MEKONG HOTEL | 3 NOVEMBRO | Escola Superior de Saúde | 21h30


MEKONG HOTEL
Apichatpong Weerasethakul
Tailândia/Reino Unido,  2012, 57',M/14 


FICHA TÉCNICA
Realização, Montagem e Produção: Apichatpong Weerasethakul
Interpretação: Jenjira Pongpas, Maiyatan Techaparn,Sakda Kaewbuadee, Chai Bhatana,Chatchai Suban
Música: Chai Bhatana 
Som: Chalermrat Kaweewattana 
Origem: Tailândia/Reino Unido
Ano: 2012
Duração: 57'



FESTIVAIS
Festival de Cannes




CRÍTICAS
Como em O Tio Boonmee..., os fantasmas de Apichatpong entram nos planos de Hotel Mekong sem introdução prévia ou distinção formal. Como no filme anterior, o enquadramento dos fantasmas em planos fixos - de perfil quase documental - motiva a suspensão da realidade inteligível, ao dispor a matéria e o espírito no mesmo plano da existência. Os fantasmas - que em Hotel Mekong são de carne e osso - interagem no plano com as outras personagens, e é dessa interação que nasce o espaço de indistinção a partir do qual o tailandês edifica os seus filmes. 
 A convivência, no plano, de humanos e fantasmas - ou de matéria e espírito - parece aludir a uma sobreposição de linhas de tempo: Já passaram quase seiscentos anos, diz o fantasma. A relação entre eles - humanos e fantasmas - é ambígua, e é o facto de existir um espaço comum - o Hotel Mekong - que os aproxima. Como em outros filmes de Apichatpong, os fantasmas são propriedade do espaço, e aquilo que os planos captam é a reunião desfasada de duas linhas de tempo nesse mesmo espaço. A imaterialidade dos fantasmas é realçada por Apichatpong através do tratamento do som. As notas de guitarra que ouvimos inicialmente atravessam, tal como um fantasma, todos os planos do filme, conferindo unidade às várias sequências e saltos temporais.
O filme é belíssimo quando consegue coordenar a eloquência dos quadros fixos com a sugestão subtil de uma presença espiritual. Isto é, quando a presença do espírito acorre à imagem sem referência ou enquadramento diretos. Não são tão felizes os episódios viscerais, em que o fantasma materializado devora as entranhas dos humanos. A materialização do espírito retira profundidade às imagens e, nesses planos, tudo se torna menos interessante.

João Carpinteiro, c7nema.net




Estamos num hotel em Nong Khai, no curso do rio Mekong, que traça a fronteira entre a Tailândia e o Laos. Naquela fronteira, a paisagem é idílica e a água corre em doce calmaria, propícia aos amantes de jet-ski. Mas já por ali correu sangue e ainda são visíveis os seus vestígios. Não estamos longe de Khon Kaen, onde Apichatpong Weerasethakul rodou os seus filmes mais recentes: “Syndromes and a Century”, “O Tio Boonmee...”. Continuamos (e desculpem a precisão geográfica) nesse vasto e misterioso nordeste em que o tailandês cresceu e que elegeu há muito como território do seu trabalho. Para os iniciados neste ‘continente’, recorde-se que os fantasmas que Apichatpong tantas vezes convida à sua mesa refletem toda uma história política recente do país que acumulou massacres sobre massacres (desde a chacina dos comunistas às mãos do exército naquele mesmo nordeste, nos anos 60). A sua filmografia ergueu-se a esta escala abissal. Há personagens que passam de filmes para outros. Os pesadelos não pedem licença para entrar aqui.
Nem a mágoa.
Resultado de uma encomenda do canal franco-alemão Arte, “Mekong Hotel”, rodado em vídeo, data já de 2012 e não chega a uma hora de duração. Poderá ser visto como um intermezzo na obra de “Joe” (é este o crisma de Apichatpong no Ocidente), um blues menor entre dois filmes maiores, “O Tio Boonmee...” e o novo, sublime, “Cemetery of Splendor” (acabado de estrear em Cannes 2015). No hotel em que tudo decorre, há vários tempos sobrepostos sobre um mesmo pretérito imperfeito, delicado e dolente. A região foi recentemente assolada por inundações catastróficas. Duas mulheres, Jen (Jenjira Pongpas, atriz recorrente do cineasta) e a filha Phon (Maiyatan Techaparn), foram tomadas pelos “Pob”, fantasmas canibais que se apoderam de animais e pessoas e se alimentam das suas entranhas. O próprio Apichatpong, numa aparição pouco comum, invade a ficção interpelando um amigo guitarrista (Chai Bhatana) que não se recorda mais da música que compôs, mas cujos acordes acompanharão o filme do início ao fim.
A story é vaga? Contada assim... E, no entanto, é preciso atravessar esta experiência hipnótica para nos darmos conta do que está aqui em jogo. Jen pode até ser um fantasma canibal e secular mas ainda se recorda de quando, ainda menina, o exército tailandês lhe pôs uma espingarda M-16 na mão; ainda se recorda do êxodo dos laosianos da Tailândia, dos casais obrigados a refugiarem-se em França, das histórias de amor quebradas à força entre as duas margens daquele rio; em suma, de todo um passado de culpa que se lamenta e se contempla, ao mesmo tempo que se exorcisa. “Podes esquecer o meu nome, mas não o meu rosto”, diz logo no início Phon a Tong outra provável história de amor que acaba possuída e se devora. No fundo, é disto que “Mekong Hotel” nos fala: de uma fratura exposta ainda tão visível mas que já não se consegue nomear. Da necessidade de continuar a viver num tempo em que os traumas do passado, ainda por sarar, continuam a descer o rio. A essa dor, deu “Joe” em “Mekong Hotel” uma melodia.
Francisco Ferreira, Expresso, 13/6/15

BANDO DE RAPARIGAS | 27 OUTUBRO | ARTISTAS | 21H30


BANDO DE RAPARIGAS
Céline Sciamma
França, 2014, 113’, M/14


FICHA TÉCNICA
Título Original: Bande de Filles
Argumento e Realização: Céline Sciamma
Fotografia: Crystel Fournier
Montagem: Julien Lacheray
Produção - Bénédicte Couvreur
Interpretação: Assa Sylla, Karidja Touré, Lindsay Karamoh, Mariétou Touré
Ano: 2014
Origem: França
Duração: 113´


FESTIVAIS E PRÉMIOS

Festival de Cannes 2014 – Quinzena dos Realizadores
Prémios César 2015 – 4 nomeações, incluindo Melhor Realizadora
Finalista do Prémio LUX da Comissão Europeia
Festival de San Sebastián – Prémio TVE Outro Olhar


CRÍTICAS
A terceira longa de Sciamma instala-se num subúrbio de Paris, para seguir uma adolescente negra que vive sufocada pelo seu contexto. O início do filme limita-se, aliás, a situar a personagem no seu meio, conduzindo-nos pelas ruas (dominadas pelos rapazes), pela escola (que nada lhe promete) e pelo apartamento da sua família (liderada pelo seu tirânico irmão mais velho). Haveria aqui terreno para o lugar-comum sociológico, mas, felizmente, Sciamma despacha a descrição do contexto (sempre presente em fundo) num par de pinceladas. O que cativa a câmara é, ao invés, a possibilidade de mostrar como a protagonista tenta libertar-se do seu mundo.
Trata-se de um desejo que cedo a levará a juntar-se ao bando de raparigas do título, formado por três though girls (todas interpretadas por não-atrizes) que à escola preferem a evasão (vaguear pelos centros comerciais...). A partir daqui, o filme encetará um constante movimento de vaivém entre o pessoal e o coletivo, para verificar como a protagonista depressa encontra no universo paralelo do gangue uma nova amarra à sua liberdade. Mas, mais do que a história, o que é sublime, aqui, é o modo como Sciamma fica sempre à altura das personagens, nunca caindo na tentação de trair os seus pontos de vista. É uma exigência de fidelidade que se nota, em especial, na construção dos diálogos, que, no caso, primam pela sua vitalidade (como se cada palavra saísse em estado bruto da boca das raparigas).
Uma bela surpresa, portanto. 
Vasco Baptista Marques, Expresso, 29/8/15



Costuma dizer-se “à terceira é de vez”. E, ao terceiro filme, a francesa Céline Sciamma arranca uma das obras mais inteligentes e certeiras que vemos este ano, naquela que é também a sua estreia em salas portuguesas (às quais Naissance des Pieuvres, de 2007, e Maria-Rapaz, de 2011, nunca chegaram, o último tendo ido directo para video).
Subversão procurada e inteligentíssima do “filme-manifesto social”, Bando de Raparigas recusa toda e qualquer condescendência no seu retrato de uma adolescente dos subúrbios parisienses cuja timidez esconde uma determinação brutal a escapar à condição a que o “sistema” parece querer condená-la — condição feminina, condição africana, condição de cidadã “de segunda classe” sem futuro nem saída.
Bando de Raparigas é um filme de descoberta e de criação de uma identidade, de uma miúda que se faz mulher à nossa frente, contado com uma energia e uma sensibilidade que viram de cabeça para baixo todos os lugares-comuns a que o cinema social costuma prestar-se. Bastaria a célebre cena do hotel ao som de Rihanna para nos convencer, mas este é um filme que faz sentido como um todo inesgotável.
Jorge Mourinha, publico.pt

TAXI | 20 OUTUBRO | TMF | 21H30

TÁXI
Jafar Panahi
Irão, 2015, 82’, M/12


FICHA TÉCNICA
Realização, argumento, fotografia, montagem e produção: Jafar Panahi
Origem: Irão
Ano: 2015

Duração: 82’

FESTIVAIS
Festival de Berlim - Urso de Ouro Melhor Filme









CRÍTICA
Proibido de filmar durante vinte anos, Jafar Panahi continua a fazer filmes: "Taxi" é mais um extraordinário exemplo da sua tenacidade criativa e artística — foi o vencedor do Festival de Berlim de 2015.
A imagem mostra-nos a sobrinha de Jafar Panahi. Debruçando-se sobre o interior do carro em que o tio a veio buscar à escola, protesta duplamente: primeiro, porque ele está muito atrasado; segundo, porque o tem elogiado junto das colegas (sublinhando o facto de ele ser um "cineasta"), desse modo sentindo-se humilhada por ele aparecer ao volante de um... taxi!
Afinal de contas, no seu filme "Taxi", Panahi conduz ou não um taxi? Sim, sem dúvida — digamos que ele interpreta um motorista que, através dos seus passageiros, nos vai revelando a variedade dos cidadãos de Teerão, envolvendo comportamentos que vão desde a mais violenta arrogância (contra as mulheres) até à defesa da dignidade humana (nas palavras de uma advogada dos direitos humanos).
Ao mesmo tempo, tudo se passa como se entrássemos num infinito jogo de espelhos: Panahi é a sua personagem, típica e artificiosa, mas nunca deixa de ser aquilo que é, observador e cineasta — há mesmo um passageiro que o trata pelo nome e lhe diz, sorridente, que percebeu que ele anda a fazer um filme...
Há outra maneira de dizer isto: o exercício de alegre desmontagem do cinema enquanto dispositivo de representação funciona também como um gesto de afirmação artística face às condições em que Panahi tem sido obrigado a viver. De facto, em 2010, ele foi condenado pelas autoridades iranianas a seis anos de prisão domiciliária, estando também proibido de filmar durante vinte anos.
Distinguido com o Urso de Ouro do Festival de Berlim, "Taxi" é o terceiro filme que Panahi realiza nestas drásticas condições, depois de "Isto Não É um Filme" (2011) e "Closed Curtain" (2013). Na sua metódica deambulação pelas ruas, estamos perante um gesto de admirável afirmação de liberdade criativa, celebrando o cinema como essa vontade indomável de olhar o mundo à sua volta — mesmo não saindo do espaço exíguo de um taxi.
João Lopes, rtp.pt/cinemax


TIMBUKTU | 13 OUTUBRO | ARTISTAS | 21H30

TIMBUKTU
Abderrahmane Sissako 
França/Mauritânia, 2014, 97', M/14


FICHA TÉCNICA
Realização: Abderrahmane Sissako 
Argumento: Abderrahmane Sissako e Kessen Tall
Fotografia: Sofian El Fani 
Montagem: Nadia  Ben Rachid  
Música: Amine Bouhafa
Interpretação: Ibrahim Ahmed (Pino),  Toulou Kiki, Abel Jafri,  Fatoumata Diawara, Hichem Yacoubi,  Kettly Noël,  Mehdi AG Mohamed,  Layla Walet Mohamed, Adel Mahmoud, Cherif  Salem Dendou
Origem: França/Mauritânia
Ano: 2014
Duração: 97'




FESTIVAIS E PRÉMIOS
Oscares - Nomeado para melhor filme estrangeiro
Cannes - prémio François Chalais e prémios Júri Ecuménico
Césares – Melhor filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento, Melhor Música Original, Melhor Som, Melhor Fotografia, Melhor Montagem



CRÍTICAS
A primeira memória que “Timbuktu” nos deixa é a das esculturas africanas destruídas à bala por um grupo de atiradores, em estado mais lúdico e eufórico que justiceiro ou fanático — e está aí a queda de Palmira às mãos do Estado Islâmico, para uma ligação tão imediata que parece feita a propósito. Não é, “Timbuktu” está para lá de um simples filme- denúncia sobre a estúpida barbárie do fundamentalismo que se reclama do profeta, mas é apenas lerdo e blasfemo (há um plácido imã que tenta chamar os jiadistas à razão dizendo-lhes isto por palavras indiretas). É um mosaico complexo, onde se começa por perceber que a doçura de viver está na mira dos novos mandadores: é proibido estar sentado à porta, ao fim de tarde, a fazer nada... Depois vê-se que a violência dos fundamentalistas se exerce em todos os aspetos da vida social — fumar é banido, as mulheres têm de usar luvas e meias, o futebol e a música são interditos, o adultério é punido com lapidação até à morte — mas onde o olhar de Abderrahmane Sissako nunca se compraz. Nem um dos vários momentos-choque dura — e o apedrejamento do casal adúltero, enterrado na areia só com as cabeças de fora, às quais se arremessam pedras, bem podia servir para um longo e pornográfico arrepio coletivo da plateia. Só que isso seria pactuar com o espetáculo da violência orquestrado pelos perpetradores do terror. Não o fazer é uma declaração ética. Como ético é o uso sapiente do humor — veja-se a cena do futebol sem bola, certamente só possível graças aos processos digitais que hão de ter permitido obliterar a bola da imagem — ou da magia de uma mulher exuberante que reclama ter vindo do Haiti por artes de mistério e que introduz um gesto fantástico, quase uma resistência cultural de raiz abstrata no seio de uma realidade sinistramente prosaica de quem lê o Corão à letra, sem lhe adivinhar nem o espírito nem a poesia. Combate-se o fundamentalismo tornando óbvia a inanidade. E mostrando a beleza. A beleza do deserto, da tenda do protagonista, do rio onde se pesca e o gado mata a sede, dos turbantes, das casas de adobe, do som do alaúde, dos olhos da pequena Toya (Layla Walet Mohamed), 12 anos de vida a maravilhar o mundo.

O mosaico que “Timbuktu” escolhe ser não chega a ter personagens, apenas esquissos, traços essenciais para definir, nada de psicologia. Bastam, porém, para fazer dele um filme coral, um olhar plangente onde nem a gente que sofre é angélica, nem os jiadistas monstros — mas há bem e mal e linhas de demarcação. O-mal, todavia, nunca aniquila a força vital daquele mundo onde Sissako investe a sua esperança. Terá sido isso — e a mise-en-scène exímia? — a cativar espectadores por todo o mundo? Não sei, mas o que é certo é que “Timbuktu” começou por ser aclamado em Cannes, um ano atrás, ganhou sete Césares, entre os quais o de Melhor Filme e Melhor Realização, foi um dos cinco finalistas para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e vem estreando em múltiplos países, da Itália ao México, do Reino Unido ao Brasil.
Jorge leitão Ramos, Expresso, 30/5/15



Condenar o Exército Islâmico sem desumanizar os seus protagonistas: eis a proeza de Abderrahmane Sissako.
Quando praticamente todos os dias chegam notícias ou imagens de mais uma atrocidade cometida pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI), o maniqueísmo parece uma coisa inescapável.
E perante isso, que espaço e que disposição existem para um olhar que, condenado inequivocamente o jihadismo do EI, não desumanize os seus protagonistas? Para um olhar que defenda uma concepção religiosa da existência contra a religiosidade fanática que serve de pretexto às acções do EI?
A surpresa de Timbuktu é que se trata do filme que é capaz desse olhar, e de se instalar nele com uma graça e uma delicadeza que não são contrariadas nem por uma posição política subjacente nem pela brutalidade que, inevitavelmente, tem de retratar. Abderrahmane Sissako é um cineasta de origem mauritana que viveu grande parte da sua vida no Mali. E no Mali, na lendária Timbuktu, se passa o seu filme, durante o período de 2012 em que a cidade esteve ocupada por um grupo jihadista, o Ansar Dine, com ligações ao dito Estado Islâmico. A primeira sequência — uma gazela filmada a correr a alta velocidade pelas areias do deserto, depois se percebendo que está a ser perseguida um jipe que tem desfraldada a bandeira do EI — cria logo um frisson, tal é a maneira como aquele símbolo rapidamente se implantou nos nossos espíritos como expressão de um mal sem freio. Numa estrutura circular, a mesma gazela (ou outra) voltará no fecho, cumprindo a função, anunciada na abertura, de ser um contraponto simbólico — em vida, natureza e liberdade — à obsessiva repressão “jihadista”.
Entre um momento e outro, Timbuktu narra vários episódios da permanência do Ansar Dine na cidade e nas suas imediações, alguns deles inspirados em factos realmente sucedidos. Condenações por motivos insignificantes (ouvir música, jogar à bola), outras por motivos mais sérios. A sequência mais impressionante mostra um casal a ser apedrejado até à morte, e a câmara fica, depois, algum tempo, com a imagem de puro horror que são as suas cabeças ensanguentadas e inanimadas, à superfície da areia, rodeadas de pedregulhos. Mas mais do que nas peripécias e nas descrições dos actos de violência, física ou psicológica, a força de Timbuktu está na maneira como contrapõe a serenidade resistente dos habitantes locais à espécie de incómodo dos ocupantes. São os primeiros que estão convictos do seu modo de vida e do seu modo de encarar a religiosidade, e são os segundos que parecem incomodados com essa convicção, espécie de espelho que não lhes devolve a imagem da sua religiosidade “programática”. A partir daí Sissako pode, de facto, filmar os jihadistas sem lhes evacuar a humanidade, um certo desconcerto, uma sensação de impotência (a sensação de que podem dominar os corpos das suas vítimas mas não dominarão o seu espírito), filmar-lhes sobretudo as reacções — a gestos ou a palavras — onde tudo isto se exprime, e apanhá-los, com um certo sentido de humor muito subtil e muito inesperado, nas suas contradições, como quando os mostra como garotos meio perdidos que no fundo gostam é de futebol ou de rap, ou quando faz um toque de telemóvel — esse sinal de “modernidade” imediatamente anacrónico num mundo desejadamente retrógrado — parecer um gag. Timbuktu é um filme sobre o sacrifício e a resistência, que desmonta (e no fundo, derrota) o jihadismo não por o tratar como uma monstruosidade mas por o tratar ainda como questão de humanidade. Não era óbvio, mas Sissako consegue-o perfeitamente.
Luís Miguel Oliveira, publico.pt/


É DIFÍCIL SER UM DEUS | 6 OUTUBRO | 21H30 | IPDJ

É DIFÍCIL SER UM DEUS
Aleksey German
Rússia, 2013, 170’, M/16


FICHA TÉCNICA
Título original: Trudno byt bogom
Realização: Aleksey German
Argumento: Aleksey German e Svetlana Karmalita, adapatação da obra homónima de Arkadiy Strugatskiy e Boris Strugatskiy
Montagem: Irina Gorokhovskaya
Fotografia: Vladimir Ilin e Yuriy Klimenko
Música: Viktor Lebedev
Interpretação: Gali Abaydulov, Yuriy Ashikhmin, Remigijus Bilinskas, Valeriy Boltyshev
Origem: Rússia
Ano: 2013
Duração: 170’





CRÍTICA
É Difícil Ser Deus foi o último filme de Alexei German (1938-2013), cineasta russo pouco conhecido em Portugal (fora passagens na Cinemateca e na “velha” RTP2), e autor de uma obra, como se costuma dizer, “bissexta” (apenas seis longas-metragens em quase 50 anos de carreira), German começou a rodagem de É Difícil Ser Deus no ano 2000, o filme teve uma gestação complicada e demorada, e o realizador, que morreu no início de 2013, já não assistiu à primeira apresentação pública da sua obra.
Os seus outros filmes são olhares, mais ou menos enviesados, sobre a História soviética, por vezes recorrendo a uma espécie de sátira — como no imediatamente anterior Krustaliov, O Meu Carro!, que visitava a paranóia estalinista.
Este, que pela sua dimensão, a todos os níveis, deve bem ter sido o projecto da vida de German, é algo de substancialmente diferente de tudo o que antes tinha feito. A partir de um romance dos irmãos Strugatsky publicado em 1964, é uma incursão num género com forte tradição no cinema russo/soviético, a ficção científica. Mas, neste caso, uma ficção científica que substitui uma visão do futuro por uma viagem ao passado. É a história de um grupo de cientistas em missão num planeta em tudo semelhante à Terra mas onde o avanço da História “parou” num período semelhante ao da Idade Média.
Para German, mais do que fazer “fazer ficção científica”, trata-se de dar largas a um imaginário, à falta de melhores termos, medievalista, pictórico, grotesco. É muito curioso que nos lembremos, imenso, de outro filme russo, de produção recente, oriundo de um cineasta nem por isso muito próximo de German: o Fausto de Sokurov. No Fausto não era o mesmo período histórico que estava em causa, mas a preocupação era semelhante no que toca ao trabalho sobre a fealdade e sobre o grotesco.
German filma num preto-e-branco soberbo, Sokurov filmava a cores, mas os filmes encontram-se no “levantamento” que fazem de elementos de uma “estética do feio”, inclusivamente colhidos na pintura histórica, sendo evidentes, no caso de German, as “presenças” de Brueghel ou Bosch. É Difícil Ser Deus é um trabalho de bricolage visual impressionante: os longos planos cheios de movimento interno, a câmara sempre móvel a varrer os cenários, uma enorme quantidade de detalhes visuais em cada plano — como se fosse um dos últimos filmes pensados para as dimensões de uma grande tela de cinema. Também é massacrante, até mesmo em termos “poéticos” — o que é que exprime, hoje, este mundo feio e bárbaro, o que valia para a URSS dos anos 60 (quando o romance foi publicado) volta a valer para a Rússia de Putin? Na boa tradição do cinema soviético “indecifrável”, que é a origem de German, o filme não explica nada, é feito para deixar o espectador a matutar. É, em todo o caso, uma experiência impressionante, que tem tudo para dividir os espectadores, entre os que ficarão esmagados e os que ficarão, apenas, exasperados. Outros, porventura menos mas é o nosso caso, ficarão pelo meio termo.
Luís Miguel Oliveira, publico.pt/

VÍCIO INTRÍNSECO | 10 SETEMBRO | Q - ESPAÇO CULTURAL | 21H30

O INFERNO, Carlos Conceição, Portugal, 2011, 20’ 

Numa casa contemporânea, um rapaz tem por função manter a piscina limpa mas acaba por se envolver em actividades comprometedoras.


VÍCIO INTRÍNSECO
Paul Thomas Anderson, EUA, 2014, M/16, 148’

FICHA TÉCNICA
Título Original: Inherent Vice
Realização: Paul Thomas Anderson
Argumento: Paul Thomas Anderson, baseado na novella de Thomas Pynchon
Montagem: Leslie Jones
Fotografia: Robert Elswit
Música: Jonny Greenwood
Interpretação: Joaquin Phoenix, Owen Wilson, Benicio Del Toro
Origem: EUA
Ano: 2014
Duração: 148’
CRÍTICAS

O sonho em forma realista
O cinema como experiência total: Paul Thomas Anderson é um dos grandes narradores do cinema contemporâneo (americano ou não) e "Vício Intrínseco", baseado no romance de Thomas Pynchon, aí está para o confirmar — uma viagem realista e onírica por Los Angeles na década de 1970.
A oposição maniqueísta forma/conteúdo pode (e deve), mais do que nunca, ser contestada. De acordo com uma máxima que vale a pena evocar, a forma é apenas o primeiro dos conteúdos. Que é como quem diz: a construção de uma narrativa (cinematográfica, literária, etc.) envolve já algo de vital na visão do mundo que nela se integra. Paul Thomas Anderson é um desses artistas que nos sabe fazer sentir que o modo de contar as suas histórias é já, em si mesmo, uma parte dessa história. Será preciso recordar "Jogos de Prazer" (1997)? "Magnolia" (1999)? "Haverá Sangue" (2007)?
Aí está o seu novo filme, "Vício Intrínseco", para o demonstrar. Baseado no romance homónimo de Thomas Pynchon, esta é uma viagem, ao mesmo tempo trágica e burlesca, realista e surreal, às paisagens conturbadas de Los Angeles durante a década de 1970. Pretexto: as deambulações mais ou menos erráticas de Larry 'Doc' Sportello, um detective privado não muito ortodoxo, interpretado por um fulgurante Joaquin Phoenix. Por um lado, P. T. Anderson evoca a herança do cinema "noir" dos anos 40, em especial de obras-primas como "The Big Sleep" ("À Beira do Abismo"), realizado por Howard Hawks em 1946 — vogamos no interior de um labirinto em que a máscara menos transparente pode conter a verdade mais radical. Por outro lado, tudo acontece como se nenhuma personagem estivesse segura sobre a sua identidade — sendo o filme uma colisão de muitas solidões, cada uma delas enredada numa narrativa cuja linguagem as outras ignoram. P. T. Anderson filma tudo isso como um sonho paradoxalmente realista, aspecto admiravelmente sublinhado pelas cores quentes, estranhamente "noirs", da fotografia de Robert Elswit. Ao mesmo tempo, a ambivalência de situações e ambientes, sustentada pela música de Jonny Greenwood (Radiohead), parece ter tanto de bailado imaginário de marionetas como de precisão de uma reportagem obsessiva. Não é todos os dias, de facto, que sentimos como o cinema pode ser uma experiência total.
João Lopes, rtp.pt/cinemax




Paul Thomas Anderson confirma ser o verdadeiro herdeiro da "nova Hollywood" em mais um grandíssimo filme.
Na sequência de Haverá Sangue e O Mentor, Paul Thomas Anderson continua a explorar os cantos mais ou menos obscuros da Califórnia do século XX, aterrando agora naquele período indistinto entre fins dos anos 1960 e princípio dos 1970, onde a afluência do pós-guerra dava lugar às contradições da contra-cultura.
Pega no livro homónimo de Thomas Pynchon e faz dele uma espécie de film noir desconstruído, Chinatown visto por uma nuvem de ganza, Raymond Chandler a contar uma história à James Ellroy enquanto tripa em ácido de boa qualidade, onde o detective charrado de Joaquin Phoenix serve de guia para um “fumeiro de vaidades” com uma mulher quase fatal como pretexto. É, outra vez, Anderson a brincar ao “Grande Filme Americano” e a provar no processo que é o herdeiro mais puro e verdadeiro da “nova Hollywood” dos anos 1970. É um grandíssimo filme – e a sua ausência dos Óscares diz tudo sobre ele e sobre o estado da Hollywood de hoje.
Jorge Mourinha, publico.pt/

VOLTA À TERRA | 3 SETEMBRO | 21H30 | Q - ESPAÇO CULTURAL


VOLTA À TERRA
João Pedro Plácido, Portugal, 2014, 78'


Dia 1 Setembro, Antigo Cemitério de Cacela velha, 22h
Dia 3 Setembro, Q - Espaço Cultural - 21h30


FICHA TÉCNICA:
Realização e Imagem: João Pedro Plácido 
Argumento: Laurence Ferreira Barbosa, João Pedro Plácido 
Montagem: Pedro Marques
Com: Daniel Xavier Pereira, António Guimarães, Daniela Barroso, Uzenses
Origem: Portugal
Ano: 2014
Duração: 78’




Festivais & Prémios

Doclisboa’14 – Prémio Liscont e Prémio Escolas/IADE para Melhor Longa-Metragem da Competição Portuguesa
Trento Film Festival - Gentiana de Prata para melhor contribuição técnica e artística
Porto post doc [Portugal, 2014]
Visions du Réel [Suiça, 2015]
ACID Cannes [França, 2015]


CRÍTICAS
Um documentário sobre uma aldeia isolada do Alto Minho. Mas que é afinal sobre um jovem agricultor que ama viver da sua arte agrícola. Ou, talvez, um documentário sobre uma parte de Portugal que ainda vive da partilha da terra e de uma utopia da existência em comunidade. O lugar é Uz, o rapaz é o Daniel. Volta à Terra é uma visão em estado de graça e com um humor aberto pelos "clichés" da vida na terra. E é também uma viagem pessoal do seu realizador, João Pedro Plácido, de regresso à terra da mãe e ao local das suas férias. Sem clichés sobre a visão da "província", Plácido coloca-nos sem filtros no meio da terra e do gado. O filme, de forma orgânica, atravessa-se como um "agrada-multidões". Quem o viu no DocLisboa percebeu o efeito mágico sobre o público. É impossível não ficar tomado por estas personagens...
Rui Pedro Tendinha, dn.pt/


Volta à Terra é um dos fenómenos mais curiosos do cinema português recente: vencedor do concurso nacional do Doclisboa 2014, apresentado no Porto/Post/Doc, tem criado à sua volta uma pequena “vaga de fundo” internacional culminando na sua aclamação em Cannes 2015 onde foi exibido numa das secções paralelas. Há alguma razão para isso: o filme inscreve-se na tendência dos “cinemas do real” que neste momento está no centro dos debates sobre o documentário, no modo como faz um retrato directo, imersivo, sem adornos, da comunidade agrícola da aldeia da Uz. Mas esse olhar intensamente curioso, grandemente centrado na personagem de Daniel, um jovem pastor de uma pureza quase inacreditável, tem algo de distanciamento alienígena, entomológico, de outsider urbano que observa uma realidade alheia. Volta à Terra recorda muito Aquele Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes, mas sem a mesma afeição e a mesma ternura, substituídos pela sofreguidão de registar aquela realidade sem verdadeiramente a resgatar do estatuto de mera curiosidade. 
Jorge Mourinha, publico.pt/

ENTREVISTA AO REALIZADOR
Prémio para melhor longa-metragem portuguesa no DocLisboa, Volta à Terra é a homenagem do realizador de 36 anos à aldeia minhota Uz - onde os telhados são de colmo e o consumismo não bateu à porta.
Enquanto director de fotografia que nunca quis ser realizador, por que abriu a excepção com este filme?
A vontade de fazer um filme na aldeia de Uz, em Braga, vem desde os 13 anos, quando recebi a minha primeira câmara de vídeo. Os meus avós maternos, que me educaram no centro de Lisboa, viveram lá até eu nascer. Se ali passei todas as férias escolares, hoje levo a minha filha que está a descobrir a liberdade do campo. Sempre quis prestar homenagem àquelas pessoas.

Uz tem 54 habitantes. Deles escolheu seguir de perto Daniel, um jovem agricultor e pastor, e António, um emigrante regressado à terra.
Sei o nome e a idade de toda a gente, porque fiz um censo para o meu trabalho. No início queria fazer o retrato de três gerações. Havia duas crianças de nove anos que saíram durante a montagem. Queria espelhar que mesmo com diferentes idades haveria algo em comum em todos eles. Conheço o Daniel desde que nasceu: ele é feliz, consciente do que tem e não tem e do que poderia ter, sem no entanto querer mais. Esse é talvez o maior problema ocidental, querer sempre mais. É muito sábio da parte dele saber aquilo de que quer cuidar. Ao mesmo tempo, o Daniel tem um discurso idêntico ao de um senhor de 70 anos; nesse sentido António espelha o futuro dele. António voltou, comprou a maior quinta na Uz e transformou-se num escravo do trabalho.
Quis, então, homenagear...
Uma forma de ser não consumista, antes respigadora, não individualista, antes comunitária, de uma consciência profunda do meio envolvente, de uma empatia com a natureza e com os animais, no fundo mais primordial. É engraçado que a Uz só existe porque as pessoas ao mesmo tempo que se sentem seguras em relação ao que têm são extremamente conservadoras. E talvez esse seja um bom conservadorismo. O filme foi rodado no ano de máxima austeridade, 2012, e temos um lugar onde a crise não existe entre as pessoas.
É desse primordialismo que nasce uma rodagem repartida pelas quatro estações?
Para retratar a vida de um agricultor é preciso apanhar essas quatro fases, tal como a movimentação, a chegada e a partida de pessoas na aldeia. A mim interessava-me essa dinâmica ao longo do ano. No Inverno não há acontecimentos sociais além da ida à missa. Na Primavera começam os trabalhos em colectivo. No Verão aparecem os visitantes. No Inverno volta-se a uma espécie de solitude, os campos estão em pousio.
O título é uma referência a esse ciclo da vida?
Volta à Terra porque retrata um modo de vida que encontramos em qualquer lugar remoto onde as pessoas vivam da terra; porque enquanto espectadores creio que todos temos ou conhecemos alguém com origens rurais e ver o filme é como um regresso a elas; e finalmente porque é o que o lavrador faz antes de lançar as sementes.
Levou o Daniel à estreia no festival DocLisboa. Como seria se o tivesse levado a Cannes, onde o filme passou na secção paralela ACID?
Se o Daniel tivesse ido a Cannes, a primeira coisa que ele diria uma hora depois de ter chegado seria a de que se queria ir embora, tal como aconteceu em Lisboa. Lembro-me de ele perguntar, estávamos na Praça de Espanha, 'mas para onde é que vai esta gente toda de táxi de um lado para outro?'.
Em Cabeceiras de Basto não existe cinema?
Acho que o mais próximo é em Guimarães. Muitos da Uz foram pela primeira vez ao cinema aquando da estreia no Porto/Post/Doc. Fizeram uma viagem de uma hora e meia com uma carrinha organizada pela Câmara Municipal, pela Junta de Freguesia e pela produtora O Som e a Fúria, que lhes ofereceu o almoço.
Como correu a sessão?
Foi a experiência mais cinemática da minha vida ter uma sala cheia de pessoas que falam com a tela por que acham que o que está nela está ali presencialmente. Entre risos incontáveis até pessoas que saem da sala lavadas em lágrimas, a paleta de emoções não podia ter sido mais vasta.

Em que medida levou um guião pré-feito, abriu espaço ao imprevisto e a partir deste dirigiu uma narrativa?
O guião é uma base para o que explorar e que olhar tomar. Tudo o que filmei estava à espera que acontecesse como aconteceu, tirando aquelas frases, aquelas falas que, não tendo possibilidade de as escrever, se revelaram boas surpresas e possíveis fios condutores. Foi o que aconteceu ao notar que o Daniel falava constantemente na falta de uma rapariga. Não tendo muitas possibilidades de conflito, centrei-me nesse aspecto e limitei-me a empurrar essa realidade para a frente da câmara.
Revê-se em 'Aquele Querido Mês de Agosto', de Miguel Gomes?
O filme do Miguel surge mais como uma confirmação de que era possível fazer em terreno português o que o Abbas Kiarostami me tinha mostrado aos meus 16 anos, com A Vida Continua, pegando em pessoas que não actores e pondo-as a viver o seu próprio papel. As primeiras obras dele, até O Sabor da Cereja, fizeram-me dizer: 'É este tipo de cinema que quero fazer'. Não quis repetir as fórmulas de Les Paysans, de Raymond Depardon, com planos fixos de mais de dez minutos, retrato do que é ser um lavrador onde a mecânica está na palavra. Nem de As Quatro Voltas, de Michelangelo Frammartino, que também é muito lento e em que a câmara está muito distante das pessoas. Interessava-me um filme em que o principal dispositivo fossem as pessoas, a força do trabalho, sem uma postura de estudo etnográfico ou ambiciosa intelectualmente. 
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