LEVIATÃ | 19 JULHO | 21H30 | Q - ESPAÇO CULTURAL

LUMINITA
André Marques, Portugal, 2013, 20’


LEVIATÃ
Andrey Zvyagintsev, Federação Russa, 2014, 140’, M/14

FICHA TÉCNICA
Título Original: Leviafan / Leviathan
Realização: Andrey Zvyagintsev
Argumento: Oleg Negin, Andrey Zvyagintsev
Imagem: Mikhail Krichman
Som: Andrey Dergachev
Interpretação: Alexey Serebryakov, Roman Madyanov , Vladimir Vdovichenkov, Elena Lyadov, Sergey Pokhodaev
Ano: 2014
Origem: Federação Russa
Duração: 140´



FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cannes – Prémio Melhor Argumento
Golden Globes – Nomeado para Melhor Filme Estrangeiro
Oscars – Candidado da Rússia na categoria de Melhor Filme Estrangeiro
European Film Awards – Nomeado para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento e Melhor Actor
Festival de Cinema de São Paulo – Prémio da Crítica Internacional
Festival Internacional de Sevilha – Prémio de Melhor Fotografia


CRÍTICA
Grande filme de Andrey Zvyangintsev: uma parábola filosófica numa cidade russa onde a fragilidade do Bem depara com a insídia do Mal.
É bem verdade que muitas experiências cinematográficas dos nossos dias, enraizadas nos mais diversos contextos geográficos e culturais, apostam na revalorização de algumas formas de realismo. [...] Leviatã, distinguido na competição oficial com o prémio de melhor argumento, é mais um exemplo brilhante do trabalho do russo Andrey Zvyagintsev, autor que, apesar das limitações de oferta do nosso mercado, não deixa de ser um nome conhecido dos espectadores portugueses — duas das suas anteriores três longas-metragens (O Regresso e Elena, respectivamente de 2003 e 2011), foram vistas nas nossas salas. 
A dimensão realista de Leviatã provém da minúcia obsessiva com que Zvyagintsev contempla as atribulações públicas e privadas dos habitantes de uma pequena cidade da Rússia. Curiosamente, a origem do projecto está ligada à descoberta de uma história americana. Foi em 2008, durante a rodagem da curta-metragem Apocrypha (para o filme de episódios New York, I Love You, em cuja montagem final acabaria por não surgir), que Zvyagintsev tomou conhecimento da saga de Marvin Heemeyer (1951-2004), um soldador do Colorado que, por causa de uma disputa pelos terrenos onde se situava a sua oficina, se envolveu num confronto brutal com as autoridades.
Zvyagintsev ficou impressionado com tal relato (as suas inusitadas formas de violência tiveram imenso impacto mediático na sociedade americana), a ponto de sugerir ao seu amigo e colaborador
Oleg Negin a possibilidade de escreverem um argumento que funcionasse como uma “versão” russa do caso de Heemeyer. Escusado será dizer que as peripécias da história de Leviatã são muito diferentes. O certo é que a personagem central de Kolya (Alexei Serebriakov) vive também uma experiência de confronto com as autoridades, em particular com Vadim (Roman Madyanov), um presidente da câmara corrupto que tenta apropriar-se da casa onde o protagonista vive com Lilia (Elena Lyadova) e Roma (Sergey Pokhodaev), filho do primeiro casamento de Kolya.
A certa altura, a construção de Leviatã superou por completo a sua primeira inspiração. Como o próprio Zvyagintsev explicou, o trabalho com Negin veio a integrar influências muito diversas, desde a história bíblica de Job até às considerações sobre o contrato social e os fundamentos da governação política desenvolvidas no séc. XVII pelo filósofo inglês Thomas Hobbes, nomeadamente no seu Leviathan.
Daí a sensação paradoxal que o filme de Zvyagintsev talvez não possa deixar de desencadear. Por um lado, Leviatã é um objecto que possui o fôlego de uma perturbante parábola moral e filosófica: o Bem e o Mal estão presentes num confronto dramático que contamina todas as formas de comportamento humano, desde a esfera política até às zonas da mais radical intimidade. Por outro lado, as sugestões simbólicas nunca contrariam, antes parecem reforçar, a intensidade realista que Zvyagintsev coloca em todos os detalhes, por vezes evocando de forma muito directa e cáustica as memórias ainda muito próximas do comunismo (há mesmo uma cena de prática de tiro em que os alvos são os retratos oficiais de algumas figuras emblemáticas da história da União Soviética).
 Rodado na região de Murmansk, cidade portuária do mar de Barents, no noroeste do território russo, Leviatã nasceu, assim, da metódica combinação desse rigor realista com um elaborado gosto simbólico. De tal modo que Zvyagintsev não se coibiu de integrar os elementos mais artificiosos nos impressionantes cenários naturais. Assim, por exemplo, o esqueleto de uma baleia azul (que se tornou um ícone da promoção do próprio filme) foi minuciosamente fabricado pela equipa de cenógrafos — mede 24 metros e pesa uma tonelada e meia.

João Lopes, sound--vision.blogspot.pt


( 2€ sócios associações aderentes | 3,50€ público em geral)

A NOVIÇA REBELDE/MÚSICA NO CORAÇÃO | 16 JULHO | Q - ESPAÇO CULTURAL | 21H30 | SESSÃO GRATUITA

A NOVIÇA REBELDE/ MÚSICA NO CORAÇÃO
Robert Wise, EUA, 1965, 174’, M/6

Integrado na inauguração da exposição Ridi Pagliaccio de Pedro Cabrita Reis, na Galeria Trem. Assim sendo, convidámos Pedro Cabrita Reis a programar um dos filmes desta Mostra.



FICHA TÉCNICA
Realização: Robert Wise
Argumento: Ernest Lehman, baseado na peça musical homónima de Richard Rodgers e Oscar
Hammerstein, sobre libreto de Howard Lindsay e Russel Crouse
Fotografia: Ted McCord
 Direcção Musical: Irwin Kostal
Montagem: William Reynolds
 Interpretação: Julie Andrews, Christopher Plummer, Eleanor, Richard Haydn, Charmian Carr Anna Lee Duração: 173 ‘

NOTA CRÍTICA
Revisto agora o filme, o que sobressai é realmente a portentosa realização de um mestre, Roberto Wise. A sua relação com os cenários, a forma como enquadra, como movimenta a câmara, como dirige os actores, como se serve da sumptuosa paisagem, como estabelece a relação entre as personagens no interior de um mesmo plano (como realiza a “mise-en-scène”, em suma) é realmente brilhante. Depois a história por vezes arrasta-se nalguns convencionalismos escusados. Mas a verdade é que o filme sobrevive, e sobrevive bem.
Lauro António, lauroantonioapresenta.blogspot.pt


Pedro Cabrita Reis é um dos artistas portugueses mais conhecidos da atualidade. Participou em exposições internacionais de renome: entre outras, o seu trabalho foi exposto na 9.ª Documenta de Kassel e na 24.ª Bienal de São Paulo. Em 2003, representou Portugal na Bienal de Veneza. A sua obra é multifacetada e complexa, já que o artista utiliza diversos meios e materiais, muitas vezes mantendo a criação no espaço ambíguo entre o desenho e a arquitetura, entre o tangível e o inefável. Nesta exposição teremos a oportunidade de ver uma vez mais esta faceta múltipla, através das peças que serão exibidas, do conceito que subjaz em cada obra e da própria ideia de obra, questionada pelo artista a cada nova criação.

12 JULHO | 21:30 | Q-Espaço Cultural | DOIS DIAS, UMA NOITE, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Itália/Bélgica/França, 2014, 95’, M/12





DOIS DIAS, UMA NOITE, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Itália/Bélgica/França, 2014, 95’, M/12

Título Original: Deux Jours, Une Nuit
Com: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Pili Groyne
Realização: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Produção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Argumento: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Origem: Bélgica
Outros dados: ITA/BEL/FRA, 2014, Cores, 95 min., M/12

SINOPSE
Sandra, empregada numa empresa de painéis solares, volta ao trabalho depois de uma baixa médica prolongada. O patrão, que na sua ausência foi obrigado a redistribuir o trabalho pelos restantes empregados, deixa-os com um dilema: podem escolher entre o regresso de Sandra ou um bónus pelas tarefas extra que fizeram durante esse período. Essa decisão será levada a votação e terá de ser tomada até segunda-feira de manhã. Desesperada por manter o emprego, Sandra sabe que tem o fim-de-semana para convencer os colegas a votar em seu favor. Assim, ajudada por Manu, o marido, ela vai de porta em porta, repetindo o discurso, de modo a despertar nos outros a compaixão de que tanto necessita para manter o emprego e, simultaneamente, não perder a esperança na generosidade humana.
Com realização e argumento dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne ("Rosetta", "O Silêncio de Lorna" ou "O Miúdo da Bicicleta"), uma história dramática sobre solidariedade, que conta com Marion Cotillard e Fabrizio Rongione como protagonistas.



CRÍTICA
O sol, lá fora, ainda brilha. Sandra descansa, o telefone toca, insistentemente. Sandra, renitente, levanta-se e atende. Entretanto o forno dá sinal e a tarte está pronta. O dia corre normalmente até que se contrariam as lágrimas, em vão. A vida pode mudar a cada segundo, sem qualquer tipo de aviso. Resta lutar com as (poucas) forças que restam.
É desta forma crua que os veteranos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne filmaram a primeira cena de “Dois Dias, Uma Noite”, um fantástico e tocante drama que tem como figura principal (a belíssima) Marion Cotillard no papel de Sandra, uma mulher casada e com dois filhos que tenta salvar o seu emprego depois de os seus colegas terem optado por receber um bónus de mil euros em detrimento do lugar do seu posto de trabalho na Solwal, uma empresa de painéis solares.
O dilema fora colocado pelos responsáveis da empresa que depois do afastamento de Sandra devido a uma depressão de origem nervosa constataram que o volume de trabalho pode ser assegurando sem um dos colaboradores, ainda que com esforço acrescido de cada qual. Essa decisão coloca os colegas de Sandra no difícil lugar de “escolher” entre o bónus e Sandra, que finalmente se sente em condições psicológicas de regressar ao trabalho.
Esse forte revés é-lhe comunicado por Juliette (Catherine Salée) e resta a Sandra tentar durante o fim de semana convencer os colegas a mudarem de opinião, depois de conseguir a concordância do gerente da empresa para se realizar outra votação.
Desesperada, Sandra tenta salvar o seu posto de trabalho e enceta uma terrível demanda. Do seu lado está o marido Manu (Fabrizio Rongione) que encoraja a muito fragilizada esposa a falar com os colegas. São necessários nove votos para Sandra manter o trabalho mas o que a ainda funcionária da Solwal tem para oferecer “em troca” aos seus colegas é apenas a sua angústia e ansiedade.
Essa terrível situação leva Sandra a voltar a sentir sintomas depressivos e sente constrições na garganta chegando a perder a capacidade de falar, hiperventila e a única “salvação” assume a forma de um conhecido antidepressivo. Não é apenas o emprego de Sandra que está em jogo, é o seu casamento, a sua vida.
A dificuldade de Sandra é acrescida pois durante o fim de semana é mais difícil encontrar os camaradas e suas famílias. Alguns dos seus colegas aproveitam os dias de descanso para conseguirem mais dinheiro pois a vida é complicada. O desemprego assola algumas destas famílias que têm nos mil euros de bónus um precioso aliado para colmatar as crescentes necessidades. Conseguirá Sandra o seu objetivo?
Com uma simplicidade desarmante, os irmãos Dardenne transformam “Dois Dias, Uma Noite” em um dos mais emblemáticos filmes deste ano e a sua participação na mais recente edição do Festival de Cannes pode ser sinónimo de grande sucesso não só pelo filme em si como através do magnífico trabalho de Cotillard.
Anteriormente galardoados com a Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005), Jean-Pierre e Luc Dardenne oferecem ao espetador uma brilhante estória de cariz realista e social que se assume como uma tensa narrativa que vem mais uma vez revelar a mestria da sua capacidade de filmar pessoas “comuns” em situações “comuns”.
É com essa ímpar arte – que nos remete para, por exemplo, alguns dos momentos mais brilhantes do britânico Ken Loach, – que os Dardenne conseguem transformar “Dois Dias, Uma Noite”, em um filme que espelha a ténue linha que separa a solidariedade do ato (desesperado) da necessidade, trabalhando um personagem no seu limite emocional que tenta esconder o seu desabar face a uma intensão de resgatar uma maioria democrática que resulta de uma votação manipulada e suja que coloca em rota de colisão colegas de trabalho, familiares chegados, famílias à beira da rutura.
A simplicidade (e extrema competência) da trama encontra um poderoso aliado na câmara de Jean-Pierre e Luc Dardenne que acompanha Sandra na sua provação derivando de planos estáticos para outros cuja ligeiríssima oscilação faz sentir o espetador como parte do drama sentido a partilha de uma realidade filtrada pelo grande ecrã.
Para além disso, nunca é demais referir, outro dos grandes pilares da consistência de “Dois Dias, Uma Noite” é a extraordinária entrega de Marion Cotillard que a encaixa na perfeição em um dos mais austeros e difíceis papéis criados pela dupla belga. Sandra mistura traços de uma dignidade e contenção assombrosas e a sua técnica de atuação é deslumbrante – a cena em que está ao telefone com um dos primeiros colegas (no caso, Kader) com que tenta tornar seu aliado na votação é de um dramatismo extraordinário pela forma como a atriz se entrega e trabalha a ação, os silêncios, as pausas, a concentração. O seu rosto espelha a amargura, convence e comove, tal como um filme em si que figurará, seguramente, nas listas dos melhores do ano.
Carlos Eugénio Augusto, http://www.ruadebaixo.com/dois-dias-uma-noite-14-11-2014.html

ENTREVISTA
Estamos uma vez mais em Seraing, nos arredores de Liège, na pequena cidade belga em que Jean-Pierre e Luc rodaram quase todos os seus filmes, desde “A Promessa” e “Rosetta”. Há uma fábrica de painéis solares, e uma empregada para despedir, Sandra. Ela recebe o telefonema na sexta. Na segunda seguinte, ordens do patrão (ao que chegou o capitalismo), os colegas dela votam o seu futuro: e se ela for para a rua, há mil euros de bónus para cada. Destemida, com todos ela falará, um por um, para que escolham a sua permanência — até a lengalenga quase se tornar oração. Esta foi a quinta vez que entrevistei os Dardenne e nenhuma entrevista foi igual, tal como acredito que nunca eles fizeram dois filmes iguais. Não falta agora gente a apregoar o contrário — enquanto promovem coisas atrozes. Dizem que os belgas se repetem. Mas eles estão fortes. Ainda combatem pelo mundo. Sabem o que estão a fazer. E têm os pés na terra.
Os vossos filmes estão baseados na repetição incessante das cenas nos ensaios mas já me disseram em tempos que esta ‘fórmula’ aparente varia sempre de filme para filme, e consoante os atores com que trabalham. Como é que correu no caso de “Dois Dias, Uma Noite”?
Luc Dardenne — Fizemos ainda mais repetições desta vez! Mas há muito a dizer antes de chegarmos à resposta da sua pergunta. A primeira coisa que tenho a salientar é que Marion Cotillard queria tanto fazer este filme connosco como nós com ela. O desejo foi recíproco. Acontece que ela é hoje, como todos sabem, uma star do cinema europeu e talvez a maior do cinema francês. E o que lhe era exigido é que fosse ela a vir ter connosco, ou seja, para o nosso território de trabalho. Também aqui creio que a troca foi mútua já que esperávamos igualmente que ela trouxesse coisas novas ao nosso trabalho, o que aconteceu. Por outro lado, sempre tivemos a esperança de que ela chegasse ao set sem ‘imagens’ do seu passado. Isto é: fizemos o filme sem nos lembrarmos um segundo da grande atriz que ela é e dos filmes que já fez. Foi como se quiséssemos simular uma espécie de ‘virgindade’ para Marion Cotillard enquanto atriz e representante da moda — e ela compreendeu isso imediatamente. Uma vez definidos e assimilados estes pontos, começámos os ensaios.
Recearam que Marion não fosse capaz de se adaptar ao vosso sistema?
L.D. — Receámos, não o vou esconder, que ela resistisse aos métodos de trabalho que apurámos. Normalmente, quando um ator trabalha pela primeira vez com um cineasta, esconde-se. Mantém uma distância cautelosa. Procura não dizer nada que o comprometa. Nós também, aliás. Já o sabemos pela experiência e sabemos também que temos de ser sinceros acima de tudo. E quantas vezes já nos enganámos e tivemos que dizer a um ator ou uma atriz, “desculpe, mas isto não vai funcionar...” Felizmente, com ela, a relação humana tornou-se forte desde o primeiro momento e, nos ensaios, aceitámos as suas sugestões à medida que ela ia aceitando as nossas. Não vejo que pudesse ter sido de outra maneira, aliás. A definição deste ambiente de entreajuda, digamos assim, foi também muito importante na relação com os outros atores, maioritariamente não profissionais, porque estes tinham uma tendência natural a olhar para Marion corno a star — lá está: e isso prejudicava o filme. Marion não tinha motorista em “Dois Dias, Uma Noite”. Não havia ninguém a maquilhá-la. Nem os outros atores estavam lá apenas para lhe dar a réplica. Quer dizer, ela estava em quase todos os planos, é claro que ensaiámos mais com ela do que com os outros, mas todos se encontravam em pé de igualdade.
È nos ensaios que vocês encontram os planos?
LD. — Exatamente. É o movimento dos corpos dos atores nos décors que nos indica qual vai ser a posição da câmara. Trabalhámos muito aqui, sabíamos que tínhamos muitas cenas de interiores, tirámos apontamentos. É nos ensaios que ‘vestimos’ as pessoas. “Esta cor vai melhor aqui, aquele tapete tem de sair dali, é preciso empurrar um pouco aquele armário para o fundo, etc...” Ou seja: os décors e o guarda-roupa descobrem-se ao mesmo tempo que se pensa a mise en scène, é isto que quero dizer. Última coisa: não sei se já lhe disse isto em tempos mas nós começamos sempre por filmar as cenas mais físicas. Como cair, como correr, como lutar... Ou, às vezes, coisas tão simples como isto: como é que uma mulher tira o telemóvel do seu saco? Há muitas maneiras de uma mulher tirar um telemóvel de um saco... É nestas cenas que sentimos se um ator está preparado. É nestas cenas que descobrimos se ele ou ela vão conseguir ou não ser a personagem.
Acham que, ao filmarem com uma atriz como Marion Cotillard, ou com Cécile de France em “O Miúdo da Bicideta”, o vosso filme anterior, a perceção que os espectadores têm do vosso cinema se altera? Algumas vozes já disseram aqui em Cannes que um filme vosso com Marion não pode ser um Dardenne puro. Esquecem-se que Rosseillini foi atacado pelo mesmo motivo há mais de 60 anos quando começou a filmar com Ingrid Bergman...
Jean-Pierre Dardenne — Isso não é um dilema para nós. Não somos Rossellini e Marion Cotillard não vem do norte da Europa!.. Mas é verdade que essa foi uma questão que nos colocámos antes de filmar. Saber se Marion Cotillard iria impedir os espectadores de encontrarem o papel de Sandra. Mas o repto acabou por se tornar o oposto, precisamente: “vamos trabalhar com a Marion até que os espectadores possam encontrar a personagem.” A Marion ‘desaparece’ no filme, com o seu trabalho, com a sua cumplicidade. Eu acho que só a Sandra fica.
Há outro nível neste filme que julgo ser da ordem da moral e da ética e que não deixa de ser um retrato da perversão do capitalismo contemporâneo na fábrica de painéis solares em que Sandra trabalha são os seus colegas operários que decidem se ela vai ou não manter o emprego. A entidade patronal arranjou uma maneira de lavar as mãos como Pilatos. De onde vos veio esta ideia?
J.P.D. — À partida, fomos inspirados por factos verídicos que nos contaram e por artigos de jornal sobre situações semelhantes. Neste ponto, a história do filme é uma síntese de toda a informação que recolhemos sobre o assunto. Infelizmente, trata-se de um assunto muito comum na Europa em que vivemos.
L.D. — Há outra coisa aqui que é fundamental: o cinismo do poder é hoje muito maior do que dantes. No passado, o patrão daquela empresa teria encontrado uma desculpa de secretaria para se esconder ao despedir aquela mulher. Teria encontrado uma solução sem mostrar o que ele pensa. Ao passo que hoje, o patrão ousa dizer: “Estamos a pagar um salário a mais na empresa, não conseguimos decidir quem é que vai para a rua, por isso decidam vocês, trabalhadores...” Como Pilatos, de facto. Isto ainda é mais gritante nas pequenas empresas como aquela, que não têm sindicatos nem secções de recursos humanos. E o medo acaba por tornar conta das pessoas, porque têm dívidas, rendas e creches dos filhos para pagar, etc. O sistema é perverso, como diz: aquele patrão vai atacar os trabalhadores arrasando o espírito de solidariedade que possa existir entre eles. Veja como é feita a votação que decide a permanência de Sandra: através de voto secreto. Numa fábrica dos anos 70, isso seria impossível. Nessa altura, cada voto seria a mão levantada de cada um, às claras.
È por isso que Sandra se bate? Pela solidariedade?
J.P.D. — No início, não. Talvez sô pense em manter o emprego porque precisa do dinheiro como do pão para a boca. Ela está deitada no primeiro plano. Está cansada. Mas ao longo daquele fim de semana, ela vai tomar consciência do que se está a passar e vai erguer-se. E percebe que a solidariedade é um ato moral.
O que mais preservam nos vossos fllmes?
J.P.D. O tempo de trabalho. Um equilíbrio entre meios e fins. E já que falamos de dinheiro, quero dizer que os nossos orçamentos nunca foram e provavelmente nunca serão faraónicos. Não o queremos. Não gastamos um euro em prestígio e odiamos o glamour. Não queremos jornalistas no plateau durante a rodagem, mesmo aqueles de que gostamos: invariavelmente, mandamo-lo embora. Somos económicos. Pagamos bem a toda a gente, sempre a tempo e horas, somos exigentes com a nossa equipa. Trabalhamos com técnicos que conhecemos e que moram na região em que filmamos, isso ajuda. Hoje, podemos ensaiar seis semanas co os atores e ter rodagens de 50 dias. É confortável. É um luxo que muitos cineastas não têm. Mas o luxo do tempo é o mais precioso.
L.D. — Dito isto, se você estiver em Seraing no nosso próximo filme, não fique com medo e apareça. Será bem recebido. Desde que não faça perguntas.
Que filme é esse?
L.D. — Ainda não sabemos, mas se tiver uma boa ideia... Nós pagamos.
Vasco Baptista Marques, Expresso, 22/11/14