restantes - 4€

SETEMBRO


DIA 19
48

Susana de Sousa Dias
Portugal, 2010, 93’, M/12

Partindo de uma série de fotografias de prisioneiros políticos, Susana Sousa Dias volta a centrar-se no período do Estado Novo e realiza um documentário sobre os 48 anos de ditadura em Portugal (1926-1974). Mostrando os rostos das vítimas da PIDE, pretende-se que o espectador observe cada imagem ouvindo, em voz off, o depoimento vivo da pessoa em questão, usando as pausas e os silêncios como meio de reflexão.



DIA 26
DURANTE O FIM

João Trabulo
Portugal, 2003, 70’, M/12

Este documentário segue Rui Chafes nas suas actividades, desde a idealização até à concepção dos seus trabalhos, mostrando ao espectador o indivíduo que existe para lá do artista plástico, considerado, com toda a justiça, um dos mais importantes da actualidade. Filme que abre portas para o Ciclo “Cinema e Belas-Artes ao fim da tarde” no Museu Municipal (post a publicar oportunamente).



OUTUBRO

DIA 3
VÉNUS NEGRA

Abdellatif Kechiche
França/Bélgica, 2010, 159’

Um filme biográfico sobre a trágica história de Saartjes Baartman, uma mulher da tribo Khoikhoi que, no início do século XIX e devido às suas características físicas específicas, deixou o sul de África para ser exibida nos salões europeus sob o nome "Venus Hotentote", com promessas vãs de uma vida dourada. Perturbante e necessário.



DIA 10
AUTOBIOGRAFIA DE NICOLAE CEAUSESCU

Andrei Ujica
Roménia, 2010, 180’

Um dos filmes maiores do ano cinematográfico português, que retrata a história de uma ditadura a partir das imagens da sua própria propaganda. É um filme invulgar, invulgarmente inteligente, sobretudo porque acredita na inteligência do seu espectador (João Lopes).



DIA 17
O ATALHO

Kelly Reichardt
EUA, 2010, 104’, M/12

Um western, baseado em diários dos pioneiros encontrados no estado do Oregon, é uma reflexão sobre as origens dos Estados Unidos e o papel das mulheres na expansão do Oeste americano. Com um casting brilhantemente capitaneado por Michelle Williams (Blue Valentine), «Reichardt consegue tocar nos mitos americanos e transformá-los num espaço metafísico, sem regresso.»



DIA 24
CARLOS (O CHACAL)

Olivier Assayas
França/Alemanha, 2010, 163’, M/12

Biografia violenta e ultra-realista da vida do célebre terrorista Carlos o Chacal, o filme cobre todo o período que vai da integração de Carlos o Chacal nas fileiras militares palestinianas até à sua prisão no Sudão em 1994, passando pelas suas intervenções mais célebres como a operação no quartel-general da OPEC em Viena onde fez reféns todos os aí presentes, em 1975.



DIA 31
UIVO (ALLEN GINSBERG)

Rob Epstein e Jeffrey Friedman
EUA, 2010, 90’

São Francisco, 1957. Uma obra-prima é julgada e esse é um momento decisivo para a contra-cultura americana. O filme recria a vida de Allen Ginsberg e do poema Howl, explorando géneros e temas que ainda hoje são actuais: a definição de obscenidade, os limites da liberdade de expressão, a natureza da arte.


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a imensa riqueza da música popular portuguesa vai soar no cemitério antigo! 5ªf, Cacela Velha, 22h.

Entrada - 2€
Sócios do CCF e do INATEL - 1€

De forma pioneira em Portugal, a Fundação INATEL, Direcção de Cultura, decidiu encomendar a realização do documentário “Sinfonia Imaterial”, ao realizador Tiago Pereira com direcção de produção da QUIVIART e co-produção da Pédexumbo.

Tiago Pereira percorreu o país de uma ponta à outra, de Braga a Porto Santo, a convite da Fundação INATEL Cultura, e pelo caminho foi recolhendo fragmentos de um património imaterial riquíssimo que nos últimos anos tem tentado escudar e – em muitos casos – resgatar do esquecimento.

Sem voz-off ou entrevistas, “Sinfonia Imaterial” tenta, mais que ser um documentário convencional ou uma recolha estritamente etnográfica, representar um olhar abrangente sobre um lado frequentemente ignorado da cultura portuguesa: o património oral tradicional. O imenso material recolhido, condensado num filme de cerca de 60 minutos, percorre diversos artistas, locais e géneros musicais, numa prática que anualmente envolve mais de um milhão de pessoas em Portugal.

Um auto-intitulado “caçador de ritmos, de canções, e de loops”, Tiago Pereira, não é estranho a este tipo de trabalho de pesquisa intensiva e documentação com os olhos postos em gerações futuras. ”Sinfonia Imaterial” é um passo lógico na carreira de um realizador que se vê também como “um recolector e um coleccionador” que vai “atrás das memórias” e cuja carreira inclui “B Fachada – Tradição Oral Contemporânea” (2008), “Significado” (2010) ou a iniciativa “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”.

“A música portuguesa nunca teve auto-estima”, atira o realizador. É para tentar despertar consciências e abalar o espírito conformista instalado no pós-25 de Abril, através da descoberta e da reinvenção, ao mesmo tempo desmistificando a ideia do Portugal “moribundo e triste”, que o visualista lisboeta vem dando sequência a um trabalho de construção de uma base de dados orgânica e em permanente mutação.

O seu papel enquanto divulgador e promotor da música portuguesa valeu-lhe, em 2010, a vitória na primeira edição da categoria “Missão” do Prémio Megafone João Aguardela.

(daqui)


Entre Março e Abril deste ano, Tiago Pereira partiu pelo país com uma câmara e encontrou isto que vemos em "Sinfonia Imaterial", o seu novo filme. De Sul a Norte: do cante alentejano feminino à dança dos Pauliteiros de Miranda. Do centro para as ilhas: dos imponentes bombos de Paul, na Covilhã, à mulher de 91 anos que toca guitarra portuguesa no Faial e aos violinos e cavaquinhos parentes do cajun e do blues em Porto Santo. Novos e velhos, gente muito séria e gente de sorriso matreiro, amadores que desafinam e instrumentistas de excepção. Tudo filmado em plano fixo e enquadrado na paisagem natural, em tascas ou em salas de estar de casas anónimas - e sem outra informação para além das legendas que identificam temas, instrumentos e lugares. O filme, uma encomenda da Fundação Inatel coproduzida pela associação Pé de Xumbo.



"Sinfonia Imaterial" pretende mostrar que, aqui e agora, existe um país com uma vivíssima tradição musical feita de "milhares de influências", o que nos permite pressentir algo da "Galiza, de África, do Brasil, dos países nórdicos ou da Índia sem nunca sair de Portugal". Tal como o nome indica, não é exactamente um documentário. "Era importante mostrar que todos aqueles projectos musicais misturados podiam ter uma força sinfónica sem maestro, ou com um maestro virtual, que era eu", explica o realizador. Nessa ausência de qualquer outro discurso para além do cantado, "Sinfonia Imaterial" distingue-se de trabalhos anteriores de Tiago Pereira, como "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea" ou "Significado". Aqui, leva esse anseio às últimas consequências, criando um mosaico musical em que os vozes e instrumentos se cruzam para criar combinações surpreendentes. O olhar é, portanto, de músico (está-lhe nos genes, ou não fosse ele filho de Júlio Pereira). "Há muito tempo que queria percorrer o país todo de repente, para manter a cabeça fresca e para conseguir mais facilmente estabelecer relações musicais entre todo o material." A preocupação principal era mostrar uma realidade em constante mutação. "O filme tem jovens e velhos, para mostrar que a tradição está viva, que quando acabarem estes responsos e estes instrumentos outros tomarão o seu lugar e serão tão ricos e tão estranhos como os de agora".

Mário Lopes


ENTREVISTA AO REALIZADOR


Café Portugal - Como nasceu a ideia de fazer este filme que mergulha nas nossas tradições orais?
Tiago Pereira - Não é a primeira vez que retrato estas questões. Desde há dois anos que, nos meus filmes, tento mostrar a memória e a sua alfabetização. Se é importante que as pessoas aprendam a ler é igualmente fundamental que não se esqueçam da tradição, do património imaterial e de todas as memórias relacionadas com a tradição oral portuguesa. Há muitos anos que faço recolhas com a câmara e microfone de lapela e havia uma grande necessidade de trabalhar este património pelo país, com recolhas mais profissionais, com câmara fixa, etc. Nessa medida, surgiu o convite do INATEL para se produzir um filme sobre o património imaterial musical português.

C.P. - Esse convite por parte da Fundação Inatel quando é que surge e como se desenvolveu?
T.P. - Em Setembro de 2010. A partir daí começamos a pensar na forma como iríamos produzir o filme. Entretanto surgiu a Quiviart, que fez a produção executiva, sendo que houve, depois, a necessidade de se pedir uma co-produção à Associação Pédexumbo, que há anos se dedica a estes temas e tinha listas de pessoas fundamentais para este trabalho. Uma das coisas que quis fazer, desde o início, era um filme do ponto de vista musical. Andava à procura dos registos musicalmente mais ricos porque o objectivo sempre foi o de fazer um filme sem voz off e só com entrevistas a mostrar apenas os protagonistas. São 56 minutos só de música. As únicas legendas que existem são apenas referentes aos instrumentos que estão a tocar, como ritmos e, muitas vezes, nem é música. A música tradicional portuguesa sempre foi muito rica e sempre teve outras formas de se exprimir musicalmente. Qualquer coisa basta para criar ritmos. Se racharmos uma cana conseguimos produzir sons.


C.P. - Quando é que foi para o terreno e como correu a recolha destes registos musicais?
T.P. - Comecei a trabalhar no filme a 7 de Março deste ano. Desde aí até ao dia 2 de Maio estivemos sempre a filmar, sendo que eu ia montando o filme ao mesmo tempo.

C.P. - Percorreu o país todo?
T.P. - Sim, à excepção da Estremadura que, por várias razões, não foi possível recolher registos, percorremos todo o território. Estivemos no Funchal e Porto Santo e nos Açores passámos em quatro ilhas: Pico, Faial, Terceira e São Jorge.

C.P. - No terreno o Portugal musical que encontrou foi uma surpresa pela positiva?
T.P. - Começo por dizer que, por exemplo, quando vamos ver o «Povo que Canta», de Michel Giacometti, filmado nos anos de 1970, vemos pessoas novas a cantar. O que encontramos no terreno foi novamente isso. De repente chegarmos a Miranda do Douro, por exemplo, e gravamos um grupo de 40 meninos, com idades entre os 8 e 11 anos, a cantar em mirandês e a tocar pandeiros. Ou chegar à Madeira e acontecer o mesmo com as violas de arame. Eu tinha noção que não eram só os velhos que ainda mantinham estas tradições, e a verdade é que comprovei que os jovens continuam a estar presentes.


«Portugueses desconhecem o país que têm»:

C.P. - Que diferenças encontrou em termos de registos orais entre as várias regiões?
T.P. - Há uma certa ilusão que vem do Estado Novo, muito pela divisão regionalista feita por António Ferro, de que há características que diferem de uma aldeia para a outra. Recordo que as pessoas sempre tiveram migrações de trabalho na época do Fascismo e levavam as músicas de um lado para o outro. Mas é verdade que há registos que, sabemos, são característicos de determinadas regiões: sabemos que temos gaitas galegas no Minho, gaitas mirandesas em Trás-os-Montes, os adufes na Beira Baixa, as violas de campaniças no Alentejo e amarantinas no Alto Douro, as braguesas no Minho, as violas da terra nos Açores ou as violas de arame na Madeira. Contudo, a riqueza é imensa porque o país também tem esta grande multiculturalidade e tão rico nestas tradições. O engraçado deste filme é as pessoas verem estes 56 minutos, do princípio ao fim, e questionarem-se como pode haver tanta coisa ainda que nos caracteriza como povo. Mas eu pergunto: como é que nós desconhecemos o país que temos? E eu não falo apenas em termos musicais. Os portugueses desconhecem o país que têm.

C.P. - Como avalia a forma como tem sido valorizado este património em Portugal?
T.P. - Muito mal. Se o património material está a cair, o imaterial está pior ainda, tem sido muito maltratado. Portugal não tem auto-estima e não é só na música. A música portuguesa não gosta dela própria, tal como a cultura não gosta dela própria. As pessoas não vêem as riquezas. Continuamos sem um programa de televisão, por exemplo, que fale sobre as nossas tradições e as memórias musicais. Isto, de certa forma, tem a ver com um certo preconceito rural que ainda existe em Portugal.


C.P. - Onde vai encontrar as explicações para esse preconceito que refere?
T.P. - Porque as pessoas acham que tudo o que vem do mundo rural é sinónimo de ultrapassado. E isso é triste. É fundamental mostrar estas riquezas porque um dia vão morrer e não as conheceremos. Já basta a crise económica, não podemos alimentar mais uma crise identitária que, como sabemos, não é de agora.

C.P. - Que efeito espera que o «Sinfonia Imaterial» produza?
T.P. - Não sei. Há muitos anos que tento fazer algo pela memória e sei que a coisa morre. A questão da música tradicional ainda tratada por poucos. O que espero é que as pessoas consigam fazer uma consciencialização pessoal e depois colectiva no sentido de perceberem o que está em causa e do que se pode perder se nada for feito.

C.P. – A estreia está marcada para o dia 17 de Maio no Teatro da Trindade, em Lisboa e será exibido no Cinema City Alvalade, de 26 de Maio a 1 de Junho. Irá passar por mais salas no país?
T.P . - O filme vai também passar dia 28 de Junho no Museu do Côa mas o objectivo é que percorra o país todo. Porque é isso que faz sentido. [nós estamos a cumprir a nossa parte :)]

(daqui)

SINFONIA IMATERIAL - Trailer from Tiago Pereira on Vimeo.


Portugal, 2011, 56'
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hoje é a nossa Ilha a viver num Cemitério - o antigo, em Cacela Velha. 22h, com a presença dos realizadores!

e dos protagonistas Gilberto Silva e José Santos! :-)

SINOPSE

Num tempo de rápidos consumos onde o agora reina, descobriremos em conjunto, a praia de Faro e a sua aldeia piscatória, cujos habitantes teimam em resistir ao imediatismo dos dias de hoje e mantendo hábitos ancestrais de contacto profundo com a grande natureza.

Sairemos e entraremos na vida dos seus habitantes, tendo como co-anfitriões animais marinhos e uma variedade invejável de espécies de aves movimentando-se em paisagens paradisíacas. Viajaremos tranquilamente pelos canais desta ria que faz justiça ao seu nome, contemplaremos pores do Sol e da Lua no Atlântico Norte que parecerão encenados de tanta beleza.

Iremos viver uma praia, um espaço/ente que se dá a cada segundo das nossas existências sem pedir nada em troca.

“ Longe de ser uma descrição de fenómenos objectivos, é uma tentativa de inscrição do amor humano no coração das coisas” *
* in dicionário de símbolos, Juan Eduardo Cirlot, Bachelard acerca da Alquimia publicações D. Quixote


IMPRENSA

“Ilha” é o primeiro documentário cinematográfico realizado sobre a comunidade de pescadores e mariscadores que habita a Praia de Faro há mais de meio século.

Em entrevista à agência Lusa, os realizadores, Mauro Amaral, 33 anos, e Carlos Fraga, 56, definem o resultado final como um documento intimista e plural que aborda a autenticidade dos pescadores e o medo de verem as suas casas demolidas pelo “Polis Ria Formosa”, um programa governamental para requalificar 48 quilómetros de frente costeira desde a Praia de Vale do Lobo até Vila Real de Santo António.

“Num tempo de rápidos consumos onde o agora reina, descobriremos em conjunto uma praia e a sua aldeia piscatória, cujos habitantes teimam em resistir ao imediatismo dos dias de hoje, mantendo hábitos ancestrais de contacto profundo com a grande natureza”, lê-se na sinopse a que a Agência Lusa teve acesso pela mão do autor do documentário, Mauro Amaral.


Gravado em vídeo digital, “Ilha” é a segunda produção audiovisual da editora algarvia “Livremeio Produções”, com sede em Faro, e as gravações realizaram-se ao longo das quatro estações do ano para captar o “modus vivendi” da aldeia - nome não oficial - piscatória, que, embora tenha luz e água, não dispõe de saneamento básico.

Através do filme, os realizadores descobriram na Praia de Faro uma comunidade com mais de 100 pessoas distribuídas pelos dois extremos da praia que vivem em total comunhão com a natureza, ao sabor de ventos e marés.

“Estas pessoas vivem na e da natureza. São fortes e intensas. Abrem a porta de casa e têm areia. Vivem entre a Ria Formosa e o mar. O trabalho deles é feito num habitat líquido e a vida das pessoas está sintonizada com os ritmos da natureza”, conta Mauro Amaral, lembrando que a vida dos pescadores “nunca é rotineira”.

Carlos Fraga refere, por seu turno, que não queriam que o resultado final se transformasse num filme “panfletário” com um só ponto de vista e, por isso, foram entrevistadas várias pessoas, nomeadamente um especialista em erosão costeira da Universidade do Algarve.

A narrativa do “Ilha” foi escrita por jovens poetas algarvios e dita pelo músico José Mário Branco e deverá estrear “ainda antes do Verão no canal RTP 2”, adiantou a dupla de realizadores, salientando que também a música é “made in Algarve” e criada especificamente para o projecto cinematográfico.


“Este documentário é também uma tentativa de revelar tesouros, porque o Algarve é muito rico e quanto mais visto à lupa mais riqueza tem”, sugere o cineasta algarvio, observando que através deste documento se tem uma perspectiva sobre “o que sempre foi a vida no Algarve”.

O filme de índole informativa tem uma duração de 54 minutos, entrevista 11 pessoas, todos homens, e vai candidatar-se ao Festival de Cinema Independente de Lisboa, o “Indie”, acrescentou Carlos Fraga, que realizou e produziu o documentário “António Aleixo - Na terra acho, na terra deixo”, que passou recentemente na RTP 2.

“Sairemos e entraremos na vida dos seus habitantes, tendo sempre como anfitriões animais marinhos e uma variedade invejável de espécies de aves movimentando-se em paisagens paradisíacas (...). Longe de ser uma descrição de fenómenos objectivos, é uma tentativa de inscrição do amor humano no coração das coisas”, prometem os realizadores.

in Público




uma ideia de Mauro Amaral
Realização
Carlos Fraga e Mauro Amaral
Produção Executiva
Helena Madeira
Assistente de Produção
Carla Guerreiro
Localização e entrevistas
Mauro Amaral
Narração
José Mário Branco
Música
André Capela
Textos
João Bentes e Pedro Afonso
Fotografia e Câmara
Carlos Fraga
Assistente de Imagem e Som
João Gonçalves
Edição e Pós Produção
Carlos Fraga
Assistente de Edição
João Gonçalves
Músicos
André Capela
Saxofone, guitarra, flauta transversal e voz
Bruno Vítor
Contrabaixo, guitarra, baixo e voz
Zé Roxo
Voz
João Araújo
Piano e sintetizadores
Leon Baldesberguer
Trompete
Tiago Rêgo
Percussões
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Lixo é Arte? É! Um projecto MARAVILHOSO de VIK MUNIZ em Cacela, hoje, 22h - LIXO EXTRAORDINÁRIO. Mesmo!

Cemitério Antigo de Cacela Velha

Sócios - 1€
Não-Sócios - 2€



O filme tem um efeito arrebatador por juntar arte e lixo, elementos quase opostos, não só pelo valor estético, mas também por sua representação social.
O Globo

Filmado extraordinariamente, este retrato de trabalhadores pobres, mas orgulhosos e cheios de recursos, tocou o coração de todos os que o viram.
Empire

Um filme surpreendente que mostra como a arte pode afectar a vida de um grupo de catadores no maior aterro do mundo no Rio de Janeiro.
LA Times


As sequências dos catadores a trabalhar são fascinantes. A música original de Moby transmite de forma assombrosa as características do local.
Variety

Vê-se com alegria, apesar de toda a miséria que é filmada. Não é um simples documentário sobre o trabalho de um artista e apela enormemente à emoção do público.
The Hollywood Reporter

O lixo de um homem é a arte de outro. Esta é a lição do fascinante documentário Lixo Extraordinário, um retrato de Vik Muniz, um artista de sucesso nascido no Brasil, mas radicado em Brooklyn.
New York Post

Lixo Extraordinário é um filme sobre reciclagem, mas é muito mais espantoso que os ditos eco-documentários. No centro da narrativa estão os catadores de lixo e a forma como um artista criou retratos maravilhosos de uma dúzia desses catadores e lhes transformou as vidas.
San Francisco Chronicle

Que um filme belo possa ser filmado na maior das lixeiras parece um oximoro, mas o aclamado documentário de Lucy Walker consegue exactamente isso. A realizadora segue o trabalho do aclamado fotógrafo Vik Muniz num projecto ambicioso: ir para o Jardim Gramacho, a maior lixeira do mundo a céu aberto, e fotografar os catadores de materiais recicláveis e depois trabalhar com eles na transformação dessas fotografias em retratos feitos a partir de materiais recicláveis. O seu objectivo é inspirar estes catadores de forma a que eles se vejam a si mesmos de uma nova forma e até mesmo repensarem as suas vidas.
Los Angeles Times


PRÉMIOS E PARTICIPAÇÕES EM FESTIVAIS
Oscars - Nomeado Para Melhor Documentário
Festival de Berlim - Prémio do Público, Prémio da Amnistia Internacional
Festival de Sundance - Prémio do Público
Festival de Paulínia - Prémio do Público, Prémio Espacial do Júri
Festival de Durban - Prémio Melhor Documentário, Prémio do Público, Prémio da Amnistia Internacional
Festival de Seattle - Prémio Golden Space Needle – Melhor Documentário
Princeton Environmental Film Festival - Melhor Filme
Frozen River Film Festival - Prémio do Júri
Festival de Estocolmo - Silver Audience Award
Festival de Documentário de Amesterdão - Prémio do Público
Mostra Internacional de São Paulo Internacional - Prémio Itamaraty de Melhor Documentário
Festival do Rio - Première Brasil Hors Concours
Festival de Provincetown - Prémio Hbo do Público - Melhor Documentário
Festival de Dallas - Prémio Target Film Maker - Melhor Documentário


Lixo Extraordinário: "Ruim não é ser pobre,...
... ruim é ser rico no mais alto degrau da fama com a moral coberta de lama": Um documentário que mostra como, entre o lixo e o luxo, só muda mesmo a vogal.

É a última estação, o culminar do caminho, o fim da picada. É a terra do desperdício, paraíso das moscas, dos fungos e da sarna. É o mais deprezado e agoniado dos solos, imerso em cheiros nauseabundos, podridão, sobras, e foras-de-prazo. Dos urubus pairando. Dos vultos catando lixo, despojos dos dias, sobras dos outros e sobrevivência. É o maior aterro da América Latina (nos arredores do Rio de Janeiro), onde são despejadas oito toneladas de lixo, diariamente, e onde foi rodado o multipremiado documentário anglo-brasileiro (nomeado para os Óscares da 83ª edição), Lixo Extraordinário, co-realizado pela inglesa Lucy Walker e pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley. E nesta terra de aparente esterilidade o documentário vai em busca de fecundação, e segue o processo criativo de Vik Muniz, o artista plástico brasileiro, que das suas origens humildes em S. Paulo "virou" uma das estrelas mais bem cotadas nas galerias nova-iorquinas.

E de repente, tudo muda, tudo se transforma e recria. Lixo Extraordinário é um filme sobre o processo criativo de um artista, que incorpora materiais (neste caso lixo) nas suas fotografias? Claro que sim. Também é um filme ambientalista. E sobretudo humanista. Mas é antes de tudo um filme sobre o poder transformador. Da arte. Das pessoas. Do lixo reciclável. E o nosso próprio olhar enquanto espectador transforma-se. Afinal aquilo que eram montanhas de decomposição, insalubridade e objectos desvalidos tornam-se em acumulação de coisas potencialmente valiosas. O que parecia miséria (não deixa de ser) mas pode ser olhado com "empreendedorismo". O ordinário torna-se extraordinário. O inútil torna-se útil - e torna-se inútil outra vez, nas composições de Vik Muniz, porque a inutilidade é a essência de toda a arte. E os catadores, vultos curvados e miseráveis, já são uma espécie de garimpeiros de material reciclável, profissionais altamente especializados que distinguem seis tipos de plásticos só pela forma como eles soam quando se aperta. São ecologistas, politizados alguns, inteligentes, com histórias de vida incríveis, e que fizeram uma escolha de dignidade: a de trabalharem em defesa do meio ambiente, "em vez de andarem na prostituição ou no tráfico". Na verdade, eles são Suelem, Ísis, Zumbi, ou o senhor velhote (morreu antes do filme estrear) que dizia frases fantásticas como a do alto da página. E argumentava sempre que uma lata é importante: "Porque o negócio é o seguinte, dezanove não são vinte". E Tião, o carismático presidente da associação de catadores que lê livros surpreendentes que encontra na lixeira, como O Príncipe de Maquiavek ou Niestsche. E que depois do filme e da venda de milhões de dólares do quadro com a sua fotografia (na pose do revolucionário Marat, morto na banheira) se tornou uma espécie de consultor da reciclagem, fundador de vários pólos e 200 cooperativas no Brasil inteiro.


E, subitamente, encontramo-nos no lugar da utopia, onde a arte pode de facto mudar o mundo. Num lugar conceptual mas muito materialista ao mesmo tempo, porque aqui a tese e a antítese realmente se fundem e não existem classes sociais: o lixo todo se junta, "vem da mansão do rico ou da favela do alemão". E parece, comenta Vik à VISÃO que se completa aqui um ciclo: "Todas as coisas começam num lugar comum que é natureza, depois transformam-se, cumprem a ideia de função e de propriedade, pertencem a pobres ou a ricos, mas acabam todos no mesmo lugar comum, que é a lixeira". Vik sempre sentiu este fascínio pelo lixo, um pouco "obcecado", confessa, "por aquilo que deixa de ter valor": "Uma sociedade pode-se definir por aquilo que produz, mas também por aquilo que joga fora". Uma vez, nos anos 90, viu um computador "jogado" no lixo. "Fiquei impressionado, afinal hoje em dia a curva da novidade se faz com tal rapidez.... Dantes, a função ritual de um objecto durava gerações, passava de pai para filho, ficava impregnado da história de quem o usava. Com a produção massiva, o valor do objecto diminuiu e faz até um circuito à escala global. O sistema de recuperação de um objecto pode ser planetário. Num menino de África vê-se a camiseta de um garoto de classe média de Nova Iorque, ténis do Canadá nos pés de um cambodjano. Antigamente provavelmente passariam para o irmão mais novo... Olho muitas vezes a sucata e tento traçar no trajecto do objecto até chegar ali".

Andar mais de um ano no "lixão" (a concretização do documentário durou três) não foi fácil... Para Vik e para a equipa de rodagem. Sobretudo a se acostumarem ao cheiro. "Mas nada demais, não dá para sobrevalorizar, faz parte do trabalho, se quisesse outra coisa ia para um escritório", diz à VISÃO João Jardim, um dos co-realizadores. Pelas "personagens incríveis" que encontrou naquele lugar, acredita mesmo que "o mundo está ficando tão louco e inusitado, que as pessoas têm as experiências mais estranhas, e a realidade ficou mais rica do que a ficção". E garante que "encontrar beleza no feio" não foi só "questão de enquadramento". Existe mesmo beleza e horror. Explica Vik: "Primeiro fica-se lá um tempo, e há o cheiro, o barulho, o desconforto e uma situação de agnosia. É tudo demasiado confuso, o olhar não consegue pousar em lugar nenhum. Porque o lixo não é definível, é algo entre a matéria e o objecto. É difícil para nós pensar na decomposiçãoo e na entropia, é contra-intuitivo, é mais fácil varrer para debaixo do tapete. Mas torna-se muito desafiante".

Vick saiu do Brasil de uma forma muito brasileira. Ia tentar separar uma briga alheia, acabou "pegando um tiro". Com o dinheiro da indemnização fez uma viagem aos EUA para aprender línguas. Pensou passar um fim de semana, ficou 28 anos. Tornou-se artista de fama mundial. "Nova Iorque é um óptimo sítio para se fazer arte, mas enquanto cidadão é o Brasil que me completa", sobretudo depois das mudanças sociais e culturais alcançadas pelos últimos mandatos presidenciais. "Eu tenho a nítida sensação de que tenho mais do que preciso e então tento encontrar outras formas de felicidade". Que passam por este tipo de projectos sociais no Brasil. Onde trouxe os próprios catadores para dentro do processo criativo. Porque o que o mais impressionou foi "a humanidade das pessoas, independentemente do lugar onde elas estão. Mesmo no lugar mais difícil e confuso do planeta, a dignidade humana resiste. Essas pessoas formidáveis que encontrámos na lixeira não se transformaram pela arte. Elas já a tinham dentro delas. Elas apenas se revelaram".
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Ana Margarida de Carvalho, Visão



INCLUI DECLARAÇÕES DO REALIZADOR

Já passaram mais de três anos desde que o artista plástico brasileiro Vik Muniz entrou pela primeira vez no aterro sanitário do Jardim Gramacho, o maior do mundo, que recebe todos os dias mais de 7 mil toneladas de lixo, 70% dos detritos que o Rio de Janeiro produz, e ainda hoje se lembra do "ataque aos sentidos" que foi esse contacto: "O cheiro é absolutamente insuportável, o barulho é incrível e sentimo-nos um pouco autistas, porque o lixo é tanto que não temos onde descansar os olhos", disse ao DN numa entrevista telefónica.

Muniz, um dos maiores artistas contemporâneos do Brasil, conhecido por trabalhar com materiais pouco tradicionais, desde diamantes e corder até chocolate e açúcar, foi para o Gramacho com uma equipa de filmagens, para criar quadros fotográficos usando o lixo como matéria-prima, em colaboração com os catadores que seleccionam os materiais recicláveis do entulho e os vendem para sobreviver. Dessa experiência resultou «Lixo Extraordinário», de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, vencedor do Prémio do Público no Festival de Sundance e nomeado para o Óscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem.

"O lixo é tudo o que ninguém quer", explica o artista. "Se por exemplo, trabalhamos com um material como o diamante, ele já vem com uma conotação estética e de valor e prazer. Mas o lixo, além de ninguém o querer, já tem uma tendência para a invisibilidade, porque é uma coisa que estamos a querer esconder."

Muniz retratou com lixo 7 dos cerca de 3500 catadores que todos os dias se afadigam no aterro do Gramacho, tornando-os nos protagonistas do seu trabalho. "Foi um trabalho cooperativo único, uma colaboração do artista com o tema. Os retratados foram também retratistas", explica. E continua: "Perguntam-me muito como é que escolhi aquelas 7 pessoas entre os milhares que trabalham naquele purgatório. Quem chegou ali normalmente tem uma história muito tocante. Aquelas pessoas já tiveram uma situação melhor, são em geral da classe média baixa e por causa de uma morte na família, ou do desemprego, foram aí parar. Mas podiam ter ido parar ao crime, à droga ou à prostituição, e isso não sucedeu. São pessoas fascinantes por essa razão. Ali há muita dignidade, eles são orgulhosos, o que os levar a lever o dia-a-dia. Por isso, conseguimos uma variedade muito grande de gente e histórias, com uma enorme qualidade humana."

Esta colaboração, contretizada em 7 retratos depois expostos no Rio e em cidades como Londres, onde foram vendidos para angariar dinheiro, mudou de a vida de alguns dos 7 retratados, como conta o artista: "Uns compraram casas, outros deixaram o aterro. A Associdação de Catadores ficou com as finanças em dia. Comprámos equipamento para ela e hoje é uma associação-modelo, patrocinada pelo Instituto Coca-Cola, por exemplo." O filme, a forma como beneficiou os catadores, e os projectos sociais que originou tiveram tal repercussão na Brasil, que levou à aprovação pelo Presidente Lula, de uma nova e mais avançada lei dos resíduos sólidos.
"A vida daquelas pessoas mudou e a minha também", diz Vik Muniz. "O efeito que esta trabalho teve em todas as pessoas foi incrível. isto dá validade a todo o meu trabalho e mudou toda a minha maneira de pensar."
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Eurico de Barros, Cinema2000


A EQUIPA

VIK MUNIZ
Vik Muniz nasceu numa família da classe operária em 1961, no estado de São Paulo, Brasil. Quando era jovem, foi baleado na perna enquanto tentava separar uma luta e recebeu uma indemnização pelas lesões sofridas. Com o dinheiro, financiou uma viagem a Nova Iorque, onde acabou por se radicar e trabalhar. Vik começou a carreira de artista plástico como escultor, mas à medida que se ia interessando pelas reproduções fotográficas do seu trabalho, acabou por se dedicar exclusivamente à fotografia. Ele incorpora uma multiplicidade de materiais improváveis nos seus processos fotográficos. Frequentemente Vik utiliza diamantes, açúcar, cordas, calda de chocolate e lixo nos seus trabalhos, trabalhando sobre imagens clássicas do fotojornalismo e da História da Arte. A sua obra aclamada pelo público e pela crítica tem sido exibida em todo o mundo. A sua exposição individual no MAM (Museu de Arte Moderna), no Rio de Janeiro, foi a segunda mais vista, ficando atrás apenas da exposição de Picasso. Foi no MAM que Vik expôs pela primeira vez a série "Pictures of Garbage” no Brasil.

FABIO GHIVELDER
Colaborador e director do estúdio de Vik Muniz no Rio de Janeiro, Fabio Ghivelder foi fundamental na série de trabalhos apresentados em Lixo Extraordinário. Fabio foi responsável pela identificação do Jardim Gramacho como o local para Vik criar as suas obras. Foi também responsável por estabelecer contacto com os catadores antes da chegada da equipa e por lidar com os funcionários da Comlurb e do Jardim Gramacho. Foi o mentor da criação do novo estúdio no Rio e o conselheiro de Vik em todos os aspectos criativos do projecto.

OS CATADORES

TIÃO (SEBASTIÃO CARLOS DOS SANTOS)
Tião é o carismático jovem presidente da ACAMJG (Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho), uma cooperativa que tem por objectivo melhorar a qualidade de vida dos catadores. Inspirado pelos textos políticos de livros que encontrou no lixo (O Príncipe, de Maquiavel; A Arte da Guerra, de Sun Tzu) Tião teve que convencer os colegas de trabalho de que a organização poderia fazer a diferença. Ele é catador desde os 11 anos de idade.

ZUMBI (JOSE CARLOS DA SILVA BALA LOPES)

Zumbi é o intelectual da lixeira. Quando encontra um livro, ele não vê apenas a reciclagem de papel. Já montou uma biblioteca na sua casa e começou a emprestar livros à comunidade. Zumbi faz parte do conselho deliberativo da ACAMJG e trabalha no Jardim Gramacho desde os nove anos.


SUELEM (SUELEM PEREIRA DIAS)
Suelem trabalha na lixeira desde os sete anos. Aos 18, já era mãe de três filhos. Ela acha o trabalho em Gramacho mais honesto do que ser prostituta ou estar envolvida no tráfico de droga. Suelem adoraria trabalhar numa creche ou mesmo poder ficar em casa com os seus filhos.

ISIS (ISIS SIS RODRIGUES GARROS)

Isis adora moda e odeia “catar” lixo. A determinada altura revela-nos o drama que a levou a trabalhar na lixeira.

IRMA (LEIDE LAURENTINA DA SILVA)

Irma é a cozinheira da lixeira, que cozinha o prato do dia a partir dos ingredientes mais frescos que encontra no Jardim Gramacho.

VALTER (VALTER DOS SANTOS)

Valter era o “catador” mais velho do aterro, faleceu logo após conhecer Vik. Perito em reciclagem, era conhecido pelas suas rimas e lições de moral.

MAGNA (MAGNA DE FRANÇA SANTOS)

As dificuldades de Magna começaram quando o marido perdeu o emprego. Apesar de ainda a chatear que as pessoas a olhem de lado por causa do mau cheiro que exala ao final de um dia de trabalho, ela orgulha-se de viver a vida de forma honesta.




Realização: Lucy Walker , João Jardim, Karen Harley
Montagem: Pedro Kos
Fotografia: Dudu Miranda
Com: Vik Muniz, Fabio Ghivelder, Isis Rodrigues Garros, José Carlos da Silva Baia Lopes (Zumbi),
Sebastião Carlos dos Santos (Tião), Valter dos Santos, Leide Laurentina da Silva (Irmã),
Magna de França Santos, Suelem Pereira Dias
Música: Moby
Origem: Brasil/ Reino Unido
Ano: 2010
Duração: 99’
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claro que estamos no Jardim Manuel Bívar

entre hoje e sábado - nós e todos os nossos colegas de associações culturais da capital algarvia, à noite.

aproveite para se fazer sócio e, de passagem, levar os folhetos da nossa programação de setembro e outubro :-)


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SOB AS ESTRELAS EM CACELA VELHA - falemos em locais mágicos para dar mágicos filmes...

Olá, que tal de férias? :-)

Nós retomamos com o já habitual ciclo de cinema ao ar livre na mágica Cacela Velha, no mágico Cemitério Antigo (desactivado, naturalmente). É um pouquito longe, mas vale a pena, pelo menos uma ida! Seja porque perdeu, quando os demos, os belos documentários A CIDADE DOS MORTOS e LIXO EXTRAORDINÁRIO, seja porque perdeu, quando estreou no Teatro Municipal, A ILHA (de Faro), que contará com a presença dos realizadores Mauro Amaral e Carlos Fraga, e será de entrada livre, seja porque quer assistir à estreia do último de Tiago Pereira, na sua labuta de pôr a música portuguesa a gostar dela própria – e se, no ano passado, em Cacela exactamente, ele apresentou Significado, Cacela volta a acolher a obra de recolha deste porfiado cineasta, sob encomenda do INATEL agora, com SINFONIA IMATERIAL.

Do resto da programação (de Setembro e Outubro) falaremos em próximo post.

Bom regresso!


CINEMA AO AR LIVRE - Setembro - Cacela Velha – Cemitério Antigo – 22h

ENTRADA PAGA (salvo a excepção assinalada com *), 1€ para sócios do CCF e do Inatel (estes, na sessão de dia 15), 2€ restante público

DIA 6
CIDADE DOS MORTOS, Sérgio Tréfaut, Portugal, 2010, 63'

DIA 8
LIXO EXTRAORDINÁRIO (UM PROJECTO DE VIK MUNIZ), Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley, Brasil, 2010, 99'

DIA 13*
A ILHA, Carlos Fraga e Mauro Amaral, Portugal, 2010, 54'
entrada livre, presença dos realizadores

DIA 15
SINFONIA IMATERIAL, Tiago Pereira, Portugal, 2010, 60'

Organização
CIIP Cacela, Câmara Municipal VRSA
Colaboração
Cineclube de Faro


ALGUMA INFORMAÇÃO (mais, no blog, como de costume, filme a filme - fique atento)

DIA 6
CIDADE DOS MORTOS, Sérgio Tréfaut

«Na vastidão do cemitério El Arafa, no Cairo, existe uma cidade com um milhão de habitantes que vivem em edifícios construídos entre túmulos e mausoléus. Há funerais todos os dias, enquanto à sua volta a vida decorre normalmente nas padarias, cafés, mercados e escolas. Tudo dentro da maior necrópole do mundo. Como diz uma local “viver tão perto dos mortos só pode trazer sabedoria”. Preparado e rodado ao longo de cinco anos (2004-2009), este filme procura dar a ver a alma invisível do cemitério. Seleccionado para dezenas de festivais de cinema documental, obteve o Grande Prémio Documenta Madrid 2010.»



DIA 8
LIXO EXTRAORDINÁRIO (UM PROJECTO DE VIK MUNIZ), Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley

«Um filme surpreendente que mostra como a arte pode afectar a vida de um grupo de catadores no maior aterro do mundo no Rio de Janeiro» «O filme tem um efeito arrebatador por juntar arte e lixo, elementos quase opostos, não só pelo valor estético, mas também por sua representação social.» «Vê-se com alegria, apesar de toda a miséria que é filmada. Não é um simples documentário sobre o trabalho de um artista e apela enormemente à emoção do público.»



DIA 13*
A ILHA, Carlos Fraga e Mauro Amaral
entrada livre, presença dos realizadores
«“Ilha” é o primeiro documentário cinematográfico realizado sobre a comunidade de pescadores e mariscadores que habita a Praia de Faro há mais de meio século. Com narração do cantor José Mário Branco. Os realizadores, Mauro Amaral, 33 anos, e Carlos Fraga, 56, definem o resultado final como um documento intimista e plural que aborda a autenticidade dos pescadores e o medo de verem as suas casas demolidas pelo “Polis Ria Formosa”, um programa governamental para requalificar 48 quilómetros de frente costeira desde a Praia de Vale do Lobo até Vila Real de Santo António.»



DIA 15
SINFONIA IMATERIAL, Tiago Pereira

«De forma pioneira em Portugal, a Fundação INATEL, Direcção de Cultura, decidiu encomendar a realização do documentário “Sinfonia Imaterial”, ao realizador Tiago Pereira com direcção de produção da QUIVIART, que pretendeu registar as actuais práticas musicais de tradição oral portuguesa, que estão vivas e que prevalecem nas várias regiões de Portugal continental e ilhas.»

depois da heresia, a subversão da noção de família: QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO?, Almodovar e a sua saudável loucura, n'Os Artistas, 5ªf, 22h. Borla!

O dia-a-dia de uma típica dona de casa madrilena. Viciada em anfetaminas (para conseguir ter energia para trabalhar também como mulher-a-dias), Gloria (Cármen Maura) vive num apartamento exíguo e sobrelotado com o marido, António (Angel De Andres-López), um taxista apaixonado pela cantora alemã de quem foi motorista, dois filhos que descobriram os benefícios monetários do tráfico de droga e da prostituição e a sogra avarenta que vende aos restantes membros da família madalenas e água com gás. Há ainda a vizinha prostituta (Verónica Forqué), um polícia impotente, dois escritores falhados e alcoólicos, uma criança com estranhos poderes mentais e um lagarto de estimação chamado “Dinheiro”…

“Que Fiz Eu para Merecer Isto?” (1984) é o quarto filme de Pedro Almodóvar, provavelmente o realizador espanhol mais internacionalmente aclamado desde Luis Buñuel. Por esta época, os Óscares e o reconhecimento de Hollywood ainda vinham longe e Almodóvar era “apeuma das figuras de proa da “Movida”, o movimento contracultural surgido em Madrid no final dos anos 70 como reacção ao final da ditadura franquista.

Nesses primeiros tempos a Espanha permissiva e democrática, o realizador fez um pouco de tudo, desde o teatro à BD, passando pela escrita e o cinema em Super-8 (ao mesmo tempo em que, durante o dia, trabalhava na Companhia Telefónica Nacional…), assumindo-se desde o início como um observador atento e mordaz da realidade espanhola, dos seus vícios e peculiaridades, num tom provocatório e ousado.

“Que Fiz Eu…” fica então como um dos melhores exemplos desse cinema neurótico e dinâmico, fazendo gala de uma sensibilidade marcadamente “camp” e “kitsch” (ainda hoje presente nos filmes mais recentes e “sérios” do cineasta) e pondo em cena uma galeria irresistível de personagens excêntricas.

Numa sucessão de “gags” tresloucados por onde passa um humor absurdo e negro, entre o grotesco e o escabroso, Almodóvar propõe uma visão satírica e subversiva das relações familiares e pessoais na sociedade moderna. É um objecto delicioso e inclassificável — da farsa ao drama, da comédia ao fantástico — que mistura, de forma improvável, Buñuel, De Palma, Wilder ou John Waters.

Vasco Menezes, Público

Repleto do melhor estilo almodovariano, o filme é uma coleção irresistível de personagens esquisitos e valores distorcidos mas que por vezes fazem sentido no contexto. Lembra um pouco o início da filmografia de John Waters, só que melhor e com Madri como cenário. Como na maioria de seus filmes, há um certo choque principalmente na tentativa de perceber se é possível ir tão longe numa Espanha oitentista pós-era Franco. Em Que Fiz Eu Para Merecer Isto?, Almodóvar desfila uma postura bem-humorada, ultrajante mas sem ser ofensiva. O trunfo é nunca julgar seus personagens. Eles são soltos, vivendo e agindo como querem e com suas razões. É subversivo e tremendamente divertido.

Ricardo Balata

O quarto longa-metragem do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, Que Fiz Eu Para Merecer Isto? (1984), é uma reunião dos personagens excêntricos que marcaram os primeiros filmes do diretor. Viciada em anfetaminas (para conseguir suportar o dia-a-dia do trabalho como dona de casa), a protagonista Gloria (Cármen Maura) reprime seus desejos em prol da atenção que dedica à família que, por sinal, é bem "esquisita". Seu marido, António (Angel De Andres-López), é um taxista apaixonado por uma cantora alemã. O filho mais velho é traficante de drogas, o caçula homossexual se prostitui e a sogra sovina traz para casa um lagarto de estimação chamado "Dinheiro". Para completar, há ainda a vizinha prostituta (Verónica Forqué), o policial impotente e a criança paranormal.

Com diálogos carregados de humor sarcástico, o roteiro - escrito por Almodóvar - coloca os personagens em constante confronto com as situações absurdas que encontram. O cineasta parece se divertir com as possibilidades cômicas de cada ação, provocando riso no espectador e facilitando a identificação do público com os protagonistas. Embora excêntricos, os personagens são demasiadamente humanos e acabam subvertendo os limiares éticos que definem o que é certo e o que é errado. Os acontecimentos estão para além do bem e do mal.

Quem é fã da cinematografia de Pedro Almodóvar certamente identificará, em Que Fiz Eu Para Merecer Isto?, algumas seqüências - como é o caso da cena do homem morto na cozinha - que foram retomadas em Volver, o último filme do cineasta espanhol. Entre o non sense e o corriqueiro, Que Fiz Eu para Merecer Isto? assume seu olhar mordaz e provocativo acerca dos vícios e das peculiaridades de qualquer família.

Camila Vieira


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5ªf, 22h, Artistas, à borla: o mais herege filme de Almodovar - Pedro, o LOUCO! surreal e hilariante!

O espanhol Pedro Almodóvar traz uma comédia irreverente e provavelmente um dos argumentos mais non-sense já escritos por ele.

Sabida a sua pouca estima pela religião, especialmente a católica, o realizador dá a conhecer uma outra faceta de um grupo de freiras, com as suas vidas duplas e negros hábitos. Numa vida de convento, mostram-se outras dependências que não apenas as de Deus. Estreado no início da década de 80, o que teríamos sobretudo a destacar deste Negros Hábitos será a irreverência e originalidade do autor em retratar de uma forma assim tão descabida, mas ao mesmo tempo tão humana e realista a vida de um grupo de freiras, que antes de o serem, são mulheres com defeitos e fraquezas.

O estilo do realizador evidencia-se desde logo, com um contraste divertido entre a cor negra dos hábitos das freiras e as cores garridas dos seus costumes e dependências. Uma junção improvável de personagens exuberantes que surpreendem numa mistura de terços, rosários, drogas e livros eróticos. A estética de Pedro Almodóvar é a habitual: os tons vivos, os ângulos arriscados e exactos e o surrealismo espreitam entre cada cena do filme.


Mais uma vez o tema central do realizador são as mulheres. As suas musas. Com muito de auto-biográfico, com muito egocentrismo que faz de Pedro Almodóvar um realizador que se auto-cita frequentemente, mas também que o torna num dos mais bem sucedidos além fronteiras. Cristina Sánchez Pascual, Julieta Serrano, Cecilia Roth, Carmen Maura entre outras são constantes na filmografia do realizador. São referências das mulheres da sua vida, são excelentes actrizes que dão cor às suas obras.

Tiago Ramos


É com um dos tematicamente mais controversos filmes da sua carreira e com uma certa dose de non-sense que Almodóvar faz uma arrojada e seca crítica à religião, um risco que custou a aceitação do filme no Festival de Cannes. Negros Hábitos retrata uma série de episódios na vida de uma peculiar congregação de freiras, que vivem num mosteiro quase de recurso, que se vestem de preto e que se guiam na vida pela direcção e em nome do pecado, ou não tivesse Jesus Cristo sido morto para nos redimir dos mesmos - na verdade, o nome das suas vestes, que empresta palavras ao título, é religiosamente transposto para acções, diálogos, filosofias e atitudes.


Em contraste com a rigorosa relação entre o preto e o branco, aqui irmãos da ordem, do compromisso e da humildade (uma vida de despojos), reflectem, cantam e exaltam-se sempre toda uma panóplia das mais emocionantes e despertadoras cores em volta das personagens, estabelecendo o feixe da direcção irónica que a película leva, bastião da "balda", do desleixo e do divertimento quase inconsequente - e se leva o moderador de adjectivo é porque a hipocrisia da madre superiora assim o exige. A droga, a criação de um animal selvagem, a protecção de uma prostituta criminosa intimamente ligada às próprias freiras, a extorsão de dinheiro, o passado marcado pelo assassínio ou o presente pautado pela homossexualidade, e a redacção de contos eróticos são o verdadeiro e leviano dia a dia destas mulheres de Deus, que não deixam de se prezar a um ridículo e falhado esforço de cobertura, de onde a mentira, a forja, a corrupção e o interesse pessoal emergem como triunfo e pseudo-exemplo.

Diogo F



Realização: Pedro Almodóvar
Montagem: José Salcedo
Fotografia: Ángel Luis Fernández
Música: Morris Albert, Carlos Arturo Eritz
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: Luis Calvo

Interpretação:
Cristina Sánchez Pascual/Yolanda
Julieta Serrano/Madre Superiora Julia
Carmen Maura/Irmã Perdida
Marisa Paredes/Irmã Esterco
Chus Lampreave/Irmã Rata de Porão
Lina Canalejas/Irmã Víbora
Manuel Zarzo/Padre
Eva Siva/Antonia
Mary Carrillo/Marquesa
Cecília Roth/Merche
Agustín Almodóvar/Bancário

Origem: Espanha
Ano:1983
Duração: 115'
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2º filme de Almodóvar, Labirinto de Paixões, esteve 10 anos em exibição em Madrid. 5ªf, 22h, n'Os Artistas - à borla!

Foi rodado graças ao Cine Alphaville de Madri que resolveu entrar na produção de filmes e com o sucesso de “Pepi, Luci e Bom...” decidiu apostar no jovem diretor.

O filme é um grande mosaico da cena pop cultural madrilena, um documentário com alguns momentos de ficção. Nele aparecem os personagens mais conhecidos: Cecilia Roth, Poch, Fabio MacNamara, Pablo Pérez-Mínguez, em cujo estúdio de fotografia foi rodada a maioria dos interiores do filme, além de Alaska, Carlos Berlanga e os desconhecidos atores Imanol Arías e Antonio Banderas.

O estúdio de Pablo Pérez-Mínguez era um dos lugares de encontro de La Movida, como o era, também, a Casa convento de las costus. Até hoje o estúdio de Pérez-Mínguez existe e é tão grande que, segundo ele, até cem pessoas podem estar ali sem que uma incomode a outra. Várias festas e eventos aconteceram ali, como a exposição de Las Costus, El valle de los caídos. Por estar na rua do mesmo nome, começou a ser nomeado como Estudio Montesquinza. O cenário do quarto de Sexilia (Cecilia Roth) em “Laberintos...” foi pintado por Guillermo Pérez Villalta, auxiliado por Almodóvar, e consta no livro de fotos Mi Movida. Ele continua existindo em um dos quartos do apartamento-estúdio.

O cartaz do filme foi feito por Iván Zulueta, que fará também o de “Entre tinieblas” [Negros hábitos - A EXIBIR DIA 18], 1983), além do mais criativo de todos, o de ¿“Qué he hecho yo para merecer esto!” [O que eu fiz para merecer isto? - A EXIBIR DIA 25], de 1984. O impacto que o filme causou foi tão grande que ele ficou em cartaz durante dez anos nas salas do Cine Alphaville.

No filme vemos a folhetinesca história de um príncipe islâmico que foge de seu país; alguns guerrilheiros vão a Madri com a intenção de sequestrá-lo; sua madrasta, princesa Toraya, que quer fazer inseminação artificial, e Sexilia, uma ninfomaníaca que detesta o sol por identificá-lo com o seu pai.

No plano de abertura, Sexilia e Riza Niro (o príncipe islâmico), filho do imperador do Tirán, estão passeando pelo mercado dominical madrileno El Rastro. Ambos admiram o sexo dos homens que passeiam por lá. A imagem é construída parodiando a famosa capa do disco dos Rolling Stones, feita por Warhol, com o modelo Joe Dallesandro.

Sexilia chama 11 rapazes para uma festa privada e anuncia que será a única mulher presente. Riza encontra Fabio MacNamara em um café; Fanny (Fabio) está cheirando esmalte e tomando álcool por um tubo. Eles acabam tendo um rollito. Riza acompanha Fabio a uma sessão de fotos para a fotonovela Patty Diphusa, personagem criado por Almódovar, que aparece dirigindo as fotos. Pablo Pérez-Mínguez está fotografando. Riza se dirige ao diretor –“Pedro, posso falar com Fabio um momento?” Fabio, sempre colocado, pronuncia alguns cacos de diálogo, dos quais entendemos que ele vai mudar o visual de Riza, para que esse não seja reconhecido, pois um grupo guerrilheiro de Tiranies está em Madri para sequestrá-lo. Um desses tiranies é Sadec (Antonio Banderas), que acaba se apaixonando por Riza, sem reconhecê-lo.

Numa das melhores sequências do filme, a imperatriz Toraya, com um espelho, atormenta Sexilia, parodiando o curta de Derek Jarman, de 1973: “The art of the mirrors”. Na mais debochada sequência, vemos a atuação do duo Almodóvar-Mac-Namara cantando “Suck it to me”.

Continuando a ação, nesse mesmo dia, Riza substitui um cantor do conjunto Ellos, que se machucou; ao vê-lo apresentar-se, fica apaixonada, e Riza corresponde ao sentimento. Depois de muitos desencontros, os dois se curam: Sexilia de sua ninfomania e Riza de seu homossexualismo e felizes fogem juntos para o Panamá. Esse furor uterino de Sexilia lembra o enredo de “Fuego en las entrañas”, relato publicado por Almodóvar em 1981. Nele a protagonista Raimunda e todas as mulheres de Madri eram vítimas de um absorvente manipulado, feito por um homem que quis vingar-se das traições que as mulheres lhe fizeram na vida.

João Eduardo Hidalgo, “Docudramas de La Movida madrilena: “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del Montón” e “Laberinto de pasiones”, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar”

(sugerimos a leitura do ensaio na íntegra, pois contém uma boa contextualização e explicação do fenómeno Movida Madrilena)


5ªf, 22h, n'Os Artistas, um clássico do cinema underground e independente da Movida Madrilena!

“Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón”
Pedro Almodóvar, 1980


O primeiro longa, com pretensão comercial, de Almodóvar, foi rodado nos fim de semana, em sistema de cooperativa, ou seja, ninguém cobrava salários. Todos estavam interessados em participar do filme. Com uma ideia muito tênue, Almodóvar lançou-se à procura de atores para seu filme. Escolheu Alaska por seu figurino, pois queria uma moderna sádica no papel de Bom. Alaska, sem experiência como atriz, fez ela mesma, no filme, uma personagem que interpreta até a atualidade em seus clips e shows. Carmen Maura era a base dramática em que se apoiava o projeto e também a financeira, pois conseguiu dinheiro com amigos. Camuflada sob o pseudônimo de Eva Siva, Mercedes Guillamón, filha de um diplomata e colaboradora habitual nos curtas de Almodóvar, ganhou o papel de Luci, a dona de casa masoquista.

“Pepi, Luci, Bom...” tem defeitos técnicos imensos, cabeças cortadas, enquadramentos amadores, principalmente o de abertura, em que temos um travelling da fachada do prédio de Pepi. José Salcedo, montador fez o que pôde, mas a continuidade de sentido do filme tropeça a todo momento. Almodóvar declarou: “Quando um filme tem um defeito, é um filme incorreto, mas quando tem muito mais que um, a isso se chama Nova Linguagem, Estilo.” Boa justificativa para a falta de direção, falta de atores que consigam sustentar personagens, de cenários próprios, figurino, etc. “Pepi, Luci, Bom...” lembra bastante a tosca produção, já em 16mm, do curta “Salomé”, de 1978.

O que o filme tem de interessante é o recorte das gerações que participaram de La Movida: Pepi é uma trintona; Luci, uma quarentona dona de casa, dominada pelo marido policial, e Bom é a jovem moderna que quer gozar a vida e fugir dos traumas de um passado que não chegou a conhecer. Os que plenamente viveram o movimento foram os trintões ou quarentões, que tinham crescido sob o repressivo franquismo e podiam extravasar seus desejos. Os personagens que já tinham uma história de vida maior, pelo menos cronologicamente, na gíria da época, eram chamados Pepis (derivado obviamente de papa, papito).

(…) Em “Pepi, Luci, Bom...”, a personagem Luci tem a intenção de ser uma guarra [capacho] e, no primeiro encontro, Bom, por ideia de Pepi, lhe proporciona uma ‘chuva dourada’ (de urina), que é claramente simulada, assim como a surra que o marido policial dá em Luci, finalmente satisfeita. A irreverência e a ausência de censura realizam-se nos diálogos e nas situações inusitadas.

O processo de criação dentro de La Movida pode ser perfeitamente compreendido usando-se a metodologia dos Estudos Culturais desenvolvida por Hall, que propõe a existência do Circuito de Cultura: que se organiza em produção (codificação); representação; consumo (decodificação); identidade; mediações. (HALL, 2003, p. 347). Dentro desse processo, os sentidos/significados são produzidos e circulam na sociedade. Na cultura espanhola da época, esmagada por quatro décadas de terrorismo praticado pelo Estado, que eliminou quase a maioria de seus opositores/inimigos, o campo simbólico era terreno propício às primeiras transformações. Como Hall, acredita que “Culture is the process by which meaning is produced, circulated, consumed, commodified, and endlessly reproduced and renegotiated in society. (HALL, 1980, p. 63.) Os jovens autores de La Movida queriam uma nova identidade para a sociedade espanhola. A princípio suas produções chocaram os estabelecidos atores sociais e políticos, mas eles tiveram repercussão em uma ampla parcela da sociedade e provocaram discussões, pautas, reinvindicações que transformaram a política e a economia espanholas da década de 80.

A apresentação de “Pepi, Luci, Bom...” em San Sebastián não chegou a ser um acontecimento. Com exceção da crítica de El País, a recepção do filme foi fria. Muitos inferiram que a direção era inexistente, e que a maioria não gostou de nada do que viu, caracterizando-o como grotesco. Os que apreciavam eram o próprio diretor e todo o grupo de La Movida. A valorização do filme foi feita a posteriori pela carreira desenvolvida por Almodóvar como cineasta, o que, nessa época, estava longe de ser pelas próprias características do movimento onde todos desenhavam, fotografavam, pintavam... “Pepi, Luci, Bom...” e “Laberinto de pasiones” têm paralelismos com os filmes da Warhol Factory. São uma obra coletiva. Todos contribuem com dinheiro (“Laberinto de Pasiones” foi uma encomenda dos Cines Alphaville), ideias, muitos atores improvisam ou vivem o personagem que criaram dentro de El Rollo de La Movida.

A técnica do documentário é um recurso utilizado o tempo todo, mesmo porque algumas situações dramáticas são resolvidas mais facilmente com esse artifício; com essa estrutura de docudrama, a narrativa é costurada e cria uma verossimilhança interna, que talvez não fosse alcançada de outra maneira.

O filme foi produzido em 16mm e depois transferido para 35. Nota-se bastante diferença de imagem entre algumas cenas. A sequência do comercial das calcinhas Ponte deve ter sido feita já em 35mm, pela sua qualidade fotográfica. Bem ao gosto pop, temos o anúncio de um produto impossível, que está parodiando uma campanha da época, sobre o uso de preservativos. Almodóvar não hesita: cria uma calcinha que guarda o xixi, transforma um flato em perfume e, se enrolada de modo apropriado, pode funcionar como fogoso amante; o locutor, emocionado, diz o slogan: “Haga lo que haga, Ponte bragas!”16 [Faça o que fizer, Ponte calcinha!”].

No filme, Alaska é a vocalista do grupo de rock Bomitoni. No dia da apresentação, vemos na plateia Augustín Almodóvar, Las Costus, Ana Belén e quase todos de El Rollo. Na apresentação, o suposto grupo, que é uma mescla dos Pegamoides (grupo de Alaska) com alguns atores, cantam “Muy certa de ti”, e uma música especialmente composta por Almodóvar para a cena Murciana:

Te quiero porque eres sucia, [Eu gosto de você porque você é suja]
Guarra, puta y hortera, [(pistolera, puta e vulgar]
La más obscena de Murcia, [a mais obscena de Murcia]
Y a mi disposición entera [e sempre a minha disposição]
Solo pienso en ti, [Só penso em você]
Murciana! [Murciana!]
Porque eres [Porque você é]
Una marrana. [Uma piranha.]


Bom canta a poética música para Luci, personagem que é de Murcia, e ela, que está na plateia, vai ao delírio.

Toda a escatologia pop de La Movida estava presente no filme. A linha narrativa era bastante simples. Pepi se deixa violentar por um policial, para não ser denunciada por cultivar maconha em sua sacada (em “Volver”, Agustina cultiva Juana no pátio de sua casa no povoado). Depois Pepi resolve vingar-se e encomenda uma surra para ser dada no policial, sem saber que o policial tinha um irmão gêmeo, e que a agressão cairia sobre o inocente. Irmãos que trocam de identidade, pelo bem ou pelo mal (deles ou dos outros), como voltaria a aparecer em “La mala educación”.

Seguindo seu plano, Pepi conhece Luci, a mulher insatisfeita do policial, e lhe pede aulas de tricô. Numa dessas aulas, Bom chega e dá um banho de urina em Luci, que fica apaixonada. Pepi transforma-se numa publicitária de sucesso, Luci acaba cansando-se de Bom e volta para o marido, depois que esse lhe dá uma tremenda surra, pois ela é sadomasoquista. Bom vira cantora de bolero.

Depois da estreia em Madri, o filme circulou pela Espanha. Alaska conta que Pedro e ela viajaram bastante para promovê-lo. Em Murcia, ela ficou nervosa, pois a música que canta para Luci não é nada elogiosa. O filme ficou apenas um dia em cartaz na cidade. Em Madri, ele foi veiculado durante dois anos, e vê-lo era considerado um item necessário no rol de quem se julgava moderno. Por esse sucesso madrileno, o Cine Alphaville de Madri decidiu produzir outro filme de Almodóvar.

João Eduardo Hidalgo, “Docudramas de La Movida madrilena: “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del Montón” e “Laberinto de pasiones”, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar”

(sugerimos a leitura do ensaio na íntegra, pois contém uma boa contextualização e explicação do fenómeno Movida Madrilena)

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