O OUTRO LADO DA ESPERANÇA | 23 JAN | TEATRO DAS FIGURAS | 21H30


O OUTRO LADO DA ESPERANÇA
Aki Kaurismäki
Finlândia/Alemanha, 2017, 100', M/12
 
FICHA TÉCNICA
Título Original: Toivon tuolla puolen
Escrito e realizado por Aki Kaurismäki
Montagem: Samu Heikkilä
Fotografia: Timo Salminen
Interpretação: Sherwan Sakari, Haji Kuosmanen, Ville Virtanen, Dome Karukoski , Tommi Korpela
Origem: Finlândia/Alemanha
Ano: 2017
Duração: 100'

 

FESTIVAIS
Festival de Berlim - Urso de Prata - Melhor Realizador
Grande Prémio da Crítica Internacional (FIPRESCI) 2017 - votado por 576 críticos de cinema de todo o mundo



TRAILER

CRÍTICA


O desencanto com os “tempos modernos”: o retronos filmes de Kaurismaki não é uma questão de decoração mas antes a expressão de uma “filosofia”.
O Outro Lado da Esperança também é o outro lado de Le Havre, o filme anterior de Aki Kaurismaki. Recorde-se: Le Havre era o filme inicial de uma anunciada “trilogia portuária” (é assim que tradicionalmente Kaurismaki pensa a sua obra, em grupos de três filmes), e estando-se nessa altura em 2011 vinha já dominado por aquilo a que mediaticamente se chama a “crise dos refugiados”. O “Havre” de Kaurismaki era um ponto de passagem, um porto de abrigo temporário: tudo andava à volta de um miúdo africano que, “clandestinamente” é claro, precisava de atravessar a Mancha para ir ter com a família ao Reino Unido. Depois de 2011 aconteceram coisas que agudizaram essa “crise”, nomeadamente a guerra civil na Síria, e lançaram pela Europa fora a paranóia xenófoba. Kaurismaki, na sequência das manifestações finlandesas dessa paranóia (por exemplo o partido dos “verdadeiros finlandeses” ou lá como se chamava), chegou a declarar-se zangado com os seus compatriotas – e é difícil não concordar com ele sobretudo se pensarmos na geografia finlandesa, país de densidade populacional mínima com vastos segmentos de milhares de quilómetros quadrados onde só há renas, pinheiros e a ocasional sauna para madeireiros.


Portanto, e abreviando, depois da incursão francesa este é o filme de Kaurismaki para os seus compatriotas, e o porto é o porto lá de casa, o de Helsínquia. Não é um ponto de passagem, é um destino, o destino escolhido por Khaled (que nas primeiras imagens vemos a levantar-se das lamas e dos lodos, como o Martin Sheen do Apocalypse Now ou como uma criatura da lagoa negra), que atravessou meio continente desde a Síria, perdeu a irmã pelo caminho algures nos Balcãs (o resto da família morreu em casa, em plena refeição, atingida por um míssil não se sabe se disparado “pelo Assad, pelos rebeldes, pelos russos, pelos americanos ou pelo Daesh”), e achou Helsínquia um sítio simpático e acolhedor. E como não? A Helsínquia de Kaurismaki não é bem Helsínquia, de que ele aliás tinha pintado um retrato gélido em Luzes do Crepúsculo, o seu último filme finlandês; é uma versão de cinema, uma terra idealizada, um mundo onde praticamente toda a gente preservou um sentido fundamental de decência e solidariedade, onde a nobreza é uma questão de carácter, e onde por cada “skinhead” apostado em fazer mal ao herói Khaled se levantam quatro ou cinco em sua defesa (muito bonita, a cena em que os meliantes que atacam Khaled são corridos à pancada por um grupo de estropiados e sem-abrigo).
É aí que a história de Khaled se cruza com a história de Wikstrom, interpretado por um velho kaurismakiano, Sakari Kuosmanen. Wikstrom é um homem à procura de uma vida nova – farto de vender camisas, farto da mulher (fabulosa sequência inicial aquela em que ele sai de casa, numa série de planos rápidos e expressivos onde ninguém, nem ele nem a mulher, diz uma palavra, e percebemos tudo o que há a perceber sobre o casal), resolve juntar às economias os ganhos de uma noite no poker e comprar um restaurante. Será ele a acolher Khaled entre os seus empregados e, com a ajuda de um miúdo “hacker”, a garantir-lhe a documentação correcta depois de o pedido de asilo ser recusado. Porque também Kaurismaki podia ter como moral que “quando a lei não é justa a justiça passa antes da lei” (como se dizia no Filme Socialismo de JLG), e porque Wikstrom reconhece em Khaled um tipo de clandestinidade, ou de marginalidade, semelhante à sua: é um homem de outro tempo desencantado com os “tempos modernos”, o “retro” nos filmes de Kaurismaki não é uma questão de decoração mas antes a expressão de uma “filosofia” (e o restaurante serve para uma série de gags gourmet, oscilando entre o sushi, a comida indiana e o que quer que esteja na moda e sirva para os clientes irem aparecendo), e porque o carácter policial e metediço do “estado” ameaça um e outro da mesma maneira, como se vê na visita ao restaurante da espécie de ASAE lá do sítio. É sempre esse “o lado da esperança” em Kaurismaki, o lado dos que estão à margem, e por isso também não faltam os vários números de “rock” interpretados por velhos “rockers” finlandeses de rostos que hesitamos como descrever, se tristes se abençoados por uma espécie de felicidade “zen” que consiste no alheamento total,  na absoluta marginalidade. Este é o humanismo de Kaurismaki, muito básico, muito idealista. E uma vez garantido, até pode brincar com os estereótipos da xenofobia e da islamofobia: “vamos lá beber uma cerveja ou lá que raio bebem estes infiéis”, diz a certa altura Khaled ao seu amigo iraquiano.
, Público


GOOD TIME | QUINTA-FEIRA 18 JAN | 21H30 | IPDJ



GOOD TIME
Josh e Benny Safdie
EUA, 2017, 101', M/16


FICHA TÉCNICA
Realização: Ben Safdie e Joshua Safdie
Argumento: Ronald Bronstein e Josh Safdie
Montagem: Ronald Bronstein e Benny Safdie
Imagem: Sean Price Williams
Música: Daniel Lopatin
Interpretação: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi
Origem: EUA
Ano: 2017
Duração: 101’
 

FESTIVAIS E PRÉMIOS
Festival de Cannes - Selecção Oficial




CRÍTICA

Já tínhamos saudades de filmes assim, com assaltos a bancos a darem para o torto e correrias loucas de bandidos vulneráveis, com o ponto de vista da câmara sempre a incidir não no poder, não na polícia e no paternalismo, mas em quem os desafia, do primeiro ao último fotograma — e com uma fé inabalável num cinema de género capaz de entreter e comover em simultâneo. Josh e Benny Safdie, manos de Nova Iorque nascidos nos eighties, autores que nos habituámos a seguir há uma dúzia de anos desde as primeiras curtas (são conhecidos cá pelo saudoso "Vão-me Buscar Alecrim", de 2009), mostraram em Cannes, em maio passado, este filme vibrante em que se sente que cada segundo de vida é realmente vivido como se fosse o último. Ter Nova Iorque como pano de fundo ajuda e os Safdie conhecem-na como a palma das mãos. Rodado em Manhattan e nos seus arrabaldes fervilhantes e nada turísticos (a norte, em Queens, onde os Safdie cresceram), "Good Time" é também um filme de imersão na cidade agreste, suja e dura tal como certos heist movies da Nova Hollywood ali se fizeram no século que passou, dos anos 70 e 80 de Lumet e de Scorsese aos diabólicos anos 90 de Abel Ferrara e nesse sentido, é coisa bastante oldfashioned, a contracorrente dos thrillers asseados que os EUA produzem hoje.
À nossa frente, quase desde o primeiro plano, surge-nos Connie Nikas, que acaba de sair da choça nesse "good time" irónico do título — jargão americano que, em linguagem para condenados, significa liberdade condicional. Cara de poucos amigos, blusão encarnado desportivo e gorro sobre boné para não dar nas vistas, Connie tem um irmão mais novo, Nick Nikas. Pouco ou nada vamos saber do passado deles, se outros laços de sangue existem ainda no mundo além dos que os unem — e que Josh e Benny vão na ficção testar ao limite. Sabemos, sim, que Nick sofre de um distúrbio emocional que lhe exige atenção médica. Mas Connie tem outros planos, quer arrancar o irmão dos hospitais, das salas de psiquiatria, dos jogos de palavras e de associações que lhe recordam a avó e a infância. Num ápice, surge um assalto a um banco (um dos mais eficazes de que me lembro no cinema, em que a ameaça é só sugestão), é preciso dólares para 'cavar' dali. Deste salto brusco, em montagem de nervo, caímos noutro: o golpe corre mal, Nick é apanhado, apanha uma tareia e vai parar ao hospital. Mais não se conta...

Em Cannes, falámos com os Safdie, à velocidade deles, isto é, a 100 à hora, como no filme. A paixão deles por cada plano recorda-nos as entrevistas com Tarantino. Isto de termos um filme feito por dois irmãos em que um deles (Nick/Benny Safdie) também interpreta "é coisa complicada" , acrescenta Josh: "Quando o meu irmão se ri na rodagem eu rio, quando ele chora, eu choro, porque sei que muito disto vem da nossa infância, com divórcios de pais, violência e suicídios que nos traumatizaram. O Benny estava sempre a entreter-me com as suas performances em miúdo, eu ripostava com as minhas e sempre achei que ele era o melhor ator dos dois. " A personagem de Nick vem de longe, contou-nos Benny. É um tipo complicado emocionalmente, não expressa as emoções. "He's hard to crack. Em 2010, estive para entrar num filme do Ronald Bronstein [coargumentista de quase todos os filmes dos Safdie, incluindo "Good Time"] e desenvolvi esta personagem, que era então uma versão juvenil do Nick. O filme não se fez mas a personagem ficou. O Nick é uma parede a nível emocional, engole tudo. E torna-se um dique prestes a rebentar.”

Os Safdie têm um método de trabalho curioso: escrevem ao detalhe as biografias de cada uma das suas personagens, embora quase nada disso chegue sequer ao guião. No set, interessa-lhes a energia dos planos, um caos controlado que cede muito pouco à improvisação (embora tudo pareça espontaneidade e explosão de primeira take). Em simultâneo, são apoiados por um casting nada tradicional que vai respigar muitos dos seus não-atores nos locais de rodagem e por um diretor de arte [Sam Lisenco] que se mexe em Nova Iorque como ninguém ("é um tipo de Brooklyn que está na 'família' há muito tempo' esclarece Benny. "Ensinou-nos que é a olhar para o chão, para os passeios e bocas de metro, que se conhece uma cidade"). A música é outro triunfo do filme e deve-se ao génio eletrónico de Oneohtrix Point Never (aka Daniel Lopatin), "um gajo muito intelectual que podia ter sido um compositor judeurusso noutra encarnação" , diz Josh. "Foi o nosso diretor de fotografia, Sean Price Williams [no seu primeiro trabalho em 35 mm] quem o indicou. Os 45 minutos que compôs para nós até à canção final [interpretada por Iggy Pop] são outra personagem do filme. "
Nova-iorquino como poucos, "Good Time" tem outra peça que à partida não encaixava em Nova Iorque: é o ator que faz de Connie ("o fuck up da família, a semente má" , diz Benny): Robert Pattinson. O ator britânico, que se esmerou a afinar o sotaque yankee e arranca uma performance sublime, é o coração do filme. "Nenhum de nós tinha visto 'Twilight' e não lemos revistas de bisbilhotices" , diz Josh. "Foi ele que nos procurou. Quando o encontrámos em Los Angeles, parecia um soldado ferido, traumatizado pela fama. Ele é famoso, mas não tira gozo nenhum em ser uma celebridade. Disse-nos que fizéssemos dele o que quiséssemos. Vestimo-lo como no filme e o Benny foi com ele lavar carros numa bomba de gasolina para um teste de câmara, um dia inteiro. Não dissemos a ninguém que estávamos a filmar e ninguém em Nova Iorque o reconheceu. O Robert foi meticuloso, obsessivo, sedento. Deu-nos brava luta até ao fim. Acho que este era o papel que lhe faltava para romper com qualquer coisa dentro dele”.
Francisco Ferreira, Expresso